Nunca havia notado o quanto canções de ninar podem soar assustadoras se cantadas no tom certo – exceto "Tili tili bom", essa musiquinha russa consegue dar calafrios só com a letra.
"Peregrin, pelo amor de Odin, mantenha o foco!", pede a Cobaia desesperadamente. Certo, certo, é você quem manda...
Respondendo aos comentários:
K-pearl – O lindo Loki é mais gentil que o imaginado, porém insiste em não ser honesto. Creio que deve ter sido terrível para ele crescer em Asgard onde os "homens de verdade" são guerreiros durões, musculosos e barbudos. Ah, não consigo imaginar o Loki longe da Frigga *suspira sonhadora*. Vou continuar a fic sim, pode confiar :3
Ana Cristina P – Yay! Fã é bom... aliás, é ótimo! XD Sobre as atualizações, elas podem demorar, mas sem dúvidas chegarão.
Diadorim – Obrigada =3 ! Com o tempo, muita prática e um bocado de esforço acredito que essa ainda pode se tornar uma fic bastante razoável \o/! E posso prometer muitas reviravoltas para o futuro *consulta anotações ocultas para confirmar*.
Angela Prince Snape – Quando o Fury der o ar da graça ninguém vai curtir... sério.
Neste capítulo maravilhoso teremos mais algumas surpresas surpreendentes (minha professora de português enfartaria se lesse isso) e finalmente os Vingadores vão entender que com o Loki nada é tão simples.
Naquela manhã quente de sexta-feira um táxi parou diante da Torre Stark deixando para trás um jovem médico. O rapaz arrumou precariamente os cabelos desgrenhados e, andando com um gingado peculiar, dirigiu-se ao prédio descomunal. Sua carteira de identidade e seu currículo o apresentavam como Christopher Adelarc, médico oftalmologista recém-formado e bem credenciado.
Perfeitamente normal... se você não soubesse que Christopher Adelarc estava na África e nem suspeitasse que o homem prestes a entrar no lobby da Torre era Nick Fury.
A primeira intenção de Fury, quando assistiu aos vídeos no dia anterior, foi planejar a tomada imediata da Torre. Algo como nocautear os heróis, capturar Loki e acabar cm aquela baboseira. Contudo haveria consequências. Enviar seus agentes para um prédio habitado por quatro dos homens mais poderosos do planeta era suicídio; e ferir Loki significava perder uma aliança valiosa com Asgard.
Assim sendo, o plano A – que normalmente nem seria pensado – consistia em entrar discretamente, descobrir o que o trapaceiro estava aprontando e só então decidir o que fazer. O plano B – e esse seria o verdadeiro plano A – dizia respeito a coisas divertidas como helicópteros, metralhadoras e algemas.
Cruzou o lobby climatizado imaginando que seria interpelado, vistoriado e investigado pelos seguranças. Abrira a boca para cumprimenta os dois homens de terno parados na recepção quando reparou numa mulher de proporções titânicas parada ao lado da máquina de refrigerantes. O crachá a identificava com Marabel Hopkins, chefe dos enfermeiros.
Ela o encarou diretamente... com a mesma simpatia que seria dirigida a um vendedor de desentupidores.
– Procurando alguém? – perguntou asperamente.
– Vim pela vaga de oftalmologista, senhora. – e Fury ofereceu seu sorriso mais amplo, simpático e brilhante.
A mulher o ignorou, amassando a latinha de refrigerante com apenas uma mão. E ele teve a desagradável sensação de que aborrecer Marabel era pedir para ter o mesmo triste destino daquela latinha.
– Me siga. – coaxou.
Embora chocado com a absoluta indiferença dos seguranças, Fury seguiu a enfermeira prontamente. Entraram no elevador e a mulher apertou alguns botões. No cubículo silencioso a hostilidade da enfermeira era quase palpável.
"Seja amigável. Tire dessa mulher toda informação que puder", ordenou a si mesmo. Pigarreou para chamar a atenção. Estava nervoso de verdade.
– Hum... E que tipo de paciente vou atender?
– Do tipo especial, eu diria. – o nível de antipatia pareceu aumentar. – Lidar com o garoto não é difícil.
"Garoto? Estamos falando da mesma pessoa, mulher?!" exasperou-se.
– Qual o problema dele? – perguntou com estudada curiosidade.
O elevador chegou ao andar médico naquele momento, e qualquer explicação foi deixada de lado.
O ambiente asséptico, com forte aroma de pinho, produtos de limpeza e álcool deu-lhes as boas vindas. As paredes brancas refletiam a luz das lâmpadas, fazendo o lugar parecer mais espaçoso do que realmente era. À esquerda Fury avistou três portas vaivém, identificadas com pequenas placas de metal; à direita o corredor seguia polvilhado por portas cinzentas. Os quartos dos pacientes.
Para a surpresa de Fury a mulher não fez menção de levá-lo a qualquer sala. De certa maneira ele era grato. Ficar a sós com a chefe dos enfermeiros não o agradava, principalmente se houvesse apenas uma rota de fuga.
– Então você veio pela proposta d... – antes que ela começasse o discurso o celular tocou. Azeda de raiva Marabel pegou o aparelho, pronta para desligá-lo, até ver o número no visor. – Não. Saia. Daqui. – advertiu.
Pisando duro, a mulher sumiu de vista em uma das portas vaivém.
Nos primeiros milésimos de segundo sozinho Fury esperou pela emboscada, porque finalmente percebeu que as coisas estavam fáceis demais; depois de trinta segundos teve certeza que algo não estava certo, embora não fosse de todo ruim; e após um minuto inteiro decidiu que, fosse essa uma armadilha preparada por Loki ou simplesmente um conjunto bizarro de coincidências, ele tiraria o máximo proveito.
Cautelosamente caminhou para o primeiro aposento, à direita. A porta entreaberta o atraia. Empurrou-a, esperando ser interceptado a qualquer momento.
Sob a parca luminosidade, Fury identificou a maca no centro do quarto e ali, fino e maltratado, jazia o deus trapaceiro. De inicio ficou desapontado, afinal teorias de conspiração e tentativas de dominar o mundo estavam descartadas, mas logo se animou. Se o relatório estava certo e as câmeras não erraram, então existia um soro da verdade.
Espiou o corredor antes de fechar a porta. Leu o prontuário, descobrindo que há pouco Loki recebera uma nova dose do analgésico. Aproximou-se. Precisava agir rápido. Se o sistema de segurança não alertasse Stark ainda haveria a enfermeira ranzinza para pegá-lo.
– Loki? – chamou, estalando os dedos.
O asgardiano despertou. Virou o rosto ligeiramente na direção de Fury, franzindo as sobrancelhas.
– Quem é você?
A voz enrouquecida e machucada quase fez o coronel simpatizar com ele. Quase.
– Ninguém importante. – desconversou. Seu disfarce mostrando-se mais eficiente que o esperado. – Quero fazer algumas perguntas.
– Não gosto de perguntas...
– Eu não disse que você ia gostar. – retrucou impaciente. – Quais eram os planos dos Chitauri?
O deus estremeceu, olhou para a porta, e murmurou alguma coisa. Por um instante Fury achou que ele não responderia.
– Conquistar... e destruir.
– Destruir. – repetiu. Era essa a parte que lhe interessava. – Como?
– Não sei.
Saber que a resposta fora honesta não diminuiu a frustração de Fury. Seu lado teimoso recusava-se a aceitá-la.
– Como iam destruir a Terra, Loki? – insistiu.
– Não me contaram. N-não contariam. – tartamudeou aflito. – Eu tinha apenas que entregar o Tesseract.
– E então você abriu o caminho para eles. Trouxe-os para cá. – a cada palavra aumentava o tom. – Qual o tamanho dos exércitos Chitauri, Loki?
A respiração do deus engatou. Começava a suar frio.
– Muitos...
– Quantos?
– Eu não...
Fury acertou um soco no travesseiro, a poucos centímetros do rosto do deus. Não tinha intenção de realmente acertá-lo, mas Loki não precisava saber.
– Não venha me dizer que não sabe! Você esteve entre eles! Viveu com eles! Lutou ao lado deles! Acha que nasci ontem?! – ralhou. Aprumou-se e continuou numa voz calculada: – Você vai me dizer quais eram os planos dos seus amiguinhos Loki. Vai me contar cada fraqueza, cada hábito, cada detalhe... ou juro que vou fazer você desejar estar morto.
Tarde demais o coronel percebeu seu erro.
Frases desconexas escapavam e torrentes dos lábios do deus. Um idioma antigo e desconhecido. Fury podia não entender o que estava sendo dito, mas ele ouvia o terror implacável na voz, e viu o desespero irracional estampado no rosto.
Quando a histeria subiu a níveis alarmantes Loki recuou para a borda da maca, e sussurrou um nome que parecia encarnar todas as definições do diabo: Thanos.
Aquilo não fazia sentido. Loki era aliado dos Chitauri, os ajudara a invadir a Terra, foi a mão direita de Thanos. Porque reagia como... E o coração de Fury parecia ter seguido um caminho sem volta à sua garganta. Ele conhecia aquele tipo de medo, já o vira centenas de vezes ao longo da vida. Apenas não queria acreditar... as implicações eram grandes demais...
A porta do quarto abriu com um estrondo. Três Vingadores encolerizados surgiram à soleira. Atrás deles vinha Marabel, os olhos chispando com promessas assassinas.
Mas quem se assustou com a entrada repentina foi Loki. O deus praticamente se jogou de costas no chão, gritando alto quando o som de um "crack" de gelar a espinha soou no quarto. Arrastou-se penosamente para longe, as palavras antigas substituídas por grunhidos incompreensíveis.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa Fury viu-se preso contra a parede, um braço apertando-lhe a laringe. Baixou o olhar. Era Bruce Banner... e indo perigosamente verde.
– Você... se tem algum amor a sua vida saia e nunca mais volte!
O largou tão bruscamente que Fury teria caído.
Depressa a chefe dos enfermeiros prendeu o braço de Fury num aperto de ferro e o arrastou para fora. Cruzaram o corredor e entraram juntos no elevador. Ela não disse uma única palavra até as portas abrirem novamente e o empurrar para fora.
Estavam no estacionamento da Torre.
– Espero que tenha satisfeito sua curiosidade, Nick Fury. – Marabel sibilou.
Ele a encarou, chocado. Como ela podia saber? Nem Loki o vira sob o disfarce.
– Era o plano de Stark, assim você não ia colocar o prédio a baixo. – arqueou uma sobrancelha. – Você não achou realmente que Jarvis teria uma falha na segurança tão ridícula, achou?
Uma facada direta no orgulho.
Talvez ele merecesse essa.
As portas do elevador fecharam, deixando-o só no estacionamento vazio. Sentia-se estúpido por não ter desconfiado.
"Tenho coisas mais importantes com que me preocupar", dizia a si mesmo, afastando-se. Mas tudo o que conseguia pensar era no deus asgardiano balbuciando aterrorizado. "O que foi que eu fiz?"
Ж
Deixando as mãos à vista Steve se aproximou de Loki. O deus encolheu-se contra a parede, a respiração instável o fazendo engasgar. O olhar vidrado fixava o rosto do soldado sem realmente enxergá-lo.
– Tudo bem... Tudo bem... Ninguém vai machucar você. – garantiu.
A ideia de abrirem uma brecha na segurança, permitindo que Fury bisbilhotasse a Torre parecera razoável; deixá-lo entrar e ver o deus trapaceiro com os próprios olhos arrancara alguns protestos, amainados somente pela promessa de que alguém o vigiaria.
E foi aí que tudo deu errado.
Ninguém esperara que três enfermeiros caíssem no sono enquanto analisavam os vermes, nem que Marabel teria de ajudar no laboratório e muito menos que Fury se aproveitaria da oportunidade para interrogar um homem ferido.
"Vamos Rogers, você pode fazer isso", recitava. Mas não podia. Se jogassem uma granada a seus pés, ou dissessem que passaria os próximos meses em uma floresta sem mantimentos ele saberia o que fazer. Acalmar alguém estava além de suas capacidades. "Droga, Bruce, cadê você?"
Depois que Marabel saíra arrastando Fury consigo, Bruce desaparecera da sala. Precisava de tempo ou iria para verde antes de poder ajudar.
A crise de pânico estava piorando e Steve percebeu, apavorado, que ele próprio estava cedendo ao nervosismo.
– Afaste-se.
A ordem do bilionário o surpreendeu. Já vira Stark sendo o bastardo arrogante e sarcástico, e já o vira irredutível diante das decisões difíceis. Porém nunca, em todo o tempo que conviviam juntos, ouvira um tom de voz como aquele. Relutante, obedeceu.
Tony assumiu seu lugar, sentando no chão e cruzando as pernas. Parou um pouco, pensativo. Suspirou... e começou a cantarolar.
"O que?", Steve olhou para Tony, boquiaberto.
Sua admiração apenas aumentou ao ver Loki parar de balbuciar e começar a respirar um pouco mais devagar. Lentamente ele pareceu voltar a si, embora ainda confuso. Quando o deus pousou o olhar sobre Tony, e dessa vez pareceu reconhecê-lo, o bilionário se aproximou estendendo a mão.
Loki hesitou por um momento, antes de aceitar a oferta e, para a completo espanto de Steve, se lançou no peito de Tony. Os ombros sacudiam em um pranto silencioso.
Em nenhum momento Tony parou de cantar. Mesmo quando os tremores diminuíram deixando para trás um deus fatigado, ou quando Steve abaixou-se a seu lado.
Por alguns instantes Tony o encarou, antes de acenar discretamente.
"Cante você também", era o que ele queria dizer.
Steve o imitou, embora não se considerasse tão afinado. Loki ficou tenso no início, mas logo se acostumou à segunda voz. Mais alguns minutos e Tony indicou que ia levantar. Cuidadoso, Steve segurou o deus nos braços. Quase sorriu quando Loki se aninhou, sonolento.
Tony parou de cantar, apontou para a maca e depois saiu.
Passando um braço sob as pernas do deus e outro ao redor dos ombros, Steve o ergueu e levou de volta à maca. Loki estremeceu com a mudança, mas acalmou-se.
Não querendo deixá-lo sozinho arrastou a cadeira para perto e continuou a ladainha.
Loki resmungou alguma coisa. Através dos tons roucos da voz gasta o Capitão identificou algumas palavras.
O deus repetia o refrão "twinkle, twinkle little star".
Ж
Bruce se sentia terrível ao retornar à enfermaria. Por muito pouco o "outro cara" não esmagara Fury contra a parede, embora uma pequena parte do cientista desejasse que Hulk tivesse feito isso.
Encontrou o corredor estranhamente vazio e silencioso. Esperara topar com a agitação dos enfermeiros ou mesmo os gritos histéricos de Loki.
"A última coisa que ele precisa é desenvolver uma síndrome do pânico", pensou chateado. Bruce ainda tinha gravada na memória o sem número de lesões internas reveladas pelas ressonâncias, os picos de terror apenas piorariam os estragos à saúde do deus.
– Jarvis, onde estão os outros?
– Dr. Banner, o Sr. Stark solicitou que a equipe médica se mantivesse afastada até o seu retorno. – informou Jarvis. – No momento o capitão Rogers está com Loki e o Sr. Stark está revendo os vídeos de segurança.
– Obrigado, Jarvis.
Respirando fundo Bruce entrou no quarto. Deparou-se com Steve sentado ao lado da maca, cantando uma canção de ninar infantil. Grato, viu que o capitão estancara o sangramento provocado pela agulha do IV.
O loiro ergueu o olhar, indagando silenciosamente se deveria sair. Bruce meneou a cabeça. Loki estava confortável com a presença de Steve e não seria ele a afastá-los. Pegou um par de luvas e pediu à Jarvis que deixasse os enfermeiros a postos. Seu cérebro ainda ecoava o som de ossos quebrando. Não sabia o que quebrara e tinha certeza que não gostaria quando descobrisse.
Postou-se às costas de Loki e o tocou gentilmente no ombro. O deus parou de cantar o encarou. O olho bom estava irritado e ele fungou um pouco.
– Oi... – murmurou.
Bruce sorriu. Definitivamente ele devia ter deixado Hulk brincar um pouco, só um pouquinho mesmo, com o velho Fury.
– Loki, tem algum lugar que doí? – perguntou.
Ele pensou um pouco, e corou ligeiramente. Seu olhar desviou para a perna direita.
– Não sei dizer onde... – admitiu envergonhado.
– Mas é a perna direita, não? – uma leve anuência. – Certo. Me avise se doer muito, ok?
Tateou a perna, pressionando um pouco, movendo articulações, sempre atento ao menor sinal de desconforto. Chegou à altura do quadril e pressionou ligeiramente a área. Loki deu um pequeno solavanco e o olhou magoado. Bruce se desculpou. Agora entendia porque ele não conseguira definir onde doía.
– Jarvis? – chamou. – Diga para o pessoal preparar a sala de cirurgia.
Dessa vez foi Steve quem quase saltou da cadeira.
– Qual o problema?
– Fratura na pelve. Com a taxa de cura atual uma fratura dessas pode matá-lo se não for tratada... além de ser desconfortável.
– Bruce, eu não sou médico, mas ossos não quebram tão fácil. – protestou.
– Não quebram. – confirmou. Seu tom e gestos ocultavam a raiva que sentia. – Mas você está esquecendo que os ossos dele já estavam quebrados.
O rosto do Capitão ficou branco como papel. Voltou a cantarolar a música, embora um pouco mais desafinado.
Ж
Apoiando o copo vazio sobre a testa, Stark assistiu o lento derretimento dos cubos de gelo. Gostaria de ocupar a mente, mas não estava com humor para se enfiar no meio de fios e engrenagens, e duvidava que conseguisse beber o bastante.
Por dias ele evitara entrar em contato com Loki. No começo a presença do asgardiano o deixava desconfortável – "O cara me jogou da janela do meu próprio prédio, o que vocês querem?" – e com uma puta vontade de chutá-lo; depois... bem, depois evitá-lo tornou-se uma questão de manter a sanidade, porque não conseguia olhar para o deus caído sem imaginar o que lhe acontecera naqueles dois meses, ou pensar no quanto àquela punição era injusta.
Ética e moral nunca foram seu forte.
O pior era que Tony às vezes se pegava pensando nos dias mais aterrorizantes de sua vida e revia, com nitidez assombrosa, seu próprio cativeiro.
"Podia ser eu naquela maca", ah, e lá foi ele afogar a maldita melancolia num copo de uísque.
Naquela manhã, porém, as coisas saíram dos eixos, e Tony trilhou um caminho sem volta no momento em que estendeu a mão para Loki. Conhecia bem demais a escuridão que consumia a cabeça do deus para não fazer nada por ele. Era o único – e isso não era seu ego falando – capaz de interceder por Loki onde os outros falhariam miseravelmente.
As portas do elevador abriram e Steve saiu, um pouco mais pálido e menos confiante a respeito do mundo. Contemplou Tony por um longo tempo, até o bilionário se remexer na poltrona.
"Eu sei o que você quer perguntar, Capsicle, mas nem no inferno vou responder", pensou estreitando os olhos. Se você não tem boa defesa, então parta para o ataque.
– Veio chutar minhas bolas? – provocou.
– Pensei nisso. – admitiu com um sorriso leve.
Deu a volta na mesa de centro e sentou no sofá.
– Como está Rock of Ages? – perguntou antes que pudesse se conter.
– Cirurgia... – suspirou. – Tony, você sabe o que Fury perguntou para Loki?
"Sei até o que Loki respondeu", mordeu a bochecha com força. Antes de Steve chegar pedira à Jarvis que tentasse traduzir o estranho idioma que o trapaceiro usara. O AI informou orgulhosamente que o parte do dialeto tinha raízes em escandinavo antigo e então rodou o áudio da tradução. Foi assim que Tony parou ali, naquela poltrona, depois de consumir uma garrafa inteira de Dalmore.
– Eu sei o que ele perguntou. – confirmou vagamente.
– Se ele tiver perguntando sobre Asgard... – cerrou os punhos com força. Dava para ouvir as juntas estalando.
– Não. – a expressão de Steve passou da raiva para a surpresa. – Fury perguntou sobre os Chitauri.
De surpresa para confusão.
– Loki era aliado dos Chitauri.
– Não foi isso que pareceu – "nem o que ouvi", emendou. Sinceramente preferia não ter que rodar aquele áudio de novo.
Ficaram quietos por alguns instantes. Tony podia adivinhar que Steve trabalhava a informação.
– Se ele não era aliado dos Chitauri... então estava sendo coagido... – sussurrou atônito.
– Diga uma novidade. – resmungou pegando o copo que apoiara sobre a testa. – Loki era fodão, pra dizer o mínimo... então você nunca se perguntou como conseguimos capturá-lo? E aquela jaula de vidro era mamão com açúcar pra ele. Aquele blábláblá sobre quere a localização de sei lá o que nem faz sentido.
Enquanto falava Tony recordou da conversa que tivera com Loki antes do asgardiano o atirar pela janela. Quando falara "e você conseguiu irritar todos eles", o deus simplesmente retrucara "esse era o plano". De que plano ele estava falando? E essa era a pergunta certa.
O soldado levantou, andou de um lado para outro e então desistiu de acompanhar o raciocínio.
– Não sei aonde quer chegar... – desabafou.
– Eu estou dizendo, – e nisso ele olhou firmemente nos olhos de Steve – que ele queria ser capturado e colocado para fora da jogada. Nós éramos a chance dele sair dessa. Nós éramos sua missão de resgate. Ele nunca foi aliado dos Chitauri.
O gelo no copo estalou.
No silêncio absoluto que tomou a sala, a voz de Steve era pouco mais que um sussurro:
– E nós falhamos.
