Chapter X – She-Wolf of Neah Bay

Caro Papai, (trecho riscado)

Ela riscou as duas pequenas palavras desenhadas no papel branco como leite, a caneta quase perfurando o tablado de madeira onde se encontrava sentada. Louve deixou seu corpo estender-se e suas costas descansarem na frieza do suporte do palco e colocou de lado a caneta tinteiro. Era estranho tratar alguém tão formalmente, mesmo que esse alguém fosse o culpado por seus fantasmas, seus pesadelos que a assombravam todas as noites; aqueles pensamentos horrorosos que deslizavam para perto de seu subconsciente e a fazia presenciar cenas de suas memórias vezes após vezes.

Seus olhos instantaneamente fecharam-se, seus músculos cansados pela viagem a pé até o bar empoeirado e vazio; o ar grosso coberto de poeira e fuligem entrando por suas narinas já irritadas. Das poucas frestas de luz que entravam pelas janelas fechadas com taboas, ela podia enxergar os moveis abandonados. Mesas, cadeiras, garrafas quebradas, o balcão do bar tender com sua pintura semi-descascada; tudo parecia falar por si próprio, implorando para que seus dias de glória retornassem mais uma vez. Louve podia escutar os sussurros, as vozes desejando serem escutadas.

Não era fácil portar aquele presente. Eram poucas as pessoas que sabiam do que se passava em sua cabeça, e ainda sim, todas a temiam. Não gostavam de tê-la por perto, diziam que ela era um mau agouro. Um meio de trazer coisas ruins. Mas na verdade, Louve não achava aquelas vozes de toda irritante, já que, de alguma forma, eram as únicas que se mantinham ligadas ao passado sem se machucarem. Não eram como ela.

Não precisavam chorar como ela.

Talvez ir a um bar marcado por desastres não havia sido a melhor de suas idéias. Ali, estendida sozinha, nunca teria a paz que desejava. A cada segundo, os sussurros aproximavam-se, as lamentações elevando-se e ganhando mais companheiras. A maioria era de homens, ainda que, se esforçasse, pudesse distinguir os tons baixinhos de poucas mulheres. Que lugar triste, foi o que passou pela cabeça de Louve. O calor que antes estivera lavando sua pele, agora era deixado de lado por um frio horrível. Podia sentir coisas se movendo perto, mesmo que nenhum barulho os revelasse. O ar ártico falava por si.

Por um breve momento, ela deixou uma de suas lembranças planar para perto de seus pensamentos. Uma imagem nítida, quase afável, formou-se instantaneamente onde antes houvera a negridão de suas dores particulares. A face bonita, emoldurada por um cabelo da cor do céu noturno sem estrelas e íris de um profundo azul-violeta; o garoto sorria para si, os olhos semicerrados por causa da boca escancarada e cheia de dentes brancos como marfim. Desde o nariz anguloso até as bochechas rosadas, tudo nele era perfeito.

Jean-Claude.

Louve odiou-se. Havia prometido a si mesma nunca mais deixar-se ludibriar por seu cérebro maldoso. Nunca mais deixar que aquelas malditas lembranças viessem à tona como uma maré cheia chocando-se contra a areia irrevogável da praia. Porém, ainda que cobrasse aquela promessa vez após vez, sabia que era apenas questão de tempo até que o fantasma de Jean-Claude – não mais existente nesse plano, mas vivíssimo em sua mente – voltasse a assombrá-la como os fantasmas que agora a rodeavam, suplicando pela salvação eterna.

Ela sorriu. Foi apenas por um breve tempo e se foi com a mesma velocidade que havia vindo. Deixou, então, que as memórias a afogassem de uma vez. Um caleidoscópio de cores e felicidade que eram contados em um curto período de sua vida imortal. Um cisco em meio a uma enorme tormenta, ainda que impossível de se esquecer.

Lembrou-se do sabor da chuva torrencial que lavava Paris naquele dia, dos cheiros alienígenas que vinham e se iam. Das ruazinhas abarrotadas de pessoas fugindo do véu de água que descia das nuvens cinzentas e empapava os pobres pedestres mortais. Do risinho irônico formado em seus lábios rosados enquanto cruzava por aqueles apressados, até que finalmente já não mais se preocupava em encarar aqueles meros humanos; meros pontos esquecidos na história não mais importantes depois que desapareciam pela esquina.

Seu corpo inteiro estivera consciente daquele humano específico, daquele cheiro especial que ele exalava e da vivacidade que o rodeava. Aquele era seu Eterno, o ser que deveria lhe pertencer como as rosas pertencem aos cravos e o sol pertence à lua. O garoto mais bonito, o mais perfeito, mais especial.

Talvez culpasse sua falta de experiência, a pouca idade, ainda que Zeeva e Mellanie haviam lhe dito que nada do que havia acontecido era sua culpa. Mas ela sabia da verdade. Sabia que se nunca houvesse se aproximado de Jean-Claude como devia ter feito, ele estaria vivo e não transformado em cinzas em algum lugar de sua terra natal.

"Eu sempre te amarei, ma petit," fora suas ultimas palavras. Podia sentir aquela frase escapando dos lábios de seu falecido amado, as palavras lambendo seu rosto enquanto ele a encarava com seus olhos carmesins a alguns centímetros. Mesmo que ele odiasse sua vida após os acidentes horrendos que ela evitava se lembrar, Jean-Claude preferira morrer a deixar que Louve pagasse por seus próprios crimes. Preferira dizer as palavras que costumavam aquecer o coração dela todas as fezes que ele as pronunciava, a praguejar seu fim próximo.

Ela o observara morrer. Vira seu corpo ser consumido pelas brasas tão incomensuráveis como o amor que ainda ardia em seu coração e a consumia da mesma forma que ele havia morrido. Louve presenciara a face quase risonha de seu pai enquanto punia a transgressão que sua filha havia cometido.

Fora o único momento de sua imortalidade em que Louve odiara ser lobisomem.

"Achei que estaria aqui... irmã."

xxx

Caius odiava explicar coisas obvias, principalmente se sabia que seus ouvintes eram capazes de deduzir as respostas por contra própria. Era por isso que havia deixado Chelsea cuidando dos detalhes para o encontro com os Cullen.

Encontrava-se, então, em algum canto afastado do condado de Callahan, talvez já em Neah Bay. Queria desesperadamente achar algum ser humano tolo e sem nenhuma importância, sugar-lhe a vida que fluía por suas veias e depois se livrar de alguma forma do seu corpo já falecido. A sede era quase insana. Não iria ser difícil, mas a consciência pesou-lhe. Sabia que, se ainda pretendesse morar definitivamente por aqueles cantos, devia aprender a dieta de seus conterrâneos imortais.

Talvez Washington não houvesse sido sua melhor opção... Chacoalhou a cabeça assim que sentiu a urgência de voltar para sua casa.

Não, Volterra nunca havia sido seu lar. Nunca, em nenhum momento de sua vida, fora de todo feliz, e de certo modo, agora entendia. Nem Aro, nem Athenodora, muito menos a vida vampírica, eram o caminho para sua alegria.

Só teve certeza que se encontrava mesmo em Neah Bay assim que cruzou as primeiras casinhas de madeira. O ar de cidade pequena era estranhamente afável, desde a inexistência de lojas e o tamanho pequeno dos imóveis. Ao longe, podia sentir o cheiro da maresia e escutar o som baixo do mar batendo contra as paredes de rocha. Porém, não havia sido essa observação a chamar sua atenção; o odor inesquecível de sangue almiscarado – aquele cujo qual aprendera a odiar como acontecera nos casos de Aro e Athenodora – refletia-se pela brisa forte que passava por si assim que abria espaço pelas ruas semi-desertas.

Lobisomens.

Não eram os metamorfos da reserva indígena, ele tinha certeza. Lembrava-se do cheiro daqueles lobos quando os vira, anos passados. Esses eram da mesma linhagem de bestas que uma vez quase lhe tirara a vida, aqueles cujos estigmas manchavam várias páginas da história como sua própria raça. Porém, diferente dos vampiros, esses monstros benzidos pela lua-cheia eram incontroláveis, homicidas. Não passavam de seres infectados, incapazes de possuir amor no coração e sedentos por carne, humana ou animal.

Sem que notasse para onde suas pernas o levavam, Caius guiou-se até o local impregnado de sangue não-humano. Era um bar pequeno e empoeirado, as janelas estiveram selados por madeira, mas agora eram, em várias partes, destroçados pela briga ruidosa que acontecia lá dentro. Não foi difícil para entrar, já que a porta estava colocada de lado, despedaçada em grande parte. Apoiada no intacto balcão que antes funcionara para atender aos humanos que desejavam bebida, jazia uma garota beirando seus vinte anos, grande parte de suas roupas feitas em pedaços e cortes da grossura de um dedo estendiam-se por toda sua derme.

Caius não percebeu o porque da garota estar encarando o outro lado do bar, tudo que se passava em sua cabeça era ela.

xxx

Louve odiava lutar, mas podia dizer, sem sombras de duvida, que era a melhor nesse quesito de todas as suas irmãs e primas. Podia até mesmo subjugar homens de seu bando, muitos dos quais eram considerados exímios lutadores. Porém, Conall era diferente. Ele era bonito, forte, ágil, inteligente. Tudo o que um lobisomem macho desejava possuir, principalmente o próximo na sucessão ao título de Alfa. Era a ele que Louve mais temia, ainda que, em um passado muito distante, o amara mais do que uma irmã ama a seu irmão.

"Este é um recado de nosso pai," ele dissera antes de pular diretamente na jugular de Louve. Ela havia escapado por pouco, ainda que as unhas enormes e firmes de Conall tivessem acertado diretamente sua pele. Ela grunhira, mas logo também se lançava para cima de seu irmão, tirando, quando podia, algum fiapo de sangue de seu oponente.

Agora, quase meia-hora depois do começo daquela luta insana, sua roupa estava desfigurada, assim como sua pele do corpo todo, e grande parte estava lavada por seu próprio sangue. Conall estava em melhor estado, com exceção a alguns cortes aqui e ali, sua beleza estava intocada. Observando-o do outro lado do barzinho, Louve lembrou-se de como seu irmão a enfeitiçara anos posteriores.

Não percebera no primeiro momento que já não estavam sozinhos. Com o odor firme de metal e sal lambendo seu rosto, não sentira o cheiro daquele Frio. Costumava ter mais sorte, ela pensou amargurada. Já era ruim demais ter Conall como oponente, agora um morto-vivo de aparência poderosa era adicionado a soma de prováveis quem-vai-matar-Louve-hoje.

Mas aquele Frio era irresistivelmente bonito, isso ela não podia negar. Enquanto a pele de Conall era da cor de café com leite (ainda mais escura que as de seus outros irmãos e a sua própria), a daquele estranho era pálida e de aparência frágil; os olhos eram de um profundo negro, tal quais as pupilas que desapareciam entre a íris, os lábios eram preenchidos como se propositalmente e as maças do rosto adornavam de modo perfeito o nariz andrógeno. Ela podia enxergar a camisa-pólo preta circundando o corpo dele e revelando os músculos provenientes de vários anos de labor em uma fazenda. Para completar, cabelos lisos – diferentes dos seus próprios, cacheados como molas – do tom muitíssimas vezes mais claro do que sua derme, caiam-lhe até vários centímetros abaixo dos ombros, intensificando os traços mais delicados de seu rosto.

"O que quer aqui?" Louve escutou Conall rosnar, os olhos dele começando a ser tingido pela cor de prata líquida, ao lugar do castanho escuro. Contra sua vontade, ela girou seu olhar do estranho Frio para seu irmão.

"Não me nego diversão." Foi tudo o que ele disse. Louve desejou que ele nunca houvesse se intrometido.


Desculpe pela "mini" observação que virá a seguir. Provavelmente ficou maior que o capítulo em si, mas fazer o que, essa escritora adora comentar.

Um dos motivos de eu ter feito Annabelle inglesa era porque seria difícil a fuga de Marcus e dela de Volterra se tivesse seguido o roteiro original (cujo qual, ela era primeiramente italiana e chamava-se Anita). Isso porque passei dois dias estudando para um antigo projeto - que não saiu do papel - as rotas diretas Volterra-Aeroporto, e concluí que a rota mais próxima era uma rodovia que ligava Pisa à cidade em questão (rodovia A12, entrando na estrada nacional 68), já que era o aeroporto internacional de melhor acesso para esse caso. Para outro projeto (esse ganhou mais de 60 páginas escrito a mão, que apenas 20 foram passados para o computador e, por motivos horrivelmente particulares, não foram divulgados de alguma forma), estudei as cidades ao redor de Forks, buscando algo pequeno e aconchegante, ainda que excluído do restante dos Estados Unidos da América.

Concluindo, passo metade do meu tempo pesquisando e fazendo as coisas darem algum significado real (acho que apenas para Enchanted não houve alguma pesquisa mais profunda, porque, senão, até o nome do aeroporto em que Marcus e Gilly utilizam para alugar o jatinho particular, seria verdadeiro). Por isso, Neah Bay existe! (risos) e é, oficialmente, a cidade mais a noroeste do estado de Washington - ou seja, dos EUA também. Na vez em que pesquisei, lembro-me de ter anotado cerca de apenas 300 e poucos moradores - para mim isso seria mais uma vila... - e fora considerada, no século passado, o coração da indústria madeireira. A Reserva em que ouvimos Jacob e Bella tagarelarem vez após vez, também abrange Neah Bay e, ufa!, por sua vez, possui praias maravilhosas (joguem Neah Bay no Google imagens).

E, a última observação desse capítulo, juro!, quero dar uma explicação rápida dos nomes dos irmãos da Mellanie. Com exceção a Sam, Caty e Joel, que, como Mellanie, cresceram sobre a proteção de sua mãe humana, os outros nasceram e viveram na Romênia (sim, me inspirei no FILME Blood & Chocolate, não no livro). Conseqüentemente, todos eles têm nomes ligados a lobo. Louve, por exemplo, além de significar amor (dã-ã, é quase 'Love'), significa lobo fêmea, etc. Então não estranhem os nomes. Jean-Claude surgiu do nada, assim como a Louve entrando na história, mas Jean não aparecerá do nada, já que não pretendo dar uma de escritora chata que revive seus personagens absolutamente do nada. Então não esperem o francesinho que primeiramente fora o Eterno da Louve (mesmo que algumas amigas minhas tenham me feito pensar várias vezes para ver se eu fazia Jean virar um Valentine da vida, que armou sua própria morte e voltou para assolar a vida da mãe da Clary, Jocelyn, e virar um vilão muito medonho. Para isso, basta o Aro xD ).

EDITADO: Caius é o cara que odeia Lobisomens. Achei irônico colocar que ele se afeiçoasse de alguma forma por um. Eu e meus clichês...

EDITADO 2: Ah, antes que alguém me mate pelo o "afeminado" do Caius, favor ver a escalação do ator que fará o tal dito cujo personagem. Se aquilo não for andrógeno, eu sou a Xuxa. (Mesmo que, 1) Eu não concorde com 99,9% das escalações para Twilight-New Moon, 2) Não, eu nunca desejaria ser a Xuxa, apenas se isso significasse que eu poderia tomar água de coco todos os dias ao em vez de água por "ajudar na hidratação da minha pele", 3) QUEM DIABOS DISSE QUE O MARCUS PARECE UM CARA DE QUASE CINQUENTA ANOS? MEU MARCUS - haha, possessiva é eufemismo - ERA PARA SER POR VOLTA DOS 30, NÃO UM QUASE-IDOSO MEDONHO. Até mesmo meu pai é mais bonito que aquilo /queamor, e 4) Quando eu for assistir New Moon - claro, se ainda me sobrar coragem de gastar 5 reais vendo aquela computação gráfica de filmezinho brasileiro à lá Caminhos do Coração: Os Mutantes - mais uma vez, desculpa se você gosta daquilo, mas eu não - em vez de ficar com medo do tal dito cujo que fará o Caius, vou ficar cantando "I feeeeeel you, Johanna!" ou então, com uma baita vontade de comer torta /viciadaemmusicais)