Os vigorosos trinados de Tweety ecoavam pelo apartamento. Lily cobriu o rosto com o travesseiro, mas o gorjeio do feliz passarinho continuava a lhe penetrar os ouvidos. Praguejando baixinho, ela se sentou. E foi só então que percebeu não estar na sua cama.

Ao lado dela, um James cheio de sono murmurou:

— Droga... Esqueci de cobrir a gaiola. Ele sempre dispara a cantar assim que o dia amanhece.

— Oh, James! Você tem que levar esse canário daqui! ― Ele estreitou-a nos braços.

— Vou providenciar isso, querida. Você dormiu bem?

— Como uma pedra.

— Será que foi por causa do cansaço provocado pelos excessos que cometemos?

— James!

— Não quero que você fique envergonhada. Afinal, foi a melhor noite que já tive na vida, sabia?

Mas Lily estava envergonhada. E muito. Após um rápido beijo no rosto dele, enrolou-se no lençol e saiu correndo para o banheiro. Foi só ao sentir-se segura atrás da porta trancada que ela gritou:

— Foi a melhor noite da minha vida também!


Com a gaiola coberta pela toalha, Tweety permaneceu quietinho durante todo o trajeto até a casa da mãe de James. E Lily quase não conteve uma exclamação de espanto quando ele estacionou o Porsche negro diante de uma imensa casa em estilo colonial, situada no fim de uma rua onde os inúmeros salgueiros, enfileirando-se ao longo da calçada, já se preparavam para florir. A mansão, toda branca, ficava aos pés de uma colina, e seu jardim era cinematográfico. Admirando as grades de ferro que protegiam e enfeitavam as janelas com molduras em madeira enquanto James destrancava os enormes portões, Lily perguntou:

— Sua mãe mora sozinha?

— Sim. Desde a morte do meu pai, ela diz que vai se mudar para um lugar menor, mas eu duvido. Mamãe mora aqui há muito anos, conhece toda a vizinhança e está perto do clube de que é sócia; tudo isso, hoje em dia, é muito importante para ela. E eu, que cresci nessa casa, não gostaria muito da idéia de vê-la vendida para estranhos.

— Sei...

Segurando a gaiola de Tweety numa das mãos, James abriu a pesada porta de carvalho maciço para que Lily entrasse. Pasma com o espaço e o luxo que dominavam a ante-sala, ela apenas seguiu-o através de um hall acarpetado até a descomunal e ricamente mobiliada sala de estar. Estava sem graça até mesmo de elogiar a elegância e o requinte da decoração. Entre as peças de valor inestimável, a Sra. Potter possuía também um belo piano, estrategicamente colocado próximo a uma lareira de pedras, o que contribuía para aumentar ainda mais o ar aristocrático reinante no ambiente. Ele dependurou a gaiola num alto pedestal dourado junto a uma janela ampla, onde os raios do sol da manhã já atravessavam a cortina, e descobriu-a a seguir. No mesmo instante, Tweety pôs-se a cantar.

— Fique à vontade, Lily. Vou providenciar água para o canário e já volto.

Depois de colocar uma tigelinha com água fresca dentro da gaiola, James pediu a ela que o acompanhasse até a sala de jantar, onde iria verificar os controladores do aquecimento central. Surpresa demais ao ver-se rodeada por tanto luxo, dessa vez Lily não se conteve:

— Deve ser um verdadeiro sacrifício cuidar e manter objetos tão bonitos e valiosos.

Dando de ombros, ele lançou um rápido olhar à sua volta e comentou:

— Minha mãe é uma mulher de sorte. O jardineiro faz muito mais do que apenas cuidar das plantas, e a criada que a acompanha há anos faz muito mais do que apenas ocupar-se da limpeza.

Lily sentiu uma pontada no peito. Sua mãe também fazia limpeza na casa de pessoas de posses para ajudar no magro orçamento da família. Certa ocasião, quando ela fora pular corda no jardim da casa de uma amiguinha de escola, ouviu a mãe da garota repreendê-la, censurando-a por brincar com a filha de uma faxineira. Numa outra oportunidade, a pobre Sra. Evans perdera o emprego por faltar dois dias consecutivos ao trabalho; a dona da casa não aceitou como desculpa o fato de Petúnia precisar da companhia da mãe no hospital.

No instante seguinte ela se arrependeu de ter acompanhado James até ali. Se ter conhecimento da confortável situação financeira de que ele desfrutava já era motivo de conflitos, confrontar-se com o rico ambiente onde ele fora criado acirrava ainda mais a dor provocada pela diferença de nível social que os separava.

Percebendo-lhe o mal-estar, James perguntou:

— O que houve? Você parece... estranha.

— Não sei. Vai ver que não estou acostumada com tanta ostentação.

— Você não deve ter vergonha das suas origens. Afinal, todos somos iguais nos nossos íntimos. A diferença está na aparência e a aparência é o que menos conta para formar o caráter de uma pessoa, honestidade, lealdade, inteligên...

— James, acho que está na hora de irmos embora. Tenho que me aprontar para o trabalho.

— Já que não quer falar sobre isso, vou respeitar sua vontade. Mas é uma pena que não fiquemos; seria uma boa oportunidade para minha mãe conhecer você melhor.

— Tenho a impressão de que, depois das circunstâncias em que fomos apresentadas, ela não faz a menor questão de me conhecer melhor.

— Ah, mamãe iria rir de tudo aquilo! Mas vamos voltar numa outra ocasião e vocês terão tempo de sobra para conversar.

Novamente Lily sentiu um aperto no peito. James falava de planos para o futuro... Planos para um futuro que não tinha a menor chance de se concretizar.

De volta ao jardim, ele deu uma última olhada na direção da mansão e, num tom muito natural, disse:

— Gostaria que, um dia, tivéssemos uma casa como essa.

— James, pare pelo amor de Deus!

— O que está acontecendo com você, Lily? Ontem estávamos tão bem, tão relaxados e felizes que...

— Não continue, não quero ouvir mais nada.

— Lily, você não está sendo razoável!

— Estou sendo razoável demais! E não adianta o curso universitário que fiz ou o emprego que possa retomar como professora, a verdade é que... Nunca estarei no seu nível! Será que você não entende isso?

— Não diga bobagens! O fato de ter conseguido chegar aonde chegou com seu próprio esforço, apesar de todas as adversidades, já prova que você é muito melhor do que eu!

— Belas palavras... Pena que sejam só palavras. Enquanto você crescia nessa mansão, eu sobrevivia como podia num trailer, dividindo uma cama com minhas duas irmãs. Uma cama, não um quarto. E, se não fossem pelos tíquetes de alimentação...

— Chega de se atormentar com essas lembranças! Isso é passado, Lily!

— Isso é parte de mim! Minha mãe fazia limpeza na casa de pessoas como a sua mãe e, até morrer, culpou-se por não ter dinheiro suficiente para dar um bom acompanhamento médico a Petúnia.

Aquele desabafo fez com que James sentisse o chão sumir sob seus pés.

— Oh, meu Deus... Então é por isso que Tess resolveu estudar Medicina? E é por isso que você trabalha como uma maluca para ajudá-la com os estudos, não é?

— Brilhante dedução, Riquinho. Agora me leve para casa, ou vou acabar chegando tarde ao trabalho.

Ele passou a mão pelos cabelos. Droga! Não estava nem aí para o passado de Lily. Gostava dela como ela era e ponto final. Mas como iria convencê-la disso? Droga, mil vezes droga!

O caminho de volta para casa não foi tão tenso, pois, apesar de bastante desanimada, Lily lutava para não deixar que a revolta provocada pelo seu passado se transformasse num verdadeiro martírio para os dois. Assim, tratou de conversar sobre amenidades com James e até lhe pediu que parasse na loja de conveniência, para que comprasse seu bilhete de loteria.

Ao contrário do que esperava, ele não fez objeção:

— Vou descer com você e aproveitar para comprar pão de centeio.

James apanhou o pacote de pão numa das gôndolas e foi juntar-se a Lily, que guardava lugar na fila. Ela, então, disparou:

— Aposto que você nunca comprou um único bilhete de loteria em toda a sua vida!

— Pois acertou em cheio!

— É porque já tem dinheiro sobrando.

— Para lhe mostrar que a senhorita está redondamente enganada, vou comprar um agora mesmo. Como se faz?

— No caixa, você escolhe um número entre os que estão expostos. Depois, é só pagar. Simples, não?

James tirou a carteira do bolso, enquanto dava uma boa e demorada olhada nos bilhetes enfileirados numa grade metálica ao lado da máquina registradora. Apanhou um deles, pagou a despesa e deu seu lugar a Lily, dizendo:

— Pronto. Onde vou ter que retirar o prêmio?

— Vá com calma, Riquinho. Que número escolheu? A data do seu aniversário, a placa do seu carro, o telefone da sua mãe?

— Nada disso. O número que escolhi é uma combinação da data em que me mudei para o seu apartamento.

Lily, que havia comprado aquele número durante três semanas, foi taxativa:

— Então esqueça o prêmio, Riquinho. Você nunca vai ganhar.


Depois de atender aos clientes carentes naquela tarde de sábado, James foi dar uma espiada em seu apartamento novo. Examinando a sala de estar completamente vazia, deixou escapar um suspiro. Tudo estava como havia imaginado, só que... Faltava Lily Evans ali. Ao comprar o imóvel, planejara fazer dele uma espécie de reduto de um solteirão convicto. Agora, essa ideia lhe parecia uma tolice sem fim. Estava apaixonado por Lily e queria dar um fim a esse celibato, fazendo daquele apartamento novinho em folha um lar para os dois.

Caminhando pelos ambientes desocupados, imaginava arranjos para o conforto dela, um lugar especial no armário da cozinha para guardar seus sucrilhos, uma enorme cama de casal em que dormiriam abraçados, uma banheira de hidromassagem para tomarem longos e sensuais banhos juntos.

Satisfeito com o acabamento da obra, tomou o elevador rumo ao andar térreo, onde, no escritório da incorporadora, assinou os últimos documentos para a aquisição e escritura do imóvel. Agora que estava tudo em ordem, poderia pedir Lily em casamento.

Casamento?

A ideia acompanhou James, enquanto ele se encaminhava para a garagem, onde tinha deixado seu Porsche. Quanto mais pensava nisso, mais animado ficava. Concluiu que seu destino fora selado naquela manhã de sábado, quando ela lhe aparecera na cozinha com sua imensa camiseta... e nada mais. Sim, tinha certeza absoluta de queria muito se casar com Lily e fazer dela sua companheira pelo restante da vida.

E, como teria um trabalho danado para convencê-la do seu amor e lhe tirar da cabeça aquelas bobagens sobre diferença de nível social, o melhor seria falar com ela o mais depressa possível.


Lily estava sentada no sofá, braços ao redor dos joelhos erguidos, o olhar fixo no aquário de James. Fazia quase uma semana que não o via e a saudade só vinha confirmar uma coisa de que vinha desconfiando havia um tempinho: tinha se apaixonado perdidamente por ele.

No aquário, "Anjinho" batia as barbatanas com uma placidez irritante. Que sorte tinham os peixes, que não precisavam se importar com sentimentos como o amor!

Perdida em divagações, ela levou algum tempo a perceber que a campainha havia tocado. E estava prestes a se levantar para atender, quando uma voz roufenha atravessou a barreira imposta pela porta:

— Abra mocinha! Sei que você está aí!

Lew! Ela sentiu o sangue gelar e ficou paralisada da cabeça aos pés. Não fizera o pagamento da parcela vencida no dia anterior e agora o agiota vinha em busca do dinheiro.

— Você está procurando encrenca, mocinha!

Lily pensou em lhe dizer que não ousasse ameaçá-la, mas resolveu calar-se. Lew não tinha como saber se ela estava realmente em casa. Aquilo devia ser um truque.

— Mais cedo ou tarde, você vai ter que sair dessa toca! E é bom sair com o meu dinheiro, ou vai se ver em maus lençóis!

Após alguns instantes, a gritaria parou e ela ouviu passos ao longo do corredor e pela escadaria. Correu, então, apanhar a bolsa que estava sobre a mesa e pôs-se a contar o dinheiro que tinha. A quantia não era suficiente para o pagamento da parcela semanal, pois várias performances tinham sido canceladas com antecedência e Lily só recebia quando os cancelamentos ocorriam em cima da hora. Além disso, fazia já cinco dias que dividia as apresentações com outra moça, contratada pela Shenanigans sem maiores avisos.

O telefone tocou e ela sequer cogitou em atender. No quinto toque, porém, imaginou que pudesse ser uma nova proposta de trabalho e encaminhou-se para o aparelho. Se fosse Lew, só lhe restava bater o fone na cara dele.

A voz de Lene soou como um bálsamo:

— Lily de Deus, ouvi aquele homem gritando na sua porta! Você está bem?

— Estou sim. Mas, quando o telefone tocou, pensei que fosse ele outra vez.

— Fique calma, ok? Estou indo para aí. Vou bater de leve três vezes, esperar um pouquinho e depois dar mais três batidinhas.

Se não fosse pela caneca de café que Lene trazia na mão, Lily lhe daria um forte abraço como agradecimento pela companhia num momento tão desesperador.

Assim que se acomodaram no sofá, a enfermeira não perdeu tempo em perguntar

— O que aquele vigarista queria com você?

— E-eu... Eu deixei de pagar outra parcela ontem.

— Oh, Deus! Bem, ainda tenho cento e vinte e cinco dólares daqueles duzentos de que lhe falei, Se ajudar...

— Não quero fazer outras dívidas, Lene. E, mesmo se aceitasse sua oferta, a quantia não cobriria o valor da prestação, pois tenho apenas sessenta e nove dólares e vinte centavos. Talvez as coisas fossem diferentes, se minhas apresentações não tivessem sido canceladas.

— Você contou isso para James?

— Claro que não! Não quero que ele saiba dos meus problemas financeiros.

— Ora, Lily!

— Além do mais, não temos nos visto ultimamente. James chegou tarde todas as noites desta semana, e eu fui dormir cedo na esperança de ser chamada para algum trabalho na parte da manhã.

— E por que ele vem chegando tão tarde?

— Não faço a menor ideia. Desde sábado, quando levamos aquele canário bobo na casa da mãe dele, não o vi mais.

— Que estranho.

— Sabe do que mais, Lene? Eu nunca deveria ter usado aquele vestido preto que você me emprestou. James viu a etiqueta do tal figurinista bacana e pensou que eu tivesse gastado meus parcos trocados naquela roupa.

— Você não lhe disse a verdade?

— Só quando eu ganhar na loteria!

— Cresça Lily. Cresça e seja quem você é de verdade. Acha mesmo que ganhar na loteria poderia mudar o caráter de uma pessoa ou apagar seu passado?

— Não, mas tomaria a vida muito mais fácil.

— Não adianta discutir com você. Seja como for, a situação é mesmo crítica.

— Como assim?

— Bem, o dono do posto de gasolina se queixou de que a fila de carros formada para o lava - rápido atrapalhou seus negócios. Sendo assim, James é sua última alternativa.

— Não posso contar com ele, Lene! Já disse que James está pensando que gastei tudo o tinha naquele vestido preto!

— Então, sinceramente, não sei o que você irá fazer para se livrar daquele maldito agiota.

Depois que Lene saiu, Lily passou mais de uma hora andando de um lado para o outro, pensando numa solução para seu problema mais imediato. O telefone voltou a tocar e, dessa vez, era mesmo Lew. Deixou-o falar tudo o que ele queria e então explicou o motivo do atraso da parcela vencida, mas acabou desligando o telefone na cara do agiota quando não teve mais nervos para ouvir suas ameaças.

Triste e cansada, chegou à conclusão de que precisava de uma boa noite de sono para recolocar as idéias no lugar. Antes de ir para a cama, porém, venceu o orgulho e colocou um bilhete no espelho do banheiro:

"Deixei de pagar outra parcela ao agiota. Será que você poderia me emprestar 300 dólares? Devolvo assim que puder."

James viu o bilhete e imaginou o quanto custara a Lily escrever-lhe uma nota como aquela. Começou então a preencher um cheque na quantia que ela pedira, mas rasgou o pedaço de papel e jogou-o no cesto de lixo; sacaria o dinheiro no banco e o entregaria pessoalmente, em espécie, na hora do almoço. Quem sabe, assim, teriam um tempinho para conversar...

A finalização das obras de seu apartamento tinha lhe tomado todas as noites daquela semana. Agora, porém, estava tudo como ele queria: a geladeira repleta; uma espaçosa cama de casal na suíte; lenha na lareira; escovas e pasta de dentes no armário do banheiro. Havia até mesmo três caixas de sucrilhos no armário da cozinha. Levaria Lily até lá no sábado e então a pediria em casamento. Perfeito.

Após escovar os dentes, deixou seu bilhete no espelho.

"Será um prazer lhe emprestar o dinheiro... desde que você saia comigo no sábado. Depois discutiremos a forma de pagamento."

No dia seguinte, quando James chegou em casa com três notas de cem dólares na carteira, Lily não estava ali. A única notícia que teve dela foi outro bilhete no espelho.

"Aceito seu convite para sábado. Dadas as circunstâncias, é você quem manda Riquinho."

Com um imenso sentimento de culpa, ele picou o bilhete em pedacinhos. Diabo, não queria magoá-la, não queria que ela se sentisse chantageada, não queria ter lhe escrito uma nota que desse margem a segundas interpretações, não queria...

Por que era tão difícil fazer uma surpresa feliz a quem se ama?


Sábado. Dia que Lily gostaria de riscar do calendário. Primeiro, teria que encarar James após ter aceitado o dinheiro dele; depois, fazer-lhe companhia sabia-se lá como. E se ele cismasse em visitar a mãe?

O barulho do processador de alimentos na cozinha lhe dizia que ele já tinha se levantado. Descalça, ela rumou para lá, cumprimentou-o num murmúrio e foi apanhar um cafezinho na jarra da cafeteira elétrica.

Escondido atrás da página de esportes do jornal, James evitava olhar para ela. Se ficasse muito tempo observando-a naquela camiseta de algodão, acabaria tomando-a pela mão e levando-a de volta para a cama. Mas preferia fazer amor com ela no seu apartamento novo, depois de pedi-la em casamento.

Pouco depois Lily se sentava à mesa, diante de seu prato de sucrilhos.

— James, por que você tem que ligar o processador de alimentos todos os sábados de manhã?

— Porque preciso preparar minha vitamina.

Embora ela quisesse conversar sobre outros assuntos e, principalmente, lhe perguntar onde ele andara durante toda a semana, disse apenas:

— Eu queria lhe agradecer pelo empréstimo.

— Aceite o dinheiro como uma contribuição aos estudos de Tess.

— Obrigada, mas não posso. Ainda que demore um pouco, vou lhe devolver os trezentos dólares.

— Não se preocupe com isso.

— Olhe, eu... eu gostaria de saber aonde você pretende ir hoje. À casa da sua mãe?

— Não, senhora. Quero lhe fazer uma surpresa. E você nunca saberá do que se trata se não se apressar e colocar uma roupa decente para sair.

— Já vou, já vou... Me deixe dar uma olhada no resultado da loteria primeiro.

— Ok. Enquanto isso vou terminar este artigo sobre o campeonato de beisebol

Lily apanhou o restante do jornal que estava num canto da mesa. Jamais iria desistir, jamais iria abrir mão do seu sonho, jamais iria...

Assim que checou o resultado, ela sentiu um nó no estômago. Voltou a reler o número sorteado, dessa vez analisando cuidadosamente cada um dos dígitos. Deus do céu! Seria possível? O bilhete premiado tinha, com exceção de um único número, a seqüência que ela havia tentado por três semanas consecutivas. E James Potter quase havia chegado lá!

— James, você chegou perto de ganhar três milhões de dólares! O número que escolheu foi mesmo o correspondente à data em que se mudou para cá?

— Foi o que eu lhe disse, não foi? Doze... três...

— Não, você veio para cá no dia onze.

— Foi dia doze. Tenho certeza absoluta.

— Onde está o bilhete?

— Na gaveta da minha mesinha-de-cabeceira. Por que esse suspense?

— Não sei... Estou com uma sensação estranha. Vá buscá-lo, sim?

— Está insinuando que posso ter tirado a sorte grande?

— Oh, vá pegar aquele maldito bilhete!

Ele retomou instantes depois e lhe entregou o pedacinho de papel.

— Pensei em jogá-lo fora, pois achava que o sorteio já tinha ocorrido. Aliás, não entendo nada dessas coisas de loteria. Você, como profunda conhecedora, poderia...

Mas Lily não o estava ouvindo. Havia colocado o bilhete dele sob o número sorteado e conferia dígito após dígito, o resultado. Sentia a cor sumir de seu rosto e, mesmo assim, não conseguia parar de comparar as sequencias. Por fim, num sopro de voz e com a impressão de que estava prestes a desmaiar, conseguiu dizer:

— James... Você ganhou três milhões de dólares...

Ao vê-la pálida como um fantasma, James percebeu que não devia tratar-se de uma brincadeira. Apanhou o jornal e o bilhete das mãos trêmulas e conferiu o resultado. Foi a vez dele de perder o fôlego.

— E-eu... eu ganhei...

Durante alguns segundos, nenhum dos dois se moveu. Depois, como se só então tivesse se dado conta de realidade, ele tomou Lily nos braços e, rodopiando pela cozinha, pôs-se a gritar:

— Eu ganhei! Eu ganhei! Por Deus que está no Céu, eu ganhei na loteria! Oh, Lily, mal posso acreditar!

Ela livrou-se do abraço com um gesto delicado.

— Parabéns, James. Estou contente por você.

— Três milhões de dólares! Temos que comemorar isso!

Enquanto ele providenciava copos e uma velha garrafa de vinho que ficava no armário sob a pia à espera de um bom motivo para ser aberta, Lily tentava analisar e sufocar a raiva e a decepção que vibravam geneticamente em seu íntimo. Devia estar feliz da vida pela sorte de James, mas só conseguia sentir uma revolta inominável. Não era justo. Santo Deus, aquilo não era justo! Ela comprava seu bilhete semana após semana, torcia como uma desesperada, acumulava esperanças e sonhos que nunca se concretizavam, precisava ajudar a irmã e ainda tinha uma grande dívida para com um agiota sem escrúpulos que não a deixava em paz. James, que desprezava sorteios daquele tipo e possuía uma situação financeira apreciável, acabara de ganhar três milhões de dólares.

Os ricos ficavam mais ricos, os pobres ficavam mais pobres. Não era justo.

A voz dele lhe chegou aos ouvidos:

— Ainda nem sei o que vou fazer com tanto dinheiro! Precisamos pensar em alguma coisa, Lily! Afinal, nossos problemas monetários acabaram de uma vez por todas!

— Nossos? ― Ora, ela ainda estava na mesma lona em que sempre se encontrara!

James lhe entregou um copo de vinho, sugerindo:

— O que acha de fazermos uma viagem? Aonde você gostaria de ir? África? Ásia? Europa? Uma ilha nos Mares do Sul? O mundo agora nos pertence!

— O mundo agora pertence a você, Riquinho... Não, acho que devo chamá-lo de Milionário.

— O que aconteceu?

— Quer saber? Pois então vou lhe dizer: não tenho um tostão furado e, semana após semana, alimento o sonho de resolver meus problemas com esse bilhetinho mágico; você compra o primeiro bilhete em toda a sua vida, sequer se preocupa em checar o resultado e acaba levando três milhões de dólares. Isso não é o que costumo chamar de justiça.

— Eu... eu não posso acreditar que você esteja furiosa porque ganhei o grande prêmio!

— Você entendeu muito bem o que eu quis dizer.

— Entendi que você só se preocupa com os seus problemas e não consegue enxergar um palmo adiante do nariz! Está tão ocupada em sentir pena de si mesma, que não tem tempo para mais nada ou mais ninguém neste mundo!

— Você não passa de um egoísta, de um... dentista metido a bacana!

— E você? O que é? Uma santa sofredora?

— Já chega James, não vou ficar batendo boca com você! Quero que saia do meu apartamento o mais depressa possível; com o dinheiro que acabou de ganhar, você pode até mesmo alugar um quarto no palácio da rainha da Inglaterra!

— Lily...

— Saia! Saia da minha casa e da minha vida!

— Muito bem. Se é isso o que você quer, é isso o que vou fazer.

James saiu da cozinha e, instantes depois, Lily ouvia a porta da frente abrir e fechar-se com um estrondo. Descontrolada, atirou o copo de vinho contra a parede e, como num transe, ficou olhando os minúsculos caquinhos espalhados pelo chão.

Naquela noite, ao voltar para casa, ela encontrou seu apartamento às escuras. Ainda considerava o fato de James Potter ter ganhado na loteria uma tremenda injustiça; mesmo assim, arrependera-se das grosserias que havia dito a ele e tencionava pedir-lhe desculpas.

— James? Você ainda está acordado?

Acendendo a luz da sala, viu que o imenso aquário não estava mais ali, nem a vistosa bicicleta dele encontrava-se encostada no lugar de costume. Não era preciso maiores confirmações para concluir que James tinha ido embora.

Lily esfregou os olhos, afastando as lágrimas. Dessa vez não foi necessário ir até o banheiro para encontrar o bilhete dele: em cima da mesa, sob as chaves do apartamento, havia uma folha de papel.

A nota era curta, mas seu conteúdo revelou-se uma surpresa ímpar:

"O aluguel dos próximos três meses já está pago. Também quitei sua dívida para com o agiota, como forma de agradecê-la por ter me convencido a comprar o bilhete."

Ela não ficou zangada ou aborrecida. A sensação da mais pura solidão que apoderou-se do seu ser obliterou qualquer outra emoção.


Após passar o pior fim de semana da sua vida, James foi trabalhar na segunda-feira sentindo-se em frangalhos. Sequer conseguira desfrutar das comodidades de seu apartamento novo e, sem ter Lily para lhe fazer companhia, preferira dormir no sofá da sala e ignorar a confortável cama que havia encomendado para os dois.

Quando contou a Ryan a respeito do bilhete premiado, pensou que o velho senhor fosse ter um enfarte. O entusiasmo frenético do colega, porém, não foi capaz de contagiá-lo. De que lhe adiantavam os três milhões de dólares, se havia perdido a mulher que amava? Além do mais, estava contente com sua vida do jeito que ela sempre fora e não tinha a menor ideia do que fazer com toda aquele dinheiro.

Abriu-se com Ryan. A sugestão do amigo deixou-o um pouco mais animado:

— Se não necessita desse dinheiro, James, faça alguma coisa construtiva com ele. Procure investi-lo em algo que seja importante para Lily e para você.


Na manhã de sábado, após passar uma semana terrível, Lily acordou imaginando ouvir o processador de alimentos de James. Apurando os ouvidos, percebeu tratar-se de fortes batidas à porta e, na esperança de que fosse ele, correu atender.

Sua alegria, contudo, durou pouco.

— Lene...

Com seu uniforme de enfermeira, o que indicava que estava a caminho de mais um plantão, Lene entrou agitando no ar o jornal do dia.

— Você viu isto?

— Não. Acabei de acordar.

— Pois imagine Lily, que aquele iluminado que ganhou na loteria a semana passada ainda não se deu ao trabalho de ir buscar o prêmio! E sabe do que mais? O bilhete sorteado foi comprado na loja de conveniência a poucas quadras daqui! Será que o infeliz perdeu o bilhete?

— Não. James Potter ganhou os três milhões de dólares e o bilhete estava bem guardado na sua mesinha-de-cabeceira.

— James?! Você só pode estar brincando! Ele sequer joga na loteria!

— James comprou um bilhete porque eu insisti e escolheu quase o mesmo número com que concorri durante três semanas.

— Me custa acreditar numa história dessas... Quer dizer então que você está morando com um milionário?

— Não. James se mudou daqui.

— O quê?! Deus do céu, o que andou se passando nesta casa?

— É uma longa história, Lene. Venha, vamos até a cozinha. Vou lhe contar tudo enquanto tomamos um cafezinho.

Ao final da narrativa de Lily, Lene levou as mãos à cabeça em sinal do mais puro espanto.

— Mas por que você o mandou embora?

— Não sei, juro que não sei. Já me fiz essa mesma pergunta um milhão de vezes, mas não encontro uma resposta plausível.

— E mesmo assim ele pagou três meses de aluguel e sua dívida para com o agiota? Caramba! Já vi muita gente estragar a própria vida, Lily, mas você é a campeã.

— Obrigada. Era tudo que eu precisava ouvir.

— Oh, desculpe. Tenho que dar plantão na Pediatria hoje e, assim que voltar passo por aqui para conversarmos e tentarmos achar uma solução para essa confusão que você armou. Está bem?

— Está sim.

No começo da tarde, quando já havia decidido que não tinha condições emocionais para se apresentar às crianças internadas no hospital como a Palhacinha Clara, ela recebeu um telefonema de Lene.

— Lily, você tem que vir ao hospital. Emily foi para o centro cirúrgico e o avô dela está aqui, sozinho e muito deprimido.

— Oh, Deus! Não posso Lene! Você sabe como...

— Deixe de bobagem e venha, por favor! Esse pobre velhinho precisa de um pouco de conforto e eu não posso lhe fazer companhia durante meu horário de serviço.

— Mas, Lene... Emily vai... Ela está...?

— Os médicos estão otimistas, só que nunca se sabe ao certo os resultados de uma cirurgia cardíaca. Vamos, ande logo!

Lily chorou durante todo o percurso até o hospital, martirizada pelas lembranças de Petúnia e pelo medo do que pudesse acontecer à pequena Emily. Assim que desceu do elevador no andar destinado à Pediatria, foi ao toalete lavar o rosto. Então, mirando-se no espelho, disse para sua imagem:

— A morte de Petúnia pertence ao passado. Agora trate de esquecer os seus problemas pessoais e faça alguma coisa por alguém que está precisando da sua ajuda.

Ao entrar na sala de espera do centro cirúrgico, viu John Halvorsen sentado junto a uma janela, olhando para o infinito. Indecisa, aproximou-se devagarzinho e acomodou-se ao lado dele, esforçando-se para sorrir.

— Sr. Halvorsen? Meu nome é Lily Evans. Sou amiga de Emily e... Bem, ela me conhece melhor como a Palhacinha Clara.

O velhinho olhou-a com seus olhos tristes.

— Que bom que a senhorita veio.

— Já recebeu alguma notícia da sua netinha?

— Uma enfermeira chamada Lene aparece de pouco em pouco para me manter informado do... de tudo. Da última vez, ela disse que Emily estava bem e que a operação iria levar mais uma hora.

— Vamos rezar pelo melhor, Sr. Halvorsen.

— Já rezei tanto que...

A voz do pobre homem lhe sumiu na garganta. Lily tomou a mão dele entre as suas, confortando-o:

— Gosto muito de sua neta. Ela é muito viva, muito esperta. Em breve, estará andando novamente com os patins que ganhou do senhor.

— Emily me disse que gostaria de levar a Palhacinha Clara para casa, quando sair daqui. Ela adora você. E adora o Dr. Potter também.

À menção do nome de James, Lily sentiu todos os músculos de seu corpo retesarem. Desde o telefonema de Lene, aquela era a primeira vez que passava mais de duas horas sem pensar nele uma única vez.

O Sr. Halvorsen prosseguiu:

— Espero que ele chegue logo.

— James vem aqui?

— Quando lhe telefonei, ele disse que viria o mais depressa que pudesse. Talvez se atrase um pouco, pois aos sábados o consultório fica cheio de crianças que não podem pagar por um tratamento dentário.

— E-eu não sabia que... Pensei que, aos sábados, ele atendesse a executivos ocupados durante a semana.

— Oh, não. A senhorita se enganou.

Lily sentiu-se corar de vergonha. Durante todo o tempo em que morou com James, imaginara que ele usasse seu consultório apenas como forma de ganhar mais e mais dinheiro.

Foi então que o Sr. Halvorsen levantou-se. Acompanhando o olhar dele, Lily viu que Lene acabava de sair da sala de cirurgia e que o velhinho tinha os olhos fixos nela.

Ela também se levantou.

— E então, Lene? Quais são as notícias?

A enfermeira tinha os olhos úmidos ao dizer:

— Acabei de falar com o cirurgião-chefe. A operação está quase terminando e o estado de Emily é ótimo.

— Graças a Deus... — Lily soltou a respiração que mantinha presa nos pulmões.

— Isso significa que ela vai ficar boa? — perguntou o velho senhor, esfregando as mãos úmidas de suor.

— Sim, Sr. Halvorsen — respondeu Lene, com um sorriso genuíno. — Sua netinha vai ficar boa para sempre!

— O Senhor seja louvado — murmurou o velhinho, abraçando Lily. — O Senhor seja louvado.

Por cima do ombro do velho senhor, Lily viu James parado na soleira da porta da sala de espera. Ele tinha nos lábios um sorriso tão largo quanto o seu.


Olá gente! Mais um cap, me desculpem pela demora, please. Um agradecimento especial a L-P Almofadinhas, Ninha Souma e IBlackI pelos comentários. Prometo postar o próximo e último cap bem rapidinho, é Trapaça do Destino está acabando, bem gente até mais :*