Andy percebeu que ela estava muito distraída pois sequer virou para vê-lo. Ele em silêncio se esgueirando pela escuridão no quarto chegou na varanda e colocou-se ao lado dela e só assim ela deu-se conta de sua presença e pareceu assustada, seus olhos verdes arregalaram-se um pouco.
"Onde você estava?" Perguntou suavemente voltando sua atenção para a rua. Querendo não parecer muito interessada sobre seu paradeiro.
"Eu estava no quarto com o time." Ele disse e depois olhou para onde ela estava olhando. Eles tinham uma maravilhosa vista dali, mas ela não estava distraída só a com vista, ela só não queria ter que encará-lo. "Vai ser assim a partir de agora?" Ele perguntou e ela não respondeu.
"Eu vou me preparar para dormir." Ela disse fugindo naquela resposta.
Ela lhe deu as costas e em passadas largas entrou no banheiro. Ele ficou ali olhando para um único ponto de luz vermelho que atraiu sua atenção, perdeu-se em seus pensamentos. Decidiu pelo seu computador, sentou-se na pequena mesa da cozinha e abriu a tela. Havia uma única mensagem por e-mail no meio de tantas que atraiu-lhe imediatamente sua atenção. O e-mail foi aberto e ele seus olhos rolaram pelas letras. Havia sido Dave quem enviou após reunir o máximo de informações sobre Jack Raydor. Não havia nada que chamasse a atenção do tenente, a primeira vista ele parecia ser "homem perfeito", mas quando rolou mais um pouco o e-mail, havia uma única coisa que poderia levantar algum
tipo de suspeita. Uma vizinha, alguns meses atrás reclamou sobre estar ouvindo gritos do andar de cima, Sharon Raydor e Jack Raydor estavam brigando e ela temia pela capitã da F.I.D. Outro vizinho reclamou alguns dias depois sobre estar ouvindo coisas quebrando-se no apartamento ao lado e depois um grito agudo.
O que aconteceu dentro daquele apartamento? Ninguém saberia dizer, apenas as paredes, Jack e Sharon saberiam. Em outra ocasião Andy Flynn faria pouca questão sobre uma discussão de casal, na época em que era casado discussões eram constantes por inúmeras desavenças que ele e Meredith tiveram, mas Sharon parecia temer ao pensar em Jack Raydor e isso não era um bom sinal. Jack certamente não levantaria a mão para a capitã, mas havia algo ruim ali, muito ruim.
Quando Sharon saiu do banheiro, já vestida com uma camisola curta o suficiente para deixá-la constrangida, ela enrolou-se em um fino hobby de seda que encontrou por acidente na mala dois dias atrás. Buscou com o olhar por Andy e o encontrou sentado na mesa da cozinha com a atenção dirigida somente ao seu computador, ele sequer a fitou quando a porta do banheiro bateu ou quando ela sentou-se no sofá e ligou a televisão em busca de algo para assistir. Ele não percebeu o simplesmente não quis olhá-la?
Andy sentado em sua cadeira viu o exato momento em que ela saiu do banheiro, mas preferiu ignorá-la, talvez seguir os estúpidos conselhos de Provenza não fosse a melhor coisa mas ele decidiu ouvir seu amigo apenas mais uma vez. Ele daria a ela o espaço que ela pediu, não questionaria, mas não seria por isso que pararia de buscar a verdade.
Ele leu todos os e-mails enviados por David. Nada mais parecia mostrar outro lado de Jack Raydor, exceto por suas constantes brigas com seus clientes ou discussões em bares, ele parecia beber cada vez e isso fazia ele buscar mais briga.
Andy desligou seu computador, olhou de relance para a mulher deitada no sofá distraída. Sua garganta fez um estranho ruído quando ele a abriu para desejar-lhe boa noite, mas rapidamente se silenciou, era melhor deixá-la como estava.
Às onze da manhã o "casal" estava acordado. Brenda os havia chamado para o quarto da equipe e Julio os foi buscar quando havia ninguém nos corredores. Entrando no quarto a primeira coisa que Sharon imediatamente notou foi que estava tudo uma bagunça enorme, comida jogada para todos os lados, todos pareciam entretidos com seus celulares, exceto por Buzz e Mike, que atentamente observavam as imagens das câmeras em tempo real.
"Bom dia." Brenda os saldou e sorriu apenas para Andy.
"Houve alguma mudança no caso, Chef?" Sharon perguntou e continuou parada enquanto Andy sentava-se ao lado de Provenza, a capitã os viu cochichar algo.
"Sim." Brenda disse com pesar "Penélope Levine" jogou a pasta cinza com as informações da nova morte em cima da mesa de centro para que Sharon pegasse e a capitã pegou, abrindo rapidamente e buscando a foto da vítima "ele fez o mesmo ritual."
Penelope Levine, quarenta anos, Texana estava de passagem pelo hotel, estava ali para uma conferência de neurocirurgiões que aconteceria em dois dias. Foi estuprada, assassinada, amarrada em alguma árvore e chicoteada para aparentemente aumentar o prazer dele, estrangulada e aparentemente até depois de morto ele a esfaqueou, o homem era um psicopata sádico. Sharon levou a mão a boca.
"Ele demorou mas atacou novamente e eu tenho um péssimo pressentimento sobre isso, capitã. Algo mais me diz que ele já tem a próxima vítima em vista. Eu não sei, é uma péssima sensação."
"Você não é a única." Sharon confessou e sentou-se em uma cadeira próxima.
Provenza e Andy puderam notar que ela ficou conturbada, assim como todos mas ainda mais. Sharon tinha em pensamento conseguir capturar o assassino antes que conseguisse fazer uma próxima vítima e naquele momento ela sentiu-se culpada, se talvez tivesse sido mais eficiente ninguém mais teria sido assassinato. Andy fez menção em levantar-se de onde estava sentado para ir até ela mas a mão de Provenza puxando-o para baixo o fez se sentar novamente e encarar o outro tenente.
"O que eu disse? De espaço, Flynn. Se a cada problema que acontecer você correr para acudi-la ela irá se sentir pressionada, sufocada." Provenza murmurou e Andy suspirou. Ele desejava realmente ir até ela e talvez dizer que não era sua culpa o que tinha acontecido.
Ela não dizia nada, apenas encarava o relatório a sua frente, nem mesmo Brenda atreveu-se a dizer nada e Mike encarava a capitã, ele podia notar em sua expressão que ela não estava bem.
"Obrigado, chefe. Eu preciso ir agora." Ela disse rapidamente e saiu batendo a porta.
"Eu preciso ir falar com ele." Andy disse e desta vez chamou a atenção dos demais, seu sussurro foi mais alto do que ele esperava.
"Não, espere seu idiota, eu falo com ela." Provenza disse antes de levantar-se deixando o amigo sentado e recebendo olhares dos demais enquanto ele caminha até a porta e fechou a porta lentamente, indo atrás da capitã.
Ele apressou mais suas passadas lentas até alcançá-la, a puxando delicadamente pelo braço até o quarto onde ela e Andy estavam hospedados. Sharon puxou bravamente a mão e encarou Provenza buscando uma resposta para aquela atitude repentina e inesperada.
"Qual seu problema?" Ela perguntou irritada.
"Eu vim vê se você estava bem." Provenza estranhou aquelas palavras, erra bizarro ter que dizer que de certa forma estava preocupado pela capitã, não era somente Andy que começava a temer pelo bem estar daquela mulher e ele odiava ter que dizer isso. Mesmo que ele dissesse diariamente que não a suportava.
"Eu estou ótima, por que não estaria?" Ela perguntou e se fez de desentendida, cruzando os braços sobre o peito, mas desta vez ele não o encarou como costumava saber e com os meses Provenza começou a notar que ela sempre desviava o olhar quando mentia.
"Você não está se culpando pela morte dessa mulher, está capitã?" Não recebeu nenhuma resposta além de um olhar desconfortável. "Você trabalha com isso há anos e sabe muito bem que não devemos nos envolver emocionalmente com nenhum deles, capitã. Se envolver dessa forma nunca acaba bem."
"Eu sei tenente mas obrigada pelo aviso." Ela sabia melhor que ninguém quer envolver-se emocionalmente com assuntos de trabalho causava muitos problemas e por isso ela sempre desvia de suas emoções durante o trabalho. Mas desta vez doía-lhe pensar que poderia ter feito algo, que o assassino está no mesmo hotel que ela e não poder fazer nada lhe dava a sensação de impotência e ela odiava sentir-se assim.
"Espero que você reflita realmente sobre isso." Ele disse antes de partir.
Ela poderia realmente ter feito algo? Talvez se tivesse trabalhado mais, empenhado-se mais, buscado mais? Lido mais aqueles malditos relatórios!
Quando Provenza regressou ao quarto viu que Andy continuava sentado no mesmo lugar, todavia seu corpo parecia ainda mais tenso do que minutos atrás. Seu corpo reto na cadeira, olhando fixamente para porta esperando que ele falasse alguma coisa. Provenza passou direto e apontou para direção onde estava indo, dando sinal para que ele o seguisse. Eles entraram novamente no quarto e Provenza novamente trancou a porta para não ser ouvido.
"O que ela disse?" Andy perguntou curioso.
"Ela disse que está bem. Andy você não pode ficar agindo como um idiota, correndo atrás dela todas as vezes. A capitã, por mais que eu odeie admitir, sabe se cuidar melhor que nós dois e o restante da equipe e ela sabe melhor do que qualquer outra pessoa controlar as próprias emoções." Andy perguntou se o que Provenza falou estava certo. Ele lembrou-se de quando Sharon saiu e embriagou-se como ele nunca havia visto antes. Será que algo havia se quebrado dentro da Rainha de Gelo? Mas apenas assentiu com a cabeça e Provenza tocou seu ombro amigavelmente. "Agora vá."
Andy sorriu sem humor para o homem mais velho e saiu do quarto e partiu de volta para onde estava hospedado. Sharon estava concentrada com olhos rolando sobre as letras no papel sobre a morte de Penélope. A vontade de ir até ela era grande mas as palavras de Proveza vinham a sua cabeça para lhe recordar do que deveria fazer. Ela sabia se cuidar, certo?
Sentado lendo o próprio relatório Andy ouviu o celular de Sharon tocar inúmeras vezes e ela simplesmente desligava-o. Ela estava tão centrada como ele jamais viu. Em partes ele sabia que ela sentia-se triste, Penélope tinha um filho que aparentemente vivia em outro país, um ex-marido que também era médico. Ela era bonita, o cabelo ruivo e os olhos castanhos, mas logo abaixo havia a foto de uma mulher com o cabelo sujo de lama, amarrada a uma árvore, sem roupa e com lama, folhas de árvore por todo o corpo. Não bastava matar, ele tinha que esfaqueá-las após a morte e violá-las ainda mais seus corpos sem vida. Era nojento, psicótico, sádico, terrível e fazia o estômago de ambos embrulhar.
Ela foi até o banheiro, de repente, empurrando com brutalidade a cadeira para trás e seu corpo descaiu na porta do banheiro trancada. Ela sentiu-se mal e um turbilhão de sentimentos irritados. Ela estava tão perto dele. Talvez ele estivesse no mesmo andar, quem sabe logo abaixo ou acima dela. Ela queria voltar para casa, para sua casa onde tinha tudo que ela amava. Seu pequeno espaço privado que um da foi destruído e ela lutou para apagar as lembranças.
Andy esperou que ela saísse do banheiro, mas quanto mais esperava mais ela demorava. Os segundos transformam-se em minutos e minutos em algumas horas. Ele queria ir até lá e ir buscar por ela, todavia sua preocupação gritou mais alto desta vez que os conselhos de Provenza. Tentando parecer sério, despreocupado com sua atual situação dentro daquele banheiro ele bateu na porta.
"Quando você vai sair daí, eu preciso entrar." Era uma mentira e ele quis com todas as suas forças parece firme e talvez irritado.
"Mais cinco minutos." Ela disse do outro lado. Ele estava irritado? Ela se questionou.
Sharon finalmente saiu do banheiro e bateu de frente com força no tenente parado na porta que parecia analisá-la com o olhar.
"Você está bem?" Ele perguntou.
"Na verdade tenente, eu estou maravilhosamente bem." Ela disse e pôs um sorriso no rosto, mesmo que aquele sorriso parecesse natural e simples ela sabia melhor que ele que era uma mentira. "Eu preciso de um pouco de ar fresco, esfriar os pensamentos, aproveite seu tempo vizinho, tenente Flynn."
Ela estava referindo-se a ele de forma tão fria e vaga que chegava a lhe causar certo frio na espinha.
Quando ela saiu do quarto ela sentiu-se mais aliviada. A presença de Andy a estava deixando constrangida. A forma com ele a estava olhando, era pena naquele olhar? Ela estava andando por dentro os corredores e um grito baixo saiu de sua boca quando uma mão áspera a puxou para dentro de um quarto. Ela viu rapidamente quem era, Jack a havia puxado para dentro do quarto em que estava hospedado.
"Você é louco?" Soltou-se e o empurrou para trás, respirando fundo inúmeras vezes. Ele havia a assustado.
"Eu queria falar com você."
"Sobre?"
"O corpo que encontraram, é por isso que você está aqui, não é?"
"Não lhe interessa, Jack. É um assunto confidencial que não lhe diz respeito." Ela ia dar as costas mas ele prosseguiu.
"Mas interessa a aquele tenente, não é querida? Andy Flynn. Você já foi para a cama com ele, Sharon?" Ela sentiu novamente, pela segunda vez naquele dia, seu estômago embrulhar. Ele estava insinuando que ela dormiu com Flynn? Quem ele pensava que ela era? Ele a traiu por anos, mas ele jamais o fez.
"Não, seu idiota. Eu nunca fui para cama com o Andy nem com ninguém durante esses vinte anos de casada com você."
"Ele sempre parece preocupado com você, eu pensei que havia algo mais entre vocês."
"Eu não sou você, Jack. Mas se um dia eu me envolver com alguém, eu não lhe devo satisfações."
Ela quis virar-se mas desta vez foi as mãos dele quem a impediu. Suas mãos, assim como alguns dias atrás no hall, estavam apertando seu braço, tão forte quando das últimas vezes. Ela sentiu novamente sua respiração falhar.
"Tire suas mãos de mim." Ela silabou cada palavra.
"Você ainda é minha esposa, apesar de seu jeito insolente e eu nunca vou perdoar uma traição."
"Como se eu me importasse com seu perdão. Se um dia eu dormir com alguém, será a melhor coisa que eu vou fazer e quem sabe eu mande uma mensagem para você avisando" Ela disse movida pela raiva.
Jck se deixou cegar pelo ódio atingido-a com força no rosto.
