Wish I Could Fly
Wish I Could Fly
Halfway through the night
No meio da noite,
I wake up in a dream.
Eu acordo num sonho.
Echoes in my head
Ecos na minha cabeça
make every whisper turn into a scream.
Fazem cada sussurro se transformar num grito.
Jared fuzilava Jensen com os olhos. O loiro continuava a sustentar seu olhar sem ser capaz de dizer qualquer coisa que fosse. Era quase como se tivesse perdido a capacidade de falar. Fazendo um grande esforço, quase como se arrancasse algo que estava preso na garganta, Jensen conseguiu dizer:
—Desculpe, amor. Eu fiquei com alguém ontem.
—O quê?! —Jared o olhava incrédulo. —Quer dizer que eu fui todo cuidadoso com você achando que era um virgem nessa parte e na verdade você é um veterano? ...Um perito no assunto...?
—Jay, não é assim... —O sarcasmo na voz de Jared fazia Jensen pirar, mesmo por que ele era o sarcástico da dupla.
—Como foi que eu não percebi...? —Jared balançava a cabeça e ria sem a menor graça.
—Jared, também não é assim, porra! —Jensen perdeu a calma. —É fácil me julgar quando você esteve pegando homens e mulheres por aí durante todos esses anos?!
—Quem...? Quem te disse isso?
—O barman... —Jensen passou a mão pelo rosto limpando a fina camada de suor que se formara ali devido ao nervosismo. Aquela situação era no mínimo complicada. —Eu queria saber um pouco sobre você, então perguntei e...
—E isso te deu o direito de me enganar?
—Eu não te enganei, Jared. Se me lembro bem eu não disse nada sobre ser virgem, mas se serve de consolo eu só fiz uma vez antes de você...
—Que incrível, Jen! —O deboche inconfundível em sua voz — Você escolheu justo ontem para experimentar...? Que demais!
—Você tinha feito as pazes com sua esposa! —Jensen praticamente gritou — Estavam se agarrando na minha frente, bem aqui na minha sala... Você não sabe como me senti...
—Então você foi buscar consolo na cama de um cara...? —Jared continuou a rir como se Jensen estivesse contando uma piada de mau gosto — Que demais, Jensen!
—Eu não tinha intenção de ir para cama de ninguém. Eu fui para o bar encher a cara para ver se esquecia da cena de você se acertando com sua mulher. Acabou que bebi demais. Sai sem ver nada a minha frente. Um cara me amparou. Quando dei por mim estava acordando num quarto de motel com a conta paga e o leito ao meu lado vazio.
—Jen... —O risinho sem graça havia cessado — Está me dizendo que...?
—Sim. Eu nem sei com quem eu transei ontem. E eu não faço a mínima idéia do que esse cara está falando no bilhete.
Jared olhou para o outro lado e tomou fôlego como se estivesse se preparando para mergulhar num mar gelado. Jensen cruzou os braços esperando. Sentia-se a criatura mais estúpida do mundo. Tinha feito tudo errado. Primeiro o perdera em Berlim e agora que eles finalmente haviam se acertado, por que não fora capaz de contar sua aventura na noite anterior, estava o perdendo de novo.
I dreamed I could fly out in the blue.
Eu sonhei que podia voar,
De repente
Over this town followin' you.
Sobre esta cidade.
Seguindo você,
Over the trees, subways and cars.
Sobre as árvores,
Metrôs e carros.
I'd try to find out who you really are.
Eu tentaria descobrir
Quem você é realmente.
Estava com medo. Com medo que Jared virasse para ele e dissesse que não confiava nele o suficiente para desafiar a sociedade e até mesmo a lei de Deus por ele. Tinha medo de que ele o olhasse com nojo e se arrependesse do que havia acontecido naquela sala há alguns minutos.
In the middle of the night (middle of the night)
No meio da noite,
cool sweatin' in my bed.
Suando frio na minha cama.
Got the windows open wide,
Abri bem as janelas,
thinkin' about all the things you said.
Pensando em todas as coisas que você disse.
—Quer saber...? —Jared começou e Jensen fechou os olhos com força. Iria doer. Com certeza iria doer. —Quem sou eu pra te condenar, não é mesmo? —Jensen abriu os olhos completamente aturdido. —Até ontem à noite eu estava com a Julie. Eu não tenho como te condenar, amor... —Jared se aproximou dele e tomou seu queixo em uma das mãos fazendo-o erguer a cabeça e olhá-lo nos olhos. —De agora em diante, amor, eu sou o único homem com quem você vai se deitar e se por acaso você quiser sair para beber... Só se for comigo.
Antes que Jensen fosse capaz de sorrir em sinal de alivio, Jared já tomava seus lábios num beijo possessivo como se quisesse reafirmar o que dissera. Jensen era dele e de mais ninguém. Ninguém iria roubá-lo. Ninguém iria provar de novo o que era dele. Só dele.
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Meia hora depois, Jensen caminhava pelos corredores do hospital. Já havia se acertado apropriadamente com Jared e, embora sentisse um certo desconforto ao andar, estava satisfeito consigo mesmo e com o rumo dos acontecimentos. Jared conversaria com Julie assim que chegassem em casa e depois iria para o apartamento que Jensen alugara. Quando o divórcio saísse, os dois comprariam um apartamento e finalmente viveriam juntos. Ninguém precisaria saber que eram irmãos. Ninguém precisaria saber que estavam juntos. Tudo o que importava era um estar perto do outro.
—Dr. Ackles! —Jensen virou-se e se deparou com Drª. Flores. Ela parecia chateada e não era para menos. Ela havia se declarado a ele e Jensen a rejeitara sem muito tato por que estava ansioso para voltar para junto de Jared. Ao lembrar-se de toda a ajuda que a mulher lhe dera logo quando chegara, Jensen se sentiu meio culpado e decidiu conversar mais uma vez com ela, mas dessa vez faria do jeito certo.
—Drª. Flores. —Sorriu. —Hoje mais cedo... Desculpe-me. Eu não pretendia dizer daquela maneira. Você aceita um café? Podemos conversar um pouco.
—Eu sei por que você me rejeitou. —Ela disse sem olhar para ele. Sua cabeça estava baixa e a franja cobria os olhos. —Eu não sou do tipo preconceituosa, mas sabe... Tem algo que você precisa saber sobre esse homem.
—Flores...? —Jensen gelou. E ele que achava que as coisas não poderiam se complicar mais.
I wish I could fly out in the blue.
Eu sonhei que podia voar,
De repente
Over this town followin' you.
Sobre esta cidade.
Seguindo você,
I'd fly over rooftops,
the great boulevards to try to find out
who you really are.
Eu voaria sobre os telhados,
Sobre as grandes avenidas,
Para tentar descobrir
Quem você é realmente.
who you really are.
Quem você é realmente.
—Como você...? —Jensen não conseguia acreditar. Ele e Jared haviam sido tão descuidados! É claro que Flores escutara os dois. Também, só um surdo não os ouviria. E para o desespero de Jensen, ele tinha plena consciência de que seus gritos deviam ter sido ouvidos por metade do andar.
—Não importa como. Na verdade eu sempre soube que ele estava de olho em você. Mas... —Nesse instante ela ergueu os olhos e Jensen viu que ela estava prestes a chorar. —Jensen, você não faz idéia do tipo de homem com quem você está se envolvendo. Eu sei que ele parece ser o cara mais legal do mundo, mas... Você não tem idéia do quão longe ele pode ir para conseguir o que quer.
—Flores, sobre o quê você está falando?
—Eu tenho que te contar... —Ela agarrou suas mãos e chegou muito perto quase como se fosse lhe sussurrar um segredo.
—Dr. Ackles!— Jensen sentiu como se alguém o estivesse empurrando de um abismo. A voz de Jared possuía um tom ligeiramente irritado. —Se tiver um minuto, doutor.
—Claro, doutor. —Jensen libertou suas mãos das de Flores e virou-se com um enorme sorriso amarelo para Jared. O outro médico, com cara de poucos amigos, parecia tentar se controlar na frente da companheira de equipe e de Morrison, outro companheiro de equipe. —Nos falamos depois, Doutora. —Jensen se afastou da mulher.
—Na cafeteria ás seis! —A mulher gritou e Jensen viu um brilho bastante perigoso nos olhos de Jared. Estava com problemas.
—Lockhart quer ver as fichas e anotações do caso do último paciente.— Disse disfarçando sua irritação e caminhando entre Jensen e Morrison rumo à sala dos neurocirurgiões —Como ele acha que a cirurgia foi um grande sucesso quer tudo documentado para fazer uma espécie de biografia médica dos grandes feitos do Dr. Jensen Ackles.
—Que demais! —O tom de voz de Jensen era ligeiramente medroso. Ele sabia que assim que estivesse à só com Jared a coisa não seria nada agradável.
—Eu vou entrar em contato com o paciente e ver se ele autoriza a divulgação de seu nome. Enquanto isso, Morrison irá ajudá-lo com a papelada. Até mais, doutor.
—Até! —Jensen ficou vendo Jared se afastar. — Que coisa... Bem, vamos? —Sorriu para Morrison. O outro médico deu um meio sorriso de volta. Morrison era sempre caladão, mas era o médico mais competente de sua equipe depois de Jared.
I wish I could fly now.
Eu queria poder voar,
I wish I could fly now.
Eu queria poder voar,
I wish I could fly now.
Eu queria poder voar,
Os dois começaram a juntar todos os exames que o paciente havia feito e todas as anotações que Jensen e sua equipe fizeram ao vê-los. Era quase como tentar voltar no tempo. Ele tinha que se lembrar o que o levou a decidir pela cirurgia e como chegar até a conclusão de onde era a melhor forma de penetrar no crânio do paciente sem colocar sua vida em risco. Jensen que sempre agira muito por impulso e não tinha o hábito de registrar todo o diálogo com sua equipe, apenas os pontos mais importantes, estava tendo muita dificuldade em voltar atrás em seus passos para descobrir como chegara até o ponto do sucesso. Para sua sorte, Morrison anotava até a menor palavra que Jensen e sua equipe diziam durante as reuniões. Graças a ele, Jensen levou apenas duas horas para juntar tudo o que Lockhart queria.
—Ufa! Conseguimos! —Jensen deu um tapinha nas costas de Morrison. —Agora é só entregar ao Lockhart e se ele não me pegar de conversa ainda chego a tempo de me encontrar com a Flores.
—Se seu encontro com ela é assim tão importante, eu posso levar isso para o Lockhart. —Morrison ofereceu.
—Não... —Jensen sorriu. O outro homem era caladão, mas era sempre muito gentil. —A Flores disse que quer me contar uma coisa importante, mas acho que é só dor de cotovelo mesmo... Ops! —Jensen percebeu que falara demais quando já era tarde. Aquilo havia escapado sem que percebesse que estava falando com um quase estranho, por mais que fosse de sua equipe. —Olha, Morrison, isso fica só entre nós. —Jensen pediu.
—Por que eu espalharia isso. —Morrison disse sem fazer caso do assunto.
—Tem razão. —Deu outro tapinha nas costas do homem. —Então eu vou ir lá entregar a papelada.
Mal saiu da sala e foi puxado por um Jared furioso que o atirou, sem o menor cuidado, dentro de sua sala que ficava ao lado da sala de neurocirurgiões.
—Jay, quê isso!? —Protestou esfregando o pulso que fora agarrado sem um pingo de gentileza por seu amante.
—Quê isso pergunto eu. —Jared cruzou os braços. —Você marcou um encontro com a Flores?
—Claro que não, Jay! —Jensen já estava achando que era quase melhor quando ele e Jared tentavam se manter longe um do outro. Se Jared fosse começar a ficar cheio de ciúmes por qualquer coisinha era melhor pensarem sobre assumir o relacionamento dos dois logo, assim evitariam desentendimentos futuros. —A Flores se confessou para mim mais cedo. Como eu estava louco para te ver eu fui meio seco com ela, então a convidei para um café para me desculpar da falta de cortesia.
—Então ela ta afim de você e o que você faz...?! Convida ela para sair! Que idéia de gênio, Jensen!
—Ei, grandão! Não é assim também não. Eu só vou me encontrar com a Flores por que alguém tem tara por me pegar na minha sala em pleno expediente e ela descobriu tudo.
—O quê?!
—O quê?! —Jensen o imitou. —É isso mesmo. A Flores descobriu sobre nós e ainda veio para cima de mim com um papo de você não ser o cara que eu penso que é e que tem coisas sobre você que eu preciso saber.
—O quê?! A Flores levou um fora de você, descobriu sobre nós e ainda quer me ferrar inventando historinhas ao meu respeito para você...? Eu não posso acreditar. —Jared passou as mãos pelos cabelos. —Ela sempre pareceu ser tão gente boa...
—Seja lá o que ela sabe ou acha que sabe sobre você, ela só vai sossegar quando me contar. —Jensen disse. —Olha, eu vou até lá, falo com ela, acalmo a criatura e ponto final.
—Você acha que é simples assim? —Jared riu incrédulo.
—Por que não seria?
—E se ela ameaçar contar sobre nós?
—E daí? Eu estou achando essa história de manter nosso relacionamento em segredo um saco. Acho que devíamos assumir tudo assim que seu divorcio sair.
—Você pirou?! —Jared o olhava sem acreditar no que ouvia. —Você é um medico internacionalmente famoso, Jensen. Um escândalo desses acabaria com sua carreira.
—Jay, eu sou famoso pelo meu talento e não pela minha opção sexual.
—Eu não sei em qual planeta você viveu nos últimos cinco anos, mas nesse em que você está vivendo agora qualquer mínimo escândalo acaba com a mais sólida das carreiras e a sua não é exceção.
—Olha, Jay, não me agrada a idéia de ficar escondendo...
—Jensen, relaxa. —Jared deu um beijinho leve nos lábios de Jensen. —Agora não é o lugar e nem o momento para discutir isso. Vai lá se entender com o Lockhart e deixa que eu me entendo com a Flores. Depois que o divorcio sair a gente volta a falar sobre isso, ok?
—O quê você vai dizer a Flores?
—Relaxa, amor. Eu tenho uns truques na manga. —Jared saiu deixando um Jensen intrigado.
I wish I could fly around and around.
. Queria poder voar
Por aí ao redor,
Sobre esta cidade,
Over this town, the dirt on the ground.
Sobre a sujeira no chão.
I'd follow your course of doors left ajar to try to find out
Eu seguiria seu caminho,
De portas deixadas entreabertas,
Para tentar descobrir
who you really are
Quem você é realmente..
Who you really are
Quem você é realmente.
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Jensen demorou muito mais tempo que o previsto para conversar com Lockhart. O homem era irritantemente falante. Passou mais de uma hora apenas falando sobre a capa do livro de Jensen. Ele achava que o livro aumentaria a popularidade do neurocirurgião e consequentemente o número de pacientes de seu hospital dobraria.
Exausto e com os ouvidos doendo, Jensen se dirigiu até a cafeteria. Sabia que Jared provavelmente estaria conversando com a mulher, mas não o agradava a idéia de deixá-lo lidar com tudo sozinho. Se iriam ser um casal era melhor que passassem a fazer tudo juntos. Quando ia entrar na cafeteria Jared estava saindo e o pegou pelos ombros forçando-o a dar meia volta.
—Jay?
—Ela não está aqui. —Jared disse.
—Como sabe?
—Eu estou vindo de lá, lembra?
—É, mas... Então você não falou com ela.
—Não se preocupe com a Flores. —Jared disse se encaminhando para a saída — Ela não vai causar nenhum problema.
—Tem certeza? —Jensen estranhou essa confiança de Jared.
—Absoluta. —Jared sorriu.
—Jare! —Julie correu até os dois. —Dr. Ackles... —Cumprimentou meio sem graça. —Amor, onde colocou aquele livro que te emprestei.
—Ah, droga! —Jared deu um tapa na própria testa. —Acho que eu esqueci na sala dos neurocirurgiões.
—Tudo bem. —Julie suspirou cansada. —Vou lá pegar. —Ela fez menção de se afastar.
—Não. —Jared a segurou pelo braço. —Deixa isso para amanhã.
—Mas eu não vou conseguir dormir se não ler o fim da história. —A mulher queixou-se.
—Julie, deixe para amanhã. —Jared a olhou nos olhos. —Você lembra que eu disse que tínhamos algo importante para conversar hoje?
—Amor, não vai levar nem cinco minutos. —Julie se livrou da mão de Jared. —Volto já. —Ao dizer isso ela saiu correndo.
—Droga! —Jared xingou.
—Que foi, Jay? —Jensen estranhou. —Ela só foi pegar o livro. Cinco minutos não vai atrasar tanto assim a conversa de vocês.
—É, mas tem algo na sala que eu não queria que ela encontrasse.
—O quê? —Jensen franziu uma sombracelha.
—Eu vou lá antes que ela encontre. —Jared disse dando meia volta. Jensen correu atrás dele.
—O quê que é?
—Não é para você ver também. —Jared disse meio seco enquanto apertava o passo fazendo Jensen quase correr atrás dela. —Só vai para casa e me espere lá, ok?
—Nossa, Jay! Agora você realmente me deixou curioso. —Quanto menos Jared parecia disposto a contar o que tinha na sala, mais Jensen ficava curioso. —Você comprou um brinquedinho para hoje à noite? É isso que você não quer que a Julie veja?
—Jen, eu disse para você ir para casa, não disse? —Jared estava visivelmente irritado. Essa mudança brusca de humor assustou Jensen que parou no meio do caminho. Jared ainda deu alguns passos até parar e olhar para trás. —Jen, desculpe. Eu só não quero que...
O que ia dizer morreu quando um grito desesperado irrompeu pelo hospital. Jensen e Jared correram até a sala dos neurocirurgiões e ao abrirem a porta se depararam com Julie colada contra a parede, as mãos trêmulas sobre o rosto.
—Julie, o que foi? —Jared foi até a mulher, mas Jensen que ficara para trás descobriu a razão do desespero da mulher. Sentada a enorme mesa de reuniões estava Flores. Seus cabelos negros e lisos escorriam pelas costas da cadeira, sua cabeça estava tombada para o lado e de sua garganta se via um fino corte de onde jorrava um espesso liquido vermelho.
Fly, fly, fly.
Voar, voar, voar.
I wish I could fly.
Eu gostaria de poder voar.
I wake up in a dream in the middle of the night
Eu acordei de um sonho no meio da noite..
I wish I could fly.
Eu gostaria de poder voar.
I wish I could fly.
Eu gostaria de poder voar.
Jensen se aproximou lentamente e tocou no pulso da mulher. Seu coração começou a bater com força enquanto seus olhos se encontravam com os de Jared.
—Ela está morta.
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