A OUTRA FACE DO DESTINO
Capítulo 10
- Onde... onde estou? – perguntou o jovem, abrindo lentamente seus resplandecentes olhos azuis.
- Oi, Hyoga... como você está, amigo?
Os olhos azuis abriram-se por completo ao escutar aquela voz:
- Isaac? O que... o que está fazendo aqui? – e, olhando ao seu redor, demonstrou-se ainda mais perdido ao perceber que estava de volta ao seu quarto de hotel – E como eu vim parar aqui?
- Calma, Hyoga... Calma. Você está precisando descansar. – falava o finlandês, com a voz baixa e bastante terna.
- Eu não estou precisando descansar! – respondeu Hyoga, levantando-se da cama com impetuosidade – Onde está o Ikki?
- O... Ikki? – perguntou Isaac, com inocência – Bom, eu não sei... e, de qualquer jeito, não é com ele que você precisa se preocupar agora...
- Não me venha com aquela história de que devo me preocupar com Shun! – replicou o loiro, desvencilhando-se dos braços do rapaz de cabelos esverdeados, que tentava fazer com que ele voltasse para a cama. – Ele já está bem melhor! Onde está o Ikki?
- Sim, eu sei; Shun está melhor. Não é dele que eu estava falando quando disse que você tinha de se preocupar com outra pessoa agora...
Hyoga parou por completo ao ouvir aquelas palavras. Pelo tom grave utilizado por Isaac, algo sério tinha acontecido:
- Quem... Com quem devo me preocupar, então? – inquiriu, temeroso do que poderia ouvir.
- Com você mesmo, Hyoga. Acabou de sofrer um desmaio e, com certeza, ainda não está bem.
- Eu... desmaiei? – perguntou o russo, confuso.
- Sim, desmaiou. Mas antes de apagar por completo, você conseguiu me dizer que não queria ser levado para o hospital. Como eu percebi que não era nada sério, resolvi fazer o que me pediu e o trouxe aqui para o hotel.
- Mas... no lugar em que você me encontrou... naquele galpão abandonado... Ikki também não estava lá? – perguntou Hyoga, menos agressivo e mais interessado nas respostas que o outro poderia lhe oferecer.
- Galpão abandonado? – indagou Isaac, muito sério – Do que está falando?
- Como assim, do que eu estou falando? – Hyoga voltava a se irritar – Do galpão abandonado onde você me encontrou, Isaac! Escuta, é melhor parar com esses rodeios, porque eu não estou com paciência agora, está bem?
- Hyoga... – começou a dizer o outro, encarando firmemente aqueles olhos azuis tão claros – Eu realmente não sei do que está falando. Você desmaiou em frente ao hospital, não está lembrado?
- Em frente ao hospital? Claro que não! Eu me lembro muito bem do que aconteceu em frente ao hospital, Isaac! Eu queria ir atrás do Ikki e você tentou me impedir!
- Olha, Hyoga... eu juro que não sei do que você está falando...
- Como não sabe? Tivemos uma briga feia e... – ao recordar-se desse fato, Hyoga teve um estalo – Ah, já entendi... está querendo me confundir, não é isso?
- Confundir você? Ora, Hyoga... por que eu faria isso?
- Sinceramente, não sei. Mas é só o que você tem feito nos últimos tempos...
- Por favor, amigo... pensei que já tivéssemos deixado isso para trás.
- Não me chame de amigo! – falou, bastante revoltado – Você perdeu o direito de me chamar assim depois do que aconteceu. E agora eu vou perguntar pela última vez: Onde está o Ikki?
- Caramba, Hyoga! Eu já disse que não sei e...
De repente, o celular de Isaac ressoou pelo quarto, obrigando o finlandês a interromper a discussão:
- Alô. Oi, Camus, pode falar... Sei... Verdade? Puxa, isso é ótimo... Sim, ele acabou de acordar... Está bem; já estamos indo aí.
- O que ele queria? – perguntou o loiro, com alguma rispidez.
- Dar boas notícias. – respondeu enquanto colocava o celular em seu bolso – Shun acabou de acordar.
- Sério? – e finalmente um sorriso despontou no rosto do rapaz russo – Mas... que horas são?
- Já passam de dez da noite. Você dormiu o dia inteiro.
- O quê? – e a angústia voltou a lhe dominar – Como... como isso pode ser possível?
- Hyoga, você não estava bem nos últimos dias... e ontem foi um dia estressante... você não comeu direito; não dormiu direito. Aí, para completar esse quadro, você tem uma discussão daquelas com o Camus logo pela manhã. Não é de se espantar que você tenha tido um colapso nervoso.
- Espera um pouco... está querendo me dizer que eu sofri um desmaio logo depois da discussão com o Camus?
- Sim; você discutiu com ele, ficou bastante alterado... Fui atrás de você porque estava preocupado e, lá fora, você ainda tentou me mandar embora... mas estava tão fraco que acabou... desfalecendo nos meus braços. – respondeu o rapaz finlandês, parecendo muito sincero.
- Está querendo me convencer de que eu sonhei tudo o que aconteceu? Que nada do que vivi depois da briga com Camus foi verdade? – falou Hyoga, com a voz fria e cortante.
- Bem, eu só estou dizendo que você desmaiou e ficou desacordado o resto do dia. O restante, você pode concluir por conta própria.
- Ah, Isaac... – disse o russo, balançando a cabeça negativamente – E eu achava que não poderia me decepcionar mais com você. Não acredito que seja capaz de jogar tão baixo... – e, dizendo isso, pegou a jaqueta preta sobre uma cadeira e vestiu-a, demonstrando que estava de saída.
- Aonde está indo? – perguntou o outro com a voz um pouco alterada.
- Estou indo atrás do Ikki. Preciso saber se ele está bem.
- Mas... mas... – um certo nervosismo tomava conta de Isaac – Camus acabou de ligar, esqueceu? E ele pediu que fôssemos ao hospital agora! Shun acordou e quer muito nos ver! Ou melhor, ele quer muito ver você.
Hyoga parou a dois passos da porta. Isaac ficou olhando ansioso para aquela figura que permanecia ali estática, pensativa. Finalmente, ele disse:
- Está bem. Eu vou para o hospital. Mas depois, vou atrás do Ikki.
- Certo, certo. Como você quiser. – pegou as chaves do carro e, sem trocarem mais qualquer palavra, deixaram o quarto.
- Ah! Aí estão vocês! – falou Camus, dirigindo-se aos seus dois pupilos.
Hyoga percebeu que seu mestre o olhava atentamente, demonstrando certa preocupação, provavelmente por conta de seu estado. Entretanto, o loiro estava ainda muito magoado com Camus, não só pela discussão que tivera com ele mais cedo, mas também por conta da conversa que tiveram em seu quarto a respeito do beijo que Shun lhe dera antes da sua festa de aniversário; além do fato de Camus ter chamado Isaac para resolver problemas que diziam respeito apenas a ele mesmo. Hyoga, de fato, estava já bastante cansado de sentir que o aquariano se intrometia demais em sua vida. Assim, buscou ignorar o olhar com que Camus lhe rogava um pouco de sua atenção.
- Viemos o mais rápido que pudemos. – respondeu Isaac.
- Hyoga... Você está bem? – perguntou Camus, tentando estabelecer algum contato com o loiro.
- Estou. – disse o rapaz, com impessoalidade.
- Que bom. – continuou Camus, esforçando-se para conseguir conversar com Hyoga – Porque Isaac havia nos avisado que você passou mal pela manhã e que ele teve de levá-lo de volta ao hotel... Eu quis ir até lá, mas Isaac falou que era desnecessário, que você estava bem, que era melhor continuar aqui no hospital...
- Pois é. Fez bem. – respondeu Hyoga, com monossílabos.
Camus compreendeu que não adiantava forçar a situação: Hyoga não estava interessado em conversar com ele. Era-lhe doloroso ver seu pupilo agir de forma tão fria com ele, mas não poderia reverter essa situação nesse momento.
- Hyoga! – e uma voz tirou a todos daquela constrangedora situação que havia se formado.
- Milo! – falou o loiro, com um bonito sorriso que surgiu em seu rosto ao ver o escorpiano adentrando a sala de espera.
- E aí, garoto? Como você está? Fiquei sabendo que passou mal... – perguntou preocupado.
- Não se preocupe; não foi nada sério. – disse Hyoga, ainda sorrindo – Onde você estava?
- Eu estava lá dentro, com o Shun. Aliás, ele não pára de perguntar por você. Quer ir vê-lo agora?
- Claro! – e retirou-se com Milo, sem dar mais qualquer atenção a Isaac ou Camus, que também foram ignorados pelo cavaleiro de Escorpião.
- E eu não parava de repetir que você era mais forte do que tudo isso! Eu sempre soube que você conseguiria se recuperar mais rápido do que o esperado. – falava Seiya, muito alegre, a um lado da cabeceira da cama de Shun.
- Na verdade, Seiya... a maior parte do pensamento positivo não vinha de você. – sorriu Saori, do outro lado da cabeceira – Se não fosse pelo Shiryu, você estaria todo tristonho até agora...
Shiryu, que estava calado, sorriu discretamente. O Dragão estava sentado em um canto do quarto, apenas observando tudo o que se passava. Depois de ter ouvido a estranha conversa entre Hyoga e Isaac naquela manhã, havia ficado preocupado. Tinha cogitado a possibilidade de conversar a respeito com Camus ou Milo, mas a idéia não pareceu boa quando ele entendeu que, após a acalorada discussão de Hyoga com seu mestre, os dois cavaleiros de ouro ficaram muito nervosos. E, pensando melhor, Shiryu não sabia se adiantaria falar algo para os dois. Afinal, após assistir à briga de Hyoga com Isaac, o rapaz de longos cabelos negros tinha se revoltado com a postura adotada pelo finlandês, e achava que não seria de muita serventia falar a respeito desse assunto com Camus ou Milo naquele momento, pois para Shiryu, o jovem de cabelos esverdeados era tão querido por eles quanto Hyoga. "Quando eles estiverem mais calmos, eu converso com eles. Só com a cabeça fria, eles vão ser capazes de ouvir o que tenho a dizer".
Contudo, a manhã foi passando, e os dois cavaleiros dourados não pareciam se acalmar. Pelo contrário, a situação parecia piorar a cada minuto. Eles já não conseguiam mais ficar em um mesmo cômodo por muito tempo, não se falavam, mal se olhavam. E, quando chegou a notícia de que Hyoga passara mal, tudo pareceu piorar de vez. Foi então que Shiryu, receoso de que não conseguiria falar com aqueles dois ainda nesse dia, resolveu buscar algum conselho com Saori que, na condição de Athena, poderia ter algo a dizer, ou até mesmo apontar alguma solução.
Qual não foi sua surpresa então quando, após relatar todo o incidente, Saori disse apenas que ele se mantivesse à parte disso tudo:
- Me manter à parte? Você realmente acha que eu não devo fazer nada? – perguntou o rapaz, admirado com o que a deusa lhe disse.
- Sim. Não acho que você deva fazer algo porque são assuntos muito particulares, Shiryu. – falou a moça, calmamente, enquanto folheava uma revista.
- Mas Hyoga é nosso amigo! E esse Isaac não é alguém que mereça nossa confiança, nem nosso respeito! Ele chantageou o Hyoga, Saori. Eu... eu não posso ficar sem fazer alguma coisa. Não depois do que vi.
- Shiryu, eles precisam se entender por conta própria. Escute o que estou dizendo, por favor: é melhor não se intrometer. – falou a jovem, agora voltando seus olhos para o preocupado cavaleiro de Dragão.
- Não, Saori. Eu vi o que aquele ex-marina é capaz de fazer. Hyoga não está bem e... esse Isaac é capaz de usar a fraqueza do nosso amigo para tirar proveito da situação. Eles não vão conseguir resolver a situação por conta própria simplesmente porque eles não estão em igualdade de condições para fazê-lo. Hyoga está precisando de minha ajuda e eu não vou abandonar um amigo quando ele necessita de mim. – respondeu o rapaz chinês, que já havia decidido fazer algo a respeito.
- Shiryu. – a voz de Saori agora era firme – Não faça nada. Você não entende; mas há coisas que precisam ser resolvidas sem a nossa interferência. Pode parecer cruel, porém eu preciso que acredite... é o melhor a se fazer.
O rapaz fitou a jovem com seus olhos verdes... e compreendeu que havia ali muito mais do que parecia ser. O que a deusa lhe disse não era apenas um comentário... soava muito mais como um alerta. Saori o encarava de volta, muito séria... estava esperando por uma resposta dele:
- Está bem. Não vou fazer nada.
- Ótimo. – e a garota sorriu com doçura. Voltou a folhear desinteressadamente a revista que tinha em mãos enquanto o Dragão levantava-se da mesa em que estavam e se retirava da lanchonete do hospital.
"Não vou fazer nada... enquanto eu não descobrir o que posso fazer", pensou o cavaleiro. Depois dessa estranha conversa com Saori, Shiryu percebeu que tinha de ser cauteloso. Havia algo acontecendo e ele não poderia tomar atitudes precipitadas. Era preciso investigar o que se passava e ver qual seria a melhor forma de agir. Por isso, durante o resto dia, ficou observando atentamente a tudo o que acontecia...
- Ei, Shiryu... – falou Shun, tentando esboçar um sorriso – Obrigado por animar o Seiya...
- Imagine, Shun... – respondeu o rapaz, com um sorriso de volta – Eu não fiz nada de mais, só estava...
Nesse momento, a conversa foi interrompida por Milo e Hyoga, que entravam no quarto. Ao ver Hyoga aparecer, Shun até ergueu seu corpo um pouco para poder enxergar o outro melhor:
- Hyoga! Que... que bom ver você! – falou o mais jovem, demonstrando mais emoção do que poderia, devido ao seu estado ainda fragilizado.
- Eu que fico feliz em ver você, Shun... – disse o rapaz loiro, aproximando-se da cama – Não imagina o quanto fiquei preocupado...
O rosto do cavaleiro de Andrômeda se iluminou com um sorriso.
- Mas... por favor, você tem que me prometer que nunca mais fará isso de novo. Prometa que nunca mais vai se arriscar desse modo, Shun. Eu ficaria arrasado se algo acontecesse com você.
Os olhos de Shun brilharam como duas esmeraldas fulgurantes. Ouvir de Hyoga que ele se preocupava, que sentia sua falta, fazia com que ele se sentisse mais vivo do que nunca.
- Eu prometo, Hyoga. Vou ser bem mais cuidadoso, pode deixar.
- E você, Hyoga? Como está? – perguntou Seiya.
Nesse momento, Shiryu e Saori olharam para Seiya de forma a reprová-lo pelo seu comentário. Camus e Isaac, que entraram pouco depois de Milo e Hyoga no quarto, entreolharam-se sem saber como reagir. Shun percebeu o estado em que todos ficaram e preocupou-se. Ia dizer algo quando Hyoga o interrompeu, respondendo à pergunta com um sorriso:
- Estou muito bem, Seiya. – e voltando a olhar para o mais jovem – Fique tranqüilo Shun; é que eu estava realmente muito preocupado com você e isso deixou todos exageradamente apreensivos... mas agora já está tudo bem.
Por causa da segurança como Hyoga respondeu ao cavaleiro de Pégasus, Shun aceitou com facilidade o que o loiro lhe dizia. Os outros, então, suspiraram aliviados de forma discreta. Todos estavam a par da situação de Hyoga porque Isaac havia ligado no começo da tarde para avisar do ocorrido. Mas, pelo bom senso, ninguém havia falado a respeito disso com Shun, pois o jovem Amamiya deveria ser poupado de tudo que pudesse desgastá-lo, física ou emocionalmente.
- Bom... de todo jeito, o alvo de todas as nossas preocupações agora é você; então é de você que temos de falar. Como está se sentindo? – perguntou-lhe Hyoga.
- Estou muito bem... os médicos disseram que estou forte; eles estão assustados com a minha recuperação tão rápida... – riu Shun.
- É, eu fiquei sabendo... Eles já haviam me falado isso, mas eu queria ter a certeza. E... agora que já me assegurei de que você está bem, eu... preciso ir embora. Tenho um assunto muito importante para resolver...
Ao ouvir essa frase de Hyoga, Isaac bufou, demonstrando seu descontentamento com o que o russo queria fazer.
Camus tencionou dizer alguma coisa, mas foi impedido por Milo que, com um simples gesto e um olhar sério demonstrou que aquela não era a hora adequada para dar sua opinião. E Camus, que não estava gostando de sentir-se ignorado por Hyoga, resolveu aceitar o silencioso conselho que o outro lhe estava dando. Além disso, gostou de encontrar o olhar de Milo, encarando-o. Durante todo o dia evitaram-se e o aquariano já estava sentindo falta daqueles olhos...
- Ir embora? Mas já? – falou Shun, em um tom manhoso.
- É, eu tenho que resolver uma coisa muito importante...
- Mas... não pode esperar? – insistiu o jovem Amamiya – É que... eu queria muito que você ficasse, Hyoga. Aliás, não só você, mas todas as pessoas que eu considero importantes para mim.
- Por isso mesmo, Shun. – emendou o Cisne – Eu também acho que você deve ficar rodeado pelas pessoas que o amam. E por esse motivo é que eu tenho de sair agora; preciso ir atrás do...
- Ikki! – interrompeu Shun, contente, ao ver seu irmão entrar no quarto nesse instante – Mas como você demorou!
Hyoga voltou-se rápido para onde Shun olhava. Piscou os olhos rápido, muitas vezes, como se não estivesse acreditando no que via. Era... Ikki! E estava... ali?
- Desculpe, Shun. – respondeu o moreno, que entrava sem fazer questão de cumprimentar ninguém, especialmente Hyoga – Foi difícil encontrar um café decente por aqui. – disse, enquanto erguia um copo de café em sua mão – E eu estava precisando muito disso.
- Não conseguiu dormir direito, irmão? – perguntou Shun, os olhos demonstrando um pouco de culpa. O jovem cavaleiro sabia que quando Ikki não estava bem descansado, tornava-se um verdadeiro dependente da cafeína.
- Não precisa se preocupar com isso. Garanto que estou melhor que você; então é com você que a gente vai se preocupar, está bem? – respondeu o mais velho, direcionando um olhar carinhoso para o caçula.
O rapaz loiro parecia assombrado com o que via. Não esperava que Ikki aparecesse dessa forma. Mais; ele não esperava que isso ocorresse justamente quando ele tinha a certeza de que algo havia acontecido a ele. E agora, lá estava o moreno, agindo como se nada tivesse ocorrido. A surpresa em seu rosto era mesclada a uma expressão de indignação, como se parecesse haver um complô contra ele, o qual estivesse tentando convencê-lo de que todos os seus instintos estavam errados.
Milo, que percebeu o estado em que Hyoga ficara, falou para este, em voz baixa:
- Ikki apareceu aqui no hospital no começo da tarde. Foi pouco depois de Isaac ligar avisando que você tinha passado mal.
Hyoga olhou para o cavaleiro de Escorpião tendo verdadeira dificuldade em acreditar no que o outro lhe dizia. Como isso podia ser possível? Não; o loiro tinha certeza de que não podia ser assim tão simples! Algo tinha acontecido, algo precisava ter acontecido, não poderia ter sido apenas um sonho...
- Hyoga acabou de chegar, irmão. – falou Shun, tentando fazer com que este o cumprimentasse. Shun não era tão ingênuo; conhecia o temperamente de Ikki e imaginava que este estivesse culpando o cavaleiro de Cisne pelo acidente sofrido por ele. E o mais jovem chegara a essa conclusão porque, além do fato de Ikki e Hyoga não se darem muito bem normalmente, o modo como o Fênix fora frio com o loiro ao entrar no quarto demonstrava que havia uma certa tensão entre aquele dois.
Ikki, então, finalmente direcionou seu olhar cansado e sem brilho para o rapaz russo e percebeu aqueles olhos azuis intensos sobre ele. Hyoga olhava para Ikki como se esperasse que, com apenas um olhar, o Fênix pudesse responder a todas as suas dúvidas... e, talvez, o moreno realmente pudesse. Por isso mesmo, Ikki se viu impelido a desviar sua atenção do loiro, levando o copo de café à boca, quebrando aquele contato visual.
Com essa atitude, Ikki parecia ignorar o pedido de Shun que, entristecido, baixou a cabeça. Não havia nada que o chateasse tanto quanto ver seu irmão e seu melhor amigo, que por sinal, era a pessoa que amava, não conseguirem se dar bem.
Percebendo que o moreno não lhe daria respostas e que, na verdade, ele estava contribuindo para confundi-lo ainda mais, Hyoga sentiu-se desnorteado. Olhou para todas as pessoas que estavam ali, ao seu redor, e tinha a impressão de que tudo aquilo era irreal. Não conseguia ordenar seus pensamentos e começava a sentir-se sufocado. Precisava sair daquele quarto.
Sem dizer nada, Hyoga apenas passou rapidamente por todos que estavam no caminho que o levava à porta. A forma alvoroçada como deixou o recinto chamou a atenção de todos, que permaneceram em silêncio por não saber o que dizer. Isaac olhou para Camus que entendeu o que o pupilo lhe dizia e assentiu com a cabeça. O finlandês então deixou o quarto atrás do russo e Milo encarou Camus como quem não concordasse com aquilo, mas, dessa vez, o aquariano preferiu ignorar aqueles olhos que o reprovavam.
Fora do quarto, Isaac encontrou Hyoga encostado contra a parede do corredor, a cabeça pendida para trás. Sua aflição era mais que visível; ela chegava a ser palpável. O rapaz passou a mão pelas madeixas verdes, como quem deseja conversar, mas não sabe como começar. Hyoga estava com os olhos fechados, mas pôde sentir a presença do outro a seu lado:
- Eu sei o que está querendo dizer.
- Sabe? – disse, franzindo o cenho - Porque nem eu sei o que dizer... Estou preocupado com você, Hyoga. Porque está agindo assim? O que você tem? – e a voz do finlandês demonstrava uma genuína preocupação - Você estava preocupado com o Fênix, mas agora viu que ele está bem. Por que então parece ainda mais nervoso que antes?
- Você não tem como entender. Ninguém tem como entender...
Nesse momento, Ikki saiu também do quarto. Ao ver o moreno aparecendo no corredor, Hyoga aumentou a voz, com o intuito de se fazer ouvir pelo cavaleiro de Fênix:
- ... A única pessoa que poderia entender algo parece preferir se esconder de mim. – Hyoga já não sabia mais como agir e tentava dar vazão a palavras que oprimiam seu coração, preferencialmente direcionando-as a quem ele precisava que as ouvisse.
Ikki ouviu as palavras de Hyoga e não as ignorou. Caminhou até onde estavam os dois pupilos de Camus, fazendo Isaac posicionar-se ofensivamente, como se com esse gesto fizesse Ikki mudar de idéia ou pensar duas vezes antes de fazer o que quer que fosse. Entretanto, essa atitude não pareceu amedrontar o protegido pela constelação de Fênix, que continuou a caminhar com os olhos fixos em Hyoga, que sentiu a respiração falhar por ver aquele homem andar até ele com tanta certeza. Será que Ikki tinha algo a dizer a ele? E será que o que ele tinha a dizer era o que ele precisava ouvir...?
- Da próxima vez, Pato... – começou a dizer, com a voz muito séria – Eu gostaria que tivesse mais consideração pelo meu irmão.
- O... quê? – perguntou Hyoga, que esperava por algo muito diferente desse comentário.
- Não quero que essa cena se repita, está me ouvindo? – disse, agora com a voz bastante ríspida – Shun está muito fragilizado. Seria interessante que você pudesse, ao menos, fingir se preocupar com ele. Se você está com algum problema, não precisa ficar mostrando isso para todo mundo.
- Então você sabe que estou com algum problema? – indagou Hyoga, buscando ouvir aquilo que ele acreditava ser a verdade.
- Não precisa ser um gênio para perceber isso. – respondeu o outro, sem alterar seu tom de voz. E, como quem já tivesse dado seu recado, Ikki começou a se virar para sair dali, quando sentiu Hyoga segurá-lo pelo braço. O toque do outro fez com que um arrepio percorresse todo seu corpo:
- Espera um pouco. - disse o loiro.
Ikki encarou Hyoga com olhos firmes. E o russo, em vez de se intimidar, sentiu-se ainda mais encorajado. Não iria ficar tentando adivinhar o que estava se passando; decidiu que iria tirar as coisas a limpo. E ia fazer isso agora:
- O que é que está acontecendo aqui afinal?
O moreno continuava a olhar para Hyoga, sem desviar os olhos. Conseguiu enxergar ali algum desespero por trás da força que o Cisne tentava demonstrar em seus olhos. Isaac observava a tudo aquilo calado e bastante apreensivo.
- Você... não se lembra do que aconteceu hoje de manhã? Não se lembra...?
Ikki apenas encarava Hyoga. Percebia-se que ele o estava ouvindo, mas seu rosto não esboçava qualquer reação.
- Não se lembra Ikki...? Do galpão abandonado? Eu fui até lá; eu encontrei você lá...! E então, nós... não... não foi? – a voz de Hyoga já não vinha mais revestida de certeza, e o que havia agora era uma pergunta, um apelo, um desejo de que o outro lhe confirmasse aquilo no que ele queria acreditar. O jovem Cisne já não conseguia mais saber o que pensar, o modo como Ikki lhe olhava de volta fazia com que ele começasse a duvidar de suas certezas; mas ele ainda não queria desistir, precisava tentar fazer o outro dizer que se lembrava, que aquilo havia acontecido, porque, do contrário... Hyoga não saberia mais dizer o que era verdade e o que poderia ter sido, de fato... só um sonho.
Apenas silêncio da outra parte. O moreno continuava impassível. Nada dizia; sequer reagia ao que lhe era dito. Lágrimas furtivas começaram a brotar dos olhos azuis da cor do céu...
- Olha, Hyoga... – disse Ikki, após um silêncio que parecia interminável – Eu acho que você está mesmo com problemas. – e seu rosto ganhou aquela expressão de escárnio, que Hyoga já vira tantas vezes no rosto do moreno – Eu não sei do que você está falando; aliás, você está ouvindo o que está dizendo? Não percebe que não faz sentido algum? Galpão abandonado? De onde você tira essas coisas, Pato? – e tentou esboçar um sorriso de troça, que não conseguiu realizar, saindo apenas um meio sorriso que não convencia ninguém.
- Eu não estou inventando nada, eu... eu tenho certeza de que... de que... você e eu... nós estivemos lá essa manhã... – os olhos suplicavam para que Ikki lhe confirmasse o que tinha se passado.
- Hyoga, até onde eu sei, você passou o dia no hotel com Isaac. Você teve que ficar lá porque não estava bem. E eu não agüentei ficar ontem no hospital então resolvi sair para ficar dirigindo por aí a noite toda. Passei a noite no meu carro e, por sinal, dormi mal para caramba por conta disso. Quando acordei, já era mais de meio-dia. Vim para cá e foi isso o que aconteceu. Nada de galpão abandonado nem idiotice alguma desse tipo. – respondeu, com rudeza.
Isaac adiantou-se para Ikki, com firmeza. E, com alguma imponência, disse-lhe:
- Não fale assim com ele, Fênix. – disse seriamente, mas depois abriu um discreto sorriso para que apenas Ikki pudesse ver, uma vez que Hyoga estava com a cabeça baixa, perdido em seus próprios pensamentos. O moreno entendeu o recado:
- Eu falo como eu quiser. Pouco me importa o que esteja se passando com ele. Não estou com tempo nem paciência para as crises existenciais que ele vive tendo. – e, voltando a dirigir-se a Hyoga – Entendeu, Pato? Pára de me aborrecer com seus probleminhas. Caso não tenha percebido ainda, meu irmão está precisando de mim. Então, me deixa em paz e vai cuidar da sua vida, de preferência sem atrapalhar os outros, porque eu tenho coisas mais importantes para fazer. – a voz cansada de Ikki deixava tudo o que ele dizia recoberto de uma sinceridade que aparentava ser muito verdadeira. Isso desconcertou Hyoga.
O russo ergueu os olhos, com alguma dificuldade, para encontrar o olhar duro de Ikki. Não parecia ser capaz de dizer mais nada; a forma tão áspera quanto Ikki falou com ele o desencorajava por completo a fazer qualquer coisa. Mesmo assim, o moreno apressou-se para falar, como se tivesse de dizer logo ou não conseguiria terminar o que tinha de fazer:
- E se está com tantos problemas, recomendo que procure ajuda. Você é uma pessoa emocionalmente instável e... – nesse instante, precisou parar para respirar fundo. Estava fazendo o melhor que podia. Mas era mais difícil do que pensava. Só que não ia se deixar vencer. Ele era forte. Tinha que ser forte. – ... e precisa mesmo de ajuda. Então por que não pede ajuda a Isaac? Ele está aí, sempre do seu lado, preocupado com você. Por que não começa a reconhecer as pessoas que lhe querem bem e pára de encher a paciência de quem não te agüenta mais?
Dito isso, deu meia-volta e começou a caminhar rapidamente pelo corredor. A cada passo que dava, afastava-se mais de Hyoga. A cada passo, sentia que seu coração se dilacerava ainda mais. A cada passo, mais lágrimas insistiam em rebentar de seus olhos. A cada passo, Ikki desejava morrer. Mas Hyoga não viu nada disso. Estava tão perdido com tudo o que acabara de acontecer que não parecia se dar conta do que havia ao seu redor. Ao chegar ao final do corredor, Ikki virou à direita e entrou no primeiro quarto vazio que encontrou. Fechou a porta e, sem conseguir dar mais um passo, apoiou suas costas na parede ao lado, dando liberdade para que as lágrimas deslizassem por seu rosto em abundância. Conseguiu abafar seu pranto como pôde, em gritos surdos de dor. Encostou a cabeça na parede e, sentindo as pernas trêmulas, foi descendo o corpo encostado à parede, como se não conseguisse mais se manter de pé. Toda aquela força e firmeza demonstrada em frente a Hyoga agora desapareciam. O que restava era apenas a dor e a certeza de ter magoado a pessoa que ele mais amava. Sentando no chão, abraçou seu corpo, que tremia involuntariamente, e apertou-o com força. Tentava se controlar, tentava manter a cabeça no lugar, porque seu desejo mais profundo era o de voltar correndo até onde Hyoga se encontrava e pedir-lhe perdão por fazê-lo sofrer, pedir-lhe perdão pelo seu amor que apenas destruía a pureza do coração de Hyoga, pedir-lhe perdão por macular os sentimentos sinceros do outro. Mas não podia. Precisava protegê-lo. Hyoga precisava esquecê-lo. E seria mais fácil esquecê-lo se fosse capaz de odiá-lo. "Me odeie, Hyoga. E depois me esqueça... Faça de mim um nada na sua vida. Porque é só o que posso ser... nada para você... eu devo ser nada para você. Porque só assim... só assim você estará protegido... só assim eu terei uma razão para continuar vivendo... só assim você vai poder continuar sendo tudo para mim."
- Hyoga, olha... Eu entendo que você não esteja bem e sei que eu sou a última pessoa com quem você quer falar sobre qualquer coisa, mas... o que o Fênix disse é verdade. Você pode contar comigo. Sempre.
O finlandês falava e, apesar do silêncio em que o outro se encontrava, ele sabia que Hyoga o estava ouvindo. Depois que Ikki sumira de seu campo de visão, deu alguns minutos para que o loiro processasse tudo o que tinha acontecido. Mas era preciso deixar claro que era com ele que Hyoga tinha de contar a partir de agora.
Enquanto isso, no quarto de Shun, a situação estava um tanto estranha. Com a saída repentina de Ikki, pouco depois de Hyoga abandonar o recinto, Shun ficara preocupado. Saori então tentou tranqüilizar o cavaleiro de Andrômeda, atraindo de volta sua atenção e falando sobre amenidades. Com os olhos doces, porém firmes, indicou a Seiya que a auxiliasse nessa empreitada. Tinham de se preocupar com a saúde e bem-estar do mais jovem dos cavaleiros.
Seiya estava confuso, tentando acompanhar os últimos acontecimentos, mas entendeu que Saori estava certa e entrou na conversa iniciada pela moça. Camus e Milo ficaram ali, ambos esperando que a situação se resolvesse lá fora. Mas ninguém retornava ao quarto. Camus foi ficando cada vez mais apreensivo e decidiu que não podia esperar mais. Também sem dizer palavra, dirigiu-se à porta, no que foi seguido por Milo, receoso do que o aquariano faria. Seiya observava tudo isso sem entender nada e já começava a se irritar, pois sentia que todos pareciam saber o que estava acontecendo, menos ele.
Lá fora, Camus encontrou Hyoga parado com um olhar vazio e Isaac ao seu lado, como que respeitando um momento de silêncio de que o outro necessitava.
- O que aconteceu aqui? – tratou de perguntar logo o cavaleiro de Aquário.
- Camus, acho que agora não é a melhor hora... – começou a dizer Isaac.
- O que houve com Hyoga? Por que ele está assim? – falou Camus, muito preocupado.
- Mestre, Hyoga está precisando de um espaço agora e...
- Exato. E vocês parecem não permitir isso. – falou, enfim, o rapaz loiro.
Camus olhou para Hyoga, esperando que ele dissesse mais alguma coisa. Mas o russo fechou-se novamente em seu silêncio.
- Desculpa, Hyoga... eu não queria atrapalhar. Fiquei aqui porque achei que você precisasse de mim. – a voz de Isaac saía com uma ponta de ressentimento.
- Mas não preciso. – apressou-se em responder o russo – E gostaria muito que me deixassem em paz. – falou, com os braços cruzados, enquanto retirava-se dali. Camus olhou para Isaac e ambos concordaram em deixá-lo só. No entanto, Milo resolveu seguir Hyoga, no que Camus, ao perceber a intenção do escorpiano, chamou-lhe a atenção.
- Ele quer ficar sozinho, Milo.
- Eu sei. Assim como sei que ele precisa conversar com alguém que realmente escute o que ele tem para dizer. Vou até lá. – respondeu o Escorpião sem dar muita chance do outro replicar.
Shiryu, que havia se aproximado da porta para ver aonde iam os dois dourados pôde presenciar essa rápida conversa e o afastamento de Hyoga, sendo seguido por Milo. Olhou para dentro do quarto e viu Seiya esforçando-se para falar com tranqüilidade enquanto Saori parecia encarar o que se passava com uma desconfiável naturalidade. Shun, por sua vez, parecia alheio a tudo o que lhe diziam. Viu o modo como seu irmão deixara o quarto para ir atrás de Hyoga. Isso o estava inquietando. "Obviamente, porque sei que foi brigar com ele e não gosto de vê-los discutindo." Entretanto, havia algo diferente ali. E Shun já não sabia mais dizer se, de fato, o que mais lhe chateava era realmente ver Ikki e Hyoga brigando. Talvez, pudesse haver algo que o chateasse ainda mais. E essa sensação sim, parecia ser o que mais lhe incomodava.
A situação parecia insustentável para o Dragão. Naquele momento, sentiu como se aquela informação que guardava consigo fosse de grande importância para ajudar a resolver todo um problema que ele até então desconhecia. Ele precisava falar com alguém, mas tinha de ser com a pessoa certa. Foi então que uma idéia clareou sua mente: Ikki! Pelo modo como o moreno deixara o quarto, ele deveria saber de alguma coisa. E agora, pelo visto, era a única pessoa com quem ele poderia falar.
Saiu do quarto sem dar qualquer satisfação aos que ficavam. Seiya olhou para Saori revoltado, esperando que ela também se demonstrasse incomodada por estar de fora do que acontecia ali. Entretanto, os olhos da jovem demonstravam apenas uma resignação que só serviu para deixar o cavaleiro de Pégasus ainda mais contrariado.
Caminhando pelos corredores em busca de Ikki, Shiryu via-se frustrado por não conseguir encontrá-lo. Quando já estava desistindo e voltava para o quarto onde estava Shun, pôde ouvir um soluço baixo, quase surdo, vindo de um quarto. Olhou pela pequena janela de vidro que havia na porta e pôde enxergar a figura do cavaleiro de Fênix como nunca imaginara ver.
Ikki estava sentado no chão, encostado a uma parede, desolado; a mão lhe cobria um rosto amargurado e banhado de lágrimas e suas costas subiam e baixavam no ritmo dos soluços que, à força, ele tentava conter.
- Posso me sentar aqui? – perguntou o Escorpião, aproximando-se do russo, que se sentara em um sofá de uma das várias salas de espera daquele hospital.
Hyoga levantou seu olhar e encontrou o sorriso acolhedor de Milo:
- Pode, claro...
Milo sorriu. O loiro não havia se fechado para ele. Isso era bom.
- Então, garoto... o que é que está acontecendo aqui, hein? – disse, usando um tom de voz que fizesse Hyoga sentir-se à vontade para falar. E Milo sabia fazer isso muito bem.
- Eu não sei, Milo. Eu realmente... estou tão confuso. – e mergulhou o rosto entre as mãos, em um gesto que representava bem a angústia que sentia.
Milo suspirou. Conseguia perceber que o mais jovem estava realmente perdido. Mas iria ajudá-lo. E não fazia isso apenas por Camus. Em verdade, naquele momento, estava muito chateado com o fato de que Camus não estava sabendo lidar com Hyoga. E o Escorpião já tinha um grande carinho pelo cavaleiro de Cisne, de modo que queria fazer algo por ele:
- Você está precisando desabafar, garoto... E sabe que sou bom ouvinte, não é? – passou seu braço pelas costas do russo – Vamos lá; fale comigo. Duas cabeças pensam melhor que uma. Se me disser qual é o problema, eu posso ajudar a encontrar uma solução. Que tal? – finalizou, abrindo um sorriso gentil.
Hyoga olhou para Milo e conseguiu sorrir de volta. Realmente, o cavaleiro de Escorpião há muito deixara de ser apenas o companheiro de seu mestre. Milo era seu amigo.
- Tudo bem... eu vou contar. Até porque minha cabeça já está dando voltas e sinto que não estou chegando a lugar algum...
- Sou todo ouvidos.
- Milo, você se lembra de hoje de manhã? Quando tive aquela discussão com Camus?
- Sim; lembro. Ele passou dos limites com você, mas ele não faz por mal...
- Eu sei, eu sei... mas é que... logo depois... quando deixei o hospital... Isaac veio atrás de mim e nós brigamos. Eu queria ir atrás do Ikki e Isaac queria me impedir.
- Sei.
- Tivemos uma briga feia, mas... por um lado foi bom. Porque assim, mesmo sem querer, eu acabei tendo que confrontar alguns fantasmas do meu passado e, principalmente... pude admitir para mim mesmo algo que eu me negava há muito tempo...
Milo não disse nada. Imaginava o que Hyoga tinha para revelar e sabia que era uma confissão não muito fácil. Por isso, não podia pressioná-lo. Hyoga tinha que se sentir à vontade para falar:
- Milo, eu... eu gosto do Ikki. Eu... sou apaixonado por aquele idiota. – soltou, sentindo a dor que aquela revelação lhe provocava agora – Eu nunca quis admitir isso, eu nunca quis acreditar que teria chances, então me convencia de que esse sentimento não existia, simplesmente por medo de não ser correspondido...
- E o que fez você mudar de idéia? – perguntou, com delicadeza. Não queria parecer que estava fazendo qualquer julgamento.
- Bom, como eu disse... Isaac me ajudou nesse ponto. Ele... – respirou fundo antes de fazer a seguinte declaração – Ah, Milo... ele e eu já fomos mais que simples amigos.
Disso Milo já tinha começado a desconfiar também. O escorpiano tinha boas intuições - e não era cego. Continuou em silêncio e, com os olhos, deu a entender que esperava que Hyoga continuasse o que tinha a dizer.
- E o problema é que Isaac insiste em acreditar que nós podemos voltar a ser como antes. Ele acha que devemos ficar juntos. – e suspirou.
- E você acredita nisso? – perguntou Milo, com a voz tão neutra quanto lhe foi possível.
- Não. – a resposta veio rápido – Não sinto por ele o que sinto pelo Ikki. Nunca senti. O que tivemos nunca significou tanto para mim quanto parece ter significado para ele. Para mim, era uma distração, algo que ajudava a passar por aquele duro período em que treinávamos arduamente para nos tornar cavaleiros...
Milo não pôde evitar um suspiro. Lembrou-se de que ele próprio, quando era ainda um aspirante a cavaleiro, encontrou em um jovem Camus a pessoa que o ajudou a passar por aquela fase tão difícil em suas vidas. Os dois trocavam confidências e carícias e assim foram se tornando mais que amigos um para o outro. Milo sorriu ao reviver algumas recordações daquela época. Mas depois lembrou-se do momento presente em que se encontrava agora. Camus estava diferente. Quando mais jovens, o aquariano não era tão rígido e severo. Sim; era óbvio que o peso de ser um cavaleiro fazia com que as pessoas mudassem. Ele mesmo havia mudado muito em vários aspectos. E era certo que Camus sempre teve uma natureza mais reservada, mas... ele nem sempre fora assim, como hoje. E, nos últimos dias, essa forma dura de ser aflorou de um modo que Milo não tinha gostado muito de ver.
- De todo modo... Isaac me fez entender a diferença dos sentimentos que eu tenho por ele e por Ikki quando quis me obrigar a ficar com ele.
- Obrigar? Como assim?
- É que... Isaac sabe ser muito persuasivo quando quer. – respondeu Hyoga, sem querer dar maiores explicações – Enfim, foi assim que ele me obrigou a enxergar o que eu sentia, de fato, pelo Ikki. Foi isso que me fez ir atrás dele, com a certeza de que precisava falar a ele o que sentia.
- Foi aí que você passou mal e teve de ser levado para o hotel?
- Não, Milo! Eu não passei mal! Eu fui atrás de Ikki e o encontrei em um galpão abandonado... Ele estava deitado sobre uma cama velha... eu fiquei muito preocupado em encontrá-lo ali, daquele jeito.
Milo apenas ouvia o que Hyoga dizia, tentando entender aonde ele queria chegar.
- Eu me declarei para ele lá... e fui correspondido. – Hyoga olhava para um ponto invisível na parede à sua frente – Eu tenho certeza de que fui correspondido... eu ainda consigo sentir... – e passou os dedos, involuntariamente, pelos lábios
Milo não sabia o que dizer. Aquela história estava muito estranha.
- Isaac diz que foi tudo um sonho, Milo. – falou o russo, voltando a olhar para o Escorpião – Ele diz que tudo o que aconteceu depois da briga que tive com Camus foi um sonho. Ele alega que até a discussão que tivemos nunca aconteceu!
- Mas... do que você lembra, Hyoga? Lembra-se de ter acordado no quarto do hotel? – indagou Milo, desejando realmente encontrar uma lógica nisso tudo.
- Lembro, claro! Mas não lembro como cheguei lá... a última coisa que consigo recordar é de ter estado nesse galpão com Ikki... até que... – e, nesse momento, uma lembrança da qual ele ainda não tinha se recordado veio à sua mente - ... apareceu um homem... Mas não consigo me lembrar de muita coisa depois disso. Há muitas imagens confusas na minha cabeça. – falou, colocando a mão entre as madeixas louras.
- Apareceu um homem? Que homem?
- Eu não sei. Nem me lembro de como ele era. Nem sei se realmente apareceu um homem lá. Estou confuso, Milo... mas eu estava certo de que Ikki e eu tínhamos estado naquele galpão... eu tinha certeza...
- "Tinha"? Não tem mais?
- É que... Ikki me disse que nada disso aconteceu. – o loiro baixou a cabeça e sua franja loira escondeu-lhe os olhos.
- Hum... – soltou Milo, recostando-se na cadeira em que estava sentado – Tudo isso é muito estranho, Hyoga.
- Eu sei.
- Mas... quando as coisas parecem sem sentido, quando fica difícil encontrar racionalmente o melhor caminho... você sabe qual é a solução.
O russo olhou para Milo, buscando pela resposta que este lhe daria:
- Siga seu coração, Hyoga. Você pode não saber o que quer aqui, – falou, apontando para sua cabeça – mas garanto que tem certeza do que quer aqui. – e colocou a mão em seu peito – Não sei dizer se Isaac está querendo apenas confundir você, se isso que me contou é sonho ou não... mas, de um jeito ou de outro, tudo parece indicar uma coisa. Você precisa conversar com o Fênix.
- Eu já fiz isso, Milo. E ele disse que eu estava precisando de ajuda, que estava imaginando coisas...
- Não, Hyoga. – cortou Milo – Eu estou dizendo para se declarar a ele. Se tudo o que você me contou for real, então será a segunda vez que você irá se declarar. Mas, se for um sonho, então será a primeira vez... de qualquer modo, precisa deixar ele saber o que está sentindo agora. E eu sei que está confuso, mas pelo que percebi, a única coisa da qual tem certeza é o que sente por Ikki. Pois então, agarre-se ao que você sabe e deixe o resto pra lá...
O russo encarou o escorpiano com alguma dúvida. Este sorria, divertido. Tudo parecia ser tão simples para ele...
- Eu... eu não sei se é uma boa idéia Milo. Ikki foi muito... ríspido comigo. Na conversa que acabamos de ter, ele parecia querer me ver só à distância... E não sei se vou conseguir dizer a ele o que sinto e ser rejeitado. No galpão, eu disse o que sentia porque parecia ser a coisa certa a se fazer na hora, e isso me deu força e confiança... Mas agora...
- Agora não parece ser a hora certa?
- Aí é que está. Eu não sei.
- Pois é, Hyoga... a pior coisa que pode acontecer é não saber. E, olha... todos temos um pouco de medo de sermos rejeitados, é normal... Mas, no seu caso, eu acho que você não precisa ficar nem um pouco receoso.
- O que quer dizer com isso? – os olhos azuis cintilaram brevemente.
- Hyoga, eu sou muito perceptivo, sabe? Vejo muito bem o que acontece ao meu redor... E eu posso dizer, com tranqüilidade, que acho muito difícil Ikki rejeitar o que você sente.
- Você não teria tanta certeza se tivesse visto como ele me tratou agora há pouco...
- Hyoga, eu sei bem que vocês dois vivem brigando, se atacando e coisas do tipo. E isso... bom, isso é só uma forma de disfarçar esse sentimento que existe entre vocês. Acho que os dois tentam tanto esconder o que sentem um pelo outro que acabam acreditando que, em vez de amor, é ódio que há entre vocês. Ledo engando. E você já descobriu isso. Por que não ajuda o Fênix a perceber isso também? – e deu uma piscadela jovial para o loiro.
Hyoga sentiu o coração bater em um compasso mais acelerado. Será? Bem, Milo podia estar certo... e, se ele se declarasse para Ikki e este aceitasse seu sentimento... dane-se todo o resto! Que lhe importaria saber o que tinha acontecido ou não, contato que pudesse ficar com Ikki? Realmente, era uma boa idéia... Sorriu para Milo e levantou-se apressado do sofá em que estavam sentados.
O escorpiano viu o loiro sumir de sua vista e sorriu também. "Espero que esses dois consigam se entender..."
- Ikki? – falou Shiryu, entrando no quarto.
- Shiryu? – assustou-se o moreno, ao se dar conta de que fora pego de surpresa – Eu... O que está fazendo aqui?
- Você... está bem?
- Estou ótimo. – respondeu logo, enxugando com brusquidão as lágrimas em sua face – O que você quer?
Shiryu sabia que Ikki não era pessoa de chorar por qualquer coisa. Ver o cavaleiro de Fênix desse jeito confirmava para o chinês que algo estava acontecendo. E era algo muito sério. Não sabia ainda qual poderia ser a relação de uma coisa com a outra, mas ele tinha certeza de que tudo que estava ocorrendo de estranho naquele dia estava interligado de alguma maneira:
- Estava procurando você. Precisava conversar e...
- Não estou a fim de conversar agora. – respondeu rispidamente, enquanto se levantava e ficava de costas para o Dragão. Não queria que o amigo o visse daquele jeito.
- Mas é importante... é sobre... Hyoga.
Como se fosse um reflexo, ao ouvir o nome do cavaleiro de gelo, Ikki virou-se para o chinês na mesma hora:
- O que tem ele? – perguntou, demontrando mais preocupação em sua voz do que deveria e se repreendendo internamente por isso.
- É que... hoje de manhã, Hyoga teve uma discussão com Camus e...
- Sim, já fiquei sabendo disso. O que tem de mais? – Ikki estava sendo mais rude que o normal porque ainda não sabia como reagir depois de ter sido flagrado em um momento de vulnerabilidade como aquele.
- É que, logo depois, Hyoga teve uma briga feia com Isaac. Eu vi meio que por acaso, mas depois de presenciar aquilo, fiquei seriamente preocupado. Ikki, o Isaac chantageou Hyoga usando suas maiores fraquezas e... isso simplesmente não se faz. Não podemos permitir que nosso amigo sofra nas mãos de uma pessoa tão egoísta quanto aquele ex-marina. Temos de fazer alguma coisa.
Ikki não podia acreditar. "Que Destino estúpido! Será que ele não sabia que a discussão dos dois havia sido testemunhada por Shiryu? E agora?"
- Você... falou com alguém sobre isso? – perguntou o moreno, apreensivo.
- Só com a Saori. Mas ela agiu de forma estranha...
- Estranha?
- Sim. Ela me disse que não havia nada de mais nisso e que era melhor me manter à parte do que acontece entre os dois. Ela me pediu para esquecer, como se nada tivesse acontecido.
- Ótimo. É o que vamos fazer. – respondeu Ikki, desejando terminar aquela conversa por ali.
- Como... como é?
- É o conselho de uma deusa, Shiryu. Temos que segui-lo.
- Muito bem, agora eu tenho mais que certeza de que tem algo muito errado acontecendo aqui. Desde quando você diz que devemos seguir o que a Saori fala, independente do que seja? – perguntou o Dragão, que já se mostrava muito irritado com tudo isso.
- Desde quando eu acho que o que ela fala faz sentido.
- Você acha que faz sentido não fazer nada? Ikki, acho que você não entendeu o que eu disse. Isaac foi cruel com Hyoga, ele disse ao nosso amigo coisas horríveis; falou que ele era o culpado pela morte de pessoas que o amavam, que se ele não quisesse trazer mais desgraça aos outros, tinha de ficar com...
- Eu entendi, Shiryu! – gritou Ikki, que não suportava ouvir aquilo. Ele sabia, sempre soube que Isaac não era bom o suficiente para Hyoga. Mas não havia jeito; era isso ou...
- Não parece. – disse o cavaleiro de Dragão, com alguma frieza – Ao que tudo indica, Hyoga passou mal depois disso... pelo menos, é o que Isaac diz. Eu já não tenho tanta certeza, pois vi quando eles se separaram. Hyoga saiu de lá parecendo muito bem porque estava indo atrás de... – e interrompeu sua fala. Não tinha planejado falar sobre a confissão que ouvira de Hyoga naquele momento. Não iria se meter nos sentimentos do Cisne pelo moreno.
- ... atrás de quê? – indagou Ikki, algo preocupado. Shiryu era esperto. Se ele soubesse de coisas demais, poderia descobrir o que não devia...
- Atrás de algo que ele tinha certeza de que precisava fazer. – falou Shiryu. Se Ikki não sabia do que ele estava falando, então provavelmente Hyoga não tinha conseguido encontrá-lo para dizer o que sentia. E Shiryu iria respeitar a privacidade do amigo russo – E ele se sentia bem com isso. Por esse motivo, estou achando essa história de ele ter passado mal muito esquisita. Não duvido que Isaac tenha feito algo para confundir Hyoga, ou talvez coisa pior. Pelo que vi, ele pode ser capaz de tudo. E, quer saber? Já que você não está interessado em me ajudar, eu vou atrás do Hyoga. Vou perguntar a ele o que aconteceu, se ele passou mal mesmo, ou se alguma outra coisa aconteceu. Vou ver o que ele sabe, do que se lembra... Eu vou descobrir o que está havendo.
Ia saindo quando sentiu Ikki segurar seu braço com força. Voltou a olhar para o cavaleiro de Fênix, já preparado para repelir o que o outro viesse dizer, mas quando encontrou aquele olhar azul escuro tão angustiado, não soube o que falar. Lágrimas haviam voltado a surgir nos olhos de Ikki. E sua voz saiu com dificuldade:
- Shiryu... por favor... por amor de tudo que há de mais sagrado nessa terra... eu te peço... Não fala com o Hyoga. Por favor.
O Dragão ficou surpreso. Nunca tinha visto Ikki assim. E suas palavras eram tão dolorosas. Sim, algo estava acontecendo. E, provavelmente, era ainda mais grave do que ele pensava. Estava certo em relação a tudo isso. Mas só agora descobrira que Ikki, pelo visto, já estava a par de tudo o que estava havendo. Na verdade, agora tinha ficado claro para Shiryu que Ikki sabia muito mais que ele. Entendeu também que o cavaleiro de Fênix já estava fazendo algo a respeito, e que isso estava lhe causando muita dor e sofrimento. Tudo isso foi percebido naquele olhar... um olhar tão pesaroso que encheu o cavaleiro de Dragão de pena. E ele sentia pena principalmente porque compreendeu que Ikki não podia compartilhar com ele o fardo que carregava. Sentiu que aqueles olhos imploravam por uma resposta de sua parte. Shiryu então colocou a mão sobre o ombro do amigo e fitou, com seus olhos tão verdes, a face amargurada de Ikki:
- Está bem... Não falarei nada.
Ikki sorriu. Um sorriso de alívio. Um sorriso por saber que não estava só. Até então, ele estava sentindo o peso do mundo em suas costas. Ikki sabia que Shiryu não era o tipo de pessoa que se contentava com qualquer explicação. Ele precisava entender o que se passava e, se agora ele aceitava se calar sem questionar mais nada, é porque entendera que Ikki estava em uma difícil situação. Shiryu não sabia que situação era essa – e nem poderia ficar sabendo – mas o simples fato de que alguém era conhecedor da miséria de Ikki o fazia sentir certo alento. E os olhos serenos do chinês passavam exatamente essa sensação de que Ikki tanto precisava agora.
- Obrigado. – foi só o que conseguiu dizer. E, sem pensar, abraçou Shiryu, que até se surpreendeu diante disso, afinal Ikki não era afeito a demonstrações de carinho. Mas era visível que o moreno precisava desse abraço. O jovem de longos cabelos negros então abraçou-o de volta, tentando passar ao outro algum conforto.
Do lado de fora do quarto, um jovem loiro observava essa cena. Vira desde o momento em que ambos trocaram um olhar cheio de cumplicidade, passando pelo sorriso tão significativo que o Fênix ofereceu ao Dragão, chegando finalmente a um abraço como Hyoga jamais tinha visto Ikki tomar a iniciativa de dar em alguém. Pela janela de vidro que ficava na porta, viu tudo isso e sentiu seu coração, que até então esteve aquecido por um forte sentimento, congelar. E, depois, partir-se em milhares de cristais de gelo.
Sua presença não fora percebida por nenhum dos dois homens que estavam no quarto. E, achando melhor que continuasse assim, o rapaz russo deixou aquele lugar, a passos rápidos.
- Mestre, você sabe do apreço que tenho por você, não é mesmo?
- Claro, Isaac. E espero que saiba que o sentimento é recíproco. – respondeu Camus.
Mestre e pupilo encontravam-se na entrada do hospital. A noite estava novamente estrelada e ambos aproveitaram para respirar um pouco. Os últimos dois dias haviam sido muito tensos.
- Eu sei, mestre. – sorriu o finlandês – E é por isso que acredito que posso falar qualquer coisa para você, sem ter medo de ser mal-compreendido.
Camus olhou preocupado para Isaac:
- Você pode me dizer o que quiser. – respondeu o aquariano prontamente. Não queria perder o laço com Isaac, que se fortalecia aos poucos. Ainda mais agora, que Hyoga parecia determinado a afastar-se dele.
- Então... eu queria só dizer uma coisa. – e respirou fundo, como se fosse difícil para ele dizer o que se seguiria – Eu não entendo por que você e Milo estão juntos.
- Isaac, Milo é uma ótima pessoa. Entendo que tenha uma impressão diferente por causa do modo como ele o tratou, mas isso é só porque ele está nervoso com tudo que aconteceu...
- Não, não é bem isso. – suspirou – Mestre, eu não me importo se ele me destratar. Eu não sou nada dele... Mas o que não me agrada nem um pouco é ver como ele tem tratado você.
- Isaac, não se preocupe. – disse Camus, já mais incomodado – Conheço Milo. Sei que ele só está agindo assim porque está preocupado com Hyoga.
- É isso que não entendo. – emendou o finlandês – Shun é quem sofreu o acidente, mas Milo está muito preocupado com o Hyoga?
- Ora, Isaac. Eu também estou muito preocupado com Hyoga.
- Sim, assim como eu. Mas, no nosso caso, faz sentido. Hyoga é seu pupilo e praticamente um irmão para mim. Mas e Milo? Por que ele se preocupa tanto assim?
- Isaac, eu não sei aonde você quer chegar, mas acho que não sabe o que está dizendo. – disse Camus, muito sério – Milo gosta muito de Hyoga porque eles se aproximaram bastante desde que oficializamos a nossa relação. E ele quis se aproximar de Hyoga porque sabia o quanto isso era importante para mim.
- Está bem, mestre. Me desculpe se o ofendi com alguma coisa. Mas é que... – Isaac falava como se fosse preciso um grande esforço para executar essa tarefa – Eu não ia conseguir ficar tranqüilo se não falasse a respeito com você.
- Já falou a respeito, então pode ficar tranqüilo.
- Sinto muito, mestre... Posso ver que o aborreci.
- Já disse que não precisa se preocupar. – a voz de Camus era fria.
- Desculpe se eu não pude guardar isso para mim. Mas é que vocês parecem ter discutido demais nesses dois dias e o motivo parece ser sempre o Hyoga; além disso, quando você me ligou e pediu para vir a Tóquio, você tinha dito que somente eu poderia ajudá-lo a fazer Hyoga entender que Shun era a pessoa ideal para ele, porque o Milo estava se mostrando totalmente contra o relacionamento dos dois, sabe-se lá por que motivo, já que eles têm tudo a ver um com o outro... Então eu só estava querendo entender que tipo de sentimentos ele realmente nutre pelo Hyoga, porque está até parecendo que...
- Isaac, já basta! – falou Camus, levantando o tom de voz.
O finlandês abaixou a cabeça, em um gesto de arrependimento por ter dito tudo aquilo. Mas, encoberto pelas madeixas verdes, e de modo que Camus não pudesse ver, ele abriu um sorriso de quem sabia ter alcançado seu objetivo.
Nesse momento, a porta do hospital se abriu e Milo apareceu:
- Camus, estava atrás de você e... – percebendo que Isaac estava junto ao aquariano, endureceu suas feições rapidamente.
- E o quê, Milo? – indagou Camus, que apesar de não querer aparentar, estava um pouco agitado devido à conversa que tivera com Isaac.
- Eu queria saber se viu Hyoga por aí. Estou procurando por ele, mas não consigo encontrá-lo em lugar algum. – respondeu o Escorpião, olhando para os lados, como se vasculhasse o local à procura do loiro.
- Que eu me lembre, ele estava com você. – disse Camus, sentindo algo incomodá-lo lá dentro.
- Sim, ele estava. Conversamos e acho que consegui ajudá-lo. – disse Milo, abrindo um belíssimo sorriso – Ele não se fechou para mim; conversamos abertamente e...
A porta do hospital novamente se abriu e, de lá, saiu Hyoga com pressa. Ao dar de frente com os dois cavaleiros dourados e Isaac, parou.
- Hyoga, até que enfim! Estive procurando você por toda a parte. – disse Milo, caminhando em direção ao russo que recuou instintivamente.
- O que... o que aconteceu, Hyoga? – perguntou o escorpiano, estranhando essa atitude.
- Nada. – respondeu o Cisne, com uma voz tão fria quanto cortante.
- Como assim, nada? Está claro para mim que aconteceu algo. Anda, Hyoga. Me fala o que foi porque eu quero saber.
Camus olhou para Isaac e percebeu que este fazia uma expressão de quem achava completamente inapropriado o fato de Milo exigir uma explicação de Hyoga.
- Sabe, Milo... – falou Hyoga, com as palavras carregadas de frustração, raiva, angústia – Às vezes, é melhor não saber. E quer saber o que mais? Eu estou cansado... me sentindo fraco... esgotado.
- É porque você não comeu nada o dia inteiro. Se quiser, podemos ir a um restaurante aqui perto que parece muito bom. - sorriu o ex-marina.
Hyoga olhou para Isaac sem esboçar qualquer expressão. O finlandês então completou sua idéia:
- Mas só se você quiser, é claro. Se ainda estiver bravo comigo por causa do que sonhou... quero dizer; desculpe: Se estiver bravo comigo por causa do que diz que aconteceu, eu entendo que não queira minha companhia. Afinal, se não está se sentindo bem, você deve escolher a companhia que o ajudar a melhorar, sem se preocupar se isso é o melhor para os outros. Você se preocupa demais com os outros; está na hora de pensar um pouco em você, meu amigo.
Isaac falou com tanta sinceridade que Hyoga não conseguiu evitar um débil sorriso. É, era possível que tudo aquilo tivesse sido um sonho. Ele estava realmente cansado e isso devia estar mexendo com a cabeça dele. Aliás, agora tinha praticamente certeza de que o ocorrido naquele galpão abandonado fora apenas um sonho. Afinal, ele acabara de presenciar algo que jamais tivesse imaginado, mas que, no fim das contas, era a realidade. Ikki e Shiryu? Ele nunca tinha percebido haver qualquer coisa entre eles... mas também... era possível que ele não quisesse ter visto.
- Como assim, Hyoga? O que você sonhou? – perguntou Camus, que estava à parte do que tinha acontecido.
- Nada de mais, mestre. Foi só um sonho. – ao ouvir isso, um grande sorriso se estampou no rosto de Isaac. Hyoga então olhou para o Kraken e continuou: – Você tem razão, meu amigo. Preciso estar na companhia daqueles que me querem bem. Então... se estiver realmente disposto, podemos ir a esse restaurante. - falou, por fim, com a voz esvaziada de qualquer emoção.
Isaac sorria amplamente. Mal conseguia conter sua alegria:
- Estou mais que disposto. Vamos então? – e recebeu um aceno de Hyoga como resposta.
Quando os dois jovens se afastaram, Camus olhou para Milo, que mantinha um olhar perdido na direção em que os dois tinham partido, e perguntou:
- Posso saber por que está com esse olhar tão preocupado?
- ... Não estou gostando nada disso... – respondeu Milo, parecendo falar aquilo mais para si mesmo que para Camus.
- E eu posso saber por que não?
- Camus, eu não confio em Isaac. Sei que não quer enxergar isso, mas ele não é boa companhia para Hyoga.
O cavaleiro de Aquário riu. Mais essa agora?
- Ele é uma ótima companhia, Milo. Não viu o que acabou de acontecer? Isaac conseguiu convencer Hyoga a ir comer algo, relaxar um pouco... é disso que ele está precisando.
- Concordo que ele esteja precisando disso. Mas não com o Isaac. – e olhando firme para o companheiro – Camus, você sabia que Isaac tem sentimentos que vão além da amizade por Hyoga?
O aquariano não se pronunciou. Não soube o que dizer.
- Por isso eu não gosto de ver Hyoga com ele. Tudo de que o garoto não precisa é desse finlandês tentando conquistá-lo agora...
- Milo, eu não sei de onde você tira essas idéias mirabolantes, mas eu só tenho uma coisa a dizer: Se, por acaso, isso for verdade e Hyoga e Isaac ficarem juntos, eu não vejo problema algum. Aliás, você fica procurando motivos que não existem para brigar com pessoas que não merecem. Você precisa perder essa mania de achar que sabe mais que os outros. Precisa parar de julgar de forma tão precipitada. Quando vai aprender a se controlar, Milo? Quando vai amadurecer? – disse Camus, com a voz tão fria quanto seu cosmo.
- Acha que estou sendo imaturo, Camus? – perguntou Milo, com o orgulho ferido.
- Acho. Já está passando da hora de você crescer e encarar o mundo como ele é. Nem tudo é do jeito que você quer, Milo. E você também não vai estar sempre certo sobre tudo. Aprenda a aceitar isso. Só assim você conseguirá amadurecer.
Milo suspirou. Camus não sabia o que dizia. Ele já havia amadurecido muito pelo aquariano. O escorpiano já estava cansado de ser repreendido injustamente:
- É melhor demorar para amadurecer do que ficar amargo como você, Camus. – destilou Milo. Quando seu orgulho ficava ferido, não media muito bem suas palavras – Não sei o que aconteceu com aquele garoto por quem me apaixonei. Será que ainda se lembra dele, Camus? Ele era mais divertido, menos exigente, acho até que sabia viver de fato... Sinto falta dele.
O cavaleiro de Aquário desviou o olhar de Milo, que continuou:
- É, sinto muita falta dele. Às vezes, olho para você e acho que ainda consigo enxergar aquele garoto que tanto amo aí dentro... mas, outras vezes, acho que ele desapareceu por completo. E isso me dá medo. – fez uma pausa e olhou o movimento de carros na rua – Bom, pelo menos, de uma coisa eu sei. Farei todo o possível para evitar que isso aconteça a Hyoga.
- O que quer dizer? – perguntou Camus, algo apreensivo.
- Hyoga me lembra a pessoa que você foi um dia, Camus. Guardadas as devidas diferenças, esse garoto é muito parecido com você. Talvez por você tê-lo criado, não sei. E eu tenho medo que ele fique tão severo e rígido como você é hoje. De todo modo, se eu puder impedir que isso aconteça, eu o farei. – e, encarando Camus com firmeza, finalizou: - Pode ter certeza disso.
Depois de dizer essas duras palavras, Milo partiu, deixando Camus ali, parado, absorvendo tudo o que ele tinha dito. O escorpiano sabia que tinha magoado o aquariano. De certa forma, essa era sua intenção. Seu orgulho também estava ferido. Mas o que Milo não sabia é que a ferida provocada em Camus tinha sido mais profunda do que ele podia imaginar. E essa ferida era o local ideal para que a semente da discórdia plantada por Isaac pudesse germinar.
Continua...
