N/A: oi pessoas, parece que se passaram anos, não é? Ah, espera, foram anos mesmo

Eu sinto mesmo pelo meu sumiço, eu poderia inventar uma desculpa atrás da outra, mas a verdade pura e simples é que eu perdi a fé na minha escrita. As pessoas ao meu redor continuavam falando que não há futuro, que eu não tinha futuro no mundo da escrita e acreditem, meu sonho é ser escritora, viver por e para as minhas palavras, então cada palavra negativa só me fez desacreditar que eu não era boa com as palavras. Então após anos tive coragem de abrir o meu caderno para alguém que me elogio, falou que viu, que sentiu o que eu escrevia, e aos poucos comecei a retomar esse caminho. Foi e continua sendo um caminho longo, e apenas agora eu me senti segura para escrever algo que mais de duas pessoas leriam. E espero que se você realmente esteja lendo isso aprenda através de mim, do que aconteceu comigo como as palavras são poderosas, elas podem te elevar ao paraíso ou te levar a ruína. Espero que gostem

Em um beco escuro um homem de cerca de trinta anos, cabelo e olhos castanho escuros acordou dolorido, desnorteado e com um frio intenso. A idéia de esquentar-se com uma boa garrafa de uísque e com o corpo de uma jovem instantaneamente lhe veio a cabeça. A garrafa de uísque ele conseguiria em seu bar favorito não muito longe, a garota poderia ser "alugada" de um orfanato também já bem conhecido por ele pelo preço certo. Mas primeiro ele precisaria lembrar como ele foi parar ali. Ao equilibrar-se na parede para se levantar notou que seu braço estava azul, e com uma textura parecida com gelo. Então tudo lhe veio a mente sobre o que aconteceu aquela tarde, aquela garotinha que lhe chamou a atenção, lhe causou a sensação de reconhecimento, o que o levou a cometer aquele ato tão imprudente. Ele sempre foi cuidadoso, sempre. Se alguma garota lhe chamasse a atenção em caso de estar acompanhada ele a seguiria por dias a fio até que a garota estivesse sozinha, de preferência a noite, a levaria a um lugar que não pudesse ser interrompido e faria seu serviço, sempre com o rosto coberto, caso não estivesse acompanhada (como a garota de mais cedo) ele a levaria para seu apartamento, faria o que quisesse e se os pais tivessem sorte poderiam encontrar o corpo da garota nas margens de um rio ou em uma floresta de um estado diferente. Mas algo naquela garota o fez ter sede dela, não só do seu corpo, mas principalmente do seu sangue. Sentia como se ter a dor e a vida daquela garota em suas mãos fosse uma espécie de compensação, de vingança, ele nunca havia sentido isso antes, não com essa intensidade e simplesmente não agüentou chegar ao seu apartamento, ele precisava dela naquele momento.

Então a garota loira. Uma sensação maior de conhecimento, mas dessa vez nenhum desejo por seu corpo, apenas por seu sangue. Ele queria ver o vermelho manchar o chão, ver sua pele ainda mais pálida do que já era. E então lembrou-se ainda mais dela, não só daquela tarde, mas de séculos anteriores, diversas vidas anteriores. Quando ela o trancou dentro de uma casa em chamas enquanto abraçava um jovem ensaguentado de cabelos e olhos castanhos. Quando ela o impediu de ter sucesso em conquistar um reino. Quando ela o congelou enquanto ele tomava seu corpo a forca, a imagem dela não muito mais velha que a garota mais jovem no beco. Quando ela chorava por seus pais em um tribunal enquanto ele recebia a sentença de morte. Cada vez que os caminhos dos dois se entrelaçaram, algumas vezes com a garotinha no meio, em outras não. Mas sempre ela o atrapalhando, o frustrando, causando sua morte, assim como agora. Como ele queria derrotá-la apenas uma vez!

Sem perceber a textura de gelo foi se escurecendo e endurecendo, tornando sua pele dura como pedra, assim como seu coração. Os olhos tomaram uma tonalidade forte de vermelho, e dentro de si ele sentiu poder, muito poder e também sentiu sua natureza, sentia como se pudesse destruir qualquer coisa, reduzir tudo que quisesse a pó. Finalmente saiu do beco, e a visão do mundo fez com que uma carranca mal humorada aparecesse em seu rosto. Desde quando o mundo era tão quente, tão colorido, tão... Vivo?

Ele então começou a andar pela rua, de alguma forma sabendo que as pessoas não poderiam vê-lo, mas poderiam senti-lo, o que ele comprovou ao notar que as pessoas pareciam repentinamente fracas e doentes, com estranhos acessos de tosse quando passavam por ele. De certo modo lembrou-se de quando era criança e queria ser invisível. Ou quase. Não pôde deixar de sorrir ao ver que um homem bêbado e maltrapilho sentado na rua, falando palavras ofensivas para as mulheres mais atraentes passarem por ele, de repente assumiu uma expressão de horror e calou-se, olhando para ele. Não pôde deixar de sorrir para o bêbado, cada dente pontiagudo o deixando ainda mais assustador para o vagabundo. Apenas assumiu uma expressão de diversão e entendeu. O homem era podre de alma, e apenas o podre reconheceria o podre. Enquanto andava parou diante de uma banca de revistas, vendo estampado na primeira pagina a foto da garotinha, da loira e uma de si próprio. Ele então percebeu que queria ler aquele jornal, saber quem eram aquelas garotas nesse tempo para assim poder vingar-se, mas como obteria o papel? Com um sorriso sinistro voltou ao mesmo homem que havia visto anteriormente, o encontrando com uma expressão ainda assombrada e virando uma garrafa de bebida barata de uma vez só. Quando o homem o viu novamente o olhou com horror, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa ele tocou o bêbado e de repente estava vendo o mundo sob a visão do mesmo. Checou os bolsos do homem, encontrando uma nota de dez, com um sorriso sinistro voltou a banca e sob o olhar repudiado do dono da banca pediu um, sentou-se em um banco próximo e começou a ler.

CRIME EM BECO DE SPRING STREET

Hoje se completa uma semana do crime bárbaro cometido em um Beco da Spring Street, onde a jovem Alice Woods (10) foi atacada por Hans Powell (32). A jovem Elisa Winston (18) teria ouvido gritos na direção do beco e ajudou a jovem Woods, porem no processo foi esfaqueada por Powell, segundo a autopsia morrendo alguns minutos depois por hemorragia. Hans Powell também foi encontrado morto no local, mas segundo os legistas a causa da morte é desconhecida. A jovem Woods passa bem, porem ao buscarmos a família para mais informações eles preferiram não dar entrevistas.

Hans passou mais alguns instantes olhando para as fotos do jornal, feliz por ter causado a morte de uma das garotas, então porque aquela sensação irritante de que ela ainda estava por aí? Bom, ainda havia uma viva, e essa ele poderia matar lentamente, do jeito que sua sede de vingança deseja. Com uma ultima olhada para o jornal abandonou o corpo do bêbado, se afastando antes que ele se desse conta do que aconteceu. Não pôde deixar de sorrir ao saber dessa habilidade, o podre reconhece o podre, a podridão no coração do homem o reconheceu, e ele – pensou enquanto fazia uma planta da rua morrer ao seu toque – era a própria podridão.