Disclaimer: Nina, Ian, Paul e os outros personagens não são meus, se fossem eu não estaria escrevendo nada sobre eles. Com certeza meu tempo seria dedicado a mil coisas diferentes, menos escrever sobre a vida dos meus amigos, então. E como minha mãe me ensinou: Ninguém é propriedade de ninguém.

Beta: Já ouviram a famosa frase: Ninguém me ama, ninguém me quer? Eu estou dentro desses padrões.

Shipper: Ian Somerhalder e Nina Dobrev. Nian. Ian/Outos. Nina/Outros.

Spoilers: Não que eu saiba.

Avisos: Palavrões e qualquer outra coisa que eu decida colocar. Caso seja importante eu aviso no início do capítulo.

Segundo: Essa fic vai ser uma experiência totalmente nova e diferente do que estou acostumada a escrever. Preparem-se pro angust e possíveis lágrimas por aqui, não vai ser tão fluffy como costumo ser. Quero testar meus limites.

Capítulo X

Evelin sugeriu que eles usassem um jipe pra dar uma volta pela cidade e conversaram sobre coisas que não costumavam compartilhar com mais ninguém. Ou menos era assim com Evelin, que não costumava falar com as pessoas sobre o que sentia.

- Meus pais me cobram o tempo inteiro sobre o desenvolvimento e crescimento da fábrica. Às vezes eu acho que eles esquecem que eu só tenho vinte anos. É muita pressão.

- Eles querem que você aprenda a se virar sozinha e aprenda que ter um negócio próprio pode dar muito trabalho. É comum.

Evelin parecia sufocada com toda essa pressão e Ian não precisava conversar com ela por mais que alguns minutos pra descobrir isso.

- E você é pai pra saber tantas coisas? – Ela perguntou enquanto entrava com os olhos atentos na estrada. Ela estranhou o silêncio que se instaurara dentro do carro. Ian não fazia o tipo calado.

Por sorte já estavam chegando ao final da estrada e o penhasco parecia incrivelmente alto dali. A vista perfeita.

- O que foi? – A ruiva perguntou com o pensamento se teria ofendido Ian de alguma forma.

Ian deu um sorriso triste olhando apenas pra paisagem à sua frente.

- Não, mas a minha ex-noiva vai ser mãe.

Evelin poderia muito bem conhecer Ian há apenas alguns dias, mas achava que era impossível destruir a tranqüilidade que o moreno ostentava. Estava enganada.

- E isso te incomoda?

Ian passou mais um bom tempo calado, como se precisasse pensar na resposta ou pensasse sobre o que sentia.

- Nós planejávamos uma vida juntos e isso incluía ter filhos. Eu só... – O moreno revirou os olhos com a lembrança que incomodava mais do que ele gostaria de admitir. – Achei que esse filho era meu.

- Você ainda gosta dela. – Não era uma pergunta.

- Quando você passa quase seis anos da sua vida com alguém é meio difícil esquecer da noite pro dia. – Ter amigas mulheres era estar em um campo totalmente diferente e Ian não podia fazer esse tipo de coisa com Candice.

Não era como se ele e Evelin fossem amigos, mas ela tinha algo de diferente que o deixava confortável pra conversar esse tipo de assunto. Candice era de fato sua melhor amiga, mas era sempre desconfortável falar tudo que pensava. Afinal ela era a melhor amiga de Nina também.

Era uma batalha interna que ele estava se saindo perfeitamente bem, enquanto ainda não haviam se encontrado e conversado sobre o assunto.

- Aí que está o seu problema. Nós não podemos apagar tudo que já aconteceu, mas precisamos seguir em frente e aceitar o que passou.

- E você já superou seu último relacionamento?

Evelin sorriu olhando pra qualquer ponto especifico, menos os olhos de Ian.

- Estou trabalhando nisso.

- E isso quer dizer o que?

- Que eu gasto um dinheirão em terapia por não conseguir superar um relacionamento sozinha.

Os dois passaram uma boa quantidade de tempo entendendo o que havia acontecido na vida de ambos, que no fim das contas eram histórias parecidas. Evelin tentou ferir seu namorado que não desistira dela mesmo depois de todas as dificuldades para ficarem juntos. De acordo com ela, ele dissera que a amava e estava disposto a encarar sua falta de tempo para o relacionamento dos dois.

- Era como se eu não conseguisse estabelecer o que ou quem era prioridade porque queria poder fazer tudo ao mesmo tempo. E achava injusto comigo e com ele.

Ela comentou no meio da conversa, mas o cara provavelmente a amava muito e esperava que isso algum dia acabasse mudando. Assim como Nina esperou que ela mudasse de comportamento e no fim todo mundo saiu magoado da história.

- Hoje ele mora em uma outra cidade e meus amigos disseram que foi por minha causa. Tem noção de como isso mexe com a cabeça da gente?

A essa altura os dois haviam encontrado pedras onde sentaram.

Claro que Ian sabia o que era uma pessoa se mudar por sua causa e em seu caso tudo foi ladeira abaixo mesmo. A pessoa havia se mudado para outro país. Isso que deve ser desespero pra se ver livre de alguém.

- E você nunca se arrependeu e quis voltar?

Pela primeira vez em horas de conversa,o moreno pode ver uma pontada de tristeza em algum canto. Evelin pareceu querer chorar pela primeira vez.

- Sempre quero, mas agora ele reconstruiu a vida em outro lugar e a minha continua a mesma. Sem espaço pra alguém agora.

Claro que Ian achava um absurdo não ter uma pessoa e culpar o trabalho, mas jamais falaria isso. Evelin escutou tudo sobre Nina sem críticas, então ele teria o mesmo cuidado.

- Se um dia você mudar de opinião, acho que deveria procurá-lo. Até eu que fui um tremendo filho da puta tive essa coragem, mas me rejeitaram. – O moreno disse com um pequeno sorriso nos lábios, levantou-se sacudindo a poeira da roupa e estendeu a mão para ajudar Evelin. – O sol está quase se pondo.

Na manhã seguinte Ian não teve nenhuma de suas aulas com Evelin, o que não era surpresa alguma, já que a mesma havia dito que colocaria seus trabalhos em dia.

Seu professor lhe deu as instruções de onde ficara o escritório. Era no segundo andar num corredor mais afastado da fábrica. O barulho não alcançava aquela parte, provavelmente uma escolha melhor de trabalhar em paz.

Ele deu dois toques suaves na porta e a abriu lentamente. Evelin estava sentada de cabelos enrolados no topo da cabeça. E olhos atentos aos papéis em cima de uma mesa que pro incrível que pareça, tinha um formato de prancha. O fato em si não era surpreendente, mas poderia ser chamado de interessante.

O escritório era grande, claro e muito colorido. O tipo de ambiente que poderia ser chamado de hippie. Algumas almofadas estavam arrumadas em volta de uma mesa baixa. Tocava uma música instrumental de um ambiente tranqüilo que Ian se perguntava como Evelin não estava dormindo em cima daquela mesa.

O ambiente era descontraído, mas passava profissionalismo. Se é que isso fazia algum tempo de sentido. Quando os olhos de Evelin se ergueram para a porta ele não pode deixar de sorrir.

- Tão concentrada! – Ele debochou ainda parado a porta.

Ela apenas revirou os olhos.

- Sentindo falta da sua professora? – Evelin estava agora recostada em sua mesa esquisita.

- O outro professor é legal e não briga muito. – Ele sorri só pra implicar, enquanto entra no escritório e senta-se na primeira cadeira. – Vim te convidar para almoçar comigo, topa?

A ruiva estava preste a responder quando alguém surgiu das profundezas de um lugar obscuro e provavelmente escondido no escritório, porque Ian não havia visto ninguém ao entrar.

- Almoçar agora parece muito bom.

O cara tinha a mesma aparência dos outros que andavam pela fábrica: pele queimada do sol e bermudas coloridas compondo o visual. Lembrava o estilo havaiano de ser.

Ele pigarreou e não se deu o menor trabalho de olhar para Ian ou notar que ele estava ali sentado no mesmo ambiente.

- Eve, desculpe interromper, mas nós temos duas reuniões em menos de uma hora.

Se segundos atrás poderia haver uma promessa de almoço divertido e conversas descontraídos, os olhos de Evelin denunciavam que esse momento já havia passado e agora só o trabalho importava. Como sempre.

- Eu me pergunto o que seria da minha vida sem você, Chris.

Chris. Christian. Christopher. Ou qualquer variação de Chris sorriu como se estivesse no sétimo céu com a declaração:

- Sua agenda seria uma tremenda bagunça.

Uma competição com o trabalho nunca seria muito justa se tratando de Eveline e Ian já aprendia esse fato mesmo com tão pouco tempo conhecendo essa garota.

- Boa reunião. – Ian falou quando já estava abrindo a porta.

Evelin não pareceu conseguir ter algum tipo de reação imediata e apenas sorriu em resposta enquanto o moreno deixava a sala.

- Ian. Espere! – Ela gritou, parecendo ter esquecido de algo importante e sorriu assim que alcançou os passos de Ian. – Nós podemos jantar na minha casa hoje à noite, você quer?

- E não tem muito trabalho? – Ian não tinha a menor intenção de parecer sarcástico, mas às vezes esse tom pulava de seus lábios antes que pudesse ser controlado.

- Depois das nossas conversas eu não quero ser mais só a garota do trabalho. Às 20:00 hrs?

Ian ignorou o comentário maldoso que William fez quando ele comentou que iria jantar na casa de Evelin, que por sinal era um lugar mais afastado do centro da cidade. De acordo com as instruções que ela dera ao telefone.

Em um filme tem aquela pitada de humor quando se fala "um lugar tão tão distante". Não tinha nada de piada sobre o lugar que Evelin morava ou se escondia, era a perfeita definição pra distante e ele se perguntava como voltaria pra casa mais tarde.

A cabana na praia não era nenhuma novidade para Ian, na verdade ele esperava por isso. A pequena aldeia era iluminada fracamente pelas luzes das casas simples e ao chegar na entrada da casa que procurava achou interessante ver que Evelin tinha acendido tochas na entrada da cabana.

O interior da casa seguia o mesmo estilo do escritório: hippie com alguns toques modernos. Ela parecia querer se equilibrar em cima de uma balança da profissão que exercia e da pessoa que era sem esse título.

Durante o jantar Ian e Evelin conversaram sobre seus trabalhos, sobre coisas que ainda não tinham tempo pra fazer e a conversa era fácil e tranqüila. Ian entendia de surf e Evelin não entendia nada sobre Hollywood, mas pareceu interessada sobre esse aspecto da vida do moreno. Um bom entendimento.

Tomaram um vinho para acompanhar o macarrão ao molho branco que Evelin fizera para o jantar. Não era tão ruim. O macarrão. Já o vinho só foi aceito depois de muita resistência e Ian tinha a certeza de que não seria como das outras vezes.

Apesar da voz de sua consciência dizer que essa atitude ainda não era aconselhável.

Talvez ele devesse sempre escutar essa voz porque pra início de conversa ele não teria metade dos problemas atuais. Ok, já era hora de esquecer mágoas e arrependimentos passados. Ou pelo menos tentar. O problema foi seu corpo que já perdia o antigo hábito, agora estava sendo bem menos tolerante ao álcool.

Só daí ele se lembrou que viera de carro, mas tudo estava ficando meio borrado e difícil de interpretar da forma correta.

Evelin não estava em um estado tão melhor do que ele e estava rindo de algo que conversavam agora. Talvez fossem as memórias da infância, mas não tinha como ter certeza.

- Agora eu vou ter de ligar pro William vir me buscar. – Ian bocejou sentindo o efeito mais forte do álcool fazendo suas pálpebras pesarem.

Evelin demorou tanto pra responder que ele começou a pensar que a garota havia caído no sono antes dele. Ela estava apenas distraída brincando com um de seus troféus em miniatura que ficavam decorando a mesa de centro.

Ian tentou ligar pra William umas vinte vezes, que pra variar não atendia a droga do celular.

- Merda! – O moreno resmungou em meio a um gemido depois de jogar o corpo no sofá e se sentir realmente tentado a dormir ali mesmo.

Evelin parecia ainda muito interessadas em seus brinquedinhos e apenas alguns segundos depois se virou pra entender que Ian estava irritado e meio bêbado. Assim como ela.

- O que houve? – A ruiva perguntou em meio a um suspiro antes de fechar os olhos.

- O William não atende o celular pra vir me buscar.

E daí veio mais um daqueles momentos que ela demora uma eternidade pra comentar ou responder algo, mas Ian chega a conclusão que provavelmente o cérebro dela funciona mais devagar nesse estado de não-sobriedade.

- Você pode dormir aqui. – Evelin comentou ainda com os olhos fechados e quando os abriu, parecia muito inocente e uma garota normal de vinte anos.

Ian ficou mais chocado do que seu rosto denunciou e ele não queria parecer indelicado demais ou rude. Até porque o fato de não estar muito sóbrio não significava nada em outro sentido.

- Eu...Quero dizer, não pode ser... – O fato de ter bebido em excesso não estava ajudando em nada com a sua performance. – Não acho que seja uma boa idéia.

Evelin ainda tinha alguma força pra revirar os olhos e colocou toda sua pouca força pra bater a almofada em Ian.

- Homens...Sempre pensando com malícia. Eu não quis dizer desse jeito e só pelo desaforo deveria deixar você dormir lá na praia. – Agora ela parecia tão eloqüente como uma pessoa que não bebeu.

Naquele momento Ian queria colocar a cara dentro de um buraco, mas estava tão cansado que apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça e pediu para que Evelin lhe trouxesse um cobertor.

Ian acordou com aquela dor de cabeça incômoda lembrando o quanto o exagero na bebida não faz tão bem assim. Seu corpo estava fraco e dolorido por não se adaptar onde estava deitado.

Flashs da noite passada vinham como um borrão e o gosto amargo subia à sua boca. Esticar o braço foi apenas para certificar sua real situação que ainda parecia bem confusa.

Ao abrir os olhos e se ver vestido nas mesmas roupas da noite passado e deitado no sofá foi uma sensação libertadora.

O moreno bocejava até perceber um bilhete na mesa de centro e dizia o seguinte:

"Deixei pizza gelada e café pra você. Tive de sair cedo para treinar. Por favor, me espere!"

Ele bem que gostaria de esperar e conversar com Evelin sobre a noite anterior. O que ele não fez porque estava nervoso, assustado e confuso com tudo acontecendo de um jeito tão incomum.

Evelin era a pessoa que ele esperava conhecer, era como uma amizade que já sabia que surgiria. Algo dentro de si dizia que acabaria por conhecer alguém que entenderia toda situação que passava e ajudar de alguma forma.

Era esquisito e ele não sabia se poderia explicar algo para Evelin sem passar a impressão errada. Tudo que Ian não queria agora era se envolver com qualquer pessoa.

Resolveu apenas tomar o café e saiu correndo como se sua vida dependesse daquilo.

Se encarar Evelin poderia ser ruim, encontrar com William dando aquele sorrisinho malicioso era muito pior.

- Espero que a noite tenha sido tão boa e que isso destruiu sua cara. – Will disse com um grande sorriso matinal enquanto enchia uma torrada com geléia.

O moreno apenas suspirou e se jogou na cadeira ao lado:

- Teria sido melhor se você lembrasse de atender o celular e me buscar.

- Ah até onde me lembro, você saiu daqui motorizado. Qual foi o problema? – Ver os olhinhos de William brilhando com a maldade quase o deixava com vontade de arrancá-los.

- Eu bebi demais e não estava em condições de dirigir.

O loiro encheu o quarto com uma risada barulhenta e digna da melhor piada do mundo.

- Ela precisou te embebedar? Boa garota!

Ian teve de explicar toda situação para o melhor amigo que não parecia disposto a deixá-lo em paz sem ter dado todo histórico da noite anterior.

- Eu acho que o que você ainda sente pela Nina te atrapalha a enxergar que pode acontecer com outras pessoas. Essa Evelin parece ser legal, apesar de tudo.

- Pode até ser, mas eu não a vejo desse jeito. E superar meu relacionamento é algo que ainda vai demorar um tempo. Agora vou tomar um banho.

A coragem pra ir pra sua antepenúltima aula não veio, então resolveu aceitar o passeio que William tinha proposto e agora ambos ignoravam totalmente a conversa que ocorrera pela manhã. Essa é a parte boa de um melhor amigo: Ele sabe quando deve parar.

As aulas já haviam começado quando pisou na fabrica na manhã seguinte. Também pudera, pois já estava uns vinte minutos depois do horário previsto para começar a aula.

Os alunos estavam em silêncio escolhendo a impressão da própria prancha e ninguém pareceu realmente interessado em sua chegada. O professor não estava em nenhum lugar visível e Ian quase suspirou de alívio. Quase.

- Boa tarde! – A voz parecia sair entre dentre trincados. A voz de alguém que engolira uma bola de pêlo.

Ao se virar deu de cara com Evelin. Ele ainda não tinha planejado nada pra dizer a essa hora da manhã e mesmo que tivesse, ela não lhe deu tempo nem de cumprimentá-la.

- Comece a lixar sua prancha pra começarmos o processo de impressão. E você já está atrasado. – Ela tinha se tornado a mesma pessoa que ele conhecera alguns dias atrás. Não existia o traço de um sorriso ou a mesma amiga de uma bebedeira no sofá.

- Evelin... – Ela já tinha saído na direção de outros alunos.

O resto da aula ela apenas se aproximou para chamar atenção quando algo saía errado e quando não fazia, Evelin se abstinha de comentários.

Por sorte Ian ainda conseguiu alcançar os outros alunos.

Ao terminar a aula ela apenas montou em uma espécie de jato e desapareceu da vista antes que o moreno pudesse alcançá-la. Ela deveria estar no escritório.

O aparente assistente da ruiva estava de segurança na porta e não parecia disposto a deixar ninguém entrar. Muito menos Ian.

Foram uns bons vinte minutos de argumentos e nenhum progresso. O cara parecia ter algum tipo de problema pessoal com Ian.

No fim das contas Evelin deve ter cansado do falatório em sua porta e resolveu abrir:

- Tudo bem, Chris. Eu vou recebê-lo, muito obrigada pela ajuda. – Ela sorriu sinceramente para o assistente. – Pode entrar! – E sua expressão era impassível.

- Se precisar de mim é só chamar. – Chris disse num tom de aviso.

Evelin sentou-se nas almofadas que haviam espalhadas em torno da mesa de centro e continuou mexendo na papelada que era provável estar arrumando antes de ser interrompida.

Ian se junto à ela nas almofadas postas no chão.

- Desculpe por ontem!

Ela não respondeu por um bom tempo e continuava a mexer em seus papéis. Por fim ergueu os olhos:

- Qual o seu problema? Sério cara, qual a droga do seu problema? Eu achei que você queria e precisava de uma amiga, mas talvez estivesse certo desde o início e não seja uma boa idéia se aproximar de alguém como você.

- Eu mereço isso, mas vai continuar me xingando ou me dar a chance de me explicar?

- Acho que seu recado de ontem passou a impressão: Não quero sua amizade, tenha uma boa vida.

- Claro que preciso de uma amiga, só não sabia de que jeito você entenderia. Por isso fui embora ontem. Não posso estragar mais nada na minha vida. – Ian estava orgulhoso da sua explicação curta e objetiva.

Sem obter resposta negativa, o moreno deduziu que era um bom sinal. Evelin não era uma garota de muitas palavras. Ele a abraçou:

- Amigos?

- Você é realmente um péssimo amigo. Realçando o péssimo. – Ela resmungou em meio ao primeiro sorriso amplo e sincero desde que se conheceram.

William estava pagando o táxi enquanto Ian se encarregava de pegar as malas e empilhá-las no carrinho do aeroporto.

- Ainda chegamos uma hora antes do previsto. Não sei o porquê de tanta pressa. – Will já estava ao lado de Ian reclamando enquanto ajeitava os óculos de sol que escondiam os círculos escuros debaixo dos olhos.

- Pra não ter de correr pelo aeroporto na hora do check-in.

O moreno também não estava em um estado melhor. Suas roupas meio amarrotadas foram as primeiras peças que encontrou no fundo da mala ao chegar no hotel e só ter tempo de um banho rápido. Os cabelos agora não estavam bagunçados propositalmente, estavam realmente uma tremenda bagunça.

William saiu pelo aeroporto à procura de um bom restaurante ou qualquer porcaria que ele decidisse comer. Isso deu tempo para que Ian andasse pelas bancas e encontrasse algumas lembranças fúteis. Também achou um livro interessante para ler na viagem. Se não acabasse dormindo antes mesmo do avião decolar.

Acabou sentando próximo ao portão de embarque para esperar que William voltasse e pudessem fazer o check-in.

Sentiu uma mão em seu ombro.

Ao se virar deu de cara com uma Evelin sorridente mesmo com a cara de alguém que não dorme há uns dois dias. O que o moreno já havia achado estranhos nos últimos dias é que Evelin parecia não dormir ou fazer algo parecido com descansar e ela sempre dava a desculpa de estar compensando com trabalho noturno por sair com ele e William e esquecer da sua vida profissional.

Falando em William, ele tinha simplesmente adorado a garota e a achava incrível. Os dois eram tão desajustados de uma forma parecida que Ian se sentia bastante normal.

- Eve, o que está fazendo aqui?

- Vim me despedir! – Ela disse em meio a um bocejo e se jogou na cadeira de espera.

- Nós nos despedimos mais cedo.

Ela apenas balançou a cabeça em afirmativa e fez sinal em direção ao pacote gigantesco que estava encostado na pilastra mais próxima. Ian nem tinha reparado, mas era possível afirmar ser uma prancha e ele já tinha uma novinha em folha graças as aulas que tivera com Evelin.

- Deve estar se perguntando o porquê de um presente que você já tem e se eu não poderia ser mais criativa. Por favor, vá buscar que você entende.

Claro que Ian estava morrendo de curiosidade pra saber o que haveria de tão bom nessa nova prancha e quando abriu viu que não tratavam em si do objeto, mas da impressão que Evelin havia posto.

Era a visão que eles tinham em cima daquele penhasco que ela o levara.

- Eu que desenhei. Falei que era o lugar que meu pai me levava quando crianç melhor paisagem de todas. Agora você é meu amigo e te levei lá, achei que fosse gostar.

Agora era a vez do moreno ficar sem voz.

- Só não comece a chorar aqui, por favor! – Ela zombou e deu um tapinha nas costas dele.

- É incrível e eu vou sentir falta de todo esse "carinho".

- Falando nisso, daqui um ou dois meses vou ter um campeonato no Hawaí e talvez desse pra você aparecer ou quem sabe eu possa ter um tempinho e te visitar.

- Seria ótimo. – E Ian a abraçou mesmo sabendo que Evelin não a pessoa mais dada a contatos físicos.

William surgiu de algum lugar desconhecido e os abraçou também:

- Abraço em grupo!

Os três riram.

Um mês depois...

Nina estava sentada no consultório, mas sua vontade era de caminhar até criar um buraco no chão tamanho o nervosismo. Era sua primeira ultra-sonografia e descobrir se teria uma menina ou um menino estava quase consumindo toda sua sanidade.

- Se continuar se mexendo tanto nessa cadeira, ela vai quebrar. – Matt zombou de Nina que estava bem perto de uma crise nervosa.

- Pra ficar me criticando desse jeito, não deixo você entrar comigo pra ver nada. – A morena andava rabugenta esses dias e desconfiava que seus hormônios estivessem descontrolados.

- Tem certeza de que quer entrar sozinha? – Ele perguntou sabendo o quanto ela estava nervosa e seu irmão e sua mãe não puderam vir com ela.

Ela apenas fez uma careta e ficou calada até que a enfermeira apareceu para lhe chamar.

Era a grande hora.

Matt pôs a mão em seu ombro e a guiou até estarem na sala com a médica que vinha lhe atendendo nos últimos dois meses. Tereza era uma médica bem conceituada que Elizabeth tinha encontrado com algumas recomendações de amigos.

A médica fez as perguntas freqüentes, fez algumas recomendações para o terceiro mês, receitou algumas vitaminas que deveria tomar e Nina estava muito aérea. Respondeu tudo no piloto automático.

O gel era gelado e a morena quase pediu para que Tereza a amarrasse na maca em que estava deitada.

Um borrão apareceu na tela e a morena mal conseguia piscar. Era uma imagem estranha, mas conseguia prender toda sua atenção porque era meio louco imaginar que existia alguém dentro dela, que seria sua responsabilidade toda vida.

- Aqui está seu bebê. – Tereza mostrou na tela o pequeno borrão. – Quer escutar o coração?

Nina fez que sim com a cabeça e sentiu quando Matt segurou sua mão.

O som cortou todo silêncio da sala, um baralho alto, forte e cheio de vida. Os olhos de Nina encheram-se de lágrimas. Nada que ela quisesse dizer expressaria exatamente o que sentia nesse momento.

Toda sua vida ela havia esperado por um momento e não sabia o que era. Era por isso.

- Nina, você vai ser mãe de uma menina.

Ela nunca se importou muito com esse detalhe, sempre amaria da mesma forma intensa. Só que ter uma menina fora uma idéia atraente demais desde o início.

- Oi princesa! – Nina sussurrou querendo que a filha se acostumasse com a sua voz.

Matt saiu junto com Nina do consultório e ela pediu que dessem uma volta em uma praça próxima onde tinham estacionado o carro. Ela estava muito calada e pensativa.

Matt vinha sendo um amigo e tanto. Ele fazia todas suas vontades, a levava pra jantar, comprava lanches saudáveis para as gravações e durante a semana acabava morando em um hotel próximo de seu apartamento. Também estava prometendo trazer seus filhos para conhecerem Nina.

Nina estava com os pés descalços e andou pela grama do parque, remoendo alguns pensamentos que não a faziam se sentir melhor.

- Quero ir embora, tudo bem? – Ela perguntou vendo que Matt estava distraído vendo as crianças que brincavam num ponto mais distante do parque. Provavelmente estava com saudades dos filhos. Na última semana ele não conseguira tempo de ir para Nova Iorque.

- Você parece preocupada. – O moreno comentou mostrando que estava mais ligado do que Nina realmente acreditava. Ele passou as mãos pelos braços de Nina e a abraçou.

- Só um pouquinho.

Eles caminharam até o carro em silêncio. Matt entendia quando Nina não queria conversar a respeito.

Nina sentou no banco do carona ainda com aquela sensação esquisita. De estar imensamente feliz, mas o medo a deixava angustiada demais.

- E se eu não for uma boa mãe? Eu não sei como posso fazer isso. Já estou metida até o pescoço com tanta bagunça e ainda não faço a menor idéia de como criar uma pessoinha. – Não parecia que ela estava à beira das lágrimas, mas a preocupação deixava sua testa vincada.

Matt gostaria de dar a fórmula da maternidade, mas ele não sabia. Ter filhos é complicado, prazeroso e muito confuso. Poderiam existir cursos pra todo tipo de coisa, mas ser pai você só aprende na prática. Seus filhos agora estavam um pouco mais velhos e o trabalho em algum sentido, melhorava.

- Com o tempo você vai aprendendo a lidar com as coisas, mas não existe uma receita pra isso. Precisa entender que criar uma filha tem que ser do jeito que você quer. São os seus princípios, seus valores, as qualidades que você gostaria que ela tivesse. Nada vai ser perfeito, mas só precisa fazer o que achar certo.

Nina acenou com a cabeça e Matt sorriu em incentivo.

Eles ficaram se encarando por um tempo e o clima começou a pesar dentro do carro, como se algo estivesse mudando e ambos não sabiam o porquê. As mãos do ator pousaram no rosto de Nina, uma espécie de carinho e de algum lugar surgiu algo mais que amizade naquele momento.

Nina e Matt se beijaram.

O que ambos pensavam no momento era uma tremenda bagunça.

Nina pensava que Matt era o amigo mais próximo que ela tinha ultimamente. Ele era gay. Tinha três filhos. Estava grávida e beijando um cara que tinha um marido, mas ele também era um companheiro pra ela. Era atencioso. Cuidava dela. E putaquepariu que bagunça.

Matt não poderia estar mais confuso com tudo. Ele era muito bem resolvido com sua escolha de vida. Tinha três filhos maravilhosos. Amava seu companheiro. Gostava bastante de Nina e eles tinham uma boa sintonia, não era nada físico. Talvez fosse a cumplicidade que começava a existir e a força do momento que causasse essa loucura.

Eles já haviam se beijado em cena, mas era tudo muito técnico e nenhuma verdade existia quando rolava dentro dos sets. Agora o beijo de dentro do carro era totalmente real, era necessário, amigável, simples e ao mesmo intenso. Se é que isso faça algum sentido.

Ao terminarem os dois se encararam por um longo tempo. Sem saber o que dizer, se é que havia algo que pudessem explicar.

- Eu... Me desculpa, quer dizer não sei o que me deu e... – O moreno pousou dois dedos nos lábios de Nina.

- Shh. Tá tudo bem.

Ela negou com veementemente com a cabeça.

- Nina, nós nos beijamos. Não fui eu que te beijei ou você que me beijou. Nós fizemos isso e tem um ditado muito velho que diz: Quando um não quer, dois não brigam. Somos bem crescidos pra resolver esse tipo de coisa.

- Então você quis me beijar? Mas você é...

- Gay? Eu estou bem ciente desde a adolescência. Não que nunca tenha saído com nenhuma mulher, mas não é muito comum.

Nina deu um suspiro cansado:

- Vamos apenas esquecer isso. Nós somos muito amigos pra estragar tudo por culpa dos meus hormônios descontrolados. – Nina enfiou as sapatilhas nos pés e ficou os encarando com seus próprios pensamentos. – Minha libido está nas nuvens e não estar com ninguém não ajuda em nada.

Ela tinha dito aquilo em voz alta? Só porque estava pensando, não significava que deveria expor o que se passava na sua cabeça.

Matt deu uma risada que encheu o carro de uma sensação pra lá de constrangedora.

- Você poderia conhecer alguém legal só pra aproveitar o tempo. Não precisa ser nada sério. – O moreno agora parecia novamente apenas o amigo ela conhecia.

- Sexo sem compromisso com uma grávida? Não parece muito atraente.

- Vamos ser sinceros, você nem parece estar grávida. É linda e não estará nessas condições pra sempre.

- Não preciso de ninguém que esteja me esperando no final da gravidez. Quero algo pra agora, só matar o desejo e fim. Me falta tempo pra pensar em ter alguém agora, acabei de sair de um relacionamento muito perturbado e tudo que eu não preciso é de uma pessoa em tempo integral.

Nina nunca dizia essas palavras, mas ela tinha pavor em entrar em qualquer tipo de relação que não fosse amizade. Ela só tinha tempo pra curtir seu próprio tempo e sua filha.

Nota Final do Capítulo: Desculpem por toda confusão com Nyah, mas a culpa não é exatamente minha e agora é simplesmente irritante não poder postar lá. Meu gênero de fic é realmente Real Person, não consigo escrever bem quando é Damon e Elena. Acho que distorço os personagens e mesmo que a história seja minha, odeio a sensação de não corresponder.

A história do Ian com a Evelin não existia até certo ponto. Eu não havia criado nada daquele jantar e estava pensando que eles poderiam ter algo mais, porém vocês mostraram aversão à ela e então resolvi que será amizade. Antes também seria algo como amigos com benefícios, mas podem ficar despreocupados. Eles são apenas amigos. E a Evelin vai ser uma personagem presente e muito importante na história. Foi por isso essa demora, mas uma vez mil desculpas. É um capítulo bem grande pra compensar.

Obrigada por quem veio pra pra continuar lendo. Amo vocês. Qualquer idéia, contato, sugestão ou bater papo mesmo é só me procurar no teamdelenahot.