Bem... Pois é =.= eu desisti de esperar por reviews. Parece que o pessoal largou mesmo Vortex Paradise.

. Bem, eu não posso culpar ninguém já que eu mesma demorei séculos pra atualizar.

De qualquer forma, bem... Esse é o cap 10 é o capítulo final. Eu também escrevi um 11 que uma espécie de capítulo bonus. Mas, só estava pensando em postar se o final da história tiver uma boa receptividade =/ Se não, nem vale a pena continuar msm.

Meus sinceros agradecimentos á quem acompanho a história até aqui. Mil desculpas pela demora e... =.=' pelo comprimento absurdo dos meus capítulos. (Eu vou fazer tratamento pra controlar isso)

Beijos gente o/ ainda espero pelos seus reviews =*


A luz do sol que entrava pela janela era branca e pálida e não parecia ser o suficiente para dissipar os sentimentos pesarosos que pairavam como uma névoa naquele dia. Ao invés disso, tudo que ela tocava recebia uma iluminação monocromática de cores acinzentadas e desfalecidas.

Diante da janela branca a silhueta sombria e gélida de uma guerreira de armadura com sua decisão tomada. As mãos unidas sobre o cabo da espada cuja lâmina estava fincada no chão. Ela não sabia o que esperava ver naquele jardim e ela não via nada. Tudo o que ela via eram fantasmas dos dias que pesaram, e tudo que ela ouvia em meio aquele torpor eram seus sussurros.

"Você perdeu completamente a razão!"

"Não! Eu acordei! Finalmente eu enxergo a verdade! Não importa o que você diga agora eu nunca mais irei acreditar em você!"Você nos fez acreditar que estávamos a salvo aqui, que estávamos seguros e que não corríamos nenhum risco. A verdade é que sempre nos manteve presos em benefício próprio!"

"Será que não percebe que você está se deixando levar... Pelas palavras de alguém que você nem conhece! Alguém que nos atacou!"

"Eram as palavras do meu irmão! Alguém que nos atacou e que parece se importar muito mais conosco do que você!"

Enquanto aquelas vozes furiosas escapavam pelas paredes do escritório e ressoavam por toda a mansão silenciosa, uma figura pequena abaixada junto a porta , espiava com temor tudo o que acontecia lá dentro. Itália tremia a cada explosão dos dois países de quem gostava tanto. Nunca vira os dois tão furiosos. Ambos alheios á sua presença que estava oculta pelas sombras intensas dos corredores, quebrada apenas pela luz que escapava por aquela fina brecha na porta quase fechada, a luz alaranjada iluminava uma pequena faixa em seu rosto e seus olhinhos assustados.

Repentinamente, sentiu uma maciez em suas costas, que lhe assustou ainda mais momentaneamente. Era Hungria, que se ajoelhara no chão ás suas costas o abraçara por trás. O pequeno entristeceu-se ainda mais quando viu o sorriso melancólico e forçado da húngara, que nem de longe transmitia metade da alegria que ela costumava transmitir. Ainda sim a moça tentou confortá-lo de alguma forma, protegendo-o entre seus braços maternos.

- Vamos, Ita-chan. – disse com voz carinhosa e baixa, tentando mascarar sua tristeza. – É melhor irmos dormir...

- Uh...uh... Hungria... – murmurou o pequeno tentando engolir o choro que insistia em cair.

-Shhh... Pronto... Pronto... Vai passar...

Hungria apertou o pequeno Itália contra o peito deitando o rosto sobre sua cabeça e afagando-o. Fechando os olhos, tentando ela mesma se convencer daquilo enquanto ouvia as vozes furiosas de Sacro Império e Áustria que discutiam:

"Como posso confiar em você? Você nunca nos permite sair! Estamos sempre presos aqui, cumprindo suas ordens, aprendendo os seus costumes! Só você sai!"

"Isso é para proteger vocês!"

"Eu não preciso da sua proteção! Nunca precisei! Eu sou o precioso neto do Germânia! Tenho o sangue de dois poderosos guerreiros correndo em minhas veias! Tenho a preciosa herança dos meus avôs! É você quem precisa da minha proteção!"

Fechava os olhos com força e repetia para Itália e para si mesma: "Vai passar..."

O silêncio sepulcral cobriu a casa de Áustria. Toda a alegria se esvaía daquele lugar pouco a pouco, como se fugisse da raiva dos países que ali residiam. Os criados tornaram-se fantasmas silenciosos que faziam o que deveriam fazer sem dizer nada, nem perguntar nada, nem comentar nada... Fingiam não ver, fingiam não ouvir... O violino deitado sobre uma poltrona de estofamento azul, parecia um pedaço de madeira morta, e o piano iluminado fracamente pela luz do sol das janelas era uma paciente mudo em estado de choque.

Os passos ritmados da húngara que caminhava lentamente pelos corredores soavam alto. Um barulho estalado parecia ressoar e era quase ensurdecedor.

Hungria parou em frente á sala do piano e por um momento, jurou ver o senhor Áustria de dois dias atrás sorrindo e tocando piano enquanto via Sacro Império desajeitadamente valsando com Itália, com o rostinho redondo pintado de vermelho pela proximidade com o outro. Ela mesma estava próxima ao piano sorrindo tão alegremente enquanto ouvia o som suave e romântico do piano do senhor Áustria. Ouvia a risada tímida de Itália misturada á sua própria e á risada suave do senhor Áustria.

Quando seus lábios ameaçavam curvar-se em um sorriso os fantasmas desapareceram como se uma voz os espantasse:

"Família? Huhuhuhu! Essa é a ladainha que você usa para mantê-los presos aqui?"

Hungria piscou mais uma vez. Mesmo que aparentasse estar calma, suas mãos junto ao colo estavam tão apertadas que os nós dos dedos delicados estavam brancos. Diante dela, só havia uma sala de piano fria e silenciosa.

Ela voltou o rosto para frente. Sua expressão ilegível como estava desde que houvera aquela malfadada ocorrência no jardim. Á sua frente, Itália varria o chão com o rosto inchado pelo choro.

Itália olhou para a moça mais velha que lhe esboçou um fraco sorriso de incentivo, que apenas serviu para que Itália se preocupasse mais com Hungria. Então a moça continuou caminhando como se nem mesmo tivesse visto o menor.

Passou na frente do quatro de Sacro Império Romano. A porta estava entreaberta. Ela parou ali alguns segundos. O menor estava sentado em um banco alto olhando através da janela com um olhar soturno. Notou a presença da húngara perto da porta e lançou-lhe um olhar surpreso. Se encararam por alguns segundos. E então ele baixou o olhar por um momento, e voltou a olhar para a janela como se a tivesse visto.

Hungria baixou a cabeça e continuou a percorrer seu caminho no corredor. Os passos ainda soavam altos demais. A garganta ardia e ela prometeu á si mesma que não se renderia por nada. Ela disse a si mesma que tudo iria melhorar logo.

"Não está protegendo ninguém, só está mentindo pra eles para que não se agitem e não fujam daqui antes que você os domestique e os transforme em seu território."

"Simplesmente não consigo acreditar que dois países tão fortes tenham caído nesse papo furado."

"A vida de países como nós é complicada demais para se viver tão tranquilamente"

"... tão tranquilamente..."

"...tão tranquilamente"

"A vida de países como nós..."

"...complicada demais..."

"complicada demais..."

"...tão tranquilamente..." "A vida de países como nós é complicada demais..."

O som de seus passos parou. E quando ela abriu os olhos viu diante dela a porta do quarto de Áustria. Todos os outros lados do corredor pareciam escuros demais. Ela levantou o olhar e viu a grande e pesada porta de mogno. Atrás dela Áustria estava deitado sobre sua cama, em silêncio, isolado e quieto. Ela encolheu os ombros trêmulos e ergueu o punho para que pudesse bater e pedir permissão para entrar. Respirou fundo. E no momento em que iria tocar a porta...

"Você só precisa que eu a conduza, está bem? È só se deixar levar por mim..."

"É só se deixar levar por mim"

A moça sentiu uma descarga elétrica chicoteá-la, ferindo seu coração. O punho que bateria a porta se rendeu, a mão se abriu e espalmou contra a madeira e começou a apoiar o peso de seu corpo que se envergava. Ela baixou a cabeça, as mechas do cabelo castanho formando uma sobra em seus olhos, levou a outra mão para que cobrisse a boca. Conteve soluços chiados fracos dentro da garganta. A mão junto à porta deslizou lentamente enquanto a moça cedia ao peso do próprio corpo e se ajoelhava no chão. E ela ficou lá, agachada e apoiada em frente àquela enorme e pesada porta de mogno... Uma porta que não se abriria para ela.

- Se eles se rebelarem você precisa tomar uma atitude! – dizia um homem de capa marrom.

- Não deveria ter conquistado tantos territórios se não tem capacidade para mantê-los sob controle! – reclamou um de capa verde.

- É um absurdo que você esteja tendo tais conflitos com Sacro Império Romano Germânico. Se ele não ceder nós teremos que nos preparar para uma guerra! – reclamou o loiro de capa marrom

- Uma guerra agora? Isso seria muito inapropriado! Não estamos preparados pra isso! Não teríamos chance alguma! – disse o de capa verde batendo a lança no chão

- E quanto aos outros territórios? Se Sacro Império espalhar essas idéias nós teremos problemas realmente graves!

Os parentes de Áustria rodeavam-no acusando sua irresponsabilidade como aves carniceiras. O pobre jovem austríaco apenas ouvia tudo com uma expressão mista de concentração e culpa, com os olhos fechados e braços cruzados, pensando em como responder á todas aquelas perguntas.

Hungria observava a discussão dentro do escritório de Áustria de trás das paredes, abraçada com o pequeno Itália que parecia triste com aquilo tudo, mesmo não sabendo direito o que estava acontecendo. Achava que mesmo que estivesse ali dentro, os parentes do senhor Áustria não se importariam em continuar falando dos "países conquistados" como se não passassem de tributos de guerra.

- O que há com eles? – murmurava ela apreensiva. – Eles tem estado muito por aqui ultimamente. Eles querem apenas arranjar um motivo para bater no senhor Áustria! Só espero que eles não tenham que recorrer á matar pessoas que sejam da sua própria família...

Itália deu um chorinho de medo e então voltaram a se esconder atrás da parede, quase ao mesmo tempo em que Áustria suspirava e tentava começar a dar explicações aos seus parentes.

Hungria encostou as costas na parede ainda abraçada com Itália e com os joelhos encolhidos. Ela voltou seu olhar aflito para o teto e suspirou...

Lembrou-se de quando Áustria a havia levado para aquela casa:

"- Antes que comece a fazer algum alvoroço, devo avisá-lo... – continuou, sem se deixar interromper. – Que você é meu subordinado agora. E toda e qualquer atitude que eu julgar inapropriada entre um subordinado e um mestre, será tratada devidamente."

E logo em seguida em como Itália fora parar lá também.

"- Apenas há um território no qual estou interessado e que está sob o domínio de outra pessoa."

"- Bem, aqui estamos. A partir de agora você é da Áustria, então terá que trabalhar como meu subordinado. Eu também estarei no comando da política e indústria do seu país. Tudo o que você tem que fazer é me obedecer. Alguma pergunta?"

A húngara sentiu um tremor percorrer seu corpo. Por mais que tentasse, as palavras de Prússia não paravam de ressoar em sua mente:

"Não está protegendo ninguém, só está mentindo pra eles para que não se agitem e não fujam daqui antes que você os domestique e os transforme em seu território."

"- Eu... Eu já não sei de mais nada" pensava Hungria, o brilho de suas lágrimas começava a tomar espaço em meio á seus olhos verdes e confusos. "- Será que é isso mesmo? Será que para o senhor Áustria nós não passamos de um troféu de guerra? Eu... Eu..." – Então aquelas lágrimas escorreram por sua bochecha até seu queixo que tremia. – "Eu não consigo mais... Confiar no senhor Áustria... Por que eu não consigo... Confiar nele? O senhor Áustria... O senhor Áustria... Ele jamais faria isso com agente!"

Hungria trincou os dentes e apertou mais Itália em seu abraço. Fechando os olhos com força e se lembrando do sorriso doce e carinhoso do mestre Austríaco que ela tanto admirava.

Flashes de seus momentos juntos com o Áustria estouravam em sua mente repetidamente junto com as palavras cruéis de Prússia. Lembrava-se dos dois sorrindo junto ao piano enquanto ele tocava sua música favorita. Lembrava-se dos dois valsando na festa juntas. No riso sincero dele quando ela acertou a marquesa de Brengs. Em como ele disse que ela estava bonita tão gentilmente quando ela experimentara seus óculos. No desenho que ele fizera dela. O livro que leram juntos. O gerânio que ele lhe deu no jardim. O violino. O piano. As flores. O vestido. A espada. A frigideira. Os óculos. O lápis. O chá...

"Família? È essa a ladainha que está usando para mantê-los aqui? Só está mentindo para eles para que não fujam e se transformem em seu território."

Hungria sentiu como se estivesse sufocando. A sensação repentina lhe causou um susto. Seus olhos ainda úmidos se esbugalharam como se alguém a estivesse estrangulando... Como se a dúvida que sentia quisesse matá-la.

Por que Áustria fazia tanta questão que ela lesse seus livros se eles estavam todos na sua língua?

Por que ele queria ensiná-la piano?

Por que não podiam comer a pasta que Itália tanto gostava? Por que só comiam pratos austríacos?

Vestiam as roupas do Áustria. Moravam na casa do Áustria. Comiam a comida do Áustria. Dançavam como o Áustria. Estudavam como o Áustria. Tocavam como o Áustria...

"Se vocês se esquecerem de quem são também irão desaparecer"

"Se vocês não forem donos de si... Então não serão nada."

"È só se deixar levar por mim Hungria... É só se deixar levar pela música."

"Se deixe levar por mim Hungria. Deixe que eu te conduza..."

"Se deixe levar..."

Itália ergueu o olhar quando sentiu as lágrimas de Hungria caindo sobre seu rosto. A moça parecia atônita, olhando para o nada, totalmente inexpressivo. A cor dos olhos de Hungria havia se tornado muito mais escura e não havia mais brilho em seu olhar, como se ela estivesse possuída por alguma coisa. Itália soltou um ganido e segurou com firmeza nas roupas da Hungria, sacudindo-a.

- Hungria... Hungria! Hungria o que foi? Hungria! Está tudo bem? Hungria!

A moça voltou o rosto para o país menor como se o estivesse vendo ali pela primeira vez. Seu olhar não mudara, continuava assustando e preocupando Itália mesmo que a moça tenha tentado sorrir como fazia antigamente.

- Está tudo bem Ita-chan... Está tudo bem... ... ... ...Está tudo bem...

Quem visse o céu azul e o sol que esbanjava seus raios iluminados sobre aquela casa, e sobre aquele jardim, jamais desconfiaria do clima inquieto e sufocante que tomava conta da casa do Áustria.

Hungria terminava de colocar o chá e o açúcar sobre uma bandeja de prata calmamente. A moça terminou de acertar corretamente o que devia sobre a bandeja e sorriu para o pequeno Itália.

- Vamos? Ita-chan?

-Si... Sim...- respondeu o menor com certa insegurança.

Ambas caminharam tranquilamente até o escritório do Áustria. No caminho, passaram pelo quarto de Sacro Império Romano. As duas portas estavam abertas revelando algo incrível.

Enquanto Itália se atirava para dentro do quarto Hungria baixou a cabeça e fingiu não ter visto.

Aquele lugar... Estava completamente vazio. Sem nada e nem ninguém. Apenas quatro paredes lisas e uma janela.

Itália tremeu.

- Não está... – disse com a voz chorosa e trêmula. – Sacro Império Romano não está mais aqui... Hu... Hungri...!

- Vamos... Ita-chan. – cortou a moça de cabeça baixa, uma sombra escondendo a expressão de seus olhos. – O chá vai esfriar.

Continuaram a caminhar da mesma forma que antes. Itália estava mais cabisbaixa que nunca e a expressão de Hungria continuava ilegível.

Quando chegaram ao escritório do mestre Austríaco, este estava debruçado sobre a mesa, de costas para a porta. Hungria se aproximou e colocou o chá na mesa ao lado dele.

- Aqui está, senhor Áustria. – disse servindo-lhe o chá.

Áustria continuava com a cabeça abaixada. A testa apoiada em uma das mãos impedindo que tanto Itália quanto Hungria pudessem ver o seu rosto, enquanto lia um livro.

- Ah... – disse depois de um tempo. – Obrigado... Hungria...

A moça voltou para junto de Itália, próximo a porta.

Depois de alguns minutos de silêncio, sem poder mais agüentar, Itália se aproximou perguntando relutante:

- Hum... Onde estão os outr...

- Itália... – cortou o austríaco, mantendo a voz mansa. – Vá e traga um pouco de água por favor.

- Hã? – o pequeno ergueu o rosto sem entender por que precisaria de água se acabara de ganhar chá.

- Depressa.

Hungria percebeu o que Áustria queria com aquela situação e decidiu não dizer nada.

Itália baixou a cabeça e saiu do escritório cabisbaixo. Hungria direcionou ao pequeno um olhar preocupado e piedoso. E assim que Itália estava longe o suficiente para não ouvir ela voltou-se para o austríaco com tom de voz preocupado. Mesmo que perguntasse aquilo, ela já sabia o que havia acontecido...

-Senhor Áustria... – perguntou levando as mãos ao peito. – O que está acontecendo?

O Austríaco voltou-se para Hungria, olhando-a por um momento e baixando o olhar logo em seguida com um sorriso melancólico.

- È simples... Eu fui abandonado...

A situação havia chegado em seu ponto crítico...

Ela abria os olhos novamente. Não sentia-se mais perdida ou desamparada. Não sentia-se mais confusa. Agora sabia o que devia fazer.

Enquanto olhava aquele jardim, ela ainda podia ver Sacro Império Romano e Itália conversando como se o estivessem fazendo naquele exato momento. Podia ver com perfeição o dia em que o jovem germânico decidira deixar a casa do Áustria.

Ela apertou o cabo da espada e ergueu a cabeça, com o olhar determinado. Sabia que se iria mesmo agir, teria que fazê-lo logo. Aqueles fantasmas não a atormentariam mais. A melancolia daquela casa... Não seria mais problema dela...

Engoliu o bolor amargo preso em sua garganta, sabendo que deveria admitir que Prússia tinha razão. Sabendo que deveria abandonar a ilusão de "lar" que criara e voltar a ser uma nômade. Pessoas como ela não tinham "famílias"

- A vida de países como nós... – murmurou para si mesma. - É complicada demais para se viver tão tranquilamente.

Ela ouviu os passos suaves aproximarem-se da porta de seu quarto e voltou-se para trás. A luz branca e monocromática que entrava pela janela formava uma sombra sobre Hungria impedindo que se visse os detalhes da roupa que estava usando. Mas, Itália pode ver o suficiente: Era uma guerreira novamente. A capa presa sob as ombreiras, o peitoril de metal agora em formato apropriado para seu corpo, abrigando seus seios. As botas de metal, as braçadeiras, e o vestido adaptado á armadura.

- Ita... – ela sorriu para o menor. E naquela vez, depois de muito tempo, aquele era o olhar de Hungria novamente, era o sorriso doce e carinhoso da húngara que o ajudara quando havia chegado assustado naquela casa.

A moça caminhou com sua roupa metálica na sua direção e agachou diante dele. Itália soluçou algumas vezes, com lágrimas já se formando no canto de seus olhos.

- Hun...hun... Hungria...

- Não se preocupe Ita-chan. – sorriu ela acariciando-lhe a cabeça. – Eu prometo que volto pra te buscar. Nem que custe a minha vida. Não vou te abandonar aqui. Tem minha palavra.

- Vo...Você... Você tem certeza de que vai fazer isso?

- Tenho sim. Eu... Preciso fazer. – respondeu ela com um sorriso melancólico.

Hungria fechou os olhos e quando os abriu novamente, sua expressão tornara-se séria, madura e perigosa. Era a pessoa que era antes de chegar aquela casa. Era a mulher que derrotara tantos que antes tentaram invadir sua casa.

- Estou indo. – disse com uma voz firme, se afastando de Itália e atravessando o corredor.

Áustria corria com a aflição fazendo seu coração disparar e seu sangue correr rápido. Sentia cada parte do seu corpo tremer. Corria como se fosse perder a própria vida. O ar saia desregular por sua boca. Ele sentia como se o chão fosse cair de seus pés á qualquer momento. Atravessou toda a mansão desesperadamente como se fugisse de alguma coisa.

Não estava fugindo... Apenas do medo de que o único pilar de sua existência naqueles dias fatídicos desaparecesse.

Quando irrompeu no jardim, aquele jardim que parecia tão sem vida e frio novamente, Hungria já estava lá. Tinha a espada em mãos, estava completamente preparada para uma batalha. Ele sabia o que aquilo significava. Sabia sim. Mas, seu próprio coração não o deixava aceitar aquilo.

O vento batia contra os dois. Ele foi relutante em se aproximar.

- Hungria... – falou da primeira vez. Baixo demais. Ela continuava a encará-lo com seu olhar verde ferino. Ela o olhava como se nem mesmo o conhecesse. O olhava como se o odiasse. Aquilo estava se tornando um verdadeiro pesadelo para ele. Pigarreou e elevou a voz. – Hungria! O que está fazendo?

- Áustria... – disse a moça friamente. Então ela posicionou-se de frente para ele, pronta para levantar a espada a qualquer momento. – Eu vou embora.

Áustria sorriu nervosamente. O medo o estava envolvendo como se fosse uma serpente. Ele só queria fechar os olhos e queria que tudo aquilo parasse e que tudo voltasse a ser como era antes. Ele olhou pra ela sorrindo como se não entendesse o que ela estava dizendo.

- É... É mesmo? Tudo bem, Hungria. Mas... É perigoso ir sozinha lá fora sabe? Principalmente em tempos como esse... As coisas andam complicadas por aqui... – disse ele fazendo menção de se aproximar.

A moça estendeu a espada ameaçadoramente em sua direção, fazendo-o parar no mesmo instante. Mesmo que entendesse o que estava acontecendo ali, ainda sim ele se sentiu surpreendido por aquela atitude... Por aquele tom de voz... Por aquele olhar...

- Você não entendeu Áustria... Eu vou embora daqui. Sozinha... E não vou voltar...

- Ah... – o reflexo da luz batia nos óculos de Áustria e eram refletidos, de modo que não se podia ver bem seus olhos. – Isso tem acontecido bastante por aqui... Então, isso é algo que você pretendia fazer desde sempre? – O estresse na qual estava sendo submetido o estava consumindo. Perder Sacro Império já havia sido um verdadeiro golpe para Áustria... Ele sentia-se traído, sentia que tudo o que pensava sobre seus amigos, sua família... Tudo que achava que havia se formado entre eles... Era falso. – Você está indo embora... Por que não há nada nessa casa que a prenda aqui, estou certo? Não há nada aqui que seja importante pra você, não é? Você só estava esperando... A oportunidade...

Aquelas palavras atingiram Hungria. Ela sentiu o cabo da espada pesado demais por um momento e vacilou. Queria gritar para Áustria que ele estava errado, contar-lhe toda a verdade. Mas, não sentiu que poderia. Ao invés disso, enrijeceu o maxilar e retomou a postura.

- Isso não importa. – disse segurando a espada com firmeza novamente. – Eu vou embora e isso é tudo que precisa saber.

- Sabe que... Eu não posso permitir que faça isso.

- Imaginei. Mas, mesmo que tente você não vai me impedir. Por isso tinha esperanças de que você apenas me deixasse ir pacificamente. Seria mais fácil para nós dois.

- Deixá-la partir? Você acha que isso seria fácil? Você... Você com certeza não entende nada sobre o que eu sinto...

- Exijo minha liberdade Áustria! Se você não pode dá-la pra mim... – então a moça partiu pra cima do austríaco atacando-o. – EU TEREI DE TOMÁ-LA A FORÇA!

Áustria sacou a espada defendendo-se do golpe com a velocidade de um raio. As espadas dele e de Hungria se confrontavam. Ela o atacava ferozmente e ele se esforçava para poder defender-se de todos os seus golpes.

O austríaco sentia-se em desvantagem. D emorou alguns instantes pra perceber que estava mesmo lutando contra Hungria. E mesmo com o sangue quente pelo fervor da batalha, a idéia de acertá-la o apavorava. Não queria lutar com ela. Não conseguiria machucar a mulher que amava.

Depois de repetidos golpes, suas lâminas se travaram.

- Por que está fazendo isso? – gritou Áustria encarando-a ferozmente por trás das lâminas cruzadas. – Você também quer se aliar ao Prússia? Você também quer me destruir? É isso Hungria?

- Não tem nada a ver com o Prússia! – gritou a moça contendo as lágrimas, sua garganta queimava. Ela não pensava que seria assim tão difícil lutar contra o Áustria. Fechou os olhos com força e engoliu o choro, balançou a cabeça e encarou-o. – Você não entende! Por que você não se rende logo? Porque apenas não me deixa ir?

Áustria empurrou as espadas conseguindo ganhar distância dela por alguns instantes. Acertou os óculos sobre o nariz com a respiração arfante.

- Não posso deixá-la ir sem que ao menos me escute...

- Eu não quero ouvir nada! – Então a moça se atirou novamente contra o Austríaco, deferindo-lhe uma série de golpes. – Não quero ouvir mais desculpas, mais explicações! Não quero mais perguntas! Mais mentiras!

- EU NUNCA MENTI PRA VOCÊ! – disse o austríaco defendendo um golpe com tanta brutalidade que fizera com que Hungria perdesse a espada. Ele a encarava arfante, a ventania os golpeava ferozmente, esvoaçando seus cabelos e roupas. – Nunca menti para nenhum de vocês! Vocês sempre foram importantes pra mim... Você, Itália e Sacro Império... Não os mantenho aqui para escravizá-los. Nunca quis usar vocês! Eu nunca...

- Então por que? – perguntou a húngara sem conseguir mais conter as lágrimas. – Por que nos manteve presos aqui por todo esse tempo? Não percebe senhor Áustria? Está nos influenciando! Nos afastando de quem somos... Cada vez mais estamos perdendo nossa própria identidade. Cada vez mais estamos deixando de ser quem somos... Estamos nos tornando você... – As lágrimas de Hungria abalaram o coração do austríaco. Ele baixou a cabeça e mordeu os lábios sentindo a dor no peito. – Sabe muito bem que iremos desaparecer dessa forma... Deixando-o mais forte... Se realmente se importasse conosco... Não deixaria que isso acontecesse. E é por isso... É por isso que eu não consigo mais confiar em você.

Áustria sentiu aquelas palavras como um tapa. Ele baixou a espada e ficou paralisado absorvendo tudo aquilo sem saber como reagir.

- Eu... Eu não queria... Eu... Tudo o que eu fiz foi porque...

Antes que pudesse terminar Hungria partira para outro ataque. Áustria ergueu a cabeça e estava se defendendo quase lento demais. A nova arma de Hungria não só era extraordinariamente rápida e mais pesada que uma espada, mas também servia como escudo. De repente, Hungria conseguiu desarmá-lo com a frigideira, acertando-lhe em seu braço, e logo em seguida a moça agachou-se rodopiando sobre um pé e acertando-lhe nos joelhos, fazendo com que caísse. Quando o austríaco ergueu o olhar, se viu encurralado pela húngara com a frigideira. Ela ainda tinha lágrimas nos olhos e uma expressão de sofrimento. A moça tomou fôlego mais uma vez e tomou coragem pra falar:

- Me liberte senhor Áustria.

Áustria engoliu o sofrimento que tudo aquilo lhe causava. Lembrou-se de todos os momentos felizes que teve naquele lugar desde que Hungria havia chegado. Ele sabia que não sobreviveria sem ela com Prússia e França em seu encalço e sem o apoio de Sacro Império. Mas, quando pensou nisso um sorriso formou-se em seu rosto. Ele não queria mesmo sobreviver se tivesse que viver sem Hungria. Não queria ficar sozinho naquela mansão fria, naquele jardim sem cor. Tudo voltaria ao normal depois que ela fosse. E depois de conhecê-la... O "normal" já não era mais o suficiente para que ele pudesse viver feliz.

E fora tal pensamento que lhe trouxera paz. A paz de alguém que aceita o próprio destino. Um sorriso melancólico, mas genuíno se formou em seu rosto.

- É mesmo não é? – ele voltou o rosto para ela, sorrindo como se estivesse constrangido por tudo aquilo. – Prússia tinha razão... Eu não estava protegendo vocês... Eram vocês que estavam me protegendo. Vocês eram minha força Hungria... E agora, sem isso... Eu não passo de um riquinho fraco. Como eu era quando éramos crianças... Mesmo naquela época, eu sempre dependi dos outros para me proteger... – ele baixou a cabeça, tirou os óculos e cobriu os olhos com a mão, emaranhando os dedos em seu cabelo castanho – Eu sou tão inútil.

Hungria baixou a frigideira com o qual ameaçava Áustria. Ela não agüentava mais aquilo. Não queria fazê-lo sofrer. Não queria mais que ninguém o fizesse sofrer.

- Senhor Áustria...

"Como eu fui burra! O que eu tinha na cabeça? Como pude fazer o senhor Áustria sofrer? Mesmo que tudo o que Prússia tenha dito seja verdade... Mesmo que ele tenha nos usado para se proteger... Eu... Eu realmente quero mesmo proteger o senhor Áustria. Não me importo que ele me use da forma como quiser... Eu não me importo em desaparecer por isso. Não me importo em me tornar só mais uma parte dele. Desde que eu possa permanecer viva, sendo parte de alguém tão incrível e tão maravilhoso e tão gentil .Desde que eu pudesse vê-lo sorrindo, desde que eu pudesse continuar ao seu lado... Desde que pudéssemos continuar juntos..."

A moça largou a frigideira e se jogou de joelhos no chão, encolhida, cobrindo o rosto com as duas mãos tentando de alguma forma conter as lágrimas.

"Como eu pude duvidar dele? Como pude atacá-lo? Eu quero ser a força do senhor Áustria... Eu quero fazê-lo feliz sempre! Quero que volte a tocar piano e quero vê-lo sorrindo. Quero que possamos ler juntos e jantar juntos e dormir juntos... Eu quero fazer parte dele, eu quero fazê-lo feliz porque... Porque eu... Porque eu..."

- Eu te amo Hungria.

A moça levantou o rosto, aturdida com o que havia acabado de ouvir quase ao mesmo tempo em que ele segurava em seu pulso e se inclinava na direção dela. Hungria não teve tempo para perceber o que estava acontecendo, até que sentiu o beijo dele. O coração dela acelerara e ela não conseguia acreditar no que estava acontecendo, seus olhos mantiveram-se abertos, vidrados e surpresos, ela sentiu o alívio e a calma inundá-la e ela não sabia como reagir á tudo aquilo. Áustria largou os pulsos dela delicadamente e se afastou encarando-a de perto por alguns instantes, ela sustentou seu olhar sentindo um formigamento engraçado no corpo que ela não conseguia descrever como sensação nenhuma que conhecesse. Ele voltou a sentar-se e abriu aquele sorriso meigo e gentil que ela conhecia. Aquele sorriso meigo e gentil que ela amava.

De repente as nuvens nubladas se dissiparam e a luz que vinha do céu parecia estar devolvendo a cor a paisagem. Áustria tocou o rosto de Hungria e tirou o gerânio que ela prendia na mecha de seu cabelo. Ela observava tudo com surpresa nos olhos ainda úmidos.

- Por favor não chore mais. Não quero vê-la chorando... Nunca mais... – disse ele enquanto usava as pétalas da flor para enxugar as lágrimas que escorria do rosto da moça. – Está livre Hungria.

A moça encarava-o aturdida. Hipnotizada e paralisada por aquele momento. Seu coração batia forte. Tudo parecia clarear como se a escuridão que a envolvia se dissipasse graças aquele sorriso.

- O... que?

- É um país livre agora. Não é mais minha subordinada. Pode ir embora se quiser.

-Se... Senhor Áustria...

- Não. – ele interrompeu levantando a mão. – Não sou mais seu senhor.

Por mais que estivesse feliz por perceber que Áustria gostava dela o suficiente para ser capaz de abrir mão de seu domínio sobre ela. Todos aqueles sentimentos... A estavam deixando um pouco triste.

- Mesmo assim... Eu fico preocupado com você. São tempos difíceis mesmo. Você veio parar aqui porque estava enfrentando muitas lutas difíceis, não é? Vai conseguir suportar sozinha?

- Eu... – a moça baixou a cabeça e pousou as mãos sobre o colo. – Sim, mas... Quer dizer... Eu posso me virar, mas...

- Pode contar comigo... Se precisar de um aliado. – ele sorriu voltando o rosto para o céu. – Também vou me esforçar pra vencer minhas batalhas sozinho e sem o apoio de ninguém. – ele riu melancolicamente dando de ombros. – Bem, acho que vou passar por dificuldades de qualquer forma...

- Áustria eu...

- Mas, é assim mesmo, não é? – disse ele, voltando a sorrir para ela. – A vida de países como nós é complicada demais para se viver tão tranquilamente. Mesmo assim, estamos conseguindo dar um jeito, não estamos? Tudo isso... Tudo o que somos é uma grande responsabilidade...

- Eu... Eu sei...

Áustria levantou e Hungria o fez logo depois dele. A expressão da moça ainda era triste e ela ainda mantinha-se de cabeça baixa. O austríaco limpou os óculos e colocou-os de volta.

- Parece que o tempo está abrindo. – disse olhando para o céu. – você já está pronta pra ir, não é? Quer que eu te acompanhe até o portão?

Ela ergueu o rosto de repente, como se não tivesse ouvido o que ele dizia.

- Ah! Eh... – ela voltou a desviar o olhar enquanto prendia uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. Quando seus dedos correram entre os fios, ela sentiu falta do gerânio que costumava prender ali. Surpreendeu por um momento e lembrou-se que Áustria ainda o estava segurando. – Eu... Eu posso ir sozinha...

- Tudo bem. Cuide-se bem Hungria.

Ela fez um suave aceno com a cabeça.

- Cuide-se bem também Áustria...

Ela cumprimentou-o mais uma vez, deu-lhe as costas e começou a caminhar para longe dele atravessando o jardim. Áustria a via se afastar, apertou a flor que segurava com força, e sem conseguir se segurar acabou dando um passo em sua direção num impulso.

- Hungria!

Ela voltou-se para trás no mesmo instante.

- O que foi?

- Eu... Eu iria esperar até que você fosse pra casa para te perguntar isso. Mas, acho q não tem problema perguntar agora... Não é?

- O... O que quer me perguntar?

- Bem é que... Agora que você está livre, sabe que... Como país independente terá que tomar muitas decisões difíceis. – ela assentiu com a cabeça. Ele baixou o olhar por um momento, se perguntando se estava fazendo a coisa certa ou se ela não o odiaria de vez por aquilo. Mas, naquele momento, vendo-a partir daquele jeito, ele sentia que não tinha mais nada a perder. – A primeira decisão que você deve tomar como país livre... È escolher...

Então ele levantou o rosto e encarou-a com um misto de paz interior, leveza e insegurança estampada em seu sorriso.

-... Se você aceita se casar comigo.

Hungria sentiu o mundo de flores explodindo dentro de seu coração. Ela simplesmente não sabia o que dizer, ela não sabia o que pensar. Toda a tristeza, todo o medo e toda a confusão que a abateram durante os últimos dias, foram engolidos e devorados pela alegria e emoção que sentia.

Áustria desviou o olhar constrangidamente, coçando a bochecha como se estivesse repensando se havia mesmo sido uma boa idéia dizer aquilo.

- Eu... É que eu estava pensando... Já que não posso tê-la como minha subordinada, eu gostaria de tê-la como minha esposa... Bem, acho que tudo bem se você não quiser... A escolha é sua... eu só...

Áustria nunca conseguiu terminar, o que, é claro não tinha importância nenhuma. Deixou de ter quando Hungria se lançou em seus braços, segurando seu rosto e beijando-o enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. Tudo aquilo pegou Áustria de surpresa, mas aos poucos, ele foi inundado pela mesma alegria que Hungria sentia. E assim, ele a abraçou com força.

Quando seus lábios se separaram, Hungria se encolheu em meio aos braços de Áustria, ainda chorando e abraçando-o forte.

- Me perde senhor Áustria! Me perdoe por duvidar de você, por ter feito tudo isso! Eu... Eu também não sinto mais como se pudesse viver sozinha... Não sinto mais como se pudesse ser feliz sem você...Eu... Eu quero muito ser sua esposa! – disse afundando o rosto choroso em seu peito. – Quero muito amá-lo todos os dias! Eu quero me casar com você senhor Áustria! Por favor... Eu... Eu...

E então ela acabou se entregando mais e mais ao choro. Áustria ria e abraçava-a com força enquanto ela chorava auto cobrindo o rosto como uma criança e soluçando enquanto dizia: "Eu estou tão feliz! Estou tão feliz!" E ele sabia que era verdade...

Por que ele também estava...

O sol brilhava forte através dos vitrais da igreja. Todo aquele lugar enorme estava inundando de uma melodia silenciosa que embalava o coração de todos.

As mãos de um austríaco seguravam as mãos pequenas e delicadas, cobertas por luvas brancas. Ele deslizou uma aliança dourada em seu dedo.

Hungria voltou seu rosto para ele e sorriu daquele jeito gentil e animado de sempre. Áustria sorriu de volta achando-a a noiva mais linda do mundo. Então olharam para os amigos e parentes que celebravam aquele momento com eles recebendo uma salva de palmas, assovios e gritos de alegria.

Hungria era a própria personificação da alegria. Sem largar as mãos de seu marido deu de ombros, sem graça, voltando-se para ele novamente. Áustria segurou-a pela cintura a ergueu do chão abraçando-a com o rosto voltado em sua direção. A moça apoiou-se em seu ombro entre risos, inclinou-se em sua direção e beijou-o. Recebendo mais uma salva de comemorações enquanto eram acometidos por uma chuva de pétalas de flores.

O lado de fora da igreja, ainda mais animado que do lado de dentro. Quando os noivos saíram foram recebidos por chuvas de pétalas e arroz.

- Eu realmente não entendo direito esse seu costume. – disse Inglaterra olhando com estranheza para o punhado de arroz que tinha nas mãos

- Ah! Deve-se jogar nos noivos para que eles tenham sorte e um futuro próspero! – respondeu Japão um pouco sem graça com a pergunta.

- Well... Anyway... – ele jogou o punhado de arroz e voltou a aplaudir a união dos dois países. – Congratulations! Áustria! Hungria!

Em meio a tanto barulhos e assovios, todos diminuíram um pouco o volume apenas para ouvir um clérigo que estava no topo da escada da Igreja junto aos noivos dizer:

- Eu vos apresento pela primeira vez... – E todos olharam para os dois, de braços dados. Ambos vestidos magnificamente de branco, a imagem perfeita de tudo o que um casal deveria ser. – O IMPÉRIO AUSTRO-HUNGARO!

Hungria jogou o buquê de gerânios para a multidão Ao mesmo tempo em que estourou outra salva de comemorações.

O buquê caiu junto aos pés de um loiro alto de olhos verdes com um cachecol azul um olhar irritadiço e um cachimbo na boca. Ele se agachou para pegá-lo olhando para aquilo com uma expressão confusa. Sua jovem irmã, com cabelos loiros curtos, presos por uma faixa se empolgou ao ver o mais alto com o buque.

- Ah! Holly! Você conseguiu mesmo! Você pegou o buque! – dizia ela dando pulinhos e batendo palmas.

- Hum... O que isso quer dizer? – ele perguntou com tom de voz apático e desinteressado.

- Que você será o próximo a se casar! – sorriu ela com as mãos atrás das costas.

- Oh... – Ele olhou para aquilo com um pouco mais de curiosidade e interesse. De repente a idéia lhe veio à mente. – Ah! Bell...

- Nem pense nisso! – cortou a menor olhando-o de soslaio com os braços cruzados.

Espanha também acenava para os noivos jogando-lhes pétalas de flores.

- Eh! Parabéns Áustria! Parabéns Hungria! Bravo! Bravo!

- Bah! Mas que droga! Pare de fazer tanto barulho! Porcaria!Espanha, ao invés de ficar gritando feito um idiota, vamos logo para a festa pra começar a comer de uma vez, droga!

- E...Ei! Espera Romano! Pare de falar tão grosseiramente! Estamos na frente da igreja! – repreendeu o maior sem muita moral ou confiança.

- Ah! Porcaria! Que se dane! – Então voltou-se para o irmão menor que chivava e fungava limpando o rosto com um lencinho branco, sorrindo abobalhadamente pela felicidade ter voltado para sua casa. – E você Veneziano! Pare de fazer esse drama todo, caramba! Droga! Se está feliz por que está chorando?

- Mas... Mas... É... É que... Passamos por tantos problemas! E agora todos estão tão felizes! Eu... Eu queria que Sacro Império estivesse aqui para ver isso.

Não tão afastado dali, atrás de uma árvore. Uma sombra escura observava toda a celebração. Fitava os rostos sorridentes de Áustria e Hungria no topo da escada da igreja, com seus olhos azuis. Tocou o tronco da árvore cuja sombra o ocultava e um sorriso se formou em seu rosto.

- Que bom... – então ele baixou seu costumeiro chapéu preto, deu as costas e começou a partir dali. O vento soprava sua capa e as folhas que se desprendiam daquela árvore.

- Eh! – suspirava o francês em pé sobre a sapata de um dos pilares da sacada da igreja. Olhando tudo muito indiscretamente. O vento esvoaçando elegantemente suas roupas e seus cabelos. Ele jogou uma rosa vermelha em direção ao casal. – Eu sinto muito por você Gilbert. Mas, casamentos realmente me encantam. É l'amour a flor da pele! E sempre rola aquela expectativa pra lua de mel. Você não acha isso um máximo?

Prússia não respondeu. Observava o casal com uma expressão séria que ele raramente assumia, com os braços cruzados sobre a sobra do mesmo pilar. França ficou sem graça por um momento, ao ver a expressão séria e quase triste de Prússia, achava que talvez estivesse falando demais. O francês deu de ombros e voltou a olhar o casal que começava a descer as escadas para cumprimentar conhecidos.

- Bem, acho que não tem jeito mesmo. – suspirou o francês com um sorriso sem graça.

Hungria teve um pressentimento estranho, e esse pressentimento levou seus olhos até aquele pilar. Prússia ressaltou-se quando viu que a moça o tinha avistado.

- Ora! Ora! Ela nos encontrou! – disse frança.

- Vamos embora... – rosnou o prussiano baixando o chapéu sobre os olhos e dando as costas para tudo aquilo.

- Ora! Você tem certeza? – perguntou o francês com um sorriso provocativo. Aquilo fez com que Prússia hesitasse no mesmo instante.. – Como eu pensei...

Hungria já havia chegado perto dos dois antes que Prússia pudesse decidir se queria mesmo sair dali daquele jeito. Quando viu a moça perto o bastante estalou a língua com insatisfação. Ela vinha segurando a barra do vestido e segurando a longa cauda. "Ela está muito linda" pensou.

- Prússia... – a moça o fitava com uma expressão difícil de descrever. Seus olhos verdes brilhavam como se ela estivesse feliz, mas seu rosto transmitia um misto de raiva e preocupação.

O prussiano sentiu o rosto corar e não respondeu. Encarou-a por alguns instantes depois virou o rosto com uma expressão insatisfeita.

- Droga! Não sei por que veio até aqui! – rosnou.

- Bem eu...

Ambos foram interrompidos pela sensação incômoda de estarem sendo observados... Voltaram o rosto para França que fitava-os firmemente, mais interessado no desenrolar da história do que lhe era permitido.

- O que foi? – Surpreendeu-se o francês quando percebeu que eles estavam lhe dando atenção demais. Demorou alguns minutos para perceber que eles não continuariam enquanto ele estivesse ali. – Ah! Tudo bem! Tudo bem! Acho que essa é uma conversa particular, não é? Eu vou ali dar uma olhadinha nos gêmeos Itália e vou deixá-los sozinhos está bem? Au revoir!

França desapareceu, pulando da sapata e misturando-se na multidão. Prússia ainda se recusava a olhar para Hungria.

- É estranho... Eu não sei porque você veio, mas... Apesar de tudo, estou feliz que você esteja aqui.

Prússia deu um pigarro de escárnio.

- Falando isso assim com esse tom macio... Como se isso fosse bom de alguma maneira.

- Talvez seja. Eu só não sei explicar.

- Pois, não faz eu me sentir melhor de jeito nenhum.

Hungria deixou surgir um sorriso fraco. Prússia, ás vezes comportava-se de uma forma infantil que era um pouco engraçadinha.

- Eu vim porque não acreditei quando eu soube. Achei que teria que ver com meus próprios olhos. – Ele suspirou fechando os olhos, franzindo as sobrancelhas e coçando a nuca. – Foi uma péssima idéia afinal. Isso tudo não passa de uma tremenda palhaçada e perda de tempo. "Império Austro-Húngaro"? Francamente, vocês estão sendo convencidos demais.

- Não acho que alguém como você tenha o direito de dizer isso. – disse ela dando de ombros e sorrindo um pouco sem graça. Logo em seguida a seriedade voltou ao seu rosto. – Queria que você visse isso. Visse que estava errado. Não precisamos viver em guerra, com medo de se tornar domínio de outro país. Com medo de entregar seu coração á algo em que acredita. Eu e Áustria viveremos para sempre juntos como aliados. Nenhum de nós deixará de ser quem é pelo outros, mas sempre seremos parte de uma coisa só, cada um do seu jeito... Estava pensando Prússia... Se você também já não está cansado de viver assim... Você poderia procurar sua própria família ou ficar conosco, eu sei o quanto você gosta do...

- De quem? Do Áustria? – uma sombra percorreu seu olhar e ele olhou para Hungria com um misto de desprezo e frieza. – Não sei o que se passa na sua cabeça pra pensar que alguém tão incrível como eu precisaria desse tipo de coisa inútil. E não pense que vocês terem se casado muda alguma coisa. Eu ainda terei o Áustria. Muito em breve. E essa sua união só significa que você virá junto também. Mas, por fim, eu conquistarei os dois da mesma forma. E eu terei vocês dois da forma como eu sempre quis. – Então um sorriso sombrio surgiu em seu rosto. Ele se afastou dela e lhe deu as costas, o vento esvoaçando sua capa vermelha. – O mundo vai mudar Hungria. Mudar muito e muito em breve. E os sonhos fantasiosos de pessoas como vocês, não terão lugar nos campos de. Aproveite essa união enquanto pode. Ela não irá durar muito tempo...

E dito isso, ele saltou da sacada misturando-se e desaparecendo na multidão. Hungria se encostou em um dos pilares e suspirou vendo o antigo rival partir. Ela viu Áustria cumprimentando os convidados, sem perder o sorriso mesmo quando algum dos outros países implicava com ele. O sorriso voltou-se para seu rosto e ela debruçou-se na amurada branca da saca sentindo a luz do sol tocar-lhe suavemente o rosto.

"Não importa o que aconteça, meu coração estará protegido. E com a força dos meus sentimentos eu protegerei ele, nós, nossa casa, nosso sentimento e tudo o que eu amo. Meu mundo agora esta impregnado dessa canção. E são essas notas que me movem e me fazem continuar a sorrir com tudo o que acontece, e querer ver o que virá adiante. Pois assim é a música de Roderich Eldestein. Ela toca e te envolve sem sua permissão. É você de pé em um penhasco olhando onde o mundo acaba quando uma brisa te envolve e te carrega empurrando-lhe para frente. Então você sinta a queda, o mundo gira e tudo que parecia estar normal torna-se incerteza e temor. Até perceber que o mundo não está realmente girando, e sim você é que está voando. Voando sobre a copa das árvores, sendo carregada por asas de penas brancas e perfeitas, o céu se estende nos meus olhos e eu mergulho em um vale de gerânios que envolvem aquele belo piano preto e solitário com gavinhas e ramos. E assim como elas desabrocham, meu coração desabrocha dentro de si mesmo, espalhando-se e transformando-se em algo tão lindo quanto uma borboleta. Uma borboleta azul safira, com brilho arroxeado. Levando aquela cor intensa como um véu cintilante, envolvendo tudo e trazendo a noite. Uma noite brilhante com velas, sons de violino, brilhos de joias, uma valsa de cores e estrelas. A festa borbulha dentro de mim e um sorriso surge sem que eu nem mesma percebesse. De repente o azul se intensifica, o som se torna sombrio e tudo fica escuro. Então eu fecho os olhos e uma leve tristeza se espalha como uma bruma, apenas porque eu sei que está perto de acabar. E é justamente nessa hora... Que uma explosão celestial cobre tudo com seu brilho branco. Abrindo um buraco no céu que suga tudo em um tornado brilhante e colorido como a pintura de um jardim cheio de flores iluminado pelo sol. Este tornado que leva tudo para o melhor lugar do mundo."

Hungria fechou os olhos e abaixou a cabeça com um sorriso. As lágrimas de felicidade cintilavam em seus olhos verdes e tocavam seu rosto.

"No fim... Tudo se abre em Vortex Paradise... Um vórtice para o paraíso."