10
Sobretudo, eu me sentia uma idiota completa. Nunca em minha vida eu tive tanto desgosto, tanta raiva de mim. O sol apareceu no céu azul inspirador de verão e iluminou meu quarto, parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos. "Querer morrer" é pouco para explicar como eu me sentia. Saí da cama, alcancei meu celular e hesitei olhando o aparelho. Abri o menu do SMS, olhei-o durante um tempo. Sentia-me sozinha. Queria escapar. Pensava em Heero. Mas mesmo assim, fiquei como estava porque não consegui força para ligar para ele.
As frases por mim ditas para uma secretária eletrônica algumas noites atrás visitavam minha mente ao mesmo tempo em que eu tomava banho e chorava silenciosamente. Ultimamente eu passava mais tempo lembrando do que vivendo, talvez porque minha vida parecesse terrível. E era tudo culpa minha! Eu ainda não entendia como fui me colocar naquela posição. Num jogo de xadrez, podíamos dizer que eu fui pregada. E jamais entendi como fizeram isso comigo. Da onde veio a incapacidade de desfazer os maus juízos antes que eles se tornassem nocivos? Aquela noite no clube foi maldita.
Precisava dar um jeito de me animar, se eu continuasse naquela tristeza não conseguiria sair dela. Saí do banho e me arrumei bem. Nos domingos, todos tomávamos café juntos, ainda mais quando tínhamos visitas. Coloquei um vestido rosa claro de cetim com bordados delicadíssimos em strass e o par de sapatos que tinha comprado com Heero, uma roupa para uma ocasião especial embora de aparência clean. O poder da mulher está em seu guarda-roupa e eu nunca antes tinha precisado me fortalecer tanto.
Mas as coisas só tendiam a piorar, e eu tentava me enganar que não sabia disso, e o fazia totalmente em vão. Não havia escapatória para mim porque a pregadura em que me envolvi era imbatível.
Quando cheguei à sala de jantar todos inevitavelmente olharam para mim.
–Está bonita, Relena! –Zechs comentou, impressionado. Talvez não esperassem me ver tão arrumada. Eu fiz esforço para abrir um sorrisinho e ignorar o olhar de Ricard. Havia alguma coisa errada ali, o olhar de todos para mim não era o mesmo de sempre, especialmente se tratando de Ricard.
Meu espanto foi imenso quando eu vi o que é que causava aquele clima na mesa do café: dois ou três tablóides traziam, na primeira página, em tipos escandalosos, anúncios sobre meu namoro com Ricard! Uma daquelas ruidosas das minhas amigas tinha dado com a língua nos dentes! Que ódio. Minha vontade foi voltar pelo mesmo caminho e me enfiar no quarto, porém eu não fiz isso. Eu fui centrada.
Todos olhavam para mim, como se esperassem algo, talvez uma explicação. Eu me recusei a dizer algo em justificação, mas disse, olhando para Ricard com ar tranqüilo:
–O que foi que você disse sobre isso, Ricard?
Ele me olhou de forma pensativa, algo nele me transmitia calma e controle. Não parecia mais o mesmo garoto empolgado de ontem. Tinha aceitado a situação como natural enquanto eu me negava a viver aquele pesadelo imposto.
–Eu confirmei. Nós estamos namorando, foi isso o que você quis dizer ontem, não é mesmo? –as declarações dele demonstravam uma nova madurez e flerte e ele sorriu charmosamente depois. Era estranho demais para mim. Sorri, descrente, ninguém entendeu meu sorriso. Não esperava isso mesmo.
Sentei-me. Todos ainda me olhavam. Antoni e Elene pareciam curiosos sobre o assunto, pedindo mais detalhes. Meu pai atalhou:
–Vamos resolver isso depois do café.
Minha mãe o olhou com um consentimento oculto e Ricard assentiu de forma elegante. Era como se o responsável por mim agora fosse ele, era como se ele fosse me pedir em casamento. Eu estava gritando por dentro!
Mas o que mais me torturaria estava por vir. E vinha da pior direção possível: de dentro para fora. Durante o café, durante a conversa que papai e mamãe tiveram com Ricard e eu, foi como se eu não tivesse me dado conta da gravidade da situação.
–Então, filha... nesta situação complicada que estamos vivendo, você precisa nos dizer sua decisão. Segundo o que foi explicado aqui, aconteceu alguma coisa entre vocês dois... –minha mãe avaliou a situação e concluiu.
Eu suspirei com bastante expressão. Se havia uma luz no fim do túnel, ela tinha se apagado.
–Ficaremos muito felizes com a união de vocês dois, se assim vocês quiserem, e os apoiaremos. Ricard já tomou a liberdade de pedir permissão para namorá-la. Agora resta você aceitar para oficializarmos o relacionamento. –papai já ia dizendo, pensando mais, acho, na burocracia, nas notas de imprensa, nos eventos de comemoração...
Eu suspirei mais uma vez, não tinha mais escapatória nem desculpa. Só duas escolhas: contar a verdade ou aceitar o que estava acontecendo ali e pensar mais tarde como sair da situação.
Contar a verdade não me pareceu nada atraente. Achava, e tinha certeza, que se é que haveria um momento para isso, não era aquele.
Morrer? Ah, essa já tinha se mostrado uma ótima solução para mim, mas agora eu estava sendo racional. Eu ia levar aquilo até onde poderia agüentar ou até que alguma providência divina me salvasse...
–Eu... aceito. –murmurei, me fiz de tímida para que ninguém desconfiasse do desânimo que usei para responder uma das perguntas mais importantes na minha vida segundo a perspectiva de todos ali. E por dentro resmungava amargamente, "que droga, que droga, me vendi como escrava!".
Ódio? Pode acreditar que senti muito nas próximas horas. Conversamos mais um pouco e eu pedi licença, e minha mãe me sorriu terna, e meu "namorado" me sorriu amável. Papai não fez nada, só prosseguiu falando. Eu levantei e caminhei até a porta, me odiando, odiando Ricard, odiando meus pais, odiando minhas amigas, odiando minha vida, odiando ontem, odiando, odiando, odiando, odiando! Até que meu coração deu um pulo.
Foi aí que a tortura veio.
Eu odiava todo o mundo, mas uma pessoa eu amava: Heero. Quanto tempo ia demorar para ele descobrir os tablóides? Nem meio minuto! E então haveria mais ódio: ele me odiaria, odiaria Ricard! Nosso amor por fim só gerou ódio. Ironia.
Zechs e Galina estavam lá fora, de espreita. Olharam-me, me cercaram um pouco, mas eu nem os via em minha frente, enfunada de ódio. Eles nem se manifestaram, o que foi um grande alívio, porque eu não estava em condições de tratá-los bem naquele instante.
Quando cheguei a meu quarto, meu coração pulando de ódio de mim e de amor por Heero, fiquei parada bem no meio, pensando no que fazer. Minha luz se tinha ido, não havia um caminho para seguir ao alcance de minha vista. Onde eu ia encontrar forças para ter paz ou alegria para viver aquilo? Onde, se eu era só amargura? Onde, se eu era só caos?
Morrer? Ah, sim, voltou a me parecer plausível. Para mim, era a única coisa que me agradava, porque no estado de inconsciência, nada me feriria. Mas isso não ia adiantar em nada porque não representava a solução, mas só mais um sofrimento.
E o ódio permaneceu por longas horas. Eu sentada numa cadeira no meu quarto olhando as páginas de um livro, fingindo para mim mesma que estava lendo, até que Ricard entrou, querendo conversar, querendo me mimar e me tirar de lá. E ele era lindo, lindo que eu quase não resistia. O ódio podia ser forte, porém, eu concluí que aquele comportamento hostil que eu assumira de nada ia adiantar, porque Ricard era inocente, porque ele só queria meu bem.
Ele me sorria. Eu lembrava dele saindo da piscina. Lindo. Logo em seguida eu lembrava de Heero secando os cabelos. Muito mais lindo. Sentia a superioridade do sentimento que eu guardava no meu coração – estava certa que meu amor por Heero ia sobreviver aquilo. Senti os olhos marejarem, mas resisti. Abri um sorriso e aceitei a mão de Ricard e fomos passear pelos jardins. Conversávamos, ríamos e as coisas não pareciam ter mudado entre nós, para mim ainda era completa e pura amizade, mas quando eu olhava os olhos dele notava algo diferente. Ele via tudo por outro ângulo então, usando os olhos do coração.
No dia seguinte, meu namoro era oficial, anunciado pelo país todo através da assessoria de imprensa do palácio, mas pedi que não houvesse nenhuma comemoração. Para minha sorte, Ricard concordou:
–Não precisamos fazer tanto transtorno... Afinal, é só um início de namoro. –ele disse, e pareceu de repente sem jeito. Eu ri. Galina também:
–É, né, Ricard?! Vamos guardar para o noivado... –ela provocou, intuitivamente notei que ela sabia do meu desgosto com a situação, mesmo que não tenha dado nenhuma evidência disso.
Zechs riu do gracejo dela. Eu não conseguia deixar de me perguntar se ele e Galina sabiam sobre a minha indisposição, ficava em dúvida sobre se eles desconfiavam ou não. Por serem mais velhos e mais experientes, por serem nossos irmãos, eu achava isso muito plausível e tinha receio. Perto deles não sabia como agir.
Os dias foram passando e todos comentavam nosso namoro discreto. Durante as festas que papai dava por causa da presença dos nobres monegascos, os parentes e as visitas faziam comentários sobre nós dois, nos elogiavam e faziam gracejos irritantes que deixavam Ricard um tanto constrangido. Ele olhava para mim e eu dava de ombros, sem saber muito bem o que dizer. Tinha momentos que secretamente eu ria por dentro. Os papparazzis continuavam a publicar notas sobre nós, alternando as poucas fotos que tinham, mas ainda conseguindo chamar a atenção do público.
As coisas podiam ter sido diferentes... e por quê não foram? Eu tinha parado de pensar nisso há algum tempo. Não sabia tampouco para onde isso ia me levar. Era desesperador por um lado, mas por outro, eu esquecia de me preocupar. Ricard conversava comigo como se nos conhecêssemos há séculos. Ele era bom para mim. Quando fomos há um jantar dançante na casa de um parlamentarista, ele ficava comigo como se tivesse de me proteger, era educado e me elogiava para quem conversava. Eu o observava de longe, impressionada. Nunca imaginei que um namoro poderia ser assim, estava tão acostumada com o segredo e rudeza da minha relação com Heero. Achava Ricard excepcional. Quando estávamos separados, ele fazia questão de lançar um olhar galante e possessivo para mim. Eu sorria pequeno e olhava outra direção. Ele me julgava tímida. Formávamos, a vista de outros, o casal perfeito.
Depois de três semanas desde o ocorrido no clube, eu me arrumava para ir à hípica. Estava muito sol, o jogo ia começar às 9 horas. Coloquei um vestido leve, branco, com blazer azul-claro de um botão só e sapatos confortáveis. Não podia me esquecer do chapéu, item indispensável para a ocasião. Pegando a bolsinha que quase não comportava nada, estava pronta para ir.
Desci, encontrei mamãe e Galina conversando. De certa forma, nos vestíamos todas iguais. O que mudava eram cores, detalhes, um recorte, mas todas trajavam o uniforme esporte-chique das realezas. Zechs e papai usavam ternos claros e bem-humorados, era interessante vê-los tão elegantes e tão esportivos ao mesmo tempo. Ricard veio até mim, nem sei da onde ele tinha saído. Usava roupa de iatismo: calças brancas e um paletó azul marinho com detalhes dourados e camisa branca, com dois botões abertos. Não tinha certeza de que era uma roupa muito própria para a ocasião, mas também não era reprovável, e ele estava lindo.
–Bom dia, alteza. –ele me disse, gostava de me tratar assim com um olhar malicioso. Eu ri para ele, sincera, e ele beijou minha mão. –Dormiu bem, Relena?
–Eu dormi. –respondi, com tranqüilidade.
–O sono te faz bem. –ele comentou depois e eu fiquei um pouco confusa sobre o que ele quis dizer com isso. Por minha vez, perguntei:
–E você? Está descansado para o dia de hoje?
–Sim, bastante.
Ele pegou uma rosa branca que tinha no vaso do aparador e colocou no meu chapéu. Eu ri outra vez e meneei a cabeça.
–Não precisa me agradar tanto, Ricard. –comentei, risonha. Suspirei, juntando as mãos perto do meu tronco, e abaixando a cabeça, fiz com que parte do meu rosto ficasse encoberta pela aba do chapéu.
Ricard sorriu e, usando o celular, tirou uma foto minha. Eu não me apercebi disso e suspirei outra vez.
Antoni e Elene desceram enfim e quando dei por mim, estava de mãos dadas com Ricard e ele me levava a limusine onde, juntos de Zechs e Galina, iríamos para a hípica.
Antoni se vestia similar a Ricard. Acho que era costume de Mônaco. Eu ia pensando nisso enquanto através do vidro escuro eu ia tentando enxergar as coisas lá fora. Tive outro flashback. Peguei-me pensando na angústia que sofri naquele dia que conheci Heero e em como chorei dentro daquela limusine. Sorri sozinha, sem motivo, por mais que a recordação fosse amarga. Estava tão silencioso lá dentro, não me lembro de conversarmos algo.
Tudo ia passando tão rápido, eu era vítima do tempo. Meu mundo não tinha noite nem dia, não tinha horas, minutos, segundos. Tudo era confuso, tudo era igual. Era como se eu estivesse vivendo em outra dimensão, dividia minha vida em antes e depois do verão. Ah, quanta tolice a gente pensa quando está sozinha e melancólica! Ria de mim mesma, por isso sorria sozinha. Ninguém tinha de entender, não entendiam. Eu sofria em silêncio, ganhava força, criava couraça. Estava me transformando em duas pessoas diferentes.
O clima na hípica era de festa, era alegre e campestre, como o esperado. Tive de tirar muitas fotos, quase todas com Ricard. Olhava as pessoas dirigirem olhares contentes para mim, como se eu estivesse fazendo muito bem em namorar o príncipe, como se eu fosse sortuda. Não tirava os méritos dos olhares. Até onde eles sabiam, estavam certos. O problema era que eu já amava. E quem eu amava era único para mim e tudo o que eu fazia ali era fingir. Eu odiava aquela outra pessoa que era, aquele papel que eu interpretava. Estava enganando quem? Todos? Eu? Me perdia em divagações sem proveito. Me condenava e me defendia. Esse era o resumo da minha vida.
Eu queria ficar sozinha. Já me sentia solitária entre as pessoas, como se eu fosse excluída daquele ambiente. Num intervalo do jogo, consegui me desvencilhar de Ricard e fui procurar algo para beber. Estava quente, os chapéus eram úteis, meus sapatos se provaram desconfortáveis depois. Caminhei até umas das mesas montadas debaixo de tendas e encontrei um garçom.
–Pois não, alteza?
–Eu quero uma piña colada. –pedi irrefletidamente. Ele assentiu e saiu, e então eu fiquei estática, pensando no que tinha acabado de dizer. Olhei os lados, e dei alguns passos para qualquer direção. Achei um canto sossegado e parei ali.
Instantaneamente me veio o gosto do meu primeiro beijo, um gosto forte, amargo, um calor intenso se apoderou de mim e eu ruborizei por causa de meus pensamentos. Sentia o toque dele, a respiração dele, Heero vivia dentro de mim. Eu vivia dentro dele? O gosto que ele tinha de mim era doce? Eu me perguntava, quase a ponto de chorar ali, esperando o garçom trazer um drinque nostálgico. Eu ia desmaiar, eu tinha falta de ar, a angústia trancava minha garganta. Ergui a cabeça, respirei fundo, mas não enxergava nada em minha frente.
–Seu drinque, alteza. –uma voz veio até mim, meio que por trás, uma voz que me perturbou. De desmaio e asma eu passei para ataque cardíaco. Olhei buscando a voz, as mãos prontas para receber o copo.
Heero me olhava com seus olhos azuis assassinos e o drinque na mão. Parecia miragem.
Não era.
Eu sei que fiquei pálida quando olhei para ele então. Sei que olhei baixo, submissa, mostrando que tinha feito algo de errado. E ele me condenava silenciosamente através do olhar firme, cortante, penetrante, eu o sentia estocar minhas entranhas. Peguei o copo devagar. Uma lágrima solitária me escorreu pelo olho, um lado do meu rosto estava encoberto pela aba do chapéu, Heero só viu a lágrima pingar. Bebi um grande gole, sentia ele me metralhar com o fito, eu estava sendo executada como um prisioneiro de guerra. A fúria dele queimava, ele não se esforçava em esconder.
–Você quer conversar? –levantei o rosto e larguei o copo em qualquer lugar, pela metade.
Ele não respondeu. Eu o fiquei olhando, já estava entrando em pânico.
–Para quê? –Heero me apunhalou com uma pergunta fria, rude e desdenhosa. –Vai adiantar o quê a gente conversar, Relena? –prosseguiu, a voz rouca impassível.
–Você quer ouvir a minha versão da história? Agora mesmo eu estava pensando em você... –eu disse aos poucos, sem calcular bem. Ele desdenhou, virando a cara para outro lado, abrindo um sorriso de descaso que me magoou.
Minha garganta secou, e procurei meu copo outra vez. Terminei o drinque. Ele me olhou de canto, menosprezando minha aflição.
–Eu pedi uma piña colada... –comentei, olhando-o, e ri sem graça, as lágrimas trancadas em meus olhos a força. Não ia demonstrar fraqueza. Ele ficou olhando para mim com uma insensibilidade monstruosa que me aterrorizava. Minhas mãos gelaram. Suspirei, quase gemi. –As coisas saíram do meu controle. Não leve em conta o que você vê por aí, ouve e lê...
–Poupe seus esforços. Não precisa me explicar nada.
–Mas Heero... –eu contestei, incrédula da amargura dele. Ele me olhava como se não me conhecesse.
–Eu não me importo com isso. Tanto faz... Pode ficar com o seu playboy. –ele disse displicente, sucinto.
–Hã? Heero! Não seja irracional... –eu tentei contornar, protestando.
–O que eu sentia por você era físico.
Ao ouvir isso, eu fiquei chocada. Ele me desprezou. Chamou-me de objeto. Ele podia ser tão superficial assim?! Podia.
–Mentira! –eu me exasperei. Não ia me permitir acreditar nisso. Ele olhava-me imperiosamente, de cima, como se não me considerasse. Eu me sentia morta aos olhos dele. Heero me fazia sentir entorpecida. Meu coração, minhas pernas, meus ouvidos, tudo estava além de mim, não sentia nada.
E ele me olhava, fixo, com indiferença. Eu não o reconhecia mais. Minha respiração começou faltar. Ofeguei, sem parar, como se tivesse corrido a maratona, e o tempo que passamos parados ali pareceu uma eternidade. Olhei outra direção e caminhei. Ele ficou me observando do lugar.
–Se é assim... se é só atração física... Porque você veio até aqui? Nós não temos nenhum compromisso. –aleguei então, me voltando para ele, que não demonstrou nada na face de pedra. –Em quem você prefere acreditar? Em mim ou nos tablóides? Se for só físico, Heero, você está perdendo seu tempo por estar aí me olhando. Vá embora.
Eu sempre dizia este tipo de coisa nesses momentos. Ele sempre me ficava olhando estático, como que me ignorando.
Ele suspirou e estalou os lábios. Via algo em meu olhar que não o deixava ir embora em paz. Se sentia traído, com o orgulho ferido, entretanto impelido a me escutar. Era um testemunho de coração. Eu vivia nele. Meu sabor era doce na boca dele. Ele não poderia negar.
–Vamos para um lugar mais reservado. –convidei, diante da falta de ação dele. E nos afastamos das tendas até um pátio oculto por vários arbustos.
Me sentei numa jardineira e tirei o chapéu. Ele ficou em pé com as mãos nos bolsos. Não sabia o que dizer, entretanto.
Fiquei olhando para o chapéu por alguns segundos, me preparando. Precisava arranjar uma forma de me defender.
–Eu estou esperando. –ele me cobrou com rude impaciência. Me senti tremer ao ouvi-lo.
–Eu amo você... –murmurei, num apelo que pretendia tocar-lhe o coração, mas naquele momento me esqueci completamente que o coração dele era feito de pedra fria.
–E o que tem isso?
Ruborizei-me toda diante da rejeição dele. Suspirei, tentando achar meu chão. Ele estava irredutível naquele dia. Porém, eu lhe dava alguns motivos. Ele agia daquela forma porque realmente me amava, mas naquele instante eu não tinha estrutura para entender isso. Só pensava em como ele me hostilizava.
–Não seja rude comigo, Heero. Eu compreendo que você se sinta mal e imagino como deve ter sido difícil para você lidar com a situação... Mas, igualmente, não é fácil para eu explicar o que aconteceu para criar esse mal-entendido. –eu disse, um tanto angustiada, por um instante me senti tão cansada daquilo tudo. –Foi um deslize meu me lembrar de você naquele clube, cercada das minhas amigas... elas confundiram as coisas e acharam que eu estava gostando do Ricard... Elas deixaram isso vazar, no dia seguinte o país todo sabia... Eu perdi todo o controle da situação... foi como uma bola de neve que eu não consegui impedir de rolar.
Ele me olhava imparcialmente enquanto eu explicava. Não se comovia diante de meu desconsolo, meu cansaço. Olhei para ele, diante de seu silêncio torturante e desabafei:
–Não sabe como está sendo difícil para mim enfrentar isso, Heero.
–Ok, muito bem. –e finalmente ele resolveu falar algo, irritado. Sua atitude desdenhosa voltava a me surpreender. Eu não conhecia aquele garoto, definitivamente! Tratava-me com tanto descaso como se não se importasse comigo... Era como falar para uma máquina que jamais entenderia o que eu sentia ali. Não me lembro da onde arranjei forças para não chorar. –Você já contou sua história. Agora quero saber até onde isso vai, Relena!? Até onde você vai suportar essa situação? Até ser muito tarde pra voltar, até se casar com o playboy?
O tiro de misericórdia foi disparado.
Ele me pediu a única resposta que eu não tinha.
Olhei para baixo, desesperada. Aquilo tudo era real?
Quando estava começando a chorar, em choque, incapaz de me defender da raiva de Heero, Ricard apareceu! Eu quase desmaiei.
–Relena! Enfim te achei! O que fo... –ele veio chegando, alegre, falando, logo me achando abatida, mas sua frase morreu quando notou o rapaz comigo.
Meu pânico foi tão grande que fui incapaz de reagir. Só assisti a cena. Os dois se olharam dos pés a cabeça, se mediram, como se fossem duelar. Tinha medo do que podia acontecer naquele instante e sentia vergonha. Nunca desejei passar por aquela situação! Será que alguém desejaria?
–Quem é você? –Ricard perguntou. –Relena, o que está acontecendo? –e depois me olhou com ar desagradado, quase agressivo, mas tão diferente de Heero. Havia alguma coisa nos modos dele que eu definiria como honra. Sua reação indicava que ele estava preocupado comigo, sua prioridade sendo me defender antes de qualquer coisa.
Entretanto, por mais que a atitude de Ricard me fosse favorável, eu não tinha forças para abrir minha boca e articular algo. Quando o príncipe notou que eu não iria lhe responder nada, não insistiu, antes, olhou para Heero, encheu o peito, e perguntou atrevido:
–Então, cavalheiro, poderia se apresentar? –e como ele era da realeza, tinha um jeito exigente de questionar.
–Não. –de forma soturna e predatória Heero respondeu bruscamente, olhando-o com afronta. E, mesmo não sendo da realeza, sua arrogância era imbatível. Eu o sentia curtindo-a interiormente, tal como um combustível que o movia a ser cada fez mais ferino.
–Como assim?! –Ricard com certeza ficou chocado com a resposta. Ele ainda não conhecia Heero. Hoje eu rio quando lembro disso. Tudo o que meu amigo sentia eram os dardos lançados do olhar glacial daqueles olhos azuis de afronta. –Oras! O que você pensar estar fazendo? Por que está aqui?! Relena não parece feliz com sua presença!
–Isso é verdade. Mas eu não sou a pessoa certa para explicar. Por que não pergunta a ela o por quê? Tem algumas coisas que sua princesa precisa te dizer... –Heero foi falando altivo e astuto, mas sua voz tinha timbre amargo, deixando Ricard confuso.
–Com que direito você afirma essas coisas?! –Ricard se indignava. Não aceitava me ver tratada daquela forma por um desconhecido sem classe. Ricard era mesmo um príncipe, um nobre...
Feita a provocação, Heero olhou para mim, com ar ferido, e não respondeu nada. Embora a impressão que eu tive foi de que ele se segurou em dizer algo revelador. Do jeito que ele estava bravo comigo, ele podia muito bem ter jogado algo como "com o direito de quem já beijou essa menina". Ainda assim, ele não disse nada, o que sentia por mim não o permitiu me tratar assim tão vulgarmente. Porque, contradizendo a ele mesmo, Heero não sentia só atração física por mim, mas amor.
Assim, chegando a tal clímax, percebi enfim que a ação cobrada de mim por Heero minutos atrás devia ser tomada e devia ser naquele instante. Não ia ser fácil, mas era preciso. Se eu perdesse aquela oportunidade, provavelmente não teria coragem de fazer isso depois.
–Heero... –disse e me levantei no instante que Ricard se preparava para continuar. O príncipe olhou para mim ao ouvir minha voz estável e triste. Heero me fitava também com firmeza. Seu olhar me pareceu enevoado e distante, por um segundo me perdi dentro de seus olhos. Até me esqueci de que queria chorar minutos atrás. –Você tem razão. Eu preciso conversar com o Ricard. Só que, antes, eu quero pedir perdão a você. –fui falando, de forma ponderada. Heero me olhava tão fixo que parecia estar enxergando através de mim. Ricard parecia não entender nada. –E agora, por favor, me deixe sozinha com Ricard.
O jeito de Heero me olhar parecia familiar. Era com aquele mesmo incômodo do nosso primeiro encontro, como se eu fizesse mal para ele. Suspirei triste e olhei Ricard.
–Eu também tenho de pedir perdão para você, Ricard.
Heero foi saindo devagar enquanto essas minhas palavras passeavam pelo ar. Esperei ele se afastar para continuar falando com Ricard, que já me olhava decepcionado. Com certeza, já tinha entendido. Sua expressão descaída me cortou o coração.
Expliquei-lhe sobre o dia do clube. Contei o que estava acontecendo, e sua reposta vinha através de um olhar com ar impressionado de criança. Fui extremamente sincera com ele, do jeito que devia ser.
–Não foi uma coisa proposital, Ricard, mas eu não consegui evitar esse meu namoro. E por causa da liberdade que meu pai me deu, consigo manter em segredo. Isso não me faz muito contente, porque não gosto de enganar meus pais e esconder a minha maior alegria... Mas, por enquanto, não achei forças para contar a verdade sem ter medo de perder Heero, porque é ele quem eu amo, Ricard. –fiz um intervalo e respirei fundo. –Desculpe-me... Eu sei que o que estou fazendo não é certo, escondendo assim meu namoro, usando você para isso, mas naquele dia, eu não tive escolha. Eu não sei se mereço seu perdão, mas peço mesmo assim. Você é muito companheiro, gosto de estar com você, mas não do jeito que todos imaginam... E nem sei o que você sente sobre isso... –eu falava, olhando um pouco para ele, um pouco para baixo. Lamentava, arrependida, Ricard não ia conseguir deixar de notar minha franqueza.
–Eu entendo. –ele falou baixo. Meio que me surpreendi com a resposta.
–Ah... Muita bondade sua. –eu disse, uma lágrima quente brotou no meu olho, de pesar. Me odiava por tê-lo feito sofrer. Porém ele me sorriu, um gesto do qual nunca me senti digna.
–Agradeço sua sinceridade. Não vou negar que estou triste. Até achei que ia dar certo, apesar de não sentir por você ainda esse amor que vejo você sentir por esse rapaz.
A consideração que ele exibia me deixou tocada e inevitavelmente sorri, emocionada, tentando guardar comigo as demais lágrimas que tentavam brotar. Ele seguia sorrindo, olhando-me com brandura. Nunca pensei haver tanta suavidade naquele jovem tão ousado e irreverente.
–Fiquei até sem saber o que pensar agora... –depois ele falou, confuso. –E não se preocupe, que minha tristeza pode ser intensa, mas não nutro nenhum ressentimento de você... Sua situação não é fácil, não é mesmo? Por isso que eu te entendo e respeito, e vou guardar esse seu segredo... tomara que você ache a hora certa para contar para seus pais qual é sua melhor alegria...
Chorei então. Não houve mais como impedir as lágrimas. Eu precisava delas para tentar mostrar como me sentia então diante de tanta gentileza.
–Você é um perfeito cavalheiro, Ricard. A gratidão que você me faz sentir não é facilmente traduzida em palavras. Eu tenho uma dívida eterna com você... Espero sempre poder ter a honra de sua amizade...
Ele estendeu-me um lenço perfumoso de modo que eu enxugasse minhas lágrimas e sorria com uma bondade tão linda que me fazia ainda mais arrependida de tê-lo magoado.
–Tudo bem, Relena... esqueça isso de dívida. Afinal, para que servem os amigos? Eu desejo só felicidade para você... –e pegou minha mão, como que para tornar suas palavras ainda mais verdadeiras. Sorri e devolvi o lenço, grata. –E caso dê errado, é só ligar para mim... –e por fim ele disse, provocando, com seu jeito malicioso. –Pretendo estar disponível... –e me piscou um dos olhos, tão charmoso.
Com isso, ri, solucei, e agradeci outra vez.
–Eu também quero só o melhor para você... –eu disse depois e ele assentiu, mantendo o sorriso.
–Quer voltar agora? –me perguntou.
–Não... eu preciso me restabelecer ainda... pode ir na frente.
–Tudo bem.
E ele saiu, como que de uma batalha, com a cabeça erguida apesar de derrotado.
Foi meu primeiro fim de namoro, embora eu jamais tenha considerado o tempo que passei com Ricard como um namoro. E mesmo que eu me sentisse assim, não posso dizer que foi uma experiência agradável.
Parecia que tinha sido tão fácil, o que soou muito estranho. Claro que Ricard colaborou muito, foi muito bom para mim, acho que até demais. Foi ele quem tornou tudo tão simples, digerível e sem feridas. Talvez uns arranhões leves. Aquele foi o assunto mais delicado que eu já discuti. Foi tudo rápido demais...
Fiquei sentada lá, enxugando as lágrimas sozinha, meditando no que devia aprender daquilo. A cada erro nosso se apresenta uma oportunidade de crescimento.
Nem notei o passar das horas, quando dei por mim, estava em casa, sentada no escritório do meu pai junto de Ricard. Já era noite, devia faltar pouco para o jantar. E ali, perante meus pais, Antoni e Elene, nós explicamos nossa decisão de terminar o namoro. Nossas famílias não entenderam muito bem, mas não contestaram. Quase um milagre eu devo dizer. Depois, olhei Ricard aliviada e ele me sorriu, contente também.
Fomos informados de que uma nota oficial ia ser publicada para informar ao povo sobre nossa decisão. Isso não me preocupava mais, nem as explicações absurdas que os tablóides iam inventar me interessavam...
Por ter explicado a verdade, eu me senti livre, fazendo jus à verdade bíblica.
Era outra pessoa, eu conseguia sorrir de verdade, inclusive para Ricard. Isso fez bem, especialmente para nós dois. Já não havia mais peso sobre mim, não tinha mais nada que me prendesse, tinha voltado à situação inicial. E não por isso minha relação com Ricard mudou: continuamos muito amigos, acho que até mais, e ele prosseguia me provocando com seu jeito charmoso e buliçoso.
Naquela mesma noite, liguei para Heero. Sua secretária eletrônica me atendeu, reproduzindo a gravação sucinta e nada simpática dele. Nem prestei atenção nela, apenas me concentrava no que tinha ensaiado tanto para dizer.
–Está tudo resolvido. –fui clara. Não era assim que ele gostava?
E, no final do verão, eu beijei o rosto de Ricard, já com saudades, me despedindo. E logo no dia seguinte, recebi no meu e-mail as nossas férias registradas nas fotos que ele tirou.
Yay! Viu, eu disse que ia ser rápido! xDDD
Pois cá está o mais novo capítulo de MSFT:aplausos:
Para as leitoras curiosíssimas, a resolução do assunto.
Espero que gostem.
Este capítulo tem sete páginas: O Mas é tão rápido de ler, né?
No fim, em vez de fazer os meninos brigarem por ela, decidi que o certo era Relena assumir a responsabilidade pela bagunça e resolver tudo diplomaticamente, ao seu gosto. E gostei de como ficou.
Bem, mas ainda restou a dúvida: como Heero vai aceitá-la de volta?
Isso vocês só vão descobrir no capítulo 11!
:menina má! Mwuahahahahahahaha!:
Quero agradecer as minhas fiéis reviewers, Suss e Sue, uma dupla imbatível:LOL – Desculpa...:
Muito, muito, muito obrigada, queridas, seus comentários me motivam muuuuuuitão!
Estou louca para ler novas fics de vocês também! ;)
Bem, eu tentei e tentei colocar o link para o desenho do Ricard, mas o não deixou... TTTT
Assim, por aqui eu me despeço...
Beijos a todos e até o próximo capítulo! \o/
14.01.2008
