Capítulo 10

No banheiro feminino, Catherine tentava ligar para Josh, recebendo sempre o aviso de que o aparelho estava desligado. Ele acabara de sair de sua casa não faziam nem duas horas. O que poderia ter acontecido com ele nesse tempo para que não atendesse o celular? Ela estava preocupada com ele. Novamente não poderia ir à Strausser&Smith , pelo seu envolvimento no caso.

Não poderia ir à empresa como CSI, mas nada a impedia de ir até lá como Catherine Willows, a namorada de Josh Strausser. Ela fechou o celular e o guardou, saindo para o corredor. Passou pelo vestiário e pegou o casaco e a bolsa. Antes de sair, no entanto, passou pela sala de descanso para falar com Nick. Ele não estava lá, apenas Warrick, que tomava um café.

_Oi, Warrick! Você viu o Nick por aí? – ela perguntou.

_Só quando cheguei. Ouvi ele dizendo que ia até o laboratório de balística. Você está precisando de alguma coisa?

_Para falar a verdade estou,sim. Preciso ir em casa um instante. Queria pedir a ele para segurar as pontas aqui enquanto isso.

_Pode ir, então! Eu te cubro. – ele sorriu. – Espero que não seja nada com a Lindsey.

_Não, a Linds está bem. – ela lhe sorriu de volta, um pouco nervosa. – Obrigada por cobrir minha ausência. Fico te devendo essa.

_E olha que um dia eu vou cobrar, hein!

Ela lhe sorriu novamente e deixou a sala, indo para o estacionamento. Começou a dirigir pelas ruas, mas não era para sua casa que iria. Seu destino era a casa de Josh. Ainda era cedo, pelos hábitos dele sabia que ainda não havia ido para o trabalho. Ela tocou a campainha e não demorou a ser atendida por Hank, o motorista que, aparentemente, era também o mordomo.

_Olá, senhorita Willows! – ele cumprimentou.

_Oi. O Josh está?

_Sim, está. Entre, por favor. – ele lhe abriu espaço para que entrasse e fechou a porta com cuidado, encaminhando-a depois até a sala. – Ele está com um pequeno grupo, numa reunião de negócios. Espere aqui, por favor. Quando terminar ele falará com a senhorita.

Então era isso. Ele não havia atendido as ligações porque estava em reunião. Ela se preocupara por nada. Uma onda de alívio passou por ela, acompanhada de um suspiro. Mas algo dentro dela ainda indicava que tinha alguma coisa errada. Era uma intuição que ela costumava seguir e estar certa. Mas o que poderia ser, então?

Depois que o mordomo lhe fez uma singela reverência e se retirou, ela passou a aguardar no sofá. Já que estava lá, não faria mal esperar e falar com Josh, para ter certeza de que tudo estava bem, mesmo. Enquanto isso, levantou-se para observar os quadros e as fotos que estavam espalhados pelas paredes. Aproximou-se de um deles, constatando que só era bonito de longe, assim tão perto, pareciam apenas borrões, e, sem querer, ouviu uma discussão vinda da sala que tinha as portas fechadas. Não conhecia a casa muito bem, mas aquele devia ser o escritório de Josh. Lá dentro, as vozes começaram a se alterar. Ela não entendia o que estavam falando, parecia alemão. Conseguiu distinguir mais duas vozes masculinas, além da de Josh. Ela sabia que não devia, mas ficou tentada a se aproximar mais. A porta não estava completamente fechada, o que permitia a ela uma visualização parcial do interior. Mas ainda era pouco, ela só conseguia ver algumas sombras se movendo em uma parede. Uma das vozes falava agitadamente, um pouco histérica. E então ela ouviu um grito mais alto de Josh e algo que parecia ser um cinzeiro ou talvez um peso de papel, passou voando e se estilhaçou na parede. A voz de Josh se fez ouvir claramente:

_Parem com essas idiotices, seu cão patético! E nem tente explicar porque só vai piorar sua situação!

_Mas, chefe... Ele é que não devia ter dito nada... Você mesmo disse, que se alguém deixasse escapar alguma coisa devia...

_Cale essa sua boca, seu imbecil estúpido! Já fez besteiras demais, não quero ouvir mais UMA palavra!

_Chefe, - era a outra voz que falava agora, um pouco mais forte que a primeira, mais grave – e se a garota abrisse a boca também? E se contasse para a polícia?

_Seus idiotas! –berrou Josh- Era só uma prostituta, só querem dinheiro, não estão interessadas nas coisas que ouvem! Por que não pagou a ela para que se calasse?

_Eu achei que ela fosse perigosa... – a primeira voz falou, num tom quase infantil.

_Perigosa? – Josh riu com escárnio – Era uma garota magricela que mal tinha chegado à idade adulta! COMO ela poderia ser perigosa?

_Olha, chefe, - a voz mais forte se interpôs – eu acho que ele pode...

_Você não acha nada! Você é um incompetente! – Josh continuava gritando, furioso – Uma coisa, UMA COISA apenas que peço e vocês são incapazes de fazer! Tinham que matar o Nelson, o Maloy, e agora essa garota! Seus dois inúteis!

Nelson... Maloy... Matar... Os nomes ecoaram na mente de Catherine como sinos. Ele sabia... Josh sabia de tudo. Por um momento ela não sabia o que pensar, era incapaz de raciocinar direito. Queria sair dalí, mas mal podia sentir seu corpo. Apenas continuou ouvindo.

_Mas, senhor Strausser, - a voz mais baixa insistia – o Nelson nos viu saindo da casa do Morrison e...

_Nelson era problema MEU, seu estúpido! Ele estava do nosso lado, o que achou que ele ia fazer? Ligar para a polícia?

Por um instante não se pôde ouvir nada além do peso das respirações dentro da sala. Josh continuou, então. A voz ainda alterada:

_Eu devia matar vocês dois agora mesmo!

_Mas, chefe, foi tudo culpa dele! - um deles gritou.

_Culpa minha? Seu idiota medroso! Você que me deu a idéia! – o outro cara parecia indignado.

_CALEM-SE OS DOIS! – Josh gritou. – Vocês têm idéia do tamanho da encrenca em que nos meteram? A polícia está investigando os casos, já foram até meu escritório duas vezes.

_Mas e a sua namorada, chefe? – perguntou um deles – Ela é da polícia não é? Talvez ela possa ajudar a gente...Despistar... Pelo menos até o fim do negócio com os russos. Depois a gente se manda.

Novamente um grito que ela não entendeu, mas pela entonação devia ser um palavrão. Um vaso acertou a parede, fazendo a água e as flores se espalharem e virando cacos ao atingir o chão. O barulho fez com que Catherine despertasse do transe em que ficara ao ouvir tudo aquilo.

Fora enganada aquele tempo todo... Josh não era apenas o dono de uma empresa de exportações, havia muito mais por trás daquela pose toda. Ela empurrou a porta, fazendo sua presença ser claramente percebida dentro da sala. Nem percebera, mas estava a beira das lágrimas. Os outros três ocupantes da sala calaram-se imediatamente, surpresos pela entrada dela.

_Catherine? O que está fazendo aqui? – Josh perguntou.

_É mesmo verdade o que estou ouvindo? – ela perguntou, a voz um pouco presa na garganta. – Você é o responsável pela morte de três pessoas?

_Na verdade foram quatro... – corrigiu o homem a seu lado, mais baixo que ela, cabelos negros e olhos castanhos e uma constante expressão de idiota no rosto.

_Cale a boca, seu imbecil! – bradou Josh.

_Você só se envolveu comigo para que eu te protegesse?- ela falava, mas a voz parecia presa à garganta devido às lágrimas que ela tentava evitar.

_Não! Não é isso! – ele se aproximou dois passos em direção a ela.

_Nem tente explicar! Eu não preciso de seus motivos...

Aos prantos, ela saiu da sala, atropelando alguns móveis na saída.

_Catherine, espere – Pediu Josh.

Ele a alcançou perto da porta da frente, e a segurou pelo braço. Ela se virou para ele, surpresa. Seu olhar passou rapidamente da mão dele em volta de seu braço para o rosto dele.

_Me solta, Josh – ela ordenou.

_Eu preciso falar com você.

_Eu não quero ouvir nada! – ela gritou. – O que ouvi naquela sala já foi o bastante.

De um puxão ela se libertou do braço dele e saiu. Entrou no carro e dirigiu pela cidade, com lagrimar a cobrir-lhe o rosto. Estava confusa, com medo... Uma mistura de raiva e frustração tomava conta dela. Como ele pôde ter feito isso com ela? Como, se sempre parecera tão sincero, tão verdadeiro?

Mas estava só fingindo, o tempo todo. Todas as coisas que disse a ela eram mentira. Provavelmente os três caras que a atacaram na noite da festa também faziam parte do jogo. Mas como ele pôde ser tão gentil e bondoso com ela? A maneira como a tratava, como falava com ela, como mostrava se importar com ela. "Apenas uniu o útil ao agradável", ela pensou. Fechou os olhos por alguns segundos, firmando o pé no acelerador e nem viu que atravessava um sinal vermelho, quase colidindo com outro carro que vinha pela rua da direita. Quase automaticamente foi parar em casa. Ainda estava furiosa quando bateu a porta e subiu para seu quarto, mas já chorava menos. Jogou a bolsa em cima da cama e passou a se olhar no espelho, arrumando os cabelos. Não podia deixar se abalar daquela forma. Não ela. Já passara por tanta coisa. Já fora traída antes, e esta com certeza não seria a última vez. Ela superaria. Já superara coisas horríveis antes, poderia passar por isso também. Só que mais do que ser traída, ela fora enganada.

Ouviu o celular tocando. Devia ser o Nick, querendo saber onde ela estava. Pegou o aparelho e viu o nome de Josh na tela. Desligou o aparelho e o deixou em cima da cômoda, jogando-se na cama em seguida. As lágrimas voltaram a dominá-la e dessa vez se permitiu chorar tudo o que precisava, até adormecer, vencida pelas emoções e amparada pelo travesseiro.