Capítulo 10 – Perseguida.
O HÓSPEDE
Depois que saí da casa de Vee, caminhei pelas ruas escuras. Não era muito tarde, iria a pé mesmo para casa. A casa de Vee não ficava tão longe da minha casa, mas também não ficava tão perto. Era uma boa esticada de pernas, para uma pessoa quase sedentária.
Meu telefone tocou no bolso, sabia que era Vee, mas iria ignorar. Estava chateada com ela, por ficar zoando minha confusão em relação à Patch. Poxa, ela era a minha melhor amiga, o dever dela era me dar bons conselhos e não zoar como ela fez.
O telefone tocou, e tocou. Sabia que ela era insistente quando queria.
– O que você quer? - disse assim que atendi.
– Aonde você está?
– Indo para casa. Vou desligar.
– Não, não. Não desliga. Olha, desculpa por ficar rindo assim de você. – aumentei mais os passos naquela rua. - Por que você não volta para cá e terminamos de fazer o seu cabelo? Vem! Prometo que não vou mais tocar no assunto proibido.
Revirei os olhos com aquela conversa mole dela.
– Sinto muito. Eu queria saber como você se sentiria se eu ficasse te zoando com Scott.
– Deixa de ser falsa, Nora. Você vive me zoando quando eu toco no nome daquele idiota.
– Mas eu não o chamo de Scott Gostosão.
– Mas você o chama de Scott O Mijão.
– É diferente. Ele urinava nas calças quando era pequeno.
– Espera! Você está mesmo toda nervosinha por que eu chamei seu objeto de desejo de gostoso?
Não respondi, e Vee caiu na gargalhada. Desliguei na cara dela.
Chata.
Virei a próxima esquina que daria para a rua principal. Aquele pedaço estava mais escuro que as outras ruas. Alguns postes não tinham luz, o que deixava a rua pouco sombria. E para piorar, eu era a única alma viva ali.
Meu celular tocou novamente, indicando a chegada de uma mensagem. Deslizei o dedo e vi que era de número desconhecido. Estranhei, pois quase ninguém tinha meu número. Abri a mensagem e li.
Você pensa que me esqueci de você?
Franzi o cenho não entendendo o que a mensagem queria dizer. Eu já estava considerando engando quando meu celular tocou em minha mão novamente chegando outra mensagem.
Nesse momento estou te vendo mexendo o celular, Nora.
Meu coração falhou uma batida. Olhei para os lados não encontrando ninguém, só a rua deserta. Aumentei os passos, sentindo uma onda de adrenalina invadir meu corpo. A sensação de ser vigiada me atingiu como uma bala. Aquela rua era enorme.
Olhei para trás novamente não vendo ninguém. A rua continuava deserta, o que me causou mais pânico. Eu aumentei o passo, sentindo que alguém pelas sombras me seguia. Meu instinto de perigo só aumentava. Sentia quem quer que fosse a pessoa que me seguia estava se aproximando de mim.
Olhei para trás novamente e não vi ninguém. Com o coração acelerado comecei a correr o mais rápido que eu podia. Com o celular nas mãos, tentava fazer uma ligação para Vee, mas sem sucesso. Não conseguia enxergar direito, pois estava muito nervosa. Olhei para trás novamente e desta vez vi um vulto negro sob a escuridão, vindo até mim.
Engoli um grito e corri o mais rápido.
Cheguei ao final daquela rua, entrei na rua principal. Coloquei o pé na via principal sem olhar para os lados e enquanto terminei de discar o número de Vee, colocando o celular no ouvido. Quando escutei a voz de Vee percebi a luz do farol vindo em minha direção.
– Ahhhhh!
Gritei colocando minhas mãos automaticamente no rosto, deixando o celular cair no chão, vendo o carro já próximo de mim e esperando pelo baque. O som dos pneus queimando o asfalto soou alto e quase me pegando em cheio, me fazendo cair no chão com tudo.
Meu corpo todo tremia em cima do asfalto, meu coração só faltava sair pela boca. Apoiei minhas mãos no chão escutando o som da porta do carro ser aberta e passos apressados vindo até mim, se agachando em minha frente.
– Você está bem?
Ergui meu olhar para cima, vendo a pessoa em frente sem saber se agradecia ou xingava.
– P-Patch?
Ele me parecia preocupado quando levou suas mãos até meus braços me pondo de pé. Automaticamente olhei para trás a procura de meu perseguidor. Mas não havia ninguém.
– Nora?
– Tem alguém me seguindo...
Minha voz saiu estrangulada. Olhei para Patch que mantinha suas mãos agarradas em meus braços.
– Eu não estou vendo ninguém. - ele disse, fitando o local atrás de meus ombros
– Tem. - ele me olhou. - Ele... ele...
Seu olhar era sério, tentava entender o que havia acontecido. Meus lábios tremiam enquanto minha visão embaçava com as lágrimas que começavam a cair.
Tinha alguém atrás de mim. Eu estava com medo.
Patch me puxou contra o seu corpo e não protestei, apenas o abracei fortemente, tentando a todo custo me sentir segura. Aprofundei meu rosto em seu peito sob a camisa preta fina de algodão. Seu cheiro amadeirado e hortelã invadia meu nariz, me deixando entorpecida. Sentia suas mãos apertarem minha cintura, puxando meu corpo mais contra o seu, pousando seu queixo em minha cabeça.
– Shiii, não tem ninguém. Ninguém vai te pegar, eu prometo. - sua voz soou fria, mas confortante.
Funguei contra sua camisa, sentindo a quentura de seu corpo penetrar o fino tecido de sua camisa.
– Nora... - ele agarrou meu rosto com suas duas mãos, me fazendo olhá-lo. - Ninguém vai te pegar, entendeu? Eu não vou deixar que nada aconteça com você. - com o polegar tirou a lagrima que caía em meu rosto.
Senti meu corpo se confortar e ao invés do medo, eu sentia outro sentimento.
Patch aproximou lentamente seus lábios dos meus, e ansiei mais do que nunca que ele me beijasse. Queria desesperadamente sentir o que senti naquele dia, no corredor. E como se lesse meus pensamentos Patch selou nossas bocas.
Meu corpo se contraíra com aquele toque. Uma onda de calor evaporou de mim, quando sua língua encontrou a minha. Levei minhas mãos até seus cabelos, enquanto seus braços seguravam a minha cintura possessivamente.
Parecia que tudo sumia, só existindo nos dois dentro de um mundo feito e emoldurado para nós. Patch era o tipo de cara que eu precisava manter distância, mas ao mesmo tempo eu o queria por perto.
Ele mordeu meu lábio, encostando sua testa na minha. Abri os olhos encontrando seus olhos negros mais vivos do que nunca. Ainda estava sendo prensada contra seu corpo, mas eu não me importava. Eu queria desfrutar o máximo que eu podia daquele momento.
– Está mais calma? – ele perguntou.
Mordi o lábio e desviei meu olhar para o chão, sentindo minhas bochechas ficarem vermelhas. Assenti, apoiando minha testa em seu peito e fechando os olhos, envergonhada. Patch apenas apertou-me mais contra si, dando um beijo em minha cabeça.
– É melhor nós saímos daqui. – ele disse, e contra a minha vontade me separei dele.
Olhei para o chão a procura de meu celular, e o encontrei a metade dele todo espatifado, já que a outra metade estava debaixo da roda do carro que eu reconheci ser do meu pai.
– Esse já era. – comentou Patch ao meu lado vendo meu ex-celular.
Suspirei pesadamente, pensando se podia ficar pior.
– Vem. – Patch pegou a minha mão, me conduzindo até a porta do carona, onde abriu e entrei ali dentro. Ele fechou a porta e olhou para a rua aonde eu vinha. Passou um olhar ao redor, e vendo que não havia ninguém, ele deu a volta no carro entrando no lugar do motorista.
Ele deu uma olhada para mim, que ainda sentia minhas pernas tremerem e não sabia se era pelo medo que senti, ou pelo beijo.
– Está tudo bem?
– Sim. – murmurei, enquanto segurava minha mochila contra meu corpo.
Patch deu a partida no carro e saímos daquele lugar, passando pela aquela via pouco movimentada. Olhei para ele que estava concentrado na estrada.
– O que você está fazendo com o carro do meu pai?
Ele me olhou de lado, mas sem tirar sua atenção da estrada.
– Fui ao supermercado comprar uns temperos para o seu pai que havia acabado no restaurante.
– Ah. – olhei para a janela, vendo as casas iluminadas passarem.
– Você devia prestar mais atenção quando se atravessa a rua.
– Desculpa.
Ele soltou uma risada nasal, me fazendo olhá-lo.
– Patch.
– Hm.
– Não conta para o meu pai o que aconteceu agora pouco não.
Ele desviou os olhos da estrada para mim novamente.
– Você está falando do beijo?
– Ah... não! – senti meu rosto ficar vermelho. – Quer dizer... também sim... mas... mas não é isso.
Patch gargalhou e fiquei mais constrangida ainda.
– Para de rir.
– É que você fica toda atrapalhada com algo simples. – ele tinha parado de gargalhar, mas o sorriso zombeteiro continuava em sua boca. Eu já estava começando a me irritar. - Fala o que vai me pedir.
Bufei, mas falei:
– Não conta para o meu pai que eu estava sendo perseguida. – ele ficou sério. - É que ele iria ficar preocupado atoa.
Um silêncio perturbador se apoderou no carro. Patch estava sério, e senti meu coração acelerar com aquela sensação perturbadora que senti quando estava correndo.
– Você viu quem era? – ele perguntou depois de dois minutos em silêncio.
– Mais ou menos. Estava escuro. Só vi uma sombra vindo atrás de mim.
Os nós da mão de Patch ficaram brancos de tanto que ele apertava o volante do carro. Sua boca estava em linha reta, sem aquele humor que ele emanava minutos antes. Eu me sentia pouco aflita.
– Evite sair por aí sozinha à noite. – ele começou, com a voz fria. – Pode ser algum cara que a vira andando pela penumbra e a seguiu para fazer algum mal a você.
Era uma boa hipótese, mas eu sabia que não era isso na verdade, e Patch também pensava o mesmo. Resolvi não falar mais nada.
O carro entrou na garagem subterrânea do restaurante, e Patch estacionou na vaga que papai sempre estacionava.
Nós não saímos do carro, Patch ainda olhava para frente, parecia perdido em pensamentos.
– Você não vai contar para o meu pai, vai?
A minha voz o tirou de seus devaneios, o fazendo olhara para mim.
– Não. – ele olhou para a minha boca, e depois os meus olhos novamente. Meu coração acelerou. – Esse vai ser nosso segredo.
– Obrigada.
Ele abriu aquele sorriso de lado, e um misto de sentimentos me atingiu. Sorri minimamente para ele, ainda sentido um pouco constrangida. Será que eu estava me apaixonando por Patch? Eu estava tão confusa, que não conseguia pensar direito. Precisava de tempo para entender aquela bagunça que estava a minha cabeça.
Saí do carro, e comecei a andar em direção as escadas. Escutei o baque da porta do carro se fechando, e passos vindo até mim.
– Nora, espera! – Patch segurou meu braço, me fazendo virar para ele. – Por que você está fugindo?
– Me larga.
– Me responda. – ele ignorou meu pedido, e me olhava no fundo de meus olhos.
Eu queria chorar. Eu queria gritar. Eu o queria para mim e ao mesmo tempo não queria. Patch me deixava confusa, e estava enlouquecendo a cada beijo, a casa toque seu em mim. Não sabia o que sentia, estava tudo embaralhado em minha cabeça. Tinha alguém atrás de mim, que ficava me mandando mensagens anônimas e me seguindo por ruas escuras. Eu precisava de um tempo para mim. Precisava deitar a minha cabeça no travesseiro e só acordar depois que esse turbilhão de confusões se dissipasse.
Patch ainda olhava para mim esperando alguma reação minha. Ele captava qualquer expressão que eu fazia, como um bom predador. Sua mão ainda estava agarrada em meu braço. Parece que ele tinha o prazer em me tocar, ele sempre arrumava um pretexto para isso.
– Me deixe ir. – minha voz saiu um pouco menos que um sussurro. – Estou cansada.
Ele não me soltou e continuava me olhando.
– Por favor.
Ele suspirou pesadamente e lentamente me desprendeu de seu aperto. Virei-me e saí correndo, subindo as escadas acima, mas sentia minhas costas queimando com o seu olhar.
