Disclaimer: Naruto não me pertence.

Capitulo 10

A menina que tinha a morte como companhia

''Como ciumento sofro quatro vezes: por ser excluído, por ser agressivo, por ser doido e por ser vulgar.''

- Roland Barthes.

Havia uma carta. Uma carta que mudaria tudo. O símbolo no topo dela e as letras impressas nesta junto ao carimbo no final deixariam muitas pessoas saltitantes de tão felizes. Mas não foi o que aconteceu na mansão Hyuuga. Lá um menino segurava tal papel na mão com firmeza, porém seus olhos estavam fixos em outro ponto. Mais especificamente numa pequena menina de grandes e redondos olhos que roubaram as cores de uma imaculada Cattleya warneri¹ amoena. Ele se sentia como um doente terminal que procura decidir se comete suicídio ou volta ao hospital. Então ele fez o que melhor sabia fazer. Foi até ela e plantou um beijo no meio da farta franja azul-petróleo sob a sombra de um jacarandá.

- Eu te amo. - Murmurou o, agora homem, Hyuuga.

- Eu sei.

Logo ele fez o que ela pedira que fizesse. Deu as costas e enfiou-se dentro do carro prateado que tinha. Lançou um ultimo olhar para a dama que ali deixava e acelerou. A faculdade de publicidade e propaganda o aguardava e a menina recusou-se a ficar entre ele e o seu futuro. Hinata ficou vivendo junto do pai na nova casa deles. Era um sobrado de paredes creme, muitos vidros espalhados para melhor iluminação e madeira de demolição cobrindo as vigas. Haviam muitas cortinas devido a grande área exposta ao exterior com as janelas de vidro temperado. A mobília era toda de madeira reflorestada com acolchoamentos.

Em meio ao luxo do lugar tão espaçoso e bonito, havia uma pequena área do sobrado que era privilegiada. Lá durante todos os fins de tarde um pai e uma filha se sentavam juntos numa confortável poltrona de couro negro de frente pra lareira. Nesses momentos que se tornaram cotidianos, Hiashi gostava de contar a filha sobre a primeira mulher que amara. Contou que quando tinha 16 anos uma belíssima moça foi morar na sua rua e acabou coincidindo de cair na mesma sala de aula na escola que ele estudava.

- O nome dela era Mikoto. Mikoto Uchiha. Tinha longos cabelos pretos eram como o mais negro ébano e seus olhos eram da mesma cor. A pele dela era branca, mas ainda sim dava pra ver quão bronzeada ela era. Acho que a idealizei tanto que saístes com parte da essência daquela mulher, Hinata. - Ele riu fraco.- Mas então Fugaku apareceu e a levou com ele. Ela amava tanto aquele homem, e era palpável o amor que ele tinha por ela. Não tive a ousadia de interrompê-los e toma-la só para mim. Céus, minha filha, aquela mulher me enlouquecia. Então no dia do meu casamento com Satsu, ela reapareceu ao lado do marido e trouxe um pequeno pacote nos braços. Era o primogênito Uchiha. Seu nome: Itachi. Ela reluzia em felicidade e orgulho e eu desejei ter um filho também, desejei sentir ao menos uma vez uma felicidade tão grande como a dela naquele momento.

Sim, as conversas perto da lareira eram todas saudosistas. Não havia exceções.

As vezes ambos dormiam ali mesmo, ao som do crepitar da madeira com o calor de um fogo já extinto. Dormiam mergulhados em lembranças de um passado que desejavam reviver ou modificar.

Conforme o ano avançava, Hiashi adoecia cada vez mais. Suas crises de tosse se tornaram cada vez mais intensas e irregulares. Tudo estava fora de controle. E enquanto via o pai definhar a menina que tinha a morte como companhia se fazia forte. Aqueles cabelos castanhos não eram os de Hanabi. Aqueles olhos pálidos não era os da sua irmã. Aquele corte masculino, de um homem alto e e imponente em tamanho e largura, não era o mesmo corpo miúdo de criança da menininha. Mas enquanto via o pai recolher-se com o medo tão visível no seu olhar, ela via-se novamente em sua infância tomando conta da irmã menor.

Assim como na época que tinha Hanabi, ela defendia a menina sozinha. Ali com seu pai, ela defendia o mesmo sozinha. Não havia Neji para sustentá-la.

No dia que ela se formou o homem avisou que partiria para tratar sua doença fora do país. A menina apenas sorriu miúdo e concordou. Ela passaria a viver apenas com o seu Nii-san. Fazia um ano que tinha terminado o namoro devido à distancia e agora ela seria entregue totalmente aos cuidados do primo. Ela se sentia desconfortável. Ela queria vê-lo, toca-lo, acaricia-lo e abraça-lo, mas ela não podia fazê-lo, pois desde que ele se foi um empecilho entre ambos caiu na vida deles como um meteoro.

O meteoro, que era a namorada dele, a fazia se sentir pior do que já estava. Não bastava ter chorado por um mês inteiro quando foi afastada dele, ainda tinha que aguentar aquela garota soltando frases ferinas para si quando, esporadicamente, Neji vinha visita-los, e por insistência da mulher, tinha que trazê-la junto. Na frente dele, a outra era um nojo de tão bem educada e simpática, mas bastava ele se afastar para o festival de difamações começar.

Hinata se restringia a olhar para aquela mulher com a sua melhor cara de paisagem.

A maior diversão da Hyuuga era, depois que a nova namorada dele terminava o falatório, ela corava um pouco e com a voz mais suave e gentil possível murmurava um ''hn? E-estava falando co-comigo?''. Mas claro que não poderia divertir-se assim se não seriam mais finais de semana e sim todos os dias que as duas mulheres se encontrariam. Então quando ela também pôs sua ultima mala no carro e acenou para o motorista acelerar, ela não pode evitar a sensação de ter seu estômago afundando.

Logo seu lar sumiu no horizonte e tudo que ela via era a estrada que acabava na capital. A área urbana começou a ser substituída pela natureza. A voz do coral cantando Carmina Burana ressoava no som do automóvel e deixava a cena mais bucólica. O tempo passou e ela adormeceu entre o batuque dos seus dedos frios na janela e o roçar do lenço vermelho em seu pescoço.

Acordou com o cheiro de comida espalhado pelo lugar. A garota reparou que aquele não era o seu quarto, mas suas coisas estavam ali. Que o cheiro no lençol que usava não era seu, mas parecia-lhe familiar. Foi então que lembrou a origem do cheiro e com um sorriso se levantou e foi em busca do dono do perfume amadeirado que ela tanto amava. Guiou-se pelos sons de talheres e sons de conversa entre homens. Ficou ainda mais alegre ao perceber que seu pai ainda não havia partido, mas no meio do caminho algo a fazer parar brutalmente.

- Pode me passar o peixe, Tenten?

-Claro querido!

Querido...

Querido...

Apenas uma pessoa chamava Neji de querido. Apenas uma pessoa possuía aquela voz. E o Hyuuga havia falado o nome dela, confirmando para ninguém, e para todos quem era a terceira pessoa naquela mesa.

O rosto tornou-se rubro em sua fúria reprimida. Sentia-se traída. Fora substituída pela ultimas duas pessoas que ela amava. A garota que a odiava podia sorrir agora, tinha finalmente roubado seu lugar. As lágrimas rolaram quentes pelo rosto de porcelana e ela começou a recuar. Suprimiu um soluço. Sua fome acabara ao ouvir o som rápido que ela tanto conhecia acompanhado por uma risadinha feminina. O som de um beijo.

A menina voltou correndo para o quarto e trancou-se lá. Recusou-se a sair até o momento que seu pai veio despedir-se. Ela o abraçou e conversou com ele e disse adeus a ele com um sorriso pequeno e sincero, mas em nenhum momento deixou os olhos deslizarem para as duas figuras no final do corredor. Quando o mais velho partiu, ela girou o corpo no sentido contrario a eles, de forma que sequer pudessem ver os rostos uns dos outros. Trancou-se novamente e ainda pode ouvir Neji murmurar do outro lado.

- Tem jantar na cozinha, a ultima vez que você comeu foi no almoço acho bom ir lá.

Então ele esperou ela sair e ir comer. Passou um minuto e nada. Passaram-se 30 minutos e nada. Passaram-se três horas e meia e ela ainda não havia saído. Na quarta vez que ele foi averiguar se ela não sairia furtivamente para comer ele pode jurar que a ouviu resmungar dentro do quarto:

- Desta mulher maldita não hei de aceitar nada. Ainda que eu morra de fome, tudo que vier das mãos dela recusarei.

Foi neste momento que ele desistiu de espiar pra saber se ela comeria ou não.


Demorei, mas postei! :D

¹ Cattleya warneri : é uma planta típica do Espirito Santo e Minas Gerais, alguns classificam como uma orquídea, mas já me disseram que não é. Coloquei o nome específico porque não possui um nome vulgar e procurei ser o mais específica possível.

Espero que apreciem o capítulo. Supostamente era pra ser maior, só que pra ter um efeito de continuidade mais perfeitinho, tive que quebra-lo ao meio. Me sinto má separando a Hinata do Neji e botando a Tenten no meio. Me sinto mais má ainda sabendo o que vou fazer a Tenten ser, nada contra ela ou a Sakura, mas estou criando um mundo a partir o ponto de vista da cabeça da Hinata, ainda que a narradora tinha que bancar a impessoal. Então se representa uma ameaça ao instinto dela, nós tornamos ela uma ameaça real, entende? Se não, vai fazer sentido no final.

Mcdonald's lover, eu ri quando li sua review. Neji do mal esse, né?Meu ego inflou com seus elogios! A pessoa ja é orgulhosa por natureza e sofre com crises de umbigo do mundo de vez em quando, na hora que recebe elogio assim... Tenho dó de quem tiver que me aturar na minha próxima crise de eu sou superior a vocês reles mortais. Mentirinha, eu só tive uma crise assim uma vez, tenho autocontrole suficiente u.u Mas serio mesmo, meu lado menina chorona e melosa queria porque queria que eu desabasse no meio do salão de beleza chorando com os elogios. Mulher de TPM é uma merda mesmo. Continue sempre comentando, beijos.

VitoriGabriely, vamos comemorar porque por enquanto ninguém morre. Acho que vai demorar um pouco pra matança voltar *-*. Ah!, não jogue pedras em mim com esse capítulo, ele é necessário para os próximos, o Neji é, sempre foi e sempre será leal a Hinata. Leal, ok? Segundo a maioria dos virginianos a máxima deles é: ''fiel é o teu cachorro, eu sou leal''. Como ele nasceu dia 3 de setembro e é de virgo, me aproveitei do que o povo fala pra construir mais alguns aspectos dele e dar um up na trama. Obrigada pelos elogios e continue sempre lendo. Beijão.

Tenham uma boa semana!