O que deve acontecer?

"Nós capturamos uma bandeira."

"Acho que já sabemos os vencedores." Disse Apolo, desapontado.

"Perdeu toda a emoção." Disse Hermes. "Trágico, trágico..."

Os deuses bufaram e riram dos dois brincalhões, especialmente após a cara indignada feita por ambos.

"Ok, família, eu vou começar AGORA, e ai de quem me interromper antes de um parágrafo!" Exclamou Hera.

Enquanto Hermes e Apolo silenciosamente adentravam em seus abrigos, a deusa começou a leitura.

Em poucos dias me acomodei em uma rotina que parecia quase normal, se descontarmos o fato de que eu tinha aulas com sátiros, ninfas e um centauro.

Hera não poderia estar mais indignada. Os deuses explodiram em risadas pela cara da deusa, e também pelo novo pensamento de Percy.

"É, tia, você devia ter pedido um tempo maior, né?" Perguntou Hermes, rindo pela abertura de seu trono.
Ainda estressada, Hera retomou a leitura, ignorando alguns risinhos que ainda rodavam a sala.

Todas as manhãs estudava grego antigo com Annabeth e conversávamos sobre deuses e deusas no presente, o que era um pouco estranho. Descobri que Annabeth estava certa a respeito de minha dislexia: o grego antigo não era tão difícil de ler. Pelo menos, não mais difícil que inglês. Depois de algumas manhãs eu já conseguia ler sem muita dor de cabeça algumas linhas de Homero, tropeçando aqui e ali.

"A primeira habilidade útil do Nemo ta começando a aparecer..." Brincou Athena, olhando para Poseidon, que revirou os olhos.

No resto do dia eu alternava atividades ao ar livre, procurando alguma coisa em que fosse bom. Quíron tentou me ensinar arco-e-flecha, mas descobrimos bem depressa que eu não dava para aquilo. Ele não reclamou nem mesmo quando teve de arrancar de sua cauda uma flecha perdida.

As escandalosas risadas foram bruscamente interrompidas por um estalo forte, que provavelmente seria seguido por mais risadas, porém estas não saiam. Os deuses começaram a se desesperar. O que havia acontecido com as suas vozes? Eles ficaram daquele jeito até que uma risadinha feminina chamou a atenção.

"Gostaram? É assim que consigo acabar com três quartos de todas as brigas no mundo." Hera sorriu maleficamente, continuando a ler.

Corrida? Eu também não era bom. As instrutoras, as ninfas do bosque, me faziam comer poeira. Disseram-me para não me preocupar com isso. Tiveram séculos de práticas fugindo de deuses apaixonados. Mas ainda assim era meio humilhante ser mais lento que uma árvore.

Os deuses ficaram frustrados; A vontade de rir era tremenda, e Hera (que, para todos ali, estava mais lembrando Juno) soltou outra risadinha, antes de voltar a ler.

E as lutas? Esqueça. Toda vez que ia para a esteira, Clarisse acabava comigo.

- E vem mais por aí, seu mané - murmurava ao meu ouvido.

Tremendo pelo esforço, Ares conseguiu resmungar "Isso aí, filhota!", antes de novamente se afundar no encanto de Hera. Ela, intimamente, já estava cansada de segurá-lo por tanto tempo. Silenciosamente, ela desfez o encanto, torcendo para que os outros não percebessem esse fato.

A única coisa em que eu era mesmo excelente era canoagem, e essa não era o tipo de habilidade de herói que as pessoas esperavam do cara que venceu o Minotauro.

Alguns deuses olharam risonhos para o livro, outros em negação. Nenhum tinha percebido que o encanto estava quebrado, e Hera quase soltou um suspiro de alívio.

Sabia que os campistas mais velhos e os conselheiros me observavam, tentando concluir quem era meu pai, mas não estava sendo fácil para eles. Eu não era tão forte quanto os garotos de Ares, nem tão bom em arco-e-flecha quanto os garotos de Apolo. Não tinha a perícia de Hefesto com metais ou - os deuses me livrem - o jeito de Dionísio com as vinhas.

"EI!" Exclamou Dionísio, enquanto os outros riam. Porém, as risadas foram lentamente interrompidas.

"Eu acho que nossas vozes voltaram... Sabe o que isso quer dizer, Apolo?" Perguntou Hermes, olhando para Hera.

"Acho que sim, Hermes." E estalou os dedos. Ambos desapareceram e surgiram atrás do trono da deusa.

"WE ARE THE CHAMPION, MY FRIEEEEEEND!" Cantaram aos berros, fazendo os outros rirem mais uma vez, enquanto Hera revirava os olhos.

"Vocês vão me deixar ler ou não?" Ela reclamou, ruborizada.

"Hmm... Não!" Disseram todos, rindo.

"Que seja, então!" Ela se levantou com raiva e seguiu para o corredor.

"Não, Hera! Era brincadeira!" Exclamaram, ainda rindo um pouco. Batendo os pés, a deusa voltou e, emburrada, se sentou, olhando para todos meio receosa antes de voltar a ler.

Luke me disse que eu podia ser filho de Hermes, uma espécie de pau para toda obra, mestre nada. Mas eu tinha a sensação de que ele só estava tentando me fazer sentir melhor. Na verdade, também não sabia o que fazer comigo.

Apesar de agora estarem liberados, não fizeram comentários. Sabiam que aquilo era culpa de todos ali, que não assumiam seus filhos nos momentos certos, ou não liberavam os deuses menores para que eles os assumissem.

A despeito disso tudo, eu gostava do acampamento. Eu me acostumei com a neblina matinal sobre a praia, com o cheiro dos campos de morangos à tarde e até com os ruídos esquisitos dos monstros nos bosques à noite. Eu jantava com o chalé 11, empurrava parte da minha refeição para o fogo e tentava sentir alguma conexão com meu verdadeiro pai. Não vinha nada. Apenas aquela sensação morna que eu sempre tive, a lembrança do seu sorriso.

Poseidon parecia nostálgico. Se parasse para pensar, houve realmente um bebê de cabelos negros que ele visitou. Ele ainda não sabia ao certo como havia chegado lá. Em um momento meditava em seu reino, e no outro estava em frente a um berço branco com um bebê de aproximadamente um ano e meio. Ele abriu os olhinhos e ao vê-lo, soltou uma risadinha doce. Ele sorriu ao ouvir a risada, como um repicar de sinos. Porém, com um som vindo do corredor, ele piscou e ao abrir os olhos novamente, estava em seu trono, tudo da mesma maneira, o que fez ele pensar que aquilo fora sua imaginação.

Tentei não pensar demais em minha mãe, mas ficava matutando: se deuses e monstros eram reais, se todas aquelas coisas mágicas eram possíveis, certamente haveria algum jeito de salvá-la, de trazê-la de volta...

Hades balançou a cabeça, pesaroso. Haviam duas maneiras de mortos voltarem, uma mais impossível que a outra. E... Não, essa era a mais impossível, com certeza. Não poderia ser. A mãe do garoto ia ficar lá para sempre.

Comecei a entender o ressentimento de Luke e como ele parecia magoado com o pai, Hermes. Certo, talvez os deuses tivessem tarefas importantes a fazer ("Talvez?" Exclamaram todos, indignados). Mas não poderiam fazer uma visita de vez enquanto, trovejar ou alguma coisa?(Pensativos, os deuses reconheceram a verdade. Sempre colocando compromissos não muito importantes em primeiro plano, qualquer coisa antes de seus filhos semideuses.) Dionísio podia fazer Diet Coke aparecer do nada. Por que meu pai, quem quer que fosse, não podia fazer aparecer um telefone?

Quinta-feira à tarde, três dias depois de chegar ao Acampamento Meio-Sangue, tive minha primeira aula de esgrima. Todos do chalé 11 se reuniram na grande arena circular, onde Luke seria nosso instrutor.

Hermes sorriu levemente à menção de seu filho. As habilidades dele em esgrima realmente chamavam a atenção. Ele era ótimo. Porém, em seguida, o sorriso deu lugar novamente à expressão triste que mantinha depois de ver como Luke era decepcionado e magoado com ele.

Começamos com estocadas e cutiladas básicas, usando bonecos recheados de palha com armaduras gregas. Acho que fui bem. Pelo menos entendi o que devia fazer e meus reflexos foram bons.

O problema era que eu não conseguia encontrar uma lâmina que se adaptasse às minhas mãos. Eram pesadas demais, leves demais ou compridas demais. Luke fez o melhor que pôde para me ajudar, mas concordou que nenhuma das lâminas de prática parecia funcionar para mim.

O coração do Poseidon deu um salto. Será que... Só poderia ser... Um sorriso de satisfação tingiu seu rosto.

Passamos adiante, para duelo em duplas. Luke anunciou que seria meu parceiro, já que era a minha primeira vez.

- Boa sorte - disse um dos campistas. - Luke é o melhor espadachim dos últimos trezentos anos.

- Talvez ele pegue leve comigo - comentei.

O campista riu, desdenhoso.

Hermes sorriu brevemente, erguendo uma sobrancelha. Seus filhos eram perfeitos.

Luke me mostrou as estocadas, paradas e defesas com escudo do jeito difícil. A cada golpe eu estava um pouco mais surrado e contundido.

- Mantenha a guarda alta, Percy - dizia ele, e então me atingia com força nas costelas usando a parte chata da lâmina. - Não, não tanto assim! - Plaft! - Ataque! - Plaft! - Agora, recue! - Plaft!

"Ai!" Exclamaram os deuses. Praticamente todos os deuses ali já haviam ficado um enorme hematoma de uma semana. Mas claro, estavam ansiosos. Haveria alguma reação de Percy?

Quando ele pediu um tempo, eu estava empapado de suor. Todos correram para o isopor de bebidas. Luke despejou água gelada em cima da própria cabeça, o que me pareceu uma ótima idéia. Fiz a mesma coisa.

Poseidon respirou alto, com um sorriso de satisfação no rosto. Os outros também entenderam e, com um sorrisinho, esperaram o re-início da leitura, já imaginando o que iria acontecer.

Na mesma hora me senti melhor. A força percorreu novamente os meus braços. A espada não parecia mais tão difícil de manejar.

Uma risada baixa percorreu a sala. Todos tinham plena noção do poderio de Poseidon em duelos de espadachim, especialmente quando havia algum elemento à favor.

- O.k., todo mundo em círculo! - ordenou Luke. - Se Percy não se importar, vou fazer uma pequena demonstração.

Incrível, pensei. Vamos todos assistir enquanto Percy é triturado.

Alguns deuses espremeram os lábios numa tentativa de prender a risada que ameaçava escapar. Uma risada poderia quebrar toda uma tensão que havia sido colocada estrategicamente no momento em que descreveram as reações de Percy quando ele jogou a água em seu corpo.

Os garotos de Hermes se reuniram em volta. Estavam todos contendo o riso. Imaginei que já tinham passado por aquilo e mal podiam esperar para ver Luke me usar como saco de pancadas. Ele disse a todos que ia mostrar uma técnica para desarmar o oponente: como girar a lâmina do inimigo com a parte chata da própria espada para que ele não tenha alternativa a não ser deixar a arma cair.

"Uhh!" Exclamaram alguns dos deuses, aqueles que conheciam bem aquela técnica. Também sabiam que estava bem acima da capacidade de um novato como Percy. Pareciam estar tentando desvendar se Luke estava ou não fazendo uma das brincadeiras de mal gosto das crianças de Hermes.

- Isso é difícil - enfatizou. - Já usaram contra mim. Não riam de Percy agora. A maioria dos espadachins precisa trabalhar anos para dominar essa técnica.

Ele demonstrou o movimento para mim em câmera lenta. Como previsto, a espada pulou da minha mão.

- Agora, em tempo real - disse ele depois que recuperei minha arma. - Vamos fazer o movimento até que um de nós tenha sucesso. Pronto, Percy?

Os deuses gemeram. Era óbvio que não estava pronto. Dionísio balançou a cabeça em negação, gesto repetido pela maioria dos deuses até que Hera exclamou:

"Esperem! Vejam." E passou a ler alta e claramente como sempre, porém mais rápido do que o normal.

Eu assenti, e Luke veio para cima de mim. De algum modo, eu o impedi de golpear o cabo da minha espada. Meus sentidos se aguçaram. Vi seus ataques chegando. Eu rebati. Dei um passo à frente e tentei minha própria estocada. Luke a revidou facilmente, mas notei uma mudança em seu rosto. Seus olhos se estreitaram, e ele começou a me pressionar com mais força.

Havia uma animação crescente preenchendo todos os presentes. Até mesmo Hermes começou a torcer pela "vitória" de Percy. Eles olhavam ansiosamente para Hera, engolindo cada palavra.

A espada estava pesando em minha mão. Mas equilibrada. Eu sabia que era apenas uma questão de segundos antes que Luke me derrubasse, então decidi: Que se dane!

Tentei a manobra para desarmar.

Os deuses arregalaram os olhos e sorriram mais animados que nunca. As respirações presas, eles arregalaram os olhos, esperando.

Minha lâmina atingiu a base da de Luke e eu a girei, pondo todo o meu peso em um golpe para baixo.

Plem!

A espada de Luke retiniu contra as paredes. A ponta da minha lâmina estava a dois centímetros do seu peito desprotegido.

"Uhul!" Comemorou Poseidon, com um mesclo de animação e orgulho. Hermes, Apolo e Ares batiam palmas, Athena e Ártemis exibiam sorrisos satisfeitos e os restantes sorriam, com exceção de Dionísio, que furtivamente pegou seu jogo PacMan de bolso e se escondeu atrás de seu trono para jogar, planejando encomendar um dos abrigos instantâneos do A & H.

Os outros campistas ficaram em silencio.

Baixei a minha espada.

- Ahn, sinto muito.

"SENTE MUITO?" Exclamaram Athena e Poseidon, corando em seguida, quando os deuses riam descaradamente dos dois.

"Ah, calem a boca." Disseram juntos novamente, fazendo os deuses ficaram sem ar de tanto rir.

"Poseidon, pare de falar junto comigo!" Disse uma Atena muito nervosa e vermelha.

"Eu não tenho culpa se você decide do nada usar minhas falas ao mesmo tempo que eu mesmo!"

Ainda rindo, Hera continuou a leitura.

Por um momento, Luke ficou perplexo demais para falar.

- Sinto muito? - Seu rosto marcado abriu-se num sorriso. - Pelos deuses, Percy, você sente muito? Mostre-me aquilo de novo!

Eu não queria. A rápida explosão de energia maníaca me abandonara completamente. Mas Luke insistiu.

Dessa vez, não houve disputa. No momento em que nossas espadas entraram em contato, Luke atingiu o cabo da minha, que saiu deslizando pelo chão.

Poseidon deu de ombros, ainda sorrindo. Sem uma ajuda das águas, um filho de Poseidon novato era como qualquer outro espadachim no mesmo nível. Ele estava orgulhoso de qualquer forma.

Depois de uma longa pausa, alguém do público disse:

- Sorte de principiante?

Luke enxugou o suor da testa. Ele me avaliou com um interesse totalmente novo.

- Talvez - disse. - Mas fico pensando o que Percy poderia fazer com uma espada equilibrada...

"Esse garoto Percy realmente poderia fazer um bom estrago com um pouco de treino e uma boa espada..." Ares disse, pensativo. Quando percebeu os olhares surpresos sobre ele, suspirou. "Não posso mais analisar as qualidades de batalha das pessoas?"

Sexta feira à tarde. Eu estava sentado com Grover perto do lago, descansando de uma experiência quase fatal no muro de escalada. Grover subira até o topo como um bode montanhês, mas a lava por pouco não me atingiu. Minha camisa ficou com buracos fumegantes. Os pêlos dos meus antebraços ficaram chamuscados.

Sentamos no píer, olhando as náiades que teciam cestos embaixo d'água, até que reuni coragem para pergunta a Grover como tinha sido a conversa com o sr. D.

Seu rosto assumiu um tom doentio de amarelo.

"O que você falou com ele, seu ser sem coração?" Exclamaram Ártemis, Aphrodite, Perséfone e Hera.

O deus das festas empalideceu visivelmente.

"Eu não sei." Disse, num fio de voz.

Enquanto os garotos riam, Hera, ainda indignada, voltou a ler, fazendo os outros se calarem.

- Ótima - disse. - Legal mesmo.

- Então sua carreira ainda está nos trilhos?

Ele me lançou um olhar nervoso.

- Quíron c-contou a você que eu quero uma licença de buscador?

Zeus olhou para o filho e disse, brevemente:

"É claro que você não deu isso a ele, não é mesmo? Esse sátiro não é bom o suficiente para isso e..."

"Cala a boca!" Explodiu Hera, jogando o livro no chão e se levantando. "Só porque ele salvou outras duas crianças que não aquela maldita bastarda..."

"NÃO FALE ASSIM DA MINHA FILHA!" Gritou o deus, já de pé, fazendo os demais se encolherem, exceto Hera, que apenas o encarou, com um ar feroz.

"Se acalmem!" Disse Héstia, se pondo entre os dois, que se sentaram com uma carranca terrível. "Depois vocês resolvem qualquer discussão, vou terminar de ler o capítulo."

"Não. Eu vou." Disse Hera, com uma voz contida. Ela pegou o livro e, entre dentes, voltou a ler.

- Bem... não. - Eu não tinha idéia do que era uma licença de buscador, mas aquele não parecia ser o momento certo para perguntar. - Ele só me disse que você tinha grandes planos, sabe... e que precisava de reconhecimento por completar uma tarefa. Então você conseguiu?

Grover baixou os olhos para as náiades.

- O sr. D suspendeu o julgamento. Disse que ainda não fracassei nem tive sucesso com você, portanto nossos destinos ainda estão ligados. Se você ganhar uma missão, eu for junto para protegê-lo e nós dois voltarmos vivos, então talvez ele considere a tarefa concluída.

Meu ânimo melhorou.

- Bem, isso não é mau, certo?

- Bééé-é-é! Ele poderia igualmente ter me transferido para o serviço de limpeza de estábulos. As chances de você ganhar uma missão... e mesmo se ganhasse, por que haveria de querer que eu fosse junto?

- É claro que eu ia querer você junto!

Grover continuou olhando melancolicamente para a água.

- Tecer cestas... Deve ser bom ter uma habilidade útil.

Tentei convencê-lo de que ele tinha uma porção de talentos, mas isso só o fez parecer ainda mais infeliz. Conversamos sobre canoagem e esgrima por algum tempo, e então debatemos os prós e os contras dos diferentes deuses. Por fim, perguntei-lhe sobre os quatro chalés vazios.

- O número 8, o prateado, pertence a Ártemis - disse ele. - Ela jurou ser virgem para sempre. Portanto, é claro, sem filhos. O chalé é honorário, entende? Se ela não tivesse um ficaria zangada.

Ártemis corou até a raiz dos cabelos. Apolo se engasgou com a água que tomava e Hermes caiu do trono rindo pela reação dos gêmeos.

"Eu sempre disse isso, eles nem teriam te dado um chalé se não fosse o medo! Meus 20 dracmas!" Riu-se o deus do Sol, ainda se recuperando da recente quase-morte.

"Ah, fica quieto." Disse Ártemis, envergonhada, jogando um saco com os dracmas na cara do irmão, fazendo Hermes ficar com falta de ar.

- Sim, certo. Mas os outros três, os que ficam no fim. São os Três Grandes?

Grover ficou tenso. Estávamos chegando perto de um assunto delicado.

Hades cruzou os braços, emburrado. Ele ainda não estava conformado com esse fato egoísta, e não queria que esse assunto voltasse à tona.

- Não. Um deles, o de número 2, é de Hera - disse ele. - É outra coisa honorária. Ela é a deusa do casamento, portanto é claro que não iria sair por aí tendo casos com mortais. Isso é serviço do marido dela (Foi a vez de Zeus cruzar os braços, lançando um olhar ameaçador ao livro nas mãos da esposa. Quem estivesse olhando com atenção, saberia perfeitamente traduzir o que aquele olhar dizia: Ninguém tente me segurar quando eu ver esse sátiro.). Quando falamos dos Três Grandes, queremos dizer os três irmãos poderosos, os filhos de Cronos.

- Zeus, Poseidon e Hades.

- Certo. Você sabe. Depois da grande batalha com os Titãs, eles tomaram o mundo do pai e tiraram a sorte para decidir quem ficava com o quê.

"Sim, foi no palitinho." Disse Apolo, olhando com um sorrisinho para cada um do Três.

"Não, não, tenho certeza que foi no dois ou um." Discordou Hermes, fazendo o mesmo que o meio-irmão.

"Tem certeza que não foi no cuspe à distância?" Disse Ares, vagamente.

Todos os deuses riam muito agora, tirando os Três Grandes, que, corados, olhavam indignados para os teóricos presentes.

- Zeus ficou com o céu - lembrei. - Poseidon, com o mar, Hades, com o Mundo Inferior.

- A-hã.

- Mas Hades não tem chalé aqui.

Mais uma vez, Hades cruzou os braços, olhando emburrado para Zeus.

- Não. Também não tem um trono no Olimpo. Ele, bem, fica na dele lá embaixo no Mundo Inferior. Se tivesse um chalé aqui... - Grover estremeceu. - Bem, isso não seria agradável. Vamos deixar assim.

- Mas Zeus e Poseidon... os dois tinham zilhões de filhos nos mitos. Por que os chalés deles estão vazios?

"Não é verdade!" Disse Athena, chamando a atenção do restante dos deuses. "Zilhões não existem, mas trilhões sim..."

Enquanto os outros riam dos dois, Poseidon olhou com raiva para a deusa, que apenas deu de ombros e piscou para ele, que surpreso, olhou fixamente para a deusa, decidindo que a piscadela era imaginação dele.

Grover se balançou de um casco para outro, pouco à vontade.

- Há cerca de sessenta anos, depois da Segunda Guerra Mundial, os Três Grandes combinaram que não iriam procriar mais nenhum herói. Os filhos deles eram poderosos demais. Estavam interferindo muito no curso dos eventos humanos, causando muitas carnificinas. A Segunda Guerra Mundial, sabe, foi basicamente uma luta entre os filhos de Zeus e Poseidon, de um lado, e os filhos de Hades do outro ("Que isso, tio, tantos filhos assim?" Disse Hermes, levando um crânio fossilizado na cabeça.). O lado vencedor, Zeus e Poseidon, obrigou Hades a fazer um juramento junto com eles: nada de casos com mulheres mortais. Todos juraram sobre o rio Estige.

Zeus e Poseidon trocaram olhares mortais, enquanto Hades apenas maneava com a cabeça.

Um trovão.

- Esse é o juramento mais sério que se pode fazer - disse eu.

Grover assentiu.

- E os irmãos mantiveram a palavra, sem filhos?

O rosto de Grover se anuviou.

- Há dezessete anos, Zeus retornou aos maus hábitos. Havia uma estrela de tevê com um penteado alto e armado, estilo anos 80... Ele simplesmente não conseguiu evitar. Quando o bebê nasceu, uma menininha chamada Thalia... Bem, o rio Estige é sério no que diz respeito a promessas. Zeus se safou com facilidade porque é imortal, mas causou um destino terrível para sua filha.

Zeus fechou os olhos e respirou fundo. Era culpa dele, afinal? Essa pergunta lhe trouxe outras lembranças, como seu outro filho. Filho dessa mesma atriz sedutora e ambiciosa. Olhou para Hera, que apertava o livro com força. Fechou os olhos outra vez e se forçou a afastar esses pensamentos. Teria a eternidade para se torturar com eles.

- Mas isso não é justo! Não foi culpa da menininha.

Nesse momento, Zeus levantou a cabeça e fixou o olhar em Hades, que fitou o irmão e apenas abaixou os ombros.

Grover hesitou.

- Percy, os filhos dos Três Grandes são mais poderosos que os outros meios-sangues. Eles têm uma aura forte, um odor que atrai monstros. Quando Hades descobriu a respeito da criança, não ficou muito feliz com o fato de Zeus ter quebrado o juramento. Hades libertou os piores monstros do Tártaro para atormentar Thalia. Um sátiro foi designado para ser guardião dela quando completou doze anos, mas não havia nada que pudesse fazer. Ele tentou escoltá-la para cá com outros meios-sangues com quem ela fizera amizade. Eles quase conseguiram. Chegaram até o topo da colina.

A sala ficou extremamente silenciosa. Eles já conheciam relativamente bem a versão do sátiro para o acontecido, mas uma coisa era alguém falar sobre alua coisa amedrontado e envergonhado, oura era ouvi-lo contar para um amigo.

Ele apontou para o outro lado do vale, para o pinheiro onde eu enfrentara o Minotauro.

- As três Benevolentes estavam atrás deles com um bando de cães infernais. Estavam quase sendo alcançados quando Thalia disse a seu sátiro que levasse os outros dois meios-sangues para um lugar seguro enquanto ela tentava conter os monstros. Estava ferida e cansada, e não desejava viver como um animal caçado. O sátiro não queria deixá-la, mas não conseguiu fazê-la mudar de idéia e tinha de proteger os outros. Assim, Thalia defendeu-se no final sozinha, no topo daquela colina. Quando ela morreu, Zeus se apiedou dela. Transformou-a naquele pinheiro. Seu espírito ainda ajuda a proteger as fronteiras do vale. É por isso que a colina é chamada Colina Meio-Sangue.

O silêncio agora parecia sufocá-los, mas ninguém ousou quebrá-lo. Hera voltou a ler, depois de olhar atentamente para os companheiros.

Olhei para o pinheiro distante.

A história me fez sentir oco, e também culpado. Uma menina da minha idade se sacrificara para salvar os amigos. Enfrentara todo um exército de monstros. Perto disso, minha vitória sobre o Minotauro não parecia grande coisa. Perguntei a mim mesmo se agindo diferente poderia ter salvado minha mãe.

Athena, sentindo uma pena que não lhe era habitual, olhou para o livro nas mãos da deusa do casamento. O amor que o peixinho dourado sentia pela mãe era tão... fofo. A deusa piscou e balançou a cabeça. Fofo? Tantas palavras e a deusa da sabedoria escolheu fofo? Sorrindo levemente, desviou os olhos do livro e olhou para Poseidon, que parecia mergulhado um uma tristeza pensativa. Uma muito estranha vontade de ir para lá confortá-lo a preencheu, fazendo-a exclamar um "Não!" que chamou a atenção de todos. Corada, ela esperou que Hera voltasse a ler, lutando para tirar o Cabeça de Algas Sênior da cabeça.

A poucos tronos de distância, Aphrodite sorria.

- Grover, os heróis realmente partiram em missões para o Mundo Inferior?

- Algumas vezes - disse ele. - Orfeu. Hércules. Houdini.

- E chegaram a trazer alguém de volta da morte?

- Não. Nunca. Orfeu chegou perto... Percy, você não está pensando mesmo em...

"Não seria muito esperto de sua parte." Disse Hades, olhando desdenhoso para o livro.

- Não - menti. - Estava só imaginando. Então... um sátiro é sempre designado para guardar um semideus?

Grover me estudou cauteloso. Eu não o tinha convencido de que desistira da idéia do Mundo Inferior.

- Nem sempre. Vamos disfarçados para uma porção de escolas. Tentamos farejar os meios-sangues que tenham atributos de grandes heróis. Se encontramos um com uma aura muito forte, como uma criança dos Três Grandes, alertamos Quíron. Ele tenta ficar de olho neles, já que podem causar problemas realmente enormes.

"Fato." Disseram todos.

- E você me encontrou. Quíron disse que você achava que eu poderia ser algo especial.

Grover soou como se eu acabasse de atraí-lo para uma armadilha.

- Eu não... Ora, escute, não pense assim. Se você fosse... você sabe... jamais lhe permitiriam uma missão, e eu jamais teria a minha licença. Você provavelmente é filho de Hermes. Ou talvez até de um dos deuses menores, como Nêmesis, a deusa da vingança. Não se preocupe, tá?

"Tsk, tsk." Disse Hermes, sorrindo sacanamente para o livro.

Percebi que ele estava tentando tranqüilizar mais a si mesmo que a mim.

Naquela noite após o jantar havia muito mais agitação que de costume.

Finalmente, era hora da captura da bandeira.

Quando os pratos foram levados embora, a trombeta de caramujo soou e todos nos postamos junto às nossas mesas.

"Vai começar!" Disse Apolo, animadamente.

"Uhul!" Exclamou Hermes, batendo palmas.

Os campistas gritaram e aplaudiram quando Annabeth e dois de seus irmãos entraram correndo no pavilhão, carregando um estandarte de seda. Tinha cerca de três metros de comprimento, reluzindo em cinza, com a pintura de uma coruja em cima de uma oliveira. Do lado oposto do pavilhão, Clarisse e as amigas entraram correndo com outro estandarte, de tamanho idêntico, mas vermelho-brilhante, com a pintura de uma lança sanguinolenta e uma cabeça de javali.

Embora nem tanto quanto Hermes e Apolo, os deuses agora aguardavam ansiosamente a narração da partida.

Virei-me para Luke e gritei por cima do barulho:

- Aquelas são as bandeiras?

- Sim.

- Ares e Atena sempre lideram as equipes?

- Nem sempre - disse ele. - Mas frequentemente.

"Ambos deuses da guerra..." Disse Athena, dando de ombros em seguida.

- Então, se um outro chalé capturar uma delas, o que vocês fazem, pintam de novo a bandeira?

Ele sorriu ironicamente.

- Você vai ver. Primeiro temos de conseguir uma.

- De que lado nós estamos?

Ele me deu uma olhada astuta, como se soubesse algo que eu não sabia. A cicatriz em seu rosto o fazia parecer quase mau à luz das tochas.

- Fizemos uma aliança temporária com Atena. Esta noite, tiraremos a bandeira de Ares. E você vai ajudar.

"Não gostei muito da maneira que Luke falou isso." Disse Hera, desconfiada, enquanto fitava as páginas.

O sentimento era compartilhado por todos da sala, mas ninguém disse nada, apenas esperando para saber o que queriam que Percy fizesse.

As equipes foram anunciadas. Atena tinha feito uma aliança com Apolo e Hermes, os dois chalés maiores. Aparentemente, haviam trocado privilégios - horários de chuveiro, escala de deveres, as melhores posições nas atividades - a fim de ganhar apoio.

"Estrategistas." Sussurrou Athena, sorrindo orgulhosa.

Ares tinha se aliado a todos os outros: Dionísio, Demeter, Afrodite e Hefesto. Pelo que eu tinha visto, os campistas de Dionísio eram na verdade bons atletas, mas havia apenas dois deles. Os de Demeter tinham ligeira vantagem em habilidades na natureza e atividades ao ar livre, mas não eram muito agressivos. Como os filhos e filhas de Afrodite eu não estava muito preocupado. Eles, na maioria das vezes, esperavam sentados todas as atividades acabarem e iam conferir seus reflexos no lago, penteavam os cabelos e fofocavam. Os de Hefesto não eram bonitos, e havia apenas quatro deles, mas eram grandes e corpulentos de tanto trabalhar na oficina de metais o dia inteiro. Poderiam ser um problema. Com isso, é claro, restava o chalé de Ares: uma dúzia dos maiores, mais feios e mais perversos garotos e garotas de Long Island, ou de qualquer outro lugar no planeta.

"Quer dizer que meus filhos não vão ganhar? Tem alguma coisa errada aí." Disse Ares, ferozmente.

Athena sorria sarcasticamente para Ares, que fez uma careta. Uma "guerra" entre os deuses da guerra, algo que acontecia de tempos em tempos, especialmente no Acampamento Meio-Sangue.

Quíron bateu o casco no mármore.

- Heróis! - anunciou. - Vocês conhecem as regras. O riacho é o limite. A floresta inteira está valendo. Todos os itens mágicos são permitidos. A bandeira deve ser ostentada de modo destacado e não deve ter mais de dois guardas. Os prisioneiros podem ser desarmados, mas não podem ser amarrados ou amordaçados. Não é permitido matar nem aleijar. Servirei de juiz e médico do campo de batalha. Armem-se!

Ele estendeu as mãos e as mesas subitamente se cobriram de equipamentos: capacetes, espadas de bronze, lanças, escudos de couro de boi recobertos de metal.

- Uau! - falei. - Temos mesmo que usar isso?

Luke olhou para mim como se eu estivesse louco.

- A não ser que você queira ser espetado pelos seus amigos do chalé. Aqui... Quíron achou que estes devem lhe servir. Você ficará na patrulha da fronteira.

"Hm... É uma pena. Parece que vamos nos fixar na fronteira." Disse Dionísio, desatento.

"Ah, não!" Exclamaram Ares, Athena, Hermes e Apolo, tristemente, se calando após um olhar particularmente ameaçador de Hera.

Meu escudo era do tamanho de uma tabela de basquete da NBA ("Boa comparação" Disse Apolo, sorrindo brincalhão.), com um grande caduceu no meio. Pesava cerca de um milhão de quilos (Risos preencheram a sala por alguns segundos.). Eu poderia muito bem usá-lo como prancha de snowboard, mas tinha esperanças de que ninguém tivesse expectativas reais de que eu corresse com aquilo. Meu capacete, como todos os capacetes do lado de Atena, tinha um penacho de crina azul no topo. Ares e seus aliados tinham penachos vermelhos.

Annabeth gritou:

- Equipe azul, para frente!

Aplaudimos e agitamos nossas espadas, e a seguimos para baixo pelo caminho para os bosques do sul. A equipe vermelha gritou nos provocando enquanto seguia em direção ao norte.

Consegui alcançar Annabeth sem tropeçar em meu próprio equipamento.

Rindo mais uma vez, os deuses inconscientemente se separaram em equipes, Poseidon, Athena, Hermes e Apolo de um lado, Aphrodite Ares, Hephaestus, Deméter e Dionísio do outro, e o restante no centro.

- Ei!

Ela continuou marchando.

- Então, qual é o plano? - perguntei. - Tem alguns itens mágicos para me emprestar?

A mão dela se desviou para o bolso, como se estivesse com medo de que eu roubasse alguma coisa.

Um sorriso lentamente tingiu a face de Athena, que, mordendo o lábio inferior, esperou o restante da leitura, já começando a entender a estratégia da filha.

- Só digo para ter cuidado com a lança de Clarisse. Você não vai querer que aquela coisa toque em você. Fora isso, não se preocupe. Vamos tomar a bandeira de Ares. Luke determinou sua tarefa?

- Patrulha de fronteira, seja lá o que isso for.

- É fácil. Fique junto ao riacho, mantenha os vermelhos longe. Deixe o resto comigo. Atena sempre tem um plano.

Os membros da equipe azul sorriram maldosamente para a equipe adversária, fazendo a "torcida" rir.

Ela seguiu adiante, me deixando na poeira.

- Certo - murmurei. - Fico contente por me querer na sua equipe.

Era uma noite quente e úmida, grudenta. Os bosques estavam escuros, com vaga-lumes aparecendo e sumindo. Annabeth me designou para um pequeno regato que rumorejava por cima de algumas pedras, depois ela e o restante da equipe se espalharam entre as árvores.

Ali sozinho, com meu grande capacete de penacho azul e meu enorme escudo, me senti um idiota. A espada de bronze, como todas as espadas que eu experimentara até então, parecia mal equilibrada. O cabo de couro pesava em minha mão como uma bola de boliche.

Não havia como alguém me atacar de verdade, não é? Quer dizer, o Olimpo tinha de ter responsabilidade, certo?

Sorrindo brevemente, os deuses discordaram mentalmente. Não na caça da bandeira, Percy Jackson.

Longe, a trombeta de caramujo soou. Ouvi brados e gritos nos bosques, metais chocando-se, gente lutando. Um aliado de Apolo de penacho azul passou por mim correndo como um cervo, pulou o regato e desapareceu em território inimigo.

Essa é boa, pensei. Vou ficar de fora da diversão, como sempre.

"Duvido muito..." cantarolou Hermes, mesmo sabendo que a 'diversão' que chegaria até Percy não seria nem de longe boa como ele esperava.

Então ouvi um som que me deu um calafrio na espinha, um rosnado canino grave em algum lugar por perto.

Ergui o escudo instintivamente; tinha a sensação de que alguma coisa estava me espreitando.

Todos arregalaram os olhos. Um rosnado canino grave. Só poderia significar uma coisa...

Então o rosnado parou. Senti a presença recuando.

Do outro lado do regato, a vegetação rasteira explodiu. Cinco guerreiros de Ares saíram gritando e berrando da escuridão.

Ares sorriu mecanicamente. Pelo menos sabia que ia se divertir.

- Acabem com o Mané! - berrou Clarisse.

Seus olhos feios de porco faiscaram nas fendas do capacete. Ela brandiu uma lança de um metro e meio de comprimento, a ponta de metal farpado lançando chispas de luz vermelha (A simples menção de sua lança fez Ares sorrir. Quer dizer que a filhota faria por merecer seu melhor presente?). Seus irmãos só tinham espadas de bronze comuns - não que isso me fizesse sentir melhor.

Eles atacaram cruzando o regato. Não havia ajuda à vista. Eu podia correr. Ou podia me defender contra a metade do chalé de Ares.

Consegui me esquivar do golpe do primeiro garoto, mas aqueles caras não eram estúpidos como o Minotauro ("Ei!" Hades reclamou.). Eles me cercaram, e Clarisse investiu contra mim com sua lança. Meu escudo desviou a ponta, mas senti um formigamento doloroso em todo o corpo. Meus cabelos se eriçaram. O braço que segurava o escudo ficou dormente e o ar queimou.

Poseidon fuzilou Ares, que sorria maldosamente para o livro.

Eletricidade. Aquela lança estúpida era elétrica. Eu recuei.

Outro cara de Ares me golpeou no peito com a parte mais grossa da espada e eu caí.

Eles podiam ter me chutado até eu virar geléia, mas estavam muito ocupados rindo.

- Façam um corte no cabelo dele - disse Clarisse. - Agarrem o cabelo dele.

A equipe azul estava absolutamente indignada, e até mesmo a vermelha se sentia mal, claro, exclusive Ares.

Consegui me pôr de pé. Ergui a espada, mas Clarisse a jogou violentamente para o lado com sua lança, e fagulhas voaram. Agora meus braços estavam dormentes.

- Ah, uau! - disse Clarisse. - Estou com medo desse cara. Realmente apavorada.

- A bandeira está para lá - disse a ela. Queria parecer zangado, mas acho que não consegui.

- É - disse um dos irmãos dela. - Mas, veja bem, nós não nos importamos com a bandeira. A gente se importa com um cara que fez o pessoal do nosso chalé de idiota.

Enquanto um certo deus sorria, os outros o encaravam como se dissessem: "Eduque seus filhos!", mesmo sabendo que isso não iria acontecer.

- Vocês não precisam de mim para isso. - Provavelmente não foi a coisa mais esperta a dizer (Era o que dizia Athena, enquanto os outros, tensos, riam.).

Dois deles vieram para cima de mim. Recuei em direção ao regato, tentei erguer meu escudo, mas Clarisse era muito rápida. Sua lança me pegou bem nas costelas. Se eu não estivesse usando uma armadura blindada, teria virado churrasco no espeto. Do jeito que foi, a ponta elétrica quase fez meus dentes saltarem da boca com o choque. Um de seus colegas de chalé desferiu a espada contra o meu braço, fazendo um bom talho.

"Que merda." Murmurou Hermes.

Ver meu próprio sangue me deixou zonzo - quente e frio ao mesmo tempo.

- Sem aleijar - consegui dizer.

- Oops - disse o cara. - Acho que perdi meu direito à sobremesa.

Ele me empurrou para o regato e eu caí espalhando água (A equipe azul se entreolhou, abrindo lentamente um sorriso, enquanto a vermelha fazia uma cara de terror, enquanto Ares tinha uma careta feroz.). Todos riram. Calculei que assim que acabassem de se divertir eu iria morrer. Mas então algo aconteceu. A água pareceu despertar meus sentidos, como se eu tivesse acabado de comer um saco duplo das jujubas da minha mãe.

"Nossa, comparação perfeita!" Exclamou Deméter, fazendo todos pararem para rir, mas pararem rapidamente para ver, ou melhor, ouvir, o show de Percy.

Clarisse e seus companheiros de chalé entraram no regato para me pegar, mas eu me pus de pé para recebê-los. Sabia o que fazer. Desferi a parte chata da minha espada contra a cabeça do primeiro cara e arranquei seu capacete. Atingi-o com tanta força que pude ver seus olhos tremendo enquanto ele desmoronava na água.

Poseidon lançou um olhar desdenhoso a Ares, que fazia uma careta horrenda. Em seguida, olhou orgulhosamente para o livro. Estava ansioso para mandar Quíron entregar Anaklusmos para Percy.

O Feio Númer Feio Número 3 vieram para cima de mim. Golpeei um no rosto com o escudo e usei a espada para decepar o penacho da crina do outro. Os dois recuaram depressa. O Feio Número 4 não pareceu muito ansioso para atacar ("Impossível, um filho meu nunca teme atacar um inimigo." Disse rapidamente o deus da guerra.), mas Clarisse continuava vindo, a ponta da lança crepitando de eletricidade. Assim que ela investiu, peguei a vara da lança entre a borda do meu escudo e a minha espada, e a parti como se fosse um graveto.

"O que?" Berrou Ares. "Seu peixe quebrou a melhor lança já criada!"

- Ah! - berrou ela. - Seu idiota! Seu verme com bafo de cadáver!

Ela provavelmente ainda teia dito coisas piores, mas eu a golpeei entre os olhos com a base da espada e a joguei cambaleando de costas para fora do regato.

Fuzilando Poseidon com os olhos, Ares voltou a se sentar, com os braços cruzados e uma carranca medonha.

Então ouvi gritos exultantes, e vi Luke correndo em direção à linha limite com o estandarte da equipe vermelha erguido alto. Vinha flanqueado por alguns garotos de Hermes, cobrindo a sua retirada, e alguns Apolos atrás dele, combatendo os garotos de Hefesto. O pessoal de Ares se levantou e Clarisse resmungou uma praga estupefata.

- Uma armadilha! - berrou. - Foi uma armadilha.

"Como, minha querida? Eles esperavam tanto quanto você que o cabecinha de algas conseguisse fazer alguma coisa." Brincou Athena, rindo ao ver o olhar indignado de Poseidon.

Eles saíram cambaleando atrás de Luke, mas era tarde demais. Todo mundo convergiu para o regato enquanto Luke atravessava para território amigo. Nosso lado explodiu em vivas. O estandarte vermelho tremulou e ficou prateado. O javali e a lança foram substituídos por um enorme caduceu, o símbolo do chalé 11. Todos da equipe azul ergueram Luke nos ombros e começaram a carregá-lo. Quíron saiu a meio galope do bosque e soprou a trombeta de caramujo.

"Isso aí!" Gritaram Hermes, Apolo e Poseidon, fazendo Athena balançar a cabeça e sorrir, indo se sentar em seguida.

O jogo terminara. Tínhamos vencidos.

Eu estava prestes a me juntar à comemoração quando a voz de Annabeth, bem a meu lado no regato, disse:

- Nada mau, herói.

"O quê?" Disse Poseidon, olhando atentamente para Athena, que desviou o olhar.

Eu olhei, mas ela não estava lá.

- Onde diabos aprendeu a lutar assim? - perguntou ela. O ar tremulou e Annabeth se materializou, segurando um boné de beisebol dos Yankees como se tivesse acabado de tirá-lo da cabeça.

Senti que estava ficando zangado. Não fiquei nem mesmo perturbado com o fato de ela estar invisível um segundo antes.

"Sua filha armou para Percy ser trucidado por Clarisse?" Exclamou Poseidon, olhando para a deusa ferozmente.

"Eu não tenho como saber!" Ela disse, ainda sem encarar o deus.

"Não sabia? Você é a deusa da estratégia, é claro que sabia!"

"Chega você dois!" Disse Hera, temendo uma briga maior. Os deuses, emburrados, reviraram os olhos mas pararam de discutir. Mas aquela briga não estava terminada, não mesmo.

- Você armou isso para mim - disse eu. - Você me pôs aqui porque sabia que Clarisse viria atrás de mim, enquanto você mandava Luke dar a volta pelos flancos. Já tinha tudo preparado.

Annabeth encolheu os ombros.

- Eu disse para você. Atena sempre, sempre tem um plano.

- Um plano para que eu fosse reduzido a pó.

- Eu vim o mais rápido que pude. Estava pronta para entrar na briga, mas... - Ela encolheu os ombros. - Você não precisava de ajuda.

"Se ele tivesse demorado mais dois minutos para entrar na água, ele estaria mortalmente machucado!" Disse Poseidon, indignado.

Então ela reparou no braço ferido:

- Como arranjou isso?

- Corte de espada - disse eu. - O que você acha?

- Não. Era um corte de espada. Olhe só.

O sangue se fora. No lugar do rasgo enorme havia uma longa cicatriz branca, e mesmo estava desaparecendo. Enquanto eu olhava, ela se transformou em uma cicatriz pequena e sumiu.

Mesmo com a raiva, Poseidon não conseguiu evitar sorrir com o orgulho que sentia por Percy.

- Eu... eu não entendo - disse.

Annabeth raciocinava com empenho. Eu quase podia ver as engrenagens girando. Ela baixou os olhos para os meus pés, depois para a lança quebrada de Clarisse e disse:

- Saia da água, Percy.

- O que...

- Apenas saia.

"É agora!" Murmurou Apolo, ansioso.

"Isso."Disse Hermes, no mesmo tom.

Saí do regato e logo me senti extremamente cansado. Meus braços começaram a ficar dormentes de novo. Minha descarga de adrenalina me abandonou. Quase caí, mas Annabeth me segurou.

- Oh, Estige - praguejou ela. - Isso não é bom. Eu não queria... Eu pensei que podia ser Zeus...

Antes que eu pudesse perguntar o que ela queria dizer, ouvi o rosnado canino de novo, porem muito mais perto. Um uivo cortou a floresta.

"Merda!" Sussurrou Poseidon, arregalando os olhos, gesto repetido por todos os outros.

A comemoração dos campistas cessou imediatamente. Quíron bradou alguma coisa em grego antigo que eu, só mais tarde me daria conta, tinha entendido perfeitamente:

- Preparem-se! Meu arco!

Annabeth sacou a espada.

Sobre as pedras, logo acima de nós, havia um cão preto de tamanho de um rinoceronte, com olhos vermelhos como lava e presas que pareciam punhais.

Estava olhando diretamente para mim.

"Oh, deuses." Disse Héstia, com as mãos na boca.

Ninguém se moveu exceto Annabeth, que gritou:

- Percy, corra!

Ela tentou se interpor entre mim e o cão, mas o bicho foi rápido demais. Pulou por cima dela - uma enorme sombra com dentes - e, assim que me atingiu, quando cambaleei para trás e senti as garras afiadas como navalhas rasgando minha armadura, houve uma cascata de sons de pancadas, como quarenta pedaços de papel sendo rasgados um após o outro. Um amontoado de flechas brotou no pescoço do cão. O monstro caiu morto aos meus pés.

Por algum milagre eu ainda estava vivo. Não quis olhar embaixo das ruínas da minha armadura esfrangalhada. Meu peito parecia morno e molhado, e eu sabia que estava gravemente ferido. Mais um segundo e o monstro teria me transformado em quarenta e cinco quilos de carne fatiada.

Silêncio. Ninguém ousou dizer uma palavra, todos muito tensos pela possibilidade do garoto morrer.

- Di immortales! - disse Annabeth. - Aquilo é um cão infernal dos Campos de Punição. Eles não... eles não deviam...

- Alguém o convocou - disse Quíron. - Alguém de dentro do acampamento.

Luke se aproximou, o estandarte esquecido em suas mãos, o momento de glória acabado.

Hermes engoliu em seco. Tinha alguma coisa errada...

Clarisse berrou:

- É tudo culpa do Percy! Percy o convocou!

- Fique quieta, criança - ordenou-lhe Quíron.

Nós assistimos enquanto o cão infernal se dissolvia em sombra e era absorvido pela terra até desaparecer.

"Entre na água, pelo amor de Aphrodite!" Exclamou Poseidon, ansioso.

- Você está ferido - disse-me Annabeth. - Rápido, Percy, entre na água.

- Eu estou bem.

- Não, você não está - disse ela. - Quíron, veja isto.

Eu estava cansado demais para discutir. Voltei para dentro do regato, o acampamento inteiro reunido à minha volta.

No mesmo instante me senti melhor. Pude perceber os cortes em meu peito se fechando. Alguns dos campistas sufocaram um grito.

Só repararam que estavam prendendo a respiração quando soltaram o ar, aliviados por Percy ter sobrevivido, mesmo já sabendo que isso ia acontecer de qualquer maneira.

- Olhem, eu... eu não sei por quê - falei, tentando me desculpar. - Sinto muito.

Mas eles não estavam olhando minhas feridas cicatrizarem. Olhavam para algo acima da minha cabeça.

- Percy - disse Annabeth apontando. - Ahn...

Todos prenderam a respiração, aguardando ansiosamente cada palavra.

Poseidon sentiu a antiga sensação de tremor e direto de seu peito. Era como um pequeno pedaço de seu corpo estivesse sendo puxado, e em seguida solto, muito rapidamente. Havia, então, reclamado seu filho.

Quando olhei para cima, o sinal já estava desaparecendo, mas ainda pude distinguir o holograma de luz verde, girando e cintilando. Uma lança de três pontas: um tridente.

- Seu pai – murmurou Annabeth. – Isso realmente não é bom.

- Está determinado – anunciou Quíron.

"Isso mesmo." Disse Poseidon, se recostando folgadamente no trono.

Por toda a minha volta, os campistas começaram a se ajoelhar, até mesmo o chalé de Ares, embora não parecessem muito felizes com isso.

- Meu pai? – perguntei, completamente perplexo.

- Poseidon – disse Quíron. – Senhor dos Terremotos. Portador das Tempestades. Pai dos Cavalos. Salve, Perseu Jackson, Filho do Deus do Mar.

Respirando fundo, os deuses olharam um para o outro.

"Ótimo, acabei." Suspirou Hera, satisfeita. "Quem quer o próximo?"

"Ah, eu leio, pra me livrar disso logo." Disse Hephaestus.

Hera se apressou em passar o livro para o filho, que o pegou e, preguiçosamente, começou a ler:

"Oferecem-me uma missão."


Quem quer matar a Letíciaa? o/ Gente, eu sei que nada que eu disser vai realmente justificar essa demora, mas eu posso tentar: Bem, houve a mudança, e nós ficamos desligados do mundo por três semanas. Depois, uma semana antes de meu pai fazer o backup dos nossos arquivos no computador velho e passar para o notebook novo, depois houve um maldito bloqueio, mais vício compulsivo por NCIS, CSI NY e Criminal Minds, mais ler "O Filho de Netuno", o Ciclo da Herança (Eragon, pra quem não conhece) e Jogos Vorazes (Toda a coleção), mais trabalhos da escola (-') , daí veio um momento em que eu parava pra escrever e só conseguia três frases, e também umas fanfics de PJ que me fizeram ter algumas ideias sobre como as coisas acontecem. O que aconteceu pra me fazer finalmente terminar esse capítulo foi eu viajar pra casa da minha avó com o notebook e descobrir que aqui não tem sinal WiFi. Uma coisa boa também, mais pra mim e pra LilyLuna, é que consegui não só terminar esse mas também o capítulo de um projeto meu e dela, minha irmãzinha Tem mais, minha irmãzinha (a verdadeira) fez 3 anos e minha irmã mais velha faz 15 (é, a gente ta tendo muitos preparativos), além de mim. É assim, 17/06 pra mais nova, 30/07 pra mais velha e 31/07 pra mim. Podem me mandar os presentes ^^ 'brincadeirinha ' Personagas, me desculpem mesmo, por causa da demora e por causa da baixa qualidade desse capítulo, vou me esforçar ao máximo pro próximo ser melhor.

E me desculpem pelo pequeno spoiler, quem não leu O Herói Perdido

Respondendo às reviews:

LilyLunaBlackPotterRavenclaw : Heey, minha flor ^^ Não me bate, tá? Bem, saiu, espero que você goste, sabe como é, né? Beeijos. E antes que eu me esqueça : All Day, All Night, DJ MALIK! xD

KessyRMasen : Eei o/ O capítulo foi de seu agrado? Eu sei que você tava na maior expectativa, e eu particularmente não gostei muito Desculpas especiais pra você ' Nossa, sério, 16 ? Valeu o-o ' Beeijos

Mylle Malfoy P.W : Brigada, espero que tenha gostado desse também ^^ Beijos

Vanessa S : Não tem problema ^^ Espero que goste desse, viu? Beeijos

Bia Black Potter : Thanks ^^ Sei lá, acho que não seria muito bom com os personagens lendo também, já que a leitura ta acontecendo antes de acontecer de verdade. Imagina um Percy pequeninho, uma Annabeth menor ainda e um Grover bebê? Eles não iam entender nada! Beeijos.

Vic Black Potter : Não vo parar, prometo . E aquele projeto que você tinha me falado, hein? To esperando o/ E se quiser, eu beto ^^ beeijos

Então é isso, beijos, espero que gostem e até o próximo o/