Capítulo 9 – Um Surto É Sempre Um Surto (seja ele de um Potter ou de outro)

Eu não faço essas coisas porque eu quero. Quem me conhece sabe que eu detesto James Potter mais do que qualquer coisa, menos cartas. Eu detesto o jeito dele de agir, de falar, de se achar o bonzão, o gostosão, o foda. Eu detesto a risada dele, e as notas que ele tira em aula, e o fato de que ele é melhor em transfiguração do que eu. Eu detesto a comida favorita dele (chocolate) e a coruja dele, e a caligrafia dele, e a voz dele. Eu odeio tudo que tenha a ver com James Potter. Então, com esse fato em mãos, pode-se entender o porquê de eu estar tão curiosamente tresloucada.

Eu tenho um plano perfeito para explicar isso: eu estou sendo controlada pelo meu eu-futuro maligno. Eu não tenho voz sobre as atitudes deste meu corpo, que pertence a ela. Tudo o que esse corpo maluco faz é ordenado pela Lílian Evans do futuro, e portanto é completamente compreensível eu ter deixado James me agarrar no banho no outro dia, ou eu ter, bem, vocês sabem, agarrado ele na cama e tals. EU não fiz nada disso; quem fez foi meu eu-futuro biruta. É um plano brilhante, venhamos e convenhamos... Ela quer me deixar louca que nem ela, e para isso utiliza-se de sua melhor arma: o corpo grávido.

A pior parte sobre o plano, é que não há muito que eu possa fazer, além de começar a minha busca por respostas nos livros de Magia Antiga do eu-futuro. E deixe-me te dizer uma coisa: eu tenho a intuição de que esses livros são todos parte do plano.


Lily abriu a porta devagar, tomando cuidado para não fazer barulho; rezava para que James já estivesse a sono solto, não queria ter de encarar mais uma explosão.

Seus passos ecoaram pelas paredes enquanto ela passava pela sala vazia e ia até a cozinha. Entrou, pegou um copo no armário e o encheu de leite. Bebeu. Podia sentir

seus músculos relaxarem, um por um, a cada farto gole que tomava. Quando era pequena, lembrou-se com um sorriso, e ficava chateada com o que quer que fosse, seu pai aparecia na porta de seu quarto com um copo de leite quente, um sorriso e sua voz macia. Contava-lhe histórias sobre a mãe, sobre o vestido amarelo de flores que ela vestira no primeiro encontro dos dois, de como era mágico abraçá-la, e de como ela havia amado Lily enquanto ela ainda estava dentro de sua barriga. Contava sobre a risada doce da mãe, que se confundia com uma linda canção, e sobre os cabelos ruivos dela - assim como os seus – que balançavam com o menor movimento, e eram macios e brilhantes, como se ela fosse uma princesa. Não importava o que havia acontecido, se era uma briga com um garoto idiota na escola ou a morte do seu cachorro depois de tê-lo por doze anos; quando a porta de seu quarto se abria de noite para revelar o pai com seus olhos cálidos e seu sorriso profundo, tudo virava fumaça, e tudo o que existia eram as histórias de tempos mais felizes, e o gosto puro e aveludado do leite em sua boca. Ela amara o pai, e amara esses momentos, e agora, apenas a idéia de sua infância já lhe aquecia o coração, e a fazia esquecer de tudo de ruim em sua vida - passando de James para Voldemort e através dos NIEM's e a monitoria. Nunca mais ouviria as histórias, mas as teria para sempre na memória, e o leite quente, movido pela imaginação e o amor pelo pai, lhe servia como o melhor remédio para aflição, derrota, tristeza, raiva ou quaisquer outros males que pudessem perturbá-la.

Fechou os dedos com mais força ao redor do copo, e fincou os olhos no livro que segurara durante todo seu tantrum, e toda a briga parecia tola aos seu ver, agora; não gostava de Potter, portanto não fazia diferença para quem eram aquelas dezenas de rosas. Passou os olhos rapidamente pela cozinha para perceber que todas haviam desaparecido. Respirou fundo. Era bom, pelo menos, saber que Potter podia fingir tanta consideração por alguém.

Sentiu a fatiga apoderar-se de seu copo, e se arrastou até uma cadeira, xingando mentalmente o fato de que estava grávida. Tinha de carregar aquela criança, e os enjôos, e o cansaço para todo lado, sem ao menos poder reclamar que aquele bebê não era seu, sem ao menos poder dizer que ainda era virgem, que estava intacta, que nem sabia o que era sexo direito, e que não amava nem nunca amaria James Potter o suficiente para ter um filho com ele.

Tomou mais um pouco de leite, e se espantou ao sentir o gosto de lágrimas dentro de sua boca. Fechou os olhos, e percebeu que seus cílios estavam molhados, fazendo-lhe cócegas nas pálpebras. O que estava acontecendo?

Fazia muito tempo desde a última vez que chorara por causa do pai, e com certeza não estava chorando porque se sentia tão miserável que mal podia se mexer, graças ao fato de estar grávida. Então qual era o porquê das lágrimas? Abriu os olhos marejados e levou um susto ao se ver cara a cara com James e seus brilhantes olhos cor de mel.

"Potter" ela murmurou, sem nem mesmo se preocupar em limpar as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Ele piscou, e havia um brilho esquisito em seus olhos.

"O que houve, Lils?" ele respondeu, e ela fechou os olhos mais uma vez – estava começando a formar a teoria de que seu corpo estava fora de seu controle, talvez em uma revolta por estar grávido e tudo mais – e abraçou os joelhos.

"Eu estou com medo" provavelmente sua boca havia se unido à revolta que se instaurara no resto do corpo. E sua mente também, agora que vinha a pensar, pois esta achou muito agradável – e até mesmo esperado – o fato de James Potter ter pulado a mesa como se ela nem mesmo existisse e passado os braços quentes demais ao redor dela.

Não protestou, não se mexeu, não fez nada além de ficar ali parada, sentindo o calor do corpo de James se infiltrar lentamente no seu, da maneira mais agradável e cálida possível. Por um instante, ela lembrou-se de seu pai mais uma vez, e seus olhos se encheram com tantas e tantas lágrimas que Lily teve medo de que jamais pararia de chorar de novo.

Mas ela parou. E sua mente saiu da revolta. E mais tarde, sua boca, e finalmente seu corpo. Todos estavam do seu lado mais uma vez, e apesar do torpor, Lily lutou para que a consciência voltasse logo, e enquanto ela voltava, desvencilhou-se lentamente do abraço de James.

"Não" ela murmurou por sob a respiração, e James aparentemente a escutou com perfeição; fechou os olhos e se afastou devagar, como que tomado pelo mesmo torpor que invadia Lily, e seu olhar era mole, zonzo e ferido.

"Por quê?" ele conseguiu finalmente cuspir pelos lábios, e era claro e legível que ele estava machucado além de qualquer explicação "Por que você não me quer mais, por que você não me ama mais?"

Lily fechou os olhos e levantou as pernas, abraçando os joelhos e brigando consigo mesma por ser tão idiota a ponto de sentir pena de Potter; ele era um Maroto, pelo amor de Merlim, e um ótimo ator por isso, e não havia a mínima razão para jamais assumir que ele não estava mentindo. Com um suspiro, levantou o rosto e o encarou.

"Chega, Potter. Chega" baixou o rosto mais uma vez e ficou encarando os cadarços dos tênis que vestia, subitamente sentindo-se tremendamente infeliz, com a maneira como as coisas estavam acontecendo e com a maneira como ela estava reagindo a elas. Piscou.

"Chega você, Lily. Eu estou cansado de ficar aqui como sua bonequinha de pano. O que está acontecendo?" ela levantou o rosto, sentindo uma resposta curta e grossa ardendo na ponta de sua língua, mas Potter a cortou antes mesmo que pudesse pronunciar a primeira sílaba raivosa "E sem respostas evasivas, eu estou cansado de respostas evasivas!" ele parecia verdadeiramente chateado, Lily concedeu silenciosamente.

"Não está acontecendo nada" foi a melhor resposta não-estúpida que encontrou dentro de si, sem ser a verdade, e James riu de um jeito que fez com que todos os pelos na nuca de Lily se arrepiassem. Talvez ele estivesse furioso, e não chateado. Talvez ele fosse surtar, como seu eu-futuro dissera que ele faria eventualmente.

"Não está acontecendo nada? Não está acontecendo nada?" ele riu de novo, e Lily sentiu-se encolher na cadeira "NÃO ESTÁ ACONTECENDO NADA???" ela fechou os olhos. Sim, definitivamente, aquilo poderia ser classificado como um surto, um surto que ela nunca esperara ou desejara ver "Você está sequer se escutando, Lílian Potter? Ou você ficou surda, além de retardada, de repente? Hein? HEIN?" ela sentiu um aperto forte em seus braços, e fechou os olhos com mais força ainda. Ele devia estar extremamente fora de si "Minha esposa se descobre grávida, e não dá um sorriso desde esse dia! Minha esposa foge de mim na cama! Minha esposa me xinga enquanto dorme! Minha esposa não me beija há três dias! MINHA ESPOSA ESTÁ BIRUTINHA, E NÃO ESTÁ ACONTECENDO NADA?" ela criou coragem o suficiente para abrir os olhos quando ele largou seus braços bruscamente, e a imagem de James que apareceu à sua frente, ela nunca havia visto antes. Os cabelos negros estavam ainda mais espetados para todos os lados, e ele remexia nervosamente nos mesmo de tempos em tempos. Cada músculo parecia retorcido em uma expressão ainda mais clara de fúria, raiva, dor e tristeza; os olhos castanhos, sempre tão alegres, tão gentis, tão felizes, haviam como que sido substituídos por olhos escuros, amedrontadores, opacos, sem vida. Lily tremeu quando ele virou-se de frente para ela, e crispou os lábios em uma linha fina e assustadora. Ele não podia ser a mesma pessoa que havia lhe comprado dezenas de rosas apenas algumas horas atrás "Que droga, Lily, eu te amo, mas você já passou, e muito, da linha do aceitável! EU NÃO AGUENTO MAIS ESSA MERDA!" ele passou as mãos pelo rosto, frustrado, e antes que pudesse se conter, Lily sentiu seus lábios se abrindo para deixar uma única palavra escapar:

"Desculpa" ela murmurou, baixinho, e James balançou a cabeça com uma expressão derrotada.

"Você já ultrapassou a linha da desculpa também" e sem mais, ele foi embora. Lily ficou sentada na cozinha por um longo tempo, encarando amedrontada a parede, os joelhos ainda envoltos pelos braços, e o rosto apoiado nas mãos. Talvez Potter não estivesse mentindo. Talvez ele estivesse realmente machucado. Talvez ele fosse realmente aquela pessoa que ele sempre se mostrara ser durante aqueles dias, e ele realmente tivesse surtado agora. Talvez, e apenas talvez, ele gostasse dela de verdade. Talvez ele realmente a amasse.

Suspirou, cansada. Precisava conversar com ele - e conversar mesmo, não gritar, ou surtar, ou ficar agindo como se fossem um par de loucos. Precisava de uma conversa séria e calma, cheia de argumentos a favor e contra, de razão e equilíbrio, como ela sempre gostara que suas conversas fossem. Mas onde ele estaria? Levantou-se devagar, cada músculo de seu corpo protestando; estava cansada e chateada, e a última coisa que realmente queria fazer era sair em uma busca desvairada por James Potter. Então, andou até as escadas com passos arrastados e subiu até o quarto devagar. Tiraria uma soneca; quem sabe James não apareceria quando ela acordasse? Parecia ser um hábito muito apreciado por ele.

Enrolou-se na cama, jogando as cobertas por cima do rosto e afundando a cabeça no travesseiro. Tentou dormir por alguns segundos, esquecer de quão irrequieta se sentia; será que ele realmente gostava dela?

Sentou-se na cama e encostou-se na cabeceira. O que estava fazendo? O que estava pensando? Ele era POTTER, pelo amor de Merlim; não existia um ser mais metido a besta, apaixonado por si mesmo, egoísta, egocêntrico, egótico, estúpido, infantil, metido, chato, pentelho e ridículo no mundo. Ele era a pior desculpa de ser humano que já botara os pés na Terra. Ele não sabia amar ninguém além dele mesmo.

Estava tão ocupada se lembrando de todos os atributos de James - a lista continuava interminavelmente com elogios dos mais variados, passando de burro a patético e partindo até pro ramo de filho da puta - que nem percebeu quando o corpo - ela já entendera que ele tinha vida própria, e que não adiantava em nada tentar mandar nele, já que ele não seguiria seus comandos - se estendeu na direção do criado mudo e tirou timidamente a caixinha entalhada que continha as cartas de um passado que jamais viria a acontecer. Os dedos a abriram, enquanto a mente de Lily tecia algumas cenas de assassinatos doloridos para James, e a ruiva só se deu conta do que estava fazendo quando seus olhos se abaixaram mecanicamente na direção da carta aberta em seu colo. Era uma carta amarelada, e a letra estava tremida e quase incompreensível. Era obviamente uma carta de James para seu eu-futuro, e ela sentiu um aperto no coração ao perceber que a tinta estava manchada em alguns lugares. Lágrimas. Prendendo a respiração sem nem perceber, ela começou a leitura.

Ruiva,

Por favor, não rasgue essa carta. Eu sei que você odeia cartas, mas não acabe tão cedo com a vida desta. Eu preciso que você a leia. Ela precisa que você a leia.

Como eu sei que você é uma pessoa objetiva, eu vou expor meus pontos tão claramente quanto possível; tente me entender; amoleça esse coração de pedra e tente entender.

Eu sei que eu pisei na bola, Lily. Eu sei que eu devia ter te contado toda a verdade, no exato momento em que eu te disse "não, ruivinha, eu não acho que vou poder ir a Hogsmeade com você na sexta". Você é a pessoa mais maravilhosa e incrível que eu conheço, e é famosa por ver o melhor lado de todas as pessoas (menos o meu, aparentemente); você, melhor do que qualquer pessoa, entenderia. Mas você tem de entender que a minha amizade com o Remus é tão antiga, tão cheia de confiança um no outro, que eu não sabia como te contar a verdade. Nós sempre escondemos o segredo dele, nós sempre o mantivemos como algo nosso e apenas nosso. Nenhuma namorada que veio antes soube do segredo, nenhum outro amigo descobriu, ninguém além de nós tinha as respostas para "por que o Remus parece sempre tão doente...? Por que o Remus sempre perde aulas e não arranja problemas com isso...? Quão extensa é a família do Remus, parece que sempre tem alguém com problemas...?!". Só nós, Marotos, sabíamos que o Remus era um lobisomem, e eu quero que você se ponha na minha posição antes de se deixar julgar a situação como você sempre julga quando eu estou metido no meio.

Eu amo você, Lílian Evans. A última coisa no mundo que eu quero fazer é te machucar. Eu não queria mentir para você, mas estar com alguém como eu estou com você é uma coisa inédita na minha vida, e eu não sei como agir. Eu nunca precisei de ninguém, eu nunca fui tanto de alguém como eu sou seu. Sem você, é como se eu deixasse de existir, para ser uma sombra de mim mesmo. Tente botar isso nessa sua cabecinha ruiva: eu te amo. Eu não quero te perder. Se eu tiver que sentar na sua frente e contar cada segredo meu - desde as vezes em que eu fiz xixi na cama no primeiro ano, até o meu primeiro beijo (que foi com a Murta-Que-Geme) -, eu te conto. Se eu precisar contar cada segredo dos Marotos, eu conto. Se eu tiver que renegar meu nome e mudar para Romeu, eu mudo. Eu faço qualquer coisa por você Lily. Qualquer coisa.

Entenda mais uma coisa... Você me conhece melhor do que ninguém. Você pode não saber meus segredo ainda, ou os meus vícios ou minhas manias mais chatas, mas você me conhece melhor do que ninguém. Você conhece quem eu sou no escuro, quem eu sou nas cartas, quem eu sou com os outros e quem eu sou só com você. Você conhece meus sorrisos e minhas caras e bocas, e eu te amo por tudo isso. Mas existe uma coisa sobre mim que talvez você ainda não tenha percebido (ou depois dessa carta, tenha, não sei): eu nunca me desculpei. Nunca me joguei de joelhos no chão, juntei minhas mãos e implorei por misericórdia pela minha pobre alma. Nunca, nunca mesmo, eu aprendi a me desculpar. Mas eu estou me desculpando agora, por não ter confiado em você. Eu fui um completo imbecil, um exemplo perfeito do que eu jamais vou ser de novo, e por isso eu peço desculpas.

Me desculpa, minha ruiva? Pela carta e pela idiotice?

Sempre seu,

Jamisey.

Lily dobrou a carta em silêncio. Tudo dentro dela estava quieto. A voz que sempre a criticava por pensar coisas boas sobre James estava quieta. A voz que sempre a xingava ao chamá-lo de James estava quieta. A voz que sempre a trazia de volta a realidade quando sentia pena de James estava quieta.

Ela se sentia sozinha. Enfiou a carta dentro da caixinha e a escondeu mais uma vez dentro do criado-mudo. Sentia-se cansada também. Estava exausta. Enfiou-se mais uma vez embaixo das cobertas.

Remus era um lobisomem. James não sabia pedir desculpas. Mas ele havia pedido, aquela vez. Ele havia pedido desculpas para ela. E ela supostamente o conhecia melhor do que ninguém. Ela supostamente o amara o suficiente para desculpá-lo depois de mentir tão descaradamente... O desculpara o suficiente para se casar com ele.

Fechou os olhos o máximo que pôde e trouxe os joelhos para cima, se enrolando em uma bolinha e tentando afastar o fato de que James Potter podia ser humano, e ainda mais, tentando se esconder da verdade, de que seu eu-futuro podia achar humanidade o suficiente em James Potter para gostar dele, e para desculpá-lo, e para se casar com ele, e para enfiar o pobre eu-passado dentro de seu corpo grávido até que ele se descobrisse apaixonado pelo mesmo James que esse pobre eu-passado tanto odiava alguns dias atrás.

E então, ela parou, como que tomada pelo mais terrível espanto. Que tanto odiava alguns dias atrás? Sentiu vontade de se bater. De repente ela estava consciente demais de suas ações estapafúrdias, e do fato de que estava deitada na cama que dividia com James Potter, e de que se estava deixando sentir pena de James, e que o estava chamando pelo primeiro nome, e que conseguira silenciar todas essas vozes que estavam gritando com ela mais uma vez. Como, COMO ela podia ser tão idiota, se deixar enganar pelo maldito Don Juan, se deixar fazer parte daquela trama que parecia pertencer a um filme de categoria B?

Sentou-se, batendo na própria cabeça com os punhos fechados, grunhindo e sentindo-se terrivelmente fula da vida consigo mesma. Era ridícula. Completamente ridícula. Bastava ficar grávida, ter alguns ataques de humor esquisitos, vomitar algumas vezes, e ser bem-tratada de todas as maneiras possíveis e imagináveis por James Potter que ela já se derretia toda? Quão patética ela era? Sentindo vontade de gritar consigo mesma, Lily pulou da cama e foi até o banheiro. Jogou água sobre o rosto, na nuca, nos punhos e no rosto mais uma vez. O cansaço queria se apoderar novamente, mas ela lutou bravamente. Arrancou uma roupa do armário, foi até o quarto, se vestiu, segurou a varinha com firmeza e desceu as escadas com passos decididos. Estava pegando o pó-de-flú, decidida a procurar James onde quer que ele estivesse, a fim de lhe arrancar a alma com as próprias mãos, quando um 'plop' se fez ouvir da sala, e Lily andou lentamente até lá.

Seus olhos pousaram sobre James e ela sentiu cosquinhas na boca do estômago. Ele parecia pálido, e velho, e cansado. Ela podia ler a expressão dele claramente; era a mesma de mais cedo: uma mistura difusa de dor, desprezo, fúria e derrota. Trocou nervosamente o peso de um pé para o outro, e fez força para tirar os olhos de cima dele, a fim de não ter de se ver frente a frente com aquela expressão assustadora; nunca estaria pronta para encarar aquele James Potter que lhe era apresentado.

"Você quer o divórcio?" ela ouviu a voz profunda e rouca de James lhe perguntar, e ficou tão espantada que levantou os olhos para encará-lo, e pode perceber que ele estivera chorando recentemente, seus olhos estavam vermelhos e inchados. Baixou os olhos mais uma vez, rapidamente, e suspirou.

"Não. Eu só quero... Eu só quero poder pensar" ela se viu murmurando, contra toda e qualquer expectativa que tinha de si mesma; queria dizer que desejava sim o divórcio, desejava metade das coisas dele e um cheque polpudo todo mês, e desejava poder fugir dali para uma clínica de aborto para tirar aquela merda de bebê da sua vida. Não queria o conto-de-fadas do seu eu-futuro, apenas queria os seus NIEM's e as suas obrigações de monitora-chefe de volta. Mas ao invés deste tão bem-articulado discurso, Lily continuou com algo ainda mais incrível "Quando eu estou perto de você eu não consigo pensar. Merlim, eu nem mesmo consegui processar direito a idéia de que estou grávida, James" ela tentou arregalar os olhos de horror, mas seu corpo (e sua boca) estava no piloto automático, e fecharam os seus olhos e trouxeram ao seu rosto uma expressão puramente cansada. Ela sentiu vontade de gritar, mas seu corpo era mais esperto, e calou-a enquanto continuava com aquele novo discurso estúpido "Eu te amo, James, mas tem como você me dar um dia ou dois para me acostumar com a idéia? Sem essa besteira de brigar comigo ou de tentar se divorciar?"

A resposta de James veio muito mais grossa do que ela esperara depois dessas palavras; havia sido tão gentil que não esperara nada além de gentileza de volta, especialmente sabendo quão estúpida podia ter sido com ele. Mas, quebrando todo e qualquer preconceito que Lily tivesse a respeito de James, recebeu gelo de volta.

"Espaço. Você precisa de espaço, certo?" ele deu alguns passos para trás e abriu os braços, uma expressão cínica e assassina pairando lentamente sobre seus olhos "Certo. Você vai receber o seu espaço, Lílian Evans. Você vai receber todo o espaço que a sua maldita lerdeza precisa para se acostumar com a idéia de que você vai ser mãe. Você vai ganhar espaço e tempo!" ele baixou os braços e andou rapidamente até o armário perto da porta de entrada, de onde ele arrancou um sobretudo bege, que jogou sobre os ombros com um gesto sombrio. Lily sentiu algo afundando dentro do seu estômago, sem ter realmente certeza do por que. E então, James virou-se para ela, e olhos verdes se prenderam em olhos cor de mel, e ficaram se encarando por um momento que pareceu durar toda a eternidade. Lily suspirou.

"James..."

"A Fênix me chama" ele murmurou, e ela sentiu a raiva caindo sobre ela com uma pancada.

"Ótimo, você que morra, então!" gritou. Mas ele já havia a deixado.


N.A.: Sim, eu conheço a expressão "EU VOU TE MATAR SE O JAMES MORRER AGORA OU SE VOCÊ O MACHUCAR, ENTENDEU, MALEDETA?", antes que qualquer um de vocês me pergunte. Eu estou completamente familiar com ela, e a compreendo perfeitamente, e é por isso que vou rapidinho para as respostas de reviews, a fim de não abrir muito espaço para pancadaria dirigida à minha pessoa.

Thaty, fico muito feliz de saber que alguém FINALMENTE percebeu que a Lily também é tadinha nessa história! Quer dizer, ela foi jogada contra a própria vontade neste redemoinho de emoções tresloucadas... hehehe Mas, de verdade, ela não devia agir tão magoadamente assim diante de um James tão perfeito...

Mel.Bel.louca, isso mesmo, a fic foi atualizada inúmeras vezes!! hehehehe Bem, de qualquer jeito, espero que agora que você leu o capítulo você sinta ainda mais dó do James, e não me mate ao descobrir que ele nao vai aparecer em nenhum momento no próximo capítulo! Esse é o capítulo nove, e o dez é o capítulo no qual eu estive trabalhando todo este tempo, tentando deixá-lo um pouco menos pesado, mas perder o James depois de todas aquelas rosas e todos aqueles abraços quentes é dificil, portanto podemos compreender a Lily e seu desespero no capítulo que vem, certo? hehe

Mary M Evans, obrigada por ver que a Lily também não está numa situação perfeita! hehehe Eu sinto um enorme prazer em ver meus personagens mais amados passando por poucas e boas, como você vai perceber no próximo capítulo, mas tudo dá certo no final (eu acho)... Quanto a você achar meu James fofo, obrigada... /Sam abraça seu prêmio de James mais fofo, que veio junto do primeiro lugar no challenge JamesLily/ Eu sou completamente apaixonada por ele... Anyways... Eu espero que você perceba que a Lily está em seu caminho para a razão e que logo, logo, tudo vai dar certo... Beijinhos!

Camila Carvalho, revoltar é apelido para o que ele fez nesse capítulo, huh? hehehehe Anyways, eu mandarei sua camiseta de Sra. Potter em breve, espero que esse capítulo seja o suficiente para a espera passar logo... hehehe E eu também tinha essa imagem pintada na minha cabeça, o trem e o James olhando pra ela e o Snape fugindo... Tão lindo! hehehee A fic vai ter 15 capítulos mais epílogo e prólogo, totalizando 17, o que quer dizer que já passamos da metade... Espero que você continue amando a fic nos próximos capítulos... /Sam derrete com o elogio/

Lulu Star, mais uma review que me fez pular de alegria! heheheh Obrigada/provando que quem quer que disse que tamanho não é documento estava erradíssimo/ Realmente, eu também me apaixonaria se lesse um depoimento desses... (fora a parte em que ele a chama de biruta)... Quanto a Física Quântica... Beeeeem... Eu me baseei no terceiro livro para escrever essa fanfic... A idéia é de que esse pedaço da vida da Lily é um ciclo eterno... Assim como acontece com o Harry no final do terceiro livro... Ele sempre vai se salvar, e ele só vai poder se salvar porque já se salvou... É um nó na linha do tempo... Essa fanfic acontece do mesmo jeito... A Lily só vai parar no futuro porque ela já foi para o futuro, e o que aconteu lá é o que mudou ela para amar o James e lutar por ele... Se a Lily não tivesse passado pela experiência de ir para o futuro, ela nunca teria amadurecido cedo o bastante para ter o Harry, ou para fazer com que a Lily do passado fosse para o futuro... E eu sei que é complicado, mas eu espero que isso tenha explicado um pouco... E que bom que você gostou do capítulo passado, apesar dele ser curtinho... Espero que você tenha se dado bem na prova de história! E continue com minhas reviews mais amadas! hehehe Beijooos!

Moony Ju, minha Raven amada, que bom que você finalmente começou a gostar da Lily, agora que ela não é mais tão cabeça-dura-oca... E o James é o máximo mesmo, né? Ele é minha imagem de marido perfeito... E eu acredito piamente que a melhor maneira de manter um casamento é através de diálogos, e acordos, e compreensão mútua... Especialmente quando é o casamento de dois cabeças-duras difíceis de lidar como o James e a Lily... Obrigada pelas reviews!!!

Oliivia, as 623 fores de foras são apenas para representar que ele prestou atenção da Lily... E são apenas os foras da época da escola, ou seja, é uma representação de que ele não espera que existam mais foras para dar... Ele não é capacho em tempo integral, entende? Agora que eles são casados ele espera mais dela!

Ok, rapidinho, um pedacinho da depressão que e o próximo capítulo, antes que vocês comecem a tacar pedras em mim...

"Você acha que ele morreu?" ela perguntou, e Sirius se forçou a rir. James podia muito que bem ter morrido, especialmente estando tão moribundo quanto estivera quando saíra de sua casa, mas era seu trabalho mantê-la calma, especialmente com ela estando tão grávida quanto estava. Tirou um pacote de pão de dentro de uma sacola e começou a empilhar garrafas de leite dentro da geladeira.

"Ele é o James, Lily. Ele não morre. Você já tentou várias vezes matá-lo, e se ele não morreu, é porque não tem como" amassou duas sacolinhas de plástico e mirou o lixo, fazendo uma cesta. Finalmente levantou os olhos para Lily e sorriu teatricalmente "Pare de se preocupar" ela não disse nada por um tempo, apenas apoiou o rosto nas mãos e ficou olhando para o vazio. Sirius lhe deu um tapinha amigável nas costas e começou a ir para a sala quando sentiu uma mãozinha lhe segurando o pulso; a ruiva tremia levemente.

"Nós estávamos brigados. Ele acha que eu o odeio de novo. Ele nunca vai me perdoar" e depois de uma pausa "Eu nunca vou me perdoar. Se ele morrer, sabe" Lily estava se sentindo tão miserável quanto nunca, e Sirius era um péssimo mentiroso. Quanto mais ele tentava fazer as coisas parecerem corriqueiras, mais ela sentia o pânico e o medo nas veias.

"Ele não vai morrer, Lils" Lily sentiu um braço pesado pousando sobre seus ombros, e percebeu que Sirius lhe abraçava; encostou a cabeça no ombro dele, lutando contra a culpa, mas sentiu as lágrimas nos olhos.

Um pedaço grande, para diminuir o ódio de vocês por mim... heheheh Deixem reviews e não se esqueçam que eu amo vocês!!!