Nenhuma Lealdade no Luar

escrito por Ariadne

traduzido por Ferporcel

beta-read por BastetAzazis

Capítulo 10: Os Inocentes e Condenados

Resumo: No qual tudo muda.

N.A.: Meus agradecimentos à Indigofeathers, Anastasia, e Melenka, pela assistência com este capítulo.

Na luz das tochas, as sementes levadas pelo vento eram da mesma cor que ela.

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Fora da segurança da morada de rocha rangente, o vento açoitava as paredes e janelas do castelo dormente banhadas pelo luar.

Numa torre além do alcance dos outros, isolada por um artifício arquitetônico, um dedo de rocha apontava para o céu, atrás de uma janela rachada sob o edredom de penas em lençóis sem nem uma dobrinha, Hermione dormia.

Vinda debaixo da terra, das profundezas rochosas que suportavam o peso, uma única memória trazida para a superfície, adiante de um passado eterno, circulando adiante, espiralando para mais alto, sussurrando silenciosamente pelos corredores sem vida, passando por retratos adormecidos, recolhendo-se sem acordar, as vagarosas névoas oscilantes intocadas pela força dessa passagem sem forma, sem fim.

O corpo de Rony virando-se para sorrir para ela…

A cabeça dela agitou-se no travesseiro.

– Você sabe que quer.


No lugar abaixo do seu nome, além dos seus sonhos, ela deu um passo para trás, um passo ao lado, muito fraca para enfrentar a covardia que carregava.


Com os olhos firmemente fechados, seus lábios formando um silencioso "Não..."


– Você sabe. Você sabe. Você sabe…


– Eu não deveria ouvir isso, ele não tem voz, está morto, está morto, está...

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O vento aumentou para um uivo, e na escuridão por trás do vento, os olhos de Horácio Slughorn se arregalaram.

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–… morto, está…

– Não estou.

Ela levantou os olhos, ofegando.

O corpo do Rony não era o corpo do Rony, não jazia no chão de Godric's Hollow, e o corpo no chão jazia envolto num luar castigado pelo vento e repleto de sombras, nu, pálido e longo numa cama de seda negra colocada sobre galhos caídos do mais intenso pinho.

Escuro.

A cabeça virando-se lentamente para olhar para ela, uma mecha de cabelo negro desaparecendo nas dobras sussurrantes de seda de um tom vazio de nada.


Ela não se mexeu, não podia se virar, não podia fazer nada a não ser ver os braços longos e flexíveis, um dedo errante de seda esfumaçada se recolhendo, caindo, revelando-se diante dela...


Olhos flamejantes de Trevas, gentis com uma promessa urgente, certa.


A voz falou não aos seus ouvidos, ressoando baixa e profunda dentro da sua mente. – Você sabe que quer…


Ela a ouviu, sentiu, e não respirou; ela não se atrevia a se mexer. Queria alcançar…


Novamente ela falou:


– Você sabe…


Uma mão pálida erguendo-se, alcançando, chamando-a para as profundezas da porção de seda escurecida e tocada pela lua, um derramar vazio remexido de dolorida permanência.

Não prometia nada, e nada era o que ela queria, e um traço manchado de rosa de água salgada brilhante desceu por sua garganta, silenciou sua voz, e empoçou sobre o seu coração.


Lábios pálidos e alvejados pela lua limpavam sua pele, e a seda desceu, cobrindo, consumindo-a, e nas sombras apagadas sob seus sonhos, além do seu nome, onde ela queria tudo e nada, os lábios sorriram na sua pele e ela soube no escuro que os dentes por trás daquele sorriso estavam esplendida e recentemente manchados com vinte e dois anos de tinta escarlate.


Lábios e respiração se movendo sobre a sua pele, mascarando a fúria uivante do vento crescente, e, mantida nas Trevas sob seu uivo, ela esqueceu de lembrar o próprio nome.

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Severo se debateu, os lençóis e cobertas um emaranhado entrelaçado de nós, prendendo nos tornozelos, nas coxas, sobre e ao redor dos braços, prendendo-o com seu próprio peso ao colchão que carregava sua marca onde o corpo se deitara por anos, um peso temível sobre ele imóvel no escuro; não menos blasonado, não menos ligado que a alma do Lorde das Trevas à cicatriz do Potter.

Mas no fundo dos seus sonhos ele sabia a palavra e há muito achara que ela traria o fim.

– Lumos.

E ele estava acordado e rearranjando metodicamente as cobertas quando ouviu uma leve batida na porta.

Amarrando seu robe, percorreu as rochas desgastadas à lisura sob seus pés descalços e abriu a porta.

– Severo. – Papoula inclinou a cabeça. – Alguma coisa está errada.

– Slughorn?

Ela assentiu com gravidade.

– Ele não está morrendo. E deveria estar.

Severo tateou seu bolso por sua varinha, e a seguiu pelo corredor escuro.

O Barão Sangrento flutuou até eles quando entraram nos aposentos do Slughorn.

– Não houve mudança. Devo acor...

O restante das palavras foi engolido pelo teto, mas nem a bruxa nem o bruxo notaram, focados como estavam nos olhos arregalados e fixos do bruxo mais velho.

– Por quanto tempo ele está assim? – Severo perguntou, seus olhos estreitando-se enquanto cruzava a distância até o lado da cama do Slughorn.

– Alguns minutos; eu fui a sua procura assim que suspeitei.

Ele curvou-se sobre a forma rígida e imóvel, sentidos alertas, a pele formigando atrás do pescoço.

– Pode ser…? – Papoula não conseguia se fazer completar a pergunta.

Severo assentiu uma vez, curto, hesitando apenas brevemente antes de murmurar um encantamento baixinho.

O corpo do Slughorn relaxou um pouco, mas seus olhos permaneceram abertos, encarando o teto.

Papoula disparou um olhar assustado e questionador para Severo, mas seus olhos estavam obstruídos e ele não disse nada.

O Barão Sangrento voltou pela parede, e Minerva entrou momentos depois. Vendo os rostos fechados de Severo e Papoula, a diretora deu um passo para trás e colocou sua pequena forma rigidamente ereta.

– O que foi?

Nem a bruxa e nem o bruxo responderam a princípio, então, com o assentimento respeitoso de Severo, Papoula ergueu o queixo um pouco e olhou para o teto.

Os olhos de Minerva seguiram os da Curandeira, mas não discerniu nada, e balançou a cabeça.

– O que, Papoula?

– Ele estava morrendo, Minerva. Os olhos dele se abriram e se fixaram no teto, do jeito que ficam às vezes... – Ela engoliu em seco.

Minerva assentiu. Todos eles viram os olhares dos moribundos, fixando-se em nada como se de partida pudessem vislumbrar nele algum significado, alguma importância que iludia aqueles cujos olhos estavam velados com o viver.

Papoula continuou:

– …e eu pensei que ele partiria, mas então ele… ele parou.

– Ele parou? – Minerva piscou. – Ele parou de morrer? Ele ainda está vivo, então?

A Curandeira abriu as mãos depois deixou-as cair.

– Não posso dizer com certeza.

– Não – Severo falou calmamente. – Ele não está vivo, mas também não está realmente morto.

Minerva abriu a boca para falar, mas Severo já estava virando-se para o Barão, sibilando:

– Granger.

O Barão assentiu e zuniu para fora do quarto, dirigindo-se em linha reta para a torre da professora.

– O quê? O que foi, Severo?

Ele se sentou pesadamente numa cadeira e correu os dedos cruelmente pelo cabelo.

– As Artes das Trevas, Minerva.

A atmosfera nos aposentos sombrios pareceu encolher interiormente, para longe de si mesma, para longe dele.

– Uma vez que você as deixa tocar sua mente, você nunca está livre da tentação.

Minerva e Papoula trocaram um olhar de relance, as mãos procurando suas varinhas.

Severo riu, um soluço sombrio, triste.

– Resistir à tentação é a primeira lição para aqueles que tocam as Artes das Trevas. Aqueles que não aprendem isso não sobrevivem o tempo que sobrevivi.

As mãos embaraçadas das mulheres caíram ao lado delas.

– Então Hermione… – Minerva sussurrou.

– Se ela nunca reconheceu para si o que fez, Minerva, então ela não tem como controlá-la agora.

– Então ela deve ser detida – a diretora disse, olhando a forma imóvel de Slughorn com crescente horror.

As palavras de Minerva ecoaram no silêncio enquanto os três esperavam pela volta do Barão, mas entre os ecos, a mente de Severo forneceu a palavra que uma Minerva mais nova teria usado: "Ajudada."

Minerva encontrou-se brincando com o anel pesado que usava. Ele rodou solto, o aro como cetim frio entre os dedos. Quanto mais ela ficava nos andares mais baixos do castelo, mais frio ficava o metal; ela sentiu a dor pesada familiar começar nos nós dos seus dedos enquanto o anel parecia sugar o calor do seu próprio sangue.

Ela soltou o ar impacientemente e murmurou:

– O que pode estar detendo-o?

Nem Severo, nem Papoula se mexeram. Suas cabeças estavam ambas curvadas, e todos estavam perdidos mais uma vez, contemplando as próprias mãos.

Depois de uma quietude longa e sufocante, o Barão flutuou vagarosamente pela parede de fora, a mão vindo por último. Era segurada por outra mão menor.

O pequeno fantasma flutuou hesitante atrás dele, uma mão esticada para cima para agarrar a dele, a outra permanecendo para fora.

Ela se inclinou e pareceu sussurrar algo para o Barão, mas os vivos não ouviram nada.

O Barão abriu a janela, e a fantasminha fez o eco de um sorriso, como se em agradecimento, tirando a outra mão pela abertura.

Na mão pequena ela segurava a haste de flor nua, sem sementes, e flutuou em frente e colocou-a no peito do Prof. Slughorn.

Ela o contemplou com tristeza antes de se virar para flutuar pela janela.

Depois de um momento, o Barão falou:

– O vento morreu – disse.

Algum canto seco da mente de Minerva registrou que ele soava como um centauro novamente.

– E a Profa. Granger? – perguntou, sem pequena aspereza.

– Dormindo. Profundamente, pelo que parece, mas a roupa de cama está bem perturbada.

Embora mantivesse a cabeça baixa, sob o cabelo, Severo ergueu os olhos.

O Barão percebeu seu olhar.

– Eu mandei a pequena para verificar – acrescentou, aparentemente para ninguém em particular.

Nem Minerva nem Papoula perceberam o lampejo breve e profundo nos olhos de Severo antes dele falar.

– Alguma coisa a deteve – ele disse calmamente. – Ela estava em busca dele, e algo a deteve.

As bruxas o olharam, confusão e alarme rivalizando em suas feições.

Severo continuou:

– Temo que a Profa. Granger tenha descoberto como quebrar uma alma sem precisar recorrer ao assassinato. Temo muito mesmo.

Papoula se retraiu, mas Minerva simplesmente ergueu os olhos e olhou diretamente no rosto dele por um longo tempo.

– Mas por quê? Por que ela fez tal coisa? – Papoula perguntou, a altura da sua voz aumentando com seu temor para um tom nunca ouvido daqueles em sua profissão.

– Porque ela já fez antes, Papoula – Minerva disse calmamente.

Papoula começou a falar novamente, mas Minerva colocou uma mão no braço dela.

– Eu já vou explicar – disse.

– Ela já fez antes, até onde sabemos, Minerva, mas não é isso, não inteiramente – Severo declarou, os lábios formando uma linha fina enquanto sua mente corria por trás dos olhos que estavam repentinamente velhos, repentinamente cansados.

Ambas as mulheres olharam para ele, depois de volta para as mãos, certas apenas de que não queriam ouvir as próximas palavras.

– Não, nem mesmo a sedução das Trevas trabalhando na mente pode ser responsável por isso, não inteiramente, ou seria tentado antes. Ela está repetindo uma ação passada, eu acho, numa tentativa desesperada e provavelmente inconsciente de desfazer algo que não pode ser desfeito.

– Severo, o que você quer dizer com isso? – Minerva perguntou, a garganta repentinamente seca.

Cuidadoso em manter a voz equilibrada, ele disse:

– Quero dizer que ela é uma grifinória, com uma honra de grifinória, Minerva, mas cuja mente está manchada, e a mancha foi deixada para apodrecer. – Ele fez uma pausa por um momento, depois continuou: – Acredito que ela esteja experimentando, testando se uma alma pode ou não ser removida sem uma morte.

– Ela pode ser detida? – Minerva clamou, apoiando-se na parede mais próxima.

– Eu o protegi o melhor que posso, Minerva. Não – ele respondeu à pergunta que ela estava por fazer –, não, você não quer saber o que eu fiz. Não mesmo – ele terminou, apoiando a cabeça nas mãos enquanto sua varinha caía com um tinido no chão.

O gosto do feitiço de estase que ele lançara em Slughorn prolongava-se acre na sua boca: defumado, passado, um sabor restante de limão, caído, deixado por tempo demais na poeira.

Maldito seja, Alvo – pensou. Maldito seja direto para o abismo, e além.

Porque ele sabia agora, com certeza absoluta, que não importava que Alvo tivesse permanecido vivo, exigido tudo dele numa fraude fatal, um espetáculo para distrair; mas mesmo enquanto percebia tudo aquilo com certeza, pela primeira vez em vinte e dois anos ele também soube que significava muito ele ter vivido.

Potter falhara, sua promessa abafada pela ingenuidade nauseante da crença de Dumbledore no poder da inocência cega; falhara, e um amor mais pesaroso se apressara no vácuo do seu fracasso – inteligente, silencioso, rendendo-se às Trevas para fazer por Potter o que ele não ousou sonhar fazer por si mesmo.

Hermione Granger não matara Rony Weasley, mas ela aceitara o sacrifício da alma dele em nome do seu melhor amigo.

Severo não tinha dúvidas que ela agira de caso pensado.

Ele tinha alguma idéia de como aquilo funcionava.

Ela pervertera sua própria inocência, preservando-os todos num momento cego de pânico e passara os últimos vinte e dois anos propositalmente ignorando sua própria reconstrução assídua de como fizera isso.

Ele agora sabia o que ela procurava no teto.

Não era algo que ela via, ou algo que ela esperava ver.

Não, ela esperava ver o nada que ainda agora paralisava o olhar parado de Slughorn.

Ela era muito jovem para querer morrer, mas muito esperta para não saber que já estava enterrada.

E a mão dela estava na pedra fundamental, e estava movendo, e ele a sentia mover.

E um lamento duro de música de sereia insensível, e ele sentiu seu chamado, e ele desejou suavemente, urgentemente, cobrir a mão dela, tão macia, tão pequena, com a sua própria, e ajudá-la a empurrar.

Ele quis tocar a mão dela, sentir a pele, quente, viva, sentir a rocha profunda e gelada do castelo se curvar e tremer sob a traição do toque deles.

Um aumento no suor em sua pele, secando instantaneamente a sal.

Num movimento repentino e fluido, ele recuperou a varinha e saiu apressado dos aposentos.