Era difícil saber quem estava mais incrédulo com Sasori chamando Sakura: ela mesma ou Sasuke. A menina encolheu-se e arredou discretamente até o lado do moreno, que envolveu o braço na cintura dela para dar-lhe mais coragem. Sakura não queria ver o ruivo nunca mais. Mas infelizmente, ele era o único que possuía as respostas sobre o que acontecera no dia da festa. Estava claro que fora drogada e ainda ficou bastante bêbada, mas seu espírito não teria paz se não soubesse o que exatamente havia feito naquela cama, mesmo que tivesse certeza do que acontecera. Estava em um dilema eterno entre confrontá-lo ou sair correndo e começar a chorar até o final das aulas.
— O que diabos você está fazendo na frente dela?! — rosnou Sasuke fuzilando o garoto mais velho com os olhos.
A raiva emanada pelo Uchiha era palpável e ele não fazia nenhuma questão de escondê-la. Fechava os punhos cada vez com mais força, segurando-se para não partir para cima de Sasori, que merecia bem mais do que isso. Sakura sentiu-se mais segura perto do seu amigo ao perceber que ele estava preocupada com o seu bem estar.
— Eu preciso conversar com ela... — seu tom de voz era baixo e ele ainda não ousava olhar para a rosada, com medo do moreno ao lado dela e por vergonha.
Sakura tentou falar para ele que não tinha nada para conversar com o ruivo, mesmo que precisasse saber sobre a festa, mas ela não conseguiu abrir a boca, contudo. Sentiu-se extremamente amedrontada diante do homem que havia acabado com a sua tranquilidade.
— Eu... — Sasori iniciou com bastante hesitação. — Eu juro! Não sabia que o Deidara tinha colocado êcstasy na nossa bebida!
— Êcstasy... — murmurou a Haruno tentando assimilar.
O que fizera Sakura ficar fora de si fora êcstasy. A menina pensou nisso e muitas coisas ficaram mais claras. A vontade estranha de dançar, a sede incontrolável, hiperatividade e por fim o esquecimento. O esquecimento teria sido feito pela bebida alcoólica ou pela droga? Jamais saberia dizer.
Sasuke teve uma bizarra vontade de rir e depois socar a face do maldito mentiroso. Como não conseguiria notar a diferença entre uma pessoa drogada e normal? Permitiu-se dar apenas um sorriso de escárnio.
— Como você não conseguiu notar a diferença entre uma pessoa drogada e normal?! — indagou Sasuke tentando pegar a mentira no flagra.
— Olha cara, eu percebi que ela estava diferente, mas poxa, estávamos bebendo e em uma festa, qual o problema de ficar animado?! — exclamou dando uma risada nervosa depois de passar as mãos em seus cabelos avermelhados. — Eu não tenho convívio com a Sakura, como poderia saber se ela não era animada assim? Eu também sou vítima dessa história!
A menina arregalou os olhos e sentiu-se sufocada quando Sasori falara que também era uma vítima. Como ele ousava? Seus olhos ardiam com as lágrimas que queriam sair tanto por tristeza quanto por raiva e colocou as mãos no rosto para evitar a visão grotesca do ruivo.
— Vítima? — o Uchiha começou a rir sarcasticamente. — Como uma vítima leva uma menina para a cama bêbada?
— Eu confesso que sou um canalha e fico com diversas pessoas, mas não tenho culpa total nisso não! Ela — apontou para Sakura, que no momento ainda segurava seu rosto com a mão. — que me chamou para o quarto!
— Virgem... — murmurou Sakura. — Eu... — tentou falar, mas apenas saiam palavras soltas e desconexas para os dois garotos perto dela por estar em choque.
A palavra virgem lembrou Sasuke de que com toda a certeza o ruivo havia tirado a pureza da rosada e sentiu uma raiva ainda maior. Respirou fundo para não berrar no meio do corredor. Já havia pessoas olhando para o trio de forma curiosa, mas ninguém de fora realmente estava ouvindo a conversa direito.
— Com certeza uma garota virgem em sã consciência iria levar um homem para o quarto. — a voz do moreno tremia e Sasori engoliu em seco. — Isso é considerado um estupro, sabia?
Akasuna arregalou os olhos diante do fato que Sasuke expôs. Estupro... Isso acabaria com a vida dele, com certeza. Não conseguiria entrar em nenhuma faculdade de boa qualidade e talvez a escola o expulsaria por algo tão repugnante. O ruivo decididamente teria uma conversa séria com Deidara sobre os comprimidos e os pós de êcstasy... Mas não. Negou e negou até quando podia mentalmente. Ele não havia estuprado a garota. Talvez tivesse aproveitado que ela não estava bem da cabeça, mas jamais havia a forçado!
— Eu não a forcei. — tentou dizer firmemente, gaguejou, entretanto.
— Existem outras formas de forçar uma pessoa a não ser fisicamente. — a voz fria de Sasuke o avisou.
— Vocês não podem provar nada! — riu de nervoso. — Daisuke, você nem ao menos estava lá!
Sim. Como provariam algo do tipo? Não era possível, não haviam marcas... E nem uma prova de que naquele momento ela já estava drogada.
A paciência forçada de Sasuke esgotou com a frase do ruivo. Respirou fundo, soltou Sakura e deu um chute nas bolas do Akasuna com a maior força que conseguira. Escutou o urro de dor do rapaz a sua frente e sorriu. Mas ainda não era o suficiente. Deu uma cotovelada na bochecha direita do ruivo - que estava ocupado demais em prestar atenção nisso, visto que estava com os olhos fechados com as mãos encostadas em sua intimidade por cima da calça - que virou o rosto para o lado esquerdo no mesmo momento. Sasori gritou novamente, para a satisfação do moreno, e deu-lhe uma joelhada no estômago do ruivo, que caiu no chão.
— Daisuke... Seu... Filho da puta... — disse pausadamente devido a dor logo depois de cuspir o sangue dentro de sua boca que fora ferida pela cotovelada.
Sakura, desnorteada e em choque devido as revelações, voltou a si depois de escutar Sasuke sendo chamado de forma errônea. Não soube o porquê, mas isso a irritou, dando o pretexto para chutar o garoto.
— O nome dele é Sasuke! — dito isso chutou Sasori novamente e saiu andando juntamente com Sasuke, deixando as pessoas em volta embabascadas com o acontecido e o ruivo deitado no chão gemendo de dor.
É claro que Sasuke e Sakura foram suspensos pela diretora por terem batido em Sasori Akasuna. Sasuke tomou um sermão de seus pais mas não deu a mínima. Não havia recebido castigo algum, os dois tinham plena consciência do humor oscilante do garoto, herdado do próprio pai que havia feito coisas piores em sua adolescência conturbada. Itachi riu com gosto ao descobrir que o irmão dera uma surra em um garoto mais velho, e para o desespero de sua mãe, ficou orgulhoso do irmão e até mesmo dera uma barra de chocolate - que fora recusada, Sasuke jamais gostara de doces - para o irmão. Quanto a Sakura, fora um pouco mais difícil. Seus pais haviam ficado chocados quando foram informados pela escola que a sua pequena e doce filha havia dado dois chutes em um garoto mais velho, que fora para o hospital. Mebuki e Kisashi gritaram muito com a menina, que apenas abaixou a cabeça sem falar absolutamente nada. Exigiram saber o motivo da agressão, fazendo a herdeira dos Haruno começar a chorar e tremer compulsivamente. Decidiram que a rosada não estava nem um pouco bem psicologicamente e marcaram um psicólogo para averiguar o ataque de agressão. Por ficar completamente conturbada emocionalmente com menor que seja a menção do ocorrido, também não levou nenhum castigo.
— Eu não acredito que vocês bateram naquele bastardo sem mim! — resmungou Naruto pela milésima vez. — Eu queria ter ajudado!
Sakura limitou-se a rir da reação do loiro. No fundo, ficou feliz por saber que era tão importante para o seu melhor amigo.
— Você não precisava ter faltado de aula... Não foi suspenso. — a Haruno olhou feio para Naruto que deu um sorriso amarelo enquanto sentou-se na cadeira da mesa de jantar da casa dos Uchiha.
— Bem, eu precisava fazer uma greve da escola depois dessa merda toda, sabe como é. — riu recebendo um tapa no ombro dado pela amiga.
— Você é impossível! — resmungou a menina segurando a risada. — Amanhã você vai, querendo ou não! Preciso das anotações das matérias que perderei!
Não podia contar mais com Ino. A loira havia mandado centenas de mensagens e ligações. Ignorou todas elas. Suspirou triste ao lembrar que não tinha mais a amizade da sua primeira amiga.
— Nem vem, Sakura-chan! — choramingou Naruto. — Só volto para a escola quando você e o Teme voltarem!
Bufou com a resposta do seu amigo irresponsável e virou o olhar em direção ao moreno, que tinha as mãos cruzadas apoiadas ao queixo enquanto assistia de forma distraída o pequeno desentendimento dos seus dois amigos.
— Sasuke-kun. — olhou suplicante para o moreno. — Você... Não pode pedir alguma das suas fangirls para emprestar o caderno? Preciso mesmo das matérias!
Não queria pedir isso para o garoto, mas precisava muito das anotações. Era uma aluna deveras aplicada e não iria permitir ter o caderno incompleto, não interessa a matéria que fosse. O moreno franziu o cenho e olhou irritado para a rosada, incrédulo com o seu pedido. Ela sabia muito bem que ele odiava imensamente conversar com qualquer uma que seja das suas "admiradoras" da sua classe, pelo simples fato de serem interesseiras e incômodas.
— Não. — fora curto e grosso, entonando em sua voz de acordo com a sua insatisfação com o pedido.
— Por favor! — Sakura apelou para o seu olhar de cachorro pidão tentando deixar seus olhos cheios d'água.
Sempre funcionava com Naruto, talvez pudesse ajudar também com o Uchiha, pensava a garota. O menino ergueu a sobrancelha com a expressão cômica do rosto dela.
— Humpf! Isso não funciona comigo. — resmungou Sasuke.
— Porra Teme, pega para a Sakura-chan, olha a cara dela! Não custa nada... Eu vou chorar! — Naruto olhou para a amiga e seus olhos ficaram marejados.
O moreno e a rosada balançaram a cabeça em negação ao ver o quanto o loiro fora afetado pela expressão suplicante da menina. Naruto era manipulado muito facilmente por ser uma pessoa extremamente ingênua e bondosa.
— Droga, eu não queria pedir para o Lee... — jogou sua carta final, orando mentalmente para que desse certo.
Realmente não queria pedir para o assustador menino das sobrancelhas tão grossas quanto as do professor de Educação Física. Sakura vira uma ponta de dúvida no olhar do Uchiha e voltou a fazer uma expressão suplicante.
— Sasuke-kun! Por favor! — implorou ao moreno.
— Mas que droga! — exclamou o menino desistindo. — Como você é irritante, Sakura. Só vou te ajudar dessa vez.
A Haruno sorriu vitoriosa e cantarolou mentalmente a música "We are the champions" do Queen.
Sakura Haruno batucava os dedos nas suas pernas com nervosismo enquanto esperava a sua vez a ser chamada na sala da psicóloga Shizune. Contava com o sigilo da profissão e utilizar o tempo na sala não para tratar das "crises de agressão" que poderia ter como os pais pensavam, mas sim para tentar superar o dia da festa, que jamais saia completamente dos seus pensamentos. Conseguia, é claro, manter uma conversa com as pessoas, mas sempre tinha seus momentos de reflexão e auto depreciação, lembrando do ocorrido e que provavelmente a sala já sabia que fora para a cama com o ruivo, afinal, Ino mesmo dissera que viu os dois entrando na casa.
A menina queria muito que Sasuke e Naruto estivessem com ela no momento, mas sabia que jamais falaria tudo com eles ao seu lado. Não gostava de demonstrar fraqueza para ninguém, apenas quando era extremamente necessário. Isso a lembrara que Naruto comentou que já havia ido no psicólogo onde foi diagnosticado hiperativo. Lembrou-se das palavras que ele dissera sobre a primeira consulta e irritou-se.
"Sakura-chan, a primeira consulta não vale de nada. O psicólogo fica te entrevistando e fazendo perguntas idiotas, como sua cor favorita, seus hobbys... E acaba não perguntando nada que é do seu interesse. Não se anime, não vai ajudar de primeira."
Sabia que isso era necessário para a psicóloga saber como era a sua personalidade, costumes e coisas do tipo, mas queria passar logo para quando ela iria fazê-la seguir em frente e parar de ter pesadelos aonde acordava nua na mesma cama que o ruivo que agora não nutria uma queda e sim um enorme asco.
— Sakura querida, anime-se. — disse sua mãe ajeitando os cabelos loiros. — Tenho certeza de que a consulta irá ajudar com as suas crises.
Crises... Sakura segurou-se para não rir amargamente do comentário infeliz porém inocente de sua mãe. Se ela ao menos soubesse...
