Levi vê como Erwin encara o homem à sua porta impassivamente por um momento, cada segundo do qual Levi sente como um martelar do coração contra o peito. O velho de pé a seu lado juntara as mãos atrás das costas, um gesto que apenas conseguira exagerar ainda mais a já rígida postura enquanto ele balança ligeiramente para trás e para a frente sobre os pés de uma forma que faz Levi pensar em Krieger e de como ele costumava ficar tão bêbedo que mal se conseguia equilibrar.

- Claro, Herr Generalleutenant - diz Erwin calmalmente. - Entre.

O velho dá um passo ao lado para deixar Levi entrar primeiro e ele avança rapidamente para o apartamento, sentindo as pernas trémulas ao atravessar a ombreira. Consegue ver Erwin a recuar agitado, como se só agora se apercebesse da presença de Levi quando ele sai da sombra do velho. A mente de Levi está preenchida de perguntas, mas não se questiona por um segundo sobre quem o homem é.

Assim que Osterhaus se volta para fechar a porta atrás de si, Erwin agarra o braço de Levi com força, puxando-o dolorosamente para trás de si e mais para o interior do apartamento. Quando Levi consegue voltar-se para o homem de novo, ele tem uma pistola apontada entre os olhos do Generalleutnant, que não parece minimamente surpreendido por se ver ameaçado desta forma. Em vez disso, abre aquela larga boca com cor de equimose e solta uma gargalhada que mais parece uma tossidela.

- Vá lá, Herr Stumbannfüher. - O título tem um ênfase trocista na língua do homem. - Não acha sinceramente que vai melhorar a sua sorte se eu não sair daqui vivo.

Levi olha para Erwin, que não baixa a arma, fica simplesmente de pé à sua frente como uma estátua. Algures na parte de trás da sua mente, ocorre a Levi o quão estranho tudo isto é, como chegaram a isto, quando na primeira vez que se conheceram era Levi no lugar de Osterhaus, com a arma apontada à cabeça em vez dele. A mão de Erwin ainda está a agarrar-lhe o braço, mantendo-o quieto e longe de perigo.

O velho fala de novo mas Levi não compreende as palavras; a língua do Comandante, apesar de ele a falar de forma semelhante a Alemão, supõe Levi. Eles fixam-se durante mais um momento tenso antes de Erwin baixar a arma, a outra mão suavizando o aperto no braço de Levi quando a sua postura relaxa.

- Assim está melhor - declara Osterhaus, passando por Erwin em direcção à sala de estar. - Talvez uma chávena de café enquanto falamos.

Levi olha para Erwin, que se voltara para ele com ar sério. - Vai e prepara o café - diz, e Levi não consegue perceber quem é que o homem está a tentar ser, ele próprio ou Holtz; não tem a certeza se o próprio Erwin sabe.

- Não sei fazer - diz-lhe Levi. - Nunca preparei antes.

- Aquece a água, tira do lume, uma colher de café por chávena, volta a pôr ao lume, quase a ferver e despeja para o bule - explica Erwin em voz baixa e apressada antes de entrar na sala de estar, deixando Levi a tentar perceber o que ele acabara de dizer.

No seu caminho para a cozinha, vê Osterhaus, que se sentara na poltrona de Erwin, enquanto que Erwin se sentara no lado do sofá que Levi passara a considerar seu. Nenhum deles fala até Levi sair da sala; as vozes baixas não chegam aos ouvidos de Levi enquanto ele remexe nos armários, encontrando o café numa pequena lata etiquetada com a palavra 'mocha'. Começa a ferver a água numa chaleira de cobre desgastada pelo calor antes de procurar um conjunto de chávenas de café e um bule que já vira enquanto limpava os armários, mais pequeno e delicado do que qualquer serviço de chá que vira. Mede as porções de café com uma colher pequena assim que a água fica a ferver, movendo a chaleira no fogão o tempo suficiente para deixá-la começar a borbulhar de novo antes de verter o café para o bule. Tudo parece demorar-lhe muito mais tempo do que desejava e mal repara no passo acelerado com que entra na sala de estar com o tabuleiro e o pousa na mesa entre os dois homens.

- Este deve ser o seu pequeno mensageiro - diz Osterhaus, olhando para Levi com os olhos cheios de escárnio enquanto que os de Levi se franzem.

- Estávamos a chegar ao motivo da sua visita - Erwin recorda ao homem e parece a Levi que ele está a usar as palavras para desviar a atenção de Osterhaus dele, apesar de o homem ter estado claramente pronto a continuar. Sem saber o que mais deveria fazer, Levi serve o café para duas chávenas e senta-se na outra ponta do sofá.

- Não há um pingo de paciência em si, pois não? - arrasta Osterhaus, pegando na chávena de café e recostando-se na poltrona, passando uma perna sobre a outra. - Não há pressa.

Levi vê o segundo de tensão no rosto de Erwin e cerra os dentes, apesar de a expressão desaparecer tão depressa quanto apareceu, substituída por aquela serena impassividade dos primeiros dias em que se tinham conhecido. No silêncio que enche a divisão, Levi pergunta-se o que deve fazer, se deve continuar aqui sentado ou tratar das tarefas, assumir o papel de Lukas Weller o empregado, até que lhe ocorre que essa farsa já é inútil. Para o disfarce funcionar, ele nunca deveria ter entrado no apartamento, ou antes, nunca deveria ter feito aquela missão com Erwin na Alberstadt.

Do lado oposto, Osterhaus dá um trago hesitante na sua chávena antes de cuspi-lo de imediato de volta. Quase atira o pires de volta à pequena mesa, fazendo a chávena cair e entornando o conteúdo sobre a madeira polida; as mãos de Levi contorcem-se para a limpar, mas tem pouca vontade de sair da sala ao ver a calma forçada na expressão de Erwin. A mancha escura espalha-se para a ponta e começa a pingar para a carpete gasta, o som alto o suficiente para fazer Levi cerrar os dentes.

- É o pior raio de café que alguma vez provei na minha vida - atira Osterhaus, limpando a boca e voltando-se para Levi. - Como é que consegues fazer café que não sabe a nada e é amargo como o raio ao mesmo tempo?

- Ainda estou à espera - lembra Erwin baixinho; há uma nota na sua voz que Levi não ouvira antes, e fá-lo estremecer.

Osterhaus volta-se para ele impaciente, como se estivesse chateado pela recusa de Erwin participar em qualquer que fosse o joguinho ou cenário que ele planeara na sua mente. - Não está na posição de ditar os termos desta negociação - ladra acentuadamente, lembrando Levi de um cão a mostrar os dentes.

- Então isto é uma negociação - denota Erwin com firmeza. - Então quer algo de mim, e acha que pode oferecer algo em troca.

Osterhaus sorri, mostrando mais dentes velhos e coroas de ouro do que Levi alguma vez vira na boca de alguém. - Isto será muito mais rápido assim que ambos concordemos que não há muito que eu precise de oferecer - diz presunçosamente. - Para alguém na sua situação, o meu silêncio deverá ser mais do que suficiente.

- Claro - concorda Erwin de imediato, para surpresa de Levi. - E o preço para esse silêncio?

Osterhaus ri baixinho. - Claramente, não está a apreciar o quanto eu estou a divertir-me - diz o homem. - Tenho a certeza que sabe que já o desprezava antes, mas agora a felicidade de ter o seu pescoço sob o meu pé é duas vezes maior. Acredite quando lhe digo que não vou deixar que me arruíne este momento.

Levi volta-se para olhar para Erwin, esperando ver uma expressão que reflicta alguma da sua própria indignação, mas o homem simplesmente sorri. - Como quiser - diz a Osterhaus, cuja alegria parece ligeiramente diminuída pela ineficácia das suas palavras. - Pessoalmente, só tenho um pedido para lhe fazer, mas tenho a certeza que lá chegaremos depois de declarar as suas condições.

- E veremos se estou disposto a conceder-lho - diz-lhe Osterhaus antes de inspirar fundo pelo nariz e expirar longa e ruisodamente. - Gostaria de partilhar consigo as minhas observações a seu respeito, se não se importar.

- De todo - concede Erwin, pegando na outra chávena de café antes de se recostar no sofá.

- Fiz algumas questões sobre si, claro - começa Osterhaus devagar. - E encontrei um certificado de nascença de um Erwin Holtz, nascido em Viena em 1910. Nenhum pai mencionado, nada mais sobre a mãe para lá de 1911. Estranhamente, isso foi toda a informação que encontrei sobre um Erwin Holtz quando comecei a investigar mais de perto. Nenhum registo escolar, nenhum registo universitário, nenhum registo de emprego que fosse credível sob investigação mais atenta.

- Não vou cometer o erro de me sentir lisonjeado pelo seu interesse - diz Erwin, e Levi pergunta-se como é que ele pode fazer piadas numa situação como esta. - E as suas conclusões?

- É louvável o quão invisível se conseguiu tornar - responde Osterhaus. - Suponho que seja uma habilidade, ser antipático o suficiente para não atrair demasiada atenção para si mas não detestável o suficiente para que as pessoas o comecem a ressentir.

- Isso e uma carreira modesta - admite Erwin, beberricando o seu café; Levi procura sinais de ele o achar 'amargo como o raio', mas se acha, não o deixa transparecer. - Apercebi-me muito rapidamente que neste país nada garante uma bala no meio dos olhos mais rápido do que o sucesso.

- Dez anos - diz o velho e assobia devagar. - Na sua idade, diria que é a melhor parte da vida de um homem que desperdiçou aqui. Nem consigo imaginar como se deve sentir, passar tantos anos a tentar alcançar um objectivo só para morrer na praia.

Só aí a máscara de Erwin quebra por um segundo que Levi detecta apenas porque já viu aquela expressão antes no pomar da casa de campo, aquela tristeza e medo de arrependimento. É o silêncio que se torna mais revelador para Osterhaus, que demora um vagaroso momento a coçar a narina antes de falar novamente.

- Não se preocupe - diz, a voz repleta de um tipo de satisfação vitoriosa enquanto limpa o dedo no braço da poltrona. - Não tem de ser tudo em vão. Posso ajudá-lo com isso.

Erwin mantém-se em silêncio, como se esperasse algo, ou talvez receoso de que falar poderá ser demasiado revelador. Continua a beber o seu café, as sobrancelhas fartas a franzirem-se quando Osterhaus aclara a garganta.

- Há muito que podemos fazer um pelo outro - continua o velho - apesar de, de facto, ser você a fazer mais por mim, mas apenas porque de momento tem muito mais a perder do que eu. Nomeadamente a sua vida, e as vidas dos seus cúmplices, claro. Poderá confirmar que eu não sofro tamanha ameaça.

- De momento - realça Erwin como que a recordar o homem, que não presta atenção às palavras. - Assumo que todas as provas dos seus crimes tenham sido destruídas?

- Claro - responde Osterhaus. - Enquanto que o seu registo pode muito facilmente ser delatado para averiguação. Mandl e Schaumann? - O homem abana a cabeça. - Ele tinha acabado de conseguir que aquela actriz fosse para a cama com ele após meses a persuadi-la, e de repente ele decide deixar o país e abandonar uma pêga tão bem preparada? Acho que há uma explicação muito mais razoável.

Levi recorda-se subitamente da sua primeira missão com Erwin, os sinais de uma festa na biblioteca e no próprio Erwin, a poça de sangue que não chegara ao tapete, as malas de viagem que prepararam à pressa antes de saírem da casa a meio da noite.

- Tenho pena pelo Schaumann - continua Osterhaus, parecendo divagar. - Quanto ao Mandl, quase lhe posso agradecer. Deviam tê-lo mandado para Dachau depois de descobrirem aquele hábito nojento dele. Aquele julgamento foi uma merda de uma farsa.

Erwin permanece calado e Levi pergunta-se se o cérebro dele está ocupado a pensar, a planear alguma forma de se livrar de Osterhaus sem tornar as coisas piores. Ou talvez esteja a planear a sua própria fuga; eles têm de ter estratégias preparadas para fugas rápidas caso aconteçam situações como estas.

- Diga-me - continua Osterhaus enquanto Erwin pousa a chávena e o pires cuidadosamente de volta na mesa. - O que fez com aquele paneleiro nojento?

- Degolei-o com a minha navalha - responde Erwin, voz apática enquanto Osterhaus solta uma gargalhada excitada.

- Talvez não seja tão inútil afinal - diz ele a jeito de elogio, apesar de Erwin não o tomar claramente como tal; Levi consegue ver as sobrancelhas franzirem-se mais. - Consigo ver que não ficou desocupado durante a sua estadia. Diga-me, o que acha da Alemanha?

- Passei a gostar muito dela - diz Erwin, soando como se estivesse de repente numa conversa informal. - A maioria das pessoas que conheci foram de facto maravilhosas, e imensamente amáveis. É uma pena que todo o poder tenha caído nas mãos de indivíduos desprezíveis como o senhor. Apesar de não ir durar, claro.

Osterhaus suspira. - Pois, parece que não. Imagino que aquelas migalhas de informação que conseguiu reunir sobre mim possam ter algo a ver com isso.

- Fico feliz por dizer que sim - responde Erwin, sorrindo brevemente. - E é por isso que está aqui sozinho.

- Sim - admite o velho. - Apesar de, antes de continuarmos a nossa pequena negociação, eu gostar de o recordar o quão limitadas são as suas opções. Ou aceita os meus termos ou acaba à frente de um esquadrão de fuzilamento. Compreende?

- Perfeitamente - responde Erwin com a voz calma. - A minha vida está nas suas mãos, tal como a sua está nas minhas.

- Suponho que já chegou a uma conclusão sobre a natureza do meu pedido.

- Sim - diz Erwin. - Quer ser realojado e precisa da minha ajuda para o fazer. Se tentasse fazê-lo por si, dificilmente conseguiria evitar captura pelos seus compatriotas e captura além fronteira, ou frentes de batalha, como agora se tornaram.

- Não faz ideia do quão bem sabe não ter de fingir que estamos a ganhar esta maldita guerra - diz Osterhaus. - Por isto, quase que podia gostar de si. Mas tem totalmente razão, claro, e vai afastar-me o mais que possível desta tempestade de merda que está prestes a chegar.

- Suum cuique - diz Erwin baixinho. - A cada um aquilo que merece. Mas não no seu caso.

- Claro que não - concorda Osterhaus. - Nem no caso de alguns dos meus conhecidos mais influentes.

Levi vê o maxilar de Erwin endurecer, e sabe que a declaração do velho fora uma surpresa desagradável.

- Não quero só escapar - explica Osterhaus. - Oh, não. Quero escapar com uma fortuna grande o suficiente para comprar uma ilha e com dinheiro de sobra para o resto do meus dias.

- Ah - faz Erwin, parecendo a Levi que ele compreendera. - O que torna isto um negócio.

- Para mim, pelo menos - continua Osterhaus. - Não sou o único que está desesperado para se certificar que o seu passado se mantém no passado. Esta guerra tornou muita gente rica para além do compreensível, mas duvido que os seus compatriotas apreciem exactamente como é que isso aconteceu.

- Não podes estar a falar a sério - rosna Levi assim que entende o que o homem quer. - Não podes achar sinceramente que alguém iria ajudar cabrões como tu a safarem-se das merdas que fizeram.

- Levi - diz Erwin, um tom de aviso na voz.

Osterhaus volta-se para olhar para Levi, os olhos pequeninos franzindo-se ainda mais enquanto procuram algo nas suas feições antes de rir. - Claro - declara. - Sabes, sempre lhes disse que nunca se iriam livrar de todos vocês. Disse-lhes que há sempre um rato demasiado esperto para a ratoeira.

Levi cerra os dentes quando Erwin fala: - Então os seus conhecidos pagam-lhe uma quantia considerável e em troca envia-los para mim, e eu faço o meu melhor para lhes garantir uma saída do Reich - clarifica ele. - E eu, em troca, tenho os seus votos de silêncio sobre aquilo que sabe.

- Votos esses em que pode confiar durante todo o tempo em que eu ainda esteja deste lado do Atlântico - acrescenta Osterhaus. - No entretanto, eu deixo-o continuar a jogar este jogo aqui. Deus sabe que já perdemos esta guerra quer você continue ou não. Vou fazer o meu melhor para o manter em Dresden durante o máximo de tempo que conseguir, para nosso benefício mútuo.

- Estou a ver - responde Erwin, o olhar severo. - Assumo que me vai deixar os detalhes quanto ao realojamento.

- Conheço alguém em Genebra - diz Osterhaus. - É o máximo até onde os consigo levar sem assistência.

- Sob o pretexto de umas férias? - supõe Erwin, respondendo ao aceno do Generalleutnant com um igual. - Essa é a melhor abordagem.

- E você vai ajudá-los a atravessar França e a embarcar num navio rumo a oeste - declara Osterhaus. - Toda a gente ganha.

- Mesmo aqueles que não merecem - murmura Erwin. - Bem, não estou a ver a utilidade de desperdiçarmos tempo a fingir que eu tenho outra opção além de aceitar. Ainda que eu tenha um pedido, como mencionei antes.

- Qual é?

- Que concordar com este esquema vá colocar um fim a quaisquer mais investigações à minha vida da sua parte - diz Erwin. - Tanto quanto lhe diga respeito, eu sou o único operativo em Dresden, ou que resta no Reich. Quaisquer cúmplices que eu tenha ou não tenha não vão ser procurados, as suas identidades não vão ser reveladas e em nenhuma circunstância serão trazidos para isto. A companhia presente incluída.

Osterhaus atira um relance de escárnio a Levi. - E se eu recusar?

- Nesse caso, vejo que tem três hipóteses - responde Erwin. - Os americanos, os britânicos e os russos. Ainda que no final, vá sem dúvida ser resumido a quem o apanha primeiro.

Os olhos de Osterhaus saltitam pelos dois por um momento antes de ele suspirar.

- Muito bem - concorda, arrastando as palavras. - De qualquer forma, não vale a pena complicarmos mais isto. Eu vou guardar o resto dos seus segredos.

- Então temos um acordo - declara Erwin, levantando-se. - Devo insistir para que ache a porta sozinho.

Osterhaus olha para Erwin por um momento antes de troçar desdenhosamente e levantar-se também. - Como desejar, Herr Sturmbannführer - diz, voltando a realçar o título. - Vou contactá-lo em breve.

No momento em que ouve a porta a bater Levi levanta-se num salto, mal reparando em Erwin a enterrar-se no sofá enquanto ele corre para a entrada para puxar do armário umas malas de viagem do homem antes de se apressar em direcção ao quarto. Abre a porta do armário e começa a atirar as roupas do homem para as malas, dobrando-as desajeitadamente umas sobre as outras.

- Podes contactar o Mike hoje à noite, não podes? - pergunta a Erwin, que ainda estava sentado no sofá, a cara enterrada nas mãos. - Ficas connosco até vocês os dois conseguirem arranjar alguma coisa.

- Levi... - começa Erwin, mas Levi interrompe-lo.

- Eu sei - diz, colocando um par de botas sobre a pilha de calças. - Ele provavelmente tem alguém a vigiar a casa. Mas podemos usar as caves. As caves desta secção estão ligadas por portas, podemos atravessar a rua toda através delas e se alguém ainda estiver a seguir eu posso despista-los pelo caminho. Eu sei que consigo.

- Levi, pára.

- Quanto tempo é que o Mike vai demorar a chegar cá? - continua Levi, mal ouvindo as objecções de Erwin. - Eu sei que ele vai conseguir tirar-te daqui. Para a base, ou onde seja. Podes juntar-te às tropas em França-

- Eu não me vou embora - declara Erwin baixinho, apoiando as mãos nos joelhos; Levi consegue ver relances do homem a olhar para ele com a expressão franzida enquanto Levi corre pelo quarto. - Levi-

- Eu sei - repete ele, a voz a ficar rouca. - Não te devias preocupar. Nós vamos ficar bem aqui. Já nos safámos até aqui, não foi? Quão pior pode ficar esta merda?

- Não me ouviste? - pergunta Erwin, levantando a voz ao levantar-se do sofá e entrar no quarto. - Eu disse que não me vou embora.

- Sim, vais - insiste Levi, ainda que as palavras façam as suas entranhas contorcerem-se dolorosamente, como se uma mão se tivesse cerrado à volta dos seus órgãos. - As pessoas sabem que odeias aquele cabrão nazi, se o matares agora vão apanhar-te de certeza. E não é menos arriscado se for eu a fazê-lo. Basta uma pessoa ver-me e conseguem rastrear tudo de volta a ti.

- Não vou matar o Osterhaus - diz-lhe Erwin, olhar franzido atirado a Levi enquanto este dobra uma das suas camisas na mala, mas sem interferir.

- Eu sei - repete Levi de novo. - É demasiado arriscado. Por isso é que tens de ir embora.

- Não, Levi - recusa Erwin, marchando em direcção à cama e fechando a mala com um estalo. - Vou fazer exactamente o que ele me disser.

Levi resfolega, puxando a outra mala pela cama e começando a enchê-la com os conteúdos da gaveta das meias de Erwin até o homem avançar para ele, prendendo-lhe os pulsos e forçando-o a olhar para ele. Levi franze a testa perante a severidade na expressão do homem, e por um momento questiona-se o que o abalara tanto ao ponto de não o deixar pensar claramente.

- Pára com isto - diz-lhe Erwin severamente, aproximando o rosto do dele. - Estou a falar a sério, Levi. Vou ficar em Dresden e fazer exactamente o que prometi ao Osterhaus que faria.

Erwin solta os pulsos de Levi e enfia as mãos com raiva nos bolsos para acender um cigarro, que fuma tremulamente enquanto Levi olha para ele, sobrolho franzido ao tentar perceber que plano B Erwin planeara. Vai entregar aquelas pessoas nas mãos das forças Aliadas em França? Vai contactar alguém em Genebra para começar a cavar uma colecção de covas nalguma floresta perto da fronteira? No entanto, ao absorver a raiva e a desilusão no rosto de Erwin, Levi começa a perceber que o homem está a falar a verdade.

- Estás a brincar - diz baixinho, desejando que Erwin acenasse e sorrisse e concordasse mas sabendo que ele não o ia fazer. - Não podes estar mesmo a pensar nisso.

- Não estou - diz-lhe Erwin, expirando uma nuvem de fumo. - Já está decidido.

- Perdeste a cabeça, caralho? - rosna Levi, a calma da sua voz tornando-se de repente em fúria. - Estás a perceber o que me estás a pedir para fazer? Tu compreendes o que estas pessoas fizeram? A pessoas inocentes! A pessoas como-

- Eu sei muito melhor do que tu o que estas pessoas fizeram - atira-lhe Erwin, a voz baixa mas ríspida. - Não preciso de uma palestra tua sobre o uso de trabalho forçado neste país. Ou sobre que tema for.

Levi range os dentes para não começar a gritar. - Não fales comigo como se eu fosse idiota, caralho - sibila em vez disso. - E se achas que estás a ficar aqui para me ajudar, não te dês ao trabalho. Eu não preciso da tua ajuda e não a quero. Não assim.

- Não estou a ficar aqui para te ajudar, Levi - diz-lhe Erwin, apagando o cigarro ainda que mal tenha fumado metade.

- Então estás a ficar porquê, caralho? - pergunta Levi, uma nota de desespero a atravessar-lhe a voz. - Porque é que haverias de fazer uma coisa-

- Abdiquei de dez anos da minha vida por isto - sussurra Erwin, parecendo mais zangado a Levi do que alguma vez o vira. - Tudo o que a minha vida podia ter sido. Dez anos sem ver a minha família. Dez anos a fingir que sou outra pessoa. Não pude ir ao funeral do meu próprio pai. - Fica em silêncio, passando a mão pelo cabelo em frustração. - Achas sinceramente que eu considero isto uma boa vida, o que tive aqui todos estes anos? Achas mesmo que esta era a vida que eu queria?

- Então vais fazê-lo só para ver como é que isto tudo acaba? - atira-lhe Levi. - Ajudar cabrões de criminosos de guerra a fugirem à justiça só para que tu possas ter merda de paz de espírito, caralho? - O homem fica calado e Levi sente uma raiva incrédula a rasgar-lhe o peito. - Foda-se, não acredito que sejas tão egoísta.

Erwin dá uma gargalhada baixa, vazia e amarga e sem humor. - Estás a dizer que preferias que te dissesse que ficava aqui para vos manter a salvo? Foste tu que quiseste que a nossa relação fosse estritamente profissional. Ou já te esqueceste tão depressa?

As palavras deixam Levi sem fala ao lembrar-se de repente qual era a sua intenção antes, pedir desculpa a Erwin pelo que dissera, dizer-lhe que não sabe o que sente mas que sente, algo forte e novo e confuso, algo que ele não sabe descrever. Ao olhar para o homem agora, para a sua expressão que parece tão trocista de repente, Levi parece esquecer-se do porquê de lhe querer dizer fosse o que fosse. É como se de repente tudo o que acha que conhece sobre Erwin - e o que é mesmo, afinal? Um primeiro nome e alguns fragmentos de uma língua que não compreende - foram substituídos por todas as coisas que nunca pensou que o homem fosse capaz de cometer.

- Vai para o caralho - diz ao homem num sussurro, saindo do quarto.

Levi consegue ouvir Erwin chamá-lo quando abre a porta, mas não pára, não quer ouvir o que quer que seja que o homem pudesse dizer-lhe agora, nem nenhuma forma de desculpa que ele tenha guardada - e ele tem bastantes, Levi já sabe, Erwin é um perito no que toca a desculpar-se.

Parece que cada passo que dá a atravessar a cidade de regresso o faz esquecer-se de outra coisa boa do homem, todas aquelas palavras amáveis e perguntas atenciosas, os favores que nunca esperara que Levi retribuísse, a privacidade que permitira Levi manter. Quando chega a casa, Levi voltara a amaldiçoar o dia em que se tinham conhecido, e a desejar que aquela merda daquele plano ridículo de trepar por aquela janela aberta nunca lhe tivesse ocorrido.

- O que se passa contigo? - pergunta-lhe Farlan quando se atira para o sofá e pressiona as palmas das mãos contra os olhos. - E porque é que voltaste tão cedo?

- Não te diz respeito, caralho - atira Levi ao outro homem, cuja expressão azeda.

- Oh, como eu gostava que não dissesse - resmunga Farlan, regressando à sua escrita quando Levi fica num silêncio carrancudo.

O jantar dessa noite é uma ocasião sem qualquer alegria; a raiva e a desilusão de Levi parecem envenenar o ar da cozinha, fazendo com que até Isabel ficasse calada e triste. Farlan, no entanto, parece irritado em vez de desanimado, a julgar pelos punhais que atira com os olhos a Levi e pelas perguntas incessantes que faz sobre Erwin e que Levi nem sequer se digna a ouvir até o homem agarrar no prato meio vazio de Levi e o atirar para o lava loiça.

- Eu ainda não tinha acabado! - atira Levi a Farlan, que cruza os braços à frente do peito. - Achas que podemos desperdiçar comida assim?!

- Eu não quero saber da merda das tuas batatas, Levi! - grita-lhe Farlan de volta enquanto Isabel tapa os ouvidos com as mãos. - O raios se passa contigo, caralho?! Porque é que não queres falar comigo sobre isto?!

- Sobre o quê? - pergunta Levi, levantando-se. - Porque é que achas que tudo na minha vida te diz respeito?! Eu é que não tenho culpa que tu estejas tão farto da tua, caralho!

- Porque é que não te deixas ser feliz, seu monte de merda miserável?! - grita Farlan, as faces a ficar vermelhas de raiva. - Porque é que não deixas os outros fazerem-te feliz?!

- Não é assim tão simples! - responde Levi antes de sair disparado da cozinha e do apartamento.

Caminha em direcção ao rio, tentando encontrar uma forma de esmagar todas as suas frustrações sob a solas dos sapatos. Que direito é que Farlan tem de chegar e dizer-lhe como é que deve viver a vida? O que é assim tão bom na forma como o homem vivera a sua vida para ter direito de dar palestras aos outros sobre o tema? Levi pensa em Erwin, pensa em todas aquelas palavras amargas que tinham dito um ao outro, e apetece-lhe gritar ao céu da noite, a Deus, às águas escuras do Elba, gritar até todo aquele ressentimento e insatisfação desaparecerem.

Levi pensa naquelas pessoas que Erwin vai ajudar, imagina as coisas que eles fizeram, e sente-se traído; depois de tudo o que tinham feito juntos, depois de tudo o que Levi dissera ao homem, Erwin ainda não compreende - ou pior, não quer saber. Não tinha ele visto ao que as suas vidas tinham sido reduzidas? Não tinha ele visto o estado em que estão, Farlan e Isabel também? Se ia ajudar alguém, porque não eles? Levi não quer acreditar, nunca poderia ter acreditado antes, que o homem apenas não o fizera porque não ia ganhar nada com isso.

.

Senta-se perto do rio até se acalmar, pedindo desculpa a Isabel e a Farlan quando regressa. Daí para a frente consegue esconder a pior parte até o pior passar, grato ainda assim que Farlan tenha parado com as perguntas sobre Erwin mesmo quando Levi não vai ter com ele na semana seguinte. Não demora muito para Levi se relembrar do vazio da sua vida de antes e do porquê de ter perdido todo o interesse nela. Na ausência de algo melhor para fazer, limpa o apartamento compulsivamente, caçando cada grão de pó assim que o vê; parece que é toda a vida que lhe resta. Em alguns dias, parece que é tudo o que lhe resta de si próprio.

Sem nada para fazer, Levi não se cansa, ficando acordado na cama mais de metade da noite, pensando em Erwin e em quão grande parte da sua vida o homem passara a ocupar. Parece que sem Erwin não resta mais nada, nada de significativo, só tarefas sem sentido para preencher os dias que se tornam todos tão iguais que Levi mal os consegue distinguir. Revive todas as suas missões nos seus sonhos, ainda que cada noite se tornem cada vez menos parecidas com o que foram realmente, até que finalmente Erwin está sozinho, sem Levi para ser a sua máscara, sem Levi para ficar de vigia, e quando as coisas correm mal Levi acorda em sobressalto, coberto de suor. No final, as preocupações não o abandonam mesmo quando está acordado; pergunta-se o quão perigoso aquilo realmente é, o que Osterhaus exige que Erwin faça, se a vida do homem está em perigo constante, se haverá algo que Levi possa fazer para o prevenir.

Após não ver o homem por uma semana e meia, Levi preenche sua terça-feira com qualquer tarefa que se consegue lembrar para ocupar o tempo e a mente, juntando-se a Farlan e Isabel quando eles vão às compras. Fica a ouvir as mulheres nas filas a queixarem-se dos preços, cerrando os dentes para não gritar com Farlan quando este começa a fazer o mesmo no final do dia. Estão a ficar sem dinheiro outra vez agora que Levi não trabalha, e só por essa razão ele sabe que vai ter de voltar. Tenta imaginar a situação, bater à porta de Erwin, o homem a abrir e a olhar de cima para Levi friamente antes de... o quê? O mandar embora? Dizer-lhe que há roupa suja à espera no quarto? Levi interroga-se se Erwin é o tipo de pessoa de guardar rancor, mais há simplesmente demasiado que não sabe sobre o homem para que ele saiba de certeza. Ainda assim, Levi querer acreditar que não é.

Levi acorda cedo na quinta-feira, tendo-se decidido em regressar ao apartamento do homem. O que ainda não decidira, no entanto, era o que ia fazer quando lá chegasse. Deveria pedir desculpa, pedir a Erwin para se explicar, tentar ver a situação do ponto de vista dele, tentar compreender de alguma forma? Levi pergunta-se se seria capaz, mas no final não parece que seja essa a sua maior preocupação. Erwin pode não estar em casa, assumindo que Levi não iria. Pode não querer ver Levi, mesmo que esteja em casa. Passa a maior parte do dia a limpar o pó dos livros na prateleira para manter as mãos ocupadas, parando apenas quando a tarefa está terminada pouco depois do meio dia.

- Há uma carta para ti - diz-lhe Farlan quando entra na cozinha para beber um copo de água, parecendo tão surpreendido como Levi ao entregar-lhe um envelope.

Levi olha para o papel dobrado, o nome L. Weller e a sua morada escritos com letras grandes e claras a lápis. Não há nome ou morada do remetente e Levi pergunta-se se Erwin também se arrependia das suas palavras e da contínua ausência de Levi. Rasga o topo do envelope, retirando uma única folha de papel dobrada ao meio que começa: Minha mais querida. Levi franze o sobrolho perante o tratamento, mas continua a ler:

Uma tristeza caiu sobre a minha vida agora que não estamos juntos. Penso em ti todos os dias. Acreditas? A minha vida parece mais vazia, mesmo estando sempre ocupado por estes dias. Não posso dizer-te onde estou, eles proibiram dizer o que fosse a esse respeito nas cartas.

À noite é quando penso mais em ti, ou quando vejo uma daquelas enfermeiras bonitas a passar. Lembro-me de como é o teu corpo. É como se as minhas mãos tivessem memória própria. Consigo sentir o teu buraco escorregadio à volta dos meus dedos. Os rapazes da Secção do Correio estão provavelmente a ler isto e a rir, mas eu não quero saber. Sonho com o teu sabor na minha língua.

Os olhos de Levi saltam para o fim da página quando a compreensão nauseante começa por fim a preenchê-lo, confirmada pela assinatura sublinhada abaixo das palavras fielmente teu. Nunca chamara o homem pelo primeiro nome mas conhece-lo, sente o sabor acre na boca ao lê-lo antes de fechar o punho à volta da carta, reduzindo-a a uma bola amachucada e a atirar para o fogo que aquece o fogão.

- Más notícias? - pergunta-lhe Farlan, parecendo curioso e confuso, e Levi abana a cabeça. - De quem era? Do Erwin?

- Não - responde Levi, respirando fundo. - Não é nada com que te tenhas de preocupar.

Farlan faz um ruído de concordância, parecendo simultaneamente irritado e sabichão. - O teu outro amigo, então - diz, fazendo Levi estremecer e ficar calado.

A carta ainda está na mente de Levi quando sai do apartamento, sobrepondo-se até ao seu nervosismo de voltar a ver Erwin. Mas que merda estaria Krieger a pensar, enviar-lhe uma carta daquelas? Claramente perdera a pouca noção que ainda tinha, se é que alguma vez tivera de todo. Aperceber-se que o homem ainda considera aquilo que eles tinham como alguma forma sórdida de romance deixa Levi enojado, trazendo de volta todos aqueles momentos em que Krieger lhe confessava o seu amor, deitado em cima ele, pesado, sem fôlego e revoltante.

A carta tolda-lhe de tal forma a mente que Levi não repara que está a ser seguido até virar a rua principal para um ruela tranquila onde os passos a caírem atrás de si finalmente lhe chamam a atenção. Olha rapidamente de relance para os dois homens, encolhendo-se perante os seus uniformes cinzentos escuros e lutando para manter os passos firmes apesar do nervosismo que começa a sentir.

Tenta decidir o que devia fazer; os homens não o chamam ou parecem de alguma forma prestes a mandá-lo parar e Levi pergunta-se se começar a correr agora só iria fazê-los marcá-lo ainda mais. Talvez estejam apenas a ir na mesma direcção. Levi olha de novo sobre o ombro ao virar para uma pequena rua residencial; os homens estão a falar um com o outro, olhando para ele o tempo todo mas ainda sem o chamarem ou pararem, o que faz Levi decidir o que fazer.

Mantém a velocidade normal do passo ao atravessar a rua, continuando na direcção do apartamento de Erwin; pensa que consegue sentir os olhos dos homens nas suas costas e enfia as mãos nos bolsos, perguntando-se se deveria estar feliz ou não por não trazer nada com que se defender. Parece-lhe que eles estão a tentar arranjar uma desculpa para o pararem, e Levi está determinado em não lhes arranjar nenhuma, ainda que o cérebro frenético lhe esteja a enviar sinais para os pés se apressarem e começarem a correr. Na parte de trás da mente, Levi pergunta-se se o seu truque de antes funcionaria uma segunda vez, vendo a janela aberta acima do muro de jardim quando vira na esquina e vê a rua que leva ao prédio de Erwin, mas a velha carroça que usara para alcançar o cimo da parede já lá não está, e Levi continua a andar com os dois homens da Gestapo a persegui-lo. Parecem estar a acelerar o passo agora e Levi consegue ouvir as vozes abafadas enquanto discutem um com o outro, sempre a encurtar a distância entre eles e Levi.

- Ele vai para aquele prédio, olha - diz um dos homens, a voz de repente mais alta do que antes, e Levi começa a caminhar para os degraus de pedra da entrada do prédio. - Se o vais fazer, é agora.

- Desculpe - o outro homem chama-lo então, fazendo Levi parar, a mão na maçaneta da porta. - Você aí. Páre.

- Eu? - pergunta Levi, o coração a bater desenfreadamente no peito ao voltar-se para trás.

- Sim - o mais alto dos dois homens diz-lhe; ainda tem uma série de borbulhas na cara. - Temos de ver os seus papéis, por favor.

Levi pragueja na sua mente mas sabe que não tem outra escolha a não ser obedecer, cerrando os sobrolhos numa expressão confusa ao levar a mão ao bolso.

- Porquê? - pergunta, tentando soar tão educado quanto consegue.

- Não temos de dar uma razão - diz-lhe o outro homem, aproximando-se do seu colega para espreitar os papéis, apontando para algo que ambos sussurram entre si.

- Vai demorar muito? - pergunta Levi agora. - Vou atrasar-me para o trabalho.

O homem alto olha para ele de relance rapidamente antes de guardar os documentos no bolso. - Receio que tenha de nos acompanhar, senhor - declara com naturalidade, aproximando-se para agarrar no braço de Levi.

- Porquê? - pergunta Levi, recuando instintivamente para longe do seu alcance, as costas a bater contra a porta enquanto os dois homens avançam.

- Já lhe disse - repete o outro homem, avançando e agarrando o cotovelo de Levi. - Não temos de dar quaisquer explicações.

- Estou a ser acusado de alguma coisa? - continua Levi ainda assim; pergunta-se como é que alguém inocente se comportaria uma situação destas, como é que se sentiriam, e só consegue desejar que esteja a fingir devidamente. - Fiz alguma coisa de errado?

- Venha sem barafustar - diz-lhe o homem mais alto enquanto o colega começa a trazer Levi escada abaixo. - Só o vamos levar para o quartel para fazer umas perguntas.

- Perguntas sobre o quê? - insiste Levi, perguntando-se se é a coisa cerca a fazer, se estará a exagerar, perguntando-se se deveria puxar o braço para longe do homem e começar a correr; já não há como fingir-se inocente depois disso.

- Páre de perguntar - diz-lhe o homem que o está a segurar e ele obedece, deixando o homem guiá-lo para uma rua mais movimentada onde as pessoas se afastam para os deixar passar, fazendo de conta que não reparam.

Levi acompanha o passo rápido do homem da Gestapo, lutando para respirar e conseguir manter a mente tão afastada quanto possível do medo que agora lhe está a prender o corpo. O peito parece amarrado, como se um cinto tivesse sido firmemente preso à volta dele, impedindo os pulmões de se expandirem; consegue sentir suor frio a cair pela nuca; os dedos começam a formigar e depois ficam dormentes quando as palmas das mãos começam a transpirar também.

Olha para o homem que o está a agarrar, tentando focar-se nos poucos pedaços de informação que consegue reunir sobre a sua situação. Os homens são jovens, de baixa patente; não parecem saber o que estão a fazer. Tanto quanto Levi consegue perceber, dificilmente é assim que a Gestapo trata de capturas. Se sabem quem ele é, se sabem sem fazerem perguntas, não teriam ido a sua casa, como já ouvira dizer que acontece com outras pessoas? Será mesmo o protocolo perseguir alguém pela cidade só para o interrogar? Volta a pensar na situação, nas palavras do homem "se o vais fazer, é agora" a soarem uma e outra vez na sua mente. Não terão eles a certeza se Levi é um suspeito?

Devia ter ido à porta de Erwin; idiotas novos e inexperientes como estes teriam cagado as calças ao serem mandados dar uma volta por um oficial das SS. Mas eles também podiam estar a fingir, para baixarem a guarda de Levi para a altura em que fosse questionado. Seriam pessoas como eles capazes disso? Seria a Gestapo assim tão astuta? Se soubessem mesmo, seria Erwin capaz de se livrar da situação só com palavras, por ter mantido um judeu contratado por meses sem se ter apercebido disso? Levi duvida, e parece que uma grande parte do sucesso de Erwin se ter mantido sob uma identidade falsa se deve a ele não ter chamado a atenção. Osterhaus olhara com mais atenção e encontrara mais do que uma coisa para questionar a história de Erwin, e outros com certeza encontrariam também. Mas não iriam propor acordos obscuros; uma imagem do corpo de Erwin a cair contra uma parede de tijolo enquanto uma dúzia de balas lhe atravessavam o peito surge na mente de Levi, e de repente não se arrepende da sua decisão, ainda que cada passo que dá pareça levá-lo para mais perto de uma morte certa.

Levi tenta concentrar-se de novo naquilo que sabe enquanto continuam a andar. Ninguém está à procura de Lukas Weller, nem de Levi Ackerman; a Gestapo quer Theodore Mertz, o rato judeu que os humilhou ao escapar-se mesmo debaixo dos seus narizes. A descrição de Theodore Mertz deve existir num ficheiro algures, uma descrição que encaixa na perfeição em Levi. Será isso? Aquele outro espião, Darlett, dissera que estavam a tratar disso, do problema de Theodore Mertz. Não teriam conseguido resolvê-lo? Seria isso? E no interrogatório, o que iriam perguntar? O que ganhariam eles ao perguntar-lhe se ele era Theodore Mertz? Claro que ele ia negar, mas quem não o faria? A Gestapo usa tortura? Levi pensa que muito provavelmente sim. Devem obter confissões à pancada - quem é que confessaria de outra forma, sabendo ou sequer suspeitando o que lhes iria acontecer depois?

Continuam a andar, afastando-se da cidade velha, perto do Großer Garten. Levi tenta continuar a relembrar-se que os homens que o escoltam não sabem de nada com certeza absoluta, que desde que continue a negar o que quer que seja que o vão acusar ele ainda tem uma hipótese, por pequena que seja. E então se ele corresponde à descrição de alguém que a Gestapo está à procura? Com certeza muita gente corresponde a muitas descrições e não os prendem e mandam para longe. Erwin ainda podia chegar e tirá-lo dali - talvez tivesse ouvido a conversa nas escadas, talvez tivesse ouvido através da janela aberta. Mas há um desconforto na parte de trás da mente de Levi; mesmo que Erwin pudesse ajudá-lo, como é que sabe que ele vai querer fazê-lo, depois daquela última vez? Não vai arriscar o seu disfarce por causa de Levi, não está aqui para fazer isso, já não, se é que alguma vez estivera por esse motivo.

Avançam na direcção da estação de comboios central, chegando por fim a um grande prédio de seis andares que se ergue do outro lado da estrada; o quartel general da Gestapo. Homens de uniforme entram e saem e a Levi parece que os transeuntes aceleram o passo na sombra do edifício. O homem que ainda o está a agarrar guia-lo pelas escadas acima e através da porta, fazendo-o sentar-se num banco de madeira perto da entrada enquanto o seu colega mais alto desaparece no interior do edifício. Ficam à espera assim por algum tempo até o homem regressar e Levi é levantado de novo e conduzido por um corredor e até uma pequena sala com nada no interior excepto uma mesa e duas cadeiras no centro.

- Sente-se - diz-lhe o homem mais alto calmamente antes de se retirarem. - Alguém vem ter consigo não tarda.

Levi consegue acenar com a cabeça antes de a porta se fechar; não se ouve barulho de uma chave a trancar, e de imediato Levi começa a pensar se poderia sair simplesmente - passo rápido, mas tão calmo como sempre - até a voz da razão o trespassar. Sair do quartel general da Gestapo, confiar na sua sorte questionável para safar-se daqui vivo? Olha à volta da sala; as paredes têm paneis de madeira e papel de parede cor de vinho e com um padrão decorativo. Não é o que esperara, mas também não o faz sentir-se melhor enquanto caminha à volta da mesa, olhando de vez em quando para a porta, sabendo que deveria estar sentado e aparentar estar mais calmo, mais inocente, mais como se isto fosse tudo apenas um grande mal entendido.

Parece passar-se muito tempo, apesar de Levi perder a noção do tempo enquanto anda de uma parede à outra a pequena sala, ouvindo os passos que se aproximam da porta e perguntando-se de todas as vezes se será desta que alguém vai entrar, mas ninguém o faz. Começa a ficar com sede e por um momento fica quase grato por isso, como o desconforto físico se sobrepõe à ansiedade que lhe grita na mente, mas passado algum tempo perde o seu poder e só consegue deixá-lo ainda mais nervoso.

Quando ouve por fim vozes abafadas do lado de fora da porta, Levi apressa-se a sentar-se na cadeira, tentando parecer que estivera lá o tempo todo quando a porta se escancara. O homem que entra está a envergar um uniforme sem o casaco, carregando um maço de pastas na mão; Levi calcula que ele esteja nos quarenta a julgar pelos cabelos grisalhos nas têmporas. Senta-se do outro lado da mesa, abrindo a primeira pasta após lamber a ponta do polegar e do indicador; as mãos são invulgarmente grandes, os dedos ossudos e frágeis, os nós dos dedos sobressaídos sob a pele.

- Ocorreu um incidente no dia 19 de Abril deste ano, - começa o homem numa voz firme - no decorrer do qual uma patrulha da Gestapo abordou um homem na rua perto da Frauenkirche por volta do meio dia. Após ser questionado, o homem fugiu a pé e permanece em fuga. - Faz uma pausa, olhando para Levi e apoiando os cotovelos contra a mesa. - Sabe de alguma coisa sobre este incidente?

Levi demora um momento a franzir o rosto e a abanar a cabeça. - Não - responde, mantendo a voz firme apesar do arrepio que lhe corre a espinha. - Não sei nada sobre o assunto.

O homem olha para ele por um momento em silêncio antes de prosseguir: - O oficial presente nesse dia deu a seguinte descrição do agressor - continua de forma tão imparcial como antes, virando as páginas à sua frente: - Cento e sessenta centímetros de altura, por volta dos sessenta quilos, outros identificadores cabelo e olhos escuros, de fraca estatura. Reconhece?

Levi engole em seco. - Agora que o diz, parece-se um pouco comigo.

- Um pouco - repete o homem baixinho, fechando a pasta. - O homem em questão é suspeito de ser um judeu a viver sob documentos falsos aqui em Dresden.

- Eu não sei nada sobre isso - apressa-se Levi a declarar, tentando parecer adequadamente horrorizado.

- Não? - pergunta-lhe o homem, e ele abana a cabeça. - O nome Theodore Mertz soa-lhe familiar?

- Não - responde Levi de imediato. - Nunca ouvi esse nome na minha vida.

- Quando é que chegou a Dresden? - pergunta o homem de repente, e Levi interroga-se se ele está a tentar confundir-lhe o raciocínio.

- Em 1929 - responde Levi rapidamente. - Posso perguntar, senhor... Não pensa que eu seja esse Theodore Mertz, pois não?

- Não lhe interessa o que eu penso - atira a Levi, irritado. - Onde vivia antes?

- Berlim - responde Levi. - Na Thüringer Straße em Neukölln.

- E onde-

A questão do homem é interrompida por uma batida na porta, seguida da cabeça de uma jovem mulher com um vestido e um casaco verde-floresta a espreitar para dentro.

- Desculpe, senhor - diz ela baixinho. - Tem uma chamada.

O homem parece irritado ao dizer: - Diga-lhes para esperar. Estou ocupado.

- Tentei, senhor, mas eles disseram que era urgente - responde-lhe ela, o olhar nunca se aproximando de Levi. - É de Berlim.

O homem mostra os dentes por um momento antes de pegar na pilha de ficheiros e se levantar. Pára à porta e Levi consegue vê-lo a falar com o homem que o capturou, passando os papéis para o tipo alto e retirando uma folha, colocando-a no topo da pilha.

- Confirmem se ele corresponde, façam-no assinar isto e levem-no para a cela - diz ele, já a voltar-se de costas quando o jovem diz:

- Senhor - murmura ele, parecendo nervoso. - Como devemos, exactamente, saber se ele é um-

- Jesus Cristo - resmunga o homem. - Analisem-no. Se ele for, façam-no assinar isto.

Levi sente uma onda gelada de pânico que faz a sala desfocar-se perante os olhos; pensa em pegar na cadeira e atira-la aos homens à porta e usar os pedaços quebrados como punhais na sua escapatória gloriosa e sangrenta; pensa em levantar-se e lutar para fugir da sala com as próprias mãos, enterrar os dentes na garganta de cada monte de merda da Gestapo que se intrometa entre ele e o mundo exterior. Em vez disso, fica sentado e imóvel enquanto os homens voltam a entrar na sala, fechando a porta atrás de si, e tudo o que Levi consegue pensar é que estava finalmente a chegar, o que ele temera por quase seis anos. Os homens ficam perto da porta, embrenhados numa discussão sussurrada antes de o mais alto avançar e aclarar a garganta.

- Levante-se, por favor - diz ele; Levi não consegue evitar pensar como a cortesia soa tão estranha enquanto se levanta. - E agora se puder... hã... remover as suas calças, por favor. Ou não as remova, mas antes puxe-as para baixo. Por favor.

Levi dá um passo para longe da mesa enquanto as mãos dormentes começam a lutar contra os botões das calças; olha para os dedos e pensa como é estranho como em tempos tinham sido tão hábeis nesta tarefa, fosse nas suas calças ou na de outra pessoa, e agora não parecem conseguir parar de tremer. O tempo que demora a abrir o fecho, agarrar na cintura das calças e as baixar parece demorar vários minutos. Assim que o tecido se amontoa à volta dos tornozelos, Levi sente o impulso de se cobrir com as mãos, mas a ideia de ouvir os homens à sua frente pedirem-lhe para as remover é demasiado terrível, e em vez disso deixa-las ao lado das pernas.

Quando o homem se aproxima outro passo, Levi cerra os dentes para lutar contra o sentimento de exposição total que sente. Algo nisto o faz lembrar de Krieger, mas isto é muito pior, apesar do facto de Krieger ter mais conhecimento sobre as partes mais íntimas do corpo de Levi do que qualquer outra pessoa no mundo. Consegue sentir-se a tremer e tenta parar, mas a intensidade do medo que agora o está a controlar faz com que o seu corpo deixe de responder à razão. O homem inclina-se para analisar Levi, ainda mantendo uma boa distância de meio metro entre eles; Levi não consegue olhá-lo na cara mas ouve as expirações ruidosas e o gemido baixo que o homem solta.

- Podia... - começa, olhando de relance para a cara de Levi antes de murmurar. - Não, esqueça.

O homem continua a olhar para ele durante mais dez segundos antes de endireitar a postura novamente e regressar para o colega, que ainda está à porta. Levi vê-os recomeçar uma conversa baixa que se baseia no homem que o examinara a coçar a nuca e a encolher e os ombros. O outro homem parece irritado, apontando com a mão para Levi enquanto que o alto começa a protestar.

- Eu não sei! - diz ele baixinho, fazendo o outro homem revirar os olhos. - Nunca vi uma antes. Como é que é suposto saber como é?

O outro homem puxa-o para mais perto antes de sussurrar algo que o faz afastar-se, ainda mais irritado.

- Porque é que eu tenho de o fazer outra vez? - pergunta, parecendo zangado. - Se sabes assim tanto, porque é que não és tu a ver?

O outro homem olha de relance para Levi, que ainda está simplesmente ali de pé, com as calças nos tornozelos e o pénis pequeno e flácido a espreitar por entre um monte de pêlos escuros e ásperos. Levi consegue ver a hesitação no olhar dele que se torna subitamente em determinação quando ele marcha em frente e se inclina para a frente para aproximar o rosto do nível da virilha de Levi. Vê como ele olha de lado e inclina a cabeça por um momento antes de se endireitar e atravessar a sala, dando ao colega um breve aceno com a cabeça.

- Tens a certeza? - pergunta o homem mais alto, olhando de novo para Levi quando o homem acena de novo. - Tens a certeza absoluta?

O outro homem hesita por alguns segundos antes de murmurar: - Sim. Tenho mais ou menos a certeza.

- Mais ou menos?!

- Quero dizer, tenho certeza - apressa-se a corrigir. - Tenho a certeza que é.

O homem alto fica a olhar para o outro por alguns segundos antes de se voltar para Levi. - Pode voltar a vestir-se. Obrigado - diz-lhe tão educado como antes.

- Pára de dizer 'por favor' e 'obrigado' - repreende o colega num resmungar enquanto Levi puxa as calças para cima, avançando na sua direcção e pegando-lhe no braço. - Vamos lá.

Conduzem-no para fora da sala e mais para a frente no corredor, fazendo-o descer um lance de escadas até à cave do edifício que fora recheada de pequenas celas atrás de pesadas portas de metal; Levi consegue ouvir alguém a tossir e vozes abafadas que chegam ao corredor. Sabe que deveria estar a protestar e a dizer aos seus captores que eles cometeram um erro, mas a sua boca parece paralisada pelo medo e algo ainda mais forte do que isso: desespero. Quando o homem que o conduz o empurra com força para uma das celas, um espaço despido de dimensões mais pequenas do que a casa de banho de Erwin e já ocupado por outros dois homens, a compreensão da situação em que está começa a a cair sobre Levi.

Quando a porta se fecha atrás de si, Levi mantém-se a pairar perto dela, a mente vazia e o corpo entorpecido. Olha para os outros dois homens, ambos sentados no chão de cimento, sem prestarem atenção a Levi ou um ao outro. Há um balde a um canto que fede a merda e o único pensamento coerente que Levi parece capaz de formar é o desejo que as entranhas não comecem a trabalhar agora. Senta-se perto da porta e tenta respirar, o bater do coração a tornar-se um bombear ruidoso nos ouvidos e olha para os homens de novo. Parecem ambos ser poucos anos mais velho do que ele e pela forma como estão a olhar sem expressão para o chão dá a Levi a impressão de resignação total, submissão total a um destino que já não pode ser alterado. Lentamente, como se alguma parte da sua mente ainda resistisse, Levi volta-se para olhar para o chão também.

Quando as horas começam a arrastar-se no espaço abafado, perguntas começam a formar-se na mente de Levi, vagarosamente, como se o cérebro estivesse lentamente a começar do zero. Pingam na sua consciência uma por uma, como uma torneira quebrada: Para onde os levam, aos judeus? Leste, campos, mas o que significa isso? Levi olha de relance para um dos dois homens que tem uma nódoa negra sobre o olho esquerdo. Eles ainda se dão sequer ao trabalho de os levar para outro lado? Vão só fuzilá-los ali, uma ordem de execução padrão atrás do quartel general da Gestapo? É impossível avaliar o quão provável ou improvável é. E o que fariam com o seu corpo depois? Atirá-lo para uma vala comum qualquer a alguns quilómetros da cidade?

Pela primeira vez, parece que Levi tem a oportunidade de pensar em Farlan e Isabel, e pergunta-se como irão eles reagir quando ele não regressar a casa. Irá ele tornar-se noutra coisa sobre a qual Isabel nunca fala? Irá Farlan perder a sua coragem de novo e ficar fechado em casa o dia todo? A Frau Gernhardt poderá alimentar Isabel por algum tempo - mas eles precisam dele, precisam de Levi para sobreviverem a isto. Algum deles pensaria em contactar Erwin? Será que ele os ajudaria, os esconderia algures, retirava-los do país, da Europa se fosse preciso? Levi pensa na discussão que tiverem, sobre Osterhaus dar a Erwin a escolha entre o ajudar ou enfrentar um esquadrão de fuzilamento. Porque é que Levi o chamara de egoísta? Parece tão estúpido agora. Claro que Erwin tinha as suas próprias razões para ficar, mais razões além de terminar a guerra tão depressa quanto possível. Como é que alguém faria o que ele faz sem estar envolvido pessoalmente?

De repente, Levi lembra-se de uma conversa que tinham tido há vários meses, durante a qual Levi deixara muito claro que só estava a ajudar Erwin para se ajudar a si próprio, que estava a fazer tudo para si próprio. E como isso era verdade, como era verdade desde o começo. Mal tivera consideração por outra pessoa durante meses, e ainda assim tivera o descaramento de chamar Erwin de egoísta por querer continuar a fazer o seu papel? A aceitação da sua própria hipocrisia deixa um gosto azedo na boca de Levi. Pergunta-se quais tinham sido as suas palavras de despedida a todas as pessoas da sua vida. "Vai para o caralho", fora o que dissera a Erwin; quanto a Farlan e Isabel, nem se conseguia lembrar.

Não demora muito para que Levi se sinta cansado, dormitando o que pensa terem sido algumas horas no chão de cimento, do qual o frio parece entranhar-se nos ossos, fazendo-o tremer. Tenta envolver os braços à sua volta para se manter quente e voltar a adormecer, desistindo por fim quando um dos homens começa a urinar para o balde no canto, enchendo a cela com o fedor pujante a mijo. Levi contem-se durante horas apesar de não fazer sentido, acabando por desistir e esvaziar a bexiga, tentando apontar o fluxo para o balde sem olhar directamente para ele. Começa a sentir imensa fome, mas não come de imediato quando eles finalmente lhes trazem a refeição; papas de aveia indigestas e um pedaço de pão seco com um copo de água que tem um sabor metálico e amargo.

- Estás aqui porquê? - um dos homens pergunta de repente enquanto Levi força o resto da comida pela boca antes de beber a água sofregamente.

- Não sei - responde Levi. - Então e tu?

- Não acho que importe muito, pois não? - o homem com a nódoa negra na cara interrompe; até com aquela simples questão as suas palavras soam refinadas e de classe alta. - Só vais ter paz de espírito quando parares de tentar achar uma centelha de razão na loucura deles.

Ficam todos em silêncio novamente, olhando para o chão, e Levi consegue sentir o pequeno-almoço contorcer-se no estômago. Deixa-lo nervoso; aconteça o que acontecer, não quer ter de vomitar para aquele balde. Durante um desconfortável quarto de hora, parece ser a coisa mais importante do mundo para Levi, não ter de se dobrar no canto e aproximar a cara dos dejectos dos outros. O corpo começa a doer-se e sente-se febril, como se a pele se tivesse de repente tornado demasiado sensível ao peso das roupas. Interroga-se se os homens saberão o que lhes vai acontecer, se vão ser levados, e se sim, para onde. Quer perguntar mas ao mesmo tempo não quer, pensando que não saber deva ser pior do que saber, e receando se assim não for.

Há algo anestesiante no passar lento do tempo, algo paralisante no silêncio que se prolonga na cela. Parece trancar o maxilar de Levi, e ao meio dia começa a perguntar-se se aquela mísera troca de palavras com os seus colegas de cela acontecera de todo ou se simplesmente a imaginara. Começa a sentir como se o seu corpo e mente estivessem separadas, como se um não tivesse poder sobre o outro; na obscuridade sem fim da cela Levi não sente nada, não pensa nada, como se a sua vida já não fosse sua, como se já tivesse cessado de existir. Alguém se aproxima, um soldado, e leva o homem com a nódoa negra na cara; ele não regressa.

Quando voltam pelos dois que sobraram, Levi não luta - para quê? Não há escapatória disto agora.

Levam-nos para uma fila de cerca de vinte homens - fila única, sem algemas ou qualquer tipo de correntes - para um pátio no seio dos edifícios. Há homens armados, Gestapo e SS, e mandam-nos esperar; o dia está quente, um dos mais quentes de todo o verão, e em pouco tempo estão alagados em suor. Alguém pede para ir para a sombra do edifício; o pedido dele é recusado. Levi começa a ficar com sede de novo - parece que bebeu aquele copo de água há uma vida atrás - e começa a coçar a nuca de forma quase compulsiva quando as gotas de suor começam a escorrer da cabeça e a descer sob a camisa. Ninguém fala. Conseguem ouvir o trânsito na rua atrás do edifício, um suave zumbido de vozes, o ronronar baixo de motores.

Quatro homens entram na praça; Levi reconhece os homens que o capturaram, um alto, de cabelo escuro e desengonçado, o outro encorpado e loiro. Marcham rapidamente até eles, ordenando-lhes que formem uma fila de novo; os prisioneiros obedecem rapidamente com a eficácia de soldados. Levi sente a respiração a tornar-se fraca e entrecortada quando um medo súbito e angustiante lhe assola a mente. Durante alguns segundos, tudo deixa de ser real, as pedras gastas do pátio sob os seus pés, o sol abrasador na pele. Sente-se a arfar por ar, quer cair de joelhos e implorar a alguém ou a alguma coisa para terminar com isto.

- Um passo em falso e será o vosso último - diz-lhes um oficial das SS, segurando uma arma para ênfase. - Andem.

Começam a andar, conduzidos por outro homem das SS, por umas arcadas e através do prédio à direita. Emergem para uma rua calma mas avançam rapidamente para uma mais movimentada, atravessando-a em direcção à estação de comboios. Levi olha à sua volta para as pessoas que passam por eles; mulheres de vestidos, crianças com chapéus para se protegerem do sol, rapazes de calções com suspensórios, raparigas de saia e meias até ao joelho. As crianças olham para eles até as mães repararem e os puxarem pelos braços.

Caminham pela entrada principal, passando pelas plataformas destinadas a passageiros normais e a comboios normais, até uma plataforma de carga mais à frente na linha. Não há nenhum comboio e mandam-nos esperar de novo, mas o pequeno prédio junto dos carris lança uma sombra na área onde estão. Já lá estão outros à espera, trazidos de outro lado qualquer, e várias outras dezenas chegam, a maioria homens mas também mulheres, envergando roupas de prisão, um olhar distante nos seus olhos. As filas começam a quebrar, há conversas sussurradas das quais Levi não toma parte. Sente-se tonto, os dedos estão dormentes de novo e sente comichão dos lados da cara, cheio de formigueiros pelo corpo quando o comboio chega, causando um silêncio abrupto e bizarro.

Alguém lhes ordena para ficarem em formação de novo enquanto duas mesas e duas cadeiras são trazidas e rapidamente ocupadas por homens em uniformes das SS. Começam a alinhar e a dar os seus nomes aos oficiais que os registam a todos meticulosamente em listas. Levi não consegue tirar os olhos do comboio, as portas grandes por onde todos eles são forçados a entrar, subindo por rampas como gado. Quanto mais pequena a fila à sua frente se torna, mais ofegante se torna a respiração de Levi até começar a sentir que não está a respirar de todo. Há um momento de clareza carregada de pânico quando se apercebe que não interessa se a guerra acaba, não interessa quanto tempo demore, vão matá-los a todos como prometeram, vão encontraram cada um deles e quando acabarem não vai sobrar ninguém que sequer se lembre que eles existiram. Levi sente-se enjoado, o instinto de sobrevivência a rasgar-lhe a mente, o corpo a ficar pesado e cheio de objectivo mas sem libertação; olha para as armas nas mãos dos homens da Gestapo e pergunta-se o que será submissão, ser executado aqui mesmo nesta plataforma ou entrar no comboio. O olhar corre a multidão, as mãos cerram-se em punhos enquanto ele procura por alguma coisa, alguma fuga, alguma arma. A linha à sua frente desapareceu, só há alguns homens entre ele a mesa.

E então Levi vê-lo.

Darlett está sentado atrás da mesa, vestido com o seu uniforme e segurando uma caneta, escrevendo nome atrás de nome quando os homens lhos dizem, mal lhes dispensando um olhar enquanto eles passam para entrarem no comboio. A sua expressão é desinteressada e irritada, como alguém a vender bilhetes para o eléctrico, aborrecido pela rotina tediosa do seu trabalho. Olha para cima por um momento mas não vê Levi, os olhos passam pela multidão como se se estivesse a perguntar quanto mas tempo vai ter de ficar ali. Levi estremece quando a pessoa à sua frente avança para a mesa, perguntando-se o que deve fazer, perguntando-se se alguma coisa vai fazer a diferença. Terá Erwin o enviado? Poderia fazê-lo? No segundo que Darlett demora a enviar o homem à frente de Levi para o comboio, ele toma a sua decisão.

Avança para a mesa e cai de joelhos, agarrando as mãos juntas como já vira Farlan a fazer nos seus momentos de desespero. Darlett dá um salto para trás na cadeira, parecendo irado e repudiado enquanto começam a estoirar berros atrás de Levi, ainda que para ele pareçam todos distantes e sem sentido. Alguém lhe diz para se levantar, batem-lhe na cabeça, mas Levi agarra-se à mesa, recusando-se a mover-se.

- Por favor - arqueja, olhando directamente para Darlett. - Por favor, houve um engano, eu não fiz nada! Estava a caminho do trabalho quando estes homens me pararam. Por favor, eu juro que não sou quem eles acham, eu nunca ouvi falar dessa pessoa, não sou judeu, não sou, juro-

- Levanta-te, monte de merda! - alguém grita atrás de si, agarrando-o pelo braço e puxando-o, mas Levi não larga a mesa.

- Por favor, eu juro, sou inocente! - implora pela vida. - Eu trabalho para o Sturmbannführer Holtz, eu trabalho para o Erwin Holtz! Por favor, não sou judeu, juro, não sou, eu não-

- Levanta-te, filho da put-

- Espera.

A mão solta-lhe o braço quando Darlett se inclina para mais perto.

- Disseste que trabalhas para o Erwin Holtz?

- Sim! - exclama Levi. - Sim, trabalho para o Sturmbannführer Holtz. Sou empregado dele. Por favor. - Olha de novo para Darlett, cuja performance é melhor do que Levi alguma vez teria julgado. - Por favor, eu não fiz nada de mal, não sei porque estou aqui. Só estava a caminho do trabalho quando estes homens me pararam e-

- Que homens? - pergunta-lhe Darlett, erguendo a mão quando alguém atrás de Levi tenta falar.

- Aqueles dois - diz Levi, apontando para os homens que o tinham apreendido; eles aproximam-se por ordem de Darlett, parecendo notavelmente nervosos.

- Prenderam este homem? - pergunta-lhes Darlett, e eles trocam olhares antes de acenarem.

- Ele é o Theodore Mertz - explica o loiro encorpado. - É um judeu que tem vivido sob-

- Não sou! - interrompe Levi, voltando-se para Darlatt de novo. - O meu nome é Lukas Weller. Trabalho para o Sturmbannführer Holtz, estava à porta do seu apartamento quando-

- Sim, sim, já ouvi isso - corta Darlett, voltando-se mais uma vez para os dois homens. - Porque é que suspeitam que ele seja esse Theodore Mertz?

Os homens olham um para o outro, hesitando por um momento antes de um deles resmonear: - Ele encaixa na descrição, senhor.

- Ele encaixa na descrição - repete Darlett baixinho. - Encaixa em qual descrição, exactamente? Homem pequeno de cabelo preto?

Os homens à sua frente ficam calados de novo e Darlett pragueja para si.

- Quem supervisionou a captura?

- O Kriminalkommissar Wahler-

Darlett pragueja de novo. - Da próxima vez que o virem podem dizer-lhe que se ele volta a foder tudo outra vez sou eu quem lhe ensina o significado da palavra 'interrogatório'. Pode ser? - murmura, e os homens apressam-se a acenar.

- Sim, Herr Hauptsturmführer - diz o mais alto, endireitando a postura enquanto Darlett olha de relance para Levi.

- Conduziram um interrogatório, não foi? - pergunta ele aos homens, que trocam mais um olhar.

- Bem - começa o homem mais alto. - O Kriminalkommissar Wahler começou, mas recebeu uma chamada telefónica-

- Fazem alguma ideia - interrompe-o Darlett numa voz perigosamente baixa - quanto é que a incompetência deste departamento está a custar a este país por ano? O Wahler faz alguma ideia? - Faz uma pausa para inspirar profundamente. - Vocês os dois idiotas confirmaram pelo menos se ele corresponde à descrição completa?

O homem à sua frente cora. - Refere-se a-

- Sim - diz Darlett, empurrando as palavras por entre dentes cerrados e revirando os olhos. - E enquanto respondes, por favor sabe que se Deus não me tivesse concedido duas vezes mais paciência do que concedeu a um homem comum, vocês os dois estariam a embarcar naquele comboio agora mesmo.

O rubor desaparece da cara do homem enquanto ele dá uma cotovelada ao colega, que não parece capaz de proferir uma palavra durante os primeiros segundos.

- Bem - consegue por fim. - Não tínhamos exactamente a certeza se-

- Por amor de Deus! - grita Darlett, levantando-se e dando a volta à mesa, olhando de cima para Levi. - Tu, levanta-te, e vocês os dois entreguem-me os papéis dele e o ficheiro que têm do Theodore Mertz. Têm exactamente três minutos antes que vos dê a ambos uma nova morada permanente. Compreenderam?

- Sim, Herr Hauptsturmführer - diz o homem mais alto, já a voltar-se para seguir o colega para fora da plataforma.

- Tu - atira Darlett a Levi, que se pusera de pé com esforço. - Aqui dentro.

Conduz Levi a um pequeno escritório equipado com outra secretária e um telefone sobre ela. Darlett deixa a porta entreaberta atrás deles, espreitando pela pequena janela antes de atravessar a sala e parar à frente de Levi.

- Por muito que me custe - murmura ele baixinho - é melhor que façamos isto parecer autêntico, não te parece?

Levi cerra os dentes e acena antes de puxar as calças para baixo de novo, encolhendo-se quando Darlett se curva para o examinar; parece a Levi que o homem está a contar até dez devagar na sua mente.

- Deve ser suficiente - diz ele depois de dar um suspiro cansado, olhando para trás como que para se certificar se alguém os vira por aquela fresta entre a porta e o batente. Avança até à secretária e senta-se na ponta, pegando no auscultador e marcando um número antes de dar o nome de Erwin Holtz com um 'por favor' educado no final.

Levi ouve a metade da conversa de Darlett, que parece decorrer alta o suficiente para as pessoas que passam lá fora ouvirem. Ainda está a falar quando os dois homens entram, sem nem lhes dispensar um olhar quando eles lhe entregam os documentos como requerido. Folheia-os, pressionando o auscultador contra o ouvido com o ombro enquanto os olhos correm as páginas.

- Sabes como é - diz ele, baixando a voz e olhando para a porta. - Estes cabrões da Gestapo não sabem fazer o seu trabalho. - Pára para dar uma gargalhada a algo que Erwin diz. - Sim, exactamente. Mas não te preocupes, eu envio-te o teu precioso empregado baratucho assim que as coisas estejam resolvidas aqui. - Outra pausa. - Claro que eu aceito a tua palavra, Holtz, mas não podes esperar... Sim, exactamente. Eu já o mando para aí.

Termina a chamada e marca outro número, voltando a esperar por um momento. - Riehl? É o Müller - diz por fim. - Confirma-me uma coisa. Consegues achar um Theodore Mertz nos teus registos?

O homem demora mais algumas destas chamadas até ele puxar um pedaço de papel da gaveta da secretária e escrever alguma coisa neles enquanto baixa o auscultador do telefone e chama os dois homens para o escritório, devolvendo-lhes o ficheiro; o homem alto abraça-se a ele como algum tipo de escudo.

- Bem - começa Darlett, levantando-se devagar, batendo com os papéis falsos de Levi contra a mão. - Onde devo começar? Oh, sim. A ordem de vocês os dois irem para a cidade neste momento e arranjarem um espelho.

- Um espelho, senhor?

- Sim - continua o homem. - Para que vocês os dois idiotas de merda possam olhar longa e cuidadosamente para vocês para aprenderem a diferença entre a pila de um judeu e uma normal. E depois, quero congratular-vos aos dois por serem os montes de merda mais inúteis na merda do vosso departamento. - Volta-se para pegar na folha de papel na secretária. - Theodore Mertz, verdadeiro nome Gluckstein, Yakov Israel. Apreendido em Leipzig há dois meses e transportado para Bergen-Belsen onde morreu de tifo pouco depois da sua chegada.

Os homens olham um para o outro antes de voltaram os olhos para o chão. - As nossas desculpas, Herr Hauptsturmführer - murmura o loiro encorpado enquanto Darlett bate com o punho na mesa.

- De onde é que eles continuam a arranjar idiotas inúteis como vocês?! Foda-se! - grita ele, a cara a ficar vermelha. - De alguma colónia de anormais na Polónia?! Vocês não sabem utilizar uma merda de um TELEFONE, caralho?!

Os jovens ficam calados, mudando de peso sobre os pés desconfortavelmente; Levi consegue ouvir as portas do comboio fecharem lá fora. Darlett vira-se de costas, inspirando fundo algumas vezes antes de encarar os homens de novo, mas antes de ter hipótese de falar, outro homem de uniforme das SS bate à porta e enfia a cabeça no escritório.

- O comboio está de partida, Herr Hauptsturmführer - diz ele, acenando para Levi. - E quanto a ele?

- Diz-lhes que está tudo bem - responde de forma muito mais calma, ainda que o olhar penetrante se mantenha nos jovens por algum tempo. - Erro de identidade.

O homem acena e retira-se quando Darlett pega nos documentos de Levi e lhos devolve. - Lamentamos muito pelo incómodo - diz num tom monótono. - Diga olá ao Holtz por mim, e diga-lhe que me deve uma.

Levi acena sem uma palavra e guarda os papéis falsos de novo no bolso antes de sair para a plataforma mesmo quando o comboio começa a andar. Não pensa em acelerar mesmo quando os homens que o apreenderam passam por ele à frente da estação no seu caminho de regresso ao quartel da Gestapo sem lhe atirarem sequer um olhar de relance. Consegue sentir o calor do sol na pele, agradável agora que a tarde se estava a transformar em noite. Caminha ao longo do rio, mal vendo ou ouvindo o que quer que seja enquanto avança para a Ponte Augustus e deixa os pés começarem a levarem-no para longe dela em vez de o fazerem atravessá-la a caminho de casa.

Consegue sentir a expressão pesada no rosto quando finalmente bate à porta de Erwin, e sente a mistura de agitação e dormência que a batalha para de controlar o corpo lhe provoca, fazendo com que os seus músculos fiquem tensos e os seus sentidos entorpecidos. Quando o homem abre, Levi entra sem dizer uma palavra, sem olhar para a cara de Erwin quando este fecha a porta e se agacha para olhar Levi nos olhos.

- Estás bem? - pergunta-lhe, a voz tensa. - Levi. Eles magoaram-te?

A boca de Levi não forma palavras, a língua parece inchada e paralisada. Mantém os olhos nas botas de Erwin mesmo quando ele chama o seu nome de novo, sem saber as respostas às suas perguntas, não achando as palavras. Há algo em tudo isto que o incomoda e ele tenta perceber o que é, a única coisa da qual tem a certeza neste momento, segurando a mão de Erwin na sua e conduzindo-lo para o quarto.

- Levi - chama-o Erwin, gentil e confuso. - Levi, o que estás...

Levi pára ao lado da cama, esticando as mãos para agarrar a bainha da camisa de Erwin, puxando-a para fora da cintura das calças do uniforme. Os dedos acham a ponta do cinto do homem e abrem a fivela, notando vagamente o quão mais hábeis se tinham subitamente tornado quando começa a desabotoar os botões.

- Levi - diz Erwin de novo. - Levi, não acho que esta seja a melhor altura-

Levi puxa as calças de Erwin para baixo, grato por ver que o corpo dele ainda não tinha começado a responder, e volta-se para o armário, remexendo pelas roupas que o homem dobrara bem o suficiente de novo nas suas gavetas. Encontra o que procurava ainda que não estejam onde ele as deixara; o par de calças que Erwin usara no dia que tinham passado no rio. Entrega-las ao homem sem uma palavra antes de entrar na casa de banho e preparar um banho para si, despindo-se rapidamente e sentando-se na banheira enquanto a água ainda está a correr. Deixa a água passar dos cotovelos antes de desligar a torneira, puxando os joelhos para o peito e enrolando os braços à volta deles.

Consegue ouvir Erwin a entrar na casa de banho, o peso das suas botas tornado um arrastar suave dos seus pés descalços. Não se volta para olhar mas consegue ver o vulto do homem pelo canto do olho enquanto ele avança para o armário à procura de alguma coisa, um pedaço de pano e uma caixa de lata. Puxa um pequeno banco para trás de Levi.

- Posso? - pede ele; Levi acena sem uma palavra.

Ouve Erwin a colocar a lata no chão antes de as mãos caírem suaves e quentes sobre o ombro de Levi. Inclina a cabeça de Levi para o lado, passando os dedos pelo cabelo de Levi, seguindo-os com um pente de dentes finos. Isso faz com que Levi sinta alguma coisa ficar presa na garganta, um medo que ainda não se apercebera por entre os outros mas que o faz tremer agora que o notara. Inclina-se para a mão de Erwin por um momento antes de permitir que o homem continue, que corra cada madeixa de cabelo.

Lentamente, o corpo de Levi relaxa, as pernas esticam-se na água quente que ele muda assim que começa a arrefecer, como que a seguir algum instinto enterrado na memória dos seus músculos. Olha de relance para Erwin quando o homem pousa o pente, notando no rubor das suas bochechas e o brilho de suor na cara, mas ainda sem dizer nada. Erwin sorri-lhe - um sorriso calmo como aqueles que as pessoas dão a crianças assustadas - ao pegar numa pequena toalha que mergulha na água. Levi consegue sentir aquele aroma a lavanda, mais forte agora do que alguma vez fora, e olha para trás para a espuma espessa que Erwin está a espalhar na toalha com um sabonete; alguma coisa do mercado negro, os que se arranjam com senhas de ração não faziam espuma daquelas há anos.

Levi inclina a cabeça para o lado, deixando Erwin passar a toalha pelos ombros e pescoço, sobre as clavículas e pelo peito. Inclina-se para a frente para expôr as costas, não se movendo até Erwin ter esfregado a pele até ficar vermelha. Acrescenta mais sabão e lava debaixo dos braços de Levi, esfregando os tufos suaves de pêlo antes de passar o pano sem uma palavra para Levi terminar de limpar as partes do corpo que prefere que Erwin não toque. Não se volta para ver se Erwin está a olhar; não o teria incomodado se estivesse.

Seca o corpo com uma toalha lavada e suave antes de entrar no quarto e trepar por entre os lençóis; também cheiram a lavanda, como ele cheira, e a Erwin. O homem segue-o para o quarto depois de despejar a banheira, parecendo que está prestes a sentar-se na ponta da cama antes de Levi finalmente falar.

- Podes fechar a janela? - pede, a voz um som seco e rouco.

- Claro - diz Erwin, caminhando para ela e fechando-a. - Precisas de mais alguma coisa?

- O Farlan e a Isabel - murmura Levi, pressionando a cara com mais força contra a almofada. - Eles vão ficar preocupados se eu-

- Eu vou lá e digo-lhes que estás bem - promete-lhe Erwin baixinho. - Tenta descansar.

Levi acena, puxando os cobertores sobre o ombro e suspirando, o rosto ainda franzido. Os aromas da cama estão a desaparecer demasiado depressa enquanto Levi os inspira; na altura em que ouve a porta a fechar atrás de Erwin já quase não há vestígios deles. Deita-se de costas e fica a olhar para os brilhos suaves dos candeeiros da rua no tecto, demasiado inquieto para fechar os olhos e demasiado cansado para fazer alguma coisa que não fosse ficar quieto. Não consegue pensar e mal sente o que quer que seja, imaginando em vez disso que está deitado no lado de Erwin na cama, que o corpo dele estava deitado contra o colchão, que o seu calor ainda ficara nos lençóis. Levi força o corpo a sentir-se mais pesado, a enterrar-se na cama, na cama de Erwin, como se ele fosse tão forte como Erwin, como se a força de Erwin estivesse nele.

Ainda está acordado quando o homem regressa, algures naquele ponto onde o sono e a realidade se cruzam. Levi consegue ouvi-lo mover-se no escuro, mexendo no armário com a escassa luz que entra da janela.

- Eles estavam bem? - pergunta-lhe Levi baixinho; consegue ouvir o homem assustar-se.

- Estão bem - assegura-lhe Erwin numa voz que diz a Levi que ele está a sorrir daquela forma calma como antes. - Estavam só um pouco abalados.

Levi resmunga, sem ser capaz de se focar em alguma coisa além disso. - O que estás a fazer? - pergunta a Erwin; consegue ouvir que o homem regressara à sua tarefa anterior.

- Estou a arranjar lençóis e coisas para o sofá - explica Erwin.

- Não precisas - diz Levi, virando-se para o lado e ouvindo o homem hesitar por um minuto antes de se despir. Consegue sentir o peso dele quando ele se deita na cama atrás de si e sabendo que não há nada mais que precisem de dizer, nada que precise de explicar sobre isto, Levi deixa-se adormecer.

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AVISOS:

- linguagem obscena

- ansiedade

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