Capítulo 10
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Edward demora um pouco para se orientar. Ele tenta formular palavras, mas sua boca está seca. Eu aperto a campainha, chamando a enfermeira. Acaricio seu rosto e digo que logo ele poderá beber água.
A enfermeira entre no quarto e se aproxima de Edward. Faz algumas perguntas após deixá-lo beber um pouco d'água. Ela pergunta se ele se lembra do que houve e se ele está com dor. Nesse momento, ele tenta mexer o corpo e faz uma careta de dor.
"Tente não se mover muito, então. É natural que você esteja sentindo dor", Maria diz. O médico chega em seguida e começa a dar explicações para Edward a respeito de seu quadro. Eu entro em pânico, temendo a reação dele ao descobrir sobre a amputação. Ele ainda não se deu conta. Ele disse que se lembra de estar no carro com Emmett e depois tudo ficou escuro.
As palavras vão saindo da boca do médico. Ele explica sobre a fratura da costela e depois fala que tentaram salvar a perna, mas o dano era muito grande.
"Precisávamos agir rapidamente, antes que o quadro se agravasse", ele conclui.
Durante o discurso do médico, Edward o fitou o tempo todo. Ele franziu o cenho várias vezes, apertando os olhos, mas ficou calado.
"Você tem alguma pergunta?", Dr. Torres questiona.
Edward nega com a cabeça.
"Você continuará sentindo dor por alguns dias. Especialmente nos primeiros dias após a amputação, o paciente pode sentir uma dor muito aguda. Você receberá doses de morfina de acordo com o nível de dor", ele concluiu e sai do quarto com a enfermeira.
"Edward?", eu o chamo cautelosamente. Ele me olha, mas parece que seu olhar está vazio. Ele está processando tudo o que escutou. Eu não consigo imaginar o que se passa em sua mente, como ele está se sentindo. "Meu amor", eu toco seu rosto com cuidado. "Eu...". O que se diz num momento desses?
"Eu sinto muito", digo. Ele fecha os olhos por um momento e quando os abre de novo, não olha pra mim. "Nós vamos superar isso", eu tento ser positiva, mas nada parece ser o certo a dizer nesse momento. "Você está com muita dor?"
Ele me olha. "Um pouco", sua voz está rouca. Ele tenta levantar seu corpo, para se sentar na cama. Eu o ajudo, acionando o botão na lateral da cama, fazendo a cabeceira se elevar um pouco. Então, ele tira o lençol que cobre seu corpo, fitando a perna amputada.
Eu me sento novamente ao seu lado, com as mãos ainda em seu braço. Acho que é preciso dar certo espaço pra ele. Ele parece um pouco perdido, atordoado. Não sei ao certo. A enfermeira disse que a morfina e sedativos poderiam deixá-lo meio aéreo também.
Ele tenta movimentar a perna, mas não consegue dobrá-la devido à tala que a mantém presa horizontalmente. O Dr. Torres explicou que isso é importante para que os nervos não se retraiam, o que facilitará a adaptação com uma prótese futuramente. Eu explico isso para Edward.
"Há quanto tempo estou aqui?", ele pergunta.
"Huh, desde ontem à noite. 24 horas, mais ou menos".
"Emmett?", seus olhos se arregalam ao se lembrar do amigo.
"Ele está bem. Quer dizer, não teve nenhum ferimento muito grave. Está internado aqui mesmo no hospital. Ele quer te ver, mas ainda não pode sair do leito", eu conto. "Esme, Carlisle, Rose e Jasper estiveram aqui, mas você estava dormindo. E o pessoal da delegacia quer te visitar, também, mas o médico recomendou que esperássemos até amanhã para liberar mais visitas". Ele acena e encara a parede à sua frente. "Eu conheci seu capitão, o Marcus".
Ele fecha os olhos e suspira profundamente, fazendo uma careta.
"A dor aumentou?", pergunto e ele acena. "Vou chamar a enfermeira Maria. Já volto", digo e coloco um beijo em seu rosto ao me levantar.
Caminho até o posto de enfermagem e falo com Maria. Ela me acompanha até o quarto.
"Você vai receber morfina a cada seis horas, pelas próximas 24 horas. Depois o médico irá reavaliar a dosagem", ela informa. "Seu jantar virá em breve. Apenas alimento líquido por enquanto. Você deve ficar sonolento, mas se conseguir, espere o jantar".
"Obrigada, Maria", eu digo.
Pouco depois o jantar chega. Eu aproximo a mesinha da cama, colocando a superfície que serve de bandeja em frente ao Edward. Com o caldo à sua frente, eu pergunto se ele quer ajuda.
"Eu ainda tenho as duas mãos, Bella", suas palavras são fortes, me fazendo ofegar. "Me desculpe", ele diz pouco depois, pressionando os olhos fechados.
"Tudo bem", eu digo e lhe entrego a colher. Eu pego o meu jantar, que veio junto com o dele e me obrigo a comer, querendo que ele faça o mesmo. Cada garfada que eu engulo parece um tijolo sendo jogado em meu estômago. Quando o prato está pela metade, eu já não consigo mais. Edward come praticamente tudo. Ele fica ainda mais sonolento.
"Eu vou tomar um banho rápido", aponto para o banheiro interligado ao quarto. "Eu te amo", digo antes de encontra meus lábios nos dele suavemente.
"Bella?", ela me chama depois que dou dois passos. Eu me viro pra ele. "Você vai ficar?"
"É claro", dou um sorriso. "Não vou sair daqui. Eu trouxe minhas coisas hoje cedo, pra não ter que voltar em casa". Ele acena.
Tento relaxar com a água quentinha que sai do chuveiro, mas não demoro muito, pois não quero que ele fique sozinho por muito tempo. Após me trocar, volto saio do banheiro e vejo que Carlsile está sentado ao lado de Edward, que está acordado.
"Oi", eu digo.
"Ei, Bella", ele sorri ligeiramente.
Eu guardo meus pertences de volta no pequeno armário em frente à cama.
"Eu volto amanhã, meu filho. Você precisa descansar", Carlisle aperta a mão de Edward. "Você vai passar a noite, Bella? Jasper se ofereceu, caso você esteja cansada".
"Agradeça ao Jasper, mas eu vou ficar, sim".
Quando estou sozinha com meu namorado, eu me ajeito na poltrona que será minha cama pelos próximos dias...ou semanas. Edward está me olhando. Eu coloco minha mão na dele, que a aperta, me fazendo sorrir pra ele.
"Eu te amo", digo uma vez mais. Ele fecha os olhos e adormece rapidamente.
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Os próximos dias se passam de modo semelhante. Edward dorme a maior parte do dia e da noite, muito em função de suas medicações para alívio da dor, que induzem ao sono. Ele não pode se levantar da cama nos primeiros três dias, por recomendação dos médicos, para evitar que haja sangramento ou que os pontos da amputação de rompam. A partir do quarto dia ele começa a fazer alguns movimentos. Pode se sentar e ir ao banheiro utilizando uma cadeira de rodas. Além disso, outros médicos apareceram hoje, para avaliar a sua recuperação e começar a fisioterapia respiratória, já que ele passa muito tempo sentado. Uma psicóloga, fez uma visita e irá começar a ter sessões diárias com Edward.
O Dr. Torres indicou o Seth como fisioterapeuta para acompanhar o Edward na preparação para colocação da prótese. Ele salientou que é um processo lento, que demanda muita força de vontade do paciente, mas se o paciente seguir as orientações, tem tudo para se adaptar bem. Seth é um homem grandão, forte e muito simpático. Ele conversou conosco por algum tempo hoje, mais para passar algumas informações. Seu trabalho com Edward começará após sua liberação do hospital, na clínica de reabilitação que Seth possui e em casa, também.
Edward ainda está muito quieto e eu não sei como ele lidando com a situação na verdade. Foi tudo tão inesperado, não sei se já caiu a ficha. Eles dizem que isso pode demorar a acontecer. Ele não gritou, não chorou, não despejou sua possível raiva em ninguém. Então, ainda estou pisando em ovos, preocupada que Edward possa explodir a qualquer momento. Ele não fala muito, nem comigo em nem com ninguém.
Eu praticamente não saí do seu lado. Fui à minha casa duas vezes, mas somente para buscar algumas roupas limpas. Aos poucos, seus colegas da delegacia têm vindo visitá-lo. Por enquanto, ele pediu que apenas os mais próximos fossem permitidos a visitar. Marcus vem ao hospital todos os dias e tem oferecido seu apoio. Além dele, todos os Cullen e Rose também passam por aqui.
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"Edward, meu amor, eu tenho algo pra resolver agora à tarde e o Jasper ficará com você", eu falo. Hoje é o quinto dia no hospital. Eu tenho uma reunião com Aro, quero explicar o que aconteceu e deixar claro que a minha prioridade, nesse momento, é Edward. "Eu não devo demorar muito. Acredito até o fim da tarde estarei de volta".
Ele está sentado na cama, assistindo televisão. Ele se vira para me olhar quando termino de falar. "Você vai pra casa?"
"Não. Vou à universidade, marquei um encontro com meu orientador".
"Hum. Tudo bem".
"Você precisa de algo? Quer comer alguma coisa diferente?", eu pergunto, agora que o sua dieta está liberada. E eu sei que ele já está ficando enjoado da comida daqui. Até que é boa, mas é natural que a gente queira um tempero diferente.
"Não preciso de nada", ele diz. Eu me aproximo dele, pegando sua mão na minha. É difícil deixá-lo, mesmo que apenas por algumas horas. Meu pensamento e meu coração não saem daqui e eu fico angustiada por estar longe.
Me inclino em direção ao seu rosto e o beijo levemente. Como ele não se afasta, eu aproveito para pressionar meus lábios um pouco mais forte nos dele, que retribui. Ainda é um beijo casto, mas é o mais próximos que estivemos esses dias.
"Eu te amo", digo ao me afastar.
Jasper faz sua aparição nesse momento e eu os deixo, orientando o homem loiro a me ligar se for necessário.
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"Eu sinto muito por seu namorado, Isabella", ele diz após me ouvir explicar tudo o que aconteceu nos dias. Eu relatei o acidente e expliquei que tenho passado 24 por dia no hospital com Edward. "Contudo, as questões pessoais não podem nos impedir que continuar nossas atividades. O mundo não para porque essas coisas acontecem".
Na medida em que ele fala, eu sinto uma grande indignação e raiva surgir dentro de mim. E decepção. Eu esperava que ele entendesse e demostrasse o mínimo de solidariedade, de empatia.
"Eu confio que você encontrará uma forma de concluir sua pesquisa no tempo que havíamos planejado e ainda ajudá-lo. Com certeza, a família dele também se encarregará dessa parte", ele conclui. Eu o encaro, boquiaberta. Suas palavras não são de nenhum apoio e o forma como ele fala, sem sentimentos, sem demostrar compaixão para com o próximo. Enquanto eu falava e relatava o que houver, quase chorei. É um momento muito difícil, no qual estou emocionalmente abalada. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria escrever nada agora. E percebo que Aro não dá a mínima pra isso.
Respiro fundo e não me permito chorar na frente dele. "Olha, Aro, eu vim até aqui para te colocar a par da situação e para comunicar que eu farei uso dos meus 24 meses de prazo que o programa prevê para os alunos de mestrado concluírem suas dissertações. Eu sei que nós falamos sobre terminar antes, para que eu pudesse ingressar no doutorado em seguida. Mas o que aconteceu não estava nessa equação e, portanto, as coisas mudaram. Ainda tenho seis meses para completar os 24 e farei uso deles", digo com firmeza. "Minhas prioridades mudaram. E só pra você saber, meu namorado não tem família. Ele é a minha prioridade nesse momento. Assim que eu tiver algo novo sobre a pesquisa, eu entro em contato", falo antes de me levantar da cadeira e sair de seu gabinete.
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Eu estou tremendo ao sair do prédio...pela raiva e a mágoa pela incompreensão de Aro. E por tudo o que tem acontecido nesses dias. As lágrimas começam a cair e eu não quero impedir. Preciso colocar tudo isso pra fora. Tenho tentado ser forte para Edward, não choro na frente dele e tento ser positiva, mas às vezes eu não posso deixar de lamentar pelo que aconteceu. Arrasto-me até um banco de concreto em um dos jardins da universidade e fico ali. Me permito chorar por um bom tempo até me acalmar.
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Antes de voltar ao hospital, passo numa delicatessen e compro um sanduiche do jeito que Edward gosta. Aproveito para levar algumas outras guloseimas e duas garrafas de suco natural. Ao retornar, vejo que Jasper ainda está lá, como ele prometeu. Sua mãe também está sentada lado da cama.
"Olá, Esme", eu sorrio pra ela, abraçando-a após colocar as compras numa mesinha.
"Bella. Como está?"
"Bem. E você?"
"Estou bem. Eu estava aqui conversando com Edward. Quando ele tiver alta, pensei que talvez seja mais fácil se ele for lá pra casa e passar um tempo conosco. Ele mora em um prédio e sozinho lá não vai...é melhor que tenha pessoas para ajudá-lo. Tem as trocas de curativo várias vezes ao dia, a higienização do local e tudo mais. Carlisle-"
"Esme", Edward a interrompe. "Como eu disse, eu agradeço a sua oferta, mas ficarei bem em minha casa. Posso me virar sozinho", ele diz, deixando-a sem graça.
É claro que ele acha que pode fazer tudo sozinho! Não é nem que eu duvide disso, mas a questão é que ele não precisa. Ele não quer aceitar ajuda. Eu já imaginava que seria assim. Mas ele não vai conseguir se livrar de mim tão facilmente.
Não demora muito para Esme e o filho se despedirem, prometendo voltar amanhã. Após a saída deles, eu me volto para as sacolas e guardo alguns itens na pequena geladeira que há no quarto.
"Bella", Edward me chama e eu me viro. "Vem aqui". Caminho até ele, parando ao seu lado na cama. Ele toca meu rosto, acariciando as bochechas. "Você chorou", ele afirma. Quando choro, fico com o rosto todo vermelho e meus olhos ficam inchados e esses sinais demoram a desaparecer. E Edward é observador. "O que houve?"
"Não foi nada, Edward", tento esboçar um sorriso para convencê-lo.
"É por causa da sua conversa com Aro?", ele insiste em me questionar. Eu acabo revelando o que aconteceu, sem entrar muito em detalhes e sem repetir as palavras do meu orientador.
"Eu estou meio sensível esses dias", tento justificar.
"Eu sinto muito, Bella. Eu-"
"Ei! Você não tem nada que se desculpar", o interrompo. "Em relação ao Aro, ele não pode me cobrar nada porque eu ainda tenho seis meses pra terminar minha pesquisa dentro o prazo. É meu direito usar esse tempo".
"Eu não quero atrapalhar sua vida. Você não precisa ficar aqui, dormir nessa poltrona desconfortável. Você tem sua vida", diz e desvia o olhar.
"Ah, Edward. Você ainda não entendeu?!", seguro seu rosto, fazendo-o me olhar. "Você é minha vida. Você não me atrapalha e não há lugar em que eu poderia estar. Você entende?"
Ele acena, mas não me parece muito crente.
"E se eu estivesse aí?", aponto para a cama. "Você não estaria ao meu lado?"
"É claro que sim, Bella!", ele afirma.
"Seria um sacrifício pra você?", questiono.
"Nunca. Nunca, minha Bella", ele responde, me fazendo sorrir.
"É da mesma forma pra mim, Edward. Eu te amo e meu lugar é ao seu lado. Eu não preciso estar aqui, mas eu quero", digo carinhosamente, ainda segurando seu rosto. "Nós vamos passar por isso junto, ok?".
Ele acena e me dá um pequeno sorriso. Pequeno, mas sincero.
"Eu entendo que você queira ir pra casa quando for liberado daqui. E também entendo a preocupação da Esme, ela te amo como a um filho. Mas você não estará sozinho, eu estarei o com você. A Maria e as outras enfermeiras estão me mostrando como fazer os curativos, a limpar a região dos pontos", digo e ele faz uma careta. Sento-me na beirada de sua cama. "Eu sei que você não quer que eu faça isso. Eu não entendo o motivo. Eu sou sua namorada e você não precisa ter vergonha ou orgulho...ou o que for".
Ele suspira, mas fica calado.
"Bem, nós já falamos muito por hoje. Eu só quero dizer mais uma coisinha e depois eu irei pegar o sanduiche delicioso que comprei pra você", pisco pra ele antes de ficar séria de novo. "Eu quero que você saiba que eu estou aqui para te ouvir, se você quiser conversar. No seu tempo, mas eu quero saber como você se sente, o que se passa dentre da sua cabeça. Você não precisa tentar mostrar que está bem e ser forte o tempo todo. Não se aí no fundo", aponto para seu peito, "não for o que você está sentindo. Não se esconda de mim, por favor", beijo seus lábios e me levanto para pegar o alimento.
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Oi pessoal.
Bem, Edward não está demonstrando seus sentimentos...talvez a ficha ainda não tenha caído...
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Obrigada a todos pela leitura.
Abraços,
T. Darcy
