HORROR PUNK pt1

Érico sempre foi curioso. Queria saber sobre tudo. Aos 11 anos, a contragosto dos seus pais, ele se interessou em filmes de terror e em histórias sobrenaturais. Tinha muito medo de todas elas, mas sua curiosidade era maior. Queria descobrir tudo sobre o inexplicável. Filho de padeiro com uma doméstica, Érico viveu no interior até quase a maioridade. Cidade pequena, o local era cheio de superstições e o povo tinha medo de quase tudo que era novidade. A avó de Érico, por exemplo, achava que qualquer música estrangeira era coisa do diabo. Como em toda sua vida ela nunca havia saído dessa cidadezinha, ela não sabia que haviam outros idiomas, além do português, no mundo.

Érico, assim como seus conterrâneos, era cheio de superstições. Não deixava a sua sandália emborcada com medo de "chamar a morte", não olhava pra cobras pra não dar "mal olhado"... Acreditava em lobisomem, assombração, maldições... Isso só começou a mudar quando Érico tinha uns quinze anos.

Na cidade havia uma história famosa de um fantasma que assombrava uma árvore antiga. Os moradores diziam que era o espirito de uma gravida que morreu ao dar a luz no lugar. Érico soube dessa história de uma amiga de sua mãe. - Foi numa noite de lua cheia. - Disse ela. - Eu estava passando pela rua quando vi o fantasma no alto da árvore. Olhando fixamente pra mim.

Controlando o seu medo, Érico esperou uma noite de lua cheia e foi conferir a tal árvore assombrada. O fantasma apareceu tal como a amiga de sua mãe havia descrito. Érico queria correr, mas estava tão assustado que ficou imóvel. Um líquido quente começou a escorrer pelas suas pernas. Ele tinha se urinado.

- Hahahahahaha – Érico ouviu uma risada. Seu coração só faltou sair pela boca. - Hahahahaha. - Na segunda vez que a risada apareceu, Érico começou a achá-la muito familiar. - Hahahahaha. - Na terceira vez Érico já sabia quem era o dono daquela gargalhada. Já sem nenhum medo, o garoto foi atrás da árvore afim de dar uma surra naquele sacana que havia lhe pregado uma peça. Porém, chegou tarde demais, o moleque saiu correndo sem deixar nenhuma chance de ser pego.

Dando uma segunda olhada na árvore, Érico percebeu que o "fantasma" não passava de um boneco grande de pano pendurado em uma corda. Aquele momento foi muito marcante para o garoto. Irritado, ele jurou a si mesmo que nunca mais iriam enganá-lo daquela forma.


- Aaaahhhhhh! - Um homem com o corpo em chamas usa seu último suspiro para sair correndo pela rua em busca de algo que aplaque sua dor. O pobre coitado consegue dar apenas quinze passos antes de perder totalmente a consciência. Até que durou muito dada as circunstâncias.

Rua deserta de cidade grande. Periferia. Bairro perigoso. No momento ainda mais que o normal. Quatro policiais apontam suas pistolas na direção de um homem. Um cinquentão magrelo de pele bem negra. Ele é o responsável pela morte do quinto policial, o que acabou de pegar fogo, momentos atrás. Ninguém sabe como.

- Isso é o que acontece com quem fica no meu caminho. - Disse o suspeito. - Meus deuses não deixarão que nenhum mal me aconteça! - Por terem visto o seu colega pegar fogo do nada, os quatro policiais saíram correndo do lugar. Estavam apavorados. Todos eles tinham anos de carreira na polícia, mas aquilo era demais. Não estavam preparados para enfrentar o sobrenatural.

- Aquele velho tem parte com o cão! - Um dos policiais que estava envolvido no caso descrito acima, teve que explicar o ocorrido aos seus superiores no quartel. Parte dos outros policiais que ouviram aquela história ficaram incrédulos, a outra parte se benzeu e rezou. - Não há outra explicação.

- Na verdade há sim. - Ninguém conhecia esse rapaz. Ele tinha uns trinta anos. Olhos castanhos, pele morena e cabelo raspado. Era magro, mas seus músculos eram rígidos.

- Quem é esse aí? - Perguntou um dos policiais.

- Esse aqui é meu consultor. Deixem ele trabalhar que ele sabe o que está fazendo. - O inspetor Tiago tinha mais de sessenta anos, mesmo assim não aparentava querer se aposentar. Era um homem baixo, gordo e já calvo. Por algum motivo que os seus subalternos não conseguiam explicar o porque ele tinha uma grande afeição por esse "consultor" misterioso que sempre aparecia quando a corporação enfrentava um suspeito "mais exótico".

- Assim que Rogério atirou no sujeito ele foi incinerado! Como isso é possível? É coisa do cão!

O consultor do inspetor não disse uma palavra por uns cinco minutos. Apenas pegou o laudo da morte do policial e começou a ler. Juntou algumas informações e formulou uma teoria. Só depois de ter certeza do que estava lidando ele voltou a abrir a boca. - A roupa do policial Rogério foi encontrada coberta por um material altamente inflamável. Como a substância é inodora, ele não percebeu sua presença. A arma do policial foi levemente alterada. Bastou uma única faísca para que seu corpo pegasse fogo. Isso dá margem a algumas deduções: 1 – o suspeito teve acesso a arma e a roupa da vítima; 2 – ele presumiu que dentre todos os outros policiais Rogério atiraria primeiro; 3 – como o suspeito não é alguém próximo da vítima ele deve ter alguém ajudando-o que seja, um amigo da vítima ou até mesmo um policial.

- Meu Deus! - Disse o policial que estava sendo entrevistado. - A arma de Rogério estava com defeito naquele dia, Afonso emprestou a dele.

Antes que o dia terminasse, o suposto feiticeiro e o seu ajudante, o policial Afonso, já estavam atrás das grades. Mais uma vez um caso "sobrenatural" foi solucionado pelo consultor do inspetor Tiago. Assim como quando apareceu, o consultor desapareceu sem dar aviso. Ninguém sabia, além do inspetor, quem era aquele homem.

Quinto andar de um prédio localizado no centro da cidade. Apartamento pequeno. Há poucos cômodos no lugar. Ele mora sozinho. Prrrrrr! O interfone toca. O porteiro do prédio estava avisando que alguém havia deixado uma encomenda para ele enquanto estava ausente. - O menino já foi levar. - O porteiro tem um filho que as vezes ajuda o pai fazendo pequenos serviços como, por exemplo, entregar uma encomenda a um dos moradores, como era o caso de agora. O guri entregou uma carta. Não uma de conta pra pagar ou de alguma empresa, mas de uma pessoa física. - Estranho. Porque não telefonou ou mandou uma mensagem de e-mail? - Junto com a carta havia dinheiro dentro do envelope. Logo o consultor do inspetor percebeu o motivo de terem decidido se comunicar com ele através do correio tradicional.

Caro, senhor Érico. Nós da cidade Nova Esperança soubemos do seu incrível trabalho em levar a luz da razão há supostos casos sobrenaturais. Gostaríamos de contar com seu auxílio para solucionar um problema que nossa comunidade não conseguiu desvendar. Sua ajuda será inestimável. A cidade está quase em estado de pânico. Muitos já até se mudaram. Junto com a carta dou uma pequena ajuda de custo. Após o trabalho concluído discutiremos o preço do seu serviço. Ass: Eliomar.

Nova Esperança é uma cidade litorânea pequena e pouco desenvolvida. O seu ponto forte era o turismo. A população local é bem humilde. As pessoas que tem mais condição são as que moram nas casas de veraneio perto da praia. Quase todas elas tem uma residência fixa na capital, só passando as férias ou feriadões na cidade. O terreno da região nos últimos anos deu uma valorizada porque Nova Esperança estava começando a se desenvolver. No entanto, por causa dos últimos acontecimentos, o valor dos terrenos na área despencou. Ao chegar em Nova Esperança Érico até começou a pensar se valeria a pena comprar um terreno ali. O perito em desvendar o sobrenatural achava que após ele solucionar o caso os valores iam crescer novamente. Comprar agora um pedaço de terra desvalorizado pra vender depois com um preço valorizado poderia ser um bom negócio.

Érico estacionou seu sedan preto na frente do endereço descrito na carta. O tal Eliomar nada mais era do que o prefeito da cidade. A casa do homem era linda, enorme e ficava praticamente colada a praia. Assim como muitos prefeitos de cidade pequena, ele deveria ter muito dinheiro.

Érico foi recebido pela empregada da casa que o levou até o escritório do prefeito Eliomar. Lá, depois que se apresentou, o prefeito foi logo contando o motivo de tê-lo chamado. - Pense em um sujeito ruim. Esse era Adalberto. - Dizia o prefeito. - Brigão, bêbado, estuprador... O sujeito foi preso e acabou sendo morto com um tiro a queima roupa enquanto a polícia fazia a reconstituição do seu último crime.

- Quem foi que matou o sujeito?

- Ninguém descobriu. Pra falar a verdade ninguém se preocupou. Todo mundo estava feliz com o fim daquela escória. Pena que não durou muito.

- Como assim?

- É essa parte do caso que está intrigando a todos na cidade. Muitos até acreditam que seja o sinal do fim dos tempos. As igrejas daqui nunca estiveram tão lotadas, o povo está parecendo desesperado pela salvação.

- Sim, diga logo. Não tenho paciência pra papo religioso.

O prefeito fez cara feia. Não gostou da interrupção bruta de Érico. - Tá bom. - Após uma pausa para respirar fundo o prefeito continuou. - O corpo de Adalberto desapareceu de sua tumba. O coveiro inclusive disse ter visto o sujeito andando calmamente pelo cemitério. O povo acha que Adalberto voltou do inferno em busca de vingança.

Érico já desmentiu muitos falsos eventos sobrenaturais. No entanto esse era novidade. Era o primeiro que envolvia um morto-vivo. - Esses charlatões estão cada vez mais ousados. - Pensou Érico. Como primeiro passo da investigação Érico visitou o tumulo em que o suposto morto renasceu. A tumba estava violada de tal maneira que parecia que foi quebrada de dentro para fora. O coveiro não era das testemunhas mais confiáveis. Bem idoso, de saúde frágil e cheio de superstições. - Eu vi! Tão claramente como vejo você agora! - Disse o coveiro. - Adalberto quebrou sua própria tumba e saiu andando. Não tinha um ferimento no corpo. Havia renascido! - Depois Érico visitou o necrotério e pegou o laudo do legista responsável pela necropsia de Adalberto. O documento tinha fotos e mostrava claramente o sujeito bem morto. Ou o documento foi adulterado ou não restava duvidas de que Adalberto havia morrido de um tiro fatal no peito disparado por uma pistola calibre 48.

Érico não conseguiu avançar muito em suas investigações naquele primeiro dia. Cansado, ele estava hospedado em uma pousada. Sua despesa estava sendo paga pelo prefeito que se mostrava bem generoso. Não se importando em pagar pelo melhor quarto. Um quarto espaçoso que era bem mais confortável que o apartamento que Érico morava. As vezes o investigador se pegava desejando se mudar para aquela cidadezinha. Apesar de serem bem menos interessantes, as cidades pequenas têm uma vantagem que as grandes não têm. Nelas é possível ter uma qualidade de vida bem melhor. Em cidade pequena não há estresse, se come bem, se dorme bem... Não é de se estranhar que pessoas do interior costumam viver bem mais do que as que vivem na capital.

Érico estava quase pegando no sono quando ouve uma gritaria vinda da rua. - O que está acontecendo? - Perguntou ele a primeira pessoa que viu pela frente. - É o cemitério. Outro morto-vivo se levantou de sua tumba!

Érico se arrumou de qualquer jeito e foi correndo até o cemitério. Como em Nova Esperança tudo era perto de tudo, Érico mesmo indo a pé não demorou muito pra chegar no lugar. O prefeito estava lá, junto de alguns policiais e um estranho sujeito magrelo que usava uma jaqueta preta. - Eustáquio. Morto há três anos. Ladrão e assassino. Seu tumulo foi violado e o coveiro jura de pé junto que viu o sujeito andando por aí. - Disse o prefeito Eliomar.

- Sinto informar, mas a cidade está sendo atacada por zumbis. - Érico focou sua atenção imediatamente para o homem de jaqueta preta. Aquela frase inapropriada cheia de superstição o deixou bem irritado. - E você? Quem é?

- Desculpe por ir falando sem ter me apresentado. Meu nome é Martin. Sou especialista em casos envolvendo o sobrenatural.

- Ah tá. Você é colega de profissão de Érico, né? - Disse um dos policiais.

- Não, não mesmo. - Respondeu Érico quase que imediatamente. Aparentemente irritado - Minha função é levar a razão onde há a superstição. A função dele, ao que tudo indica, é justamente o contrário.


Martin foi uma criança bem alegre e despreocupada. Nascido na capital, viveu em um ambiente familiar seguro. Seus pais eram professores e tinham a cabeça aberta pra tudo. Não eram ateus, mas também não perdiam muito tempo se preocupando com questões religiosas ou ideológicas. Preferiam gastar sua energia com coisas mais reais e urgentes.

Até os 15 anos Martin viveu sem ligar pra nada que tenha algum víeis sobrenatural. No entanto os pesadelos começaram. Alias, Martin nunca teve total certeza se aquilo eram pesadelos ou se ele estava acordado na situação. Se fossem pesadelos eram incrivelmente vividos, só que eram surreais demais para serem reais.

Martin tinha a impressão de que um sujeito preto, dono de uma pele tão viscosa que lembrava a de um sangue-suga, o vigiava da porta do quarto. Os pesadelos duraram apenas alguns dias, mas foram o suficiente para mudar para sempre a vida do menino. Abrindo os olhos do rapaz para tudo aquilo que fosse estranho ou inexplicável.


HORROR PUNK pt2

- O melhor a se fazer é queimar todos os corpos do cemitério, para evitar que mais alguém se levante da tumba. - Érico tinha vontade de quebrar a cara desse sujeito. Martin no momento representava tudo o que Érico mais detestava. Ele o via como um supersticioso ignorante. O fato mais interessante é que os dois gostam das mesmas bandas, tem posicionamento politico parecido e curtem o mesmo tipo de filme. Talvez em outras circunstâncias poderiam até se dar muito bem.

- De onde saiu esse aí?

BLAM! BLAM! Do cemitério deu pra ouvir som de tiros vindo de uma casa que ficava próxima ao local. Os policiais, o prefeito, o homem de jaqueta preta e Érico deixaram de se preocupar por um instante com o caso dos mortos-vivos para checar o que estava acontecendo. O que não podiam imaginar é que era tudo relacionado. Em uma casa simples um senhor de setenta anos com uma arma em punho está ajoelhado perto da sala. Estava desesperado, pois sabia que havia cometido o maior erro da sua vida. Em sua frente estava o corpo estirado de um jovem fisicamente muito parecido com Adalberto. - Eu pensei que o morto-vivo estava vindo me buscar. - Disse o velho. - Não foi minha intenção. - O prefeito reconhecia a vitima. Ele morava perto dali. Um homem trabalhador que nunca fez nada de errado na vida. Ele só tinha dado azar por ser muito parecido com um antigo criminoso que muitos pensam que retornou dos mortos.

Enquanto o velho era levado para a delegacia, Érico falava com o prefeito. - É esse tipo de coisa que acontece quando o povo entra em pânico. Um sujeito como esse... - Érico apontou para Martin, sem nem se preocupar em disfarçar. - cheio de crendices só vai aumentar o pânico da população e piorar nossa situação. Quem chamou esse cara aqui?

- Fui eu, por quê? - Um dos policiais tomou a palavra. Ele era um sujeito de meia idade. Pele bem branca e cabelo meio alourado. Seu nome é Rivailtom. - Martin já ajudou muito nossa cidade em situações até piores do que essa. Fale assim dele denovo e eu esqueço que você é amigo do prefeito e te dou uma lição de humildade. - Érico não esperava essa resposta. Calou na hora. Ficou bem "murcho" até. Martin sentiu vontade de dar risada, mas se controlou.

As ruas de Nova Esperança estavam lotadas. Todos queriam sair o mais depressa possível dali. Carros abarrotados de gente corriam a pressa pra fora da cidade. Os que não tinham a sorte de ter carro, saiam correndo a pé mesmo, deixando pra trás praticamente todos os seus pertences. POW! Muitas batidas de carro aconteciam. Algumas pessoas estavam tão nervosas que batiam o carro até mesmo na própria garagem.

Em meio essa confusão toda Érico tentava dar prosseguimento a sua investigação, ele decidiu voltar ao cemitério pra ver se o charlatão por trás das histórias dos zumbis tinha deixado alguma pista para trás. Para o seu espanto ele viu outra coisa. Ele viu o homem de jaqueta preta violando túmulos e incendiando cadáveres.

- O que diabos pensa que está fazendo? - Falou Érico em um tom bem irritado.

- Queimando os corpos, é claro. Pra evitar que mais um volte a vida.

- Isso é patético! Você está é estragando uma cena do crime! - Martin ignorou o que o homem dizia e continuou a fazer o que pretendia. Isso deixou Érico mais irritado ainda. - Está bem, chega! O que você quer espalhando essa história bizarra de mortos-vivos? É você o responsável por tudo isso, certo? - Érico pegou no ombro de Martin de forma ríspida. Pra sua surpresa, Martin usando uma técnica marcial tirou a mão de seu ombro e empurrou Érico pra trás com tanta intensidade que ele foi "catando ficha". Quase caiu de cara no chão.

Érico nem raciocinou direito, estava com tanta raiva que foi logo dando um soco na cara de Martin. No entanto o golpe foi bloqueado. Chute no baço, soco na testa e uma cotovelada nas têmporas. Érico dava várias investidas, mas Martin parecia ser um lutador mais experiente do que ele, pois se defendeu de todas elas. Érico ainda tentou um último soco, mas Martin desviou jogando o seu corpo pra direita, uma joelhada na barriga fez com que Érico ficasse sem ar. A luta havia terminado.

- Agora fica quieto aí, enquanto eu termino meu trabalho. - Martin achava que já tinha ensinado uma lição para Érico. No entanto o investigador racional não havia desistido. Aproveitando que havia uma pá jogada no chão ele a pegou e a usou como arma. POW! Bastou um golpe na cabeça pra botar o metido a Bruce Lee pra dormir.

Por um momento Érico temeu ter usado força excessiva. Checou até a checar o pulso do seu oponente abatido. Alivio. Ele ainda respirava.

CRUTCH! Um som de pedra se movendo chamou a atenção de Érico. O rapaz seguiu o som e viu algo tão impactante que o fez sentir novamente como se fosse um garoto de quinze anos olhando para um fantasma em cima de uma árvore. Um homem estava abrindo sua própria tumba para sair de lá de dentro. Um morto-vivo estava bem diante dos olhos de Érico. Apesar do que se pode esperar vendo um cadáver ambulante esse aparentava ser uma pessoa normal. Se não fosse o fato dele estar agora saindo de dentro de uma sepultura ninguém diria que ele tinha algo de sobrenatural.

Assim como quando era garoto, Érico tentou correr, mas estava paralisado de medo. Desta vez porém não havia nenhuma rizada familiar. Não era nenhum moleque da vizinhança que estava lhe pregando uma peça. Aquilo parecia ser pra valer. Sem nada para aliviar o terror da situação, Érico desmaia. Só vindo a acordar no dia seguinte na cama da pousada.

Sabe as vezes quando uma pessoa está acordando enquanto escuta uma conversa e tem a duvida se a conversa que está ouvindo é real ou parte do sonho? Érico está tendo um desses momentos agora.

- Foi um erro chamar esse homem aqui! Além de não ajudar em nada ele ainda agrediu o meu amigo!

- Calma, Rivailtom. Vamos esperar ele se recompor pra poder se explicar melhor.

- Explicar o quê? Não há nada pra explicar! Por causa dele não pude concluir o meu trabalho a tempo e agora temos mais sete zumbis andando por aí!

Érico se levantou de supetão ao ouvir a última parte da conversa "temos mais sete zumbis andando por aí". Como isso era possível? A cena que o investigador presenciou na noite anterior contrariava toda sua convicção de mundo. Como uma coisa dessas pode existir? Zumbis? Se essas coisas existem significava que todo o trabalho duro que Érico teve ao longo de sua vida pra desmentir superstições não passou de uma perda de tempo. Ele não estava pronto pra encarar aquela realidade.

- ZUMBIS NÃO EXISTEM! - De modo a parecer um lunático, Érico abril a porta de seu quarto de supetão e foi até o pátio da pousada, onde o trio (Rivailtom, Martin e o prefeito) conversava.

Assim que Martin viu o sujeito de pé foi pra cima dele, pronto para brigar mais uma vez. Foi detido pelo prefeito pra sorte de Érico. - Diga isso pros mortos que se levantaram da tumba ontem!

- Gente, pelo amor de Deus! Será que ninguém além de mim vê o quão absurdo é essa situação?

- Absurda ou não, ela é real!

- Não, não é.

- Então prove! - Érico tomou aquilo como um desafio. Um desafio a sua razão. Ele pretendia visitar o cemitério mais uma vez. Pra fazer o que não pôde na noite anterior. Procurar por algum vestígio que provasse que aquilo, como todos os casos sobrenaturais, não passava de um truque barato. - Eu provarei.

- Érico. - Disse o prefeito. - Sinto muito, mas...

- Se pique, sacana! Se você não der o fora daqui eu te acuso de lesão corporal! - Sem ter ninguém ao seu lado, Érico foi acompanhado pelo policial Rivailtom até a saída da cidade. O policial ia em uma viatura, enquanto Érico dirigia o seu sedan. Enquanto saía de Nova Esperança, o investigador relembrava todos os detalhes do estranho caso. Nada vinha em sua mente que servisse para explicar como era possível um homem morto sair andando tranquilamente de seu tumulo.

Rivailtom parou de acompanhar Érico quando este saiu dos limites de Nova Esperança. Fazendo o caminho para a capital, Érico deu carona a um rapaz que estava andando pelo encostamento. Ele se chamava Ricardo e era mais um dos nativos de Nova Esperança a deixar o lugar. No meio da conversa Érico acabou descobrindo algo que poderia ajudá-lo a provar que os zumbis da cidade não eram reais. O investigador não descobriu como, mas sim o porque dos "mortos-vivos" estarem acordando.

- Cara, o valor dos terrenos de Nova Esperança caíram a bem menos da metade.

- Com essa história de morto-vivo ninguém vai querer comprar terras por lá, né?

- Que nada. Teve um cara que saiu comprando tudo. Ele virou praticamente dono da cidade.

- O quê? Como assim?

- Foi um americano. Ele comprava terrenos pela região já tem algum tempo. Com essa história de zumbis é que ele comprou logo a cidade toda de vez. Estranho, né? Quem vai querer ser dono de uma cidade amaldiçoada?

Érico freou o carro de forma abrupta, espantando seu carona. - Espera um pouco. Você está me dizendo que alguém se beneficiou com o pânico na cidade?

- É. Pensando por esse lado.

- Quem é esse americano?

- Steve.- Érico praticamente expulsou Ricardo do carro e deu meia volta, indo em direção a Nova Esperança. Chegando lá ele tomou cuidado pra não ser notado por ninguém. Estacionou seu carro do lado de fora da cidade e foi procurar pela casa desse Steve a pé. Usando óculos escuros e boné para se manter irreconhecível.

Uma casa de veraneio próxima a praia. Um lugar fácil de invadir. Tomando cuidado pra não despertar a atenção dos vizinhos, Érico pulou o muro. Grrrrrrr! Como de costume nesse tipo de casa, um cachorro ficava no quintal tomando conta do lugar. Nesse caso um pit bull. O bicho estava preso. Pra sorte de Érico a corrente que o segurava não era grande o suficiente para que o animal pudesse alcança-lo. Mas por pouco.

A casa não era muito grande. Não demorou muito para Érico checar todos os cômodos. Nada sugeria que esse tal de Steve tinha alguma ligação com o caso dos zumbis. Irritado, Érico se esqueceu por um instante que estava invadindo uma casa e se jogou no sofá. Seu corpo tremia. Não de medo, mas de raiva. Estava frustrado por sua investigação ter dado em nada.

Érico pegou seu celular e ligou para um amigo seu, o investigador Tiago. Queria pedir um favor que podia dar alguma ajuda nesse caso. Pediu para ele puxar a ficha de duas pessoas. Do misterioso Martin e do americano Steve. A resposta veio cinco minutos depois e surpreendeu muito Érico. - Cara, esse Martin é um criminoso perigosíssimo. Procurado por assassinato, sequestro, tortura... Daí pra pior. Já esse Steve consta como morto já tem bem uns quinze anos. - Será que Steve é mais um desses "zumbis"? Érico deixou essa duvida um pouco de lado para se concentrar em algo mais pé no chão. O rapaz avisou o seu amigo de que conhecia o paradeiro de Martin. Como resultado um grupo de policiais foi convocado para Nova Esperança. Em poucas horas eles chegariam na cidade e prenderiam o suspeito.

Martin foi pego em uma situação que só complicava seu lado com a lei. Ele estava em sua casa. Na sala. Ele mantinha uma pessoa amarrada com cordas a uma cadeira de madeira. Em baixo dessa pessoa, desenhado no chão, havia um simbolo esquisito. Qualquer um não iniciado diria se tratar de magia negra ou satanismo. Não poderiam estar mais enganados.

- Parado aí! - Disse um dos policiais que invadiram a casa de Martin. - De joelhos, mão na cabeça!

- Vocês estão cometendo um engano! - Devido ao modo que foi encontrado, Martin não conseguiu inventar uma desculpa convincente. Ele até tentou contar toda a verdade, mas ninguém acreditou. - Ele está possuído! Só estou tentando ajudar! - Martin foi levado para o camburão da polícia e dali foi para capital onde irá ser julgado e preso. Seu grande amigo, Rivailtom, estava na rua de Martin e viu ele ser levado. Tentou interceder pelo seu amigo, mas seu esforço se mostrou inútil.

- É melhor você sair daqui se não quiser se complicar também! - Rivailtom ignorou o aviso do policial e foi entrando na casa de Martin. Lá dentro ele viu algo que o fez ter pesadelos por vários dias. Adalberto, o criminoso que ele havia matado, estava novamente em pé. Sem que os outros policiais ali presentes percebessem Adalberto sorriu para Rivailtom. Enquanto fazia isso seus olhos perderam o semblante natural e ficaram totalmente negros, como ébano.

Com Martin e Rivailtom fora do caminho, Érico pode continuar suas investigações mais sossegado. Sem medo de ser processado, preso, nem nada do tipo. Contando com total apoio do prefeito da cidade, Érico chamou ajuda de peritos da capital para analisar os túmulos da cidade. Martin havia danificado muitas delas, mas ainda dava pra achar muita coisa relevante por lá. Os peritos não encontraram nada que explicasse como alguém poderia sair da tumba. Porém, descobriram que a taxa de enxofre nas tumbas violadas estava muito acima do normal. - Isso pelo menos explica esse fedor de ovo podre. - Disse Érico.

A investigação de Érico durou mais umas duas semanas. Como não conseguiu nenhum avanço considerável o prefeito decidiu cortar a ajuda de custos oferecida a ele. Sem mais apoio financeiro, Érico não teve outra alternativa além de deixar o caso em aberto. Nova Esperança havia se transformando praticamente em uma cidade deserta. Quase ninguém ainda ficou na cidade. A maioria se mudou apavorada com essa história de morto-vivo.

Enquanto voltava pra capital, o seu sedan começou a dar problemas no meio do caminho. O carro de Érico quebrou. - Droga! Devia ter feito uma revisão no mecânico!- Sozinho no meio da estrada, o investigador não teve outra opção além de ligar para o serviço de reboque. Enquanto a ajuda não vinha, Érico se distraia ouvindo a rádio do carro. A recepção era péssima, mas dava pra entender algumas coisas. Sintonizado em uma rádio religiosa, a única que pegava na área, Érico ouviu uma passagem bíblica que o incomodou um pouco. "Quando o fim do mundo estiver perto os mortos se levantaram de suas tumbas".

Érico desligou a rádio. E ficou encostado em seu carro, do lado de fora, olhando pro "nada" enquanto esperava. - Diabo de reboque demorado. - Enquanto esperava uma voz apareceu parecendo que vinha do além e o espantou profundamente. Na sua vida essa era a terceira vez que ele experimentava esse tipo de medo. - Não gosto que entrem na minha casa sem eu ter convidado. Acho isso muita falta de educação. - Érico olhou para todas as direções e não encontrou ninguém. Isso só fez aumentar o seu medo.

O reboque apareceu meia hora depois. Os mecânicos ficaram impressionados quando chegaram no lugar e encontraram um carro largado no meio da pista. - Cadê o motorista? - Se perguntava um deles. A notícia do desaparecimento de Érico não demorou muito para chegar nos ouvidos de Tiago. Preocupado com o bem estar de seu amigo, o policial montou várias equipes de busca para vasculhar a área. Não encontraram nada. Érico não deixou nenhum vestígio pra trás.