Uma pequena parte deste capítulo foi inspirada no conto "A Doida", de Carlos Drummond de Andrade.

~Acônito

"Queres a minha morte"

Capítulo 08 – ... e o fim.

"When the daylight comes

Do you feel it?

Leave your bag of bones

Underneath your bed

Everything is as it should be

I'm leaving now as I should be" *

The Naked and Famous, "No Way"

~x~

Fazia frio. De uma maneira abstrata, ela o sabia. Era como uma verdade incontestável.

Enquanto, sabidamente, fazia frio, ela também se sentia aconchegada. Olhou para cima e viu olhos cinzentos. Uma mão pálida e de dedos esqueléticos lhe tocou no nariz, antes de se afundar em seu cabelo.

"Tanna japonensis." Uma voz profunda disse.

"O que?" Ela disse. Ou pensou que disse.

A mão pálida se afastou de seu cabelo para aproximar-se de seu rosto. Segurava um bicho estranho, meio verde, meio marrom, de asas longas e transparentes.

"Tanna japonensis" repetiu a voz profunda. "Esta cigarra, cigarreando e fumando cigarros fortes, havia feito morada no seu cabelo."

Ela sorriu. Para o dono dos olhos cinzentos – mas ela só via os olhos e o cabelo crespo – e para a cigarra, que retribuiu e soprou uma pequenina nuvem de fumaça, antes de voltar para seu cabelo.

Sentou-se e descobriu que ela era a cigarra. Ele também era a cigarra mas, ao contrário dela, ele bateu asas e voou.

Chovia, lá fora. E uma vez mais aquele sentimento de que nunca mais iria parar de chover pulsava no coração de Hinata. Ela estava deitada na cama, o coração acelerado, a respiração ofegante, a água martelando o vidro e a luminosidade cinzenta invadindo o quarto. Fora um sonho. Estranho como sonhos devem ser, mas que mexera profundamente com ela. Deitou de lado e se encolheu, abraçando o peito e agarrando seu colar de pingente de borboleta para acalmar o coração e suprimir a vontade de chorar. De tristeza e de saudade.

Hinata sentia tanta falta de Shino. Tanto quanto sentia de sua mãe ou de seu primo que partira. Sentia falta dele, apesar de tudo, mesmo que odiá-lo fosse a decisão mais sensata.

Depois de muito tempo, notou o quanto a casa estava silenciosa. O que era de se esperar, Gaara nunca foi de fazer barulho. Era incrível quando, mesmo que ele estivesse ao seu lado, ela não percebia sua presença. Levantou-se da cama com o intuito de verificar se o garoto estava em casa e, depois de caminhar pelos cômodos acessíveis, descobriu estar sozinha. E invariavelmente trancada.

Gaara deveria estar num de seus compromissos duvidosos, imaginava. Voltou à cozinha para tomar um copo d'água e ficou olhando pela janela, observando a vista do quintal decadente e tomado pelo mato alto. Suspirou, sentindo-se imensamente cansada.

Sequer fazia ideia do que por que estava ali, embora a vontade de ir embora há muito se perdera. Estava ali há um tempo e notou que sequer conhecia a casa inteira.

É claro que não era exatamente um lugar grande. Era uma casa simplória, num bairro simplório. Por "não conhecer a casa inteira", referia-se a nunca haver explorado-a, de fato. Nunca procurara nada em especial pela casa, ou revirara gavetas em busca de tesouros, e nunca entrara naquele outro quarto, o qual Gaara sempre mantinha fechado e entrava apenas para pegar roupas.

Deixando o copo sobre a pia, caminhou para o corredor e estacou os passos em frente à porta do dito quarto, onde ficou parada por vários minutos.

Era o quarto dele, o irmão morto de Gaara. Sabia disso por que o rapaz estranho a proibira de entrar ali. Apenas juntara a mais b.

Por fim, balançou a cabeça, sentindo-se imensamente boba. Não tinha o direito de estar ali, como se fosse Bela explorando a Ala Oeste do castelo da Fera. Quando se virou, para sua surpresa, Gaara estava parado, fitando-a com olhos impassíveis. Este fechou os dedos ao redor de seu pulso e a levou de volta ao quarto onde dormia.

Estava encolhida, com frio, uma pergunta impertinente coçando na ponta da língua. Gaara estava sentando ao seu lado, de olhos fechados e com uma expressão tão neutra que poderia estar morto. Ele tinha um cigarro aceso, quase no fim, preso entre dois dedos pálidos.

- Sente falta dele? – perguntou, receosa, depois de muito tempo. – Você sabe, do seu irmão.

Gaara abriu os olhos, mas não a encarou. Fitava nenhum ponto em particular, dentro de sua mente. Passaram-se tantos minutos que Hinata teve tempo de se arrepender centenas de vezes por não segurar a própria língua. Encolheu-se mais um pouco em suas cobertas puídas e esperou não tê-lo aborrecido. Não tê-lo magoado com sua curiosidade tola.

A resposta não veio naquela hora. Tudo o que Gaara fez foi acender a mais um cigarro.

~x~

A chuva já havia passado há um tempo, mas Kankurou estava molhado e tiritando de frio. Refugiara-se sob a cobertura de um bar e torcia sua touca antes de tomar seu rumo. Seus tênis encharcados rangiam num irritante barulho e a arma de Sasuke, presa à sua cintura e escondida pelo casaco grosso, estava gelada contra sua pele.

Era um final de tarde de um sábado cinzento e de ventos enregelados. As ruas estavam desertas. A época exclusivamente de chuva parecia chegar ao seu limite, assim como a paciência de Kankurou naquelas últimas semanas.

A oportunidade de executar o último ato daquela peça de fogo e pólvora não lhe fora concedida.

A coisa não poderia ser feita de qualquer jeito, de modo que deveria desfrutar de seu resultado. E compartilhá-lo com seu líder.

Ao virar em uma esquina, sentiu que a sorte estava ao seu lado. Sim, Lady Lucky Strike lhe sorria. Lá estava o dito imundo, o vagabundo ordinário que planejava levar sua irmã embora, caminhando daquele jeito irritantemente lento e despreocupado. Ah, mas se ele pensava que lhe iria tirar sua irmã, estava muito enganado.

Kankurou sacou a arma, e a pistola de calibre pequeno nunca pareceu pesar tanto, puxando seu braço para baixo. Era como segurar um tijolo. Era a hesitação, o medo, que apossava-se de seu corpo e sussurrava em seu ouvido que desistisse. Não, ele não iria desistir, precisava provar seu valor, precisava se livrar daquele empecilho.

O homem estava de costas, as mãos nos bolsos. Caminhava lentamente, mas estava se afastando. Não conseguiria acertá-lo se estivesse longe demais, precisava ser rápido. Entretanto, seu braço continuava pesado e agora todo seu corpo parecia estar se tornando pedra.

Uma gota gelada de suor lhe escorreu na têmpora.

Apertou os olhos e, às cegas, puxou o gatilho.

"Já viu alguém levar um tiro na cabeça? É um barulho surdo e molhado, como um bastão golpeando uma melancia", disse, certa vez, "Eel" O'Brien, alter-ego de um personagem de histórias em quadrinhos. Ele não poderia estar mais certo.

Shikamaru caiu pesadamente no chão e, de alguma maneira, como se o Universo conspirasse para que a cena se tornasse mais dramática do que o necessário, seus cabelos se soltaram do elástico e se espalharam no asfalto, ao redor de sua cabeça, e se empapavam do sangue que diluía-se na água da chuva que caíra a pouco.

Kankurou saiu correndo dali, aos tropeços, antes que os ecos do disparo cessassem.

~x~

Gaara estava na cozinha com Hinata, a luz amarelada da lâmpada incidindo sobre os dois. A garota estava sentada à mesa, as pernas encolhidas e um cobertor puído enrolado no corpinho febril, enquanto Gaara preparava sanduíches de queijo quente no fogão enguiçado.

No decorrer daquelas semanas, esta havia sido a alimentação básica dos dois, além de comida congelada e macarrão instantâneo. Hinata já estava farta daquele cardápio invariável – que aliava-se à sua crescente falta de apetite - e suspeitava que seu estranho companheiro também estivesse, mas Gaara empurrava tudo por sua goela abaixo com garrafas e mais garrafas de suco de maçã. No entanto, nada surtia efeito contra a rápida perda de peso da garota.

Gaara depositou um prato de sanduíches sobre a mesa, pegou duas garrafas na geladeira – cerveja e suco – e sentou-se de frente para Hinata.

- Coma – disse, e Hinata assentiu destampando a garrafa de suco.

Apanhou um livro que estava sobre a mesa e procurou pela página onde pausara, já na metade da história. O adesivo de identificação da biblioteca já estava descolando, devido ao excessivo manuseio. Era o antigo livro de Neji, que este dera à prima antes de partir. Gaara havia ido até seu quarto no prédio decadente para buscar suas coisas. Para desespero da velha Chiyo, o rapaz estava mais grosseiro do que nunca – atitude que Hinata classificou como deselegante.

- Gaara? – chamou-o a garota. – Você nunca me disse por que foi atrás do Sasuke, naquele dia.

- Dinheiro. Poderia haver motivo diferente? – respondeu, seco, sem levantar os olhos do livro.

Molhou a ponta do dedo na língua e passou a página. Estava realmente gostando da história, embora fosse um tanto lento para ler. Entretanto, não continuou sua leitura. Deixou o livro sobre a mesa, ainda aberto.

- Uma coisa me deixou curioso. – Sua voz apática sugeria justamente o contrário de curiosidade. – De onde conhece o Uchiha?

Hinata o fitou com estranheza, imaginando o porquê daquela pergunta súbita. Esticou a mão até os sanduíches e queimou o dedo no queijo quente.

- Minha mãe – começou, depois de levar o dedo à boca – era madrinha dele, e vice-versa. Fomos criados juntos.

Gaara abriu sua cerveja com um suspiro e não deu sinal de que comeria ou daria continuidade à conversa. Coçou o queixo e pareceu pensativo. Então, um sorriso cruel pontuou em seus lábios.

- Então, vocês são como irmãos postiços que transam.

- O que?

- Você me ouviu. Irmãos postiços que transam.

De início, Hinata não entendeu o que Gaara quis dizer. Então, sua mente a levou até a última vez em que viu Sasuke. Parecia haver passado séculos desde aquele dia. Ele havia pagado seu café da manhã, passearam no shopping e foram para o apartamento dele, onde secaram uma garrafa de uísque e... Oh, não!

Seu estômago afundou-se e seu coração se apertou tanto que engasgou. Olhou para Gaara, ofegante, e aquele sorriso cruel ainda estava lá. Ah, ele sabia o que aquilo significava. Ele sabia que Hinata tornara-se o algoz de Sasuke Uchiha e isso o divertia.

- Ah, meu Deus. – Embora quisesse ter gritado, estas palavras saíram como um mero sussurro.

Levantou-se e suas pernas amolecidas quase a levaram ao chão. Tropeçando e cambaleando, a vista embaçada pelas lágrimas que se acumularam, correu até a porta da sala e tentou abri-la. Precisava sair dali, precisava ir embora, precisava desaparecer.

Deus, ela era um monstro.

A porta estava trancada e o choro se intensificou. Hinata soluçava e esmurrava o bloqueio de sua fuga. Mãos pesaram em seus ombros e a seguraram com firmeza.

- Que pensa que está fazendo? – perguntou Gaara, inabalável, forçando-a a olhá-lo.

"Preciso ir embora, não posso ficar aqui", Hinata tentou dizer, mas de sua boca apenas saíram soluços e engasgos.

- Eu não entendo essa língua. Respira e tenta de novo.

Como ele podia ser daquele jeito? Hinata respirou fundo e soltou o ar pela boca, devagar.

- Eu... Eu tenho que ir embora.

- Por que?

- Eu sou um monstro, Gaara. Eu...

E seu choro voltou com força infinita e implacável. Não havia chorado daquela maneira sofrida nem quando perdeu sua mãe. Seu corpo sacudia-se de tal forma que não se aguentou de pé, escorregando pela porta e caindo ao chão. Limpou o nariz na manga da camiseta e passou as costas da mão no rosto. Levantou a cabeça e olhou para Gaara, que enfiara as mãos nos bolsos das calças e a olhava de maneira impassível.

- Resigne-se, garota. Se você é um monstro, então está no lugar certo. – Deu um passo para trás. – Fique aqui, vou buscar seu suco.

E Hinata viu-se sozinha na sala. Encolheu-se e abraçou-se em sua insignificância monstruosa. Como pôde? Como pôde? Naquela noite, no apartamento de Sasuke, os dois entregaram-se ao desejo e, anuviados pela bebida, não se protegeram. Ela havia condenado Sasuke, para sempre. Ela o condenara com seu sangue sujo.

~x~

Temari bufava na frente do espelho de seu banheiro minúsculo. Tentava, em vão, dar um jeito em seu cabelo armado até decidir, por fim, apenas prendê-lo. Estava nervosa. Muito nervosa, na verdade. Estava à espera de Shikamaru, que a levaria ao cinema e, depois, ao restaurante favorito dos dois. Decidira que contaria sobre a gravidez após o jantar.

No entanto, não era apenas isso que a agitava. Um sentimento ruim em seu âmago lhe dizia que algo estava errado. Algo terrível havia acontecido, Temari só não sabia o quê.

Saiu do banheiro e sentou-se no sofá para calçar seus sapatos baixos e confortáveis e assistir TV até que seu namorado chegasse. O canal local exibia filmes clássicos estrangeiros aos sábados e, quando Temari ligou a televisão, O Adorável Vagabundo, de Frank Capra, estava ainda no início. A cena em preto e branco mostrava a jornalista Ann Mitchell bater freneticamente à máquina uma carta de suicídio na noite de Natal, em protesto contra a corrupção e a pobreza.

Temari estava vidrada na adorável cena da troca de olhares entre Barbara Stanwyck e Gary Cooper quando seu celular soou estridente dentro de sua bolsa. Apanhou-o, ansiosa, mas não era Shikamaru quem ligava, como havia esperado.

Era Chouji Akimichi, melhor amigo e colega de trabalho de Shikamaru. Com notícias de que seu amigo sofrera um acidente e estava no hospital. Sendo absolutamente evasivo ante a gravidade da situação, insistiu que Temari fosse encontrá-lo.

Temari, abalada, desligou a TV e saiu, quase esquecendo sua bolsa, ao encontro do que lhe roubaria o chão e o ar.

Quando chegasse ao hospital, encontraria Chouji - um rapaz robusto e costumeiramente agitado, mas com uma carranca no lugar da expressão sempre sorridente – na recepção. Ele a convidaria para tomar um café na cantina e Temari ficaria impaciente com toda a enrolação e a falta de informações satisfatórias por parte do rapaz. No instante em que declarasse que iria se informar por si mesma, Chouji se levantaria e, não mais aguentando, descarregaria a bomba.

Shikamaru corria risco de morte.

Encontrava-se, naquele momento, em delicada cirurgia para retirar um projétil que o acertara na cabeça e somente após a operação seria possível saber a extensão do dano. Não era conhecida a identidade do atirador ou o motivo.

Temari ficaria sem chão. Sem ar, sem voz. Cega, surda, muda e perdida. Chouji abriria seus braços roliços e diria que sentia tanto, mas que era preciso ter fé. Temari cairia em seus braços e, embalada por aquele abraço quente e aconchegante, como sentar numa imensa poltrona antiga, choraria por muito tempo.

~x~

Ela era um monstro.

Com estas palavras esmagando seu coração, Hinata chorou de tristeza por muito tempo. Todavia, a tristeza se transformou em raiva. Hinata sentiu raiva de si e da impassibilidade de Gaara, que só a encarava com aqueles olhos mortos, sem se importar com a dor que sentia. Sua raiva foi tamanha que fez o impensável: num dado momento, cansada daquele olhar que nunca dizia nada, levantara a mão e a lançara contra aquela face fria. A ira que tomou aqueles olhos a amedrontou por um instante, apenas, por que dos lábios que ficaram selados por todo o tempo, saíram palavras que a espantaram.

"Faça de novo."

E ela fez.

"De novo."

E ela fez.

"Vamos, pode fazer melhor do que isso. Descarregue sua raiva em mim."

E Hinata descarregou tudo, com tapas e murros na face e no peito de Gaara, que aguentou sem mais palavras. Na verdade, apesar de Hinata imprimir toda a raiva que sentia em seus golpes, estes não causavam danos. Sua condição tão frágil não permitiu que seus braços tivessem a força necessária para machucar Gaara.

E então, Hinata se cansou e sua raiva transformou-se numa melancolia sem precedentes. Suas pernas fraquejaram e levaram o corpinho ao chão, onde se curvou como uma bola e desejou ficar ali até que o fim viesse. Gaara, sentindo o rosto quente e o peito meio dolorido, a tomou nos braços, tão trêmula e ofegante, levou-a até o quarto e a aconchegou na cama. Lá fora, a madrugada já ia alta.

Ah, meu querido leitor, peço perdão por não dar tantos detalhes e por estar contando esta parte da história de maneira tão seca. Mas a verdade é que eu não gostaria de estar me alongando nesses relatos que não são tão importantes.

As consequência são importantes. As condições, nem tanto.

Portanto, é apenas necessário saber que toda a raiva que Hinata sentiu de si e da imperturbabilidade de Gaara deu lugar a uma melancolia devastadora. Pelos dias que sucederam aquela fatídica noite, Hinata permaneceu na cama, sem comer e sem se mexer. Parada, quieta e muda. Não chorava, mas também não sorria. E Gaara viu-se dono de uma boneca gigante e sem funções.

E isso mexeu com ele de uma forma estranha.

Foi no fim de uma manhã escura que Gaara se empenhou de uma maneira nunca vista. Estava cansado e aquela garota não podia mais ficar daquele jeito – até ele, com sua mentalidade torta, entendia isso. Então, no fim daquela manhã escura, Gaara estava à beira do fogão, cozinhando à exaustão alguns legumes cortados grosseiramente, para misturá-los a uma tigela de macarrão instantâneo e um pouco de carne refogada. Antes de ir até o quarto, provou do prato mais elaborado que já fizera e gostou. Foi com o acanhamento fascinado de alguém que aprecia o resultado de seu empenho que Gaara entrou no quarto, carregando a tigela de macarrão numa bandeja, junto de um copo d'água. Encontrou Hinata, nada surpreso, deitada de costas para si, encolhida.

- Garota – disse ele, encarando seu cabelo embaraçado, caído como uma cortina à beira da cama -, trouxe algo para você.

Ela sequer se mexeu.

- Eu me esforcei para preparar isto. Seria... Qual é aquela palavra que você usou outro dia?

Hinata virou-se e o encarou. Gaara reparou como seus olhos estavam caídos e suas bochechas estavam fundas. Apoiou seu peso na outra perna.

- Des... Deselegante?

- Isso. Seria deselegante se jogasse meu esforço no ralo.

- Desculpe, Gaara – disse ela, com a voz fraca. – Mas eu não estou com fome.

- Está sim. Isso é frescura. Vai morrer logo, mesmo, não há necessidade de ficar adiantando.

Hinata suspirou e sentou-se.

- Que sorte eu estar me acostumando a ficar presa aqui, com você.

Gaara aproximou-se.

- Vamos, vai comer ou não?

A garota o encarou de forma intensa, apertando os olhos por um instante.

- Essa sua resispiscência fajuta não é necessária, Gaara.

- Res-o que?

A maneira desinteressada com que Gaara falava, mesmo quando estava com raiva ou em profunda dúvida – e ele sempre ficava quando Hinata, propositadamente, usava palavras menos comuns que aprendera com o primo – a impressionava. Hinata nunca vira alguém tão desprovido de sentimentos e tão ridiculamente indiferente.

- Resispiscência. Uma espécie de arrependimento, com propósito de se corrigir. Você me mantém presa aqui, não sei exatamente por que, mas, ainda assim, cuida de mim.

Gaara apertou os lábios e pensou por um instante.

- Caralho, você usa umas palavras difíceis. – Hinata deu de ombros. – Mas se enganou, eu não me arrependo de nada.

- Não?

- De jeito nenhum.

- Então, por que se esforçou tanto?

- Por que eu quis.

Hinata levou as mãos ao rosto e riu. Uma risada de quem acaba de ouvir algo genuína e surpreendentemente engraçado, e que terminou numa tosse rouca, do fundo do peito, que durou muito tempo.

Gaara deixou a bandeja sobre o banquinho de madeira e sentou-se na cama. Aproximou-se de Hinata e encostou o ouvido em seu peito, onde ficou quieto por um instante.

- Seu peito está chiando. – Levantou-se. – Vou ligar para o Kakashi. – Hinata preparava-se para deitar novamente. – E você vai comer.

Hinata apanhou a tigela de macarrão e levou um punhado à boca. Mastigou e engoliu com esforço – tudo isso sob o olhar de Gaara.

Aquele ruivo era tão estranho que, por vezes, Hinata duvidava que o rapaz fosse real. Havia dias em que ficavam sentados lado a lado, sem dizer nada, apenas respirando a vida e a história um do outro. E havia dias como aquele. Lá no fundo, seus sentimentos em relação a ele começavam a mudar. E aquele macarrão estava realmente bom.

Após certificar-se de que a garota estava comendo, sacou o celular do bolso. Deu as costas à expressão satisfeita que começava a surgir no rosto dela e ouviu os toques da chamada. Entretanto, no exato momento em que ouviu a voz de Kakashi do outro lado da linha, algo errado sucedeu-se. O som úmido e gorgolejante chamou sua atenção e, ao virar-se, a garota estava vomitando.

Literalmente, jogando seu esforço no ralo.

- O que está acontecendo aí? – ouviu a voz de Kakashi do outro lado da linha.

- Dê um jeito de vir para cá, agora – e encerrou a ligação.

A garota debruçara-se à beira da cama e seu corpo se sacudia em espasmos. Desviando da poça de cor e odor desagradáveis, aproximou-se e segurou seus cabelos, evitando que sujassem. Por fim, quando pareceu que não havia mais nada a ser violentamente expelido, tomou o corpo sujo e trêmulo nos braços e a carregou até o banheiro.

- Limpe-se enquanto eu dou um jeito no quarto – disse quando a sentou sobre tampa fechada da privada. Ela assentiu e Gaara voltou ao quarto.

Hinata sentia-se péssima, em todos os sentidos da palavra. Sentia-se péssima por estar dando trabalho a Gaara, de uma forma muito desagradável. Sentia-se péssima por que não conseguia fazer o corpo parar de tremer, por que não conseguia se mexer tampouco se levantar para tomar um banho. Depois de alguns instantes, Gaara voltou ao banheiro e Hinata imaginou que veria uma expressão de exasperada impaciência naquele rosto pálido. Ele, no entanto, apenas a encarou.

- Desculpe, eu... eu não consigo me levantar.

Gaara assentiu e saiu, voltando logo em seguida com o banquinho de madeira que ficava no quarto. Aproximou-se e a ajudou a tirar a enorme camiseta velha que usava. Ele ainda fazia aquilo de maneira desapaixonada, assim como grande parte das coisas que fazia.

Maldição de garota! Droga, lá estava aquela expressão melancólica de novo. Enquanto a despia, ela se encolhia mais e mais, tentando cobrir-se e corando. Aquilo o confundia, às vezes. Tomou-a novamente nos braços, fria, leve e pequena, e sentou-a no banquinho, bem abaixo do jato do chuveiro.

Sentiu vontade de rir com o salto que ela dera quando abriu a água. E o colorido envergonhado de seu rosto tornou-se mais forte ao perceber sua intenção de lhe dar banho.

- Não precisa, Gaara. Acho que agora eu dou conta – ela começou a dizer, fracamente, e Gaara apenas a cortou.

- Fique quieta.

Alcançou a lasca de sabonete bege barato e lhe esfregou o braço com certa brusquidão. Ela não pareceu se importar, mas ainda cobria os seios com a mão livre.

- Desculpe-me, Gaara – ela disse tão baixinho que ele quase não ouviu.

- Pelo quê?

- Eu... só dou trabalho a você.

Gaara suspirou e ensaboou o outro braço. A garota não disse mais nada, apenas abaixou a cabeça, a expressão de extrema melancolia nunca lhe abandonando a face. Gaara fitou aquela expressão.

- Eu já lhe disse que faço tudo isso por que quero, não disse? – Ela assentiu e abriu a boca para dizer algo, mas Gaara a cortou. – Eu ainda estou falando. Quando eu a encontrei e você me disse de onde vinha, disse também que havia mudado a ponto de não mais se reconhecer. – Ela assentiu novamente. – Pois eu acho que você permanece do mesmo jeito que sempre foi. – Ela o encarou, surpresa. - E eu também não estou me reconhecendo, agora. A diferença é que não estou me questionando. Agora, vire-se.

A garota lhe deu as costas e Gaara, depois de afastar o cabelo volumoso, as esfregou com mais suavidade. De uma maneira estranha, e apesar das circunstâncias, estava aproveitando aquele momento. Foi aí que o telefone tocou no bolso de sua calça completamente úmida. Levantou-se para atender.

Que fortuito, era Kankurou. Estranhou, o rapaz tinha uma voz exaltada, transbordando uma alegria pouco característica. Tropeçava nas palavras e não dizia coisa com coisa, o que o irritou.

- Fale mais devagar – disse, embora estivesse completamente desinteressado com o que quer que fosse que o rapaz tinha a dizer. Ouviu Kankurou suspirar do outro lado da linha, para começar a falar mais contidamente.

À medida que o rapaz falava, Gaara se enfurecia mais e mais. Apertou o celular na mão a ponto de ouvi-lo estalar. Por fim, perguntou, a voz mais cortante do que nunca:

- Está em casa? Estou indo aí.

Ao encerrar a ligação, atirou o celular para longe e este, por sua vez, espatifou-se no chão. Voltou-se para a garota e esta o encarava num misto de medo e apreensão. Aproximou-se e desligou o chuveiro. Sem proferir palavra, a enrolou numa toalha e tomou-a nos braços para levá-la de volta ao quarto.

A explosão repentina de Gaara assustou Hinata, que se perguntava sobre o que aquela ligação poderia se tratar. Encarou Gaara por um instante e o esgar que pesava em sua feição a preocupou.

Adentraram o quarto e ela percebeu que os lençóis foram trocados e o chão estava limpo. Mas ainda havia um odor certamente desagradável sob o cheiro de desinfetante de pinho. Ele se esforçava mesmo.

Gaara a deixou sobre a cama, onde havia roupas limpas.

- Surgiu um problema que eu terei de resolver – disse ele. – Quando Kakashi chegar, peça que ele fique com você até que eu volte. Deixarei a porta destrancada.

- Vai confiar em me deixar destrancada? – perguntou.

Um canto de seus lábios puxou-se levemente.

- Como se conseguisse ir a algum lugar desse jeito.

E, embora se sentisse um tanto hesitante por deixá-la, saiu.

~x~

A casa em que Kankurou e Temari viviam ficava a algumas ruas de distância, portanto não demorou muito para que Gaara estivesse atravessando o caminho de pedra até a porta. Kankurou já o esperava e parecia muito agitado. Provavelmente estava ansioso em saber o que seu líder pensava acerca do que fizera. Mas Gaara parecia calmo demais. Desatento a esse detalhe, Kankurou começou a falar, mas logo foi interrompido.

- Onde ela está?

Kankurou entortou a cabeça para o lado, confuso. Estaria perguntando por sua irmã?

- Ela quem?

- A arma.

- Ah.

Levantou a camisa e puxou a pistola, presa à sua cintura. Um pouco trêmulo, entregou-a a Gaara, que apertou os olhos e analisou-a entre os dedos quase da mesma maneira como Kankurou fizera no apartamento de Sasuke. Aproximou-se do rapaz tão rápido que Kankurou mal se deu conta até estar contra a parede, tendo a mão de seu líder apertando seu pescoço.

- Que está fazendo, Gaara? – perguntou, assustado. Por vezes, vira aquela expressão diabolicamente assustadora na face do outro, uma apavorante careta de ódio. Mas nunca destinada para si.

- O que estou fazendo? Acho que vou matar você – disse Gaara, de um jeito sombrio.

- Mas, eu...

- Você é um idiota. Em que estava pensando?

- Eu queria ser como você.

- Ser como eu? Matando o pai do filho da sua irmã?

A expressão chocada no rosto extremamente avermelhado de Kankurou apenas serviu para deixar Gaara mais furioso. E o fez pensar se tinha o direito de estar com raiva, sendo ele mesmo um grande filho da puta. Mas fizera uma promessa a Temari, e falhara miseravelmente. Sentiu o monstro se debater dentro de si e quase se descontrolou.

Kankurou ouviu a arma disparar e apertou os olhos, sentindo a bexiga esvaziando-se vergonhosamente e esperando que a dor viesse. Mas não veio. Percebeu que Gaara atirara bem próximo ao seu pé, onde sua urina formara uma poça.

Gritou quando Gaara encostou o cano quente da arma em seu queixo.

- Ai, ai, Gaara. Isso queima.

- Você fede como todos eles.

Mas tudo que Kankurou fez foi choramingar. Iria morrer, iria mesmo morrer. Deus, não queria morrer. E sua irmã... Estava grávida? E se matara mesmo o pai de seu... Deus, Temari iria ficar destroçada. Como pôde, como pôde?

Gaara ainda apertava seu pescoço e tudo começava a escurecer. Foi então que sentiu escorregar e cair ao chão, mergulhado em sua própria vergonha.

- Morrer assim seria fácil demais para você.

~x~

Logo após haver deixado Kankurou, Gaara voltou para casa. Atravessava o corredor com seus passos silenciosos e, ao adentrar o quarto, viu Kakashi comodamente sentado ao pé da cama e os cabelos da garota espalhados no travesseiro.

- Oh, verdade? – perguntava o enfermeiro. – Pensei que cantassem até explodir!

Ouviu uma risadinha fraca, mas divertida.

- O senso comum é engraçado, senhor Kakashi – disse ela, lenta e fracamente.

- De fato, minha querida. E... Oh, Gaara – fez Kakashi quando notou o outro na porta. – Que bom que chegou. Acabo de descobrir que as cigarras cantam para atrair as fêmeas. Sabia disso?

- Hm.

Era uma resposta um tanto evasiva, não sendo propriamente uma afirmação ou uma negação. Gaara aproximou-se da cama e notou certas diferenças na garota. Sentia um cheiro agradável vindo dela. E notou, com disfarçada surpresa, que a franja terminava na linha de suas sobrancelhas – diferente daquele estranho e errado pedaço curto de cabelo.

- Que acha, Gaara? – perguntou Kakashi. – Ela não está adorável?

Percebeu um certo corado na pele acinzentada da menina.

- Está sim – respondeu, seco.

- Foi interessante fazer uso de minhas habilidades com a tesoura – disse o enfermeiro num tom ligeiramente convencido. – E, se não se importa, trouxe-lhe algumas roupas. Ou esperava que ela usasse suas camisetas para sempre?

Gaara ignorou o comentário e virou-se para a porta.

- Precisamos conversar.

E saiu do quarto. Kakashi deu um último sorriso amistoso para Hinata, como despedida, e acompanhou o outro. Encontrou-o na cozinha, tirando duas garrafas de cerveja da geladeira.

- Interessante como seu estoque nunca acaba – comentou.

- Paremos com a enrolação, Hatake.

- Certo, certo.

Aceitando a cerveja, sentou-se à mesa e encarou o outro por um momento.

- Olha, ela tem febre, tosse e emagreceu de forma impressionante desde a última vez. Não preciso de uma radiografia para saber que é pneumonia. E um tipo bem específico e oportunista. – Deu uma olhada séria para Gaara, que assentiu sem alterar sua expressão. – Como eu faço o tipo precavido, trouxe uma caixa de azitromicina.

- E vai funcionar?

- Eu, sinceramente, não sei – disse Kakashi, abaixando os ombros. – Seria adequando levá-la ao hospital, mas ela não quer ir. - Gaara soltou o ar com algo de irritação, mas não disse nada. – Acredito que não tenha nada a ver com isso.

- Não seria deselegante a esse ponto.

Kakashi resistiu à vontade de sorrir quanto à escolha do adjetivo.

- Tudo bem. São três comprimidos, eu já dei o primeiro. Você vai dar os outros, um a cada dia. E vai se certificar que ela coma – Gaara revirou os olhos – e beba água, pois é provável que fique desidratada.

- É só isso?

Kakashi o fitou por alguns instantes e coçou a barba. Olhou para seus sapatos de enfermeiro, surpreendentemente limpos para aquela época chuvosa.

- Por enquanto. Liga quando precisar.

Gaara assentiu e viu Kakashi ir embora, sem sequer tocar na bebida.

~x~

Temari já levava dias naquele hospital, sem descanso, sem conforto, sem consolo. Seus olhos não deixavam de fitar, por um instante que fosse, o rosto neutro de Shikamaru. Ele estava sempre em repouso, sem se mexer e dar sinal de que ainda estava ali. Mas era um repouso tranquilo, como se tivesse cochilado no sofá enquanto assistia a um filme qualquer.

Estava escuro, lá fora, e incrivelmente frio. Temari sentia-se congelar até os ossos, os joelhos ficando rígidos enquanto tentava ficar confortável naquela poltrona. Por um instante, pensou o quanto Chouji sofria quando passava a noite ali.

Sem conseguir dormir, levantou-se para conferir se Shikamaru estava bem acomodado, se havia cobertores o suficiente. Aproximou-se e ajeitou uma mecha de cabelo crespo fora de lugar e quase se desmanchou. Mordeu o lábio para segurar o choro que subiu até a garganta. Dias antes, Chouji havia segredado a ela os planos de Shikamaru. Ele faria o pedido, só esperava a hora certa. Comprara até um anel, e Temari imaginava o quanto aquilo poderia tê-lo desconcertado. Shikamaru nunca foi do tipo de esboçar grandes emoções ou de seguir convenções sociais.

Tocou o braço imóvel na cama e sentiu que a pele dele estava quente e aconchegante. Era mesmo somente uma espécie de repouso. Mas por que ele não abria os olhos?

- Ei – disse, um tanto hesitante. – Eu não sei se você pode me ouvir. Talvez até possa, mas você sabe que eu não perco tempo lendo sobre essas bobagens. Acha que eu devia? – Sorriu com escárnio para si. Ele não responderia, e sabia disso. – Chouji disse que você queria casar comigo. Eu não entendo isso, realmente. Eu sou tão... – Parou por um instante e voltou a morder o lábio, com algo de dúvida. – Como planejava fazer esse pedido? Tenho certeza que não ajoelharia na minha frente, nem nada do tipo.

Sentou-se na cama meio de lado, era alta demais, de modo que seu pé ficou pendendo no ar. Suas costas doíam e sentia que ir até a cafeteria seria uma boa, um suco e um sanduíche fariam bem. No entanto, não se moveu. Suspirou e segurou a mão de Shikamaru, apertando os dedos dele entre os seus e compreendendo o que havia de errado naquele repouso. Faltava aquele cheiro já arraigado de cigarros. Costumava reclamar dele, mas já começava a sentir imensa falta.

- Não é o melhor momento para falar disso, mas pode ser que você não abra seus olhos outra vez. E, além disso, o Chouji não segurou seu segredo. – Colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e se ajeitou melhor na cama. Sorriu. – Agora sei por que não contei antes. Eu não sei como fazer isso. Eu estou grávida de você, Shikamaru.

A pior parte era certamente a falta de reação. Nada de sorrisos, ou uma expressão chocada. Nada.

- Nós íamos ter uma família – disse, começando a ceder às lágrimas. – Íamos mesmo. Oh, por favor, por favor, por favor. Não me deixe. Não consigo fazer isso sem você. Por favor, abre os olhos. Promete... Promete que não vai me deixar fazer isso sozinha.

Temari entregou-se às lágrimas que segurou durante muito tempo. Dias, meses, anos sem demonstrar fraqueza. Mas não fazia sentido se segurar naquele momento.

Foi aí que o inimaginável aconteceu. Entregue aos soluços, não percebeu um aperto sutil em seus dedos antes que esse ficasse mais firme.

- Eu prometo – ouviu uma voz franca e rouca sussurrar, seus soluços interrompidos com brusquidão e os olhos marejados, arregalados como pratos. – Eu prometo. Só se você me deixar dar a ele o nome de Kumo.

Se pensar sequer uma vez, Temari lançou-se sobre o corpo desperto de Shikamaru. Um alívio tão imenso inundava seu peito, que sentiu que não era nada mal chorar mais um pouco, agarrada a ele. E foi o que fez, apenas agarrada ao avental estéril que ele vestia, por um tempo que não contou.

Sabe, meu companheiro leitor, aquela bobagem sobre desejar tanto uma coisa que ela acaba acontecendo? O tal "quem espera, sempre alcança", ou algo assim. Encare-o como quiser – sorte, otimismo, ou simplesmente alguém resolveu interceder por você.

Eu desejei poder fazer algo além de contar essas histórias trágicas, algo além da narração onisciente e onipresente, algo além dessa odiosa heterodiegese. Desejei que Temari pudesse ter um fim diferente àquele originalmente escrito.

Oh, meu querido companheiro, eis que o Senhor Destino, com seu rosto sem expressão e cordas gastas pendendo das pontas dos dedos, mexeu seus pauzinhos em favor da pobre moça. Talvez você pense que tal cavalheiro possa ter se movido a meu favor, atendendo aos caprichos de tal melancólico ser. Pense o que quiser.

Eu imagino que, assim como a mim, o Destino possa ter se encolerizado ante aos sorrisos charmosos da Senhora Sorte - de Lady Lucky Strike – para com o pobre rapaz de coração fraco e tolo. A Sorte sorriu para Kankurou e o seduziu, aconchegando-o em seus braços esguios e envolvendo-o com a fumaça de seus cigarros slim com sabor de cravo, sem importar-se com as conseqüências. Ela pode, por vezes, ser uma dama corrupta.

A verdade é que a sorte e o destino são faces opostas da mesma moeda, dois lados de um mesmo ser. Mas a sorte é tendência, e o destino, fatalidade. A sorte apresenta suas combinações; o destino, o resultado. Assim foi, assim é, e assim será.

Mesmo quando não houver mais fantoches.

~x~

Gaara estava sentado na cama, tendo o corpo esguio da garota apoiado ao seu. Carregava um semblante seco, desapaixonado, enquanto ajudava-a a tomar um copo d'água. O remédio que Kakashi trouxera já havia acabado há dias e, a princípio, notara-se alguma melhora. Foi tão rápido e provisório quanto o sol exibindo-se durante aquela época.

Passados os efeitos desagradáveis do antibiótico, Hinata sentiu-se bem durante um tempo. Até sua saúde voltar a declinar, como se a doença reclamasse os dias sãos.

Gaara deitou-a novamente na cama e deixou o copo meio-cheio num canto, antes de se sentar no banquinho de madeira que parecia ter se tornado seu lugar fixo. Estava cansado de um jeito que nunca esteve.

- Ei, Gaara.

Ele olhou para a garota.

- O que?

- Já... Já esteve em semelhante situação antes?

- Não.

Hinata fechou os olhos e não disse nada por alguém tempo, fazendo Gaara imaginar que houvesse adormecido. Até notar seus lábios se moverem.

- Acho que não está sendo tão... ruim... estar aqui com você.

Gaara sorriu.

- Então, está tomando apreço por mim?

Hinata balançou a cabeça.

- Talvez. Eu...

Tosse.

- ... só...

Tosse.

- Eu só queria...

Fungada.

- Eu só queria não estar morrendo agora.

Abriu os olhos e Gaara a encarava com intensidade tamanha, que sentiu um calor subir por seu pescoço e se espalhar pelas orelhas.

- Não seja idiota – ele disse. – Só está viva por que está morrendo.

Foi a vez de Hinata sorrir, mesmo que fracamente. Ficaram em silêncio por um tempo, um silêncio contemplativo que se tornara comum entre os dois, um silêncio de esperar o fim. Hinata mergulhou em pensamentos a respeito do quanto a vida era estranha, e sequer notou certa movimentação por parte de Gaara.

Gaara sentou-se na beirada da cama e se inclinou até a garota, levando a mão e tocando-lhe a testa com a ponta dos dedos. Sentiu-a estremecer e fitá-lo com olhos cheios de dúvida e de um sentimento terno, como se estivesse confortável em ser tocada de um jeito tão simplório. Deslizou os dedos por suas sobrancelhas e traçou a linha de seu nariz, escorregando a palma por sua bochecha.

Sentiu a pele fria ficar quente e notou que a garota estava corando, sendo inevitável pensar nela como uma donzela pronta a sucumbir sob as garras do monstro. Com este pensamento, deslizou a mão até seu pescoço e fechou os dedos ao redor de sua garganta, como se fosse sufocá-la. Mas não o fez. Só queria tocá-la, nunca realmente o fizera.

Surpreendeu-se quando ela procurou sua outra mão e apertou seus dedos entre os dela. Tal gesto deu-lhe novas ânsias e Gaara afastou a coberta puída que a cobria. Sua mão sumiu por dentro da camisola cor-de-rosa de algodão que ela usava, um dos presentes de Kakashi, e a garota se encolheu quando sentiu os dedos de Gaara fazerem um caminho perigoso, correrem os ossos salientes de suas costelas e, por fim, roçarem em seu seio.

Aquele toque lhe tirou completamente o fôlego e sentiu vontade de esconder o rosto no travesseiro. Mas a presença de Gaara e a maneira com a acariciava eram poderosas demais para permitirem que se mexesse.

Gaara constatou com enorme satisfação que os seios dela eram macios, tal qual imaginou serem quando tencionou tocá-los há muito tempo. Depois de acariciá-los por vários minutos, tendo por resposta suspiros e arfares contidos, e a garota apertando mais e mais seus dedos entre os dela, sua mão fez o caminho inverso.

Sorriu com a expressão que ela fez ao perceber suas intenções. Sua mão escorregou para ficar entre a pele quente e a peça macia de algodão, e seus dedos abriam caminho entre os pelos encaracolados. Acariciou-a com vontade e numa lentidão enlouquecedora, sentido a umidade viscosa na ponta dos dedos. Ela estremeceu, arfou e ofegou, apertando seus dedos.

Para Hinata, aquilo havia sido de uma intensidade sem tamanho. Sentira-se flutuar numa névoa que nublava por completo sua mente. Em seguida, quando a abrasadora onda de calor se foi completamente, tudo o que restou foi um peso esmagador em todo seu corpo. Um cansaço que parecia pressionar seus músculos sobre a cama.

Buscou os olhos de Gaara e, à exceção de um brilho diferente neles, seu rosto permanecia o mesmo. Engoliu com força o ar, no intuito de acalmar sua respiração ofegante. Sentia já certa dificuldade em respirar.

Através de sua visão borrada, viu quando Gaara levantou a mão que há pouco a acariciava e observou seus dedos úmidos, percebendo, com certo horror, o que ele tinha em mente.

- Não, Gaara, não faça... – Uma debilidade estranha tomou as palavras e essas pareceram esquecer o caminho até seus lábios.

Gaara ignorou completamente seus fracos apelos e levou os dedos à boca. Constatou que ela era ligeiramente ácida e um pouco doce, como morangos ainda não totalmente maduros. Oh, pensamentos e constatações incomodamente ternos. Não sentiu a mínima vontade de censurá-los.

Desvencilhou os dedos que ainda se entrelaçavam aos dela e se levantou. Despiu-se da camiseta e, ignorando o frio que eriçou todos os seus pelos, desfez-se do resto de suas roupas. Aproximou-se e livrou-se das roupas da garota sem qualquer cerimônia. Olhando para a maneira débil com que ela tentava se cobrir e subindo na cama para posicioná-la entre suas pernas, Gaara perguntou-se o quê, exatamente, o movia.

Era desconfortável sentir seus ossos salientes, ao mesmo tempo em que tê-la ali era reconfortante.

À principio, ela lhe pareceu tão assustada. Os olhos dela demonstravam, pois as reações pareciam estar abandonando seu corpo frágil. Naquele momento, Gaara quis realmente ser uma pessoa terna. Dizer que estava tudo bem, que faria tudo ficar bem. Mas ele não era assim.

No entanto, Hinata entendeu. Algo no olhar de Gaara, enquanto sentia seu peso comprimindo-lhe o corpo contra a cama, a confortou. E embora tivesse grande vontade de esconder os seus por trás das pálpebras, concluiu que não poderia deixar de fitar aqueles olhos frios.

Os primeiros movimentos de Gaara foram suaves, mas estava ficando difícil para Hinata correspondê-los. Estava cansada. Tão cansada. Mergulhava numa escuridão fria, a consciência ficando para trás.

Até Gaara segurar seu rosto e obrigá-la a olhar em seus olhos. Frios, como duas pedras de fogo que não queima, e, de repente, a noção do que estava ao seu redor a assaltou. Estava plenamente consciente de quando Gaara apoiou as duas mãos ao redor de sua cabeça e aumentou o ritmo. A cama rangia e o estrado de madeira machucava suas costas através do colchão fino.

Apoiou as mãos no tórax de Gaara e escorregou as pontas dos dedos até seus ombros. Percebeu-se fascinada com a palidez leitosa de sua pele e com a maneira a qual era salpicada de pequenas pintas, como num singelo atestado de sua humanidade. Mas esse pensamento fugiu de sua mente quando sentiu novamente a onda de calor e a névoa. E tudo se apagou.

Gaara soube quando a garota chegou ao ápice, a pressão das pontas dos dedos dela foi mais forte em seus ombros. Continuou movimentando-se por alguns instantes e sentiu os músculos se retesarem e incendiarem, e o ar fugir de seus pulmões com um grunhido rouco.

Uma moleza gostosa tomou conta de seus braços e foi inevitável deitar-se sobre a garota para descansar por alguns instantes. Suas bochechas estavam muito próximas, o rosto afundado na curva de seu pescoço, o cheiro de sabonete de seus cabelos espalhados no travesseiro penetrando-lhe as narinas.

Sentia em seu peito a dificuldade dela em respirar, o estertor misturando-se à sua respiração ainda ofegante.

Separou-se dela novamente e sentiu frio quando o fez. Num lapso, um pensamento que não sabia de onde surgira, olhou pela janela e a surpresa preencheu seus olhos.

- Ei, garota, está nevando – disse, olhando para os pequenos flocos brancos que caíam rodopiando mansamente lá fora.

Desviou os olhos da janela e a fitou. Os lábios dela estavam separados, e os olhos, desfocados, sem mirar nada em particular. Seu peito se mexia minimamente.

Não, não agora.

Ainda tendo-a entre suas pernas, os joelhos apoiados na cama, esticou-se e abriu a janela até onde dava. Meros seis centímetros, o suficiente para deixar entrar um vento gelado e alguns flocos de neve, que caíram sobre a menina. O susto da neve gelada pareceu despertá-la, seus lábios tremeram levemente.

Gaara apoiou as mãos em suas costas e a levantou. Seus olhos continuavam sem foco e sua cabeça tombou para trás.

- Ei, garota – chamou-a novamente, sem resposta. Apoiou uma das mãos em sua nuca e ajeitou sua cabeça, procurando seus olhos. – Garota. – Os flocos de neve continuavam a entrar pela frestinha da janela, carregados pelo vento. – Hinata.

Um inspirar profundo entrou pelos lábios de Hinata, como num literal sopro de vida. Seus olhos recuperaram o foco e procuraram os de Gaara, enquanto suas mãos tentavam se apoiar nos ombros do rapaz.

- Gaara – sussurrou.

- Está nevando – ele repetiu, sem emoção, embora seu rosto estivesse intensamente concentrado ao dela.

Hinata desviou os olhos até a janela e acompanhou o trajeto de um floco de neve. Depois de outro, de outro, de outro... Até tudo voltar a ficar borrado. Sorriu. Olhou para Gaara e tentou focalizar seu rosto.

Gaara concentrou-se naquele sorriso manso, que parecia ser especialmente dirigido a ele. Os olhos de Hinata estavam perdendo o foco, ainda que permanecesse fitando-o. Ela mexeu os braços, enlaçando seu pescoço e surpreendendo com o gesto e com toda a ternura contida nele.

Abraçou-a. De verdade e pela primeira vez. Sentiu-a tocar os lábios em sua orelha e sussurrar em seu ouvido.

Com as palavras dela ainda ressoando em seus tímpanos, viu seus olhos fecharem vagarosos. Então, com uma mão, afastou a franja da testa suada e pregou ali um beijo desajeitado.

Está tudo bem. Nós fomos mesmo feitos para ter um fim.

~x~

*Tradução livre: Quando chega a luz do dia / Você sente? / Guarde seu saco de ossos / Debaixo da sua cama / Tudo é como deveria ser / Eu estou indo embora agora como deveria estar

~x~

Neste último capítulo, eu me senti como Karen Eiffel, personagem da Emma Thompson em "Mais Estranho que a Ficção". Especialmente na última parte, só me faltou uma carteira de cigarros amassada em que eu pudesse descontar meus sentimentos. Céus.

É o último capítulo - em seguida, virá um breve epílogo, brevemente encaminhado - e eu não sei realmente o que dizer. Foi uma história longa, cansativa, que roubou minha alma e me faz perceber o quanto era ruim de escrita. E eu a amo.

Agradeço imensamente a Srta Uzumaki, Nanda e Stoplight. Especialmente as duas últimas, que passaram a ler a partir do último capítulo. Bom ter vocês aqui, mesmo que brevemente. Sou obrigada a confessar que vocês me desarmaram, pensei que era a única a chorar com esse negócio. Ah, e Nanda, o que vale são seus sentimentos, não a maneira como os demonstra.

Bem, pensarei mais tarde num agradecimento mais adequado. Até o epílogo.