Postagem 10. Os Homens que não amavam as Mulheres

(Män Son Hatar Kvinnor, 2009, DIN/ALE/SUE)

Na noite seguinte eu nem queria ir mais pro Becker...

Eu tava muito, mas muito triste... e desanimada.

Fiquei enfurnada entre meus lençóis praticamente o dia todo...

Uma substancial dose de rejeição afetiva te dá um ânimo de sair da cama... aliás, depois dessa, mais dois novos verbetes pro dicionário on line Selene Stern:

Primeiro verbete:

Sentir-se atraída por um garoto: momento em que uma criatura do gênero feminino perde voluntariamente a sua liberdade pra tornar-se uma refém da boa vontade – leia-se: má vontade! – dele em relação a você; concessão de plenos poderes constitucionais republicanos ao presidente pra ele vetar qualquer desejo da congressista de ficar com ele; procuração, registrada em cartório, que delega ao garoto amplos poderes pra executar um pé no seu traseiro; frustração; desilusão.

Segundo verbete:

Rejeição: termo da medicina. Doença aguda, causada por envenenamento, que acomete seriamente o peito. A criatura que padece desta enfermidade sente-se valer tanto quanto partículas de defecação de mosca. Tratamento: não há antídoto; o tratamento é apenas sintomático, com concomitante monitoramento das funções vitais em UTI, via administração de chocolates e assemelhados...

Além disso: já tava também quase sem grana.

Rejeitada, desempregada, sem grana e morando como asilada nos fundos de Pink Pig...

Beleza! Algo mais pra mim poder pegar uma pistola Magnum 44 e sair nas ruas, babando com raiva, dizendo pra alguém essas palavras: "Vamos, complete o meu dia!"?

Meu momento "Dirty Harry" vinha chegando, chegando...

Sem grana pra mim...

Quase sem grana pra minha Luna...

Fui no banheiro. Removi com cuidado o armarinho com espelho da escova de dentes... Atrás dele, um fundo falso escavado na parede... Lá, havia uma latinha de refrigerante...

Peguei-a... sacudi contra a palma da minha mão... saíram poucas moedas e notas de pequeno valor...

O cofre forte do meu Banco Central tava quase vazio!

Inferno!

Conta corrente em banco de verdade? Como?

Quem do Sistema Financeiro, em época de tenebrosa Depressão Econômica, daria crédito e facilidades pra uma jovem desempregada?

Eu disse "uma" jovem desempregada?

Sei...

Compúnhamos, isso sim, um gigantesco exército de jovens sob as ordens do General Miséria... Lógica simples: em época de crise mundial, a corrente do mercado sempre estoura no elo mais fraco...

Créditos e subsídios? Não mesmo... eu tinha que esconder o pouco que eu tinha lá mesmo, naquela latinha... por isso projetei meu "cofre forte"...

Que chinelagem, que porcaria! Que merda dos infernos!

Minha vida tava virada numa porcaria só!

Nem conta em banco eu tinha mais... uma lata vazia de refrigerante, que qualquer viciado em crack taria usando nas ruas como cachimbo, era o último reduto da minha prosperidade...

Que merda mesmo a minha vida tava!

Fundo do poço!

Fundo do poço? Você tá brincando, né?

Eu já consegui, isso sim, é furar o fundo do poço e já tava cavoucando de pá no subsolo dele!

Se eu tivesse uma Magnum 44... Não sei mais o que eu fazia: se descarregava em alguém ou se descarregava em mim mesma...

Calma, Sê! Calma! Muita calma nessa hora! Isso também vai passar!

Menina, esquece qualquer tipo de pensamento que lembre um surto psicótico, ok?

Tudo na vida passa, até mesmo os momentos ruins...

Por mais escuro e frio que seja o Solstício de Inverno, ele não dura pra sempre: a roda do ano, a roda da Vida, não para de girar... e o quentinho e luminoso Solstício de Verão uma hora vai chegar...

Calma, Sê... Tenha calma, Bruxinha, confia que tudo vai passar... Confia!

Isso, fica calma... respira... respira... isso... isso... até ficar bem calma...

Eu tava respirando profundamente... tentando me acalmar...

Funcionou...

Pois é... eu tinha que falar mentalmente muito comigo mesma...

Afinal, eu era mesmo mega sortuda, pois eu tinha dois grandes ombros amigos pra mim me recostar nessas horas de Trevas.

Eles eram minhas duas fontes de reconforto, eternamente fiéis, que estariam pra sempre juntinhos de mim.

Quem?

O meu ombro direito e o meu ombro esquerdo!

Só faltava agora eu tatuar umas carinhas, com olhos, nariz e boquinhas nos meus ombros e sair por aí, de mangas regatas, conversando com eles pelas ruas! E apresentá-los às pessoas passantes:

"Vejam, são meus dois melhores amigos!"

Sarcasmo...

Um boa dose diária desse vinho ácido me ajudava a manter minha sanidade!

Todos odeiam o sarcasmo... Pra mim? Era a minha última couraça, a minha última muralha que me protegia de ser destroçada pela alcatéia de dificuldades.

Sarcasmo, segundo as outras pessoas: substantivo masculino. Ironia mordaz; insulto; zombaria; escárnio.

Sarcasmo, segundo a "Enciclopédia de Verbetes on line Selene Stern": o último bastião de resistência do humor, quando nada mais de risível sobreviveu! A última corda que ainda segura, pendente, a alegria de viver: o humor! Suspensa por sobre o horrendo e profundo abismo de Trevas chamado: desespero. Remédio. Salvação.

Ainda tava respirando fundo... e com a minha latinha ordinária de refrigerante na mão...

Aquelas poucas moedas e notas seriam pra minha Luna.

Gasolina. E umas últimas peças pra reposição.

Na hora da dificuldade, num campo de batalha, vale sempre a Regra do Cavaleiro...

Regra do Cavaleiro: cuide do seu cavalo com a sua vida! Porque se ele morrer, se você ficar sem seu cavalo, você não terá mais chances de vitória contra a cavalaria do oponente à sua frente... os cascos deles passarão por cima de você e te esmagarão!

Minha Luna era meu cavalo. Meu animal sagrado!

Sem ela jamais eu conseguiria outro emprego. Impossível competir por uma vaga no mercado de trabalho com quem tinha transporte, naquela crise toda. Eis a cavalaria do oponente...

E, sem a Luna, eu jamais poderia correr de novo: ficaria sem sustento algum até que surgisse um emprego...

Sem as corridas eu tava morta: caía direto da fila de desempregados pra fila da sopa!

Brrr! Que arrepio de horror!

Sim, eu precisava correr urgente na primeira madrugada que houvesse disputas!

Olhei pro relógio...

Tava chegando a hora de ir pro Becker.

Quase que não fui...

Só tomei um pouco de coragem – aliás, muita coragem! – e resolvi ir pra aquela droga de escola de novo porque lá eu ouviria boatos mais quentes de quando e onde haveria uma boa corrida clandestina.

Escola...

Eu sabia, eu sempre soube: voltar a estudar sempre seria aquele inferno pra mim!

Eu nunca tive nenhum tipo de amizade em escolas, exceto a Ayaan, em toda a minha vida. Aliás, a falecida amizade com Ayaan, "que descanse em paz pois já não está mais entre nós"...

Nunca mais recebi notícias dela...

Pois além de tudo, fui forçada a sair do coven, porque eu não tinha mais dinheiro pra pagar nem mesmo a gasolina das viagens até lá... quanto mais as colaborações que os membros deviam oferecer pra Grã-mestra...

Sim, a Grã-mestra, mãe de Ayaan, era muito exigente, e em muitos sentidos... quando Rachel partiu, eu me desempreguei, perdi minha casa em Lamy Village e a filha dela se ergueu pro sucesso na telinha, ela passou a me olhar dum jeito estranho...

Algo como... sei lá... como se eu fosse um "estorvo", uma "má companhia" pra Ayaan, alguém que "atrasaria a vida da filha dela"... ou qualquer coisa assim... Assim, agora, eu só via a cara da Ayaan quando ligava a TV e a via naquele programa...

Escola...

Porque eu me iludi, achando que justamente um garoto bonito de lá iria querer amizade comigo?

Burra, tonta, imbecil, estúpida que eu fui!

Sua idiota! I-di-o-ta!

Fui triste pro colégio...

Mas fui.

Precisava mesmo ouvir os boatos sobre corridas... confirmar se o que tava rolando na internet sobre datas e locais era informação quente mesmo...

Quando cheguei no Becker, no estacionamento, lá tava a Harley de Álex...

Eu? Estacionei a minha Luna bem longe daquela Harley, o mais distante que pude!

Fiquei matando um pouco de tempo no estacionamento porque ouvi um grupo de estudantes falando algo... sim, era sobre corridas...

Cheguei um pouco perto, como quem não quer nada.

Me recostei na parede, perto dos guris, fingindo ler um livro. Em alguns minutos eu já tinha algumas informações sobre as corridas!

Beleza!

Vou ver agora o que mais eu posso pegar de conversas sobre isso lá em cima, nos corredores.

Quando subi as escadas, em direção à minha sala de aula, vi aquilo...

Aquilo!

Várias colegas minhas de turma tavam ao redor de Álex, no corredor, próximas à sala...

Essa tinha sido a primeira vez que eu via Álex fora de sua classe, antes da aula...

Acho que foi porque hoje eu cheguei cedo demais...

Quando eu vi o rosto das gurias... olhando pra ele...

Foi então que eu percebi, finalmente, o quanto Álex era desejado pelas gurias... Lógico: uma garota enxerga de longe o olhar de desejo de outras garotas... temos faro...

E aquele fedor delas, cheirando como cadelas no cio se atirando pra cima dum macho alfa, penetrava fundo nas minha narinas!

Não sei porque aquilo me deu tanto nojo...

Que nojo imenso que eu senti!

Nojo!

Mas o nojo não foi o pior... O pior foi isso: eu me senti como se fosse um verme...

Me senti mais feia do que de costume... me senti mais esquisita, mais inadequada, mais Alien do que nunca...

Eu me senti tão mal vendo aquela cena, aquela nojenta pintura árabe exposta ali, "Álex e seu harém", que nem cheguei a entrar na sala de aula!

Eu me virei e fui pro outro lado do corredor, pra dentro do banheiro feminino...

Larguei minha mochila num canto e fui direto pra pia.

Abri a torneira e lavei meu rosto... deixei a água escorrendo bastante... água em movimento sempre me fazia bem...

Mas dessa vez não tava funcionando!

Foi então que eu percebi que eu tava sentindo uma coisa...

Essa coisa?

Raiva... muita raiva!

Percebi que eu tava furiosa! Puta da cara!

Eu devia ter ouvido minha intuição e nem devia ter vindo pra essa droga de colégio hoje! Fodam-se as informações das corridas!

Chega! Vou pra casa!

Peguei minha mochila.

Não vou ficar mais um minuto hoje nesta imundície de colégio!

A raiva subiu tanto pra minha cabeça que, me olhando no espelho do banheiro enquanto pegava minha mochila, percebi que meu rosto e orelhas começaram a ficar mega vermelhos!

E foi justo nesse momento que aconteceu!

Aquela coisa bizarra! E pela primeira vez, naquela noite!

Sabe a torneira da pia do banheiro? Bem a parte de cima da torneira?

Simplesmente se soltou, como se houvesse batido por baixo dela um intenso soco de água!

Washhh!

A água jorrou como num gêiser! Se eu não tivesse pulado pra trás, instintivamente, certamente eu tinha levado um banho!

Nossa, que susto que aquilo me deu!

Mas aquela torneira jorrando me fez voltar um pouco a mim...

Saí ligeira do banheiro.

Desci as escadas, com o coração ainda acelerado pelo susto da torneira da pia.

Era só o que me faltava mesmo: ser agredida por uma torneira voadora... Nova idéia de trash movie pra sugerir prum diretor de terceira mão de Bollywood, em Bombaim: "O Ataque das Torneiras Assassinas"...

Arfff...

Fui pro estacionamento.

Tava indo pra minha Luna, mas quando eu passei pela Harley de Álex... aquele calor no meu rosto voltou com tudo! Me deu um acesso de fúria tão grande que eu nem consegui me controlar!

Foi tudo tão rápido!

E aconteceu a segunda coisa mega bizarra daquela noite!

Sabe a torneira de jardim, que ficava no estacionamento? Aquela que o zelador usava pra regar as plantinhas dos canteiros que ajardinavam o estacionamento?

Simplesmente a parte de cima dela se soltou! Estourou!

Washhh de novo!

Jorrou tanta água, mas tanta água, que só não me molhei de novo porque eu dei um salto pra trás, mega rápida!

E foi apenas com aquele forte susto da torneira de jardim que eu me dei conta do que houve, quando eu voltei a mim... nossa!

E foi desta vez que eu tomei um susto ainda muito maior!

Aos meus pés, ao lado da Harley, tavam um monte de caquinhos de vidro e uns pedaços de plástico!

O que é aquilo aos meus pés?

O que "foi" aquilo aos meus pés! Aquilo, um dia, foi o retrovisor da Harley de Álex!

Aí que eu percebi que eu tava com um pedaço de pau na minha mão – usado como guia pra amarrar as arvorezinhas recém plantadas dos canteirinhos do estacionamento!

Eu havia arrancado aquele pedaço de pau, lá do canteiro, caminhado até a Harley de Álex e... completamente fora de mim, bati com toda a minha força aquele pau no retrovisor esquerdo da Harley!

Eu dei uma paulada tão forte que despedaçou o retrovisor, que caiu aos meus pés virado em cacos!

E eu devo também ter pisado e sapateado ainda em cima dele, porque tinha cacos cravados nas solas das minhas botas!

Não! O que eu fiz?!

Minha Deusa, eu nunca havia cometido um único ato de vandalismo nem quebrado nada de ninguém em toda a minha vida!

Sagrada Deusa, o que foi que eu fiz?!

Deixei de ser eu mesma e tive o meu verdadeiro momento "Lisbeth Salander"! Só faltava agora eu pregar piercings na minha cara, sair por aí hackeando computadores e atear fogo em homens canalhas!

Nesse momento minha raiva cedeu completamente seu lugar a um enorme susto!

Eu me apavorei comigo mesma! E muito!

Larguei o pau ali mesmo, ao lado da Harley!

E aquela torneira, estourada do nada, dê-lhe que dê-lhe jorrando água próxima à Harley...

Corri depressa pra minha Luna! Coloquei o capacete, dei a partida e fui embora rapidinha!

Na Assys Brazil Avenue minha cabeça começou a me culpar:

O que você fez, Selene H. Stern? Você destruiu o retrovisor da Harley de Álex!

Você destruiu uma coisa de outra pessoa!

E não era uma moto qualquer, era uma Harley! Você tem idéia de quanto custa a manutenção duma peça original duma Harley? Só falta agora você ter que vender a Luna pra poder pagar a indenização e o conserto daquela moto!

Me defendi da minha cabeça:

Não vou vender a Luna de jeito nenhum! E ninguém viu o que eu fiz! Nem o guardinha tava no estacionamento hoje! O portão tava aberto e sem vigia, podia ter sido qualquer um a quebrar! E o que tá feito, tá feito! Nunca mais eu faço isso de novo e pronto!

Tava tentando me justificar pra mim mesma: típica coisa de quem tá sempre se consumindo em conflito interno... Complicado...

O que eu fiz?

Quebrei tudo que eu pude da moto dum carinha, numa crise de raiva que eu não tinha a menor idéia do porquê brotou em mim!

Pelos Deuses Antigos, o que tava acontecendo comigo?

Eu não me reconhecia mais!

Eu tava sem nenhum controle sobre minhas emoções nas últimas semanas...

Que droga, desde que conheci Álex, desde aquele tal de "choque elétrico", tudo escapou do meu controle! O que eu tava fazendo comigo mesma?

O que tava acontecendo comigo? Será que eu tava pirando?

Será que aquele monte de pressões no inferninho da minha vida tava me deixando louca?

Os últimos meses da minha vida tavam sendo os mais difíceis dentre todos...

Sepultei Rachel, perdendo a única pessoa nesse mundo que gostava de mim... Me mudei do lugar onde me criei pra ir morar naquele inferninho de Pink Pig e seu reino de machos tarados... Nunca mais minha melhor amiga me procurou desde que ela prosperou – se esqueceu de mim!... Tava desempregada, e sem grana nem mais pra comer... E me sentia a guria mais feia do mundo...

Suspeito que uma próspera conjuntura de eventos como essa talvez colocasse meus nervos à flor da pele... mas é apenas uma leve e discreta suspeita...

"à flor da pele" ?

Você tá brincando, né?

Eu já tava era surtando!... Arf...

Preciso me manter no controle, preciso!

Preciso, preciso, preciso!

"Respira, Sê... respira... isso.. isso... se acalma, garota"...