"Se eu tiver que explicar para o Hook mais uma vez por que não podemos levar o Jolly Roger, eu juro por Deus..." Emma desabafa entre um resmungo e um rosnado impaciente, o que captura a atenção de Regina que se volta em sua direção com um livro em cada mão e uma expressão contemplativa.

"Como assim? Eu já disse a ele o porquê. Até onde pude experimentar mágica aqui não é suficientemente forte. Precisamos ir a um local aonde a fonte de energia seja mais abundante e, até onde eu sei, nossa melhor chance é o antigo poço." Regina coloca ambos os livros dentro de uma bolsa que, Emma nota, parece ser maior por dentro. "Killian não é exatamente brilhante, mas eu tenho certeza que até mesmo ele pode entender por que levar o Jolly Roger seria inviável."

"Você tem certeza, é? Porque eu não tenho." Emma se senta em sua poltrona acomodando as pernas sobre o braço, adotando uma postura relaxada. Regina normalmente torceria o nariz para sua falta de bons modos, mas se vê entretida pelas observações da ex-xerife. "Ele continua choramingando sobre deixar sua fiel companheira para trás e como ela é importante para ele. Como é que a Ruby consegue suportar uma coisa dessas?"

"Confie em mim, esta é uma pergunta que permanece sem resposta." As palavras de Regina colocam um sorriso nos lábios de Emma. "Você já fez as malas?"

"Sim, Vossa Majestade." Emma responde com uma falsa reverência. À Regina, entretanto, não é dada a oportunidade de responder uma vez que Hook escolhe este exato momento para adentrar a cabine.

"Perdão senhoritas, só queria informá-las sobre a festa de despedida que teremos esta noite. Minha garota tem sido boa para todos nós e não merece nada menos senão uma celebração adequada pelos serviços prestados." Ele fala a sério enquanto Emma e Regina trocam olhares significativos.

"Killian, tem certeza que isso é aconselhável? A última coisa que precisamos é ter que aguentar você incapacitado durante nosso trajeto ao poço." Regina pontua com sinceridade e uma expressão que revela sua falta de confiança no bom senso do pirata.

"Você esquece quem eu sou, minha rainha. Esta é afinal de contas a vida que sempre conheci." Ele diz com propriedade, e Regina não pode deixar de notar a ausência de uma resposta real em suas palavras.

"Até mais tarde então, Capitão." Emma o convida a se retirar sem muita sutileza ou paciência para sua veia dramática, fechando a porta atrás dele assim que ele sai. "Uma festa de despedida, ein? O que você acha?"

Regina não responde de imediato, ponderando cuidadosamente suas próximas palavras e se rendendo a sombra de um otimismo passageiro. "É ... É possível que existam coisas piores."

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Se há alguma coisa pior do que a ideia que Hook faz de uma festa, Emma tem medo de descobrir.

O sol ainda não se pôs por completo e o pirata já está mais bêbado do que um gambá, aparentemente comprometido em esgotar completamente suas reservas de rum, uma vez que estas também não receberam autorização para serem levadas junto ao comboio.

Henry e Evan, pelo menos, parecem estar se divertindo na companhia de Grumpy, que entretém os garotos com mais uma de suas histórias fantásticas. Sua narrativa tão enérgica que mesmo Pongo se mostra agitado ao testemunhá-la, contribuindo com ganidos e uivos ocasionais.

Sentada em um caixote de madeira, sentindo a brisa fresca tocar seus cabelos, Emma tem em mãos uma caneca vazia enquanto seus olhos percorrem o convés se fixando por alguns instantes no animado trio – ou quarteto, se você considerar o dálmata. Em seguida ela enxerga Whale, deitado em uma rede com o que restou de sua perna para cima, lendo um de seus livros até que a luz do dia se faça escassa. Por fim, as figuras de Regina e Ruby entram em seu campo de visão, as duas mulheres parecendo completamente entretidas em uma conversa cujo tópico lhe é desconhecido.

A possibilidade de que seu nome esteja sendo mencionado deixa Emma inquieta, mas contendo seus impulsos ela se mantem afastada, observando as duas bebericarem suas respectivas bebidas - chá para as duas, uma vez que Ruby não deve beber em virtude de sua gestação e Regina se mostra irredutível quanto a necessidade de estar pronta e em plena forma para a grande jornada do dia seguinte.

"Ela não é uma beleza?" Hook surge de repente ao lado de Emma, apoiando-se sobre seu ombro e ela não pode deixar de pensar na forma como Regina parece sempre estar em seu elemento, se portando com classe e graciosidade mesmo vestindo trajes simplórios – ou até nenhum traje – o que imediatamente a faz corar.

Cobrindo a boca com uma das mãos fingindo um acesso de tosse para disfarçar sua surpresa, Emma se esforça para distrair sua mente com outros pensamentos.

Regina continua sendo alvo dos mesmos, mas por ora ela consegue se ater a detalhes menos íntimos, como o fato de seu aspecto ter melhorado consideravelmente desde a sua chegada.

Tecnicamente Regina ainda está longe da figura que Emma encontrou pela primeira vez em sua chegada à Storybrooke, mas isso não a impede de apreciar o fato de que sua pele já não possui aquela tonalidade macilenta, ou de que em seu rosto já não existem marcas profundas de desnutrição e noites mal dormidas.

Somente passados alguns segundos, quando seus pensamentos já foram bombardeados por imagens e recordações, é que Emma percebe que o pirata não está falando sobre Regina.

Para sua sorte Hook está bêbado demais para notar.

"Nós estivemos juntos por tanto tempo." Ele suspira languidamente entre um gole e outro de seu cantil, mal contendo seus soluços lamuriosos. "Eu não posso acreditar que isso esteja realmente acontecendo. Ela é o relacionamento mais longo que eu já tive."

É então que Emma percebe que o pirata tampouco está falando sobre Ruby.

"Você realmente está de luto por um navio?" Emma olha para Hook como se ele tivesse um parafuso a menos. "Mesmo quando você tem a Ruby como futura mãe de seu filho?"

"Ora Swan, não seja assim! Você não vê que ela é a única razão pela qual Red e eu ficamos juntos?"

Emma se vê obrigada a concordar quanto a este ponto. "Isso e um apocalipse zumbi, eu acho." Ela murmura mais para si mesma.

"Depois que aquele crocodilo de uma figa arrancou a Milah de meus braços eu nunca mais pensei que encontraria amor novamente. Muito menos uma família. O Jolly foi minha única família por um longo tempo. Então me perdoe se eu pareço sentimental."

Emma revira os olhos, mas lhe dá uma cotovelada amigável como demonstração de solidariedade à sua causa. Hook toma mais um gole de seu cantil antes de continuar sua tagarelice embriagada.

"Cuidado Swan, o amor pode encontrá-la nos lugares mais inesperados."

Decidindo que já teve o bastante da companhia de Hook (sem o impulso incontrolável de jogá-lo ao mar), Emma trata logo de encontrar uma desculpa para escapar à sua presença.

Na verdade, ela está a caminho da cozinha, com o intuito de se servir de mais um prato de sopa, quando Snow cruza seu caminho.

"Emma", ela chama a filha com um sorriso apertado que imediatamente coloca Emma em alerta.

"Mãe", a loira a cumprimenta de volta com cautela e uma interrogação nos olhos.

"Eu esperava que pudéssemos encontrar um lugar tranquilo para conversarmos. A sós."

"Claro." Emma aquiesce. "Erm, acho que não tem ninguém na cozinha."

"Perfeito." Snow concorda com a sugestão, mas pela expressão em seu rosto, Emma não pode deixar de pensar que algo está muito longe de estar perfeito.

Trata-se de um sexto sentido, na verdade.

E infelizmente seus sentidos quase nunca erram.

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"Você já pensou em um nome?" Regina pergunta com naturalidade, os olhos momentaneamente contemplando a barriga proeminente de Ruby.

"Alguns." Ruby confessa com um sorriso auto-depreciativo. "Mas então eu penso que não sabemos nada sobre o que o amanhã nos reserva. Parece pretensão demais me perder em detalhes desse tipo."

"Mas nós nunca sabemos o que nos aguarda no futuro. Mesmo profecias e maldições não contêm todas as respostas." Regina refuta com os olhos distraidamente buscando a figura de Henry, mais por hábito do que propositalmente. "Acredite, eu saberia."

"Killian acha que vai ser um menino." Ruby toma mais um gole de seu chá. "Eu estava pensando em deixá-lo escolher, fosse este o caso. Mas agora, já não tenho certeza. Tenho medo de que o menino acabe se chamando Roger. Ou Jim Beam."

"Isso seria lamentável." Regina arregala os olhos e Ruby mal contém um sorriso ante a sua expressão de desaprovação. "E se for uma menina? Até onde eu sei essa também é uma possibilidade."

Uma sombra passa pelo rosto de Ruby então, qualquer vestígio de leveza abandonando suas feições. "Então nós teremos preocupações maiores do que apenas seu nome."

Instintivamente Ruby coloca uma das mãos sobre a barriga, e Regina não precisa de uma explicação para compreender ao que a jovem mulher está se referindo.

Ela mais do que ninguém sabe como é conviver com os fantasmas de uma herança indesejada.

Ruby se transforma em lobo. Regina, em um monstro. Cada qual a sua maneira amaldiçoada pelo próprio sangue.

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Emma leva seu prato ao forno improvisado, e o enche com mais ensopado enquanto Snow encosta a porta atrás das duas e, em seguida, senta no banco comprido, fazendo um sinal para a filha se juntar a ela.

"Tá tudo bem?" Emma pergunta com a testa franzida em preocupação. Seu apetite quase se extinguindo ante a ansiedade que brota em seu estômago.

Snow sorri para ela mais uma vez, com os olhos vidrados de lágrimas não derramadas enquanto aproveita a proximidade da filha para afagar seu rosto com uma das mãos. "Minha querida, eu vou sentir tanto a sua falta."

A carranca de Emma se transforma quando uma expressão confusa domina os contornos de seu rosto. Ela pode não saber ao certo qual é o ponto aonde sua mãe pretende chegar, mas algo em seu íntimo parece ter uma ideia do que seja, ainda que ela se recuse a admitir em voz alta. "Do que você está falando?"

"Você sabe o que estou prestes a dizer, Emma. Na verdade, eu acho que você já sabe disso há algum tempo."

"Nope. Não faço ideia do que você tá falando." Emma nega expressamente, o coração batendo forte em seu peito.

Snow engole a seco, cobrindo as mãos da filha com as suas.

"Querida, eu não vou com vocês amanhã." Ela informa usando um tom que é ao mesmo tempo solene e pesaroso.

"O quê? Não! Mãe, o que você está dizendo?" Emma empurra a mão que a pouco tocava a sua para longe.

"Eu não posso deixar o seu pai, Emma. Você sabe disso. Você sempre soube disso." Snow parece lamentar genuinamente, o que não faz diferença para Emma.

Suas palavras partem seu coração da mesma forma.

"Mas... Você não pode ficar para trás. Você não será capaz de navegar o Jolly sozinha. E se um grupo de pessoas tentar atacar o navio de novo? Então o quê?" Emma tenta argumentar, seu desespero cada vez maior transbordando através de sua voz. "Mãe, nós não podemos te deixar pra trás."

"Eu aprecio a sua preocupação querida. Mas a verdade é que não vou estar sozinha." Snow explica pacientemente, tocada pela reação de Emma. "Leroy se ofereceu para ficar comigo. E Victor também expressou seu desejo em continuar suas pesquisas."

"Então isso é um motim agora?" Emma não esconde seu agravamento. "Todo mundo sabia menos eu?"

"Não é assim Emma, eu juro." Sua mãe tenta esclarecer, mas outra realização faz a cabeça de Emma dar voltas.

"Se você acha que eu vou deixar Evan aqui..." Snow não a deixa terminar.

"É claro que não! Eu jamais pediria isso! Eu sei que ir embora é a melhor chance de vocês. Eu jamais o privaria disso." Ela faz uma pausa e em seguida, acrescenta. "Essa foi a razão pela qual eu mandei Henry ir atrás da Regina em primeiro lugar."

Emma começa a rir então, rir com vontade.

O som, porém, é raso, desprovido de humor ou alegria. "Nossa melhor chance? É isso o que você vai dizer para si mesma?"

Emma continua rindo enquanto Snow olha para ela com uma mistura de dor e conflito. "Emma-"

"Não, por favor... Faça o que você achar melhor." Emma se levanta, as palavras ásperas em sua boca e sua tigela de sopa há muito esquecida. "Você já está bem crescidinha para tomar suas próprias decisões afinal de contas."

Snow apenas olha para a filha então, sem saber ao certo o que mais pode dizer. Mas antes de sair, Emma se vira para ela uma última vez, um sorriso amargo desfigurando seu semblante.

"Mas pergunte a si mesma o que significa quando você nunca faz parte da melhor chance de seus filhos."

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"Vamos Capitão, já passou da hora de dar um descanso para esse gancho." Ruby fala acompanhando Hook de volta à cabine dividida pelos dois, aproveitando que, apesar de seu evidente estado de embriaguez, o pirata ainda está em condições de usar as próprias pernas.

Com os olhos semicerrados ele deixa Ruby guiá-lo, ocasionalmente se escorando nas paredes do navio para não perder por completo o equilíbrio.

É com indescritível alívio que Ruby por fim abre a porta da cabine que divide com o pirata. O lugar é mais espaçoso que as demais cabines, sendo este o quarto principal do navio, o que Ruby aprecia especialmente agora que ocupa um espaço muito maior na cama.

"Que noite adorável para nos despedirmos da minha querida companheira não é mesmo?" Ele fala com a voz arrastada, trocando as pernas ao entrar no cômodo.

"Você está certo." Ruby concorda com um sorriso complacente.

A verdade é que enquanto Hook parece ter um talento natural para tirar a maior parte das pessoas do sério, para Ruby ele não passa de um bravateador. E um tipo até mesmo divertido. De uma forma ou de outra ele quase sempre consegue colocar um sorriso em seu rosto – ainda que muitas vezes não o faça propositalmente.

Tombando sob a cama como um tronco sendo derrubado por um raio, Hook continua suas lamentações para ninguém em particular. "E pensar que por um minuto eu achei que poderíamos ser felizes juntos. Eu, você, o bebê e Jolly. Ele daria seus primeiros passos no convés, saberia se guiar pelas estrelas antes mesmo de aprender a ler. Eu o ensinaria tudo o que sei sobre o mar."

"Killian, você ainda vai poder ensinar todas essas coisas a ele. Ou ela." Ruby pontua, sentando-se ao seu lado na cama e puxando uma de suas pernas para si com o intuito de ajudá-lo a se desfazer de suas botas.

"Talvez. Mas sem o Jolly as coisas não serão as mesmas. O que eu tenho a oferecer a essa criança, senão meu legado enquanto Capitão e pirata?" Ele bufa e mergulha a cara nos lençóis.

"Muito mais, eu espero." Ruby fala puxando uma das botas com força, somente para jogá-las no lado oposto do quarto. "Além disso, pense que estamos abrindo mão disso tudo para oferecer a ele um futuro melhor. Um futuro onde ser comido por um morto-vivo não seja uma opção."

Hook não fala nada por um longo instante e Ruby poderia até pensar que ele tivesse adormecido, caso não houvesse uma ausência completa de uma poderosa sinfonia de roncos. Então, quando ela o ajusta junto à cama, virando-o em sua direção, é para se deparar com olhos azuis brilhantes focados completamente em sua figura. "Você realmente acha que nós podemos fazer isso dar certo? Eu não sei nada sobre crianças. E menos ainda sobre ser pai."

Com um gesto carinhoso, Ruby afasta os cabelos negros de sua testa e acaricia sua barba por fazer antes de responder. "Eu acho que a única coisa que podemos fazer é oferecer o nosso melhor a essa criança. E protegê-la a qualquer custo. E isso você já está fazendo."

O pirata fecha os olhos então, um sorriso de satisfação espalhado em seu rosto.

"Eu acredito em você." Ele fala antes de se deixar embalar por um pesado sono.

Nesse momento Ruby não deixa de pensar que ela também precisa acreditar em suas próprias palavras.

Nem que seja somente pelo bem de sua família.

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Com as últimas palavras de Snow marchando em sua mente, Emma vaga pelo navio sem destino, toda sua frustração e raiva servindo de combustível para suas pernas.

Surpreendendo a si mesma ela acaba no porão do navio.

Acendendo ao lampião junto à porta que agora possui uma tranca fortificada, Emma entra no cômodo mal iluminado e é recepcionada por grunhidos indistintos.

Ao perceber sua presença, David – a criatura – se aproxima das grades de sua cela esticando os braços em sua direção, seu rosto emoldurado pelas barras de ferro.

Com uma fascinação mórbida, Emma se aproxima da cela, seus olhos verdes fixos no rosto que já lhe foi tão familiar, mas que agora parece estranhamente distorcido pela falta de expressão.

Em lugar dos olhos que sempre foram calorosos e receptivos, ela encontra um olhar vidrado por trás de íris opacas. Suas bochechas, antes coradas em virtude de qualquer esforço, agora são pálidas, sem vida. Seu hálito cheira a sangue e decomposição.

Por um longo instante ela permanece imóvel a uma distância imprudente, visto que um pequeno deslize a lançaria nos braços da criatura que já foi seu pai; Ainda assim ela desafia seu próprio bom senso, seu olhar fixo naquele rosto em busca de respostas, pistas, um sinal.

De qualquer indício de reconhecimento.

Ela nada encontra. Não na figura de seu pai, e tampouco dentro de si.

Mesmo com todos os seus esforços, Emma não consegue enxergar o que Snow vê ali. Não há naquele cubículo opressor e deprimente qualquer sinal de esperança. David está além da morte e, sobretudo, além de qualquer salvação.

E enquanto isso eles ainda estão vivos. Ainda podem ter uma chance. Mas mesmo assim, sua mãe o escolhe ao invés de sua família.

Snow prefere ficar e morrer ao lado de um monstro do que seguir em frente e viver ao lado dos filhos.

A simples noção de semelhante disparate provoca uma repulsa devastadora em seu íntimo.

Como pode alguém ser assim tão egoísta? Tão cego?

Mas sobre uma coisa Snow tinha razão: Emma já sabia que isso estava por vir. Senão por uma lógica irrefutável, ao menos por experiências passadas, situações que se repetiram de novo e de novo no decorrer de sua vida.

Para alguém que adora deferir belos discursos sobre amor verdadeiro e bondade, sua mãe sempre foi constante nesse aspecto: o de sacrificar os próprios filhos por um bem maior.

Pelo menos dessa vez ela está admitindo seus reais motivos.

Emma poderia fingir que sua única preocupação é Evan. Ela poderia argumentar o fato de ele ser apenas uma criança inocente, de que a decisão de Snow o está sentenciando a uma vida longe de sua mãe, em uma família devastada pela separação.

O que não seria exatamente verdade.

Evan vai ficar bem.

É claro que ele sentirá a ausência de Snow. Mas o tempo vai passar e sua falta será abrandada pelo desbotar das memórias.

Evan vai ficar bem porque ele sempre terá Emma, que faria absolutamente tudo por ele, e ao contrário de sua mãe, jamais iria colocar nada acima de seu bem estar. Ele tem Henry, que apesar de reclamar constantemente do pequeno e de provocá-lo sempre que tem a oportunidade, o protegeria com unhas e dentes. Evan tem até mesmo Regina, a quem Emma está certa de que poderia confiar a vida de sua pequena família caso algo lhe acontecesse.

Evan vai ficar bem porque nesse mundo de horrores e incertezas ele tem pessoas que o amam incondicionalmente. E isso é muito mais do que Emma teve em toda sua infância e em grande parte de sua vida adulta.

Ele é um garotinho resistente e esperto, que vai ter a chance de crescer acreditando em coisas como confiança, amizade, bondade e acima de tudo amor, porque ele testemunhou cada um desses elementos de perto. Porque a simples noção disso tudo não será, ao seus olhos, tão ou mais irreal do que um conto de fadas.

Já Emma, por sua vez, não pode dizer o mesmo de si.

E essa é a parte que lhe dói admitir.

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Talvez seja adrenalina apenas. Ou ansiedade pelo que está por vir, pela possibilidade de um grande sucesso ou um devastador fracasso que colocará em risco a vida de todas as pessoas com quem Regina se importa.

Talvez sejam apenas velhos fantasmas aproveitando-se das lacunas deixadas pela ausência de uma exaustão física provocada por extenso esforço físico, consequência de horas e horas de pesquisa e trabalho árduo para que pequenos brotos de feijão sejam capazes de proporcionar não apenas salvação para este pequeno grupo, mas a chance de um recomeço.

Regina se recolhe cedo, ciente da necessidade de estar descansada e em sua melhor forma possível para a tarefa que deverá desempenhar no dia seguinte.

Abrir portais nunca foi exatamente desafiador, ao menos não com o uso de feijões mágicos, mas por um motivo que ela não consegue entender ao certo, algo que nem Emma, nem nenhum dos sobreviventes soube lhe explicar exatamente, a mágica nesse mundo já não é mais o que era antes. E Regina não sabe como isso poderá afetar seus planos.

Lidar com fatores imprevisíveis nunca esteve entre seus passatempos favoritos. Pelo contrário. De modo que, apesar de toda a sua determinação, o sono não vem.

Com um grunhido de frustração ela enterra a cabeça no travesseiro e ainda tem o mesmo cobrindo seu rosto quando escuta o barulho de sua porta sendo aberta.

Uma visita no meio da noite só pode ser de uma pessoa, e Regina não precisa tirar o travesseiro da frente de seu rosto ou mesmo abrir os olhos para saber de quem se trata.

"Eu imaginei que você também estaria acordada." A loira fala arrastando os pés ao entrar no quarto e algo em sua voz e sua postura denuncia sem rodeios seu estado de embriaguez.

"Você está bêbada." Regina constata mesmo na escuridão do quarto mal iluminado, deixando o travesseiro de lado. Seu tom revelando mais sua surpresa do que censura propriamente.

"Sim, eu estou." Emma senta na beirada da cama (ou mais especificamente deixa seu corpo tombar sobre a mesma sem muita delicadeza). "Você tem algum problema com isso?"

"O que aconteceu?" A pergunta escapa de Regina antes que ela possa se conter, sua mão instintivamente buscando os contornos do rosto da loira, como se ela esperasse conseguir uma resposta de seus olhos, mesmo que sua boca se recuse a oferecer uma.

"Eu não vim aqui pra falar a respeito." Emma aceita o gesto e por um breve instante, provavelmente efeito da bebida - ou ao menos é isso o que Regina deduz – se permite apreciá-lo cobrindo a mão dela com a sua e prolongando o contato entre as duas.

Ela então segura a mão de Regina e a leva até seus lábios, depositando em sua palma um beijo demorado, ao que Regina não pode deixar de sentir uma leve fisgada entre suas pernas, enquanto seu coração ganha um ritmo acelerado com a compreensão do que está se passando.

"Emma-" Ela tenta objetar enquanto o uso da razão ainda lhe pertence, embora rapidamente seu corpo demonstre sinais de derrota ante os avanços da loira. "Nós já- Já conversamos sobre isso."

Com os lábios deslizando para o lado inferior de seu pulso à caminho de seu ante-braço, a voz de Emma ressona de encontro à sua pele, provocando arrepios em seu trajeto. "Eu também não vim aqui para conversar."

Ela levanta os olhos apenas o suficiente para enxergar o rosto de Regina, que com olhos brilhantes e acesos, engole em seco. Sua voz lhe falhando quando a pergunta finalmente abandona seus lábios.

"Por que você veio então?"

A resposta chega em forma de lábios quentes se deslanchando contra os seus, e quando a boca de Regina se abre para manifestar sua surpresa, a língua de Emma a invade, imperiosa.

Tudo o que Regina consegue deixar escapar então é um sôfrego gemido, suas mãos puxando o corpo de Emma para si sem hesitar, enquanto seus dedos se enlaçam em seus cabelos.

Esta noite, Emma tem gosto de rum, lágrimas e más escolhas. Algo com o que Regina está mais do que familiarizada, reconhecendo imediatamente os sinais ao sentir as unhas deixando marcas em suas costas enquanto seu nome é repetido como um mantra ao pé de seu ouvido de forma febril, quase delirante.

"Regina," O hálito quente de Emma encontra seu pescoço enquanto dentes judiam de sua pele e lábios exploram com languidez seus ombros nus, provocando uma onda de prazer que a devasta.

Melhor do que ninguém, Regina sabe o que é essa necessidade pungente e quase arrebatadora de escapar de tudo e principalmente de si mesma. Uma compulsão tão forte que é capaz de levar uma pessoa direto para o âmago de uma explosão mesmo quando as chamas queimam seu corpo.

Assim, tão logo Emma pula, Regina prontamente se dispõe a recebê-la em seus braços, impedindo que a mulher que ela tem diante de si se despedace com a queda.

Porém em seu íntimo, em lugares obscuros que ela obstinadamente se compele a ignorar, vozes do passado gravaram com ferro em brasa verdades que Regina não pode esquecer por mais que tente, verdades que a assombram aonde quer que ela vá.

Amor é fraqueza.

A sua, em particular.

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Continua...