"Você se lembra das noites que nós ficávamos acordados apenas rindo? Sorrindo durante horas por qualquer coisa."

– NÃO! PARA!

Continuei me debatendo enquanto Brian me prendia no sofá para Demi me atacar por toda barriga. Meu padrasto exibia um sorriso largo e divertido, pequenos risos escapavam de sua garganta ao notar meu desespero. A barba dourada por fazer e cabelo raspado, os olhos azuis brilhavam. Não dava para ver a expressão da Lovato malvada, mas notei que os cabelos negros estavam bagunçados sobre a face.

– Pede desculpa. - Ouvi a voz rouca de Demi ao mesmo tempo que senti o peso do corpo pequeno sentar sobre minhas pernas as imobilizando também.

– NÃO! - Balancei os braços tentando me livrar das mãos grandes do homem que se fechavam em meus pulsos.

– Eu acho que ela quer mais, Demi. - Brian comentou por sobre os ombros lançando um sorriso sacana.

– Brian, eu vou chamar a minha mãe. - Ameacei tentando me controlar da crise de risos causada pelas cócegas.

Puxei oxigênio pelo nariz encarando a sobrancelha grossa do Tefeey arqueada em desafio.

– Vai chamar a mamãe? - O tom debochado chamou a atenção da Lovato que se inclinou sobre o corpo forte para me olhar. - Demi, ataque-a nos pés.

Não deu tempo para respirar. As mãos macias tocaram a sola de meus pés desprotegidos fazendo com que meu corpo ficasse rígido e vulnerável. Eu não sabia distinguir quais eram as minhas gargalhadas e quais eram as dos dois indivíduos que se vingavam do meu susto pós filme de terror. Eu não tinha mais forças, o som alto saía rasgado de minha garganta enquanto tentava chamar pela mulher que me deu a luz.

– Mas o que é isso?

Senti o peso sobre mim desaparecer mas continuei deitada rindo sozinha, levei as mãos ao rosto limpando as lágrimas que escorriam de meus olhos e então pude avistar minha mãe parada no portal do corredor.

– Nada. - A resposta curta e temerosa de Brian me fez rir ainda mais. Não dava pra controlar.

– Nada? - Pôs as mãos na cintura olhando para mim.

Respirei fundo me sentando no sofá. Olhei falsamente raivosa para os dois que antes me torturavam antes de responder.

– Eu dei um sustinho na Demi e o Brian tomou as dores. - Me voltei para o grandalhão no meio da sala. - Muito bonito de sua parte, você tinha que me defender!

– Não foi um sustinho, Mandy. Brian está de prova. - Demi cruzou os braços confiante, a sobrancelha bem desenhada completamente elevada.

Minha mãe cruzou os braços encarando o homem que deveria se explicar.

– Ah qual é? Eu não estou tomando as dores da baixinha, só gosto de ver minha princesa gargalhando. - Deu a mesma explicação de sempre.

– Por que raios você gosta disso? - Franzi o cenho socando o assento do estofado.

– Porque sua risada é engraçada. - Olhei descrente para Demi ao ouvir a resposta.

Era o fim do mundo Demetria Devonne Lovato dizer que a minha gargalhada é que era engraçada. Sustentei os olhos castanhos que me encaravam enquanto os lábios carnudos tremiam levemente prendendo o riso, até que não aguentou. A risada gostosa de Demi me contaminou fazendo com que Brian nos acompanhasse. Minha mãe nos chamaria de maluco em 3, 2, 1...

– Vocês são malucos. - Revirou os olhos girando nos calcanhares e sumindo pelo corredor.

– Melhor eu acompanhá-la. - Brian se deslocou do lugar nos deixando sozinhas.

Demi se jogou ao meu lado tomando uma das almofadas para abraçar, cruzei os braços encostando a costa no descanso do sofá.

– Preciso ir. - A sentença me fez virar o rosto para olhá-la.

– Por que? Pensei que não teria compromissos pela manhã. - Estranhei.

– E não tenho mesmo. - Confirmou mirando o nada a sua frente.

– Então por que tem que ir? Pensei que dormiria aqui. - A observei morder o lábio inferior. - Demi?

Os castanhos fitaram o meu com pesar. Algo me dizia que eu não gostaria de ouvir a resposta, mas antes que eu mudasse de assunto ela me respondeu.

– Trace voltou.

Prendi a respiração sentindo como se houvesse levado um soco na boca do estômago. Um gosto amargo me veio a boca ao mesmo tempo que meu corpo ficava tenso. Demi se virou em minha direção tomando minhas mãos entre as dela.

– Miley organizou uma reunião com o pessoal. Eu disse que ia..

Desviei a atenção olhando para nossas mãos unidas sobre as pernas cobertas pela calça jeans. Brinquei com os dedos longos da mão fina enquanto tentava assimilar, minhas sobrancelhas estavam unidas e meus lábios crispados.

– Olha, eu sei que você não gosta... - Ela começou o discurso mas a cortei.

– Esquece isso, está tudo bem. - Respirei fundo a encarando. Sua expressão era mesclada em preocupação e surpresa.

– Não. Não está, você...

– Demi, são os seus amigos. Eu não gosto deles, principalmente do Trace, você sempre soube disso. O que eu posso fazer? Te proibir? - Encolhi os ombros acomodada.

– Confesso que eu meio que esperava a proibição. - Respondeu receiosa.

– Esperava que eu te proibisse? - Sorri sem vontade. - Se eu fizesse isso você me obedeceria?

Os cinco segundos que se seguiram pareceram eternos. Demi desviou de meus olhos mirando em qualquer outra coisa o que fez o sorriso amargo tormar minha boca novamente. Ela gostava de festas, gostava daquelas companhias, gostava de atenção. Em todos os nossos anos de amizade essa era a única coisa que nos separava. Suspirei me levantando e puxando a Lovato para se pôr de pé.

– Vamos pegar a sua bolsa.

Adentrei em meu quarto enquanto escutava a porta ser fechada. Me virei para a figura pálida recostada na porta, os braços cruzados nas costas, os olhos cansados olhando meus movimentos. Peguei a bolsa sobre minha cama antes de me dirigir para a Lovato, parei em sua frente a estendendo.

– O que foi? - Cruzei os braços encolhendo os ombros.

– Nada. - Brincou com a alça momentaneamente antes de fitar meus olhos - Posso experimentar uma coisa?

Os olhos castanhos se estreitaram em minha direção, acenei a cabeça sem pensar. Demi se desencostou da porta, a mão livre se ergueu até minha nuca puxando meu rosto e unindo nossas bocas. Fechei os olhos soltando a respiração pelo nariz, os lábios quentes e macios se movimentando com sutileza. Senti a lingua quente abrir caminho se enroscando à minha, os dedos se fecharem em minha nuca puxando levemente meus cabelos. Era um beijo confuso, calmo, quente, ótimo. Diferente. Os lábios carnudos descolaram dos meus, Demi juntou nossas testas.

– Droga. - Escutei seu sopro quase mudo.

– Pensei que já havíamos experimentado isso. - Comentei ainda de olhos fechados tentando controlar as batidas dentro de meu peito.

Um riso escapou de Demi me fazendo abrir os olhos. Recebi um beijo demorado na bochecha antes das mãos me abandonarem.

– Preciso ir. - Pronunciou colocando a mão na maçaneta.

– Hey, hey, hey.. - Puxei o corpo modelado para o meu me lembrando do motivo de sua partida. - Se despede direito.

Sorri tomando os lábios carnudos com fome. A abracei com força e carinho enquanto minha língua explorava os cantos ocultos da boca doce. Depositei um beijo sobre a boca vermelha cessando a profundidade.

– Você é minha, entendeu? - Cada sílaba que saia de minha boca era um palpitar mais forte que meu coração dava.

Sorri de lado ao notar o largo no rosto pálido a minha frente. Soltei o corpo deixando que abrisse a porta.

– Tchau, Selenalenalena.

–x-x-x-

Pisquei algumas vezes sendo arrancada de meus sonhos. Me virei na cama olhando as horas no relógio digital: 2:43 da manhã. Franzi o cenho pegando o celular barulhento e vibrante sobre o criado mudo. Me sentei me ecostando à cabeceira e aceitei a chamada.

– Demi?

– Olá.– A saudação tímida veio do outro lado da linha junto com um barulho estranho de madeira.

– O que aconteceu? - Esfreguei os olhos completamente desperta.

– Não consigo dormir.

Suspirei escorregando para me deitar novamente, ela me mataria de preocupação um dia.

– Tomou quantas latinhas de energético? - Joguei o braço sobre os olhos fechados me concentrando no riso curto que ouvia.

– Algumas. O dia foi um pouco corrido. Me desculpa te acordar...

– Não, tudo bem. Eu gostei disso. - Cerrei os dentes ao sentir algo estranho em meu ventre. - Está em casa?

– Hum.. Estou. Cheguei de New York ontem.– Escutei outro som avulso, só que metálico.

– Demi, pare de beber isso. - Ordenei sabendo que não obteria sucesso.

– Não dá. É viciante.

– Como você quer dormir desse jeito? - Uni as sobrancelhas sabendo que outro gole de energético descia pela garganta da Lovato.

– Hum.. Não quero dormir. Terminei a música que faltava. – Anunciou animada.

– Isso é bom. Quando vou ouvi-la?

– Agora. - Outro som de madeira e algumas notas soltas de violão transpassaram pela ligação.

– Show particular? O que mais eu quero na vida? - Sorri ao escutar a risada do outro lado.

– Okay, preste atenção.

A batida completamente conhecida me fez retirar o braço sobre meus olhos e me sentar eréta na cama. Estreitei os olhos para a voz que seguiu cantando cada letra.

– I'm not in love. This is not your song. I'm not gonna waste these words, about a girl.– O trecho foi finalizado e a linha ficou em silêncio momentaneamente. - Queria ver a sua cara nesse momento.

A voz risonha me despertou um sorriso involuntariamente bobo, espalmei a mão no rosto o alisando.

– Ainda bem que você não está vendo. - Me joguei no travesseiro ainda escutando os risos baixos.

– Mas eu imagino como esteja.– Comentou sabiamente. - Você se derrete todas as vezes que canto essa música pra você. – Senti o rosto esquentar.

– Humildade mandou lembranças, viu? - Mais risos do outro lado.

– Está certo.– Suspirou. - Agora é sério. Enquanto estávamos em turnê, Nick me ajudou com a melodia e algumas frases, mas agora acho que consegui finalizá-la. Preste atenção na letra.

– Estou esperando.

O som gostoso do violão fez um sorriso terno brotar em meus lábios.

– I don't know why, I don't know why I'm so afraid. I don't know how, I don't know how to fix the pain.– Senti os pelos de meu corpo se arrepiarem com a voz perfeita que cantava através do aparelho celular. Meu coração pulando descontroladamente a cada palavra significante. - We can't stop the world, but there's so much more that we could do.– A respiração falhou ao reconhecer o trecho conhecido, meus olhos dilatados prestando ainda mais atenção na melodia e na vontade que a voz exercia. - You said 'nobody has to know'. Give us time to go and take it slow...

Me transportei para dentro da música encaixando cada frase. A batida se intercalando entre lenta e rápida, a voz subindo e tomando força gradativamente. Até que reconheci o término e tudo ficou silencioso, ainda não conseguia respirar.

– Selly? Ainda está aí?

Umedeci os lábios incapaz de falar algo coerente após ouvir a canção. Era impressão minha ou aquilo falava sobre a gente?

– Qual o nome? - Peguntei subitamente me livrando do estupor que me encontrava.

– Hum... Eu ainda não tenho certeza...– Pausou parecendo refletir. - O que acha de "Stop the World"?

Sorri cansada me recuperando completamente da surpresa que a Devonne havia me dado.

– Eu acho perfeito. Acho que essa é minha preferida.

– Pensei que sua preferida fosse Get Back, Don't Forget, Two Worlds Collide, The Middle...– Gargalhei fazendo com que Demi me acompanhasse.

– Okay, eu não tenho culpa se todas as suas músicas são ótimas. Fica realmente difícil ter preferência.

– Sério? Obrigada, mas acho que quero que essa seja sua preferida de agora em diante.

Ergui uma das sobrancelhas tentando entender a voz rouca.

– Por que?

– Jura que não sabe? – Um riso fraco lhe escapou pelo nariz.

Mordi o lábio inferior sentindo meu corpo estremecer sutilmente, minhas impressões se transformando em certezas.

– É sobre mim. - Me obriguei a falar quando o silêncio se tornou insuportável.

– E a lerda sou eu.– O riso baixo me contagiou fazendo a tensão desaparecer. - Hey, já passou das três é melhor você voltar a dormir.

– Não, eu não me importo de fazer companhia pra você.

O dedilhar leve no violão me fez fechar os olhos. Me ajeitei embaixo do edredom escutando o suspiro através da linha.

– Me explica de novo como você não pode acreditar em finais felizes?

Um sorriso torto tomou meus lábios ao imaginar o rosto pensativo da morena.

– Lembra do seu aniversário de onze anos quando sua mãe prometeu que nos levaria para passar o final de semana em Dallas? Sua irmã caiu doente e Madison era muito nova. Minha mãe estava ocupada e não podia nos levar, ninguém deixou a gente viajar sozinhas.

– Eu estava com saudade do pessoal. Fazia muito tempo...

– Exatamente. O que você mais queria e o que mais esperava não aconteceu. Você teve seu final feliz naquela época? - Sorri já sabendo a resposta.

– Você passou a semana aqui em casa. Marissa e os meninos também não nos deixaram sozinhas. Foi a melhor semana de aniversário até hoje.

– Então, suas expectativas foram frustradas, mas nem por isso houve um final triste. Eu acredito em finais felizes, vocês que não conseguem acompanhar minha linha de raciocínio.

– Pode fazer o favor de explicar?

Abracei o travesseiro com força desejando que fosse a dona da voz que falava comigo em meus braços.

– Eu não acredito em contos de fadas. Não acredito que a vida sempre será perfeita daquela maneira. Não gosto de imaginar um final feliz em minha vida porque sei que corro o risco de me decepcionar, de me magoar.

– Ainda tem medo de se apaixonar? – Travei com a pergunta espontânea.

Se eu tinha medo de me apaixonar? Eu estava com medo de estar de fato apaixonada.

– Acho que agora meu medo é outro. - Engoli em seco.

– Qual?

Segundos se perpetuaram. A respiração de Demi parecia pesada e a minha engasgada.

– Demi... - A nomeei com a voz forte me obrigando a fazer a pergunta. - O que você acha sobre a gente, atualmente?

Respirei fundo sentindo as batidas descontroladas e fortes contra minhas costelas.

– Eu acho que estou gostando mais do que deveria.– Respondeu com pesar. - Queria que você estivesse aqui para me ajudar a entender.

Soltei o ar quente preso em meus pulmões tentando amenizar a turbulência de sensações que estava sentindo.

– Estou com saudade. - Confessei.

– Podemos marcar alguma coisa pra essa tarde?

– Creio que não. - Suspirei desapontada com minha agenda. - Final de semana?

– Temos o show da Taylor, mas Marissa vai dormir aqui em casa.– Explicou deixando a insatisfação visível. - Queria marcar alguma coisa só com você.

A declaração explodiu em meu peito derrubando os últimos cacos da barreira que havia erguido para me proteger.

– Você vai estar em casa esses dias, certo? - Esfreguei a testa lutando entre falar ou não o que se passava em minha mente. - Bom, eu posso dar uma passada aí depois de gravar.

– Ótimo! – A voz animada me fez sorrir nervosamente. - Agora vai dormir, não quero ser a responsável pelo seu desgaste físico durante as gravações.

– Está bem. - Sorri sentindo o coração esquentar. - Boa noite, Dems.

– Bons sonhos, Selly.

Fitei o escuro de meu quarto como se acabasse de sair de um sonho estranho. As coisas pareciam novas, o cheiro parecia mais gostoso, meus pensamentos estavam mais claros. Apertei o aparelho celular na mão me lembrando de alguém importante, olhei para o relógio: 3:30. Ignorei a hora avançada e percorri a agenda de meu celular, o nome e número apareceram na tela. Apertei o botão de chamada o levando até o ouvido.

– Selena, eu acho muito bom que a sua casa esteja pegando fogo para me ligar a essa hora.

A voz sonolenta e levemente irritada atendeu do outro lado me trazendo o conforto e segurança necessário.

– Priscilla, eu estou apaixonada pela Demi. - Disparei sentindo o sabor doce de cada palavra na frase.

Tarde demais. Eu já estava completamente rendida ao sentimento deliciosamente erradiço e não me arrependia de absolutamente nada.