CAPÍTULO 10

O final de semana seguinte a essa sexta feira maravilhosa foi tranqüilo. Cee Cee e Adam vieram passar o sábado comigo – Jesse não ficou dessa vez, mas apenas para nos deixar mais a vontade – e no domingo eu fui fazer compras com minha mãe. Fazia tempo que não saíamos juntas e eu me diverti bastante.

Então chegou a segunda feira. Mais uma semana de aulas insuportavelmente chatas com professores metidos a besta que não sabiam fazer outra coisa que não reclamar e passar trabalho atrás de trabalho. Mas tinha a vantagem que agora eu teria a escola só para mim. Digo, sem fantasmas. A única coisa que aconteceu de diferente – e bom – naquele dia foi a completa e total humilhação de Kelly durante o horário do almoço.

Eu estava sentada numa mesa com Cee Cee e Adam quando eu vi Jake passando por mim e deu uma leve piscadela na minha direção. Nossa, ele já vai por em prática o plano? Garoto rápido esse. Ele sumiu por alguns minutos voltando com a maior cara de quem ia aprontar alguma e sentou numa mesa perto da minha. Eu podia notar que ele estava fazendo um enorme esforço para não rir, seu rosto contraído numa careta estranha. Essa eu não ia perder por nada. Parei de comer e procurei Kelly com os olhos. Ela estava sentada a apenas duas mesas à minha esquerda junto com as amiguinhas inseparáveis dela. Então eu ouvi o grito:

- Kelly, meu amor, nem me esperou para almoçar.

A voz vinha saindo do interior do colégio seguida de um garoto com pinta de galã. Bem, eu não chamaria exatamente de galã. Mas ele estava com uma rosa vermelha na mão, o que podia dar essa impressão.

Henri. Ele era um sujeito bem peculiar. Não é que ele fosse feio. Na verdade ele tinha tudo pra ser bonito. Seu rosto era bem definido, mas um tanto infantil, sua pele era levemente bronzeada e seus cabelos pretos eram lisos. O problema era que ele usava tanto gel para deixá-los no lugar que quando o sol batia na sua cabeça, mais parecia uma bola de bilhar. E ele usava uns óculos tão feios que escondia toda a beleza do seu rosto. E isso sem falar da sua roupa. Ele usava uma camisa horrorosa xadrez de amarelo com azul e vermelho e um colete cinza por cima. Sério! Um colete! Ah, e ainda tinha a sua calça jeans que de tão curta deixava sua meia branca visível. E para fechar o pacote ele usava sapato marrom caramelo social. Credo! Nerd!

Epa. Peraí. Eu já vi esse cara antes. Quando ele se aproximou mais eu o reconheci. Não o conhecia pessoalmente, é claro, mas já tinha visto aquela figura na escola. Mas ele estava diferente. Estava mais... nerd. Olhei para Jake e ele sorria satisfeito. Minha nossa! Ele aprende rápido. Além de planejar tudo em tempo recorde ele ainda deixou aquela criatura ainda mais nerd do que antes.

Pelo visto ele estava com mais raiva da Kelly do que eu pensei. Tenho que me lembrar de nunca irritá-lo.

Kelly e suas groupies olhavam abismadas para a aparição. Aliás, todo pátio olhava para a cena. Talvez não pela aparência medonha de Henri, mas pelas suas palavras. Ele se aproximou mais da "vítima" e lhe ofereceu a rosa. Ela com certeza ainda estava em choque porque aceitou o presente.

- Meu docinho, que coisa feia. Você prometeu que almoçaríamos juntos hoje. – ele tinha um leve sotaque deixando tudo ainda mais hilário.

- Hein? – foi só o que ela conseguiu dizer.

Ele riu gracioso e passou a mão nos seus cabelos loiros oxigenados. Aí a ficha caiu.

Kelly se levantou de supetão e o olhou furiosa jogando a rosa no chão.

- Que merda é essa?

- Por que você jogou a rosa no chão, meu docinho? – ele perguntou com fingida mágoa. Bem, fingida pra mim que sabia a história, mas ele interpretava muito bem.

- Que merda é essa, seu nerd?

- Ah, ontem você não me chamou de nerd.

- Quê?

- Como era mesmo que você me chamava? - ele tocou com o indicador no queixo como se estivesse pensando. – Ah, sim! Francês gostoso.

Ai meu Deus. Sabia que devia ter ido ao banheiro antes do almoço. Muita água na bexiga, muita água mesmo! Mas daqui eu não saio, daqui ninguém me tira. Eu fazia nas calças, mas não perdia essa cena por nada!

- Quê? – ela perguntou novamente, sua voz saindo esganiçada.

- Não vai me dizer que você sofre de amnésia e não lembra de ontem?

- Do que é que você tá falando, seu idiota?

- Da nossa tarde maravilhosa, meu docinho.

Kelly olhou aparvalhada para o sorridente Henri. O diálogo parecia um jogo de ping-pong, todos olhando de um para o outro sem falar nada. Estava um silêncio sinistro no pátio. Quem estava mais afastado da dupla já se levantava para se aproximar e ouvir tudo nos mínimos detalhes.

- Meu Deus, eu não acredito que Kelly trans... – Adam falou, mas foi interrompido por uma Cee Cee que sorria de orelha a orelha, seu rosto vermelho de excitação. Era a repórter em ação ouvindo a notícia bombástica.

- Shhh... eu quero ouvir.

Se ela não publicasse essa fofoca no jornal da escola eu não me chamava Suzannah Simon!

- Você bebeu ácido sulfúrico, foi?

- Bem, se você vai continuar se fazendo de desmemoriada, eu faço questão de refrescar sua memória. – e para alegria geral da nação – tudo bem que foi só dos alunos mesmo – ele a puxou e beijou sua boca coberta por um batom vermelho berrante.

Nunca em toda minha vida eu havia visto um CDF com tanta atitude. Das duas uma: ou ele era um galante nato e o "pedido" do Jake só fez despertar esse lado nele, ou Jake pagou muito bem por aquilo. Pessoalmente, eu acreditava mais na segunda hipótese. Era demais para a minha cabeça imaginar que um nerd poderia ser conquistador. Ia contra tudo que eu aprendi nesses dezesseis anos.

Kelly o empurrou com força fazendo com que ele cambaleasse para trás. Os lábios dos dois estava borrado pelo batom dela.

- Seu... seu... IDIOTA! – ela gritou tão alto que doeu nos meus ouvidos.

- Eu sei que você gostou, meu docinho. – o cara não perdia a pose com nada.

- Pára... de... me... chamar... de... docinho! – ela continuava gritando ressaltando cada palavra.

- Ontem você gostou!

- Não teve ontem, seu imbecil. – e mais gritos – Eu nem te conheço!

- Ok, Kelly – o que era isso? Raiva? – Agora você está começando a me irritar. – era raiva sim. Fingida, mas era – Se você tem vergonha de mim é só falar. Não precisa ficar fingindo que não lembra de nada. Mas eu nunca vou esquecer da tarde maravilhosa que tivemos ontem.

- Kelly, você dormiu mesmo com esse cara? – uma amiga dela que eu não fazia idéia de como se chamava perguntou olhando para Henri com desdém.

- Claro que não!

- Pode negar o quanto quiser, meu docinho, mas nunca mudará o que sinto por você.

Rá. Jake achou a melhor pessoa sem dúvidas. Essa vingança estava saindo melhor que a encomenda.

Kelly soltou um novo grito e seu rosto ficou vermelho do esforço. Tive que tampar os ouvidos.

- Pára de me chamar de docinho, mongol! – ela repetiu.

- Eu paro se você admitir que gostou da nossa tarde.

- Isso nunca aconteceu! – agora ela não falava mais com Henri. Ela se dirigia ao público que assistia tudo com atenção. – Ele deve ter sonhado com isso. É. Com certeza. – podia notar um leve tom de desespero na sua voz. – É normal essas aberrações terem esse tipo de sonho comigo.

- Kelly, meu docinho – ele se aproximou mais dela e baixou o tom de voz, mas ainda mantendo alto o suficiente para que eu escutasse. Se bem que com o silêncio que fazia ali eu ouviria até uma agulha caindo. – Se eu tivesse mesmo sonhado eu saberia que você tem duas pintas lindas no seu seio esquerdo?

Kelly congelou no local completamente sem reação.

- Kelly, minha nossa – a mesma amiga falou numa voz estridente fazendo com que todos ouvissem –, você tem mesmo essas pintas!

- Cala a boca, Jessica. – Kelly gritou transtornada.

Ok. O nome da amiga – da onça – é Jessica. Agora eu sei.

- Então foi por isso que você não quis sair com a gente ontem? Por causa dele? – outra amiga perguntou, com o mesmo olhar de desdém.

Já estava começando a ficar com pena dele.

- Claro que não sua imbecil. – Eu não chamo minhas amigas de imbecil. Tudo bem que eu não tenho amigas mas... ah, tenho a Cee Cee agora, e eu não chamo ela de imbecil. Não com esse tom. – Eu fiquei em casa lendo.

- Ah, isso é verdade – Henri comentou com um sorriso no rosto – Ela estava lendo quando eu cheguei. Só não digo o que era porque tem menores de idade no recinto.

Ai meu santinho. Será que seria muito humilhante se eu me levantasse com a roupa molhada? Acho que sim, né? Melhor me segurar mais um pouquinho. Adam e Cee Cee e toda a escola ria tanto agora que mal dava para escutar os gritos da louca.

- Nossa, Kelly. Nunca imaginei que seu gosto tinha caído tanto. – dessa vez quem falou foi um dos jogadores de futebol que estava sentado na mesa de Brad. – Você costumava escolher melhor seus parceiros sexuais.

- É mentira! É mentira dele. – agora seu desespero era completamente óbvio. Ela gesticulava freneticamente e sua voz tremia. – Por que vocês estão acreditando nele?

- Por que tá bem óbvio que ele tá contando a verdade! – alguém falou mais ao fundo. Não conseguia ver quem era.

Kelly agora estava tão desesperada que só não arrancava os cabelos porque ela prezava muito sua aparência. Ela começou a tremer dominada pela raiva e olhava ao redor procurando algum apoio. Mas é claro que esse apoio não veio. Nem mesmo das amigas dela.

- Quem diria: Kelly Prescott indo para a cama com Henri. – que bom que alguém ali sabia o nome dele.

- Isso vai entrar para a história.

- Nem tudo está perdido nesse mundo.

- Cara! Você é meu ídolo.

E os comentários continuaram por muito tempo, mesmo depois que Kelly saiu chorando em direção ao banheiro das meninas. E gritando é claro.

Olhei para Jake que continuava na mesa dele. Ele ria tanto quanto todo mundo ou mais. Acho que mais, já que ele tinha um interesse pessoal naquilo tudo. E eu podia ver que ele estava mais que satisfeito.

Afora aquilo, o resto da semana foi normal. Kelly continuava sendo motivo de chacota na escola, ainda mais depois que Cee Cee publicou um artigo particularmente interessante sobre a união de classes sociais distintas. E já rolava até um bolão para adivinhar quando Kelly pediria transferência. Mas eu não achava que isso aconteceria. Kelly era orgulhosa demais para se dar por vencida. Mas na quinta feira eu ouvi dizer que o administrador do bolão já estava com mais de dois mil no bolso.

E foi nesse dia que chegou uma nova aluna na escola. Cee Cee que tinha a segunda aula do dia comigo, foi logo me pondo a par das novidades.

- Já viu a aluna nova? – ela perguntou num sussurro quando o professor começou a passar o assunto.

- Não. – respondi no mesmo tom.

- Eu já. Acabei de ter aula com ela. Garota estranha.

- Estranha por quê? – Cee Cee chamando alguém de estranha? Que moral ela tinha para isso?

- Toda de preto. Parece até que está de luto.

- Talvez ela esteja.

- Não. Ela se apresentou. O nome dela é Gina e ela morava em New York. – ela deu uma pausa pensando a respeito - Talvez isso explique as roupas. Aquele povo de lá não gira bem. E ela disse que veio para cá com a família porque o pai dela foi transferido.

- Ah.

- E tem mais, ela não parava quieta na cadeira um só instante. Ficava se mexendo o tempo todo como se tivesse com prego no assento ou sei lá o quê.

Voltamos a prestar atenção na aula, ou melhor, tentamos. O assunto era tão chato que logo eu me peguei sonhando acordada com meu lindo fantasminha.

A aula acabou rápida e eu fui em direção a minha próxima aula. Matemática. Saco! Sentei no meu lugar de sempre no fundo da sala e abri meu livro, distraída.

- Pessoal – ouvi a voz do professor na frente da sala –, hoje temos uma nova aluna conosco.

Ergui minha vista curiosa como todos ali. Toda de preto naquele calor infernal? Realmente ela era estranha. Mas também era muito bonita. Devia ter cerca de 1,80m, seus cabelos cacheados cor de cobre. Sua pele era de um tom café-com-leite e tinha um brinco no nariz.

- Dêem as boas vindas à Gina. – o professor pediu.

Ouviram-se alguns leves desejos de boas vindas, nada muito motivador.

- Nossa. Que povinho fraco. – ela sussurrou antes de sentar na cadeira que o professor indicara, duas cadeiras a frente da minha na fileira ao lado.

Eu ri baixinho com o comentário pensando que poderia me dar muito bem com ela. Mas esse pensamente logo se provou errado quando eu vi que ela não estava sozinha. Uma mulher estava parada do seu lado flutuando alguns centímetros sobre o chão. Uma pessoa que trazia um fantasma para a minha escola recém dedetizada não poderia ser boa.

Mas agora eu entendia o que a Cee Cee disse sobre a garota ficar se mexendo na cadeira o tempo todo. Mas não era por causa de pregos. Os humanos normais podem não ver os fantasmas, mas não era difícil sentir o calafrio quando algum deles atravessava seu corpo. E era exatamente isso que o fantasma da mulher estava fazendo. De cinco em cinco minutos, mais ou menos, ela fazia com que seu braço entrasse na cabeça da assombrada ou nas costas.

Queria fazer com que ela parasse com aquilo, mas não era o momento. Iria esperar até a aula terminar, puxaria a dita cuja para um canto e trataria de fazer com que ela seguisse logo seu caminho para que eu pudesse voltar a minha calmaria.

E foi o que eu fiz. Assim que terminou a aula eu me levantei fazendo o máximo de barulho possível para atrair a atenção do fantasma. E assim que ela olhou na minha direção eu a encarei por um tempo para que ela percebesse que eu podia vê-la. Ela ficou surpresa é claro. Eu passei em direção a porta tomando cuidado para não esbarrar nela por acidente. Olhei novamente nos seus olhos indicando que ela me seguisse.

Entrei numa sala vazia e esperei ela chegar. Assim que ela entrou atravessando a porta eu fui logo falando.

- Isso que você fez durante a aula foi muito errado. – repreendi.

- Então você pode mesmo me ver. – ela era muito bonita. E agora, olhando-a tão perto podia ver que era jovem também. Deveria ter a minha idade. Seus cabelos loiros esvoaçavam por cima do seu vestido branco.

- Parece bem óbvio não?

- Como é seu nome?

- Pra quê você quer saber meu nome?

- Gosto de saber com quem estou falando. O meu é Stephanie, a propósito.

Ai que saco. Ainda tinha que bater papo com fantasmas?

- Suzannah.

- Prazer, Suzannah. – sua voz era meiga.

- Então, o que você quer?

- Vai logo assim? No seco mesmo? – ela parecia ressentida com minha grosseria.

- Quê?

- Sei lá... nem pra perguntar como eu morri.

E isso lá me interessava.

- Desculpa, mas eu não costumo fazer amizade com gente morta. – apenas com uma exceção.

Mas isso não vinha ao caso.

- Epa. Magoou.

- Falei alguma mentira?

- Bem... não.

- Então?

Mas ela continuou calada. Tudo bem. Não tinha muito tempo mesmo e se fosse o único jeito de fazê-la falar, não importava.

- Ok. Me diga então, Stephanie, como você morreu? Mas por favor, quero a versão mais resumida possível porque ainda tenho que ir para a aula.

Mas ela não teve tempo de contar nenhuma das versões porque nesse momento a porta se abriu e ninguém menos que Gina entrou por ela.

- Oi. – ela falou fechando a porta.

- Oi.

- Gina. – ela estendeu a mão num cumprimento.

- Suzannah. – apertei a sua mão desejando que ela vazasse logo dali para eu me livrar daquela garota fantasma.

Ela soltou minha mão e me olhou curiosa.

- Com que você estava falando? – perguntou.

- Eu? – franzi a testa num gesto displicente. – Ninguém.

- Pensei ter ouvido a sua voz.

- Impressão sua. – Vaza, sua curiosa!

- Ela estava falando sim. – Stephanie falou sorridente – Estava falando comigo.

Gina me olhou com seus olhos brilhantes e sorriu.

- Vejo que já conheceu Stephanie.