Capítulo 9 – A Volta do Segundo Esquecido
Os três amigos treinaram juntos durante alguns dias. Spark agora, graças à ajuda das duas, já se movia ágil e implacável como antes. De vez em quando era confrontado por algum novato que queria provar sua força. E junto com Silly e Dizzy não se sentia só. Ainda sentia falta de seu irmão. Mas já não procurava mais. Havia desistido. Não fazia nem ideia de por onde começar. E ninguém encontrara pistas. Mas os treinamentos com as duas passaram mais rápido do que ele queria. Seu nível de conhecimento superava o delas, os treinamentos delas eram muito leves para alguém do seu patamar. Mas não passava nenhum dia sem vê-las ou assistir seus treinos. Todo dia se juntava a Thews e alguns soldados veteranos para executar missões mais complexas ou apenas dar continuidade a treinamentos. Ele agora era respeitado como líder. Suas ordens eram cumpridas. As pessoas o cumprimentavam quando o viam. E alguns, com bem pouca sanidade mental obviamente, desafiavam-no para lutas. E assim foi um dia quando uma pequena guilda, de apenas 12 integrantes, o chamou para um desafio. Apenas ele contra os 12. E aconteceu em Gliter, a grande cidade da União. Não foi surpresa para ele continuar de pé e ver os 12 caírem após a rápida batalha. Mas aquilo impressionou muito os que assistiam.
Durante a tarde de um dia monótono, Spark foi surpreendido por uma voz suave que retumbava firme e amorosa em seu crânio. Mas ele sabia que a voz de sua mãe era apenas um chamariz. Uma faceta que escondia seu ódio abrasante e sua inveja enervante.
- Meu filho, já faz tanto tempo. Por anos tentei acordá-lo, mas a oportunidade não me surgia. Agora eu o acordei, e peço que tome a frente dos meus exércitos. Você precisa dar continuidade ao que começamos um dia no passado! Junte aqueles iguais a você! E assim...
Mas ele a cortou. Aquele discurso mentiroso o fazia enjoar. Spark podia não ser tão inteligente quanto Bolt, mas não era estúpido. Já havia chegado à conclusão de que seu sumiço era obra da Deusa, e seu despertar também deveria ter sido. Se ela o despertou quase um século depois, poderia ter despertado mais cedo. Como um verdadeiro filho da Fúria, ele estava com raiva. Muita.
- Chega dessas palavras venenosas 'mãe'... A senhora não me intimida. Já tenho pessoas iguais a mim a minha volta. E não me venha com essa de que tentou me acordar, pois sei que do jeito que adormeci, só a senhora tem poder para isso! Então, se não quer ver a situação piorar, acorde meu irmão! Eu e você não começamos nada no passado! Mas eu e meu irmão sim! Acorde-o já.
Ela riu, uma risada sem graça, sem emoção. Um deboche das ameaças.
- Meu querido filhinho rebelde, o que acha que fará contra mim se eu não acordar seu irmão? É verdade, eu os coloquei para dormir, e acordei somente você, pois apenas preciso de você. Mas se não obedecer minhas ordens, acabo com sua alma, aqui e agora. Em que baseia suas ameaças contra mim?
- Não são ameaças. São promessas. Você não tirará minha alma, pois se pudesse fazer, já tinha feito ao invés de me colocar para dormir. Você precisa de mim. Se quiser destruí-la, venha, destrua... Vamos ver do que a senhora é capaz.
O ódio da deusa retumbou com uma intensidade mortificante. O fogo em sua alma queimava tão intenso que Spark sentia o calor na própria carne. A Deusa suspendeu o contato entre eles. Spark, que havia prendido o fôlego, respirou, se apoiou nos joelhos, e reconheceu o medo. Nunca iria se intimidar perante ninguém, mas aquilo tinha sido estupidez. Enxugou o suor crescente na testa e jogou os cabelos cor de gelo para trás. Ele precisava descansar.
Mas era verdade, a Deusa precisava dele, então, contrariada e com raiva fervilhante, foi de encontro ao espírito de seu filho mais velho. Era um espírito mais forte que do mais novo, foi fácil de encontrar. Abraçou-o e soprou-lhe vida. E assim como chegou, saiu, e deixou novamente o filho sozinho.
Bolt respirou, se engasgou com o ar que a muito não entrava em seu peito. Tentou abrir os olhos, mas a coordenação lhe faltava. Tentou se mexer, mas seus músculos apenas se contraiam a esmo. Parecia um peixe retirado da água. Então, forçou-se a se acalmar e a pensar. O que estaria acontecendo? Concentrou-se para abrir os olhos. A luz causou dor intensa. Depois se concentrou em mexer o braço direito. Com muito custo foi pegando o jeito. E durante vários longos minutos repetiu este processo com cada parte de seu corpo. Reaprender a falar foi a parte mais difícil. A dor ainda era insuportável. Aos poucos conseguiu se colocar de pé, os ossos de seu corpo reclamavam a cada vez que ele tentava ficar ereto. De um jeito um tanto encurvado, foi andando a passos vagarosos e curtos até a saída dos escombros onde se encontrava. Reconheceu o local como arredores do laboratório Panakeia, próximo ao grande lago de Gliter, que agora eram ruínas escuras. Pelo menos o local ele ainda conhecia. Já era um começo.
Assim que saiu dos escombros, foi surpreendido por uma víbora, uma criatura aquática que da cintura para cima é uma mulher escamosa, e da cintura para baixo é uma serpente. Ele não teve tempo para reação, e foi derrubado por um golpe de rabo da criatura. Mas ele era um pagão experiente, e, ainda caído no chão, concentrou sua energia no ar, e com uma poderosa ondulação, transformou as correntes em um poderoso turbilhão. A víbora, sem chance de reação, foi pega pelo tornado que se formava em volta dela. Foi arremessada alguns metros para cima, e quando se chocou com o chão, não se mexeu mais. Mas aquele gasto de energia, que normalmente não seria notável, foi um gasto vital naquele estado. Mas a situação não lhe permitia ficar ali caído, pois a rápida batalha foi suficiente para chamar a atenção de outras víboras nas redondezas. Ele precisava sair dali, e rápido. Com a ajuda do cajado, se pós de pé. Suas costelas esquerdas, onde o rabo da víbora o havia atingido, urravam de dor. O mais rápido que a situação lhe permitia, se arrastou até uma alameda que subia uma colina. Se apoiando nas árvores, reconheceu o caminho que levava até Starfumos, e para lá seguiu. A cada passo, não imaginava que conseguiria continuar. Sua concentração para caminhar era pontuada por perguntas "O que aconteceu?", "Onde estão todos?", "Por que estou nessas condições?"...
Dizzy e Spark estavam sentados na beirada do monumento central de Starfumos, conversando sobre as pessoas que passavam e rindo de piadas bobas, quando avistaram Silly correndo apressada até eles. Seu rosto era um misto de empolgação e dúvida. Ao chegar, nem se cumprimentou, apenas olhou rápido para eles e se dirigiu ao assassino.
- Precisava logo te encontrar. Acabo de ver uma coisa, não sei o que pensar... Pela bandeira, pela descrição física, pelo modo como se comportava... Talvez seja, mas talvez não seja... Preciso que você veja também, e me diga se é quem eu imagino que seja.
- Calma, respire, fale devagar. Quem você viu?
- Venha ver com seus próprios olhos. – A pagã agarrou o pulso do amigo e o puxou.
Ela os guiou por uma trilha ao sul de Starfumos, e foram descendo a trilha até uma bandeira de guilda se destacar no meio da paisagem. A bandeira da Fallen. Ao ver a bandeira, Spark parou de correr, parou de andar, parou... Mesmo com sua visão élfica, apertou seus olhos para tentar enxergar quem estava sob a bandeira. Reconheceu o rosto anguloso de seu irmão. Reparou que caminhava com dificuldade, mas não se alarmou, afinal, já tinha passado pelo mesmo estágio de recuperação. Então retomou seu caminho calmamente até ele. Spark tentava não ser caloroso. Ao ver seu irmão, apenas sorriu, olhou firme para ele e disse desdenhosamente.
- Precisamos fazer você se acostumar ao seu corpo o mais rápido possível. Seu estado é deplorável.
- Seu eu não tivesse que poupar energia, te mostrava o 'deplorável'. – chiou Bolt colocando a mão no ombro do irmão.
O resto da tarde passou voando. A noite caiu sobre eles, e uma lua cheia a iluminava como se fosse dia. Spark estava feliz. Não demonstrava, como sempre, mas estava. Silly e Dizzy estavam ajudando Bolt, elas tinham curiosidade sobre o irmão do assassino, pois além de por várias semanas Spark só falou em encontrá-lo, era um pagão digno de mitos. Para as duas pagãs, já era quase um ídolo. Thews também já havia chegado. Foi o primeiro a receber a notícia de que Bolt havia retornado. Os cinco conversaram sobre muitos assuntos, colocaram Bolt aparte do que havia acontecido. Mas o pagão ainda estava muito debilitado, e precisava descansar.
Logo ao amanhecer, Bolt tentou abrir os olhos. Era realmente trabalhoso. Mas a ajuda dos novos amigos já tinha feito muito bem. Não sentia mais tanta dor. Mas a dificuldade ainda era grande. A primeira coisa a notar quando olhou em volta foi seu irmão parado na janela do quarto, olhando para fora. Spark notou que o irmão tinha acordado e foi até ele.
- Bom dia, está se sentindo melhor?
- Me sinto atropelado por uma manada de bisões. – disse Bolt tentando se sentar e percebendo que não era fácil. Preferiu continuar deitado.
- Isso passa. Trouxe para você uma nova armadura.
- Obrigado. Me diga uma coisa, de quem é essa casa?
- Nossa. Minha e sua. Não fiquei atoa desde que acordei. – falou o assassino com um sorriso orgulhoso no rosto.
- E como conseguiu isso? Essa é uma das casas mais bem posicionadas de Starfumos. – Bolt ergueu uma sobrancelha.
- Tenho contatos! E influência!
Bolt ergueu a segunda sobrancelha e perguntou.
- Foi com ouro né.
- Muito! Por sorte as missões que necessitam de pessoas como nós pagam bem! – disse Spark rindo. Agarrou uma caneleira de aço e a atirou para Bolt enquanto falava. – Tome, vista-se logo, não temos o dia todo.
- Você sabe que não gosto de grevas. Prefiro uma malha simples. Me de estas luvas que você trouxe. Delas eu gostei. E me entregue esta cota de couro. Obrigado. Ajude-me a vestir esta cota. Meus músculos ainda não estão me respondendo bem.
- Não entendo como não gosta de uma armadura de metal. É mais intimidante. E mais útil que o simples couro.
- Irmão, não sei de onde você tirou que eu aguentaria correr e me concentrar por aí com uma armadura que pesa o mesmo que eu. Seria idiotice minha. Não possuo força física. Bom, vamos, me dê uma ajuda, ainda não me movimento com liberdade.
Saíram para a pálida manhã, Spark sustentava Bolt pelo ombro. Dizzy já esperava por eles com alguns suprimentos à margem da estrada que saía a leste de Starfumos. Sorridente, cumprimentou os dois irmãos, e então se virou para Spark.
- Tudo certo então? Eu vou com vocês, mas Silly não poderá ir, ela tem outros assuntos para resolver.
- Ok, sem problemas, mas eu também não irei treinar hoje. Quero tirar uma dúvida minha. Vão vocês dois. Sigam para onde tínhamos combinado de ir, se eu resolver rapidamente corro para lá.
Bolt olhou para os dois, e um pouco confuso, talvez até um pouco com raiva, perguntou.
- Qual o combinado, e porque só soube dele agora?
Dizzy olhou para ele de modo gentil, e sua voz amável pareceu acalmar Bolt.
- Eu e Spark refletimos sobre qual o modo de fazer você se recuperar o mais rápido possível. Íamos te levar ao mesmo lugar onde eu e Silly treinamos com seu irmão para recuperação dele. Mas parece que agora seremos só eu e você. Spark, aonde você vai?
Spark já estava começando a dar alguns passos de volta ao centro de Starfumos. Olhou por cima do ombro e gritou.
- Estou indo para Íris, preciso conferir uma coisa! Depois vou até vocês! Boa sorte!
Dito isso, começou a correr, e instantaneamente se misturou à multidão que se acotovelava em Starfumos. Dizzy e Bolt tomaram uma trilha tortuosa que levava até a Base no porto de Aumeros, e de lá tomaram uma trilha sul. Quando Aumeros era nada mais que um pontinho ao longe, eles pararam. Saíram da trilha e começaram uma árdua descida pela encosta de uma montanha, que levava ao fundo de um vale. Dizzy reteve a descida, estava difícil descer a encosta íngreme carregando seu cajado, suprimentos, o cajado de Bolt e ajudando o próprio Bolt. Respirando fundo, sussurrou para ele.
- Aqui é território dos trolls. Eles são burros feito uma pedra, mas são duros como pedras também. São facilmente derrubados por magia, não teremos problemas. Mas cuidado, alguns deles carregam porretes do nosso tamanho. No seu estado, um único golpe pode ser fatal.
- Obrigado pelo aviso. Eu me lembro do que são trolls, eles existiam na minha época. A descida está difícil, mas uma vez lá em baixo, creio não ter problemas para me manter de pé e atacar.
Continuaram a descida até o vale. Rapidamente se colocaram atrás de uma grossa árvore marcada por golpes pesados que esmagaram sua casaca e a racharam em algumas partes. Um troll estava a alguns metros deles e não parecia ter percebido a chegada dos dois. Continuava cutucando seu enorme nariz com um pedaço de galho seco. Bolt e Dizzy se entreolharam, mas ela não tomou atitude alguma. Seria fácil para ela subjugar o troll, mas seu objetivo ali era apenas auxiliar Bolt a retomar pleno controle sobre seu corpo e energia. Então ele saiu de trás da árvore, e rastejou por entre algumas moitas de arbustos espinhosos. A malha que Spark havia lhe entregado era realmente boa. Não sofreu nenhum dano pelos espinhos. A apenas alguns passos do troll gigantesco e estúpido, Bolt se levantou, mas ficar ereto era difícil, e involuntariamente arquejou. O troll não era inteligente, contudo, tampouco era surdo. Virou-se e encarou o pagão.
"Vamos ver se você vale as histórias a seu respeito!", pensou Dizzy sorrindo de empolgação.
Bolt tinha experiência suficiente para não se abalar com o tamanho intimidante da criatura. Dizzy tomou uma posição de ataque ao sair por trás da árvore. Qualquer movimento em falso, ela daria fim no perigo, mas estava curiosa para ver o que o pagão conseguiria. Mas Bolt provou que não haveria perigo. Com palavras rápidas, invocou grossas raízes do solo, que prenderam o troll ao chão, as quais ele partiu com facilidade. Mas não foi rápido o suficiente para se livrar de uma bola de fogo que o atingiu em cheio. E não foi o bastante, pois logo seguido da bola de fogo, Bolt conjurou uma esfera de energia bruta, que foi engolida pelo fogo que acabava de colidir com o monstro. A grande quantidade de energia bruta alimentou as chamas mágicas, e a explosão foi suficiente para sumir com metade do troll, de pelo menos 4 metros de altura. Dizzy ficou impressionada. Combinar formas distintas de energia para potencializar o efeito delas era realmente trabalhoso, e Bolt fez isso mesmo controlando muito mal a sua própria. Então ela não se preocupou mais em ajudar com a adaptação dele, e apenas observou o modo como as magias de elementos diferentes bem combinadas fulminavam os trolls pelo caminho.
Passadas horas assim, Bolt havia vacilado algumas vezes. O gasto de energia com magias simples ainda pesava sobre seu corpo. Algumas vezes havia caído de joelhos durante uma conjuração de feitiço, mas nada muito agravante. Dizzy já havia pensado nesta possibilidade, e preparado com seus suprimentos algumas ervas e frutos que diminuiriam a dor, o peso dos músculos, e o gasto de energia de Bolt. E em apenas um momento Dizzy precisou gastar sua própria energia. Bolt havia começado a conjurar um feitiço complexo contra um troll quando outro monstro, carregando um tronco rusticamente transformado em porrete quase do tamanho do próprio troll, chegou por trás saindo de uma caverna oculta pela encosta de uma montanha. Ele ergueu o porrete, mas antes que pudesse desferir o golpe, Dizzy fez o céu rasgar em uma tempestade elétrica, e transformou tanto o porrete quanto o troll em uma grande massa carbonizada. E durante horas treinaram lá, e a cada troll caído, Bolt se sentia mais confiante, e mais acostumado ao próprio corpo.
Spark demorou muito tempo para chegar a Íris, o sol já se punha quando finalmente encontrou o que procurava. Em um canto isolado da cidade comercial ele avistou várias feras domadas, presas por grossas correntes. Grandes dragões e panteras negras, lobos e basiliscos. Aproximou-se das feras. Automaticamente sua atenção ficou presa a um lobo de presas grandes, e uma sela de aço prateado. Um comerciante magro, de rosto sorridente e jeito astuto se aproximou.
- Lindo, não é? Meu melhor animal. Leal ao dono, feroz com todo o resto que se move ou respira. Consegue deixar os outros para traz em segundos durante uma marcha, e aguenta carregar facilmente grande peso. Para você, um preço especial, 70 milhões em ouro.
- Preço especial? Minha casa foi mais barata.
E olhando mais para o fundo, avistou uma pantera negra, amistosa, olhava firme. O assassino foi até ela, fez uma mesura, e a pantera fez uma brincadeira carinhosa com a pata. Spark foi até o comerciante, que a essa altura já não estava tão contente.
- Quanto você cobra pelas panteras?
- Depende, para você faço por 15 milhões em ouro cada uma.
Aquela quantia Spark possuía. Sua vontade foi levar duas das panteras consigo, mas outra pessoa andando por ali lhe chamou a atenção. Uma assassina olhava interessada para os animais. A bandeira da Senhores das Sombras também ondulava com ela presa em seu ombro. O comerciante correu até ela, e com tom mais educado e respeitoso possível lhe dirigiu a palavra.
- Ahhhh senhorita Gleed, finalmente se decidiu qual montaria vai comprar? Estou com uns animais novos aqui comigo. Extremamente especiais como havia pedido. Venha dar uma olhada.
Spark estava curioso. Ela usava armaduras como as dele, o que indicava que ela era de alta classe. Assassinos de patamar mais altos eram raros, e aquela assassina lhe despertou a curiosidade. "Gleed... quem é você? Bom, não custa tentar descobrir...".
