7VERSE : REALIDADE 5
EPILOGO VIDA 5: SOBREVIVENDO AO INFERNO
CAPÍTULO 7
O OUTRO LADO
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MONTE IDA, ILHA DE CRETA
IDAION ANTRON, PLANO MATERIAL
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– Sete homens e um destino.
– É bom ver que está de bom humor, Zetes. Não é todo mundo que entra no Inferno sorrindo.
– Chegou a hora, rapazes. Lembrem-se do que está em jogo. Tudo pronto, Palemon?
– Tudo. O projetor já está ligado. A bateria vai mantê-lo funcionando por uma semana. O que acham?
– Perfeito. Com essa redoma de proteção mística ao redor do ponto onde ficarão nossos corpos, anjo nenhum vai conseguir atravessar.
– E se eles simplesmente explodirem a caverna e toda ela desabar sobre nós?
– Zetes!
– É possível ou não é?
– O Zetes está certo. Talvez eu deva ficar para enfrentar meus Irmãos.
– Não é preciso. Eu mesma posso dar conta deles. Ou, pelo menos, posso morrer tentando.
– Kälï, ..
– Vamos seguir o plano original. Faça a sua parte, anjo. Deixe que eu faça a minha.
Kälï, ainda no corpo de Idmon, separa o corpo espiritual do corpo físico dos argonautas à medida que eles se deitam no chão frio da caverna e acomodam-se da melhor maneira possível. Jasão. Eufemo. Autólico. Palemon. Zetes.
Bem, com Zetes foi um pouco diferente. Quando seu corpo espiritual foi retirado, o corpo físico desvaneceu retomando a forma de ar e se dispersando. Do outro lado, Zetes ficou apavorado com a possibilidade de não poder retornar a uma forma física. Kälï precisou trazê-lo de volta ao plano material e, quando o fez, seu espírito novamente condensou ar na sua forma física habitual. Tranquilizado, Zetes reuniu-se mais uma vez aos companheiros no outro lado.
– Minha vez. Eu posso fazer sem sua ajuda, Kälï. Afinal, não é realmente meu corpo. Sabe agora que eu não tenho um corpo físico. Quanto a esse que estou ocupando ... Kälï, por tudo o que já fomos, peço que proteja o meu receptáculo. É um homem bom que não merece ser incinerado vivo por conta desta nossa briguinha.
Quando o arcanjo deixa o corpo, seu receptáculo desperta, completamente desorientado. Kälï toca sua testa e o põe para dormir. Feito isso, Kälï abandona o corpo de Idmon e se manifesta como chama. Idmon recupera o controle do corpo.
– É bom poder voltar a falar. Escutem. Posso aumentar a proteção da redoma de luz dando a ela resistência equivalente à de uma cúpula de aço. E fazer a bateria funcionar indefinidamente. Mesmo que a caverna desabe, a redoma nós protegerá.
Feito o encantamento, o vidente toma seu lugar ao lado dos companheiros.
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IDAION ANTRON, PLANO ESPIRITUAL
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Ao ter o espírito liberto do corpo, Idmon vê claramente o portal para o reino dos mortos. Tinha a aparência de uma grande porta circular, do tipo de correr e se encaixar, com um alisar coberto por símbolos místicos. Mesmo tendo natureza espiritual, parecia ser de madeira reforçada com metal. Estava escancarada, e, aparentemente, desprotegida. A única surpresa era sua localização. Abria horizontalmente, próximo ao teto da caverna no ponto onde a câmara era mais larga. Enquanto observava, os espectros de dois homens atravessaram o portal. Suspirou resignado e fechou os olhos, deixando-se conduzir através dela pelo que parecia uma corrente etérea de ar.
Ao atravessar o portal, ele se vê em um grande espaço aberto se estendendo até onde a vista alcançava. Olhando para cima, no entanto, um teto de pedra a não mais de 100 m de altura. Não chegava a ser surpresa, visto que o Hades sempre foi pensado como um mundo subterrâneo.
– Aqui estamos os sete novamente reunidos.
– Jasão, vejo que conjurou sua antiga espada.
– Sim, a espada que herdei de meu pai. A espada com que enfrentei todo um exército de guerreiros nascidos dos dentes do dragão morto por Cadmo.
– Jasão, na verdade você não chegou a usar sua espada contra nenhum daqueles guerreiros. Você seguiu o plano de Medéia e fez com que eles lutassem entre si até não restar nenhum.
– Obrigado por me lembrar, Zetes. Mas, de qualquer forma, era essa a espada que eu carregava e eu a herdei de meu pai.
– Já o Palemon conseguiu trazer junto o seu exoesqueleto.
– E sei que posso fazer muito mais. Vejam isso.
Palemon se concentra e surgem uma espada numa mão e uma metralhadora na outra. Concentra-se mais uma vez e surge um imenso tanque de guerra.
– Uau, Palemon. Isso é que é poder de fogo. Como você do nosso lado, não tem como não sairmos vitoriosos.
– Essa habilidade do Palemon é realmente um grande trunfo, mas não se enganem pensando que será fácil. Nossos adversários estão numa vantagem numérica astronômica e eles também têm seus truques. Não esqueçam que o submundo abriga seres de imenso poder e que os enfrentaremos em seu lugar de poder.
– Você não assumiu sua verdadeira forma, arcanjo.
– Não. Eu moldei meu corpo espiritual de forma a reproduzir a forma física de meu receptáculo. Não quero chamar mais atenção do que o necessário. Mesmo assim minha natureza não passará despercebida no Inferno.
– E está novamente com a sua espada.
– Sim. É minha companheira desde sempre. Acho que, ao ser criado por meu Pai, eu já empunhava uma espada. Zetes nunca teve a espada verdadeira nas mãos. Autólico não é o único a conhecer truques de prestidigitação.
– É essa sua autoimagem, Zetes? Chad Murray com asas de penas douradas.
– Porque a surpresa? Eu as ostentava quando você me conheceu. E quanto a você, Autólico? Parece que o Idmon estava certo afinal de contas. Ou, não teria aqui a sua nova aparência de quarentão.
– Eufemo, nem mesmo roupas?
– É como a Kälï explicou. Sempre achei roupas dispensáveis, salvo como proteção contra o frio. Mais da metade da minha vida passei em alguma cama sem nenhuma roupa. Como o anjo jogou na minha cara, fui a maior parte da minha vida um fanfarrão patético. Não seria de se esperar que eu aparecesse aqui paramentado como um guerreiro.
– Você é o nosso timoneiro, Eufemo. Mostre um pouco de compostura. É você quem vai nos apontar o caminho que devemos seguir para encontrar o tal de Adam. Eu não quero passar os próximos dias olhando para o seu traseiro, mesmo reconhecendo que é muito bonito.
– Pronto, resolvido nosso pequeno problema.
– Palemon, mesmo vendo, ainda acho inacreditável a facilidade com que você consegue conjurar o que quer que imagine. Como essas roupas que criou para o Eufemo.
– Elas se parecem bastante com o tipo de traje que usávamos na expedição da Argo.
– Pelo menos, é como eu lembro que eram.
– Seguimos no tanque de guerra?
– Não! Somos Argonautas. Vamos em grande estilo. Vamos na Argo.
Palemon usa sua excepcional memória para recriar a nave Argo, peça por peça, em todos os seus detalhes, por mais insignificantes que fossem. A diferença era o tamanho, bem menor no comprimento, mais adequado a uma tripulação de apenas sete homens. A Argo original contava com mais de cem tripulantes, entre guerreiros, remadores e marujos.
Palemon sorri, orgulhoso da sua criação.
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INFERNO
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Adam abre os olhos e vê o rosto sorridente do demônio Crowley bem próximo ao seu. Seu corpo está mais uma vez íntegro e, pela primeira vez desde que foi arrastado para o Inferno, ele não sente dor nem desconforto. Nem fome nem sede. Na verdade, sente uma inédita sensação de bem estar.
– Que bom que acordou. Estávamos ficando preocupados. Venha conosco, Adam Campbell Winchester, bravo caçador de demônios.
– Quem é você? O que quer comigo?
– Eu me chamo Crowley e quero ser seu amigo.
– Não sou amigo de demônios.
– Todo mundo precisa de um amigo. Principalmente aqui. Eu botei aqueles diabretes para correr e tirei você daquele poço. Sou ou não sou seu amigo?
– Diga logo o que quer de mim.
– Quero apenas tornar a sua estadia aqui conosco o mais prazerosa possível. Um homem especial como você não devia sofrer o destino dos amaldiçoados, dos condenados à danação eterna. Eles mereceram esse destino. Praticaram monstruosidades contra seus semelhantes. Usaram de engodos para trazer o desespero a quem confiara neles. Mataram e mutilaram sem o menor remorso. Esse não é o seu caso. Você nem merecia estar aqui. Seu lugar é no Paraíso.
– É verdade. Tudo que eu sempre quis foi proteger as pessoas. O pacto demoníaco que fiz foi para salvar meu irmão. Eu queria protegê-lo.
– Sim, eu acredito. Foi tudo por amor a seu irmão. Um amor tão grande e tão bonito. Um amor que eu ousaria dizer até um pouco .. exagerado.
– O que está tentando insinuar, demônio? Eu amava meu irmão, sim. Faria qualquer coisa para protegê-lo. Eu aceitei vir para cá, sofrer todos esses tormentos, para protegê-lo.
– Sim, tudo isso por conta desse amor tão puro! Mas, me diga, Adam. Estamos só nós dois aqui. Dois amigos trocando ideias. Pode ser sincero comigo. Acredita mesmo que o amor que sentia por Sam era tão somente .. fraternal? Porque esconder de si mesmo o verdadeiro nome desse sentimento tão intenso: DE-SE-JO.
– Bastardo maldito! Não vai conseguir sujar meus sentimentos por meu irmão.
– Adam, nunca ouviu falar que toda forma de amar vale a pena?
– Eu sei a verdade sobre meus sentimentos e sei que não havia nada de sujo ou de pervertido neles.
– Digamos que eu acredite. E quais seriam os verdadeiros sentimentos de seu irmão por você? Você sabe?
– Mais joguinhos? Não vai me abalar com suas insinuações sórdidas.
– Palavras talvez não o abalem. Mas, e saber que o seu sacrifício foi inútil?
– O que está querendo dizer?
– Que você morreu, mas isso não salvou Samuel. Ele está aqui, no Inferno, onde é o lugar de uma cria de Azazel.
– NÃO! É MENTIRA SUA. O SAM NÃO ESTÁ AQUI.
– Está. E você vai poder vê-lo com seus próprios olhos.
Adam percebe pela primeira vez uma porta no ambiente, que agora parece ser simplesmente uma sala com paredes, teto e piso imaculadamente brancos e intensamente iluminada por uma luz fria azulada. Crowley vai até a porta e a abre, dando passagem para que Sam entre. Sam está com o corpo suado e os cabelos desgrenhados, mas exibe a face serena e um sorriso inocente no rosto. Está complemente nu. Adam fica perturbado com o sorriso cada vez menos inocente que Sam dirige a ele.
– Vou deixá-lo a sós com seu querido irmão. Devem estar ansiosos para matar as saudades depois de tanto tempo.
Adam se assusta ao ver que Sam vai se mostrando cada vez mais excitado à medida que caminha em sua direção. A iluminação também vai mudando. De levemente azulada para um vermelho cada vez mais intenso.
– Senti muito a sua falta, irmão. Eu amo você. Você não imagina o quanto.
Adam recua até dar com as costas na parede. O sorriso na face de Sam é um sorriso de predador.
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24.11.2014
