Chapter X – SOMETHING THAT HURTS

– Não... consigo mais, Dee... – ouviu o choramingo do seu irmãozinho logo atrás de si, enquanto se arrastavam pela grama mal tratada.

Sabia que ele tinha ralado o joelho e por arrastar-se assim o estava machucando mais, mas já estavam no final do corredor de arame e depois disso só teriam que seguir as pistas espalhadas no quintal para descobrir onde seu pai tinha escondido os doces.

– Falta pouco Sammy! Não desiste agora. Você quer decepcionar o papai?

– Mas tá doendo muito... – tentou virar a cabeça para o lado e quase conseguiu ver seu irmão levar as costas da mão à testa, esfregando-a lá como se isso fosse impedi-lo de querer chorar.

– Você vai ter que se arrastar pra sair daqui de qualquer jeito, que diferença faz se for pra frente? – inquiriu impaciente. Não queria ver a cara de decepção do pai de novo como aconteceu no ano anterior, quando nenhum dos dois conseguiu chegar ao premio.

Ele costumava dizer que era uma 'caça ao tesouro' e que como uma caçada nunca é fácil, eles tinham que ser hominhos e aguentar firme pra cumprir seus objetivos. E acreditava nisso. E agora com seus 11 anos, seu premio não era nem de longe os chocolates e balas que tinham no baú, caixa ou o que fosse que seu pai escondeu, mas sim o sorriso orgulhoso dele ao vê-los, arranhados, esfolados e sujos de terra, chegando com o 'tesouro'.

– Vamos lá Sammy! Eu tô aqui com você. Nós vamos conseguir. – completou mais protetoramente, ouvindo o outro suspirar resignado.

– Certo, mas não me deixa pra trás, tá bem? – quase sorriu ao ouvir o pedido meio envergonhado do irmãozinho e suspirou também, sentindo a mãozinha pequena dele segurar a barra da sua calça jeans só por um momento.

– Claro que não seu idiota. Eu vou cuidar de você, ok?...

Acordou assustado quando sentiu a mão grande do mais novo pousar nas suas costas, próxima ao seu ombro, acertando um tapa na mesma assim que se virou, surpreso.

– Bom dia pra você também. – ouviu a voz conhecida soar irônica antes do mais alto se levantar da cama, fazendo o colchão subir novamente de um jeito desagradável no seu ponto de vista.

– Que horas são? – perguntou meio rouco enquanto coçava os olhos, sem perceber o tom seco de sua voz quando falou.

O moreno torceu a boca em desagrado, ainda de costas, antes de se virar e responder, olhando seu relógio de pulso. – São 6:13...

– O pai...?

– Nenhuma notícia.

– Ok.

Caíram naquele silencio constrangedor então. E aquela tensão silenciosa que sempre estava lá quando tinham que ficar sozinhos pareceu mais palpável e desagradável que o comum naquela manhã.

– Ok... – repetiu também antes de sair do quarto do irmão, sem olhá-lo.

Era estranho isso. Depois de tantos fatos bizarros e situações anormais nas quais Dean sempre estava por perto, fazer algo simples como levantar da cama, acordar seu irmão e ser tratado daquele mesmo jeito de sempre, se tornou quase surreal. E desta vez quase ousava admitir que se ofendera com a reação do mais velho, mas era melhor nem mesmo pensar nisso, ao menos enquanto cruzava a porta e podia ouvi-lo soltar um suspiro tão cansado quanto o que prendia em sua garganta.

–x-

Tomaram café da manhã em silencio com o que restava de comida na geladeira, o que não era grande coisa, por sorte. Mas as cervejas e refrigerantes que ainda haviam lá foram carregadas pelo mais velho para aquela caixa de isopor no carro. Levaram as duas mochilas abarrotadas de roupas para o porta-malas também e voltaram mais duas vezes a fim de conferir se não esqueceram nada importante, antes de trancar tudo.

A sensação de deixar aquela casa era estranhamente vazia e desagradável para os dois, que pararam lado a lado apenas por um momento para darem uma ultima olhada na fachada de um branco encardido.

Era como se, ao sair de lá, estivessem se afastando de todo o resto de suas vidas também. E era até difícil acreditar em todos os bons momentos em família que passaram naquele lugar, vendo-o assim tão vazio e obscuro.

Voltaram para o carro igualmente em silencio, as pisadas no gramado onde brincaram tanto quando pequenos também parecendo definitivas demais, um adeus mudo.

Olhou à volta uma ultima vez e prendeu o ar para não fraquejar ali, tinham que ir, mesmo que não quisesse. Era importante para ajudar Adam e descobrirem o que estava acontecendo.

Mas quando fez menção a entrar no carro, retrocedeu num estalo.

– Espera, temos que tirar os mapas do porta-malas. – comentou distraído, imaginando o que não seria se eles se perdessem e não pudessem parar o carro para pegar os mapas. E já estava insatisfeito demais de terem que ir, para ainda por cima não chegarem também.

– Pelo amor de Deus Samantha... Eu sei o caminho e ainda temos que passar no hospital-, entra logo no carro!

– Não mesmo. Quer fazer igual daquela vez, quando o pai te ensinou a dirigir? É coisa rápida, abrir o porta-malas e pegar os mapas, só.

– Sam...

– Deixa de frescura Dean. – provocou-o, esperando que esse método ainda funcionasse. E quase se sentiu orgulhoso quando viu o mais velho sair do carro também, abrindo o porta-malas meio bruscamente.

Mas quando se aproximou pra pegar o que queria embaixo das mochilas, encontrou uma caixa grande de madeira que não estava lá antes e quando olhou para seu irmão querendo saber o que era, ele só desviou o olhar, se entregando completamente.

– O que é isso?

– Nada. – respondeu cinicamente, puxando as drogas dos mapas, que agora o mais novo parecia ter esquecido completamente, e estendendo-lhe.

Mas o moreno ignorou-o, se precipitando sobre a tal caixa estranha. E quando a abriu e viu o que havia ali, sentiu o sangue subir depressa demais para sua cabeça, numa clara sensação de irritação.

Armas?...

– Não, a sua coleção de Puppets toys da Sesame Street*, Sammy. Achei que poderia se entediar no meio da viagem...

– Dean-... – se interrompeu e respirou fundo, tentando retomar o controle para não brigar de novo com o mais velho, numa repetição inútil do que já tinha acontecido durante a 'conversa' da noite anterior sobre o telefonema do Bobby e o fato de estarem indo para lá atrás de nem sabiam o quê, deixando Adam desprotegido. – Dean, você faz mínima ideia de que se qualquer policial rodoviário nos parar com esse monte de armas aí atrás, nós estaremos fodidos?

Você consegue parar um minuto? Cara, eu sei que você não gosta de mim e eu também não gosto de você, ok? Mas estamos juntos nessa e o mínimo que podemos fazer é dar um tempo! Eu sei o que estou fazendo! – retrucou impaciente, esperando mais uma briga sem-fim com aquela criatura teimosa que seu pai chamava de filho - numa repetição insuportável e desgastante do ocorrido na noite anterior, durante o jantar -, mas tudo o que o outro fez, foi bater o porta-malas e se afastar murmurando um 'ok' baixo e frio antes de finalmente entrar no carro.

–x-

Queria saber de onde que tirou a ideia de que ir no hospital avisar sobre uma viagem de ultima hora seria algo rápido.

O plantonista os fez esperar para conversarem com o diretor clínico, já que o quadro de Adam era grave e o hospital não poderia assumir a responsabilidade por eles, ou algo assim. Tiveram até mesmo que apelar para o Bobby, fazendo-o se passar por seu pai, explicando que precisava deles com urgência e que ficaria monitorando por telefone durante sua ausência na cidade. Que a viagem já estava agendada e que não poderiam desmarcar de forma alguma.

E teve que se controlar para não sorrir orgulhoso quando ouviu a voz do velho amigo pelo viva-voz, falando de um jeito completamente não-dele que iria recompensar o hospital por cuidar tão bem de seu filho querido.

Mas também, se não achasse que o bom e velho Bobby daria conta do recado, nem mesmo teria recorrido a ele, tinha que admitir.

Só que, só nessa de conversa com diretoria e o escambau, perderam preciosas horas de viagem e saber que graças a essa palhaçada toda, não chegariam mais por volta das 3 da tarde como o planejado, conseguiu acabar com o resto de humor que aquela cara de nada do moreno ao seu lado já não tinha acabado.

Mas não tinham mais tempo pra perder com o que quer que fosse, pensou enquanto caminhava apressado de volta para o carro para, finalmente, começar a bendita viagem.

–x-

Estava novamente com a cabeça encostada distraidamente no vidro do Impala e o silencio só não era mais desagradável, pois para ele havia a trilha de fundo de Led Zeppelin, após seu irmão desistir de sintonizar na rádio, há algumas horas atrás.

Já estavam no álbum IV da banda, ao som de Stairway to Heaven, enquanto se aproximavam de Omaha pela I-29 N, onde com certeza parariam para almoçar. Afinal, só faltavam 20 minutos para as 3 da tarde.

Mas sinceramente, apesar de ter comido pouco no café - há umas boas horas atrás -, não estava com nem um pingo de fome. Sentia-se incomodado demais com o que Dean havia dito mais cedo e mesmo que tentasse não dar crédito às palavras dele, aquilo ainda machucava desgraçadamente. Quer dizer, quando diabos disse para ele que não gostava dele? E ouvi-lo afirmar tão convictamente que não gostava de si, depois de todas as demonstrações de aparente preocupação e cuidado que ele dera no meio daquela loucura toda... Aquilo era tão decepcionantemente frustrante que chegava a ser patético. Já estava cansado demais de tentar se reaproximar do mais velho e ser rechaçado.

Estava mais do que na hora de entender que talvez ele realmente não se importasse.

Quando percebeu que seu irmão tinha parado o carro na Center St, em frente a um restaurantezinho tradicional com uma placa ovalada com os dizeres Petrow's Restaurant, percebeu que era hora de tentar fingir que estava tudo bem, ao menos sobre isso. Teria ainda mais todas as 3 ou 4 horas restantes de viagem para remoer esse assunto, além de todos os outros, enquanto era sumariamente ignorado pelo mais velho.

–x-

Normalmente, eram as perguntas sem-fim de Samuel Winchester que o aborreciam quando era obrigado a fazer qualquer coisa no mesmo ambiente que ele, mas nunca pensou que iria preferir um interrogatório ao silencio inexpressivo dele. Porra, mesmo no hospital ele sequer se dignou a abrir a boca!

Aliás, a única expressão que viu no rosto do mais novo desde que saíram da garagem de casa até agora, foi um torcer impaciente de boca enquanto flertava com a garçonete que anotou seus pedidos. Depois disso, continuou em silencio, respondendo monossilábicamente as poucas perguntas que fez enquanto comiam.

– Falta mais ou menos metade do caminho, não quer que eu dirija a partir daqui? – até mesmo estranhou ouvir a voz dele depois de tantas horas de silencio, enquanto caminhavam rumo ao estacionamento do estabelecimento, e quando se virou para encarar o mais novo, ele mesmo parecia desconfortável por ter aberto a boca.

– Você capota o seu carro e quer que eu te passe a minha belezinha? – murmurou num meio sorriso ao lembrar disso, mas o mais novo não pareceu ver a menor graça no chiste, pelo jeito desconfortável que torceu a boca de novo, baixando o olhar logo em seguida.

– Esquece. – soltou aborrecido, enquanto caminhava para a porta do passageiro, arrancando um suspiro impaciente do mais velho.

É, pelo jeito teria de enfrentar mais de 3 horas de viagem com um Sam de TPM...

Ainda por algum motivo tentou conversar sobre algo com o mais novo, mas depois de receber um 'hn' em resposta quando disse que no fim fora até bom ter esquecido de deixar o numero do celular do pai no hospital, largou mão de vez, aumentando o volume do rádio irritado. Não sabia o que raios estava acontecendo praquilo tudo e parando para pensar, não havia motivo praquela mudança súbita de humor, logo, era só mais das frescuras dele e realmente não estava com o menor saco para isso. Por isso prosseguiram viagem num silencio tenso, mascarado pelo melhor do Classic Rock.

Ao menos até 1 hora e pouco depois, em algum lugar entre Omaha e Sioux City, quando percebeu que o freio do Impala não estava mais respondendo.

– Estamos sem freio. – avisou enquanto parava o toca-fitas.

O quê? – ouviu o mais novo finalmente falar mais que um monossílabo por vez e teria comemorado por ver Sam ter sua primeira reação humana no dia, se não estivesse preocupado demais em parar o carro no acostamento, reduzindo as marchas para que o freio motor ajudasse a diminuir a velocidade do carro e puxando o freio de mão gradativamente. Sabia que não devia puxar a alavanca toda de uma só vez, senão isso poderia fazer o carro dar um 'cavalo-de-pau' e meio que estava saturado de emoções fortes por hora.

O carro ainda deslizou mais uns 7'2" antes de finalmente parar completamente. E, mal ele o fez, já pulou para fora do veículo, abrindo o capô para ver o que poderia ter acontecido. Verificou o nível do fluido no reservatório do freio, onde estava tudo ok. Então, o problema mais provável seria com o cilindro-mestre.

– O que houve...? – saiu do carro também um pouco depois, vendo seu irmão segurar a frente do carro com mais força que o necessário.

– Nada.

– Mas agora a-...

– Eu disse que não é nada! – retrucou impacientemente, vendo o mais alto dar um passo para trás sem perceber e lhe encarar surpreso. Pegou seu celular no bolso sem o menor cuidado, jogando-o para ele. – Tenta ligar por Bobby, vamos precisar de uma mão!

Não se deu ao trabalho de ver o que o outro fazia e voltou novamente sua atenção para o que acontecera. E só por isso perdeu o olhar abatido que o moreno lhe lançou antes de discar nas ultimas chamadas o numero dele.

– Sem sinal.

– Merda! – esmurrou a lataria perto dos faróis dianteiros antes de perceber o que fizera e acariciar o lugar, inquieto. – Não vamos chegar em lugar nenhum assim... Tenta achar sinal Sam. A gente tem que falar com o Bobby.

Verificou se podia haver algum outro problema além desse, enquanto o mais novo apenas andava de um lado a outro, procurando sinal de linha, o que só encontrou a mais de 16'4" do local onde o carro estava, na pista do outro lado, mais de 1 hora depois. E, enquanto o moreno se afastava cada vez mais - mesmo irritado e de saco-cheio como estava -, não deixou de acompanhar cada passo que o outro dava para longe, tentando se convencer que era preocupação de algo sobrenatural acontecer ou mesmo dele ter outra crise de bundão e querer fugir outra vez.

E depois dessa demora toda, ele próprio resolveu ligar. Mas quando o velho atendeu, disse que estava atendendo um cliente em Woonsocket, a umas 4 horas de onde eles estavam e ainda teve cara de sugerir mandar um amigo que tinha um guincho. Claro que disse que nem em sonho iriam enganchar sua garota, que ele mesmo poderia consertar e seguir viagem se lhe trouxesse o que precisava. E o Bobby concordou com um resmungo mal educado, falando então que saindo de lá, iria encontrá-los.

Nem se preocupou em olhar na direção do moreno para ver se ele o olhava contrariado ou não por ter que esperar mais de 4 horas para finalmente chegarem a algum lugar, afinal de contas não estava mesmo querendo mais uma briga pra piorar ainda mais aquela situação toda.

–x-

Caminhava sem rumo exato, os olhos fixos na tela do celular, procurando qualquer sinal de linha melhor que o tracinho solitário que apareceu no topo da tela antes de sumir, a umas 10" atrás. Mas não prestava atenção de verdade nisso, apesar do olhar constante na tela. Na verdade, não conseguia parar de pensar no por quê daquilo.

Séro, por que Dean o odiava?

Quer dizer, tudo bem que nunca se deram exatamente bem, mas nunca conseguiria imaginar que ele tivesse chegado ao ponto de sentir ódio. Mas, aparentemente era exatamente isso que tinha acontecido e isso magoava mais do que pensava, ao perceber - depois de todas as horas de tensão que passou ao lado dele naquela loucura toda, depois das broncas, brigas e dos desabafos -, que ao fim das contas, ele ainda era importante para si. Muito.

Só então percebeu que estava parado do outro lado da pista e quando olhou novamente para o celular, ele finalmente tinha algum sinal, por isso avisou, com a voz meio grossa demais, que conseguira. Mas não esperava que o loiro fosse vir até ele, ou mesmo tomar o aparelho de suas mãos de um jeito um tanto impaciente.

E do que pôde ouvir da conversa, ficariam mais um bom tempo ali parados, esperando, apenas porque o mais velho queria. E a perspectiva de ficar mais horas lá naquele meio de nada sem o que fazer e sozinho com aqueles pensamentos todos e com o cara-que-não-o-suportava, conseguiu ser mais um balde de água fria naquele dia que já estava sendo uma merda.

Era só impressão sua ou realmente nada estava dando certo?

Não se dignou nem mesmo a olhar para o mais velho, apenas voltou para dentro do carro e lá ficou, tentando ignorar qualquer movimento que o outro fizesse lá fora, enquanto parava para pensar sobre sua vida toda. Não apenas sobre a tragédia com sua noiva, ou com seu irmãozinho, mas tudo, desde o começo.

E algo nessa reflexão doía, porque lhe dava uma certeza mórbida de que nada disso jamais teria acontecido se tudo realmente tivesse ocorrido como seu pai de verdade queria.

–x-

Estava a cada segundo mais nervoso. Não sabia mais no que pensar, tanta coisa que tinha na cabeça. O carro quebrado e os dois lá, dando sopa pro que quer que fosse, de noite, naquela estrada. Adam sozinho e indefeso naquele maldito hospital, em coma. A conversa com Bobby e as coisas que ele lhes contaria e que sabia, sabia mesmo, não poderiam ser boas coisas. O pai sumido, ou mesmo aquela cara de limão azedo de Sam...

Respirou fundo, contendo aquela vontade louca de socar algo ou alguém.

Sério, definitivamente o pior era a cara de Sam. O que diabos tinha acontecido?

Não era possível que ele ainda estivesse bravo pela história de terem ido viajar, porque ele era teimoso, mas também não era burro! Precisavam de respostas e de ajuda e Bobby estava oferecendo os dois.

Ouviu seu estômago roncar e respirou fundo outra vez. Bom, se estava com fome imagina aquela criatura anormalmente grande então?

– Acho bom a gente comer alguma coisa... Vamos chegar tarde na casa do Bobby e não tem porque dar mais trabalho pro cara... Até por que, ele vai nos fazer ir pra cozinha tenho certeza. – comentou meio inclinado para a janela do motorista, vendo o mais novo finalmente parar de olhar para o nada.

Mas ele só deu de ombros como quem diz que tanto faz e teve que enfiar as mãos nos bolsos para não entrar naquele carro e bater nele.

– Não leio mentes Sammy... Dá para usar a boca?

– Não estou com fome, se é isso que quer saber. Só quero sair logo daqui... – murmurou contra a vontade, evitando olhar para o mais velho. – Será que o Bobby demora ainda?

– Mais você é fresco mesmo né? Não quer por quê? Porque não têm sua saladinha e shake? – respondeu irritado, olhando atentamente o rapaz dentro do carro, que só cruzou os braços de um jeito claramente incomodado e finalmente o olhou.

– Não sou fresco Dean, só não tô com fome. Estou cansado, dolorido e de saco-cheio desta estrada.

Cansado? Você não fez nada a não ser ficar nessa, sentado, e está cansado?

– Olha, não foi você que falou que era pra gente dar um tempo? Então dá um tempoDean! Vocêconsegue parar um minuto? – retrucou impacientemente, e viu claramente quando o mais velho agarrou a porta pelo espaço da janela, apertando o lugar de um jeito claramente agressivo antes de soltar o ar entre uma risadinha irônica, para então voltar a olhá-lo.

– Não sei, acho que você está parado o bastante por nós dois. – respondeu sério e se afastou da janela do carro, encostando-se na lataria, próximo à traseira.

Baixou a cabeça, sentindo o rosto esquentar junto a um bolo que subiu, fechando sua garganta. E depois de tudo o que teve que ouvir essa merda de dia inteiro, com mais essa, sentiu um desejo tão sincero de enfiar um murro na cara dele, berrar, xingar ou sei lá, que quando se viu, já estava quase abrindo a porta do carro. Mas estagnou quando viu os faróis redondos do Chevelle SS se aproximando pelo sentido oposto, pela I-29 S. Era o Bobby, finalmente.

Lançou um olhar rápido para dentro do Impala, vendo o outro voltar a se encostar no banco como se não tivesse visto nada e bufou, caminhando em direção ao carro que ainda não havia parado completamente, saindo da curva do retorno.

– Trouxe o que eu pedi? – perguntou assim que viu o homem sair do veículo, batendo a porta sem muito cuidado.

– Boa noite pra você também, moleque. – respondeu rabugento, vendo o mais novo torcer a boca e umedecer os lábios, sem qualquer sinal de que falaria mais algo. – Trouxe, claro. Qual seria o sentido de eu arrastar meu traseiro por mais de 225 mi se não tivesse trazido? Está no porta-malas.

Entrou de novo no carro e tirou a chave da ignição, abrindo o porta-malas para que o mais novo pudesse pegar o que precisava ali. E olhou em direção ao carro preto parado do outro lado da pista, perto do mato mal tratado, onde finalmente percebeu o outro garoto que saía dele de um jeito claramente abatido, formando uma sombra enorme no meio do breu daquele lugar - que realmente ficava ainda pior agora na lua nova. Sorte o céu estar estrelado, porque depois que os faróis do seu carro se apagaram, percebeu que nenhum dos dois gênios estava com lanterna.

Por isso pegou a sua e ligou-a, indo em direção ao moreno.

– Hey Bobby... – o garoto disse. E estranhou o ar desanimado de sua voz, mas deveria ser apenas chateação pelo tempo que eles passaram parados que nem idiotas naquele meio-de-nada.

– O que aconteceu aqui exatamente? – perguntou a ele, mas foi Dean quem respondeu, enquanto Sam baixava a cabeça, encarando os próprios tênis.

– O freio parou de responder. Cilindro-mestre, aparentemente.

– E você quer consertar isso agora, no meio do nada, no escuro? É um tapado mesmo... – retrucou mal humorado. Teria sido tão mais fácil guinchar aquela lata-velha de uma vez!

Mas desta vez foi ignorado pelo loiro, que entrou no Impala para pegar uma lanterna para si também. E quando olhou para o outro, ele olhava na direção do loiro também com uma perfeita cara de cachorro chutado.

– E vocês ficaram esse tempo todo parados aqui? Porque não pediram ajuda pra algum outro carro?

– Desse tempo aqui, só passaram dois veículos Bobby, os dois reto. Não é muito normal se viajar em uma quarta-feira. – o mais alto se pronunciou então, e foi a vez de Dean olhar para ele, mas ele o fez com uma cara aborrecida, balançando a cabeça antes de voltar a atenção para o que quer que via.

Estranho.

– E o Adam? Vocês deram uma olhada nele antes de vir? Como ele estava?

Perguntou na verdade para ver o que acontecia, pois sabia que não o tinham visto e que saíram às pressas depois do contratempo do hospital. E outra vez um respondeu e o outro se fez de morto, olhando em seguida quando considerou seguro.

O clima entre eles estava um lixo completo e mesmo sabendo do histórico deles, não era o que esperava, depois de ouvir Dean no telefone, contando os fatos com todos aqueles 'a gente' e 'nós' no meio.

Agora um não olhava na cara do outro e aquilo não tava só com cara de briguinha decasal como sempre tinha. Mas pelo menos no momento preferiu ficar quieto, porque Dean parecia pronto pra morder alguém e Sam a ponto de cair no choro. Por isso só se encostou na frente do próprio carro, sendo seguido pelo mais novo alguns minutos depois, enquanto Dean se virava com o dele.

Demorou bem uma hora para ele concertar o estrago. Já eram 10:30pm e o tempo havia esfriado um bocado ali na estrada, mas quando bateu o capô do carro, parecia satisfeito.

– Pronto! Eu falei que dava um jeito!

Sorriu orgulhoso para os outros dois e quase riu do revirar de olhos do velho amigo do pai, mas quando olhou para a cara do mais novo, que só deu de ombros daquele mesmo jeito distante, perdeu toda a vontade.

– Tudo bem se você preferir ir com o Bobby, Sam. – falou antes que percebesse, vendo o outro finalmente olhá-lo.

– Dean-.

– Aliás, é até melhor, porque pelo menos assim não tenho que bancar a mãe caroneira e andar abaixo da velocidade permitida! – concluiu irritado, se afastando sem esperar resposta.

Acompanhou o movimento do mais velho e suspirou cansado, pressionando os olhos, completamente esquecido do homem ao seu lado, antes de voltar a olhar para as costas do irmão.

– Não faço ideia de que merda me deu pra vir junto... Muito menos por que você insistiu tanto pra que eu ficasse se não me queria por perto. – murmurou para si, vendo-o dar a volta no carro e entrar, batendo a porta sem muito cuidado. E só então se lembrou que havia alguém do seu lado, mas quando olhou para Bobby, ele parecia muito ocupado procurando algo nos bolsos antes de puxar a chave, encarando-o então.

– Vamos logo, rapaz. Não é só porque não vamos chegar em casa hoje que não quero ao menos tentar. – disse enquanto dava a volta no seu próprio veículo. Mas tinha ouvido sim, claramente, o moreno.

–x-

– Certo, o que está havendo? – perguntou depois de meia hora no carro com aquele gigante calado com os olhos fixos no retrovisor.

– Hn? – perguntou meio confuso, olhando para a cara do mais velho, que só emburrou ainda mais, olhando para o retrovisor também, dando uma dica sobre o que falava. – Não... não é nada Bobby...

Voltaram a ficar quietos então, e vendo o mais velho atento à estrada, suspirou silenciosamente, coçando a sobrancelha. A quem estava tentando enganar? Queria falar. Aquilo estava engasgado de um jeito na sua garganta que parecia até dificultar a respiração.

– É que... Só queria saber o que fiz de errado. – murmurou numa ironia cansada, olhando novamente para o reflexo do Impala pelo retrovisor.

– Dean é assim mesmo, filho. Nem a mim aquele moleque tem respeito.

– Não é... questão de respeito, sabe? – sorriu um sorrisinho forçado e voltou a ficar quieto, olhando para fora, a imagem do Impala vindo logo atrás.

A outra hora e meia, mais ou menos, que se entendeu a viagem não foi muito diferente e quando finalmente chegaram no ferro-velho, Sam ajudou a tirar do carro e levar pra dentro o que precisavam e falou que se pudesse, iria tomar um banho e dormir, deixando os outros dois sozinhos com um boa noite pálido e um agradecimento sincero ao velho pelo quarto e a ajuda.

Esperou até ter certeza que Sam não estava mais por perto, ouvindo o barulho de passos se afastando pelas escadas, e se virou para Dean de braços cruzados. – Ok, o que houve pra ele ficar com aquela cara de bunda?

Frescura. A Samantha emburrou porque não suporta umas horinhas de estrada, é isso que aconteceu. – respondeu com descaso, encostando numa escrivaninha velha abarrotada de papeis ainda mais velhos e olhando para a parede.

– Olha moleque, não sei o que houve, mas se quer saber minha opinião, você passou tanto tempo querendo convencer a si mesmo que não se importa com ele, que no fim das contas, conseguiu convencer aos dois. – repreendeu-o, balançando a cabeça em negativa. – Vou me recolher também que já é quase uma da manhã. Você sabe onde ficam as coisas e não venha me perturbar a não ser que seja caso de vida ou morte, entendeu?

– E o que você ia contar Bobby?... – perguntou meio confuso, desviando o olhar do papel de parede antiquado novamente para o outro, apenas pela necessidade de saber o que era já que na verdade sua cabeça nem estava lá.

– Volta pra terra que então nós conversamos. – percebeu a ironia do mais velho pelo seu estado pensativo e o encarou franzindo as sobrancelhas. – A conversa vai ser séria, longa e desagradável e não estou com o menor saco de tê-la agora, exatamente como você. Boa noite Dean.

Deixou o velho se afastar sem maiores reclamações, pensando seriamente no que ele havia dito antes. E então as palavras impacientes do mais novo dentro do carro fizeram sentido, eram a dica do que havia acontecido e ele não tinha percebido a deixa.

Sam estava machucado com aquilo e entender isso foi mais desagradável do que seria previsível, lhe trazendo uma sensação gelada de culpa que não poderia lhe causar outra coisa senão risos. – E eu não gosto de você... – repetiu irônico e balançou a cabeça. Estava tarde demais para reflexões.

Não que isso o fosse impedir de refletir, aparentemente.

–x-

Uma semana.

Tecnicamente já era dia 21, quinta-feira, mas de qualquer forma já completara uma maldita semana desde que voltara para casa e agora estava outra vez fora dela.

Há uma semana, seu pai estava na oficina com Dean, trabalhando. Adam estava na escola, ou mesmo em casa, grudado no computador como era comum. Todos estavam bem e nada de anormal se insinuava a acontecer. Mas foi só chegar ali para que nada mais fosse o mesmo.

No fim das contas Dean tinha um ótimo motivo para odiá-lo, porque era um intruso na família dele e tudo o que estava acontecendo era sua culpa, de algum jeito.

Fechou os olhos por um momento e viu outra vez àqueles amarelos, e o sorriso desfigurando o rosto gentil de seu irmãozinho. Aquilo falara para si. Aquilo tomou o corpo de seu irmão. Adam estava possuído e agora estava em coma. Adam quase havia morrido e agora faltavam 8 dias para seu aniversário de 16 anos e nem mesmo acreditava que ele estaria presente para comemorar a própria data. Por sua culpa.

É talvez Dean tivesse mais que bons motivos para odiá-lo, mas não conseguia entender como aquilo poderia ser justo se nunca quis nada daquilo.

Trancou a porta do quarto cuidadosamente, evitando fazer o minimo barulho que fosse, e foi até sua mochila, tirando de lá o diário de seu pai, que escondera ali antes de saírem de casa, na esperança de que aquilo pudesse ajudar. Mas agora, enquanto abria-o com cuidado, sua esperança era descobrir nele alguma explicação, algum porque para aquilo, que lhe esclarecesse a justiça disso tudo.

–x-

Quando pegou seu celular para olhar as horas e constatou que eram quase 4:35 da manhã e ainda assim não conseguira fechar os olhos, desistiu de acreditar que ainda conseguiria dormir.

Mas preferia pensar que era pela expectativa da conversa que os aguardava, mesmo que na verdade sequer estivesse pensando nela.

E quando fechou os olhos de novo, disposto ao menos a tentar relaxar o suficiente para aliviar a dor daquele nó próximo ao seu pescoço, viu-se correndo pelo gramado mal tratado da casa de algum daqueles colegas estranhos do seu pai com uma arminha d'água, tentando acertar o irmãozinho, que apenas gargalhava e corria em sua direção, sem usar a própria. E quase riu sozinho ao lembrar dele caindo de cara, sujando o nariz de lama.

Devia ter uns 9 anos naquela época e o moreno, com seus 5, era tão pequeno e gordinho em suas lembranças, que jamais pensaria no gigante que se tornou, se fosse imaginá-lo crescido naquela época.

Levantou abruptamente ao perceber no que pensava e preferiu parar por ali, antes que lembrasse também que havia jogado sua arma para longe e corrido para pegá-lo no colo quando caiu. Esfregou os olhos e suspirou. Realmente, se era para terem que conviver, mesmo que por hora, teria que baixar a guarda e ignorar aquela sensação de perigo que tinha em relação a isso.

E quando se pegou pensando nisso, lembrou da conversa que o esperava no dia seguinte outra vez e daquela história que o velho Bobby disse de serem mais úteis para Adam longe. Claro, era óbvio que - onde quer que tivessem se metido - aquilo estava longe de ser normal ou mesmo seguro, mas não saber o quê exatamente estavam enfrentando não deixava de ser angustiante.

Só sabia que não poderia esperar nada menos que algo completamente insano e anormal, depois de tudo. E que obviamente aquele sumiço do seu pai não tinha nada a ver com nenhum cliente em porra de lugar nenhum.

Voltou a deitar, sentindo-se pesado e fechou os olhos pensando cansadamente que tudo o que queria, era que ele estivesse ali também para lhes dizer o que fazer. Mas acima de tudo, que realmente estivesse bem.

-x-

Apesar de já estar de pé, resolveu deixar os meninos dormirem à vontade, já que sabia que a conversa não seria nem de longe fácil e amena, e que depois dela provavelmente perderiam ainda muitas noites de sono. Então foi apenas passar um café fresco enquanto os aguardava. Só não esperava que fossem acordar tão rápido.

Sam foi o primeiro a descer, estava com o cenho visivelmente abatido e angustiado e, acima de tudo isso, profundamente triste. Teve que suspirar ao pensar que naquele ultimo caso, só quem poderia fazer algo a respeito era Dean.

Conversaram amenidades, principalmente sobre o ferro-velho, enquanto o café ficava pronto e minutos depois Dean apareceu também, com uma cara que dizia claramente que seu humor estava péssimo. Deu-lhe bom-dia ainda assim, estendendo uma xícara de café.

Dean a pegou e ergueu quase num brinde, mas não disse uma única palavra. À Sam não dirigiu nem mesmo o olhar.

– Tem pão, manteiga e geléia. Comam e depois venham falar comigo. – avisou enquanto olhava à volta mais uma vez, como que para se certificar de que não havia esquecido nada.

– Não dá pra falar enquanto a gente come? – o loiro perguntou com a voz mais rouca que o normal, encostando-se à parede perto da mesa com a xícara velha um pouco torta nas mãos, quase derrubando o conteúdo antes de perceber e tomar outro gole.

– Vocês não comeram nada ontem, então comam e não me encham o saco. E é pra comer, não pra engolir. Não vou levar ninguém pro hospital com indigestão...

– Velho rabugento... – murmurou para si enquanto via o homem abandonar o cômodo sem olhar para trás, deixando-os sozinhos.

Eu sou você amanhã! – respondeu já da biblioteca – E sou velho, mas não sou surdo.

Ergueu as sobrancelhas, talvez quase divertido com a resposta do velho, mas voltou a tomar seu café em silêncio, ainda introspectivo, enquanto Sam tomava o dele em igual silencio.

Dean acabou tomando somente café preto, encostado agora contemplativamente a pia, olhando o tempo todo a paisagem janela a fora. Sam ainda tentou comer metade de um pão, mas acabou deixando metade do que pegou. Estava tão tenso e cansado que não conseguiu fazer mais nada descer pelo seu estomago.

Bobby lia um livro na biblioteca quando eles entraram, talvez uns 12 minutos depois. Os dois sentaram de frente para o velho, que não fazia menção a desviar a atenção do livro, e aguardaram.

– Antes de começar a falar, quero saber se mais alguma coisa estranha aconteceu além do que vocês já me contaram sobre o Adam.

Nessa hora Dean olhou pra Sam. Muita coisa tinha acontecido, o problema era que seu irmão não sabia que ele tinha realmente escutado sua conversa com o caçula. Então, era melhor falar apenas do acidente da estrada, por hora.

– Bom, teve o acidente do Sam...

– Capotei o carro na estrada Bobby. – pronunciou-se pela primeira vez desde que Dean desceu, se ajeitando como pôde na cadeira velha da biblioteca.

– E o que tem de estranho você ser um péssimo motorista? – respondeu prontamente e Dean foi obrigado a dar um sorrisinho a esse comentário.

Bufou irritado a isso, mas nada comentou sobre a ofensa, voltando a falar sobre o acidente. – Eu vi uma mulher no meio da estrada. Ela apareceu do nada, toda ensanguentada, na frente do meu carro. Na tentativa de desviar dela é que perdi o controle e capotei ... Quando consegui sair do carro, ela simplesmente tinha sumido.

Bobby levantou a sobrancelha, intrigado. – Mas você chegou a olhar em volta, procurou outro sinal de acidente ou alguma coisa assim?

– A estrada estava deserta e no estado que ela estava, não conseguiria ir muito longe. E de qualquer forma, essa mulher que eu vi, li uma reportagem sobre ela. Ela morreu em 1998.

Guardou-se um silencio tenso por alguns instantes e então Dean tomou a palavra, contando sobre o que ouviu da conversa dos policiais no bar. E Bobby não pôde deixar de notar que era o inicio da historia que John havia lhe contado.

Ficou um tanto puto por saber que ele lhe havia omitido toda a parte referente a Sam, mas se levasse em consideração que John conhecia muito bem sua opinião sobre eles terem o direito de saber a verdade, era óbvio que ele lhe esconderia isso. E com certeza assim como estava puto agora, John ficaria consigo quando soubesse que ele havia contado algumas partes da historia para os meninos, partes de um todo que John deu o sangue para omitir. Mas contar ou não deixara de ser opcional há algum tempo.

– Bem, talvez eu não seja a pessoa certa a contar todos os fatos para vocês, então vou contar aquilo que acho que me cabe e o resto, vocês podem perguntar ao John quanto o encontrarem novamente. – começou quase num suspiro cansado, finalmente largando o tal livro de lado. Que agora, largado sobre a mesa dava para ver claramente que era sobre ocultismo. – Não sei se vocês se lembram, mas eu os conheci quando tinham 10 e 6 anos. Seu pai chegou aqui, perdido, em busca de respostas que um amigo em comum achou que eu poderia dar.

– Que tipo de respostas? – o mais velho perguntou.

Relutou por um momento. Sabia que, principalmente para Sam, não seria fácil ouvir nada daquilo.

– Bobby, por favor?

Ao ouvir o apelo do mais novo, suspirou e começou a falar:

– Olha garoto, pra começo de conversa, nada do que você vai ouvir aqui é culpa sua, está ouvindo? Não te quero chorando pelos cantos como uma menininha depois.

Sam franziu a testa, confuso, mas assentiu com a cabeça. Dean simplesmente o olhava, fixo e concentrado, aguardando.

– A coisa toda começou com a morte da sua mãe, Sam. Seu pai pirou. Inventou uma história louca de que um homem havia matado sua mãe porque queria você e depois disso, passou a achar que estava sendo perseguido. Chegou a dizer até que você, um bebezinho na época, queria matá-lo. Foi nesta época que ele abandonou você aos cuidados do John e da Mary e eles realmente ficaram felizes em ter você, pelo que seu pai me contou. Tudo ia bem, até a noite em que Mary morreu.

– Mas aquilo foi um acidente, não foi?

– Não Dean, não foi. Segundo a única testemunha, havia um homem na casa, mais especificamente, no quarto de Sam, quando Mary morreu.

– Testemunha? Que testemunha?

Você.

Com a resposta de Bobby, Sam fechou os olhos. Começava a entender sinceramente porque o irmão o odiava.

– Eu? Como assim 'eu'?

– Você foi encontrado inconsciente na frente do quarto do seu irmão e sua mãe morta ao pé da escada. No caminho pro hospital, na ambulância, você delirava e chamava seu pai, dizendo que o homem de olhos amarelos queria pegar seu irmão.

Ao fim da declaração de Bobby, o silencio foi sepulcral. Dean fechou os olhos com força, angustiado com a lembrança horrível do sonho que tivera alguns dias atrás. Sam permaneceu o tempo todo de cabeça baixa, numa vontade louca de chorar como uma menininha, exatamente como Bobby disse que não queria.

– Depois que você melhorou e que Sam cresceu um pouco mais, seu pai passou a ter uma determinação quase doentia de descobrir quem era o tal homem que estava atrás do seu irmão e porque num espaço tão curto de tempo, ele tinha feito tantas vítimas. Descobriu nisso, que a maioria das lendas urbanas que conhecemos são reais e por 6 longos anos seu pai se tornou um caçador implacável. – fez uma pausa para respirar, esperando talvez que algum deles o interrompesse para declarar que aquilo era insano e não fazia o menor sentido, mas tudo o que teve foi o silencio deles mais uma vez. – Numa das muitas caçadas dele, ele resolveu levar vocês, pois ficaria muito tempo afastado, chegou até a matricular vocês em uma escola local. Lá ele descobriu que possessão demoníaca é tão real quanto todo o resto, e que a solução para o problema é o exorcismo. A pessoa possuída era uma professora de Sam, e antes do demônio ser exorcizado, ele falou claramente com John que eles estavam vindo atrás dos seus meninos. A pessoa que fez o exorcismo era o amigo comum que falei a vocês e depois disso, ele encaminhou seu pai e vocês a mim. Ajudei seu pai em algumas pesquisas, ensinei algumas coisas sobre o assunto, principalmente como defender vocês dessas coisas, mas John estava com medo de perder vocês e resolveu que a melhor forma de combater tudo isso era parar de procurar. Foi então que ele voltou pra Lawrence e reconstruiu a vida dele. Um ano depois nascia o irmão de vocês e John nunca mais tocou no assunto. Até anteontem.

– Então ele não veio atrás de peças e nem foi ver nenhum cliente, certo? – murmurou ainda de cabeça baixa, brincando com os próprios dedos, forçando para sua voz não soar engasgada.

– John descobriu uma relação entre o rapaz que morreu na estrada que Dean comentou e o homem de olhos amarelos. Aparentemente a vida do tal rapaz que morreu no acidente é marcada por um estranho incêndio quando ele tinha seis meses, onde os vizinhos juram que, no meio do fogo, viram um homem no quarto do bebê.

O loiro não aguentou mais ficar sentado e se pôs de pé, caminhando para trás da cadeira onde estivera sentado. – Então o pai foi investigar isso.

– Foi. Não sei dizer a vocês quando ele vai voltar. Tentei falar com ele mais algumas vezes, mas ele não me atende.

– Isso não faz sentido. Não faz o menor sentido Bobby... – falou outra vez, sem conseguir evitar o tom urgente em sua voz e levantou assim como o mais velho. – Aquilo que me pegou pelo braço não era um homem, era o Adam ali! Estava dentro dele e não era humano. Então o que era?

–... Um demônio.

-x-


*Aqui, Vila Sésamo

N/A: Informações referentes à mecânica foram pesquisadas devido à completa ignorância desta que vos fala sobre o assunto.

Fanfic Executada em conjunto. Numa Co-Autoria Lothus&Maru, mas como a Lothus não possui perfil neste site, estou postando por conta aqui. Mas os louros (se eles existem) definitivamente não são apenas meus, pois esta história não existira como existe sem ela.

Espero que tenham gostado! Até a próxima!