Tema: Distância

Boa leitura!


QUATRO CENTÍMETROS

Inoue Miyako era uma garota alta. Não exageradamente alta, mas suficientemente alta para que Daisuke a apelidasse de giganta. Ichijouji Ken era quatro centímetros mais baixo do que a menina, mas nunca realmente notou essa diferença, pelo menos não até aquela fatídica semana.

Era a segunda-feira após a briga e ele não estava nenhum pouco animado para ir ao colégio. Tinha vontade de se enrolar nas cobertas e permanecer inerte pelo resto da vida, mas isso, com certeza, preocuparia seus pais e principalmente Wormmon, que ainda tentava fazê-lo falar. Sem dizer que esconder-se seria covardia, o estrago estava feito e mais cedo ou mais tarde teria que encará-lo. Seu desejo de concertar as coisas já não era tão firme, mas precisava tomar um posicionamento, já que elas não se resolveriam sozinhas.

Quando chegou ao colégio imaginava o clima carregado que existiria entre ele e a adolescente, além disso, ele não tinha conseguido pensar em uma boa forma para se desculpar. Imaginou que Miyako, pelo comportamento inflamado que tinha, daria continuidade a briga, viria tirar satisfações, qualquer coisa que tirasse a limpo a discussão que tiveram. Mas, ao invés disso, Miyako o tratou educadamente, o cumprimentando pela manhã. Ela parecia cansada e trazia grandes olheiras, não sorriu como sempre fazia, mas acenou quando se encontraram nos armários.

Ela acenou, mas não como grandes amigos fazem, mas como conhecidos que se encontram na estação do metrô e não querem se falar, mas acenam para serem gentis e educados e essa foi a primeira vez que ele a notou distante. Nos dias que se seguiram, ela continuou com a afabilidade, mas Ken percebeu que ela não almoçava mais com eles, nem mandava mais mensagens no meio da aula, ela estava sempre muito atarefada, ocupada com as monitorias do clube de informática ou trabalhos do colégio.

Ela sempre fora muito azafamada, ocupada com o colégio, monitoria e ajudando seus pais na loja, mas sempre se desdobrara para auxiliar os amigos no que fosse preciso e ser um elemento vital no grupo. Mas agora, ela dava desculpas pouco convincentes até mesmo para Hikari.

Ele sabia que precisava se desculpar, mas não havia o que dizer. Um simples 'me desculpe' não resolveria nada, mas mesmo que explicasse a situação (e ele não queria ter que admitir que estava enciumado e apaixonado), isso não adiantaria muito. Era como tentar se desculpar por todas as coisas horríveis que fizera como Digimon Kaizer, não havia o que desculpar, pois mesmo seu maior arrependimento não mudaria o passado. Não havia mais confiança e cumplicidade entre eles, havia apenas uma cordialidade formal e distante. E não era algo que ele imaginava por se sentir culpado, a distância estava lá, quase tangível para ser tocada, notada não apenas por ele.

"Aconteceu alguma coisa com a Miyako?" Daisuke perguntou no final de tarde da quinta-feira. Estava um dia quente, mas o vento frio fazia o dia parecer melancólico. O ruivo não tinha treino do clube e estava na arquibancada, ao lado de Ken, assistindo ao treino do clube de basquete, o time de Takaishi estava nas finais do campeonato interescolar e treinava dobrado. Se até Daisuke, que costumava ser lento para reparar nos conflitos dentro grupo tinha percebido, é porque a situação estava mesmo complicada.

"Por que pergunta?" O moreno abraçou os joelhos.

"Não sei, ela parece chateada, distante. Ela não falou muito comigo essa semana, será que ela está brava pelo que eu disse?" Ele revirou os olhos.

Ken o olhou sem entender, sabia muito bem que o motivo do afastamento da moça era culpa dele.

"Eu a chamei de giganta." Constatou o ruivo. "Ela estava me provocando por causa do domingo..."

"Domingo?" Perguntou receoso, queria parecer natural, mas sua voz o traiu. Sorte que a reação exagerada passou despercebida pelo amigo.

"Sim, Jun me arrastou para o shopping, unicamente para carregar as compras dela. Não sei como Miyako ficou sabendo disso, mas ficou me zoado e eu a chamei de giganta."

"Ah..." Então era esse domingo, havia um misto de alívio e decepção. Em partes porque se Daisuke estivesse a par da briga, o moreno teria com quem desabafar.

"Nós estamos sempre discutindo, e geralmente ela não fica brava de verdade. O que será que eu foi dessa vez?" Revirou os olhos tentando se lembrar.

"Aposto que não foi nada que você tenha feito." Tentou tranquilizá-lo.

"Por que diz isso?" Questionou o adolescente, cruzando as pernas.

"Porque quem fez, fui eu." E deu um sorriso torto, carregado de melancolia.

Daisuke o olhou descrente. Ken raramente se metia em confusão, ainda mais com a Inoue.

"Mas vou dar um jeito nisso, não vou deixar que os meus problemas causem uma cisão no grupo. Se for preciso, eu irei me afastar, para que a sua amizade com a Inoue-san não seja abalada." Disse impulsivamente.

"Cisão? Do que está falando, Ken?"

"Eu... nós..." As palavras estavam se embaralhando, e ele sentia vontade de chorar. Era horrível estar brigado com Miyako, mas seria muito pior se os outros fossem jogados para o meio do problema. "Eu não quero que a Inoue-san pare de falar com você por minha causa."

Daisuke analisou demoradamente as expressões no rosto do amigo. Ele parecia triste e confuso. Não entendia o que estava acontecendo. Sabia que Ken andava estranho, mas não sabia de nada sobre briga alguma, nem imaginou que fosse por isso que Miyako estivesse diferente. Embora fizesse certo sentido, diferente da amizade que mantinha com a garota, a relação entre ela e o moreno era muito mais delicada. Mas, independente do que acontecera entre a mais velha e o garoto, Daisuke sabia que Miyako não cortaria amizade com ele, mesmo que este tomasse partido do moreno. Toda vez que ela se isolava, era para por seus pensamentos em ordem, e dessa vez não deveria ser diferente.

"Você não precisa fazer isso. Aposto que logo vocês estarão conversando de novo e tudo vai voltar ao normal. Nós estamos sempre brigando e conversando normal no dia seguinte, duvido que ela esteja mais brava com você do que fica comigo." O ruivo disse confiante, dando uma piscadela cumplice e um sorriso vitorioso. Ken sorriu de volta, não muito animado. As palavras de Daisuke eram um conforto, mas ele tinha certeza que resolver sua situação com a garota não seria tão simples quanto às brigas que os amigos travavam. "Afinal, o que você fez para ela?" Perguntou curioso.

"Deixei que o Kasier falasse por mim."

=8=

Já estava escuro quando o treino do time de basquete acabou e os três adolescentes rumaram para casa. Takeru estava feliz com seu desempenho e não parava de falar sobre o jogo que teriam no sábado. Daisuke parecia mais interessado em saber se Hikari iria ver a partida do que nas informações técnicas que o loiro discorria. Ken caminhava ao lado deles em completo silêncio, os olhos fixos nos ladrilhos da rua.

"Miyako-chan" Takaishi gritou, interrompendo seu próprio discurso, chamando a atenção da adolescente que acabava de sair de uma loja cara, carregada de sacolas. Miyako ainda trajava o uniforme do colégio e parecia constrangida ao cruzar com eles, mas estavam muito perto e não tinha como fugir. Ela sorriu e os cumprimentou.

"O que está fazendo na rua até agora, giganta?" Provocou Motomiya. "Suas atividades extras acabaram faz tempo."

"Estava fazendo compras." Respondeu com uma careta, balançando as sacolas diante do rosto do ruivo.

"E desde quando esse tipo de loja tem roupas para girafa?" Sorriu debochado.

"Do mesmo jeito que algumas lojas vendem roupas para idiotas." Rebateu.

Ken deu uma boa olhada no nome grafado nas sacolas. Era uma loja especializada em roupas femininas, chique e sofisticada. Ele conhecia porque Hikari e algumas garotas da sua sala viviam falando das novidades do lugar. Os artigos não eram baratos e o local tinha fama de nunca ter decepcionado nenhuma cliente sequer.

Embora não entendesse nada de moda, imaginava que as roupas deveriam ser mesmo impressionantes, mas nunca pensou que Miyako poderia gostar dessas coisas. Ela era uma menina simples, de hábitos e gostos simples. Sempre julgou que ela acharia essas coisas espalhafatosas demais.

Era uma cena engraçada de se ver, a discussão entre Daisuke e Miyako, o garoto precisava ficar nas pontas dos pés para ficar na mesma altura da mulher. Ela tinha a mesma altura de Takeru, que era o mais alto entre os garotos, e isso lhe rendera o difamatório apelido de giganta. Ken tinha a mesma altura do ruivo, de forma que quatro centímetros o separavam da garota.

Observando-a responder aos atrevimentos de Daisuke, ele pôde ver a garota sorrir como sempre, como se as discussões fossem uma espécie de guerra particular necessária para preencher o dia de ambos. Era um gesto bobo que solidificava a amizade entre eles. Entretanto, não havia nada que o unisse a garota, como amigo ou pretendente. Ele sabia muito pouco sobre seus gostos, sobre o que a fazia sorrir, sobre seu lado mais mulher e menos colega de escola. Ele conhecia bem sua personalidade, seu modo de agir, mas não sabia nada que fosse íntimo, se ela gostava de azul ou rosa, o que sonhava fazer quando terminasse o colegial. De repente, Ken se deu conta que a distância que o separava da adolescente, era maior do que quatro centímetros.