Only Time
Capítulo 10 - Você ganha, você perde
Era uma linda manhã de sábado. Os pássaros cantavam alegremente perto das altas janelas da torre de grifinória. O tempo estava quente, afinal já estavam em maio. Toda vez que Harry pensava nisso, não podia deixar de lembrar das poucas - talvez únicas - palavras sábias de Gilderoy Lockhart: "Incrível como o tempo voa quando você está se divertindo". Era a mais pura verdade. Harry nem se dera conta de que o dias passaram tão rápido. Podia jurar que fora ontem que chantageou Draco a comparecer na torre de Astronomia.
O garoto de cabelos escuros e rebeldes, depois de mais um bocejo, finalmente decidiu se levantar. Já estava há um bom tempo acordado, mas ainda não tivera coragem de se levantar.
- Cadê todo mundo? - pensou ao abrir a cortina de sua cama e verificar que não havia mais ninguém fora ele no dormitório.
Antes mesmo que Harry pudesse continuar sua linha de raciocínio, Rony Weasley adentrou o dormitório esbaforido. Nem se eles tivessem combinado tal aparição poderia ter sido mais sincronizada.
-Harry, aconteceu uma tragédia - disse Rony, pálido, tentando retomar o fôlego.
A simples menção dessa palavra já foi suficiente para fazer o coração de Harry disparar. Milhões de coisas passaram por sua mente. Talvez fosse algum problema com Sirius, ou Bele. Talvez Voldemort tenha finalmente decidido fazer sua aparição e matou os dois como um aviso. Isso não seria estranho. Afinal, há poucos meses, ele acordara no meio da noite com sua cicatriz queimando depois de mais um pesadelo. Um pesadelo estranho. Voldemort ria ao mesmo tempo em que acariciava os cabelos negros de alguém. Mas Harry só conhecia uma pessoa com cabelos tão negros como aqueles: Snape! Mas por que diabos Voldemort faria carícias no cabelo de seu odiado professor?! Talvez eles tivessem um tórrido caso. Assim que se deu conta de sua última teoria, Harry, com uma cara de nojo, balançava a cabeça numa tentativa inútil de esquecer tal cena. E depois de voltar sua atenção para a realidade, perguntou:
-Não é algo com Voldemort, não é? - disse e nem reparou o amigo ficar tenso - É só um nome - comentou um pouco irritado com a reação de Rony.
-Por que tudo tem que haver com ele? - perguntou Rony horrorizado - É algo pior que isso - disse tristemente.
-Pior que Voldemort? - inquiriu Harry preocupado. Talvez Grindewald tivesse ressuscitado e agora apoiava abertamente Voldemort - Desembucha logo, Rony - pediu exasperado.
-Os N.O.M.'s! Foram antecipados. A comissão chegou mais cedo. Os exames vão ser semana que vem - contou, com o rosto levemente esverdeado - Acho que não estou bem - disse antes de corre em direção ao banheiro.
Harry não pode deixar de suspirar aliviado. Quem sabe ele estaria enganado e os Deuses não estavam realmente contra ele. Talvez não devesse temer perder mais alguém querido ou inocente. Já haviam levado seu pais e Cedrico. Talvez não fizessem nada agora. Talvez três fosse seu número de sorte. E com esse pensamento animador, acabou de se arrumar.
Depois de uns dez minutos, Rony finalmente saíra do banheiro. Seu rosto ainda estava um pouco pálido, mas já tinha uma aparência bem mais saudável. Os dois então desceram, e foram encontrar-se com Hermione.
-Francamente! Se você tivesse estudado quando eu falei não estaria arrancando os cabelos, Ronald Weasley - disse Hermione em tom de reprovação ao andar apressadamente até a biblioteca - Antes tarde do que nunca - resmungou, fazendo Harry rir e Rony fechar mais ainda a cara.
-Será que ainda vai ter algum livro na biblioteca? - perguntou Harry.
-Aposto que os Corvinais já pegaram todos - respondeu Rony fazendo caretas.
-Não seja bobo! Corvinais quase não usam a biblioteca geral. Eles têm uma biblioteca privativa na sua sala comunal - respondeu Hermione desinteressada. Porém, ao ver as expressões confusas dos amigos completou - Está em Hogwarts, uma história! Se tivessem se dado ao trabalho de lê-lo - resmungou mais uma vez.
Em poucos minutos o trio grifinório chegou finalmente em seu destino. Estava uma balbúrdia total na frente da biblioteca. Alunos se acotovelavam para entrar. Madame Pince gritava a plenos pulmões tentando expulsar os mais afoitos. Porém, o que chamou-lhes mais atenção foi uma certa figura de longos cabelos platinados - presos com um rabo de cavalo - encostada numa parede próxima sem ao menos tentar entrar.
-Aqui está, chefe - disse Goyle ao entregar um pesado livro nas mãos de Draco.
-Vocês demoraram - reclamou.
-Tivemos que usar de um pouco de persuasão - comentou Crabbe com um sorriso enorme nos lábios enquanto se afastavam da multidão.
-Sem testemunhas, espero - retrucou Draco com um sorriso maroto.
-Claro. Podemos ser burros, mas não somos idiotas - falou Goyle ofendido, fazendo Draco rir.
-Só checando - desculpou-se - Já estão com as balas e os chocolates? - perguntou, ganhando um aceno afirmativo dos amigos - Então vamos - disse, ao mesmo tempo em que eram barrados por seu trio "inimigo".
-Roubando livros da biblioteca, Malfoy? - perguntou Harry sério, olhando intensamente para Draco.
-Só os mais procurados, Potter - respondeu Draco no mesmo tom - E os filhos únicos - completou com um sorriso provocador.
-Isso não é justo! Você não pode pegar o último - reclamou Rony, chamando atenção de alguns alunos.
-A vida nunca é justa, Fuinha - respondeu Draco com a voz arrastada - Por mais que adore trocar farpas com grifibobos, temos que estudar. Afinal, uma sala comunal somente para nós não é algo para se desperdiçar. Potter, Fuinha - cumprimentou "educamente" - Até mais, sanguinho - despediu-se, com uma piscada rápida, e foi-se sendo seguida de perto por Crabbe e Goyle que volta e meia olhavam para trás rosnando.
-Dá pra acreditar nisso? Depois de meses ela ainda tem a audácia de zoar com a nossa cara - esbravejou Rony, ganhando olhares incrédulos de Harry e Hermione, enquanto voltavam para a torre de Grifinória.
-Às vezes eu me pergunto como você consegue jogar tão bem xadrez sendo assim - comentou Hermione, diante do retrato da Mulher Gorda - Snape é quente! - disse solenemente a nova senha antes de entrar em sua sala comunal.
-Não entendi - confessou Rony com cara de coxinha.
-A Bele nos convidou para estudar com eles - respondeu Harry - Eu vou pegar meu mapa e a capa e já venho - disse ao correr em direção ao dormitório masculino.
-Eu não ouvi nada disso - resmungou Rony.
-Céus, Rony. Ela mencionou que estava com o último livro, e que a sala comunal deles estaria vazia. O que mais você precisa, Rony? Um convite por escrito? Pra bom entendedor meia palavra basta, sabe? - explicou Hermione sem muita paciência.
-Eu acho que você está vendo sinais inexistentes, Mione - defendeu-se Rony.
-Você quer que eu desenhe pra você? Soletre talvez - ralhou Hermione enquanto Harry se aproximava.
-Tudo pronto. Vamos! - disse Harry antes de partir em direção a sala comunal de Sonserina.
Não demorou muito e já estavam no meio do caminho. Não querendo levantar suspeitas, uma vez que o restante do percurso era de total território da Sonserina, decidiram se cobrir com a capa. O que era um pouco difícil devido ao enorme tamanho de Rony.
-Olha por onde anda - reclamou Hermione, tentando manter a voz baixa, ao sentir uma forte pisada no pé.
-Você acha que é fácil andar todo envergado assim? - retrucou Rony, tentando evitar que seus pés ficassem à mostra andando encolhido.
Para alegria dos três, o restante de sua jornada rumo às masmorras foi concluído sem demais problemas.
-Você sabe a senha, Harry? - perguntou Hermione ao ver-se de cara com um trecho úmido e liso da enorme parede de pedra que delimitava os domínios sonserinos.
-Vocês não ficariam irritados se eu dissesse que não faço a mínima idéia, não é? - confessou Harry ganhando olhares fuzilantes dos amigos e antes que pudesse falar algo em sua defesa a porta se abriu revelando uma garota de cabelos claríssimos.
Draco esticou o pescoço para fora da porta. Olhou de um lado para o outro, certificando-se que não havia mais ninguém por perto. E olhando diretamente nos olhos de Harry, disse:
-Preciso de mais balas. Mas vocês podem entrar. Corredor da direita, segundo corredor, terceira porta à esquerda - instruiu antes de andar apressadamente em direção à cozinha.
Harry, Hermione e Rony tentaram seguir as instruções corretamente. Era um verdadeiro labirinto, cheio de corredores e bifurcações que pareciam idênticas.
-Era segundo ou terceiro corredor? - perguntou Harry.
-Segundo, mas já passamos por ele, e não havia nenhuma porta lá - respondeu Hermione.
-Ainda estão aqui? - inquiriu Draco carregada de saquinhos de guloseimas.
-Não tem nenhuma porta lá- respondeu Harry.
-Tem sim - comentou sorrindo, virando nos calcanhares em direção ao segundo corredor.
Harry não tardou a segui-la. Rony e Hermione foram logo atrás, porém a uma certa distância, querendo dar um pouco de privacidade ao casal.
-Você tem três segundos para abrir, ou vai se arrepender - falou Draco ameaçadoramente olhando para a parede. E ao ver reação alguma da porta - Você quem pediu, agora agüenta - disse ao tirar algumas fotos de dentro de sua capa, colando-as com fita adesiva na parede.
Em questão de segundos a porta voltou a sua aparência normal de madeira e se abriu, soltando um som esganiçado que lembrava alguém vomitando. Draco ria, ao tirar as fotos.
Harry olhou toda a cena abobalhado. Ele já vira portas que se exigem "Por favor" para abrir. Portas que só abrem com mágica, portas que gostam de cócegas. Mas portas que só abrem depois colarem fotos? Isso era totalmente ridículo.
-O que tem de tão horrível nessas fotos? - perguntou Harry enquanto todos entravam no quarto.
Draco trocou um breve olhar com Crabbe e Goyle antes de entregar as fotos. Rony e Hermione se aproximaram tentando vê-las também.
Assim que Rony colocara os olhos na foto, não agüentou. Gargalhou tanto que perdeu o equilíbrio, caindo no chão. Hermione tentava esconder o riso com as mãos inutilmente. Os sons abafados lembravam barulho de porcos. Crabbe e Goyle ao ouvirem isso, riram com gosto também. Harry ostentava uma aparência doente.
-Trauma ganhou um novo significado agora - comentou Harry, sentando-se na cama - Como, em nome de Deus, vocês conseguiram isso? - inquiriu, ao jogar as fotos de McGonagall com cinta liga em cima da coberta.
-Segredo de estado - respondeu Draco recolhendo as fotos e piscando para Harry enquanto Goyle tentava alcançar o saco de doces.
-Mas por que você tem ... isso? - disse apontando com nojo para as fotos que ela guardava em sua cômoda.
-Tira a mão daí, sua anta - resmungou ao dar um forte tapa na mão de Goyle - Nunca se sabe quando podemos precisar - retrucou abrindo um saco de balas, tomando cuidado para deixar o mais longe possível de seus amigos - O que acham de História da Magia pra esquentar? - sugeriu.
Depois de alguns minutos explicando alguns fatos sobre as revoltas dos Duendes e sobre a primeira convenção de bruxos do Reino Unido, Draco e Hermione discutiam animadamente sobre a matéria. Porém, ao perceberem que o restante do dormitório estava num silêncio absoluto pararam imediatamente.
-Que tal passarmos para os simulados orais agora? - disse Hermione em voz alta, fazendo os garotos acordarem de uma vez.
-Teve bons sonhos, Harry? - perguntou Draco sorrindo inocentemente para o namorado.
-Eu não estava dormindo - negou Harry - Só estava descansando os olhos - completou enquanto cruzava os braços sobre o peito numa atitude defensiva.
-Você é um péssimo mentiroso - murmurou Draco - Quem começa? - perguntou, ao pegar mais um pacote de bala.
-Como tem tanta certeza disso, Malfoy? Nunca passou pela sua cabeça que ele poderia estar mentindo agora mesmo e você nem notou? - cutucou Rony - Isso faria dele um excelente mentiroso.
-Claro. Ele é um mentiroso de mão cheia e você é bilionário - comentou fazendo Crabbe e Goyle rirem - Primeira pergunta: qual o nome do bruxo que também era conhecido como "O Mau"?
-Urico? - chutou Harry.
-É Emerico, sua besta. Era mais conhecido como Emerico, o Mau - respondeu Goyle pomposo enquanto Draco jogava doces em sua direção, que ele alegremente pegava no ar.
-Cultura inútil - esbravejou Rony.
-O que está fazendo? - inquiriu Hermione acompanhando o trajeto dos doces até Goyle, chamando atenção de Harry.
-Estudando, é claro - respondeu Draco fechando o saco de balas - Mais quando você acertar mais perguntas - falou olhando para o amigo que fechou a cara.
-Isso não é estudar, é adestramento - retrucou Hermione indignada.
-Acredite, ele não sabe a diferença - respondeu Draco desinteressada - Além do quê, assim ele guarda os fatos mais rápido. E ainda estou ajudando-o sem interesses. Viu só? Você tinha razão, sanguinho. As pessoas mudam - riu-se Draco.
-Nem tanto - resmungou Hermione, contrariada, fazendo Harry rir.
Eles passaram horas nesse esquema. Liam e discutiam a matéria e depois faziam uma série de perguntas e respostas. Hermione ficou impressionada com a velocidade com que Crabbe e Goyle gravavam as informações passadas pelo método de Draco. E ao olhar para Rony e Harry, que nas últimas duas horas não haviam acertado uma pergunta sequer, cogitou seriamente a idéia de aplicar o método de adestramento de Draco com eles.
-Não fique tão longe assim - reclamou Harry ao abraçá-la por trás e tentar apoiar o queixo em seu ombro, fazendo os outros olharem na direção dos dois.
-Não agora - disse Draco num tom quase inaudível totalmente vermelha, tentando desvencilhar-se de Harry - Eles estão olhando pra nós - completou sentindo os olhares de todos em sua direção, porém evitando encará-los.
-Então devíamos mostrar-lhes algo - falou Harry no ouvido de sua namorada antes de tomar seus lábios num beijo cinematográfico.
Houve várias manifestações diferentes nos presentes. Hermione olhava-os com uma expressão sonhadora. Goyle ignorou a cena e, aproveitando-se da situação, pegou mais balas. Crabbe abafava uma risada, enquanto Rony parecia voltar à sua aparência doentia que ostentava de manhã.
Draco ficara tão abalada com a manifestação de carinho explícita, que mesmo quando os lábios de Harry abandonaram os seus, ela ainda ficou paralisada, o que rendeu mais algumas risadas, para sua infelicidade.
-Mais uma dessas e eu vomito - reclamou Rony fechando - Eu tô falando sério, Harry! - disse ao ver o sorriso que o amigo trazia aos lábios e a cara vermelha de Draco - Já pensou se alguém pega vocês no flagra? - comentou.
Rony realmente tinha uma boca santa. Pois assim que ele acabou de falar, a porta soltou um som esganiçado, anunciando que alguém estava entrando no dormitório. Mas os alunos estavam espalhados pela escola entretidos em grupos de estudos. Quem poderia interromper a uma hora dessas?
Draco mal tivera tempo de pensar. Levantou-se de supetão, correu em direção a capa de invisibilidade de Harry que estava em cima da cama de Crabbe e agarrou-a. Porém, quando ia arremessar a capa para Harry, a porta abriu. Sem pensar duas vezes, ela lançou a capa para Harry ao mesmo tempo em que atirava-se ao chão com um grande estrondo, que foi suficientemente alto para chamar atenção de quem entrava no quarto.
-Que diabos está fazendo, Draco? - perguntou Snape parecendo irritado ao apanhar a garota loira que se estatelara no chão.
Antes de responder, Draco olhou para a direção em que Harry, Hermione e Rony antes estavam e ao reparar que o local agora parecia vazio, suspirou, aliviada.
-Longa história - respondeu Draco voltando sua atenção para o professor, que verificava sem a menor cerimônia se ela tinha ganho algum machucado pela queda.
Harry, coberto pela capa de invisibilidade junto com seus amigos, roía-se de raiva com a cena que se desenrolava a sua frente. Snape não parava de tocar sua namorada com aquela expressão preocupada, que o deixava parecendo mais humano. Porém, que só enganaria um leigo. Snape poderia ser qualquer coisa para Harry, exceto humano. Só a possibilidade deixava Harry mais traumatizado do que a foto da Professora McGonagall de cinta liga.
-Nem pense nisso, Harry - sussurrou Hermione ao ver que o amigo estreitava os olhos enquanto fechava os punhos.
-Quem ele pensa que é?! - sussurrou Harry no mesmo tom para a amiga, fazendo menção de levantar-se.
-Eu não faria isso se fosse você - disse Hermione decidida ao apontar sua varinha para Harry que se largou pesadamente no chão, lançando-lhe um olhar furioso.
-Você sabe que não pode comer isso - comentou Snape vendo os sacos de balas de chocolate pelo chão.
-Nós que comemos - admitiu Goyle apontando para si e para Crabbe.
-Só estávamos estudando, professor - disse Draco, sentando-se em sua cama.
-Você sabe que não precisa me chamar assim quando não estamos em aula - repreendeu Snape ao sentar-se perto de Draco - Vocês poderiam nos dar licença? - ordenou educadamente.
-Força do hábito, tio - respondeu ao ver seus amigos saindo do dormitório - Seja lá o que você ouviu que eu fiz, eu tenho uma ótima explicação - defendeu-se Draco temerosa, fazendo Snape rir.
Harry olhava confuso para os dois a sua frente. Draco chamando Snape de tio, Snape rindo. Será que ele se distraíra demais com seus ciúmes e perdera o fio da meada? Algo não se encaixava ali.
-Sou só eu que tô boiando aqui? - sussurrou Harry para Hermione que até abaixara a varinha diante da cena.
-Será que eu não posso visitar meu afilha... ou melhor afilhada? - perguntou Snape ofendido - Não consigo me acostumar com a idéia - murmurou balançando a cabeça.
-C-como?
-Ouvi por aí - disse Snape sem muita convicção.
-O velho babão te contou, não foi? - retrucou Draco mal-humorada.
-Sempre perspicaz, Draquinho - provocou Snape, ganhando uma travesseirada - Você já era! - falou ao pegar o travesseiro e partir para cima de Draco.
O trio de Grifinória assistia à zona que Draco e Snape faziam no quarto de boca aberta. Nunca, na vida, eles imaginaram Snape rindo, quem diria então fazendo guerra de travesseiros! Era a visão do inferno!
-Chega! Não tenho mais idade pra isso - falou Snape sentando-se na cama de Draco, tentando retomar o fôlego - E pensar que só vim pra te fazer uma simples pergunta - completou deitando-se na cama.
-Que é? - disse Draco fazendo menção para que Snape continuasse enquanto se deitava ao lado do padrinho.
-O que você quer de aniversário? - perguntou olhando para o teto -Já vou avisando que não há a mínima chance de eu entrar em uma loja para comprar saias! - alertou exasperado.
-Eu nunca usaria uma coisa dessas - respondeu Draco com cara de nojo - Pode ser um coturno igual ao seu?
-Vou ver o que consigo - concordou, levantando-se - Preparada pra saída? - perguntou Snape indo à porta ao ver Draco fazer um aceno afirmativo - Que isso não se repita, Draco - disse rispidamente após abrir a porta - Passar bem - completou ao girar nos calcanhares, a capa esvoaçando atrás de si.
-O que foi isso? - perguntou Crabbe, ao ver o professor indo embora apressadamente com passos duros e sem o menor vestígio de humor.
-Podemos sair? - inquiriu Hermione ao arrancar a capa.
-Por que a sala tá essa zona? Vocês brigaram? - perguntou Goyle sério.
-Isso é demais. Primeiro: o Harry com o traveco. Segundo: os amigos guarda-costas. Terceiro: os N.O.M.s adiantados. Quarto: A foto da McGonagall. E agora isso? - esbravejou Rony olhando para a porta por onde Snape saíra há poucos segundos - Isso é demais pra um ano só. É mais estressante que tentar resgatar a Pedra Filosofal. É pior que ser perseguido pelos filhinhos e filhinhas do Aragogue. É pior que ser mordido e arrastado por um cachorro gigante. E bem, bem pior que ficar desacordado debaixo d'água! Snape sorrindo e brincando é a visão do Inferno! Eu nunca mais vou conseguir pensar claramente. Nunca mais vou conseguir dormir ou relaxar. Essa visão - deu uma pausa dramática - vai me acompanhar pela vida inteira. Pior que isso só se eu visse Voldemort e seus comparsas dançando Can-Can ao som das Esquisitonas! - descontrolou-se Rony, vermelho como um tomate, fazendo todos (exceto Harry) se retesarem - Por Merlin! Eu falei o nome dele - disse branco como uma vela - Com licença, mas eu vou até a enfermaria - disse solenemente antes de pegar a capa de Harry e sair do dormitório, sendo seguido por Hermione.
-O que foi aquilo com Snape? - perguntou Harry ao ver os amigos saírem.
-Aquilo o quê? - falou Draco sem entender.
-Rindo, brincando, vendo se você se machucou, tocando...você - explicou Harry.
-Nada mais natural para alguém que te criou - comentou Crabbe, abaixando-se no chão em busca de algum saco de balas fechado - Alguma coisa aí, Greg? - inquiriu para o amigo que também procurava mais guloseimas.
-Nem - respondeu Goyle ao trocar um longo olhar com Crabbe - Cozinha! - disseram os dois em uníssono, antes de sair, deixando Harry e Draco sozinhos.
-Será que dá pra você me explicar agora? - pediu Harry sem muita paciência.
-Você ouviu o Vin - respondeu Draco simplesmente.
-E não entendi. Será que é pedir demais pra você me falar? - exasperou-se Harry.
-É, sim. Não gosto de falar nisso. Ignore tudo que ouviu e ponto - respondeu Draco com a cara fechada, desviando o olhar.
Nesse momento, Harry teve a certeza de que acertara o ponto fraco de Draco. Sempre que ele tentava descobrir mais sobre a família de sua amada, ela reagia assim. Toda e qualquer informação era guardada a sete chaves. As poucas informações que tinha eram pegas como essa: ao acaso. Mas decidido a não começar uma briga, mudou de assunto:
-Até que estudamos bastante hoje, não é? - sorriu, o que fez Draco relaxar e voltar ao seu humor habitual.
Harry, depois de passar o resto do dia no dormitório com Draco e seus amigos, voltou para a Torre de Grifinória, relutante. Apesar de estarem juntos há apenas três meses, Harry sentia algo muito mais duradouro em seu coração. Cada dia que passava, a necessidade de estar sempre perto de Draco aumentava. Ele tinha a mais pura certeza de que ela era a sua escolhida. Era aquela com que ele passaria sua vida, casaria e teria filhos. Filhos com cabelos claros como os dela e olhos verdes como os dele. Só o pensamento já era suficiente para fazer Harry sorrir de uma orelha à outra.
-Snape é quente - disse jovialmente ao retrato da Mulher Gorda.
-Você realmente acha isso, criança? - perguntou a grande mulher de vestido rosa no retrato - Aonde o mundo vai parar - resmungou mais para si mesma do que para Harry ao liberar a passagem.
-Preciso da sua ajuda, Mione - anunciou Harry ao entrar na sala comunal e sentar-se perto dos amigos que haviam voltado a pouco da enfermaria.
Harry contou que pretendia fazer a melhor comemoração de aniversário que Draco já tivera. Hermione, a princípio, não gostara da idéia. Ela era totalmente contra Harry desperdiçar o pouco tempo que tinha antes dos N.O.M.s planejando uma festa. Rony a apoiava em gênero, número e grau. Afinal, além dos N.O.M.s, eles também teriam a final do campeonato de quadribol. Porém, ao ver que Rony concordara com ela de livre e espontânea vontade, mudou de idéia e decidiu ajudar Harry. E em menos de dois dias, ela tinha planejado todos os mínimos detalhes do lual à dois.
-Por que lual à dois, Mione? - perguntou Harry desapontado. Afinal, ele queria algo inesquecível.
-Porque é mais romântico, Harry - respondeu Hermione virando os olhos e resmungando "Garotos", enquanto Rony mantinha-se calado.
Desde o dia em que vira "a visão do inferno", Rony calava-se toda vez que o assunto era Draco, seus amigos ou família. Harry achava estranho, e sentia falta de poder falar abertamente com o amigo sobre as idéias que lhe passavam pela cabeça ultimamente. Hermione era uma excelente amiga, mas havia certos assuntos que só poderiam ser discutidos com garotos.
Os dias passaram voando, e logo o final da semana chegou, juntamente com o dia de exames dos N.O.M.s e o aniversário de Draco. Harry estava extremamente nervoso. Talvez até mais nervoso do que ficara antes de seu primeiro jogo de quadribol no seu primeiro ano.
As provas foram relativamente fáceis. Harry tinha certeza que foram excepcionalmente bem em Feitiços e em DCAT. Porém, tinha sérias dúvidas com relação a Poções.
Harry sabia que Hermione e Rony já haviam terminado seus testes, e estava procurando-os há mais de dez minutos e nada de encontrá-los. Foi quando ele viu uma muvuca no pátio principal perto do campo de quadribol. Harry correu em direção a eles.
-Mas que inferno, Longbottom! Quantas vezes eu tenho que dizer pra você não chegar perto de mim? - esbravejou Draco com os cabelos voando - Ser arrastado e espancado num reservado é pouco pra você não é? Ser ameaçado pelos meus amigos é pouco pra você. É algum instinto sado masoquista seu? - gritou Draco a plenos pulmões, chamando cada vez mais atenção de outros alunos, que se acotovelavam para ver a cena -Cuidado, as pessoas podem ficar com uma impressão errada de você. O que seus pais diriam se ouvissem isso? - cutucou - Se bem que deve fazer uns quinze anos que eles não falam coisa com coisa que dirá ouvir algo, não é? - comentou mordazmente, fazendo os olhos do garoto com cara rechonchuda encherem-se de lágrimas -Mas acho que você já está acostumado com isso - completou com um sorriso maldoso e olhos vermelhos, antes de girar nos calcanhares e sair apressada pelo caminho que Crabbe e Goyle abriam entre os alunos que acompanharam a cena.
-Não fique assim, Neville. Nós ainda vamos pegar esse Malfoy de jeito - tentou animar Lino Jordan com uma expressão de ódio ao olhar Draco afastar-se.
Harry assistiu ao final da confusão, sem poder intervir. Ele pessoalmente achara que Draco tinha toda razão em não gostar dos assédios de Neville. Mesmo que não fossem intencionais. Afinal, ela era uma veela. E veelas tinha magnetismo próprio. Magnetismo esse que aumentara nos últimos tempos, então não era para menos que Draco uma dia perdesse sua compostura. Porém, após descobrir o segredo de Neville no seu quarto ano, Harry sabia que as palavras de Draco tiveram um efeito bombástico em Neville. Por mais que sua namorada estivesse com a razão, ela extrapolou todos os limites cabíveis e aceitáveis ao jogar tais fatos na cara de seu pobre amigo. Talvez ele falasse com ela depois, mas não hoje. Ele tinha planos para a noite.
O dia passou com uma velocidade espantosa. E apesar do clima ainda estar tenso - devido à confusão com Draco - na sala comunal de Grifinória, Harry não podia estar mais feliz. Ele já havia checado com Hermione todos os detalhes duas vezes. Já escolhera sua roupa - que ele encomendara via coruja, uma vez que os passeios a Hogsmead haviam terminado há meses. E tentava há horas domar seu cabelo rebelde, sem muito sucesso.
Harry já havia combinado de se encontrar com Draco, perto do lago, no seu horário de costume. Porém, não comentou nada sobre o que planejara. Draco não fazia idéia de que Harry sequer lembrava de seu aniversário.
O garoto de cabelos rebeldes e grandes olhos verdes ficou matando o tempo jogando paciência com um baralho bruxo, o que era bem difícil, pois as cartas falavam e ficavam dedando onde estavam as que faltavam para fechar o jogo. Assim que percebeu que o movimento na sala comunal era mínimo, Harry decidiu se arrumar. E depois de trombar com Lino Jordan, que descia do dormitório dos sétimanistas apressado indo disparado em direção ao retrato da mulher Gorda, foi tomar seu banho.
E assim que estava pronto, ele checou sua aparência mais uma vez no espelho - que assobiou para ele - e foi em direção às cozinhas após ganhar um "Boa sorte" de Hermione - Rony ignorou sua saída, desviando o olhar.
Draco não sabia o que vestir. Já tirara todas suas roupas do malão, mas não conseguia se decidir qual usar. Crabbe e Goyle até tentaram ajudá-la. Mas como os dois tinham tanta noção de moda quanto uma salamandra, ela decidiu ignorar suas opiniões. E no final, acabou seguindo a tendência de seu pai e de seu padrinho. E vestiu-se com a cor mais mágica do mundo, aquela que consegue deixar até um caldeirão elegante: preto.
Após colocar uma linda capa estilo oriental trouxa cuja altura passava o meio da canela, presente do padrinho junto com coturno -que também colocara -, Draco prendeu seus longos cabelos num coque alto. E depois de verificar sua aparência pela décima quinta vez, vestiu seu manto negro e foi em direção ao corredor de Astronomia, onde marcara com Harry.
Draco não tivera nenhuma dificuldade em encontrar Harry sem ser pega por Filch e sua gata demoníaca - madame Nor-r-ra. Afinal, os meses de prática com encontros secretos, somados com suas habilidades veela, tornavam-na uma difícil presa para o zelador.
-Oi - cumprimentou Draco ao sentir Harry perto do local que haviam combinado.
-Feche os olhos - pediu ao colocar uma venda sobre os olhos de Draco, sem se descobrir.
-Isso é necessário? - perguntou Draco temerosa - Eu não vou conseguir andar direito se não enxergar por onde estou indo - disse, dando uns pequenos passos hesitantes na direção que sentia a essência de Harry mais forte.
-Confia em mim? - indagou Harry, ganhando uma afirmação de cabeça - Você está linda, Bele - elogiou ao trazê-la para debaixo da capa e abraçá-la forte - Segura minha mão, eu guio você até lá - falou, pegando ao pegar a mão de Draco e guiando pelos corredores de Hogwarts.
E em pouco tempo, eles chegaram no local onde Harry arrumara tudo, com a ajuda de Hermione e Dobby: o lago.
-Pode abrir os olhos agora - disse Harry - Feliz Aniversário.
Draco tirou a venda, olhando para tudo que Harry montara. Uma linda toalha forrando uma grande parte do chão, ostentando um verdadeiro banquete. Todas suas frutas, doces e bebidas preferidas. E Harry, mais lindo do que nunca, vestido com um calça cáqui e uma blusa verde escuro que realçava mais ainda o verde vivo de seus olhos.
-Lindo - comentou Draco com um enorme sorriso.
-Então você realmente gostou? Que bom. Eu não sabia se tinha colocado tudo no lugar certo - falou Harry ao sentar-se sobre a grande toalha e alcançar duas taças, enchendo-as de vinho.
-Eu me referia a você. Mas o arranjo também ficou lindo - retrucou Draco piscando - Podemos beber isso?
-Que mal uma taça pode fazer? - indagou Harry ao oferecer uma taça a Draco.
-É. Que mal? - respondeu ao aceitar a taça, bebericando-a em seguida - Você ouviu isso? - disse ao perceber ao longe o que parecia um barulho nos arbustos.
-Deve ter sido algum bicho da floresta - comentou - Mas não se preocupe, eu coloquei um feitiço em torno da toalha, que deve impedir que algo chegue muito perto da gente - tentou acalmar, sem sucesso - Confie em mim - pediu, acabando com a resistência de Draco.
Eles comeram, beberam, conversaram e beberam mais um pouco. O tempo passou rápido junto com suas inibições.
E quando Draco deu por si, eles estavam deitados na toalha, ao lado das comidas. Nunca, em todo o namoro, eles tinham ficado tão próximos. Ela sentia o calor de Harry tão perto do seu. E a essência, mais forte do que nunca, intoxicando seus sentidos. Ela sentia as mãos de Harry passeando por seu corpo. Seus lábios beijando seu pescoço. Sua respiração ofegante e quente. Era quase irresistível. Quase.
-Nã... - começou, porém, foi interrompida por Harry.
-Amo você, Bele - confessou Harry olhando-a fixamente nos olhos.
Aqueles olhos tão vivos a observavam, como que se pedindo permissão para tocá-la, para amá-la. Um olhar que demonstrava tanto carinho e zelo. Ele a amava, ela sabia agora. Não era mais só palavras, ela podia sentir. E, tomada pela imensa felicidade da certeza que seu parceiro escolhido -aquele que acompanharia até o fim de seus dias - a amava também, ela respondeu:
-Amo você também, Harry - disse, antes de selar seus lábios nos dele.
Lino, que acompanhava a cena toda de longe escondido num arbusto, ostentava um sorriso maldoso nos lábios. Do lugar onde estava não conseguia identificar quem estava com Draco. Porém, o movimento dos dois corpos não deixava dúvida alguma com relação ao teor da atividade que Draco Malfoy participava. E já tendo visto o bastante, ele se afastou, retornando em direção à Torre.
-Vingança tarda mas não falha, Malfoy - pensou Lino apressando o passo.
-Onde estava? Fred e George estavam procurando você - disse Rony, que achara melhor esperar por Harry na sala comunal.
-Grande noite, não é, Roniquinho? - falou Lino antes de subir correndo em direção aos dormitórios masculinos do sétimo ano.
O dia amanheceu e Draco, pela primeira vez em toda sua vida acordou de extremo bom humor. O calor não o incomodava, nem o fato de Crabbe e Goyle brigarem com toalhas molhadas no banheiro ou disputarem alfabeto de arroto. Tudo parecia lindo e perfeito. Ela se sentia feliz, completa. E ignorando as infantilidades dos amigos, ela adentrou seu reservado, entrou debaixo de sua ducha e tratou de se preparar. Em poucos minutos, ela estava pronta. Estava com seu melhor uniforme. E pela primeira vez desde que seu cabelo crescera, ela os deixou soltos - como Harry gostava.
Se Crabbe e Goyle notaram a diferença, não disseram nada. Continuaram com suas brincadeiras aproveitando o bom humor do "chefe" enquanto dirigiam-se até o Salão Principal para o café-da-manhã.
Harry e Draco trocaram olhares durante todo o café. Porém, não tiveram muito tempo para qualquer coisa a mais pois o jogo da final era em uma hora. Olhando-se uma última vez, partiram para lados opostos, juntando-se aos seus respectivos times.
O campo estava lotado. Todos os alunos e professores estavam presentes para a grande final: Sonserina X Grifinória. Como sempre, um clássico.
-E os times entram em campo! Pela Grifinória - Fred Weasley, George Weasley, Alicia Spinnet, Angelina Johnson, Katie Bell, Rony Weasley e Harry Potter - exclama Lino Jordan entusiasmado - Pela Sonserina - Gregório Goyle, Vicente Crabbe, Pansy Parkinson, Blaise Zabini, Suzan Alconburry, Emília Bullstrode e Draco Malfoy - anunciou bocejando.
-Lino! - chamou McGonagall.
-Quero um jogo limpo - disse Madame Hooch - Cumprimentem-se.
Os capitães Fred Weasley e Blaise Zabini cumprimentaram-se "cordialmente". Ossos estalando eram ouvidos sem o menor esforço.
-Madame Hooch libera a goles. Zabini infelizmente pega e passa para Alconburry. Mas Angelina intercepta e rouba a bola. É isso Angelina linda!
-Lino! Por favor- pediu McGonagall.
-Desculpa, professora - Sonserina rouba a bola de novo e marca infelizmente. 10 a 0 para Sonserina.
O jogo continuou e Sonserina e Grifinória estavam disputando ponto a ponto a liderança do jogo. E mesmo depois de 45 minutos de jogo, nem sinal do pomo de ouro. Draco e Harry voavam em círculos pelo campo, tentando achá-lo e nada. Até que...
-Harry avista o pomo. Ele mergulha num velocidade espantosa, seguido de perto por Malfoy. O que é um bom sinal.
-Lino? - pergunta a professora, olhando assombrada para o garoto que narrava o jogo, como se ele tivesse sido abduzido por ETs e trocado por um clone.
-Ele continua seguindo Harry, e realmente é de se espantar que ele ainda consiga sentar direito na vassoura depois das atividades noturnas de ontem. - continuou Lino fazendo todo o estádio silenciar, o que chamou atenção dos jogadores que pararam achando que houvera algum problema.
-Por Merlin, Lino! -exclamou McGonagall horrorizada.
-É verdade, professora. Coisa feia, hein, Malfoy? Em pleno leito do lago? Acho que nunca mais vou pisar naquela grama. Mas diga, o povo quer saber. É algum fetiche seu? Tsc tsc, as pessoas podem ficar com uma impressão errada ao seu respeito. O que seu pais diriam se soubessem? Mas você já deve estar acostumado com is... - ralhou Lino, sendo arrancado do microfone que ampliava sua voz, pela professora McGonagall que gritava dizendo que ele passara dos limites.
Draco ouviu todo o discurso de Lino sem mexer um músculo. Sua mente trabalhava numa velocidade espantosa. Como Jordan sabia onde ela estava na noite passada e o que estava fazendo? Todos os fatos dos meses passados passavam por sua cabeça. Frases perdidas. Harry não teria feito isso com ela. Ou teria?
"Quero conhecer você melhor"
"Porque eu quero seu corpo"
"Como tem tanta certeza disso, Malfoy?"
"Deve ter sido algum bicho da floresta"
"Amo você, Bele"
"Que mal uma taça pode fazer?"
"Confie em mim"
"Nunca passou pela sua cabeça que ele poderia estar mentindo agora mesmo e você nem notou?"
"Isso faria dele um excelente mentiroso"
Acordando de seus devaneios, ela olhou a sua volta. Percebeu então que todos no estádio olhavam em sua direção, alguns apontando, outros cochichando. Ela sentiu os olhos queimando com as lágrimas que surgiam. Ela então olhou para Harry, que tinha uma expressão de pena.
Enquanto ela o observava, sua mente cada vez mais gritava "Enganada!". A palavra se repetia, em meios a risadas em sua mente, como um maldoso mantra. Ela sentia vontade de gritar, de pedir uma explicação. Mas não havia gritos suficientes no mundo, nem tampouco explicações que pudessem tirar essa sensação de peso que dominava seu peito. Nem milhares de dementadores poderiam ter um efeito tão forte assim. Harry a condenara quando a desposara. Ela estava marcada para sempre como propriedade de Harry Tiago Potter. Algo do qual ele se aproveitara, e em seguida jogara fora assim que já não era novidade. Ela estava condenada, e provavelmente seus dias estavam contados, como seu pai dissera que aconteceria caso acontecesse o pior. E decidida a acabar seus dias como uma perfeita Malfoy, ela ignorou suas emoções e partiu de volta ao pomo.
Os jogadores retornaram às suas posições e em poucos minutos o pomo estava em suas mãos. Sonserina ganhou a partida, o Campeonato e a Taça de Quadribol. Draco fora levada nos braços por seus colegas de casa. Blaise Zabini, o capitão, não parava de agradecê-la. Todo o time festejava, mas Draco não conseguia sorrir, porque a felicidade já não mais existia.
Ela passou os dias seguintes praticamente no "piloto automático". Freqüentava as aulas como um zumbi. Só falava quando falavam com ela diretamente. E quase não comia. Sua aparência estava horrível. Estava pálida e mais magra do que o habitual. Crabbe e Goyle às vezes sumiam, deixando-a com Zabini - que se aproximara após a vitória deles no campeonato - e retornavam com manchas de sangue em seus uniformes. Mas ela nunca perguntou de que vinham as manchas. Ela sabia que não era sangue deles, e era só isso que importava.
Então, alguns dias antes do final das aulas, ela caiu doente. Foi internada de imediato na enfermaria da escola. E era assistida por Madame Pomfrey - que diagnosticou depressão profunda - e por Severo Snape, que raramente saía do seu lado. E quando saía, deixava um o melhor guardião que Draco poderia ter em Hogwarts (fora Snape, é claro): Dobby.
O elfo ficava sempre ao lado dela, cantando cantigas de ninar que cantava quando ela era apenas um bebê, e que ajudavam-na a dormir. Dobby velava o sono de sua jovem mestra, protegendo-a de qualquer um que chegasse perto dela.E em suas horas vagas, ele se vingava do causador de todo o mal que afligia sua jovem mestra: Harry Potter. Desnecessário dizer que desde o incidente no jogo de quadribol, Harry nunca mais teve uma refeição que não estivesse queimada ou estragada, assim como lençóis limpos.
Harry tentara quase diariamente conversar com Draco, mas sempre era impedido. Crabbe e Goyle espancavam-no quase sempre que tentava. Rony dizia que Harry já não tinha um rosto com hematomas, ele tinha um hematomas com rosto. Mas Harry tinha fibra, ele não desistiria tão fácil. À noite, munido com sua capa, ele foi em direção a Enfermaria. Porém, foi barrado por Dobby, que ficara furioso e usara sua mágica em Harry, jogando para longe da enfermaria. Mas Harry já estava mais feliz, pois vira pelo menos de relance sua amada, que parecia tão frágil naquela cama enorme.
As aulas acabaram, e Draco foi liberada da Enfermaria. Seus pais foram avisados de seu estado, e a esperariam a plataforma 9 1/2. Snape encheu-a de poções para enxaqueca, mal-estar, depressão entre outros tipos, as quais ele achou indispensáveis que ela levasse. Crabbe e Goyle levavam suas malas, enquanto Snape a levava pessoalmente até um compartimento vazio. Após milhares de recomendações, ele voltou para Hogwarts. O trem partira sentido Londres.
E quando faltava menos de trinta minutos para chegarem, Harry rendeu o compartimento acompanhado de Hermione e Rony, que lhe davam cobertura. Hermione selou o compartimento com um feitiço silenciador, enquanto Rony rendia Crabbe e Goyle que não conseguiram puxar suas varinhas a tempo.
-Hoje eu vou falar com você e ninguém vai me impedir - disse Harry num tom controlado aproximando-se de Draco - Eu não tive culpa do que aconteceu naquele dia, eu juro! Você tem que acreditar em mim. Eu não sabia que o babaca do Lino estaria lá. Se eu soubesse eu nunca teria levado você lá, Bele -falou apressado e vendo que Draco continuava catatônica olhando para fora da janela, continuou - Eu estou falando a verdade. Eu até dei uma coça no Lino. Ele ficou uma semana na Enfermaria depois daquele dia.
Harry observava Draco ainda sentada, olhando para fora da janela. Ela parecia não ter ouvido uma palavra sequer que ele dizia.
-Estou falando com você, caramba - esbravejou Harry, fazendo o compartimento tremer, mas Draco continuava parada, com o olhar vazio pro nada.
Harry, reparando nisso, virou o rosto de Draco, forçando-a a encará-lo. O que ele viu o assustou.
Os olhos azuis acinzentados estavam opacos, sem vida, escurecidos. Grandes olheiras ficavam abaixo de seus olhos, que estavam fundos. O rosto estava macilento. Ela não lembrava em nada a garota cheia de vida que fora nos últimos cinco anos. Era como se estivesse secando por dentro.
Olhando toda essa beleza destruída, Harry foi acometido de um imenso medo de perdê-la. Ela já tinha perdido seus pais, já tinha visto Cedrico morrer sem poder fazer nada. Ele não deixaria a pessoa que mais amava no mundo morrer assim. Não desistiria nunca. Faria tudo que precisasse para vê-la melhor.
E sem conseguir se conter, ele abraçou-a.
Draco sentia os braços fortes que a seguravam. Aquele cheiro. Tão bom. Tantas lembranças. Lembranças de coisas que ela nunca teria de volta. Lembranças que gostaria de esquecer. Então, pela primeira vez desde o incidente, ela chorou. Lágrimas silenciosas que desciam por seu rosto sem trégua. Soluços mudos que morriam em sua garganta. Ela não conseguia parar.
E quanto mais Harry a confortava, mais ela chorava. Todos as ações de Harry pareciam ter efeito contrário. E percebendo isso, ele a deixou.
Com lágrimas nos olhos, ele fez sinal para seus amigos que tiraram o feitiço selador. Ele saiu do compartimento, sendo seguido de perto por Hermione. Rony ficando um pouco para trás, com um expressão indecifrável, que Harry não vira.
Ele continuou seu curso até sua cabine, onde pegou suas coisas. E quando o trem parou, ele partiu após se despedir de seus amigos.
Antes de ir em direção aos tios que o esperavam, Harry deu uma última olhada para Draco, que estava cercada por sua família. E caminhando para mais um verão inesquecível com os Dursleys, Harry teve a certeza de que três não era seu número da sorte.
Fim do cap. 10
