Sarada acordou e fitou o teto por alguns segundos, confusa, antes das memórias da noite anterior preencherem o vazio de sua mente sonolenta. Rapidamente, ela sentiu como se toda a agitação do mundo tomasse conta de sua existência, e se virou, enfiando o rosto no travesseiro. Onde ela estava com a cabeça quando beijou Boruto?! E não, não o havia beijado uma vez, e sim três. Soltou um grito abafado no travesseiro, na tentativa de suprimir seu constrangimento e raiva de si mesma. O pior era o calor que sentia no ventre ao lembrar do loiro encostando os lábios macios nos seus, um sinal óbvio de que ela havia sim, gostado, mas não queria, nem podia ceder ao seus desejos carnais; além de tudo, não havia resolvido nada com Kawaki.
Ela olhou o despertador ao lado da cama: eram seis horas da manhã de uma quarta-feira, o dia em que Boruto e Kawaki voltariam da suspensão. Massageou seu couro cabeludo, tentando se livrar da tensão; para ajudar, seu período de férias dos dois garotos tinha terminado. Tentou respirar fundo, a fim de conter sua ansiedade, e saiu da cama para tomar uma ducha, sua débil maneira de se esquecer de tudo que havia acontecido na noite anterior, mas os flashs de memória vinham sem aviso e retomavam seu constrangimento de tempos em tempos.
Enquanto secava os cabelos com a toalha, enfiando as coisas dentro da mochila com uma das mãos, viu um papel verde-limão dobrado sobre a mesa. Agarrou, abrindo com os dedos e revelando o desenho HQ de Inojin, lembrando-se da festa comentada na semana anterior. Ela havia se esquecido completamente, mas o evento seria naquele final de semana, e Cho a mataria se dissesse que não queria ir.
E ela não queria, tendo em vista todos os últimos acontecimentos: se não estava se sentindo confiante nem de encontrar Kawaki e Boruto num dia normal na escola, quem dirá numa festa regada a álcool e música alta? Com qual cara olharia seu ex - ou atual? ela não sabia mais nada - namorado após ter beijado Boruto? Com que cara olharia Boruto sendo que ela estava deliberadamente tentando esquecer do fato de que haviam se beijado? Talvez fosse melhor ficar em casa, sozinha e quieta. Assim nada poderia dar errado.
Ela conversaria com Cho e explicaria seus motivos. Com certeza sua amiga iria entender.
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Quando ela finalmente chegou na escola, percebeu sua própria aflição diante da perspectiva de ver um dos dois. Andava pelos corredores sorrateiramente, torcendo para passar desapercebida. Ela conseguiu se esgueirar até o banheiro feminino, e entrou em uma das cabines, sentando na privada fechada. Resgatou seu celular da mochila e procurou a conversa com a Akimichi.
7:10 Me encontra no banheiro na frente da sala 12
A mensagem foi visualizada e respondida afirmativamente com rapidez, e em questão de minutos Cho estava no banheiro, dando um leve toque na divisória. Sarada abriu, olhando pela fresta, e certificando-se de que não havia ninguém no ambiente, saiu.
"De quem exatamente você está se escondendo numa cabine de banheiro, posso saber?" A Akimichi olhava para ela com uma de suas sobrancelhas bem feitas levantada. Sarada suspirou, e sentou no banco ao lado da janela, parecendo exausta. Cho andou até a porta, colocou um aviso de limpeza do lado de fora, e fechou, discretamente. "Pronto. Agora você vai me contar o que está acontecendo?"
A Uchiha passou a mão pelo rosto, soltando a respiração que segurava.
"Eu e Boruto nos beijamos."
Cho deixou o queixo cair numa expressão impagável de choque e logo estava gritando, "O quê?! Como assim?! Sarada você tem que me contar tudo agora! Agora! Eu não acredito!" ela se movimentava de um lado para o outro, Sarada diria que ela estava até um pouco saltitante. "Eu sabia! Eu sabiiiia!" A Uchiha sentiu a irritação crescendo dentro de si, como assim sabia? "Uchiha, pode desembuchar! Só temos quinze minutos até a aula começar, e eu não vou sair daqui sem saber essa história!"
A morena massageou sua têmpora, tentando se concentrar enquanto Chocho falava ininterruptamente. "Ele me chamou para invadir a piscina da escola, eu vim, e a gente se beijou." Sarada sabia que era uma explicação ridícula, mas ela mesma se sentia incapaz de colocar em palavras de maneira coerente.
"Calma- o que? Você invadiu a escola? Vocês invadiram a piscina?! Como assim? Quando? Onde? Como?" Cho não conseguia parar de se mexer, e não parecia capaz de formular uma frase que fizesse sentido. "Não estou entendendo - ele te beijou na piscina? Como foi? Por que? Por onde vocês entraram? Ele beija bem?! Você pulou o muro?" Sarada estava atordoada com a avalanche de perguntas, e mesmo Cho não conseguia se conter e deixá-la pensar. "Cho, fica quieta! Não consigo me concentrar! Vem aqui, senta aqui do meu lado." A Uchiha acenou para o lugar vago ao seu lado no banco. "Eu vou te contar tudo brevemente, mas você precisa me escutar."
Ela finalmente conseguiu fazer a amiga ficar quieta, e quando Cho finalmente se sentou ao seu lado, com os olhos arregalados e ávidos por respostas, Sarada contou tudo que havia acontecido no final de semana e no dia anterior, da maneira mais sucinta possível. Até então, não havia se sentido impelida a compartilhar com ninguém, mas sua excitação e ansiedade estavam ficando fora de controle, e Cho sempre estava disposta a escutar e ajudar.
"Eu estou chocada." Foi a resposta da Akimichi. "Nem consegui digerir tudo ainda!"
"Eu sei. Eu mesma estou muito atordoada… tudo isso para te contar que não quero ir na festa de Inojin. Não estou pronta para encarar nem Kawaki, nem Boruto." A Uchiha falou, desanimada. "Aliás, nem sei o que vou fazer ho-"
Sarada foi interrompida pela voz de trovão da amiga, "A senhorita vai na festa sim." Cho olhava para ela com olhos flamejantes e determinados, "Ai de você se perder uma festa por causa de homem. Aliás, homem não, dois moleques problemáticos.". Ela ergueu o dedo próximo ao rosto de Sarada, fazendo uma ameaça, "Vai ser a festa do ano. Você vai, ou eu não me chamo Chocho Akimichi. Estamos entendidas?!" Sarada abriu a boca para refutar, mas o sinal estridente do corredor soou, anunciando o início da aula. A Akimichi se levantou, ainda com seu ar autoconfiante e rígido. "Não quero ouvir um pio sobre isso. Já avisei Inojin que você vai." e saiu andando em direção à porta. "Levanta daí, menina, ou vamos perder a hora."
Sarada se levantou, meio atordoada. Aparentemente ela já era presença confirmada na festa do Yamanaka, e não tinha nada que pudesse fazer quanto a isso.
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Os dois estavam na secretaria onde Shizune fingia trabalhar enquanto olhava o celular. Nenhum som era emitido pelos garotos, o único ruído a perturbar o silêncio era o tique-taque insistente do relógio de ponteiros na parede. Eram nove horas da manhã.
Kawaki e Boruto procuravam ignorar a existência um do outro. Ambos os garotos acreditavam que o desprezo era sempre mais efetivo do que a raiva, afinal - "você não é digno nem da minha revolta" era a mensagem a ser transmitida. Boruto segurava na mão a ficha de suspensão recebida na semana anterior, contendo um texto redigido por Kakashi relatando o ocorrido, mais embaixo via a caligrafia caprichada de sua mãe, assinando Hinata Hyuuga Uzumaki abaixo do trecho em que confirmava estar ciente do ocorrido e das consequências de uma futura infração. Seu pai não estava em casa para assinar, mas Hinata o obrigou a telefonar e contar com suas próprias palavras o que havia acontecido: ele obedeceu, relutante, e os dois discutiram pela enésima vez, resultando no seu final trágico n'O Demônio da Névoa e sua posterior salvação por Sarada.
Sarada.
Pensar na Uchiha fazia seu coração bater mais rápido, e ele olhou de escanteio o moreno sentado algumas cadeiras para o lado. O idiota não sabia a sorte que tinha, mas Boruto se sentia mal - sabia que ele era uma pedra no sapato no relacionamento dos dois, mas realmente não havia feito nada na intenção de atrapalhar. Era só que Sarada mexia com ele, seus olhos intensos e escuros e seu jeito determinado e honesto passavam sem a menor dificuldade através das muralhas que ele tentava erguer de maneira a proteger sua intimidade e seus sentimentos. Quando ela sorria ou fazia algum comentário inteligente e divertido, ele queria beijá-la até perder os sentidos. E ele tinha, algumas vezes. Mas não queria pensar muito nisso ou teria um sério problema dentro das calças.
Falando nela, ele não havia visto a Uchiha desde então, e no fundo, acreditava que ela o evitaria por um tempo. Ela claramente estava confusa, e nada de bom poderia vir de pressioná-la a dar a ele a atenção que ele gostaria de receber; enquanto as coisas não fossem resolvidas entre ela e Kawaki, ele deveria se manter quieto e distante. Isso seria fácil, se eles não se vissem, se ela não fosse tão bonita e o tirasse do sério com seu cabelo longo e escuro, presos num coque frouxo enquanto ela lia as páginas do caderno, ajeitando os óculos sobre o nariz…
A porta de Kakashi se abriu devagar e evitou que Boruto caísse novamente em linhas de pensamento arriscadas. Com o semblante sério, o diretor se dirigiu aos dois meninos. "Kawaki. Boruto. Entrem." Ele falava pausadamente, e fez um breve aceno, indicando a porta. Os dois se levantaram, agarrando as respectivas mochilas, entraram e sentaram nas duas cadeiras de frente para a mesa de Kakashi, sem dizer uma palavra.
Depois de se sentar, recolher as fichas, e cruzar as pernas num gesto elegante e autoritário, Kakashi finalmente falou, com sua voz calma, "Bom, como se sentem?". A pergunta deixou ambos confusos, e eles se olharam por um segundo, checando a reação um do outro, e rapidamente desviaram o olhar, lembrando que se odiavam. As perguntas de Kakashi eram sempre ambíguas e estranhas, e ele olhava, esperando uma resposta, "Espero que a raiva adolescente e viril de vocês tenha passado."
"Kakashi, eu realmente sinto muito. Eu me descontrolei." Kawaki falou, sério e objetivo.
Kakashi o fitou por alguns instantes. "Você tem meu perdão, Kawaki. Sei que você é um bom garoto, mas em algum lugar dentro de você, o menino revoltado e carente de antes ainda existe, e você precisa aprender a controlá-lo. Você é quase um adulto, cresceu, amadureceu e deixou seus fantasmas para trás. Não se deixe voltar de onde veio." Kawaki corou, e abaixou a cabeça diante das palavras sensíveis e precisas. Kakashi o conhecia desde criança, sabia do seu passado conturbado.
"Desculpe também, Kakashi. Eu fui inconsequente." Boruto falou, com uma expressão desconfortável. Ele não era muito bom em pedir desculpas, era orgulhoso demais.
"Sim, inconsequente e orgulhoso." Kakashi voltou a atenção para Boruto. "Você pensa que não o conheço, Boruto, mas sei tudo sobre você. Sei da sua angústia em ser esquecido e da necessidade de ser notado, por bem ou por mal, e se fazer reconhecido. Você amadureceu, é inteligente e competente, mas comete deslizes desnecessários em nome da sua auto-afirmação." Como Kawaki, Boruto baixou os olhos e fitou as próprias mãos sobre o colo.
Era uma chuva de verdades. Suas mais profundas inseguranças expostas num telão para o inimigo ver, nenhuma possibilidade de defesa. Kakashi sabia tocar na ferida, mas sem ser baixo ou desrespeitoso.
"Não tenho a intenção de humilhá-los, mas vejam bem… Eu tenho um profundo apreço pelas boas relações humanas e pelo respeito mútuo. A Academia de Konoha é um porto seguro, eu conheço cada um de vocês como meus próprios rebentos e quero que aqui vocês cresçam e evoluam. É por isso que não tolero atitudes como a que tiveram na semana passada, e é por isso que quero que reconheçam o que existe dentro de vocês que causou esse desentendimento." Ele alisou a calça social cor de chumbo com corte clássico.
Boruto sabia muito bem o que havia dentro dele: sua vontade quase incontrolável de beijar a Uchiha na boca a todo instante, mas ficou calado.
"Vocês dois são brilhantes, eu vejo muito potencial em ambos. Mas quero que reconheçam suas falhas, e ajam de maneira humana, tenham empatia e paciência. Pensem sobre o que eu falei, reflitam sobre suas carências e atitudes. Não guardo rancor, e não vou puni-los sem necessidade, apenas quero que fiquem atentos."
Os dois concordaram num aceno de cabeça. Kakashi era um homem sensível e inteligente, apesar de rígido, e sabiam que havia muita sabedoria em suas palavras.
"Vocês estão dispensados. Não vejo serventia em forçar a amizade entre vocês, seria estúpido da minha parte, mas tentem colaborar nos treinos. O time de basquete depende da dedicação de ambos."
Eles concordaram e se levantaram para sair. Boruto saiu na frente, abrindo a porta, e quando pisou para fora, interrompeu o movimento ao ouvir Kakashi falar:
"Ah, antes que eu me esqueça. Vocês estão se metendo com uma Uchiha. Se qualquer coisa de ruim acontecer a Sarada por conta do comportamento inconsequente de vocês, vou chamar Sasuke na escola para conversar com cada um de vocês pessoalmente." Ele falou de maneira casual - Kakashi parecia saber tudo que acontecia em sua escola, observando silenciosamente cada um de seus alunos e percebendo seus dramas, angústias, paixões e conquistas. Ele sabia do triângulo amoroso que se formava. Os dois garotos sentiram as bochechas queimarem, constrangidos e assustados, e engoliram em seco.
"Estão dispensados. Boa aula!" Kakashi acenou, animado, e eles se retiraram, pensativos e silenciosos.
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Sarada insistiu na sua missão de passar o dia sem ser vista. Infelizmente, isso significou cabular a aula para ficar na biblioteca "estudando", já que não tinha jeito de evitar os dois estando na mesma sala, e cabular era algo que Sarada não gostava de fazer. Apesar disso, ela admitia se sentir um pouco aliviada, já que era aula de Tenten e os gemidos sexuais que ela tinha ouvido no dia anterior ainda a atormentavam, preferiria não ter que encarar a professora de Geografia.
Olhou para o livro aberto na sua frente, do qual ela havia lido aproximadamente três linhas nas últimas duas horas. O sinal do final da aula soou, e ela finalmente poderia ir para casa, só precisava esperar as pessoas debandarem ou irem para as aulas extracurriculares. Observava o movimento através da janela vitoriana, acompanhando com o olhar os alunos indo e vindo da piscina, do ginásio e das salas de aula.
Ela sentiu o coração disparar quando viu a massa de cabelos loiros entrar no seu campo de visão, Boruto trajava seus clássicos jeans e camiseta branca. Ele conversava animadamente, gesticulando e em segundos Sarada viu que ele estava na companhia de Sumire. Os dois pareciam realmente estar se divertindo, e Boruto deve ter dito algo engraçado, pois Sumire riu, dando um aperto amigável no braço dele, e logo depois ele brincou com os cabelos dela, divertido.
Sarada não soube o que aconteceu, mas quando deu por si, estava fervendo de raiva, um nó furioso se formando na sua barriga, dando vontade de abrir a janela e gritar para os dois o quanto eles eram ridículos com aquelas brincadeirinhas de mão. Quem Sumire achava que era para ter esse tipo de intimidade com seu amigo?
Ela parou, estupefata, respirando fundo. Parou um momento para analisar psicologicamente a si mesma enquanto via os dois sumindo em direção a piscina.
Quis dar um tapa na própria cara, mas seria julgada pelos outros alunos que usavam a biblioteca.
Ela estava com ciúmes.
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Sarada entrou em casa quase se escorando contra a porta, o dia na escola e seu estado de tensão haviam sugado suas energias. Enquanto trancava, vendo o molho de chaves chacoalhar na fechadura, ela ouviu um barulho vindo da sala de estar.
"Sarada?" Sakura chamou singelamente, ouvindo-a entrar. A filha se deslocou até a porta aberta do cômodo e viu sua mãe sentada no grande sofá, separando as correspondências.
"Oi mãe. Quando você chegou?" Ela andou até o móvel, e se atirou na almofada, ao lado da mãe, fazendo um som abafado. "Hoje de manhã. Tudo bem com você?" Sarada se jogou no encosto de maneira dramática, mole e largada como uma boneca de pano e soltou um gemido incomodado. "Não." Ela respondeu.
Sakura deu uma risadinha, vendo a filha naquele estado. "Que dramática. O que houve?" Levou os dedos até a boca, molhando a ponta com a língua, e voltou a separar a papelada.
"Eu e Kawaki estamos dando um tempo... quer dizer, terminamos... na verdade eu não sei mais..."
Sakura soltou os papéis sobre a mesa e se virou para Sarada, completamente séria e atenta. "Puxa... o que houve?" A filha estava afundada no sofá, com o semblante desanimado, e Sakura sentiu uma pontada de pena. "Não sei, mãe... as coisas já estavam muito esquisitas. Ele andava ausente, e eu fiquei frustrada... mas aí apareceu Boruto e tudo desandou completamente..." ela esfregou o rosto, como se o movimento pudesse lhe trazer alguma clareza. "Ontem eu fiquei com Boruto."
"Ficou?" Sua mãe não entendia a linguagem dos jovens.
"Nós nos beijamos, mãe."
"Ah!" Sakura pareceu surpresa por um instante, e logo ficou vermelha. "Isso é um problema, não? Já que você não sabe o que está acontecendo com Kawaki." Sarada fez uma careta "Sim... exatamente. Eu evitei os dois o máximo que pude hoje na escola, mas tenho uma festa no final de semana, e Cho não quer me deixar faltar. O que acha que devo fazer?"
Sakura pareceu pensativa por um momento. "Quando eu estava no colégio, não perdi nenhuma festa. Eu adorava dançar com as minhas amigas, e além de tudo, eram as únicas ocasiões em que seu pai trocava mais de quatro palavras comigo. Nada como álcool para ajudar." Ela deu uma piscadela, Sarada apenas escutava atentamente. "Até o dia em que ele ficou tão bêbado numa festa na casa de Naruto que eu tive que levá-lo para minha casa, ou Fugaku ia acabar com ele - ele sempre foi muito rígido, você sabe. E aí ele deixou escapar que me achava atraente e na semana seguinte eu o chamei para sair e ele aceitou." Sarada ficou olhando, tentando entender a relação com a pergunta que ela acabara de fazer. "A moral da história é: festas são sempre divertidas e você nunca sabe o que pode acontecer. Além disso, você tem dezessete anos, deixe para ficar em casa num sábado à noite quando estiver perto dos setenta." Ela apertou o ombro da filha, num gesto encorajador.
Sarada suspirou. Sua mãe e as amigas patricinhas eram bem diferentes de Sarada e suas amigas quando tinham a mesma idade, mas ela tinha razão: nunca se sabe o que pode acontecer. Sarada deu um beijo na bochecha da mãe, e se levantou rapidamente, correndo para o quarto.
"Beijou Boruto, hein?" Sakura disse para si mesma, depois de Sarada sair, soltando uma risadinha marota.
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No sábado, Sarada se sentia extremamente ansiosa. Andava de um lado para o outro pela casa, tentou tirar um cochilo a tarde e não conseguiu, e acabou por comer dois potes de sorvete na sua ânsia de preencher o vazio que sentia dentro de si. Sakura apenas observava a filha em seu estado de nervos, sem conseguir ajudar, mas ainda assim soltava uma frase de incentivo aqui e ali.
Havia combinado de se arrumar na casa de Cho para as duas chegarem juntas na festa, Sumire encontraria com elas na porta, e estava esperando as dezenove horas para sair para a casa da Akimichi.
A companhia tocou e Sarada viu a mãe descer para atender, não sabia de quem se tratava, apenas enxergou um grande pacote na mão de Sakura e ela assinando uma lista de entrega logo em seguida. "Sarada, encomenda para você." Ela ouviu a mãe gritar do andar de baixo, olhando o nome no pacote. Ficou confusa, não havia feito nenhuma compra pela internet recentemente. Desceu as escadas, curiosa e pegou o pacote, apoiando-o sobre a mesa da sala de jantar.
Sakura ficou ao seu lado, observando enquanto ela rasgava o papelão com uma tesoura. Dentro havia outro pacote, mais refinado e protegido. Ela o tirou e apoiou no tampo de madeira, abrindo com cuidado, e viu um tecido preto, dobrado, com um pequeno bilhete em cima.
Sarada,
Sua mãe me disse que você tem uma festa hoje.
Não exagere na bebida.
Cuide-se.
Com amor,
Sasuke.
Eles eram dois fofoqueiros.
Ela olhou para a mãe, animada, sentindo seu coração disparado. "É do papai!" Sakura deu um sorriso gentil, vendo a animação tomar conta da filha e sua ansiedade se dissipar. A morena tirou o tecido da caixa, mal podia conter sua excitação, e deixou a roupa se desdobrar, revelando um vestido preto de veludo justo com alças finas, que pelo logo na caixa, devia ser caro. "Uau, é lindo." Sarada parecia abismada, não achava que era para seu bico. "Parece caro. Será que devo mesmo usar hoje?" Olhou para a mãe, insegura.
"Tch. Não é você que está pagando, e seu pai te deu exatamente por isso." Sakura era extremamente fina e clássica, e prezava pelo bom gosto do marido na escolha das peças também; achou o vestido impecável. "O máximo que pode acontecer é você ser a mais bonita da festa." Ela disse, brincalhona.
Sarada sorriu, colocando o vestido na frente do corpo e rodopiando, animada. Seus olhos brilhavam de alegria e animação, e Sakura se sentiu aliviada pela primeira vez no dia, ela estava se perguntando se tinha agido corretamente ao encorajar a filha a ir na festa, mas havia retomado sua confiança.
"Vou arrumar minha bolsa para ir para a casa da Cho!" Ela subiu correndo as escadas, entrando no seu quarto a todo vapor.
—
Cho pegou uma mecha de seu longo cabelo castanho, enrolando os fios no babyliss enquanto se olhava atentamente no espelho do banheiro. Sarada estava ao seu lado, inclinando-se sobre a pia para enxergar melhor enquanto espalhava a base clara pelo rosto. A música animada tocava na caixinha de som no quarto da Akimichi.
O vestido dado por Sasuke e os brincos de cristal de Kawaki esperavam Sarada pacientemente em cima da cama. Ela ficou insegura sobre colocar os brincos dados pelo ex-atual-namorado, mas achou que seriam o adereço perfeito para a roupa que havia escolhido.
"Shikadai me confirmou hoje que Kawaki e Boruto estarão na festa." Cho comentou, olhando de esguelha para a Uchiha. A morena teve um espasmo, borrando o rímel na pálpebra. "Droga." Ela praguejou, baixo, pegando um algodão para limpar a mancha preta em sua pele.
"Sara, você não pode fugir deles para sempre." Ela olhou para amiga, no seu tom uma reprovação leve. "Alguma hora vai ter que trocar palavras com eles, agir como um ser humano normal."
"Eu posso mudar de colégio e nunca mais ver nenhum deles." A Uchiha respondeu, como se fosse a atitude mais natural possível e Cho revirou os olhos. "Está bem, estou brincando. Mas, sério, eu fico aflita só de pensar..."
"Você quer ficar com Boruto de novo?"
Sarada engoliu em seco, olhando seu reflexo, enquanto via Cho a encarando através do espelho. "Não..."
"É claro que quer." A amiga voltou a fazer seus cachos com o aparelho. Sarada bufou e respondeu, "Eu ainda gosto do Kawaki."
"Eu acho que é pura questão de hábito. Três meses solteira e vai ser como se vocês nunca tivessem namorado."
"Cho! Não seja tão insensível."
A Akimichi desligou o babyliss e começou sua maquiagem, habilidosamente desenhando o contorno da sua face com tons claros e escuros. Ela fazia tudo muito rápido, Sarada sempre ficava hipnotizada vendo a amiga se maquiar. "Vou te ajudar na maquiagem, não precisa me olhar com essa cara de pidona." Passou o delineador, fazendo uma linha grossa e precisa sobre os olhos. "Não sou insensível. Só acho que há algo acontecendo entre você e Boruto, mas você parece relutante. Eu te conheço, Sarada, você jamais o teria beijado se no fundo não quisesse muito. É esse seu jeito de levar as coisas intensamente."
Sarada não respondeu nada, pois não tinha resposta. Ela não sabia porque tinha beijado Boruto, só... aconteceu. E já havia aprendido ao longo dos anos que a teimosia de Cho gerava discussões intermináveis, preferia simplesmente deixar de lado. A amiga se aproximou, trazendo para perto todo seu estojo de maquiagem. "Vamos lá, Uchiha. Vou fazer uma make sensacional, você vai ser a mais gata da festa."
"A mais gata depois de você, certo?"
"Isso. A mais gata depois de mim." Cho corrigiu a própria fala, dando uma gargalhada.
Mesmo que tudo desse errado, ela ainda teria sua amiga para fazer companhia, então tudo estava bem.
