The Collector.
(O Colecionador)
Helena Darkhölme.
10
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Era o início da noite em Tóquio e Reaper encontrava-se parado no meio do quarto do hotel. Ele sentia o sangue ferver a medida em que apertava as palmas das mãos com as unhas. Estava de cabeça baixa tentando se acalmar com uma respiração quase controlada, esforçava-se ao máximo em ser racional em seu acesso de raiva - pelo menos daquela vez. Havia muita coisa para perder se ele resolvesse agir de modo imprudente.
Era certo que ainda se encontrava consumido por aquelas estranhas sensações obtidas no dojo Granger. O arrepio na espinha não foi tão ruim quanto a sensação de frio que se instalou em seu estômago. O seu autocontrole foi posto a prova naquele dia e as horas que passou com aquele grupo foram tortuosas. Afinal, ele não poderia sair sem qualquer desculpa, se agisse dessa forma iria levantar suspeitas (mais do que já levantou, provável).
Embora faltasse pouco para começar a derrubar cada um, ele tinha coisas pendentes a resolver com Hilary e Kenny. E não podia permitir a máscara cair logo agora, depois de tanto trabalho e esforço. Pensar que fora visto na "cena do crime" fazia se aproximar do descontrole. Ele não aceitava o fato - ou não acreditava - que tinha cometido um erro. Era algo inadmissível em sua carreira como colecionador até mesmo em sua vida pessoal. E via a palavra "fracasso" piscar várias vezes no interior da mente.
Apesar disso, cada palavra dita por Hiwatari ecoava freneticamente em seu cérebro impedindo que tivesse um pensamento coordenado. A voz do russo o atormentava toda vez que repetia a frase:
"Ian foi o único que viu o atacante."
Se estava desesperado agora? Quase...
Mas estava disposto a fazer uma pequena visita a Ian.
Andou rapidamente até o outro aposento, resistindo à vontade de destruir o quarto. Talvez mais alguém o viu quando resolveu visitar Ivanov, levando chocolates e encantando algumas enfermeiras pelos corredores o qual passava. O que é mais uma, duas ou vinte pessoas que supostamente o reconheceram? Bem, de certa maneira ou de outra, ele precisava pagar a conta do hospital e se certificar que tudo tinha ocorrido bem.
O que, somente agora, Reaper percebeu que não era verdade. As coisas não estavam bem e provável que não ficariam.
Naquele ponto, quando finalmente percebeu que nada o que faria mudava os fatos, esperava que Ian o tivesse visto, de verdade. Assim seu rosto iria atormentar as noites mal dormidas e sempre causar um "estado de alerta". Ele seria um fantasma o atormentando até por um fim naquela situação.
-Ian cometeu um terrível engano...- sussurrou para si mesmo enquanto tentava montar um plano para reverter as consequências dessa situação. Ele iria receber um tratamento "VIP" de Reaper. E todos iriam acreditar que Ian tentou se suicidar embriagado na tristeza, sendo hospitalizado ao lado do querido amigo ruivinho.
Pegou o casaco e dele tirou o celular do bolso. Estava disposto a ligar para o aeroporto e marcar um voo de emergência para a Rússia e pagaria o que fosse necessário. Uma visita não seria nada mal e ele apostava que Ian adoraria recebê-lo como convidado especial em sua residência.
Então sua voz com um pouco de racionalidade soou dentro da mente: "Vamos lá" ele dizia para si mesmo "Você precisa continuar com esse teatrinho".
Soltou um suspiro cansado. Não havia muito o que fazer mesmo a não ser imaginar outros planos.
Mansão Hiwatari.
Era de madrugada e a mansão deveria estar silenciosa, mas a voz de Kai Hiwatari ecoava pelo lugar concebendo-a um aspecto mais aterrorizante. Ele falava ao telefone enquanto caminhava pelos corredores vazios até encontrar seu quarto. Abriu a porta e tratou de apalpar a parede em busca do interruptor até que conseguiu acender as luzes. Seus olhos arderam ao entrar em contato com a luz que iluminou cada pedaço obscuro do aposento.
A voz de Ian soava desesperadora do outro lado da linha e o russo não dava à devida importância por envolver os "velhos tempos".
-Sim, eu tenho essa foto.- afirmou calmamente e sem qualquer emoção.
E foi atrás dessa lembrança quando ouviu pela décima quinta vez o implorar por isso.
Kai sentia-se entediado e conversar com Ian não era uma das melhores diversões. No fundo, ainda encontrava-se abatido com o acidente relativo ao Tala – e não por menos, preocupado com o amigo. Ele dedicou a tarde com telefonemas para o hospital além de ameaçar alguns médicos e afins. A princípio, esse comportamento não era típico dele, ele nunca foi de mostrar preocupação com alguém além de si próprio, mas era fato que Kai Hiwatari amoleceu com os anos de companheirismo (obrigatório no começo). Ele não era mais feito de pedra e era capaz de se simpatizar com alguém que não esteja relacionado a sentimentos de vingança e ódio.
Prendeu o telefone entre o ombro e a cabeça enquanto procurava a velha foto enfiada no fim da gaveta do guarda-roupa. Algumas lembranças estavam enterradas há tanto tempo que um desconforto bateu em seu peito. Talvez fosse perigoso desenterrar partes do passado e perturbar os mortos, atormentar mais sua mente levemente danificada.
Ele alcançou a foto e a aproximou do rosto, vendo sua antiga equipe de beyblade enquanto estava acomodado na Biovolt - o que nunca foi a melhor coisa que aconteceu em sua vida. Apesar disso, o grupo formado não passava de dez garotos reunidos com olhares perdidos e sorrisos quebrados, com a infância despedaçada e todos com ânsia de poder. Kai balançou a cabeça cortando aquelas memórias melancólicas quando começou o jogo de imagens da abadia e seus corredores infestados de escuridão.
Às vezes ele gostaria de apenas esquecer esse incidente que o levou a anos de tristeza e abandono, afastado das pessoas que acreditava amá-lo e o forçando a ficar nas mãos de sádicos soldados.
Suspirou em seu momento privado cheio de dor.
-Diga.-ele sussurrou sem parar de olhar para a foto.
-O garoto ao lado do Tala. Aquele com a cicatriz no olho direito.- Ian disse baixinho, sua voz possuía rastros de medo.
Então Kai o imaginou escondido debaixo da pia do banheiro enquanto fazia aquela ligação. Não era novidade que Ian era um medroso.
Os olhos percorreram toda a foto até parar ao ver o garoto sério de braços cruzados, com o uniforme rasgado e a sua numeração. Uma feia cicatriz percorria o seu rosto do alto da testa até um pouco antes do olho direito. Se deixasse o cabelo crescer o suficiente, poderia escondê-la com uma franja ou aplicar alguma substância para cobri-la.
(Nesse momento, talvez Tyson não parecesse tão implicante e paranoico com o cabelo do Reaper).
E Kai lembrou que aquele garoto em especial era considerado o pior do grupo. Esse fato não se referia a questões de luta ou de sobrevivência, até mesmo porque Boris teria dado um jeito se fosse o caso. O garoto se igualava a maioria e as habilidades não se demonstravam em serem surpreendentes, era fato que Kai já o tinha derrotado algumas vezes. Era considerado o pior por ter estranhas atitudes quando estava reunido com mais de três pessoas numa mesma sala ou quando era deixado solto sem supervisão.
-E daí?- não concebeu muita importância àquela informação. Quebrou o olhar e caminhou até a outra ponta do quarto. Estava cansado e tudo que precisava era apenas uma noite tranquila sem ter alguém desesperado no telefone com ataques de pânico.
-Foi ele quem fez isso.- aquelas palavras de Ian soaram como se fosse o obvio. Sem rastros de confusão ou indecisão, elas eram concretas como cimento, eram precisas embora que tremessem. Ele tinha certeza do que viu, não era um adolescente culpando qualquer pessoa para conquistar atenção, ele viu aquele sorriso psicopata e pensou que já o tinha esquecido. Aquele sorriso que o atormentaria por noites...
Ele tinha certeza de quem era.
-Ian, não pode ser ele. - o repreendeu com uma voz quase que furiosa se não fosse pelo cansaço. Conteve-se para não atirar o telefone na parede como na tarde passada. Ele não estava disposto para tolerar suas brincadeiras infames, ainda mais com o estado de humor atual.
Antes que Ian pudesse lamentar ou murmurar qualquer coisa, Kai desligou o telefone. Apoiou-se na parede e descansou a cabeça no ombro, soltando um suspiro profundo. Apesar dessa "loucura" toda e uma nova ameaça - caso poderia chamar-lo disso- ele sabia que não podia ser aquele garoto. Na verdade ele tinha certeza, pois o menino da cicatriz – Samael - morreu.
