X

Assim que Gackt foi embora, Mana ligou para Közi avisando das mudanças. O amigo, punk e gótico das épocas de final da adolescência, estranhou...

- Hum, Mana... essa gravadora aí, quem arrumou?

- O Gakuto...

- Huuuuuum, cara... o Gakuto me parece um cara que tá atrás de grana, não de fazer um bom trabalho! Por isso indicou essa gravadora aí... mas vem cá, por que ele queria o carro?

- Ah... pra pegar umas coisas... que têm a ver com o figurino. Sabe como é, taxi... podem estranhar... então eu pedi pra ele pegar o carro e... e levar pra casa dele. Quando a gente marcar a reunião, ele te devolve.

Aquele "papo mole" estava muito estranho pro Közi, metaleiro de longa estrada e com quase trinta anos nas costas. Ele sabia bem da malandragem que rolava por aí... Mana não era muito mais novo que ele, mas... era ingênuo e não andava nas rodas mais pesadas, fazer o quê?

- Mana, toma cuidado com o Gakuto. Ele destoa da gente. Quero dizer, de mim, de você, dos outros e tal... eu tô quase me arrependendo de ter chamado ele pra banda!

- Ah, não... ele só quer o melhor pra gente!

- Olha lá... não vai confiando assim num cara que tu conhece há um mês. Eu ouvi falar dele da tal de "Cains feel", chegamos a sair algumas vezes... mas também não conheço muito a peça! Vê lá! Qualquer coisa, ainda tamos a tempo de arrumar outro vocalista...

- Deixa, Közi. Ele indicou a gravadora, se a gente se desfizer dele... o trabalho com a gravadora se cancela também.

- Você é quem sabe... sempre deixei a liderança da banda na tua mão, por você ter mais cabeça pra isso do que eu. Mas vê lá. Eu disse aquele dia que concordava com isso de gravadora maior, mas indicada pelo Gakuto? Sei lá, cara, tou achando isso muito arroz de festa pro meu gosto. Mas tudo bem, quando que a gente se encontra?

- Ah... eu acho melhor já ver isso amanhã. Reformular tudo, pra começar a trabalhar! Não consigo ficar muito tempo parado. Que tal às oito da noite? Vou ligar pros outros avisando.

- Esse é o Mana! Issaê, meu chapa, amanhã a gente se fala, certo? Falou!

Mana desligou, e ficou pensando... o que ia fazer o resto do dia. Já tinha dado um jeito na casa¹, já havia tomado banho, estava cansado dos video games... então... que fazer? De repente, Mana se sentiu muito sozinho em casa. É... porque ele, antes de Gackt, se sentia bem sozinho... gostava da própria companhia, da companhia das suas músicas, dos jogos... mas agora...

Agora, o que fazer...?

Tomou o celular. Pensou em ligar pro Gackt, porém... lembrou que ele ia ver a mãe. Poderia atrapalhar... e parecia ser muito chato demandar tanta, tanta atenção assim dele, pois não?

Então teve uma ideia. O torpedo. É, o torpedo. Era uma funcionalidade nova² e boa, logo... mandou uma mensagem pra ele. Assim:

"Espero que sua mãe esteja melhor. Desejo-lhe saúde em breve!

Amo você, saudades!

Mana

PS: combinei com o Közi para nos encontrarmos amanhã aqui, às oito da noite, para reformularmos o projeto do próximo album. Venha também."

Após algum tempo, não se contentou... foi andar no parque, pensar, comprar mais algumas coisas no mercado... e se entediou de novo. Mandou mais alguns torpedos para Gackt... e depois foi pro video game.

OoOoOoOoOoOoO

Gackt se encontrava jogado em sua cama, sem saber o que fazer. As mãos postas na testa, pensando... pensando em como afastar todo aquele apego de Mana. Afinal, levar um travesti virgem pra cama valera tão a pena assim...?

A verdade era que a pessoa de Mana era muito agradável, e por lembrar mulher era muito atraente também. Mas... Gackt jamais se apaixonara depois daquela menina. E não tinha planos de se apaixonar. Com apenas vinte e dois anos, se determinara a nunca constituir família, ter filhos ou ainda casar. Sequer namorar. E havia outro detalhe: ele se considerava heterossexual. Mesmo que houvesse feito sexo com Mana, ele o fizera pelos... aspectos femininos dele. Não os masculinos. Então...

Então ele se considerava hétero. Sim, era hétero porque fazia o "papel do homem", não do gay, mesmo com Mana.

Enfim, jamais poderia namorar com ele. Jamais! E justo agora que a banda estava deslanchando, tinha uma gravadora grande interessada neles...

E além disso havia a grande vontade de vê-lo outras vezes, tê-lo na cama outras vezes... e realizar aquilo que ainda não realizara - gozar na boca dele! É... ele ainda era "semi-virgem", ainda mal iniciado naquela... arte... mas aos poucos ia levá-lo a fazer o que queria.

O negócio era... e o preço por isso? Aquele apego, céus! E pedir pra morar com ele...! Como? Como ele tinha a ousadia de achar... que seria sua "esposa" assim? Um travesti! Por um acaso não saberia seu lugar?

Tentou pensar melhor mais uma vez. Colocar sua racionalidade acima de seu desejo por aquele lindo crossdresser... mas era muito difícil. Se ele tão-somente topasse sexo casual, como as mulheres com quem saia...!

Enquanto ainda pensava nisso, seu celular tocou. Ele atendeu, mas não era chamada... era torpedo. De Mana.

- Céus, ele não aguenta ficar ao menos algumas horas sem falar comigo?

Leu o torpedo. Mãe doente...! Que mãe doente o quê...! Ele só inventara aquela história pra vir logo pra casa! E depois... a reunião, logo no dia seguinte.

- Pelo menos o resto do dia sem ele...! - pensou, passando as mãos pelos cabelos e bufando de impaciência.

Nas horas seguintes, recebeu mais e mais torpedos do amante. Não leu nenhum, deixou todos ali. Até mesmo desligou o celular, pra não se aborrecer. E começou a pensar... no que fazer na reunião do dia seguinte, para mantê-lo como seu amante, e ao mesmo tempo desfazer aquele apego.

OoOoOoOoOoOoO

O dia seguinte enfim chegou. Mana, entusiasmado com o trabalho como sempre ficava, arrumou tudo desde cedo... pegou a outra cópia de demos que tinha, os esboços das roupas... e deixou tudo preparado para quando os demais chegassem.

Quando deu a hora, todos vieram. Menos Gackt, que obviamente era o que ele mais esperava. Ao longo do dia, ele também não respondera a seus torpedos... mas ele pensou que isso se ocasionava porque sua mãe estava mal.

Közi decidiu observar bem Mana a partir da última reunião. Sim, porque se até a gravadora havia sido indicada pelo tal "mauricinho"... e por isso mesmo, percebeu que ele suspirava de impaciência ao olhar o relógio... apenas por dar falta de Gackt. Como quem não quer nada, sentou do lado do amigo.

- Ei, Mana, que há? Pensando no quê?

- Ah...! O Gakuto... ele ainda não apareceu, e eu... não queria deixar de discutir certas coisas sem ele.

- Entendi... mas vem cá, cara, nos últimos meses a gente lidou tão bem com reuniões sem vocalista... por que não agora? Até porque... quem faz as roupas é você mesmo...

- Ah, sim... sou eu. Mas... Közi... a gravadora... o produtor me disse que não quer mais o tom tão sombrio e gótico na produção. E eu penso que o Gakuto poderia nos ajudar com isso... até porque ele conhece o produtor.

- Escuta, Mana, você não tem medo de diminuir a qualidade do trabalho que a gente vem fazendo nesses últimos quatro anos, só pra transformar a banda num projeto major?

- Sim... é o que mais tenho, mas se eu apenas tirar um pouco do tom obscuro, eu...

- Você trairá a si mesmo. É, cara, é isso que você sente. Porque a gente tem isso no sangue desde que nasceu - a gente, eu, você, os demais músicos e artistas da nossa área - a gente tem isso no sangue. É vitalício, nasce e morre com a gente. E se tem vida após a morte, como a gente já conversou um montão de vezes, e eu também acho que tenha... a gente vai continuar nessa até depois de morrer. Entende? O Gakuto não tem esse sangue, e tá querendo levar a gente pro mainstream.

- Mas Közi... você mesmo queria uma gravadora maior!

- Sim, Mana, mas pensa no seguinte... uma gravadora maior, não A gravadora! A Nippon Columbia é uma das maiores do país, e não vai tolerar tudo que a gente quer... só porque é a gente. Até porque nem famoso direito a gente é. Já gravamos um album, já vendemos uns CDs aí e tal... mas nada comparado com bandas realmente grandes.

- Eu sei... isso me divide, Közi...

- Seu coração está dolorido, e eu sinto que está. Por favor, Mana... não se machuque, ao menos não por causa do Gakuto!

Mana observou o amigo com os olhos falsamente azuis. Ele parecia saber... até pelos anos de convivência que eles tinham... que ele próprio estava... apaixonado. Mas deixou pra lá...

Em breve, Gackt chegou. Közi resmungou:

- Até que enfim, hein!

- Desculpem... é que minha mãe não está bem. Ela está... estranha. Passando mal... acho que foi algo que comeu.

Mana sorriu.

- Parece direitinho com você...

Közi, ainda estranhando tudo aquilo e de olho super vivo nos dois, logo interveio:

- Como assim, cara?

- Ah... - disse Mana, corando logo em seguida - É que... é que... bem... ontem o Gakuto jantou em casa. Ele precisou... trazer alguns figurinos... e aproveitou pra comer aqui. E passou mal! Coitado, teve até de tomar chá digestivo...

Közi fingiu se conformar com aquela resposta, porém continuou esperto. Após aquilo, todo mundo começou a discutir, enfim, o que fazer com a banda. Continuariam teatrais e tudo, mas... e o tom "gótico" do qual Mana tanto gostava?

- Eu proponho que cada um de nós escolha uma cor - disse Gackt, entusiasmado com a proposta da Nippon Columbia, não querendo perdê-la por nada - E aí, nas apresentações, cada um usa essa cor... só que, claro, em figurinos diferentes. É só uma sugestão...

Todos debateram, e acabaram concordando.

- E então, que cor cada um escolhe - perguntou Mana - Assim já posso redefinir os figurinos.

- Eu escolho o roxo - Kami decidiu-se por essa cor, pois havia tingido o longo cabelo de ruivo há pouco, e a cor ornaria com isto.

- Eu escolho o azul - disse Mana - Creio que é uma cor dúbia como o mar... pode ser calma e ao mesmo tempo... destrutiva como ele.

Közi não curtiu muito aquela idéia de cores, porém acabou aceitando e escolhendo.

- Eu escolho o vermelho, por representar tudo que é intenso, e também o sangue, que é vida.

- Eu escolho o amarelo, por ser a cor primária que representa a luz e e a glória - disse Yuki, um pouco surpreso por Közi, usualmente um punk bêbado e malcriado, conseguir raciocinar daquele modo em cima da sua cor escolhida.

- E eu - disse enfim Gackt - escolho o preto e o branco. São as cores que representam o tudo e o nada. A ausência e a junção de todas as cores.

Közi olhou de lado pra ele...

- Por que o Gakuto pode ficar com duas, e o resto só fica com uma?

- Deixe, Közi, deixe - apaziguou Mana - Não vai dar mais trabalho apenas por isso... bem! Agora que já estamos decididos, vou reformular os figurinos. O que acham deste aqui ser feito assim...?

Por quase duas horas, eles discutiram o que seria feito da banda a partir daí. Depois, com jeitinho, Mana foi para dentro de um dos quartos de hóspedes e chamou Gackt com um gesto quase imperceptível. Közi viu, e ficou de olho... pois Gackt logo o seguiu. Conversou mais um pouco com Yuki e Kami, mas logo deu uma desculpa pra se levantar... dizendo que precisava ir ao banheiro.

E começou a procurar... como quem não queria nada... onde estariam aqueles dois.

Não precisou de muito. Logo escutou algumas risadinhas... com a voz de Mana... e alguns estalos de beijo. As suas suspeitas se confirmavam... Mana e Gackt estavam mesmo saindo juntos!

Resolveu exercer o pouco auto-controle que ainda tinha, e se postou logo atrás da porta pra espiar. E enfim viu... viu os dois se agarrando, Gackt segurando na cintura de Mana, e Mana rindo que nem bobo, enquanto era beijado ora nos lábios, ora no pescoço, ora no rosto.

- E então, ma fleur...? Hoje rola, ou não?

- Rola sim... oras! É só você querer, bobinho... mas deixe o pessoal ir embora, caso contrário vão te acusar de estar me "cafetinando" porque sou o líder da banda...

- E você liga pro que te falam...?

- Ah, eles são meus parceiros...

- Sei... tem de perder essa timidez, Mana!

- Eu sei...! Mas não é assim, de uma hora pra outra! E você, que nem respondeu os meus torpedos...?

- É... desculpe, ma chérrie, minha mãe estava muito mal... sequer pude pensar em alguma coisa! Nem abri a caixa de mensagens do celular...

- Como não abriu, se viu o recado que te mandei sobre a reunião...?

- Ah... só vi esse. Os outros... nem abri. Me desculpe, ma fleur...

- Tudo bem... desde que fique comigo hoje, durma aqui... e fique até o almoço de amanhã!

- Hum... pode ser...

E em seguida, ambos se beijaram de forma tão intensa, que Közi até se enraiveceu. Não por ser um beijo gay, ou por ainda ver Mana namorando enfim... mas porque ele sabia bem quais eram as intenções do Gakuto-san!

Saiu de fininho, foi ao banheiro só pra dizer que estava saindo de lá, e voltou para o sofá, onde Kami e Yuki ainda discutiam algumas coisas sobre melodias e cores novas pros shows. Mas nem prestou atenção... porque tudo que desejava era falar com Gackt, assim que ele parasse de amaciar a carne do Mana lá dentro!

Longos trinta minutos se passaram... e ambos voltaram dos amassos enfim. E logo iniciaram a reunião, dado que estavam realmente muito a fim de passar a um estágio mais avançado da coisa...

Mana logo tomou a palavra:

- Bem... eu e Gakuto discutimos algumas coisas sobre... bem... sobre a banda, e... ele já compôs antes. E achamos melhor ele passar a noite aqui hoje, pra que a gente já comece a trabalhar nisso. E vocês - Közi, Yuki e Kami - poderão vir amanhã, de novo, às oito. Tudo bem?

Gackt estranhara aquela reunião para as oito do dia seguinte... dado que ia passar a noite ali, ia ter que ficar... até as oito da noite? Sem parar? Com o Mana carente, daquele jeito?

Todos concordaram, mas Közi fez cara feia. Levantou de seu assento e começou a falar:

- Mana, você me permite falar um pouco a sós com o Gakuto?

- Sim... mas... o que deseja falar com ele?

- É verdade, Közi - redarguiu Gackt, amparado pelo argumento recente do amante - Tudo que precisar discutir... eu posso discutir com o Mana. Não é?

- Não é sobre a banda - respondeu Közi, enfático - É coisa particular. E eu preciso falar antes de sair.

Mana olhou de soslaio para Gackt, e fez sinal com a cabeça para que ele fosse. O cantor acabou indo, tentando arrumar mentalmente um pretexto pra dispensar o infeliz logo...

Közi se remoía de impaciência. Entrou num dos quartos de hóspedes junto do rapaz de Okinawa, enquanto Mana aproveitava pra observar algumas das idéias que Kami e Yuki começavam a desenvolver. Fechou a porta. E começou a falar...

- Cara, por que vai dormir na casa do Mana hoje?

- Eu... ele... precisamos discutir as letras, pois sim? Se não discutirmos as letras...

- Por que ele tá marcando esse negócio com você e com a gente é só às oito da noite do outro dia?

- Pergunta pra ele, Közi! Quem decide é ele, o dono da banda é ele...

Com raiva, o punk socou com força uma cômoda que havia no quarto.

- Caralho, Gakuto! Eu te chamei pra banda pra cantar, não pra comer bunda de macho!

Gackt se surpreendeu. Não só com a perspicácia de Közi em perceber tudo, mas também com seu modo direto de falar. E também com sua audácia em querer interferir naquilo...

- D-daonde tirou isso, Közi?

- Eu vi vocês se pegando. É, a porta tava aberta, bonitão! Pensou tanto com a porra da cabecinha de baixo, que esqueceu de fechar a merda da porta! Não adianta mentir, gatão, você tá passando o rodo no Mana que eu sei!

Sem saco praquela conversa, e já querendo ir pro quarto com Mana pra terminarem o que haviam começado minutos antes, Gackt já foi logo sendo direto:

- Tá, e você com isso? Se você viu mesmo o que aconteceu, percebeu que foi consensual, né? Ele estava até rindo! Ele adora ficar comigo, me mandou uma porção de torpedos de ontem pra hoje! E o que você tem que ver com isso, hein? Ele é maior de idade, é até mais velho do que eu! O que você tem contra? O fato...de a gente ser um casal de homens, é isso?

Közi olhou mortalmente ao colega de banda. Fez uma pausa, muito mais perturbadora do que qualquer palavra, e enfim soltou:

- O problema... é que vocês não são um casal de jeito nenhum.

- C-como não?

- Não... ele olha pra você apaixonado, mas você olha pra ele com tesão. SÓ tesão. Você não ama o Mana, você só tá comendo ele pelo visto. E ele... pelo que conheço do Mana, ele deve de tar crente que vocês estão... namorando ou coisa do tipo!

- Escuta, Közi, o que você tem que ver com isso?

- O que eu tenho que ver? Cara, o Mana é quase um irmão pra mim! Eu o conheço desde antes de ele ser travesti, ele era punk, a gente tomou altas porradas da vida juntos! E pelo que conheço dele, sei que ele ia querer... algo mais sério, não as comidinhas de rabo que você tá disposto a dar pra ele!

- É, sei... mas me diz, qual a obrigação que tenho de namorar o Mana?

- Nenhuma, mas ele é meu amigo! É meu amigo, e eu me importo com o que ele sente, ao contrário de você... que só o vê como uma "mina gostosinha"! É, cara, você pouco se fode pro ser humano que tem embaixo daqueles paetês e daquelas rendas! Dá pra ler isso no seu olharzinho nojento, e o Mana não vê porque está simplesmente caído pelo crápula que você é!

- Eu não prometi nada pra ele. Eu só prometi... dar a ele uma primeira vez decente, e você pode perguntar pra ele se não foi isso que eu fiz! Se eu não tratei ele bem, se não comprei todas as rosas, todas as coisas que ele tanto queria... pode perguntar!

Közi balançou a cabeça, e em seguida disse:

- Eu sei. De tudo, tudo isso. Pra ele ter ficado gamadão do jeito que aparenta estar, é porque você deve ter comido ele muito bem. O problema é - o depois. É, cara, o depois, porque pelo que eu escutei da conversinha de vocês, nem os torpedos dele você leu! Até eu que sou um porra louca do cacete sei que não se faz isso com alguém! Não com alguém por quem se tem a mínima consideração!

Gackt suspirou, cansado daquilo.

- Cara... eu não tenho o dia inteiro pra ficar lendo torpedos dele. Não tenho! Nós... ficamos juntos ontem à noite, e hoje até o horário do almoço... e agora cá estou eu de novo, e vou ficar com ele até amanhã de noite! Cara, você acha mesmo que tenho 40 horas num dia, pra viver tudo isso pro Mana?

- É, só que você devia ter deixado isso... bem claro! Desde o comecinho! Deixado claro, como fazia com as vagabundas, lembra? As vagabundas, do tempo em que a gente saía junto pra pegar mulher... pra elas você sempre deixou tudo bem claro, que era só uma comida e pronto! Sem namoro, sem nada! E com o Mana, por que não fez o mesmo?

Desta vez Gackt ficou em silêncio. E Közi respondeu por si:

- Porque sabia que se propusesse sexo puramente casual ele não ia aceitar de primeira, não é? Sabia que nunca ia levar o Mana pra cama, caso abrisse o jogo com ele! E mais uma vez a sua inútil cabeça de baixo falou mais alto, destroçando um coração tão puro quanto o dele! Não é?

- Qual destroçar, Közi! Todo mundo vê que ele está muito mais feliz agora!

- Pode até ser... mas o final dessa história eu já sei de cor - e você também. Com o tempo essa sua máscara de príncipe encantado vai cair - e ele vai ver o cafajeste comedor que você é... é, porque o Mana pode ser "gostosa" e tal, mas aposto que se passar um rabão aqui, de mulher, do teu lado... tu vai e come! É ou não é? E tu acha que isso não ia magoar o Mana?

- Escuta, Közi... você deveria estar me agradecendo.

- Qual agradecendo, cara!

- É, agradecendo! Como, como... vocês deixaram um cara lindo como ele, virgem até agora? Como? Tem que vir alguém de fora e mostrar pra ele o que é sexo? Hein? Por que você nunca o desvirginou? Ou vai me dizer que nunca sentiu tesão por ele!

Közi virou o rosto, como que para esconder alguma expressão triste ou magoada. Em seguida, não muito depois, retomou a palavra.

- Em primeiro lugar... eu sou direto demais. Eu sou um punk maluco, que bebe mais cerveja do que água e fuma igual a uma chaminé. Eu passo longe do que Mana sonhou para si. Já você... você é parecidinho com o que ele sonhou. Mas só por fora! Por dentro, você é pior do que eu, porque você é uma mentira! E você sabe... sabe por que mesmo eu nunca tracei o Mana...? Porque eu sei... eu sei que jamais poderia oferecer algo semelhante ao que ele merece. Eu o poupei da decepção de sair com um cara como eu...! E você não! Você foi comendo, e vai passar por cima dele como um trator que eu sei!

- Közi, que merda, a vida é assim mesmo! Se você saísse com ele, hora dessas até menos tímido ele estava! É, cara, e se ele tiver alguma decepção... eu também tive sabia? Eu não consigo namorar a sério porque tenho medo de ter uma decepção igual àquela que tive! Mas eu tô vivo, eu tô cantando...! E o Mana vai sobreviver também!

O segundo guitarrista da banda coçou a cabeça.

- É mais honesto continuar só comendo. Mas o Mana...! Você vai acabar com ele!

- Não acha que é melhor isso, porém com a certeza de que ele não vai morrer virgem? Hein?

- Não! O Mana, o Mana ele pode ter cerca de vinte e seis, vinte e sete anos...! Mas ele, por dentro, não é um cara na casa dos vinte...! Ele é uma criança, Gakuto...! Ele, ele quando se mudou pra Tokyo... e isso ele devia ter uns dezoito anos mais ou menos... ele guardava um pijama do Snoopy, cara! E, pasmem, ele guarda esse pijama até hoje! Ele é uma criança por dentro, e veja só o que você fez com ele...! Ele tava bem sem sexo, Gakuto...! Deixasse ele e a virgindade dele em paz...!

Sem se segurar, Közi começou a chorar. Gackt bufou de impaciência.

- Escuta, Közi... isso me parece com duas coisas. Uma, você tá com medo de perder o teu cargo de membro da banda mais confiável às vistas do Mana. Pode deixar que isso eu não vou fazer, porque ele conhece você há anos. Segundo... você tá com ciúmes do Mana. É, cara, você queria ter comido o Mana, mas nunca teve a coragem de chegar nele. E agora que alguém chegou...

- Não! Não, mil vezes não, Gakuto...! Ele... ele é "gostosa", eu teria de bom grado saído com ele - se ele não fosse O MANA! Se ele fosse um travesti qualquer aí da rua - mas não o Mana, o meu irmãozinho mais novo...! Entendeu, cara? E o pior, fui eu quem indiquei você pra essa merda! Eu indiretamente também acabei com a alma do Mana!

Közi continuava a chorar, sem saber se estava fazendo mais papel de ridículo do que de dar o sermão que queria dar no Gackt. No meio disso tudo, Mana abre a porta... sem sequer bater. E se assusta ao ver Közi chorando.

- Közi...! Céus, o que... o que aconteceu entre vocês dois?

O que veio em seguida foi um falatório tremendo. Közi quis abraçar Mana, mas Gackt se colocou no caminho... e ambos começaram a discutir e a falar ao mesmo tempo. Mana se colocou no meio dos dois, e mesmo assim foi difícil fazê-los falar um de cada vez.

- Esperem. Esperem! Cada um fala de uma vez. O que está acontecendo aqui?

Gackt tomou a palavra primeiro.

- Mana... o Közi, ele viu. Ele viu a gente se beijando.

O guitarrista corou de vergonha, dado que ainda era bastante tímido... mas logo se conformou.

- Közi... você...

- E agora ele quer dar pitaco no nosso relacionamento!

- Como...?

Közi ainda enxugava as lágrimas, ainda sem responder. Resolvera guardar as respostas para quando Gackt acabasse de falar. Sendo assim, o vocalista continuou:

- É, ele parece que não está... satisfeito com o fato de a gente estar junto.

Mana olhou com uma expressão indignada para o amigo. E em seguida redarguiu:

- Közi...! Eu então não sou livre pra... pra namorar? Hein? Só porque agora achei um amor, você tem de se doer por isso?

- Mana... - a voz do punk ainda saía embargada pelas lágrimas - Você... agora... não sabe. Mas um dia, e infelizmente esse dia não vai tardar a acontecer... você vai saber do porquê de eu chorar. Eu só devia ter te alertado, Mana...! Devia ter te alertado, porque esse cara é o maior comedor que eu já vi na minha vida, mas como você é homem eu pensei que ele fosse respeitar...!

- Do que fala, Közi? Gakuto me contou sobre seu passado... e eu sei muito bem que ele teve muitas mulheres, mas... isso só se deu por causa da decepção dele com a primeira namorada...! E se isso se deu por conta da decepção... eu posso fazer com que ele confie de novo em alguém. Com que ele saiba... que pode contar comigo.

O olhar de Mana era tão loucamente apaixonado, que Közi chorou mais. Chorou mais, por saber que a queda do amigo seria ainda mais alta do que ele previa.

- Olha, Mana... - continuou ele, sem parar de chorar - Eu sei... que tudo que eu te disser, te mostrar, te contar... nada disso vai adiantar agora. Você está cego pela paixão... e terá que ver por si quando as coisas acontecerem. E quando ver... vai precisar de mim, do meu ombro amigo. E eu vou estar aqui... como sempre, sempre estive... desde que nos conhecemos! Mas até lá... eu só quero que você saiba... que você não está namorando o Gakuto...! Vocês estão... ficando! É, ele tem um caso com você - e não um namoro. Entendeu...? Espero que ao menos reflita um pouco nisso que eu te disse...

- Közi, como é capaz de difamar ao Gakuto desse jeito? É claro que estamos namorando, eu até mesmo o chamei pra vir morar comigo!

O punk, que já ia saindo do quarto, olhou para Mana de soslaio, achando uma graça trágica em toda aquela ingenuidade... e simplesmente disse:

- Eu não vou te falar mais agora, Mana... mas pense... pense em quantas vezes ele te chamou de "namorado". Pense se ele chamou mesmo... e depois me conte. Tá OK? Qualquer coisa, sabe meu telefone...

Desolado, Közi saiu do quarto. Kami e Yuki perguntaram o porquê de ele chorar, mas ele não quis dizer.

Mana, no entanto... ficou pensando naquilo. E pensando... e pensando... até que todos foram embora... Közi levou o carro da banda para sua casa, assim como Kami e Yuki para suas residências... e Gackt e Mana acabaram ficando sozinhos.

- Você vê, Mana? Já tem gente agourando o nosso amor...!

- Gakuto... o Közi jamais ia ver o meu mal... eu o conheço há oito anos...

- E você agora vai acreditar nele...?

- Não exatamente...! Mas é verdade, Gakuto... você nunca, nunca me chamou de namorado!

- É que... eu acho que esse nome... dá muito azar! A última vez em que chamei alguém de "namorada", ela me deixou...

- Eu não sou ela...! Eu não sou ela, Gakuto, eu... eu mereço namorar você!

- É que... eu tenho receio de me prender, Mana...

Os olhos de Mana se arregalaram em terror.

- Gakuto...! A gente não está namorando?

- Mana...!

- Você dorme aqui, usa a minha cama, a minha casa, come comigo... você faz sexo comigo... e a gente não está namorando? Hein, é isso que tem a me dizer?

- Calma, Mana... a gente... a gente pode namorar sim...! É, só precisamos... de um pedido oficial!

- E quando vai fazer esse pedido?

Gackt colocou as mãos nos bolsos, nervoso. E agora...? Se pedisse Mana em namoro, era mais e mais apego. Se não pedisse, o travesti era capaz de, em lágrimas, mandá-lo pra rua e pra fora da banda. Então... que fazer?

Como pensou no contrato lucrativo da Nippon Columbia, bem como nas contas a vencer e sem um emprego pra pagá-las, decidiu por aguentar o apego de Mana por mais um pouco. Repentinamente... sentiu um anel no bolso, e reparou... que ele era prateado. É... era aquela a hora de acabar com a maldita semente de desconfiança plantada pelo idiota do Közi.

- Aqui, Mana... - sem titubear, Gackt retirou do bolso a aliança prateada. Ajoelhou-se teatralmente. tomou a mão direita dele, beijou-a... e colocou o anel em seu dedo anelar.

- Eu peço, Mana... - continuou ele - Eu peço que seja meu namorado. Aceita...?

Embargado pela emoção, o crossdresser derramou algumas lágrimas de emoção e abraçou o companheiro pelos ombros, ajoelhado que estava.

- Aceito...! É claro que aceito, mon amour...! Oh, beija-me! Beija-me, faz-me teu hoje, amanhã, sempre...!

Sendo assim, a confiança de Mana reconquistada, Gackt tomou-o nos braços e levou-o ao quarto principal... onde terminariam o que começaram, mais cedo, no quarto de hóspedes.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

¹Eu ouvi falar que eles não tinham muita grana no começo do Malice Mizer... então, Mana limparia a casa ele mesmo.

²Lembremos que a fic se passa em 1995... logo, no Brasil eu sei que celular era uma raridade. No Japão, vai que já tinha torpedo... rs!