Capítulo 10: Reunião – II

"Mas não poderia ter sido mais constrangedor, fez tudo que não queria fazer, foi possessivo, chamou muita atenção, e chorou, chorou depois que tinha prometido pra si mesmo que não seria tão fraco, a ponto de demostrar tão facilmente suas emoções, sua tentativa de passar despercebido com a volta do cisne tinha falhado miseravelmente. Agora só restava deixar as coisas seguirem seu rumo.
Ninguém percebeu, mas Ikki observava tudo de um canto do salão."

Ficaram em silencio mais um tempo, até que Shun voltasse a se acalmar melhor, que foi aos poucos e Afrodite o ajudava.
Saori estava lá e observou tudo também, percebeu que eles precisavam de um tempo e procurou fazer alguma coisa.
–-Muito bem pessoal, o Hyoga precisa de espaço também, podem fazer todas as perguntas que quiserem depois, agora vamos nos divertir.
Todos entenderam o que Saori queria dizer com aquilo, os dois rapazes precisavam de mais privacidade, e acharam bastante natural a reação de Shun, afinal ele sempre foi assim, e parece que o tempo não mudou seu lado sensível, e os que eram mais íntimos sabiam que era melhor assim, era a personalidade dele e afinal Shun e Hyoga sempre foram grandes amigos e o reaparecimento do loiro já era muito emocionante pra todos imagine pro virginiano. Foram se dissipando pro restante do salão, matariam a saudade do cavaleiro de cisne com o tempo. Mas os murmúrios eram inevitáveis.
–Muito bem, podem conversar agora. - disse a virginiana pra Hyoga e Shun.
–-Obrigado Saori. - disse Hyoga.
Ela sorriu e piscou pra ele, e ele não entendeu o que aquele gesto queria dizer. - será que isso tem relação com o que ela me disse mais cedo? - pensou.
Afrodite viu que Shun já estava mais calmo, e o deixou a sós com o loiro também, mas antes lhe fez um afago como que pra dizer "seja forte". Eles foram pra fora, na área que ficava um pouco mais afastada e com Hyoga guiando Shun e o segurando pela mão. Shun o seguia sem objeção, ainda permanecia calado e de cabeça baixa, pararam e Hyoga se pronunciou.
–-Eu sei que já perguntei, mas você está realmente bem Shun?
Ele levantou o rosto e Hyoga pode ver que ele ainda estava muito nervoso, mas havia algo mais naqueles olhos chorosos que ele não conseguia desvendar. Estavam bastante próximos.
O cavaleiro de Andrômeda estava inebriado com a presença do cisne tão próxima, parecia hipnotizado, depois de tanto tempo podia finalmente toca-lo, sentir seu cheiro, contemplar sua fisionomia, já muito mudada, pois quando o viu pela ultima vez ele ainda era um adolescente de quatorze anos, mas agora já era um homem. - como está lindo - pensou. Observou sua pele clara, que estava um pouco rosada só que bem mais pálida do que antes, seus cabelos loiros mais curtos e presos lhe dando um ar mais salaz... O rosto mais masculino, porém delicado, com a franja caindo em seus olhos azuis e amendoados, não havia dúvida que tinha descendência japonesa, e essa mistura o deixava mais belo ainda, parou pra apreciar aqueles olhos... De um azul claro, mas intenso e triste ao mesmo tempo... - porque será que pareciam tão cheios de tristeza? - perguntou-se. Observou o corpo dele, estava bem mais alto e forte agora, mas sem qualquer exagero, parecia perfeito, nas medidas certas... Então começou a ter pensamentos nada puros com aquele loiro, e nem procurou martirizar-se com suas segundas intenções, no momento estava distraído demais pra isso, voltou a olha-lo nos olhos e fez o caminho de seu rosto de novo, parecia querer decorar cada linha de expressão daquela face, parou naqueles lábios rosados e finos que esboçavam um leve sorriso - qual seria o gosto? - perguntou-se. Mal percebeu quando levou suas mãos pequeninas e delicadas ao rosto do loiro e começou a acaricia-lo, sentindo a pele quente em seus dedos, afastando as mechas loiras e lhe fazendo um singelo carinho, e foi descendo para o pescoço descoberto o puxando levemente pra mais perto.
–Shun, Shun fale comigo, o que está havendo? Tudo bem com você? - despertou do transe com Hyoga o chamando insistentemente. E foi aí que percebeu o que ia fazer, só podia esta enlouquecendo.
–-Hã? Na-nada, eu só... er, quer dizer, só estava... Lembrando...
–Lembrando?
–-Er, sim, de antes... Quando estávamos todos reunidos, olhar pra você depois de tanto tempo me fez perceber o quanto todos nós mudamos, só isso. - será que soou convincente? pensou, foi uma desculpa pra lá de esfarrapada... o que ele estava pensando quando se deixou levar pelo momento daquele jeito.
–-Hum. - pareceu duvidar, Shun tinha falado muito de repente, parecia ter sido acordado de súbito, estava perdido em pensamentos.
–-E-Eu se-senti muito sua falta Hyoga, muito mesmo... - falava querendo chorar de novo. Odiava-se agora por parecer sempre tão fraco e sentimental.
–-É, eu sei, eu sei. - disse o abraçando de novo e afagando seus cabelos, como quem cuida de uma criança. Estava muito apreensivo com a situação que Shun estava, tá certo que ele sempre foi emotivo assim, mas ele estava fazendo drama demais, isso não era natural.
Shun aproveitou o contato e o agarrou pela cintura de novo só que dessa vez com menos força, apoiou a cabeça no peito de Hyoga e começou a chorar de novo.
–-Po-porque vo-você foi embora? Porque deixou a todos nós? Fizemos alguma coisa errada? EU fiz alguma coisa errada pra fazê-lo ir? - falava choroso , embargando as palavras.
–-Não Shun, nem pense nisso, não foi por causa de ninguém, eu apenas precisava de um tempo, só isso.
–-Tempo pra que? E que ainda durou seis anos Hyoga, seis anos. - falava ressentido agora, apertando um pouco mais o loiro contra si. Hyoga sentiu a pressão com que Shun o apertava, parecia agarrar um bem muito precioso e que não tinha a mínima intenção e desfazer-se dele.
–-Sinto muito Shun, sei que agi mal com todos vocês. Mas não quero falar sobre isso agora... Apenas quero que saiba que eu também senti muito sua falta Shun, senti falta e todos vocês, eu os considero meus irmãos... - o virginiano entristeceu-se em ouvir o loiro dizer que o considerava como um irmão, era bom, mas não passaria disso, só um irmão. - Se eu parti por tanto tempo foi porque não queria afetar ninguém com meus problemas, o que eu estava passando iria afetar vocês também, e ultima coisa que eu quero é lhes causar algum mal.
–-C-como assim? Pelo que você estava passando Hyoga? - levantou a cabeça pra olha-lo nos olhos, o que ele queria dizer com aquilo?
–-Isso não é importante, esqueça isso... Saiba que todos vocês são muito importantes pra mim... Você é um irmão pra mim Shun.
Ouvir da pessoa que ama que se é importante deveria ser muito bom e reconfortante, mas o que o loiro dizia era na maior inocência e não era o que Shun queria, ele queria mais, queria muito mais do que Hyoga estava oferecendo, que era só amizade, um amor fraterno, como o que seu irmão tem por ele, e isso lhe doeu muito mais ao invés de alegra-lo. Mas tentaria se conformar, afinal ao menos teria algum sentimento por parte de Hyoga, e desfrutaria de momentos raros como esse, pois sabia que Hyoga não era muito de contato físico com todos, e o virginiano tinha esse privilegio, eram momentos onde Hyoga o deixava passar por suas barreiras e o acolhia. Lembrou-se ainda que não sabia nada da vida pessoal do loiro, ele sequer tinha tocado no assunto, talvez ele já até estivesse comprometido com alguém. Mas afastou esses pensamentos por enquanto e aninhou-se mais naquele abraço, não queria parecer tão sentimental, mas a situação estava lançada e ele iria aproveita-la enquanto podia, até esqueceu-se momentaneamente da besteira que ia fazer no instante atrás.
–-Você cresceu muito Shun, parece mais maduro também, e percebi que seu pupilo já tem o cosmo bastante desenvolvido, tem se saído muito bem como mestre e com todas suas responsabilidades. Estou muito orgulhoso de você. E já estou sabendo que está escrevendo um livro, mal posso esperar pra ler.
–-V-você já sabe?
–-Sim, tanto o Camus quanto a Saori me disseram, e você sempre teve muito talento pra ser escritor, tenho certeza que seu livro vai ser um sucesso.
–-Obrigado Hyoga, sua opinião é muito importante pra mim.
Eles sorriram um pro outro, antes se entendiam muito bem com esses simples gestos e meias palavras ditas, e as coisas não mudaram com o tempo e ainda se entendiam muito bem, apesar de que os sentimentos também tenham amadurecido e se tornado mais intensos por parte de Shun.
–-Tudo bem por aqui? Já está melhor Shun? - ouviram a voz de Seiya logo atrás deles.
–-Sim, obrigado pela preocupação Seiya. - disse Shun, se recompondo, mas assassinando o Pégaso em pensamento por interromper aquele momento.
Hyoga o soltou e distanciou-se um pouco pra falar com Seiya e Shiryu que tinha vindo com ele. Hyoga pode ver que o libriano estava com um semblante bastante sério, mas ignorou, devia estar cansado depois de um dia de trabalho.
–-Acho que vocês dois já mataram a saudade, e o pessoal também quer conversar com você Hyoga. - disse Shiryu, com um tom de repreensão. Shun também percebeu o humor do libriano, mas nada disse.
–-Certo, já estou indo, mas antes tenho que falar com meu mestre e Isaac. - o que será que aconteceu pra ele estar tão aborrecido assim? - pensou Hyoga.
–-Bom, venha também Shun. - disse Seiya.
–-Claro, vamos amigos.
Voltaram para o salão e Hyoga falou brevemente com Isaac que lhe apresentou sua noiva, e com Camus que não economizou em sermões pelo atraso do loiro na reunião festiva de cavaleiros que foi feita especialmente pra recebê-lo. Assim ficaram Hyoga, Camus, Millo, Jacó, Isaac e sua noiva por um tempo conversando. Mas não tardou muito e Jabu puxou Hyoga pro centro do salão pra junto de todos pra enchê-lo de perguntas de como era seu trabalho investigativo, e como foi a vida nos lugares onde morou e visitou. Os que mais perguntavam eram Jabu e Seiya, e os outros mais ouviam. Hyoga respondia tudo por monossílabos, nunca foi de falar muito, mas ninguém ligava muito pra isso, por vezes até o interrompiam e completavam suas frases, e ele tentava articular mais somente pela ocasião, nunca gostou de estar rodeado por pessoas e ainda mais o interrogando.
As garotas presentes eram poucas e mais riam da bagunça que Seiya e Jabu faziam pra descontrair, estavam lá Saori, Marin, June, Seika irmã de Seiya, Shunrei, Minu e até mesmo Shina. Todas se davam muito bem, e poucas conheciam bem Hyoga, estavam lá mais pra acompanhar alguém, principalmente Shunrei, June e Seika que eram pouco familiarizadas com todos.
Hyoga aproveitou que o assuntou fugiu de torno de si e se afastou. Agora todos já conversavam sobre quaisquer outras coisas, separaram-se em grupos como sempre e o clima normalizou-se de volta pra uma simples reunião, conversavam, comiam, e divertiam-se como normalmente.

Estava sufocando com aquele calor, realmente aquele clima era insuportável comparado com seu habitual estado frio, tirou o blaser e foi pra fora de novo pra pegar um pouco mais de ar fresco, ficou observando às estrelas a procura de sua constelação, mas sabia que era impossível avista-la de onde estava. Ficou um tempo assim, observando a noite e aproveitando a brisa que estava a seu favor, era um alivio, não sabia ainda como seu mestre tinha conseguido se acostumar com aquele clima, mas lembrou-se que ele mesmo já tinha se habituado, porém estava desacostumado pelo tempo que passou fora. Ficou pensando em todos os acontecimentos recentes. Mal percebeu uma presença que já estava próxima há bastante tempo e o observava, quando foi acordado pela voz grave de uma pessoa.
–-Oi pato.