Capítulo Dez.
Booth ouviu a porta batendo e depois os suaves passos dela andando pela casa. Por vezes, ele se pegava fantasiando sobre como seria tê-la todos os dias a sua volta, o tempo todo. Longe do trabalho. Longe dos crimes. Apenas ele e ela. Nessas noites, e não importava se era na casa dele ou dela, quando sua parceira sorria sem motivos para ele e o ar era invadido pelo cheiro do macarrão com queijo, Booth se sentia realizado. Como pai, especialmente se Parker estivesse em cima da bancada todo melado com algum ingrediente que ela usara. Como amante, se ela se inclinava no sofá e o chamava para comer com um sussurro no seu ouvido, seu tom nada além de malicioso. Como homem.
"Eu não ia perguntar..." – Ela falou tirando a atenção dele da revista que lia. – "Mas já que desde que eu saí você está lendo essa revista, e continua totalmente concentrado nela, o que chamou sua atenção aí?" – Ela apontou para o que ele estava lendo e esperou uma resposta. Booth olhou primeiro para a revista e sorrindo, levantou os olhos para ela.
"Você." – Seu sorriso se alargou ainda mais ao vê-la franzindo o cenho.
"Eu?" – Ela perguntou e moveu-se até a cozinha, soltando as sacolas de comida no balcão. – "O que eu tenho a ver com isso?"
"Tudo, Bones." – Ele se levantou do sofá e rapidamente se aproximou dela, impedindo-a de se mover ao colocar cada mão ao lado do seu corpo.
"Eu não entendo, Booth." – Brennan pousou uma de suas mãos no peito dele, tentando afastá-lo, mas falhando miseravelmente.
"Sua matéria saiu na capa, Bones." – Ele sorriu charmosamente e pegou-a pela cintura.
"A reportagem sobre o meu novo livro?"
"Sim."
"Mas eu achei que..." – Sua voz falhou quando ele subitamente encostou sua cabeça ao lado da dela, respirando no seu ouvido. – "Eu achei que não sairia até a metade do mês."
"E não saiu. Eu usei do meu charme para consegui-la antes na editora." – Ao senti-la tremer com sua voz no ouvido dela, Booth sorriu satisfeito e se afastou, dando espaço para ela se mover. Com um olhar de censura, Brennan nunca admitiria que gostava de como ele a provocava, ela pegou a revista na mesa em frente ao sofá e observou a capa.
Uma foto sua, com uma blusa azul e calça e botas pretas, estampava toda a capa. No título da reportagem, o nome do seu novo livro e em letras menores, a dedicatória que ela havia escrito. Suspirando, ela jogou a revista no sofá e cruzou os braços, sua expressão mudando para uma de confusão e raiva.
"Você está bem, Bones?" – Booth se aproximou, assustado pela repentina mudança de humor dela e parou quando ela deu um passo para trás, afastando-se. – "O que foi, Temperance?"
"É só que..." – Ela girou seu corpo, ficando de costas para ele. - "Aparentemente as pessoas estão mais focadas na dedicatória do meu livro do que no enredo." – Ela parou e respirou fundo, organizando as palavras cuidadosamente. – "E, apesar de saber a repercussão que teria quando a escrevi, não era pra ser dessa forma. Eu não pretendia expor você e Parker dessa maneira. Nem... nem nós dois." – Sem que ela ouvisse, ou até mesmo percebesse, em um minuto ele estava atrás dela.
"Nós não nos importamos, Bones." – Ele a assegurou e seus braços cautelosamente se aproximaram da cintura dela, pedindo uma permissão silenciosa para abraçá-la. Dando um passo para trás, as costas delas se moldaram ao peito dele e ele então a abraçou, suas mãos descansando no abdômen dela.
"É tão estranho assim, Booth?" – Ela perguntou depois de um momento de silêncio.
"O que é estranho, Bones?" – Ele estava genuinamente confuso. A voz dela agora demonstrava um pouco de dor.
"Eu ter um relacionamento com um homem. Dedicar um livro a ele. Por que as pessoas falam do meu livro pela dedicatória e não pelo que tem na história?"
"Hey, não é estranho." – Ele a virou nos seus braços e com um dedo embaixo do seu queixo, a fez encará-lo. Seus olhos azuis brilhavam intensamente. – "É marketing."
"Eu não sei o que você quer dizer com isso."
"Significa que eles estão usando a parte que mais chama a atenção do público para vender."
"A dedicatória é a parte mais chamativa de um livro?" – Ele sorriu e alisou o rosto dela com uma das mãos. Sempre encantado pela forma literal que ela lidava com as frases.
"Não, Bones. Mas no caso do seu livro, as pessoas estão usando a dedicatória, na verdade, a revelação do nosso romance, para vender mais."
"Isso não tem lógica alguma." – Ela balançou a cabeça e seus lábios se curvaram em um sorriso inesperado. – "Além do mais, todos já assumiam que tínhamos um relacionamento."
Ele concordou com a cabeça e se inclinou para mais perto dos lábios dela, seu hálito sendo sentido por ela quando ele voltou a falar.
"Esqueça isso, Bones. Deixe que as pessoas comprem pelo motivo que elas quiserem. Eu estou satisfeito enquanto seu livro permanecer na lista dos mais vendidos do The New York Times." – Os olhos dela abriram em surpresa e ele soltou uma risada com a reação que provocara.
"Lista dos mais vendidos?"
"Isso que você ouviu, Bones. Em apenas 1 mês você já está na lista dos mais vendidos."
"Booth!" – Ela o abraçou apertado. – "Eu não acredito! Isso é maravilhoso!" – Ele a abraçou de volta, girando-a e beijando-a logo em seguida.
"Eu imprimi a lista pra você hoje. Está em algum lugar no meio de todos aqueles papéis na mesa."
"Eu já falei várias vezes que você devia ser um pouco mais organizado." – Ela soltou-se dos braços dele e começou a ir em direção a mesa. Mesmo acreditando no que ele acabara de dizer, precisava ver com seus próprios olhos.
Brennan sentiu a mão dele se fechando no seu pulso quando ela deu dois passos, e em seguida, se viu deitada no sofá, o corpo quente e grande dele logo em cima do seu.
"Eu dei a boa notícia." – Ele novamente falava com seus lábios colados aos dela. Seu tom de voz era diferente, rouco e baixo. – "Agora nós comemoramos, Temperance."
BB
Brennan abriu os olhos ao senti-lo tremer em seus braços e o apertou contra si ainda mais forte. Ele estava dormindo e pelas reações do seu corpo, no meio de um pesadelo. Aquilo era normal, ela tentou convencer-se, afinal ele estava passando por um momento de intenso estresse com ela naquele cômodo. O fato de ser sem janelas e rodeados de fotos, apenas tornava tudo mais insano. Mas ao estudá-lo mais de perto, ela sentiu novamente medo. Medo do que aquele homem desconhecido seria capaz de fazer com eles. Medo de que Parker se machucasse de alguma forma. E ainda havia a ansiedade para saber quando o homem voltaria e o levaria dali e aquilo a consumia, a desesperava a cada minuto.
Ajeitando-se melhor contra a parede, ela voltou a percorrer seus olhos pelo lugar em que estavam. Sua mente se focava sempre na porta, a única forma de saída que eles tinham e através da qual o perseguidor entrou segundos depois.
"Tempe." – ele a cumprimentou com um sorriso no rosto. Ela suprimiu um grito. - "Trouxe água para você." – Ele depositou um copo cheio do líquido em cima da mesa no canto à direita da posição dela. Brennan não demonstrou nenhuma reação, mas sua mente registrou a sede que sentia e ela fixou seus olhos no copo. – "Acorde-o."
Ele se aproximou dos dois e parou, esperando que Brennan fizesse o mandado. Os olhos dela desviaram bruscamente da água para o homem, o medo agora se transformando em desespero.
"Deixe-o aqui comigo. Por favor." – Ela lançou-lhe um olhar que implorava. – "Ele precisa descansar."
"Eu preciso da sua atenção, Tempe. Não quero que o garoto atrapalhe."
"Ele está dormindo. Não vai atrapalhar. Eu prometo."
O homem aceitou ainda que relutantemente e puxando a única cadeira que ela podia ver, ele se posicionou em frente a eles. Brennan apenas levantou a cabeça e o encarou.
"Eu estou tão feliz de ter você aqui, Tempe." – ele sorriu debilmente e ela quase fez uma careta. – "Não me impressiona você visitar uma livraria, mesmo depois de morta."
"Nós não..."
"Eu já disse que não precisa mentir pra mim. Eu não tenho medo de fantasmas."
Brennan respirou fundo, fechou os olhos e voltou a focar-se no seu perseguidor. Ela usaria a lógica nele, tentaria dissuadi-lo dessa idéia.
"Você acredita que somos fantasmas. Estou certa?"
"Você está sempre certa, Tempe."
Em outra ocasião, ela concordaria e até agradeceria pelas palavras. Nesse momento, ela nem pareceu registrar o elogio.
"Como você explica o fato de nossos corpos terem matéria? Eu digo, você bateu na minha cabeça e me trouxe até aqui."
Ele gargalhou alto, assustando-a e acordando Parker. O menino olhou para Brennan em pânico e ela apertou seus braços em volta dele, sussurrando que tudo ia ficar bem.
"Nem tudo é como estão nos livros, Tempe. Você mais do que ninguém deveria saber disso."
"O que você quer dizer com isso? Que fantasmas podem ter matéria como eu e ele?" – ela apontou Parker com a cabeça.
"Eu quero dizer que as coisas podem ser diferentes do que achamos que elas são. Especialmente as que não sabemos da existência até vermos com nossos próprios olhos. E eu estou vendo você, Tempe." – Brennan viu um brilho nos seus olhos e dessa vez, decifrou-o como insanidade.
"Você é louco." – as palavras saíram antes que ela pudesse se conter.
"Você é muito científica, Tempe. Eu não esperava que você entendesse."
Ela balançou a cabeça, tentando encontrar argumentos para vencê-lo, mas sabia que nenhum faria isso. Não com alguém que desafiava a lógica dentro da própria cabeça.
"Você se diz meu fã..." – Ela recomeçou e decidiu apelar para os sentimentos dele em relação a ela.
"Sou seu fã número um. Já disse inúmeras vezes."
"Duas vezes, na verdade." – ela o corrigiu e viu a raiva passar nos olhos dele. – "O que eu quero dizer é que, você se importa com meu bem-estar, certo?"
"Claro,
Tempe. Achei que isso era óbvio."
"Você se importa com o
que eu sinto."
Ele concordou vigorosamente com a cabeça.
"Presa aqui, especialmente sem o Parker, eu tenho medo. Acho que você vai machucá-lo ou..." – ela percebeu imediatamente o que havia falado errado quando o homem se levantou bruscamente da cadeira e se ajoelhou na frente dela, pegando seu rosto entre as mãos. Parker congelou por uns instantes, e depois reagiu, segurando os braços do outro e tentando sem sucesso afastá-los da cientista.
"Me solte, pirralho!" – O homem berrou e retirou as mãos do rosto de Brennan para segurar os braços de Parker longe dele. O menino gritou com a dor ao sentir o aperto do desconhecido e Brennan tentou reagir, mas em um movimento rápido, o perseguidor estava em pé e com Parker em frente a ele.
"Não faça besteira, Tempe." – Ele a advertiu puxando a criança em direção a porta.
"Você disse que se importava." – Ela falou firmemente mas era capaz de sentir seus olhos se enchendo de lágrimas.
"Eu me importo!" – Ele não desviou seus olhos dos dela ao abrir a porta atrás de si. Parker continuava junto dele, preso pelos braços do homem em sua cintura. Ele não gritava, se esforçava para parecer forte na frente dela. – "Só preciso da sua atenção toda pra mim, Tempe. Eu sou seu fã número um. Não esse pirralho. Ele não é nada." – Ele olhou para baixo e para o menino que olhava fixamente para ela.
"Ele é algo sim!" – Brennan rebateu e tentou se mover, mas suas pernas estavam estancadas, seu coração batia forte contra suas costelas e sua respiração começava a se alterar.
Adrenalina. Pense racionalmente, Temperance.
"Viu?! É tudo sobre o garoto!" – Ele deu um passo para fora do cômodo e Brennan um na direção deles.
"Você sabe tudo da minha vida. Eu sei o bom fã que você é." – Ela ainda odiava psicologia, mas talvez funcionasse. Talvez os salvassem. O perseguidor sorriu encantado e por um momento, ela achou que ele liberaria Parker. – "E eu sei que você sabe o quanto essa criança significa pra mim." – Ele assentiu. – "Então permita que ele fique aqui. Eu prometi ao pai dele que ele não se machucaria."
A face do homem se contorceu e ela franziu o cenho, não compreendendo.
"Mas você e ele estão mortos! Sua promessa já foi quebrada, Tempe." – Um sorriso de prazer se espalhou pelo rosto dele. – "E seu parceiro deve estar bem zangado por causa disso."
"Papai sabe que estamos vivos!" – Parker falou mexendo-se e lutando para se libertar.
"Eu já disse pra você ficar calado!" – O homem puxou-o pelo cabelo para fora da sala e o menino não segurou mais o grito desesperado na sua garganta. Brennan também fez suas pernas se moverem e correu na direção deles, mas foi impedida pela porta batendo no momento em que ela a alcançou. Ela tentou abri-la puxando furiosamente o trinco, mas em vão.
Frustrada, irritada e com uma sensação de impotência nunca antes sentida, Brennan encostou sua testa na porta e viu quando suas lágrimas pingaram no chão, não se importando em deixá-las cair. Sem forças, ela encostou suas costas na porta e desceu até o chão, botando a cabeça entre seus joelhos e abrançando suas pernas. Ela não se importaria de estar ali se estivesse por conta própria. Poderia eventualmente arranjar um plano, confrontar o homem e fugir dali. Arriscando-se sozinha. Pagando pelas conseqüências por qualquer um de seus erros. Morrendo sozinha se assim tivesse que ser. Mas nenhuma dessas opções era viável para Parker. Ela não suportava o grito de desespero que ainda ecoava em sua mente e sentiu vontade de ela mesma gritar. Qualquer coisa. Qualquer nome. Por ele. O que sempre a salvava. O que agora, não tinha a mínima pista de onde eles estavam. Não tinha conhecimento do perigo em que se encontravam. E como não se sentia há meses, Brennan foi invadida por uma solidão desenfreada.
Naquele lugar escuro e assustador, repleto com a ausência da criança que fora levada dela aos gritos, ela se culpou por tudo. Pela voz de dor do seu parceiro ao telefone no dia anterior. Pela expressão de medo no rosto de Parker ao ser levado para longe dela. Por cada momento que havia falhado desde que os dois haviam embarcado no avião. Por não ser capaz de voltar a pensar claramente. Por não poder salvá-los.
BB
"Você foi capaz de ver como eles foram? Andando ou de táxi?" – Booth e a recepcionista permaneciam no meio do corredor.
"Eu não sei dizer, agente Booth." – A loira olhou-se gentilmente. A apreensão dele era tangível. – "Talvez eles tenham apenas se atrasado. Ou se perdido, isso é comum por aqui."
"Bones não se perde."
"Bones?" – A mulher encarou-o como se ele fosse louco.
"Temperance."
"Você chama a mãe do seu filho de Bones?" – Booth sorriria em outras ocasiões sobre o desentendimento da mulher, mas a tensão que tomava conta do seu corpo só o fazia pensar mais rápido. Inúmeros cenários na sua cabeça.
"É." – ele respondeu sem prestar muita atenção. - "Eu preciso entrar no quarto deles. Preciso ter certeza que não tem nada errado aí dentro."
"Agente Booth, eu sinto muito, mas nós não estamos autorizados a abrir o quarto de nenhum hóspede para qualquer pessoa sem expressa autorização."
Booth a lançou um olhar furioso e a mulher recuou alguns passos.
"Eu sou do FBI. Minha parceira e meu filho estão sumidos. Eu preciso dessa porta aberta agora." – ele controlou sua voz, mas ainda existia o tom de agressão.
"Sinto muito, agente Booth, eu não..."
"Eu estou implorando." – Mudando de estratégia, Booth aproximou-se da recepcionista. – "Eu quase os perdi ontem. Me ajude a ter certeza que eu não estou perdendo-os de novo."
Em silêncio, a mulher retirou uma chave do bolso e passou por ele. A porta se abriu e Booth entrou segurando a respiração. Até onde seus olhos alcançaram, tudo estava em ordem, perfeitamente organizado. Assim como ela. Ele andou cautelosamente, sua mão no coldre da arma em sua cintura e com a mão livre, ele abriu a porta do banheiro. Seu coração falhou uma batida quando seus olhos se focaram nas duas escovas de dente alinhadas lado a lado no balcão da pia. Uma grande e a outra pequena. Juntas. Olhando-as, uma calma o invadiu e ele tinha certeza que onde quer que estivessem, eles estavam juntos.
