Capítulo 10 - Acerto de contas

Os ânimos estavam exaltados. Danneel olhava suplicante para o seu irmão em um pedido mudo de ajuda, enquanto Ackles a segurava pelos braços. O olhar do loiro denunciava a sua raiva pelo que presenciara. Desde que começou a cuidar do garoto Padalecki, a ruiva o importunava com seu ciúme doentio e ele daria um basta nessa situação.

- Jensen, por favor! Solte minha irmã. - a voz de Michael denunciava o medo pelo que pudesse acontecer com a mulher.

- Sabe Danneel, dê-me só um motivo, somente um para que eu não faça com você o mesmo que fiz com Andrew. Você lembra dele, não lembra? O traidor que descumpriu uma ordem minha. - falou ignorando o pedido de Michael.

- Jensen... Por favor... Solte-a! - repetiu o rapaz.

- Ackles, eu sei que Danneel é um pé no saco! Eu mesmo não a suporto, mas podemos resolver de outro jeito essa situação! - Misha tentava apaziguar a situação. Sabia que em algum momento, o líder da Dark Moon daria um basta às tolices daquela mulher, mas não esperava que fosse alí, naquele momento, enquanto um refém ainda estava em poder da quadrilha.

- Jen... Jen, querido! Eu... Eu a-amo você!

Ao ouvir a voz chorosa e arrastada da ruiva e as falsas palavras de amor, o nojo e o asco o dominaram. Jensen a jogou violentamente intencionando rebatê-la contra a parede, o que não aconteceu graças a Michael que se colocou atrás da irmã, evitando que ela se machucasse.

- Agradeçam a essa vagabunda por não dispormos do dinheiro do sequestro amanhã, como era o previsto. AGRADEÇAM A ELA! - gritou, socando a parede ao seu lado com o dorso da mão.

- Como assim? Mas o combinado não foi...

- Sim, Jack, eu lembro perfeitamente do combinado! Acontece que a Danneel fez o favor de trocar o bilhete do resgate por outro e adivinhem só: nada de resgate. Sem falar que ela tentou matar o refém o que nos daria prejuízo em dobro! – cuspiu as palavras com desprezo, cortando abruptamente a fala do comparsa.

Todos os bandidos olharam para ela, inclusive o irmão que ainda a segurava.

- Não, não foi bem assim, eu só queria...

- FALE A VERDADE, VAGABUNDA!

Nessa hora, Jared que jazia inconsciente sobre a cama, no centro do quarto, revirou-se, de um lado para o outro, estava acordando.

- Jensen, o garoto está acordando! – Misha chamou sua atenção assustado, pois o loiro colocara a mão sobre a coronha do revólver às suas costas e ambos sabiam que Rosenbaum tentaria impedir qualquer ato contra a irmã, mesmo não tendo nenhuma chance.

Outro resmungo e o garoto deu sinais de que estava realmente acordando.

- Cara, estamos todos sem capuz! Essa conversa pode esperar!

O desespero na voz de Misha chamou a atenção de Ackles.

- Saiam daqui, agora! Collins traga a sopa do garoto que deixei pronta sobre o fogão e Jack, tranque Danneel no sótão. Depois eu decido o que fazer com ela.

Antes que Michael e a ruiva pudessem protestar, Tom Welling empurrou o rapaz para fora do quarto, impedindo que ele interferisse na prisão da irmã. Ela foi levada aos trancos e barrancos por um Jack Abel furioso. Mais tarde, sabia que o líder decidiria o que fazer com ela. E, internamente, torcia para se livrar daquela encrenqueira, pois tinha certeza que seus cúmplices, assim como ele, não aceitaram bem a história da interferência dela nas negociações. A vagabunda tinha sorte. Fora salva, pelo despertar do refém. Pensou.

J2

Ouvia um som ao longe, mas não conseguia distinguir a origem dele. Pareciam vozes exasperadas, como se pessoas estivessem discutindo. Será? Achava que não, porque sempre ficava sozinho, em um quarto escuro, à mercê dos seus medos, além de acorrentado... Não! Não estava mais acorrentado. Seus pulsos e tornozelos estavam livres. Podia se mexer e levantar, se conseguisse. Remexeu-se, acostumando-se novamente à mínima sensação de liberdade. Remexeu-se mais algumas vezes, apenas o suficiente para se alongar, pois sentia frio e o corpo dolorido. Provavelmente estava com febre.

De repente, um som lhe chamou atenção, parou. Não sabia se isso era bom ou ruim. Mal teve tempo de se decidir. Passos comedidos vieram em sua direção, parando ao seu lado. Estava acordado, mas não conseguia abrir os olhos. Pesavam como chumbo. Sentiu uma mão tocar firmemente sua testa. Sabia que era ele. Ainda não o vira, nem tinha noção do tempo que dormiu, mesmo assim, sabia.

- Jared? Está acordado? Como se sente?

Sim, conhecia aquela voz. Era o mesmo homem que o tirara do convívio ao lado da mulher que admirava como se fosse sua mãe, o mesmo que tentara machucar essa mesma mulher por ela tentar protegê-lo. O mesmo, que mataria sua família e o deixaria sozinho no mundo, envolto a uma herança que nem sequer se preocupava em ter, se isso lhe tirasse Hellen ou a mãe, apesar de não se dá bem com ela.

- Deixe-me ajudá-lo a se levantar.

Ao sentir o mais velho o segurar pelos ombros, juntou o pouco de força que tinha e o esmurrou a esmo, quase o acertando no queixo.

- Eu só quero ajudá-lo a...

- EU TE ODEIO!

Gritou, expulsando do peito toda a raiva que sentia daquele homem. Abriu os olhos, rolou o corpo para o lado, deixou os pés tocarem o chão frio. A claridade do quarto o incomodava. Piscou algumas vezes para se acostumar. Focava o chão, mantinha a cabeça baixa. Provavelmente estava em outro quarto, diferente do de antes que era escuro e pequeno. Não entendia o porquê e isso não lhe interessava. Naquele momento, tudo o que queria era encarar o desgraçado que lhe roubou a liberdade e planejava também roubar sua família.

- O fato... O fato de vo-você ter... Sequestrado um garoto indefeso, já... Já é ruim, mas... Matar minha família... – respirou fundo, tomando fôlego. Levantou aos poucos, se apoiando na barra da cama. – Seu... Seu covarde! O que... Eu te fiz? Por que... Por que vai matar minha família?

Nesse momento, Padalecki levantou o rosto e deu dois passos curtos para frente. Seu algoz, mais afastado, estava sem camisa e a amarrara no rosto deixando apenas seus belos olhos verdes à vista. Tentou não prestar atenção ao corpo dele, mas foi impossível. O homem exibia músculos torneados em um peito desnudo e liso. Pernas levemente arqueadas, emolduradas por uma calça jeans desbotada. A cor branca de sua pele destacava pequenas sardas, salpicadas em um tom mais escuro.

- EU TE ODEIO!

Gritou mais uma vez, avançando mais um passo. Mentira. Sabia que não o odiava, nunca fora do tipo que odiava alguém, mas a raiva que sentia pelo que aquela mulher lhe dissera e o fato de seus olhos o traírem, fazendo com que observasse o corpo daquele a sua frente, aumentou ainda mais a revolva que sentia dos bandidos que o sequestraram, da saudade de Hellen que crescia a cada instante e do mal que podiam lhe fazer.

- Jared, escute-me, não entendo por que está dizendo isso!

- EU NÃO QUERO... Não... Não quero...

Tentou avançar mais um passo. Porém, a vertigem o envolveu. A vista escureceu e o chão lhe faltou. Caiu, mas não atingiu o chão. Braços fortes o envolveram e ao longe, uma voz o chamava, repetindo seu nome incessantemente. Estranho! Os braços que o ampararam eram acolhedores e passavam confiança. Como podia se sentir assim se aquele era o mesmo homem que invadira sua vida há três dias?

"Não seja idiota, Jared!" Ele é apenas um bandido! Acaso pensa que é seu melhor amigo? Só pode ser isso. Que outra razão eu teria para me assim ao lado dele?

- Garoto, fale comigo! Está me ouvindo?

Jensen o tinha nos braços e apoiado no colo. Segurava-o como se fosse algo frágil, capaz de quebrar.

- Fale comigo, criança!

Uma de suas mãos deslizou por uma mecha de cabelo escuro em um cafuné suave, acolhedor.

- Acorde! Por favor!

A carícia encontrou caminho no rosto do mais novo. Consciente, ele sentia o toque temendo a atitude de Jensen. Incapaz de entender a atitude do outro, assim como não entendia a si mesmo.

- Eu vou cuidar de você!

E foi assim. Quando percebeu, Jensen não mais estava acariciando, mas beijando o garoto. Sim, o beijo começou com um simples toque de lábios, desajeitado, atrapalhado devido ao pano que lhe cobria o rosto. No entanto, ganhou força e urgência. Beijava-o e o apertava contra si como se com aquele gesto acalentasse o moreno em seus braços. Beijava-o e era beijado também, por aquele que dizia odiá-lo.

Ambos não pensavam se havia lógica no beijo trocado. Mesmo Jensen, apesar de ser o adulto dos dois. Investia contra os lábios do mais novo, envolvido pelo momento, desatento, baixara a guarda. Não percebera que do outro lado do quarto, olhando pela fresta da porta, segurando uma bandeja com um prato de sopa quente, Collins observava a tudo atônito, sem palavras, sem ação.

E, quando o beijo cessou, Padalecki finalmente abriu os olhos e encarou as íris verdes que o fitavam com admiração e os lábios delineados que até então se mantiveram ocultos.

- Isso... Bem, o que aconteceu...

- Jared, está tudo bem! Confie em mim.

Ao ouvir o pedido de confiança, empurrou-o, caindo dos braços dele. Arrastou-se até a cama, levantando e desabando sobre ela. Exausto e confuso, olhou para outro lado evitando o mais velho.

- Eu o odeio, seu cretino! E o que aconteceu não muda nada!

- O quê? Espere um pouco! Nós dois...

- Não existe nós dois, entendeu? Você provavelmente é do tipo que curte molestar menores, mas saiba que não vai se aproveitar de mim. Eu não vou deixar!

- Você está enganado! Quando eu percebi...

- EU NÃO QUERO SABER DE SUAS EXPLICAÇÕES, SEU BANDIDO! EU TE ODEIO E ESPERO QUE ACABEM COM VOCÊ, ESTÁ ME OUVINDO? ESPERO QUE A POLÍCIA ME ENCONTRE E DÊ UM JEITO EM VOCÊ E EM SEUS FANTOCHES, SEU DESGRAÇADO!

Ackles não teve como responder a isso. Há alguns segundos beijava-o e tinha certeza que fora retribuído, não foi? E se foi, por que mesmo o beijara? E se fora correspondido, por que Jared agia assim? Que história era aquela de que não ia permitir que ferissem sua família?

- Vo... Você... Posso ser apenas, apenas um garoto, um menino mimado e riquinho como já ouvi seus capangas comentando no corredor...

Puxou o ar com força. Não tinha consciência de que seu esforço estava exigindo demais de si. Seu estado de saúde precisava de cuidados.

Mas... Se... Se matar Hellen ou mesmo... Minha mãe... Eu vou te achar, desgraçado! VOCÊ... NÃO VAI SE SAFAR!

Estava com raiva, magoado e decepcionado consigo mesmo. Por que correspondera ao beijo daquele bandido? Ele não passava de um criminoso covarde e molestador de criança! Era o que pensava. E para completar, ainda queria matar sua família. Isso nunca! Disse para si mesmo, envolvido no turbilhão de pensamentos confusos que habitavam os seus sentimentos. E, mesmo no limiar de sua força física, o garoto pegou uma fina bandeja de ferro, perto da cama e de uma só vez, levantou, erguendo-a contra a cabeça do outro. O gesto lhe custou o resto das forças e antes que atingisse o loiro, sentio o objeto em sua mão pesar, derrubando-o. Sua vista escureceu. Perdeu os sentidos sendo amparado por Jensen.

- Matar a família dele? Por que diabos ele pensa que...

Quando finalmente conectou as acusações do mais novo com os fatos ocorridos há minutos, um nome lhe veio à mente. Um nome foi repetido com desprezo, carregado de raiva e rancor.

"Danneel"

O nome da mulher foi sussurrado com cheio de nojo. Desde que Padalecki entrou em suas vidas, ela se dedicava a azucriná-lo com o seu ciúme e como se não bastasse o fato de ter tentado matá-lo, certamente vinha-o torturando psicologicamente, fazendo-o acreditar que sua família seria morta, após sua liberação. Será por isso que o garoto se recusava a comer? Há quanto tempo àquela bruxa o importunava? Será mesmo que teria descumprido uma de suas ordens que era nunca entrar onde estava o refém a não ser que fosse preciso?

Um barulho na porta lhe trouxe a realidade. Olhou para o menino, inconsciente em seus braços e o ergueu com cuidado, colocando-o de volta na cama.

- Entre!

Misha, que escutara a todo o diálogo sem ser notado, bateu quando percebeu o quarto silencioso, fingindo chegar naquele momento. Ao entrar, encontrou o líder ajeitando o menino sobre a cama. O rosto dele quase descoberto, apesar de permanecer com a camisa sobre a cabeça.

- O que aconteceu com ele, Ackles? Pensei que estivesse acordando.

- Foi o que pensei também, mas ele está muito fraco e acredito que por esse motivo ainda não acordou. Mentiu.

- Misha, a partir de hoje, ninguém mais além de nós dois entrará nesse quarto, estamos entendidos? – o comparsa confirmou com um aceno de cabeça.

- Jared precisa tomar a sopa. Ficar sem se alimentar agravará sua saúde. Sente-o devagar, apoiando as costas dele em um de seus braços, assim você conseguirá alimentá-lo. Entendeu?

- Pode deixar! Eu cuido dele.

- Ótimo! Meia hora após alimentá-lo, aplique a segunda dose da injeção. Os remédios estão nessa bolsa. Pegue-a! – jogou-a para ele.

- Tudo bem! Só tenho uma pergunta: o que fará com Danneel? O que ela fez, estragou mesmo o nosso plano de obter o resgate em menos de uma semana?

- Tudo leva a crer que sim.

- E agora Jensen? O que vamos fazer?

- Por hora, cuide do garoto. Eu darei para os outros a mesma ordem que dei para você. Deixe que eu me entendo com aquela vagabunda.

Vestiu novamente a camisa, cruzando a porta do quarto. Collins olhou para o adolescente, deitado, completamente esgotado.

"Jensen, o que foi aquilo que vi? Por que você beijou esse menino? Só espero meu amigo, que ninguém desconfie do que acabei de ver." Se isso acontecer teremos problemas."

Continua...


Ho, ho, ho... Feliz Natal, pessoal e um Feliz Ano Novo!

Esse foi o hiatus mais longo pelo qual passei sem escrever e até mesmo sem ler fics, acreditam? Mas, eu estava precisando desse tempo e se Deus quiser, voltei firme e forte. Aqui vai o capítulo 10 de Erros do passado e vou logo avisando que a fic não está perto de acabar, muita coisa ainda vai rolar.

Quero agradecer a todos que não desistiram de mim e minhas fics: jsrugila, Masinha, Elise Padalecki, Jozy, Sonyama, AneDarco, Nadine, Patrícia Rodrigues e Herykha. Todos vocês leram e comentaram o capítulo 9, postado há um ano e dez dias. Puxa! Quanto tempo fiquei sem escrever fics.

Àqueles que leem e não comentam, espero que mudem de ideia e aos que sempre comentam, aguardo o comentário de vocês nesse novo capítulo.

Beijos e um novo capítulo só de hoje a quinze dias, pois vou viajar.