Não há quem possa ocupar seu lugar...

Por Amanda Catarina

BLEACH e seus personagens pertencem a Tite Kubo.

Capítulo 10

Abarai caminhava cabisbaixo, enquanto seus subordinados do esquadrão passavam por ele em conversas corriqueiras. Era fim de expediente. Chegando no alojamento, ele seguiu para a varanda, onde ficou um tempo, olhando a lua.

– O que ela estará fazendo agora? - falou consigo.

Há mais de uma semana, Rukia partira da Soul Society junto de Kurosaki para uma missão comum no Mundo Real. Naquele dia, ele entrou novamente em atrito com o rapaz e desde então, andava mal humorado e irritadiço, descontando sua raiva em quem quer que fosse, tão alterado que os colegas de trabalho evitavam falar com ele.

Sentado no chão de madeira ele curvou mais o corpo, os cabelos soltos penderam ocultando sua face.

– Por que isso foi acontecer?

– Hã? Isso o que? - ele ouviu ao seu lado alguém retrucar, num tom esganiçado e virou a cabeça na mesma hora.

– Ikkaku!?

– Yo, Abarai... - saudou com um aceno e se aproximou – ...me mandaram te entregar isso.

O ruivo franziu o cenho.

– Trabalho? Raios... não podia trazer amanhã?!

– Que?! Eu trago na hora que quiser! Que é, achou ruim!?

Abarai virou a cabeça e não deu resposta, não estava com paciência para as provocações de um encrenqueiro como o terceiro posto de Zaraki.

Ikkaku se atentou a expressão resignada do outro.

– O que há? - perguntou tentando dar um tom de seriedade a voz.

– Nada... deixe os documentos aí e dá o fora...

– Hn... - bufou Ikkaku – Tem a ver com a Kuchiki, aposto...

– Dá o fora, Madarame! - exaltou-se o ruivo.

– É, bem se vê que você anda estressado... - disse indiferente a zanga dele – Precisa dar jeito nessa magoa toda...

– Me deixa, Ikkaku...

Como se não estivesse ouvindo o apelo, o terceiro posto sentou-se ao lado do vice-capitão.

– Onde espera chegar agindo assim? - indagou atrevido.

– Não venha me dar lição de moral! Você não sabe como me sinto. - Renji vociferou.

– Hunf... nem nunca vou saber porque não sou um sem noção como você!

– Que?! ...some daqui, seu folgado!

– Folgado?! - berrou indignado – Deixa disso, Abarai! Por que anda todo mordido como se estivesse com ciúmes? Quem te vê assim, vai achar que está apaixonado pela Kuchiki!

Renji vidrou os olhos.

– Cala essa boca! Isso não é da sua conta!

– E daí que não é?! E não vem querendo dar uma de bom pro meu lado que se ninguém aqui tem coragem de te peitar, eu tenho de sobra!

Renji estreitou os olhos e ficou quieto. Não ia dizer mais nada, que o outro ficasse falando sozinho.

Ikkaku inspirou fundo, ponderando. A situação estava mais complicada do que ele imaginara.

– Mas que coisa... vendo que é isso mesmo... - Ikkaku começou, num tom mais calmo – Ora, desde quando a relação de vocês é desse tipo, seu lesado?

– Como assim?! - Renji retrucou realmente sem entender.

– Não se faça de desentendido! Pensei que você a considerasse como uma irmã. E outra, se você a amasse como mulher, não iria ficar nessa de competição com ela, querendo um alto posto.

– Não... - balbuciou, negando com a cabeça – Precisei fazer isso para poder olhá-la nos olhos de novo... porque ela virou uma nobre...

– Conversa... você sempre quis se destacar, seu metido, isso sim. Por isso se tornou vice-capitão.

– Claro que não!

– Claro que é!

– Seu miserável! Quem você pensa que é pra falar assim?! Eu te arrebento! - esbravejou e partiu pra cima de Ikkaku na intenção de socá-lo.

Com um olhar sério, Ikkaku segurou o punho dele, detendo o feroz ataque facilmente.

– Deve estar mesmo muito confuso para sentir ciúmes do Kurosaki. - falou no mesmo tom controlado – Rukia não gostava de você antes de tudo isso. Você mesmo chegou a me dizer! Qual é!?

– Ela gostava sim! Eu e ela... O Kurosaki estragou tudo... - choramingou inconformado.

– Patético... ela é sua protegida e não sua mulher! Você se tornou forte para cuidar você mesmo dela, porque queria estar no lugar do Kuchiki. Que confusão toda é essa agora?

– Não é nada disso!

– Não estou te reconhecendo, Abarai...

Ficaram quietos por alguns instantes.

– É verdade que você arrumou briga com o Kurosaki por causa disso!? - Ikkaku perguntou.

– ...é que ele veio aqui... - Renji gaguejou e não conseguiu concluir.

– Ridículo... eu não estava acreditando, por isso vim tirar essa história a limpo...

O vice-capitão voltou a ficar quieto.

– Rukia encontrou alguém que gosta dela. Você devia estar feliz por ela. Devia proteger esse relacionamento.

– Isso não!

Ikkaku percebia o estado de nervos do amigo, mas sabia também que ele estava entendendo suas palavras, contundo, era teimoso demais para admitir. E, para ele, homens assim só escutam na base da porrada. Aproveitou então a guarda aberta para dar um soco bem no meio da cara do ruivo.

Nocauteado, Renji ficou no chão com a cabeça baixa.

– Por que ela devia correspondê-lo?! - Ikkaku ergueu o tom de novo – Só porque você cuidou dela quando eram jovens? Porque são amigos?! Porque você se preocupa com ela?!

– E não são todos bons motivos?!

Baka... se fez o que fez querendo algo em troca... só pensou em si mesmo o tempo todo.

– Que?! - exclamou desconcertado.

– Se a situação fosse inversa, se você estivesse gostando de alguém, como você iria se sentir se Rukia tentasse te separar dessa pessoa? Isso não seria trair a amizade?

Renji vidrou os olhos.

– Não... eu...

– Pense, Abarai! Você é devagar, mas nem tanto! Essa situação deve estar atormentando a Kuchiki! É isso que você quer?

– Claro que não... é só que...

– Bah! Pra mim chega... Quer saber... Kuchiki está bem melhor com o fedelho do Kurosaki do que com um patético egoísta como você. - finalizou impetuoso o terceiro posto e deixou o local, ficando ali um Renji completamente transtornado.

ooo ooo ooo ooo

Na casa de Ichigo, no Mundo Real.

– Renji! - exclamou Rukia despertando de um pesadelo.

– Que foi, Rukia-chan? - Karin resmungou sonolenta, esfregando os olhos.

– Nada... - murmurou, temerosa de que Yuzu acordasse também. – Eu já volto...

Minutos depois, Rukia estava sentada no telhado, olhando a lua.

– Como será que o Renji está? Ainda estará bravo comigo?

– E daí se ele estiver?

Ela ouviu atrás de si a voz de Ichigo.

– O que faz aí? São quase duas da manhã... - comentou ele.

Rukia abaixou a cabeça e puxou os joelhos, abraçando-os.

– Perdi o sono...

O adolescente se aproximou e sentou-se junto dela.

– E o que o Renji tem a ver com isso? - perguntou levemente irritado.

– Tive um sonho ruim com ele.

– Ah, foi isso...

– Me preocupo com o ele, Ichigo... nós crescemos juntos e ele era como um irmão pra mim...

O jovem se surpreendeu com a resposta, percebendo então o fora.

– Desculpa... acho que deixei o ciúme falar mais alto... - disse e a abraçou carinhosamente.

Rukia apertou os ombros dele.

– Eu não entendo... ele nunca demonstrou... gostar de mim... desse jeito... é como se ele só quisesse me separar de você, mas não para ficar comigo. - deduziu ela, mas só teve coragem de dizer aquilo porque não olhava o rapaz nos olhos.

Ichigo acariciou os cabelos dela.

– Se você, que o conhece há mais tempo, não entende, eu muito menos...

Foi meio insensível da parte dele dizer aquilo, mas era só um garoto.

– Está esfriando, vem... vamos entrar. - ele a chamou.

bom...

ooo ooo ooo ooo

No dia seguinte na escola, Rukia passara a amanhã anormalmente quieta, por isso, Ichigo a chamou para lancharem juntos, só eles dois.

Estavam naquele terraço, recostados na tela de arame, lado a lado. Rukia tinha o lanche ainda intocado sobre um lenço estendido no chão, a sua frente, e Ichigo já dera fim ao dele.

– Ainda está chateada por causa daquele lance com o Renji? - ele perguntou.

– É... um pouco...

Num primeiro momento o jovem se aborreceu em saber, mas logo relevou. Então, virou o corpo para ela. Percebeu a tristeza em seu semblante e voltou a ficar nervoso. Detestava vê-la com problemas.

– Não quero te ver assim... - ele falou e levou a mão espalmada ao rosto dela, num gesto carinhoso – Esqueceu que teremos uma tarde maravilhosa hoje depois da aula?

Rukia voltou o olhar ao namorado e sorriu levemente, depois pousou a mão por cima da dele. Não disse nada e apesar do sorriso, sua expressão ainda era a mesma.

– Ih... melhora essa cara. - ele falou, nitidamente zangado.

bom... - ela murmurou meio sem jeito.

Ichigo aproximou o rosto e, logo, se viu hipnotizado pelos lábios dela, sedento de senti-los sob os seus. Rukia esperou uns instantes pelo beijo e desfrutou dele pelo breve tempo que durou. Não podiam ficar se beijando indefinidamente, afinal, escola não é lugar disso. Depois, ficaram só abraçados.

– Está sem apetite? Fala sério, precisa comer, senão vai ser uma pintora de rodapé pra sempre... - pirraçou ele.

Ela riu com gosto e se desvencilhou dele.

– Você ainda tem esperanças que eu vá crescer? - indagou parecendo enfim mais animada.

Ichigo a encarou por alguns instantes, mas achou melhor desviar o olhar, do contrário acabaria pulando em cima dela.

Rukia teria noção que aquele jeitinho gracioso dela, enchia a cabecinha oca dele de idéias nada apropriadas a um jovenzinho de quinze anos? Provavelmente não... tudo que Ichigo tinha de precoce, ela tinha de ingênua.

– Sabe, sendo bem sincera... eu preferia ir pra casa descansar... essa rotina de deveres escolares está bem puxada...

– Tudo bem... a gente pensa em alguma coisa pra fazer em casa então...

Rukia apreciou a resolução e, logo depois, Ichigo beijou-a na testa. Despreocupada, ela se escorou no peito dele, que passou um dos braços pelo ombro dela.

– Vai mesmo largar o lanche da Yuzu? Está uma delícia... - ele comentou alcançando o sanduíche com a outra mão.

Acabaram dividindo a iguaria e Ichigo comeu mais que ela.

– É melhor a gente descer... - Rukia falou, contudo, não fez qualquer movimento no sentido de se afastar dele.

– Ah, não... - ele reclamou, estreitando o abraço.

Depois de um longo inspirar, Rukia se levantou.

– Vamos... o sinal não demora a bater. E não se esqueça que temos que passar na loja do Urahara hoje para pegar aqueles relatórios... - informou ela.

– Tudo bem... Você acha que tem alguma novidade?

– Não sei...

Ichigo se aproximou e passou os braços pela cintura dela, pensava em beijá-la uma última vez, mas então, virou a cabeça, sentindo uma reiatsu inimiga.

Hollow! - exclamou ele.

– Vem de lá! - ela disse apontando uma direção.

Ichigo puxou o distintivo de shinigami substituto e Rukia o frasco da pílula gikongan.

– Chappy, cuide do corpo de Ichigo... - mandou ela, já na forma shinigami.

– Entendido, Rukia-sama! - retrucou a maluquinha e foi arrastando o corpo vazio pelos pés.

– Oe, Chappy!! Não faça isso! Se estragar meu uniforme eu acabo com você!

– Ops... wari... - falou fingindo inocência.

– Ela está brincando... - Rukia falou e puxou Ichigo na direção em que sentiam a ameaça.

ooo ooo ooo ooo

Flutuando pelo céu de Karakura, Rukia e Ichigo se depararam com o hollow. Contrariando a rotina dos outros dias, este era muito esquisito. Apesar de não se comparar ao tamanho dos Menos da classe Gillian, parecia ter o mesmo temperamento estúpido. Movia-se apenas, atraído pelas almas das pessoas da cidade.

– Não é um hollow normal. - Rukia falou a Ichigo.

– Tem razão... Qual é o procedimento? Devemos apenas purificá-lo?

– Distrai-o enquanto contacto a Soul Society.

– Certo.

– Aqui é Kuchiki Rukia, do décimo terceiro esquadrão, atualmente em missão no distrito de Karakura. Temos um hollow com reiatsu estranha.

"Ah, Kuchiki-san, aqui é o Lin, do décimo segundo esquadrão. Estou mandando um dos nossos oficiais para capturar o espécime, por favor, cuidem dele enquanto isso."

– Podemos liquidá-lo se ele causar problemas?

"Sim, a qualquer sinal de perigo, as ordens são para exterminar a ameaça."

– Entendido...

– Rukia! - Ichigo gritou desesperado – Proteja-se é um Cero!

A shinigami virou rápido o rosto e viu um brilho vermelho vindo e sua direção, mas logo um vulto negro surgiu a sua frente e recebeu o ataque em cheio. Em seguida, ela escutou um grito de dor.

– Ichigo!! - exclamou assustada.

O shinigami substituto tombou junto dela e uma bolha de sangue irrompeu de sua boca.

– Não! Seu miserável! - Rukia berrou ao hollow, sustentando o corpo de Ichigo, então pousou no telhado de uma alta construção. – Eu vou cuidar dele. - ela falou, ajeitando o jovem na laje.

Ichigo segurou o pulso dela.

– Não o deixe atingi-la... - balbuciou sem fôlego, o peito ardendo de dor.

– Sim... - disse e saltou. – Mae, Sode no Shirayuki! - ela chamou, liberando sua zampakutou.

Ao mesmo tempo, Ichigo ainda se esforçou para tentar um disparo com Zangetsu, nada preocupado em preservar o hollow e sim em garantir a segurança da namorada.

Some no Mai, Tsukishiro! - Rukia disparou, aprisionando o hollow numa coluna de gelo.

– É minha chance... Getsuga... - deitado no chão, Ichigo movia o punho, mas então este foi agarrado por alguém.

– Não, Kurosaki! A situação já está controlada.

– Renji! - o garoto exclamou espantado.

– Afaste-se, Rukia! - Abarai gritou ao lado de Ichigo e depois lançou um pequeno objeto na direção do hollow.

– Renji?! - Kuchiki exclamou, igualmente espantada, e ao ver um brilho se desprender do objeto, saltou de lado, então uma gaiola imensa surgiu. A coluna de gelo se espatifou e, com a mesma rapidez, o hollow foi tele-transportado dali.

Atônito, Ichigo mantinha os olhos vidrados na direção onde o hollow até então estava, mas ao vê-lo sumir, despencou no chão, aliviado.

– Ichigo!! - Rukia gritou e como um raio veio até ele. – Ichigo!! Fala comigo! Ichigo!!

O tom dela era de um desespero que Renji não se lembrava de ter presenciado antes.

– Calma... - ele falou num tom brando.

– Mas Renji... esse ferimento não é normal... temos que levá-lo até a Inoue... - retrucou abraçando a cabeça do jovem junto ao corpo.

– Acalme-se, vai ficar tudo bem... eu estou aqui...

Rukia encarou o amigo meio confusa, mas logo assentiu.

Renji ficou alguns instantes olhando os dois ao chão, sendo também observado fixamente por eles.

– Então vamos... - o ruivo falou e se aproximando, pegou Ichigo e o carregou nas costas de volta à escola.

ooo ooo ooo ooo

Um pouco depois, enquanto Inoue curava o ferimento de Ichigo, Renji explicava a situação. Sado e Ishida também estavam lá, ouvindo a tudo.

– ...portanto, fiquem atentos. Eles não são mais fortes que os hollows comuns, apenas têm um ataque mais perigoso. Assim que a análise do décimo segundo esquadrão sair, vocês serão orientados.

Todos assentiram.

– Sente-se melhor, Kurosaki-kun? - Inoue perguntou meiga.

– Sim, Inoue, muito obrigado. - retrucou ele.

A jovem não pôde evitar ficar corada e Ishida se atentou bem àquilo.

– Obrigado pela ajuda, Renji... - Ichigo falou e estendeu a mão ao ruivo.

Abarai demorou uns instantes para reagir, mas acabou apertando a mão do rapaz.

– Muito bem... eu preciso voltar. Cuidem-se. - disse e virou-se para destravar o portal.

– Eu também te agradeço, Renji! - Rukia falou.

Mesmo que não tenha se voltado para a amiga, Abarai soube que ela estava contente.

– Não foi nada... vocês sabem que podem contar comigo. - disse e desapareceu.

Ouvir aquilo foi um alento tanto para Rukia como para Ichigo, e ambos sentiram que algo estava mudado com o ruivo.

– O que pretendem fazer agora? - Ishida perguntou.

– Por hora devemos esperar as ordens da equipe de desenvolvimento... - Rukia falou – Mas amanhã, podíamos nos reunir na casa do Urahara.

Os estudantes concordaram.

– Certo... então vamos pra casa. - Ichigo chamou e minutos depois, a turma deixava a escola.

ooo ooo ooo ooo

Rukia e Ichigo caminhavam lado a lado, Inoue e Sado vinham logo atrás deles, Ishida por último. Durante o trajeto, todos comentavam sobre o assunto dos hollows, até que Sado e Ishida seguiram por outro caminho, rumo a suas respectivas casas. Inoue seguiu mais um trecho com o casal, caminhando do lado direito de Rukia, enquanto Kurosaki vinha do lado esquerdo desta.

– Inoue, podemos contar com você caso Ichigo volte a passar mal?

– Claro, Kuchiki-san!

– Não se preocupe, Rukia... Foi só um mau jeito... estou bem agora. E você também não precisa se incomodar, Inoue.

– Não! - exclamou daquele jeito afoito dela, gesticulando com as mãos – Não é incomodo algum, Kurosaki-kun!

– Até parece que eu não vou me preocupar com você... - Rukia falou num tom ameno, pouco típico dela e em resposta Ichigo lhe sorriu.

Notando a troca de olhares dos dois Inoue se achou uma boba por ainda manter, bem no íntimo, esperanças em relação a Kurosaki. Foi então que, num lampejo, não pôde deixar de pensar em Ishida.

Estranho como só ali, naquela situação, junto dos dois, ela se permitiu pensar nele, e se sentiu horrível por ainda não ter tido coragem de esclarecer as coisas com ele, ao contrário, vinha se esquivando e evitando-o. Não, aquilo não podia continuar daquele jeito...

– Ah... eu lembrei que esqueci uma coisa lá na escola... - ela falou de repente, interrompendo Kurosaki que dizia qualquer coisa sobre o hollow – É melhor eu voltar, então nos vemos na casa do Urahara-san amanhã. Até...

A moça saiu tão apressada, que os dois nem tiveram tempo de reagir.

– Que estranho... - Rukia comentou.

– Foi mesmo...

ooo ooo ooo ooo

Cerca de uma hora depois, na Clínica Kurosaki, Ichigo, em seu quarto, desabotoou a camisa do uniforme e tirou-a, deixando-a pendurada na cadeira próxima. Depois, abriu o armário em busca de outra roupa, foi então que ouviu a voz de Rukia.

– Ichigo, trouxe um lanche...

Ao se encararem, ela enrubesceu ao vê-lo sem a camisa.

– Vou deixar aqui. - falou disfarçando o acanhamento e colocou a bandeja sobre a escrivaninha.

– Ah... obrigada... - ele agradeceu e veio sentar-se na beira da cama do jeito que estava, deixou inclusive a porta do armário aberta. – Não quer mesmo sair hoje? - tentou ainda.

– Melhor não... Temos que estar alerta no caso de aparecer outro hollow... - disse olhando na direção dele e depois veio fechar o armário.

– Tudo bem...

Lá dentro do móvel, Kon ficou atento ao perceber a reiatsu de Rukia no quarto.

"O que? A Nee-san aqui? Junto com o Ichigo? Hum vamos ver o que eles vão aprontar..." - pensou empolgado.

– Está melhor? - Rukia perguntou séria.

Devia ser a milésima vez, em menos de uma hora, que ela perguntava aquilo. Ichigo não agüentava mais dizer que sim, talvez por isso tenha resolvido variar a resposta.

– ...sabe estou sentindo uma coisa estranha... um mal estar... - disse e foi se deitando devagarinho.

Alarmada, Rukia deu um passo na direção dele.

– Eu senti isso daquela vez... - falou e sentou-se ao lado dele, pousando a mão em sua testa.

Ichigo ficou olhando para ela, com ternura. Então, fechou os olhos e virou o rosto para o lado da janela.

– Eu vou ligar para Inoue... - Rukia falou.

Ichigo segurou o pulso dela, ainda sem olhá-la.

– Não precisa... é brincadeira... só estou fazendo charme...

Ela piscou confusa e riu levemente.

– Sério?

Ele voltou o rosto, abriu os olhos e balançou a cabeça mostrando que sim.

– Seu bobo... - retrucou, mas não parecia tão zangada, tanto que acabou afagando os cabelos espetados dele.

Os dois se encararam, apaixonados.

– Desculpa te preocupar...

– Como eu poderia não me preocupar com você, itoshii?

– ...gostei disso de você ficar me chamando assim... - ele falou baixo.

Contemplar o corpo bem feito do rapaz, estirado ali, com aquela expressão despreocupada, deixou o coração de Rukia acelerado no peito. Inclinando-se, ela o beijou na testa.

– Quer saber? – Ichigo começou – ...mais uns beijinhos e eu melhoro em dois tempos...

– Mas você disse que era brincadeira... - retrucou e deu outro beijo nele, no mesmo lugar.

– Ai, que dor... Rukia-hime, me ajude... - falou irônico.

– Meu beijinho faz a dor passar? - ela indagou e o beijou de novo, só que no rosto.

– E como faz... - Ichigo sussurrou, deliciado, e puxou Rukia para mais perto, então, colaram as bocas num beijo demorado e gostoso, depois do qual riam um ao outro.

"Uau!! Nem devem lembrar que estou aqui! Que inveja! Ichigo seu sortudo!"

– Deve ser o bastante, não? - Rukia indagou meiga.

– Não... - ele reclamou, mas deixou que ela se afastasse.

– É melhor você descansar um pouco... mais tarde vamos pedir pizza e jogar videogame... sugestão da Yuzu.

– Gostei da idéia...

– É, eu também.

Rukia se afastou com um leve sorriso e Ichigo, ao vê-la assim, fez o mesmo. Aqueles estavam sendo dias maravilhosos para eles dois.

ooo ooo ooo ooo

Cerca de uma hora atrás, no apartamento de Uryuu.

Ao chegar do colégio, Ishida se atirou no sofá e ficou algum tempo ali, pensativo. A semana estava sendo bem difícil para ele, quase pesarosa. A situação mal resolvida com Inoue o atormentava, e o modo como ela se esquivava dele, não dava oportunidade de se desculpar.

Sentia-se desanimado, mas não adiantava nada ficar se lamentando também, então, se levantou e foi arrumar algo para distrair a mente.

Chegou à cozinha e abriu a geladeira na intenção de fazer um lanche, mas eis que a campainha tocou.

Caminhou distraído, certo de que fosse a vizinha querendo alguma coisa emprestada e, ao abrir a porta, tomou um susto ao ver quem de fato era.

– Orihime! - ele exclamou atônito.

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Horas depois, na Soul Society, na área do sexto esquadrão.

Depois de reportar devidamente a missão ao capitão Kuchiki, Renji obteve dispensa pelo resto da tarde. Estava novamente na varanda de seu alojamento, com a mente cheia com as cenas daquela rápida estada em Karakura.

– Preciso cuidar da Rukia e do Kurosaki? Devo me tornar forte para proteger a relação deles?! É isso?

Suspirou fundo, se tivesse se perguntado o mesmo um dia atrás, diria que não, de jeito nenhum, nunca. Mas agora, depois de ter visto os dois juntos, e de refletir melhor naquela sua conversa com Ikkaku, começou a enxergar algum sentido naquela idéia.

– Já não posso ser mais que um amigo dela... só que... realmente, sempre foi assim e eu nunca me importei antes. Será verdade então?

Naquele momento, ainda doeu nele reconhecer que sim, contudo, sentiu-se inegavelmente mais tranqüilo também.

– Abarai, que tal um pouco de sake?

O ruivo levantou os olhos para o dono do convite: Kira Izuru.

Foi mais por educação que Kira o chamara, já que Renji vinha tratando a todos com aspereza, por isso, ficou tão surpreso ao ver o amigo se erguer com o velho sorriso nos lábios.

– Só ser for agora...

Eles seguiram então, animados, para uma festinha agitada que acontecia não muito longe dali.

CONTINUA...

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Gente! Mais um capítulo. Eu gostei particularmente deste.
Espero que não deixem de comentar o que acharam! Dessa vez nem demorou né?
Agradeço por todos os comentários até aqui.
Beijão pra todos e até o próximo!

Vocabulário
Wari: Foi mal
Hime: princesa
Itoshii: querido
Mae, Sode no Shirayuki: Dance, Luva de Neve. Liberação da zampakutou (dance) mais o nome dela (Sode no Shirayuki).
Some no Mai, Tsukishiro: Primeira dança, Lua branca. É o círculo de gelo.