CAPÍTULO X: ESPERANÇAS

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"De tudo podemos perder as esperanças, até de viver, mas nunca de recuperar um grande amor."

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Konoha amanheceu alegre e ensolarada. As flores enfeitavam todos os jardins com suas cores e formatos, as aves e as borboletas coloriam o céu azulado e o ar tinha um aroma suave e adocicado. Até a floresta tinha uma beleza especial, quando os raios de sol atravessavam as densas copas das árvores projetava uma luz brilhante e acolhedora dentro da floresta.

Hinata acordou cedo e mal comeu antes de sair para treinar. Assim foi sua rotina durante dias. Ela quase não se alimentava. Só saía para os treinos e as missões e estava cada dia mais calada. Nem saía mais para observar a noite da varanda, um hábito que ela sempre teve. Neji observava tudo com muita tristeza, aprendera a admirar e a gostar de Hinata. Ela sempre fora doce e gentil com ele. Bem, a Hinata era sempre doce e gentil com todo mundo mas, mesmo assim, Neji percebia o quanto ela era especial.

Todas as vezes que Hinata via Naruto ela vivenciava emoções contraditórias. Sentia uma alegria enorme por poder vê-lo: seu olhar intenso e cativante e seu sorriso encantador e gentil deixavam-na sem defesas, ele sempre lhe tirava o fôlego. Hinata não conseguia se acostumar, se o visse vinte vezes no mesmo dia ainda assim parecia que era a primeira vez e ela se deixava arrebatar pelo simples prazer de apreciar sua presença.

Mas, ao mesmo tempo, do fundo do seu coração, mesmo que ela tentasse sufocar esse sentimento, sempre surgia uma pequena sensação incômoda, que insistia em lembrar que Naruto gostava de outra garota. O sonho da outra noite era insistente e tinha traços de pesadelo. Hinata achava-se muito boba por conta disso afinal era isso que provavelmente ia acontecer um dia. Todos, de certa forma, esperavam que Sakura e Naruto se acertassem. Achava-se também muito covarde: se ela o amava tanto será que não havia nada que pudesse fazer. Mas fazer o quê? Já não tinha dito a ele que o amava? Não podia nem queria forçar uma situação.

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Certa tarde, depois de muita insistência de Shino e Kiba, Hinata foi com eles para um lanche rápido no Ichiraku depois do treino. Fazia tempo que eles não saíam juntos. Ao chegarem lá perceberam que não tinham sido os únicos a ter essa ideia. Lá, já estavam Sakura, Naruto e Sai, Ino, Chouji e Shikamaru além de Neji, Ten Ten e Rock Lee. Parecia algum de tipo de superencontro de times. O Ichiraku estava lotado com tantos jovens.

Hinata ficou feliz de vê-los e sentou-se entre Neji e Kiba. Era bom estar entre amigos. Conversaram bastante sobre a reconstrução de Konoha, as missões e o tempo bom que estava fazendo em Konoha. Depois de uma rodada de sakê, que Hinata recusou, preferindo um suco, começaram uma discussão sobre os ninjas que abandonavam suas vilas e o nome de Sasuke inevitavelmente veio à tona, embora Naruto e Sakura fossem os que mais esperavam a volta do amigo, Hinata ficou feliz em saber que os outros ninjas não o odiavam ou queriam sua morte.

Ela não se sentia no direito de falar nada, não conhecia muito o Sasuke e não gostava de julgar as pessoas. Mas ela sabia o quanto a volta do amigo era importante para Naruto e, mesmo estando entre tanta gente, se forçou a dizer:

_ Eu sei que o Sasuke-kun vai voltar. Aqui é o seu lar. _ disse timidamente com a voz baixa. Não sabia porque tinha dito isso, ela não do tipo que falava coisas só para agradar, na verdade, mesmo sem saber explicar ela sentia em seu íntimo que Sasuke voltaria para Konoha.

Ninguém quis comentar a sua observação, muitos achavam isso impossível e nem Naruto nem Sakura queriam discutir esses sentimentos no momento, mas Hinata pôde ver o apoio deles em seus olhos. Logo ela voltou a ficar mais calada, não era se ela não estivesse à vontade ou não se sentisse bem com os amigos, na verdade, ela não sabia o que poderia dizer, tão acostumada estava a não dizer nada.

Depois da segunda rodada de sakê, que Hinata novamente recusou, o assunto foi desviado para romances e namoros. A essa altura Shikamaru e Sakura já tinham saído, Naruto teria ido também se Sakura não o tivesse dispensado para acompanhá-la até em casa. Neji, Shino, Sai, Ten Ten e Hinata nada falavam. Kiba e Naruto opinavam vez ou outra então a discussão ficou centralizada entre Rock Lee (e o fogo da juventude) e Ino, que travavam uma verdadeira batalha para ver "quem tinha razão".

Apesar de o assunto ser um pouco incomum e desconfortável para alguns, Hinata ficou absurdamente vermelha e não arriscou sequer olhar para Naruto. Muitos riam das opiniões e ideias de Lee e Ino.

A kunoichi de cabelos louros defendia que o melhor era ser direta e atrair o companheiro, deixar claro o que queria e fazer-se notar:

_ Como ele vai gostar de você se ele nem nota você. Você tem que atraí-lo, fazê-lo perceber o quanto você é boa para ele. Tem que deixar claro que é a melhor opção. _ argumentava a loira.

Hinata admirava e inveja a ousadia de Ino. Mas a ideia de fazer notar e de mostrar o quanto era boa só fez Hinata corar ainda mais. Não, isso era impossível para ela. Era mais fácil ela conseguir desvendar o coração de Sasuke Uchila e de toda a sua linhagem do que explicar o que era fazer-se notar.

Rock Lee dizia que o que mais fazia um homem perder a cabeça era o ciúme:

_ Nada pior do que o temor de que a garota dos seus sonhos (e ele ficou um bom tempo com uma expressão boba paralisada em seu rosto), do que achar que ela pode estar nos braços de outra pessoa. _ falou com uma expressão angustiada.

Ao ouvir as palavras de Lee, Hinata sentiu um frio no estômago. "Achar que ela pode estar nos braços de outra pessoa." Sim, isso era difícil.

_ Isso é ridículo! _ disse Ino. _ Como alguém pode ter ciúmes de uma pessoa que não lhe atrai? É necessário primeiro fazer-se notar. _ insistia com veemência.

Hinata levantou-se, aquela discussão já estava ficando demais para ela:

_ Bem, já está escurecendo... Arigatou pela companhia, mas eu preciso ir. _ disse se despedindo.

_ Eu lhe acompanho. _ disse Neji.

_ Iie, Neji-nii-san, arigatou. _ Hinata sabia que ele tinha vindo com os amigos e era tão raro Neji sair, não queria atrapalhar a tarde dele.

_ Eu te acompanho, Hinata. _ disse Shino levantando-se e despedindo-se dos outros. _ Já devia mesmo ter ido.

Os dois se afastaram em silêncio.

Pouco a pouco, os ninjas foram se retirando, primeiro Naruto e Kiba, depois Neji e Ten Ten e, por fim, ficaram apenas Ino e Lee discutindo suas ideias sobre namoro.

Quando Neji chegou à mansão Hyuuga percebeu a silhueta de Hinata sentada no peitoril da janela de seu quarto. Estava recostada na parede observando a lua cheia, ele não precisava usar o Byakugan para saber que a prima estava chorando.

Isso lhe deixava com o coração apertado, Hinata era uma pessoa a quem ele admirava. Hinata era a pessoa mais próxima que ele tinha. Era como se fosse uma irmã a quem ele tinha a obrigação de proteger e ajudar. Por que era tão difícil para que Naruto visse o quanto ela era especial?

Neji bufou impotente e entrou. Poderia derrotar dezenas de inimigos, mas não podia ajudá-la. Isso era frustrante. Esperava que ela, como a pessoa forte que havia se tornado, superasse isso logo.

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No outro dia, mais uma vez, Hinata acordou cedo e foi treinar. E, mais uma vez, voltou a comer e a falar pouco. Neji tinha vontade de dar uma surra em Naruto ou uma surra em Hinata ou, ainda, uma surra em ambos, queria fazer alguma coisa para acabar com aquilo. Por que era tão difícil que eles se entendessem? Na verdade, o que ele não entendia mesmo, era o fato de Hinata chorar tanto. Quer dizer, ele também sabia o que era sufocar um amor e sofrer em silêncio, mas ele não podia parar sua vida ou ficar chorando pelos cantos, podia? Foi então que percebeu: Hinata não era como ele. Ela não era como ninguém que ele conhecia. Ela era forte e frágil ao mesmo tempo, como uma flor do deserto que, mesmo suportando o sol escaldante dia após dia, se desfaz em um simples aperto de mão.

Neji tinha decidido deixar para lá, não tinha o direito de intervir, não podia intervir. Era a vida de Hinata e, também, ele tinha obrigações e deveres para com o seu clã. Um clã amargo e cheio de defeitos e intrigas, cuja coisa mais admirável que tinha era a sua herdeira, mas, ainda assim, seu clã.

Estava firme neste propósito quando encontrou a Hyuuga na floresta, sentada no chão, em prantos. Não era um choro típico de Hinata, silencioso e tímido, era um choro abundante e copioso. Primeiro, Neji pensou que ela estivesse ferida e ativou seu Byakugan para avaliar os danos e localizar o agressor, foi então que percebeu que ela não aparentava nenhum machucado.

Neji levantou-a pelos ombros e tentou fitá-la nos olhos, mas ela mantinha o rosto abaixado.

_ O que foi, Hinata-sama? Quem...

Então Hinata abraçou-o e continuou a chorar. E esse pequeno gesto, um pedido silencioso de ajuda, fez Neji emudecer de ódio. Quem poderia ter feito uma coisa dessas? E, com o Byakugan, começou a vasculhar a floresta. Pouco distante dali, Naruto e Sakura conversavam muito próximos.

Naruto! Neji sabia que sua raiva era despropositada e irracional, ninguém era obrigado a gostar de ninguém. Mesmo assim, ele via no shinobi a razão de toda a dor de Hinata. Naruto, mesmo inocentemente, vinha na direção deles enquanto a ninja de cabelos rosados entrava mais na floresta.

_ Você confia em mim, Hinata-sama? _ perguntou Neji em voz baixa.

Hinata assentiu com um gesto de cabeça, já estava um pouco mais calma.

E apenas porque ele nunca podia fazer a sua vontade, tolhido pelo selo que havia em sua testa e apenas porque Hinata era uma das únicas coisas boas do clã e, só porque ele estava com muita raiva, Neji resolveu dar ouvidos a Rock Lee e fez uma loucura. Uma grande loucura. Esperou até que Naruto pudesse vê-los, embora Hinata não pudesse vê-lo já que estava de costas para o louro e, delicadamente, afastou Hinata de seus braços, enxugando, gentilmente, suas lágrimas. Com o canto do olho, a visão fortificada pelo Byakugan que ele logo desativou, ele viu o assombro no rosto de Naruto, um sorriso discreto foi se formando no canto dos lábios.

Começou, então, a acariciar com uma mão os cabelos de Hinata, emaranhando seus dedos neles e percorrendo toda a sua extensão macia, a outra mão pousou firme em sua cintura. Pega de surpresa, Hinata não tinha palavras ou ações para reagir, apenas uma expressão de incredulidade e dúvida no rosto, expressão essa que Naruto não podia ver.

Neji continuou acariciando os cabelos de Hinata, depois abandonou as madeixas para acariciar e segurar a face da prima:

_ Naruto não é o único garoto de Konoha. _ disse de forma bastante audível e com a voz rouca de constrangimento e dúvidas, ele com certeza estava ficando louco, embora quem ouvisse a afirmação diria apenas que ele estava tomado por fortes emoções. Neji então puxou Hinata delicadamente e beijou-a voluptuosamente. As mãos em sua cintura e em sua nuca prenderam-na, segurando-a firmemente.

E antes que ela pudesse se soltar ou que Naruto pudesse perceber algo, Neji tomou-a no colo e saiu em disparada.

Naruto estava chocado. A surpresa que sentia deixou-o um pouco desnorteado. Não tivera nem tempo de assimilar tudo. Recusava-se a aceitar o que tinha acabado de presenciar. Neji e Hinata?... Vê-lo abraçando-a, acariciando seus cabelos sedosos e seu rosto angelical e beijando seus lábios macios, fez com que ele sentisse um monstro tenebroso rugir dentro de si. E não era a Kyubi. Lembrar-se da dança sensual que ela executou com passos firmes e provocantes, há um mês, também não ajudou em nada.

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Continua...