Normal: narração e fala

Itálico: pensamento

Capítulo 10.

Chegando no barco, Daisuke soltou-se de Marlene.

Daisuke: Qual é o seu problema, afinal?

Marlene: *indignada* Qual é o meu problema? QUAL É O MEU PROBLEMA? EU É QUE PERGUNTO! QUE SANGUE TODO É ESSE AÍ?

Só ao olhar para si mesmo é que Daisuke entendeu o porquê de Marlene estar tão zangada: finalmente havia percebido que esqueceu de colocar os curativos, tanto que as feridas ainda abertas começaram a sangrar e sujar a camisa que estava usando.

Marlene: Tire essa camisa. Vou dar uma olhada.

Daisuke: *indignado* Nem vem que vou me despir na sua frente!

Marlene: Já viu um dragão que gospe fogo e pode voar?

Daisuke: *confuso* Não!

Marlene: ENTÃO, SE NÃO QUISER VIRAR CHURRASQUINHO DELE, TIRE A ROUPA JÁ!

Tremendo, Daisuke tirou a camisa. Como não tinha feridas nas pernas, não precisou tirar o calção.

Daisuke: *aliviado* Ainda bem!

Marlene: *chocada* Minha nossa! Você tem mais feridas que o Hendrik! *indignada* POR QUE ESCONDEU ISSO DE MIM, DAISUKE? EU SOU A MÉDICA DESSA TRIPULAÇÃO! TENHO O DIREITO DE SABER SE ALGUÉM ESTÁ FERIDO!

Daisuke: *ignorando os gritos* Pode dar um jeito?

Marlene: *examinando-o* Isso depende: está com alguma parte do corpo fraturada?

Daisuke: Não. No máximo, com alguns cortes e queimaduras.

Marlene: Então uma pomada curativo passada uma vez por dia irá resolver o problema, mas terá que colocar curativos e faixas, é claro. *pausa* Não consigo imaginar aonde você conseguiu todos esses ferimentos.

Daisuke: E eu não consigo imaginar o porquê de você cobrar tão caro por uma consulta médica.

Ambos ficaram em silêncio, até Marlene quebrá-lo.

Marlene: Se eu contar minha história, você me conta a sua? Só não espalhe o que eu lhe contar.

Daisuke: Feito. Desde que você também não conte a minha história pra ninguém.

Com ambos de acordo, Marlene resolveu começar.

Marlene: Eu nasci no Norte Blue, mas fui criada num orfanato no East, junto com minha irmã mais nova Gabrielle. Quando fiz 7 anos, Gabrielle ficou doente e, pro nosso azar, não tinha nenhum médico no orfanato. Então eu fugi, carregando-a nos braços, até achar um homem que bebia no bar.

Daisuke: Ele era médico?

Marlene: Sim. Seu nome era Vega. Mas ele não parecia querer me ajudar no início, até ver meu desespero e força de vontade pra ajudar a gabrielle e mudar de ideia. Entretanto, ao examiná-la, viu que o estado dela estava no nível final e não tinha como salvá-la. Depois de algumas horas, ela morreu.

Daisuke: Puxa, sinto muito por sua irmã. O que houve depois com você?

Marlene: Eu chorei muito e até pensei em me matar, mas Vega me impediu. Ele disse pra eu acordar e pensar que isso não me traria felicidade ou paz. Eu pensei muito e decidi que pessoas boas não mereciam morrer, mas isso acontecia assim mesmo. No final, Vega pediu permissão pra ensinar medicina e eu concordei.

Daisuke: É uma boa história, mas isso não responde a minha pergunta.

Marlene: Isso se deve ao fato de eu ter nascido sem nada. E depois, eu não gasto o dinheiro comigo mesma, mas doo para outros, como pessoas carentes e orfanatos. No máximo, guardo um pouco pra quando precisarmos comprar algo.

Daisuke: Como hoje?

Marlene: Sim. Mas agora é sua vez.

Daisuke respirou fundo e começou a contar.

Daisuke: Minha mãe morreu logo depois de me dar à luz e meu pai, Hiroto, me culpa por isso. Ele me odiava a qualquer custo, fazendo diversas torturas e humilhações comigo. Eu era incapaz de me defender e cresci sendo violentado pelo meu pai. Foi ele... foi ele que me fez tudo isso.

Marlene não conseguiu dizer nada, principalmente quando Daisuke começou a chorar, deixando-a um pouco desconfortável. A loira sempre aparentava não se importar com os outros, mas não era verdade. A história que havia contado era a prova disso.

A única coisa que Marlene poderia fazer para confortar Daisuke era abraçá-lo, e foi isso que ela fez, mesmo que nunca tenha feito isso antes. Mas a tripulação chegou bem naquele momento e testemunhou o abraço dos dois.

Não sabiam o porquê, mas Akemi e Hendrik não gostaram muito de ver isso.