Notas: Wow, chegamos ao capítulo dez. Boa leitura. :)


Capítulo 10: O Convidado Indesejado

Eren agora finalmente entendia o ditado de que você nunca deve conhecer seus heróis. Não era segredo que Capitão Levi não era carismático nem encantador, mas Eren o admirava por sua franqueza e honestidade desde criança pois ele era igual. Gostava da atitude direta; Eren não simpatizava com pessoas duas caras, mas talvez ele tenha se precipitado em sua avaliação sobre o Capitão. Não era o soldado correto e cumpridor de leis que ele inicialmente imaginara. O sangue de Eren fervia ao lembrar de seu encontro ontem à tarde; ele podia lidar com ameaças, não era um estranho quando se tratava de chantagens e violência, mas ameaçar Mikasa e Armin? O que poderia sequer querer dele? Isso o levava à ardilosa demanda de Levi. Soava tão sinistro; "um serviço para completar"? O que diabos iria o condecorado Capitão querer dele, um rato de rua, para justificar uma chantagem?

Eren cutucou a casquinha de uma ferida em seu antebraço enquanto fazia seu caminho para os fundos de Muralha Rose para a hora do chá. O assalto da noite passada foi abaixo da média e insatisfatório. Seu desempenho também foi fraco, sem dúvida resultado do estresse e distração. O recolhimento, depois de ser dividido entre os Titãs, não duraria sequer o resto da semana e isso sem considerar o fato de que também iria para ajudar Mikasa e Armin. Por sorte, ele tinha economias de roubos bem-sucedidos anteriores para se apoiar, se não fosse isso, eles certamente passariam por dificuldades. Ele realmente precisava de outra fonte de renda, assaltos eram inconsistentes e incertos e ainda colocavam um grande fardo nas costas de Mikasa para compensar sempre que ele não conseguia o suficiente.

Mikasa estava conversando com um homem quando Eren chegou à sala de chá, Armin pulando em seu colo preocupado em brincar com algo em suas pequenas e desajeitadas mãos. Eren reconheceu a bola vermelha como uma maçã ao se aproximar. Aonde diabos Armin arranjaria uma maçã? Elas eram caras e exóticas e mesmo quando trazidas para Muralha Rose, eram reservadas apenas aos clientes mais influentes que podiam pagar pelo luxo de frutas especialmente importadas. Finalmente focou no estranho ao lado de Mikasa e sentiu seu temperamento se elevar até o céu quando reconheceu o corte de cabelo familiar e ombros largos. Mas que porra? Ele tinha três dias! Levi disse que ele tinha três dias para tomar sua decisão!

— Ei! — Levi virou-se e piscou para ele vagarosamente, completamente imperturbado por seu tom agressivo. Mikasa, no entanto, franziu o cenho frente à sua grosseria, lançando-lhe um olhar de advertência. Ela não sabia nada sobre o enredamento de Eren com o homem mais velho além do que ele foi capaz de contá-la na outra noite quando fora forçado a fazer uma saída descuidada no meio da performance. Tudo o que ela sabia era que havia a possibilidade de Levi suspeitar que ele fosse um ladrão, mas nada mais, e Eren certamente não iria contá-la sobre a chantagem. Ela já tinha preocupações demais, ele podia cuidar de Levi sozinho.

— Eren. — O tom de Mikasa era nivelado, mas carregava uma firme indicação que ele reconheceu como aviso para se comportar. — Capitão Levi me disse que lhe perguntou por qualquer informação que você pudesse ter sobre aquele cavalheiro que ele estava procurando ontem e que queria lhe agradecer pela ajuda. Olhe, ele trouxe até uma maçã. — Mikasa sorriu para Armin que gorgolejou feliz em seus braços, roendo com seus poucos dentes de leite a casca vermelha e brilhante da fruta. Eren lançou a Levi um olhar desconfiado. Então ele já inventara uma história para o encontro de ontem; isso poupava Eren de alguns problemas. Mikasa parecera alarmada quando Eren emergiu do quarto privado no dia anterior pálido e como se tivesse visto um fantasma. Ele dispensara suas preocupações e prometera explicar depois, dizendo que precisava ir para se preparar para o assalto daquela noite, apenas para ganhar tempo de inventar uma mentira convincente.

— Que amável da parte dele. — Eren forçou, não quebrando seu olhar fixo em Levi que continuava completamente impassível. — Mikasa, posso falar com você, por favor?

Sua irmã pediu licença a Levi e seguiu Eren para um local afastado dali, parecendo intrigada. Eren não parou de fitar Levi até sentir que estava a uma distância segura o suficiente para falar sem ser ouvido e então virou-se para Mikasa. — Você está bem? Ele disse alguma coisa para você? Fez alguma coisa? — interrogou, agarrando Mikasa pelos ombros. Sua irmã franziu as sobrancelhas, se retirando de seu aperto.

— Era eu que deveria estar te perguntando isso. Tudo que ele fez foi questionar como tenho estado, como vai Armin e sobre o bem-estar das meninas. Ele perguntou se vivenciamos algum outro transtorno e se havia algo que pudesse fazer para nos ajudar. Eren, o que ele te disse ontem?

Hã? Eren desviou o olhar, franzindo o cenho enquanto repetia as palavras de Mikasa em sua cabeça. O que Levi ganharia com tal inquérito? Estaria reunindo informações para fins militares? Ele perguntou sobre Armin, sem dúvida estava juntando evidências para usar depois. Mas por que perguntaria sobre as garotas e ofereceria ajuda? Provavelmente era só parte da atuação, não devia estar falando sério. Certamente era alguma estratégia para ganhar a confiança e favor de Mikasa. Que homem ardiloso e manipulador. — Nada, só o que ele te contou, perguntou sobre algum cara que eu vi algumas vezes agindo de forma suspeita no beco Leste. Eu contei o que sabia e aparentemente foi útil. — Eren se virou para voltar aonde estava Levi, mas Mikasa segurou sua manga e o trouxe de volta.

— Eren, você é um bom mentiroso. Sempre foi e sempre será, por isso pode esconder o que quiser de mim, mas por favor não esconda se estiver com problemas. Sua cara depois do encontro com o Capitão não parecia a de alguém que só conversou sobre algum suspeito. Por favor, me conte se ele estiver te ameaçando ou se sentir que está em perigo. Eu quero ajudar, eu posso ajudar. — Eren olhou para sua irmã que o observava com olhos tristes e súplices. Por um segundo, ficou tentado a contar tudo; era uma merda guardar tudo dentro de si. Talvez tudo o que precisasse era discutir isso apropriadamente com alguém? Ter uma nova e objetiva perspectiva sobre o dilema para oferecê-lo alguma ideia nova que tenha deixado passar, mas então o sentimento se foi. Ele podia cuidar disso. Entre as apresentações, gerência das funcionárias e ser mãe de Armin, Mikasa estava sobrecarregada de trabalho. Ele não queria adicionar mais peso a seu fardo.

Eren sorriu para sua irmã e ajustou o lenço escarlate em volta do pescoço dela. — Honestamente, eu estava me mijando o tempo todo porque achei que ele estava enrolando até dizer que me reconhecia e me prenderia. Mas acabou que ele realmente só estava lá para perguntar sobre aquele outro cara, é por isso que eu parecia tão constipado quando voltei de lá. Eu estava petrificado. — Eren riu e ficou aliviado quando Mikasa respondeu com um pequeno e hesitante sorriso. Ela acreditava nele mas sabia que havia algo mais na sua história, porém ele conhecia sua irmã: ela podia importunar e ser superprotetora, mas no final das contas, confiava nele e não forçaria desnecessariamente. Seu segredo estava a salvo por enquanto.

— Você pode ir dar banho em Armin, não é hora do banho dele? Eu vou dar uma palavrinha rápida com o Capitão. Sabe, agradecê-lo e tudo o mais. — Ênfase no "tudo o mais".

Mikasa tirou a maçã dos dedos de Armin e jogou-a para Eren, olhando-o desconfiada. — Tudo bem, mas seja legal. Tenho certeza de que há uma razão para você ter começado a odiá-lo de repente, mas não se esqueça de que ele é Capitão das Tropas de Exploração. Ah, e pode ficar com a maçã; o Capitão comprou para você, mesmo.

Eren apertou os lábios para a fruta vermelha. Parecia perfeita, brilhante e suculenta. Ele dilacerou a fruta viciosamente, saboreando seu gosto forte. Nunca comera uma maçã antes, a textura era incomum e era mais dura do que imaginava. Mikasa já tivera clientes que ofereceram a fruta de seus pratos ou trouxeram-na como presente, mas ele jamais teve a oportunidade de provar uma. Levi o observava impassível quando ele finalmente se aproximou, contemplando a fruta em suas mãos. Não devia ter sido barata. Ele apertou os olhos para o mais velho. Devia oferecer-lhe um pedaço? Isso parecia a coisa educada a se fazer.

Eren estendeu a fruta meio comida em uma oferta silenciosa, mas Levi fez apenas uma careta ao gesto. — Isso não é higiênico. — disse. Eren fechou a cara. Bem, vai se ferrar você também.

— O que você quer? Você disse que eu tinha três dias. — Claramente delicadeza não era necessária, Eren podia apreciar ao menos isso.

— Não fale de boca cheia, pirralho. — A careta de Levi não esmoreceu e ele assistiu Eren mastigar com a face enojada, lábios se torcendo em desgosto. Eren aproveitou a clara repulsa no rosto do mais velho e fez um esforço concentrado para mastigar de boca aberta. Não me diga o que fazer, velhote.

— Eu realmente não gosto de você, sabe? — Levi sorriu para ele e ajustou sua posição para encarar Eren mais confortavelmente. Ele não estava de uniforme hoje, mas usando calças lisas pretas e uma camisa branca com um manto preto jogado sobre seus ombros e preso em sua garganta com um simples porém aparentemente caro broche dourado. Ele sentava como um Lorde, com um braço pendurado casualmente atrás da cadeira e o outro descansando em seu joelho. Ele parecia tão confortável. Eren queria socá-lo.

— Mikasa me disse o contrário. Sobre como sou seu herói ou algo assim e o quanto você me admira. — O mais velho sorriu ironicamente enquanto avaliava Eren preguiçosamente de sua posição. Eren podia jurar que seu olho estremeceu. — Qual é a de vocês, aliás? São namorados ou algo assim? Por que mais você seria tão superprotetor sobre ela?

Era meu herói, costumava te admirar. — enfatizou Eren, só para receber uma mão acenando desdenhosamente em sua direção. — E Mikasa é minha irmã. — As sobrancelhas de Levi se elevaram e ele fez uma careta com a explicação.

— Bom, isso é esquisito.

— Enfim, o que está fazendo aqui? O que você quer? — Os punhos de Eren estavam fechados ao seu lado enquanto fitava o homem de cabelos negros do outro lado da pequena mesa de pedra entre eles. Estava tão perto de se lançar por cima da mesa e esganar o mais velho, só assisti-lo descansando tão casualmente em sua frente já fazia o sangue de Eren ferver.

Levi franziu o cenho. — O que eu quero? Foi você que se aproximou de mim, eu é que deveria estar perguntando isso. — Eren recuou, aborrecido.

— O quê? Mas por que você estava conversando com a minha irmã? Por que está aqui, você nunca vem a Muralha Rose com tanta frequência! — Levi revirou os olhos e fez que iria se levantar, mas Eren levantou-se primeiro, encarando Levi. Obrigado a Deus pela diferença de altura. Claro, Levi ainda assim conseguia de alguma forma encará-lo de cima mesmo sendo alguns bons centímetros mais baixo, mas ao menos assim Eren sentia confiança por sua altura. Qualquer segurança era bem vinda enquanto Levi tivesse a habilidade de nivelar um olhar fixo para você que de alguma forma o fazia se sentir com dez centímetros de altura.

— O que o faz pensar que eu vim para lhe ver? Eu só queria saber como estão as coisas por aqui depois dos motins e ver como sua irmã está passando. — Mikasa? Levi estava aqui por Mikasa? Bem, só havia uma razão para que os homens viessem ver sua irmã, e não tinha nada de honroso nela.

— Fique longe da minha irmã. — rosnou Eren. Levi parou ao ouvir seu tom e tirou um momento para estudá-lo. Após uma breve inspeção, pareceu chegar a uma conclusão satisfatória e assentiu, um olhar de aprovação em seu rosto.

— Nada mau.

Nada mau? O que não era mau? Eren não fez nada. Levi ajustou seu manto e limpou a garganta, pegando seu sabre que fora apoiado no braço da cadeira. Era uma arma bonita coberta por uma suntuosa bainha de couro adornada com detalhes dourados e enfeites de pedras preciosas por toda a extensão. Eren não podia evitar de olhar para a espada com um misto de temor pelo quão valiosa devia ser e admiração por sua beleza. Se ele pudesse por as mãos naquilo, daria para alimentar sua família por anos. — Bom, você ainda tem dois dias para decidir, então escolha sabiamente. E acostume-se a me ver por aqui. — adicionou Levi.

Era claramente uma tática de intimidação. Levi não tinha negócios a fazer no bordel e o que quer que tenha dito a Mikasa devia ser bobagem. Seu objetivo era provavelmente enervar Eren com sua presença constante, continuar lembrando-o que não havia para onde fugir enquanto Levi estivesse lá para fazer algo a respeito. Eren começou a segui-lo para fora, mas a voz do mais velho o parou em seus trilhos.

— Ei, coma sua maçã, esse troço não é barato. — Ah, certo. Eren olhou de volta para onde a fruta meio-comida descansava esquecida na mesa e franziu as sobrancelhas.

— Por que você trouxe isso para mim? — perguntou ao reaver a maçã. Uma dupla de jovens sentadas próximo dali notaram a ação e olharam-no desconfiadas; apenas os funcionários mais populares recebiam esse tipo de presente tão caro. Ele certamente teria muitas perguntas a responder. Não havia motivos para ele receber presentes, definitivamente nenhum tão caro ou raro quanto uma maçã, então sem dúvidas suspeitas seriam levantadas.

— Acredito que o que se deve dizer quando recebe um presente é obrigado.

— Eu não vou agradecê-lo por nada. — atirou Eren imediatamente. Levi soltou uma risada abafada, aparentemente se divertindo com sua hostilidade. Ele observou a maçã na mão de Eren e deu de ombros com indiferença.

— Você deveria saber que a cavalo dado não se olha os dentes. Se te ajudar a dormir à noite, considere isso como um suborno para adicionar à longa lista de crimes que cometi contra você.

Eren observou Levi sair, espantado pelo modo como as garotas aglomeradas literalmente se repartiam para abrir caminho enquanto ele passava. Até mesmo clientes que estavam perambulando pela área curvavam suas cabeças respeitosamente quando ele passava, e alguns desses homens Eren reconhecia como nobres. Podia odiá-lo o quando quisesse, mas Eren não pôde evitar a pontada de admiração que ainda sentia pelo homem. Mas a maçã como suborno? Isso ele não podia aceitar. Você não precisa subornar alguém que já está chantageando, não havia necessidade, o que deixava o enigma da motivação real de Levi para presentear Eren. Deu outra mordida na fruta vermelha, ignorando o suco que escorria por seu queixo. Tentando bajulá-lo, talvez? Talvez fazê-lo sentir que aceitar o acordo de Levi não seria tão ruim se viesse com tais privilégios? Bom, não era como se Eren precisasse ser persuadido; ele não tinha realmente escolha com esse trato. Não precisava nem de três dias para se decidir, ele só apreciava o tempo porque significava adiar o inevitável. Ele tinha certeza de que Capitão Levi sabia disso também. Então por que a maçã? Por que as visitas? Por que as perguntas sobre Mikasa, Armin e as outras garotas?

Ele tinha mais dois dias para descobrir, de qualquer forma; independente de quais fossem as intenções de Levi, elas certamente não podiam ser íntegras.