Capítulo VIII

Um calafrio percorreu Isabella da cabeça aos pés ao receber a informação de que as sombras dos altos muros da fortaleza do rei William estavam se projetando sobre eles. A sensação de frio que se apoderou de seu corpo a fez pensar em um abismo que aguardava o momento de tragá-los. Em um movimento instintivo de proteção, ela se curvou sobre o cavalo e se colocou mentalmente longe daquele local desolado.

Era horrível pensar que em algum lugar, por trás daquelas muralhas, estava o homem que levara luz a sua vida. Que lhe mostrara que ela poderia se libertar da escuridão em que mergulhara havia longos anos.

Estivesse ainda sob o jugo de seu irmão, não acreditaria que a felicidade podia ser possível. Estaria impregnada das vibrações de ódio e de desconfiança. Não estranharia o fato de que inocentes precisassem ser sacrificados para satisfazer desejos obscuros. Mesmo que seus olhos fossem sãos, ela estaria cega para as qualidades que Edward trazia em seu coração, que eram sua capacidade de amar, de compreender e de respeitar o próximo.

Essa seria a pior tragédia.

Isabella sentiu que estremecia ao ouvir as patas dos cavalos contra as pedras que cercavam a fortaleza, Suas mãos apertaram convulsivamente as rédeas. Recuar tornara-se impossível. Era imperioso que lutassem por Edward. Que fizessem o que precisava ser feito.

A força do sangue, a força da aristocracia, acumulada de geração a geração, se fez sentir abruptamente, após anos de ausência. Era o recurso que seus antepassados lhe conferiam e que lhe daria a confiança e a firmeza necessárias para se apresentar perante o rei.

O cavalo de Isabella recuou, assustado, ao ter seu avanço impedido por um guarda.

— Alto! Ninguém pode se aproximar dos portões do rei William!

Garrett sentiu que todos os seus músculos enrijeciam. Por sua vontade, puxaria o cavalo de Isabella pelas rédeas e a impediria de avançar e de, talvez, ser atirada às masmorras, como acontecera com Edward.

— Eu sou lady Isabella Beaumont, de Shadowsend Keep. Eu e minha comitiva solicitamos uma audiência com o rei William.

Garrett se colocou ao lado de Isabella. Era um guerreia Sua postura talvez pudesse intimidar o guarda. Seu olhar demonstrava franca desaprovação pela atitude do outro em questionar o direito de sua nobre acompanhante ver o rei

Isabella ficou satisfeita com o comportamento de Garrett

Não o imaginava capaz dessa confiança arrogante que despertou o respeito, senão da sentinela, de si própria. Desejaria se armar com esse mesmo ar de superioridade. Principalmente porque já podia sentir a curiosidade das pessoas que se encontravam próximas aos portões e ouvir seus cochichos

O burburinho logo se alastrou como fogo. Poucos minutos haviam passado e todos já pareciam ter conhecimento de que a dama disforme os estava visitando. De repente, porém, ao se abrirem os portões para lhes dar passagem, um grande silêncio se fez entre a multidão.

— O que está acontecendo? — Isabella perguntou sem mover os lábios de modo que apenas Garrett pudesse ouvi-la.

Ele precisou conter um sorriso ao responder:

— A estupefação é geral. Sua beleza os deixou paralisados.

Ninguém poderia adivinhar o tumulto que se escondia por trás da aparente serenidade do rosto feminino.

— Espero que eles se lembrem de que a cortesia para com os visitantes faz parte de suas funções.

Até aquele momento, tudo estava correndo bem. Isabella sentia o coração bater acelerado. Os súditos do rei William estavam se comportando de maneira amigável. Ninguém parecia se lembrar de que ela era a esposa de um suposto assassino.

O alívio que sentiu foi tão grande ao ouvir as correntes serem puxadas para permitir seu ingresso e de Charlie.

Garrett que, por um instante, os músculos ameaçaram ceder sob seu peso, e uma ligeira tontura lhe causou a impressão de estar girando sobre si mesma. Obrigou-se a endireitar os ombros e erguer o queixo. Aquele era apenas o primeiro obstáculo. Eles ainda teriam de ultrapassar muitos até chegarem a Edward.

Garrett conduziu os cavalos para dentro e os entregou a um lacaio que se postava junto aos altos portões de carvalho que protegiam a entrada principal. Em seguida, ajudou Isabella a descer da sela e a fez apoiar a mão na curva de seu braço de modo a guiá-la até o salão onde os súditos se reuniam para ouvir e servir o rei.

A seu lado, Isabella tremia de nervosismo.

— Você foi magnífica — ele sussurrou. — Portou-se como uma princesa. Edward ficará orgulhoso quando souber.

A aproximação de Charlie ajudou-a a recuperar o controle. Como sempre, o velho homem estava resmungando e isso a fez sorrir como de costume.

— Em pensar que eu tive tanto trabalho para fugir do covil de Belzebu, só para cair dentro dele outra vez!

Garrett deu uma piscada para o outro.

— Ainda bem que você esperou até que estivéssemos novamente a sós para tecer seus comentários. O que teria acontecido se os guardas o reconhecessem como o prisioneiro que escapou no outro dia?

— Em vez de estarmos nos dirigindo ao salão de recepções, eles estariam nos conduzindo para as masmorras — declarou Isabella.

Garrett fez um movimento negativo com a cabeça.

— Esses idiotas não reconheceriam as pontas de seus narizes, quanto mais um fugitivo — Charlie continuou reclamando. — Se eu estivesse no comando, faria com que desempenhassem suas funções da maneira como se deve. O que lhes falta é disciplina e treinamento. Não foi à toa que o rei precisou contratar mercenários para defender o país.

— Eu não acredito no que estou ouvindo — Garrett caçoou. — Estou certo ao deduzir que você está se queixando da incompetência da guarda real quando foi justamente esse o motivo que o ajudou a escapar?

— É uma questão de princípio — Charlie tentou justificar.

Isabella sorriu, mas seu sorriso estava impregnado de angústia e preocupação.

— Precisamos recorrer ao elemento surpresa — murmurou, como se tivesse se transportado no tempo e no espaço e estivesse novamente jogando xadrez com Edward diante da lareira.

Garrett ouviu a declaração e entendeu a linha de raciocínio de Isabella. Sem dizer nada, exerceu uma leve pressão com o braço sobre a mão que sustentava de modo a prepará-la para subirem alguns degraus.

Um novo estremecimento ocorreu ao baque das portas Maciças sendo fechadas atrás deles. E mais uma vez ela ergueu o queixo e fingiu calma e confiança. Qualquer hesitação de sua parte poderia significar sua derrota e consequente aprisionamento de todos eles.

Os guardas, porém, permaneciam como que fascinados pela oportunidade de conhecerem, finalmente, a famosa dama. A multidão aumentava a cada minuto, conforme os rumores se espalhavam sobre a aristocrática a respeito da surpreendente visita.

Garrett dirigia olhares de esguelha, carregados de expectativa, à pequena e frágil mulher a seu lado, que tantas vezes já se mostrara grande e poderosa em espírito e determinação. Suas feições serenas não o enganaram em nenhum momento. Não quando o temor da morte lhe era transmitido pelo vigor com que ela lhe apertava o braço. Se estivesse ao seu alcance, ele a protegeria dos olhares e observações de toda sorte. Mas talvez fosse mais fácil alcançar as estrelas do que evitar que o povo a examinasse e a comparasse com o irmão, conhecido como o cortesão favorito do rei.

Ao descobrirem a verdade, que Isabella era uma mulher linda, e que não havia nenhuma razão para que continuassem chamando-a de dama disforme, o brilho de curiosidade, principalmente nos olhos masculinos, foi substituído por luxúria. Garrett desejaria deter o poder de obrigá-los a se curvarem à passagem dela, de modo a impedir que a fitassem com cobiça e insolência. Mas para cada homem que afastasse de seu caminho, dezenas de outros se seguiriam. Dessa forma, talvez fosse melhor se ele mesma baixasse a cabeça em vez de atrair a atenção daquele povo para si e para a tarefa que tinham vindo cumprir.

Com sua capacidade de percepção, Isabella procurou acalmá-lo.

— Não permita que eles o atinjam com sua rude curiosidade. Eles não estão me causando nenhum mal. Tudo está se passando conforme eu previa.

Garrett precisou respirar profundamente para manter o controle. Disse a si mesmo que se Isabella estava conseguindo enfrentar a multidão, ele também conseguiria. Tolerância, contudo, não era o mesmo que aceitação. Estava procurando gravar os rostos de cada homem que a encarava com desrespeito para depois lhes ensinar uma lição. Tal era sua concentração que não viu um dos guardas avançar em direção a eles.

— O rei ordena que lady Isabella Beaumont se apresente imediatamente em sua câmara particular.

Isabella, alheia ao embevecimento com que o guarda a fitava, respondeu com altivez.

— Excelente. Acompanhe-me, sir Garrett.

O guarda deu um passo de modo a impedir o avanço.

— Lamento, milady, mas o rei demanda apenas a sua presença. Seus acompanhantes terão de aguardar do lado de fora.

Uma cortina de silêncio caiu sobre eles. Ninguém se moveu. O guarda parecia aturdido com a relutância dos antigos mercenários em cumprir a ordem. Lady Isabella, igualmente, não dava mostras de atender a exigência.

— Por maior que seja o respeito que tenho por meu rei, temo ser obrigada a insistir na presença de um deles. Meus olhos nada veem e eu dependo de ajuda para me locomover. Tenho certeza de que meu soberano não me obrigaria a abandonar meus olhos.

Um burburinho se seguiu ao pronunciamento. O guarda hesitou por um instante, mas logo encontrou uma solução para o problema.

— Será uma honra para mim, milady, lhe servir de guia e de olhos.

Não era a saída que Isabella esperava, mas era a única a seu alcance. Desvencilhou-se de Garrett e estendeu a mão para o outro. Uma ordem do rei, afinal, era uma ordem do rei. Desobedecer seria uma total insensatez.

— Esperem aqui por mim — ela pediu com um sussurro.

— Para sempre, se for preciso — Garrett respondeu com uma mesura, no que foi imitado por Charlie.

A manifestação de apoio dos homens de Edward ajudou Isabella a seguir sob a tutela de um estranho. De qualquer forma, ela não encontrou motivos para reclamar do procedimento do guarda, que a conduziu sem pressa pelos saguões e corredores. O trajeto, porém, pareceu curto demais. Em questão de dois ou três minutos ela foi convidada a aguardar para ser anunciada formalmente ao monarca.

O sangue gelou em suas veias ao ouvir seu nome ser pronunciado e o rei ordenar que a fizessem entrar. Absoluto terror se apoderou dela enquanto caminhava. Quem a visse, porém, jamais adivinharia o que se passava em seu interior.

O silêncio na câmara real só era quebrado pelo tamborilar ritmado de uma unha sobre uma superfície de madeira. Isabella soltou o braço do guarda e se ajoelhou graciosamente em uma mesura impecável. Não saberia dizer se o tamborilar persistia. O batimento acelerado de seu coração a ensurdecia para outros sons.

Se tivesse a capacidade de enxergar, Isabella veria que os olhos do rei estreitaram, desconfiados, ao obrigá-la a erguer a cabeça, tocando-a no queixo com a ponta de um dedo. Era a primeira vez que via a dama disforme com seus próprios olhos, mas notícias já lhe haviam chegado de que, ao contrário do que todos esperavam, a irmã de seu cortesão era a mulher mais linda que já transpusera os portões do castelo. Seus súditos haviam se acotovelado pelo privilégio de serem os primeiros a lhe contar e a tentar descobrir se o rei a trataria com deferência por ser irmã de seu preferido, ou a mandaria trancafiar por ser casada com um traidor.

As descrições variaram assombrosamente, mas a essência permanecia a mesma em cada um dos relatos. O rei se recusara a demonstrar sua surpresa e também sua indignação em ter sido o último a descobrir a verdade. Era inconcebível que James tivesse se omitido a lhe revelar que as histórias sobre lady Isabella eram falsas. Oportunidades nunca faltaram. Não deixava de ser estranho, aliás, que James nunca tivesse mencionado a existência de uma irmã até pedir sua participação na trama que o levara a consentir que seu melhor guerreiro, Edward Beaumont, fosse enviado às terras do norte para desposá-la.

Inicialmente, ele não dera importância ao fato. Fora discreto com James. Nunca sequer lhe perguntou a razão Para que as pessoas se referissem à moça como a dama disforme.

Pálido de revolta, o rei soltou bruscamente o queixo de Isabella e se virou para a janela. Odiava pensar que aquela mulher comprometeria, irremediavelmente, seu relacionamento com James.

— O que a traz a minha presença, lady Isabella? Por que forçou sua entrada em meu castelo? Duvido que seu irmão a tenha chamado aqui.

— Como qualquer esposa devotada, eu vim para apoiar meu marido, Majestade — Isabella respondeu cabisbaixa, de modo a demonstrar humildade perante o rei. — Estou aqui, também, para provar que Edward é inocente das terríveis acusações que foram levantadas contra ele.

O rei encostou-se à janela e cruzou os braços sobre o peito avantajado. Seu cenho estava franzido e seu olhar era hostil.

— Como ousa implorar pela vida do homem que estava tramando meu assassinato? Faz noção do perigo a que se expõe defendendo-o?

Apesar da rispidez cortante com que estava tratando a visitante, o rei não podia evitar o sentimento de admiração que ela lhe despertava com sua coragem. A maioria de seus súditos teria se encolhido diante de sua indignação, em vez de erguer a cabeça em protesto.

— Edward é inocente — Isabella repetiu com firmeza.

— Muitos afirmam o contrário.

— Muitos... ou apenas meu irmão? — Isabella se referiu a James com extremo desdém.

Era verdade. Fora James quem insistira para que o rei prendesse Edward, embora o mercenário nunca tivesse falhado em nenhuma das missões que lhe atribuíra.

— Talvez — William admitiu, com a sombra da dúvida já se infiltrando em sua mente.

— Perdoe-me a franqueza, Majestade. Espero que não se ofenda se eu lhe disser que é um tolo se prefere acreditar em James em prejuízo de Edward.

Em outras circunstâncias, aquelas palavras teriam despertado sua ira. Naquele momento, elas o surpreenderam ao riso.

— Não creio poder chamá-la de outra forma, milady. Acha prudente se referir a seu rei como um tolo?

— Acho que um rei precisa saber a verdade e encará-la de frente como qualquer outro homem — Isabella respondeu, sem refletir, para se desculpar em seguida pelo comportamento inadmissível diante da situação.

— Não quero ouvir suas desculpas neste momento — o rei a interrompeu. — Prefiro que continue a usar de franqueza, embora seu discurso não me seja agradável. Quero que se sente e que me conte toda a verdade.

Isabella agradeceu que o rei a conduzisse a uma cadeira, apoiou as mãos sobre o colo e entrelaçou os dedos para que parassem de tremer. Sua voz, hesitante de início, foi se tornando forte e clara à medida que ela relatava os acontecimentos que culminaram na prisão de Edward. Contou sobre o temperamento irascível de James desde criança, sobre o ato de violência que causou a ela a perda da visão, sobre o isolamento a que ele a confinou e sobre suas constantes ameaças.

O silêncio e a atenção com que o rei acompanhou o desabafo proporcionou conforto e segurança a Isabella. Antes que ela tomasse consciência do que estava fazendo, confidenciou-lhe sobre seus medos e sobre suas suspeitas de que James estava implicado na morte de seus pais e que acreditava que ele estava por trás dos rumores sobre Edward ter planos de assassinar o rei.

— Você tem provas do que afirma? — William indagou após um longo e tenso silêncio em que Isabella cogitou se não teria caído em mais uma das armadilhas de James.

Com um movimento de concordância, ela tirou um maço de cartas de um bolso interno da capa. Sentia o corpo todo tremer enquanto esperava que o rei as lesse.

— Eu estava certo, então, em pensar que aquelas histórias estavam mal contadas — o rei murmurou como se estivesse se dirigindo a si mesmo. Isabella aguardou que ele a abordasse antes de continuar a falar. — O anel que pertenceu a sua mãe ainda está em seu poder? — o rei perguntou, por fim.

Isabella tocou o frio metal ao redor de seu dedo e tirou-o lentamente, aliviada em se livrar da joia que lhe trazia tão tristes recordações. William o pegou e colocou-o sobre a pilha de cartas, pálido ao reconhecer o anel que James costumava trazer preso a uma corrente no pescoço até pouco tempo antes.

Ela ouviu o rei suspirar.

— Bem, lady Isabella, eu agradeço sua sinceridade e sua coragem em me revelar a verdade. Posso saber quais são seus planos agora que levou a cabo seu intento?

O tom brusco a fez questionar sua sorte, Teria errado ao tomar o rei totalmente sob sua confiança? Sem saber o que responder, ela foi honesta em admitir que não tinha feito nenhum plano além de procurá-lo.

Ela o ouviu se levantar e declarar o encerramento entrevista.

— Nesse caso, darei ordens para que providenciem acomodações para você e sua comitiva até obter todas as respostas de que necessito.

Isabella precisou engolir em seco para desfazer o nó em sua garganta.

— Posso perguntar onde está meu marido?

— Tenho certeza de que ficará aliviada em saber que Edward continua no aguardo de minha sentença em um dos aposentos que compõem os porões deste castelo.

Isabella ficou tão aturdida com a atitude do rei ao obrigá-la a se levantar enquanto respondia sua pergunta e dar ordens para que o guarda a levasse, que mal conseguiu respirar. Sua cabeça começou a girar e ela precisou apoiar seu peso no braço do homem.

— Obrigada — respondeu.

O rei fez um sinal para que o guarda a levasse imediatamente de sua presença. Detestava sentimentalismos. Mais um instante e lady Isabella se debulharia em lágrimas e ele tinha mais o que fazer, como se encaminhar para a escrivaninha onde colocara as evidências trazidas pela irmã de James. Seu olhar incidiu sobre o anel. Era magnífico em sua simplicidade.

Odiava-o.

Aquela peça de metal parecia estar gritando para que o mundo inteiro ouvisse que o rei William, filho do Grande Conquistador, se deixara trair como um idiota. Apertou-a convulsivamente na palma da mão. Mas, embora a tivesse afastado de sua visão, continuava sentindo-a como a prova de que se deixara enganar pela Pessoa que conquistara sua confiança só para poder usá-lo. James não gostava dele. Ele se sentira atraído pelo poder que emanava da figura real, não pelo homem que existia sob a coroa.

A verdade viera à tona. Não podia mentir a si mesmo, contudo, sobre nunca ter lhe passado pela cabeça que as pessoas fingiam devoção por interesse. Que os ricos, os nobres, e, principalmente, os reis raramente eram amados por aquilo que eram, mas por aquilo que tinham e representavam.

Em um arroubo de fúria, William atirou o anel de volta para a mesa. Enganara a si próprio por demasiado tempo. Era chegado o momento de parar de se comportar como um tolo apaixonado.

Sentou-se em sua cadeira favorita e tomou de um só gole uma caneca de vinho. Seus olhos continuavam pousados sobre a pilha de cartas. Não havia como refutar as palavras de lady Isabella. Ele reconhecera a escrita de James nas cartas. A vaidade de James fora sua perdição. Ele próprio se condenara ao fogo do inferno ao se vangloriar para a irmã da influência que exercia sobre o rei.

O jarro de vinho esvaziou até que William se satisfizesse e fechasse os olhos para descansar. Naquela noite, queria expurgar a traição que se infiltrara em seus ossos. Chamou o valete e deu ordens explícitas para não ser incomodado. Por ninguém. No dia seguinte, voltaria a assumir sua posição de rei e soberano. Mas naquela noite queria ter o direito de sofrer como um simples mortal.

— De que você está falando? — James esbravejou ao ser impedido de ingressar na câmara real. — Eu não sou qualquer um. O rei certamente não se referiu a mim quando ordenou para não ser perturbado! Eu sempre tive acesso a seus aposentos.

— Eu sinto muito, milorde, mas as instruções foram claras. O rei William não quer ser incomodado esta noite. Por ninguém.

James teve ímpetos de derrubar o valete a socos, mas conteve-se ao reconhecer que estava temporariamente derrotado em seus argumentos. Sem alternativa, girou nos calcanhares e voltou para seu quarto, sob a impressão de que estava sendo seguido por olhares maliciosos que o fizeram corar de raiva.

Naquela noite, pela primeira vez desde que ocupava a posição de favorito do rei, James dispensou a ajuda do camareiro para se despir e se deitar. Sentou-se e passou as mãos pelos cabelos. Ian o avisara, mas ele, em sua certeza de que era dono do corpo e da alma do rei, não quisera acreditar que Isabella, em tão pouco tempo, pudesse fazer tão grande estrago.

Talvez devesse ter levado a sério o aviso de seu espião de que o casamento havia mudado Isabella. Agora, talvez fosse tarde demais para deter as engrenagens. Em poucas horas, Isabella conseguira virar a cabeça do rei contra ele. Qual a outra explicação para que William se recusasse a recebê-lo?

Para aplacar o ódio que o estava consumindo, James começou a imaginar o que faria com a irmã no instante que pusesse suas mãos sobre ela. Por mais que tentasse se acalmar, o pânico parecia ter se instalado em definitivo na boca de seu estômago. Pela primeira vez em sua vida estava perdendo o controle sobre uma situação. Tinha ímpetos de quebrar tudo a sua volta.

Principalmente o pescoço da maldita.

Era tudo culpa dela! Isabella conseguira conquistar a confiança do rei e envenená-lo contra ele. Era incrível que ela estivesse a poucos passos de distância. Estava acima de sua compreensão que a irmã tivesse ousado confrontá-lo. Não era para ter sido assim.

De acordo com seus planos, Isabella deveria estar amedrontada a ponto de parar de respirar. Com sua figura frágil, ela deveria estar confinada a um leito, esperando por notícias da morte de Edward. Para morrer com ele. Então sua vitória seria completa. Ele triunfaria sobre a vida e sobre a morte da usurpadora.

No entanto, Isabella conseguira se evadir da prisão em que ele a colocara e viera em busca do rei como um anjo vingador. Dobrara-o a sua vontade e conseguira, provavelmente, salvar o marido da morte.

Talvez o jogo acabasse com a vitória de Isabella. Ela poderia vencê-lo em vida.

Mas não o venceria na morte!

Garrett olhou de um lado para outro do corredor antes de entrar nos aposentos de Isabella. Todos deveriam estar dormindo no castelo. Assim mesmo era preciso ter cuidado para garantir que ninguém testemunhasse sua visita no meio da noite. Ele nunca se perdoaria se, por sua imprudência, lady Isabella tivesse sua reputação maculada. Ela se surpreenderia e talvez fosse reprová-lo por seu atrevimento, mas ele preferia acreditar que sua boa intenção o desculparia nas circunstâncias.

O quarto estava às escuras. Garrett precisou esperar até que seus olhos se adaptassem à falta de luminosidade para fechar a porta. Virou-se, então, para o centro do cômodo e viu Isabella de pé, no balcão. As portas de vidro estavam abertas. O luar delineava o perfil feminino. A brisa primaveril soprava nos cabelos de seda, espalhando um doce perfume no ar.

— Noto que você desenvolveu estratégias para passar pelos guardas. Conseguiu passar também pelo meu.

Atônito com a capacidade de percepção de Isabella, Garrett atravessou o quarto para encontrá-la. Ela estava sorrindo e ele se viu imitando-a apesar do perigo que os rondava.

— E eu que estava me gabando de minha competência e discrição.

O sorriso acentuou.

— Homens que usam armaduras como se fossem roupas não conseguem atingir o grau de discrição necessário para se moverem sorrateiramente.

A conversa poderia ter enveredado para assuntos triviais, mas o momento os impedia. A vida de Edward escava por um fio. Isabella não conseguia parar de pensar na rede de intrigas que fora tecida naquela corte e que dependeria do rei acreditar em sua palavra contra a de James para que seu esposo recuperasse sua liberdade.

— O que o rei disse sobre Edward? — Garrett perguntou.

— Nada de concreto — Isabella respondeu com um sus-piro de desalento. — Afirmou que ele está vivo, mas não forneceu nenhuma garantia para o futuro. Deixou que eu falasse em defesa dele, aceitou as cartas que eu lhe entreguei e depois me dispensou, aconselhando que eu descansasse, como faria um bom anfitrião. — Isabella cerrou os punhos. — Mas qualquer anfitrião que se preze não coloca um guarda diante da porta de seu hóspede para vigiar seus movimentos.

Garrett percebeu que os olhos de Isabella encheram de lágrimas. Em sua determinação, ela as impediu de rolarem. Ele precisou se controlar para não tomá-la nos braços e acalentá-la junto ao peito.

— Enquanto Edward estiver vivo, haverá esperança — ele tentou tranqüilizá-la. — O melhor que poderíamos esperar era que o rei William a ouvisse e ele o fez.

— Mas e se o rei decidir compactuar com James? Nós seremos executados ao amanhecer.

Diante desse argumento, Garrett se calou. Nenhuma palavra poderia apagar essa verdade. Era notório que o rei mantinha um relacionamento com James Colebrook. As chances de ele reverter a situação eram grandes.

— Isabella...

— Eu preciso ver Edward — ela disse, como se não o tivesse escutado. — Eu quero estar com ele.

— Você sabe que isso é impossível! Como eu poderia levá-la até ele?

— Não pode ser tão difícil. Se você conseguiu burlar a vigilância da guarda do rei, certamente conseguirá me guiar até os calabouços. — Isabella se deteve e sorriu como se tivesse se lembrado de um episódio divertido. — Não diga a Charlie que lhe contei, mas a maneira como ele burlou a guarda para fugir só pode ser chamada de cômica. Francamente, o rei estaria perdido se sua sobrevivência dependesse de suas sentinelas e de seus lacaios.

Garrett olhou para o pátio e confirmou que estava deserto.

— Suponho que seja possível mediante alguns subornos. Mas eu insisto em demovê-la dessa idéia. Acho que seria uma loucura. Se formos pegos teremos de dar adeus às esperanças. O progresso que você conseguiu junto ao rei se anulará.

Embora insistisse que eles não deveriam agir com precipitação, Garrett sabia que estava lutando por uma causa perdida. A expressão determinada de Isabella era uma prova de que sua decisão já havia sido tomada. Ela veria Edward, ou ao menos tentaria vê-lo, independente do que ele lhe dissesse.

Edward o trucidaria por compartilhar daquele plano insensato, mas ele não sabia dizer não a Isabella. Bastava ela sorrir daquele jeito radiante para ele se derreter.

— Vista sua túnica e jogue um manto sobre os ombros para se proteger da umidade dos calabouços — recomendou enquanto atravessava o aposento e encostava o ouvido contra a porta para se certificar de que não haveria ninguém à espreita. Ao voltar para o lado de Isabella e lhe oferecer o braço, ela se inclinou e lhe sussurrou um agradecimento.

Como uma sereia, Isabella o enfeitiçava. E daquela vez, mesmo que fosse a última, Garrett não conseguiu frear as palavras que brotaram de seu coração.

— Eu poderia te amar tanto...

A expressão aturdida de Isabella o fez voltar a si.

— Mas Garrett, você sabe que eu amo...

Ele a fez calar com um toque de seus dedos.

— Eu sei. Você ama Edward e ele corresponde ao seu amor. Eu reconheço que não há lugar para mim em sua vida, e me conformo com essa situação Apenas queria que você soubesse que sempre poderá contar comigo.

À medida que Garrett falava, seu tom de voz se tornava mais e mais baixo. Ao traduzir seus sentimentos em palavras, ele descobriu que nenhuma poderia expressar o que ia por sua alma.

Ele notou que a mão de Isabella tremia conforme ela a levantava para lhe acariciar o rosto.

— Isso não é amor, Garrett. Você não me ama. Você gosta de mim, como eu gosto de você. O amor não consegue sobreviver sozinho. Não o amor verdadeiro. Ele precisa se nutrir do amor do outro. Ele tem de ser recíproco. Para acontecer, o amor verdadeiro precisa ser dividido entre duas pessoas. A miséria que se sente ao pensar em alguém que não temos não pode ser chamada de amor. Algum dia, você também encontrará o verdadeiro amor. Uma boa alma como você não foi criada para viver sozinha.

Garrett sentiu os olhos arderem de emoção.

— Você é uma mulher sábia. — Precisou fazer uma pausa para controlar a emoção e recuperar o bom senso. — Quero dizer, você é uma mulher sábia quando não insiste em perambular pelas masmorras de um castelo inimigo no meio da noite.

— E você é um homem especial e eu o tenho em alta estima, quando não se comporta como um ogro investido de asas, tentando ser meu anjo de guarda.

Garrett deu um sorriso. Teria de ser assim. E, naquele instante, ele decidiu esquecer seu sonho impossível e se dar uma nova chance para o amor.

— Aceitarei essa observação como um elogio.

O momento de descontração passou como um estalar de dedos. O risco de eles serem flagrados pelos guardas era grande. Garrett procurou não pensar, mas agir por instinto. Ele não lhe havia falhado nos campos de batalha. Isabella, então, se viu puxada para fora do quarto sem nenhuma cerimônia. Não havia tempo a perder.

A costa felizmente estava livre. O número de guardas podia ser grande, mas o que sobrava em quantidade, faltava em qualidade. De qualquer forma, Garrett e Isabella mal se atreviam a respirar para não fazerem barulho. Vez por outra, Garrett captava algum movimento nas sombras. Eram os guardas escondidos pelos cantos, apostando seus magros soldos no intuito de fazê-los aumentarem.

Não fora exagero de Charlie dizer que a guarda real era uma vergonha para o país. Era preciso lhes ensinar disciplina em primeiro lugar. Conduzir lady Isabella aos porões não se revelara nem sequer um desafio. Poderia descrevê-lo quase como uma aventura inofensiva. Apenas o homem que guardava a porta da cela de Edward teria de ser subornado, provavelmente.

Não foi difícil comprar o silêncio do sujeito, conforme Garrett previra. Com os olhos brilhando de cobiça, ele desapareceu pelos corredores, deixando a chave e uma recomendação para que sumissem do local antes que o sol nascesse, momento em que seria feita a troca da guarda.

— De quanto tempo eu disporei? — Isabella quis saber, tão logo o homem se afastou.

— De cerca de quatro horas. Eu baterei três vezes para que você se despeça de Edward e saia a tempo de eu levá-la de volta a seus aposentos.

A chave foi introduzida no ferrolho. O ruído do metal raspando em metal pareceu ecoar pelos corredores. Isabella se encolheu involuntariamente. Ao perceber que ela vacilava, Garrett a puxou pelo braço de modo a introduzi-la na câmara que antecedia a cela.

— Avance mais dois passos e empurre a porta — ele instruiu. Em seguida, apertou-lhe delicadamente o ombro para infundir coragem e recuou.

— Obrigada, meu amigo. Mesmo que eu repita mil vezes essa palavra, não serei capaz de exprimir quanto sou grata a você.

Silêncio foi tudo o que Isabella recebeu em resposta antes de avançar para o desconhecido.

Edward abriu os olhos, instantaneamente, alerta ao som inconfundível da porta ao ser aberta e fechada em seguida. Fingiu que continuava dormindo, mas cada um de seus nervos e músculos se preparava para resistir a um eventual ataque.

— Edward? — Isabella chamou com um sussurro.

Incapaz de acreditar em seus ouvidos, certo de que aquilo era um sonho, Edward murmurou o nome de Isabella.

Não podia ser verdade. Ele devia ter morrido e subido ao céu. Ou o cativeiro o fizera perder o juízo. Isabella não podia estar ali, mas era sua imagem que ele estava vendo, recortada contra a porta, à fraca chama da única vela que lhe era entregue todas as noites junto com uma ceia frugal.

— Edward, você está aqui? — tornou a chamar, a voz agora apreensiva.

— Sim, eu estou. — Ele procurou se sentar sobre a palha. — E você, por Deus, o que faz aqui?

Isabella precisou se abraçar para conter o tremor de emoção que a sacudia ao ouvir a voz amada que ela temera nunca mais poder ouvir. Porque até aquele instante, parte dela não acreditara realmente que Edward estivesse vivo.

— Eu precisava vê-lo. Eu tinha de estar com você.

— Está me dizendo que atravessou metade deste país para me fazer uma visita?

— Oh, não — Isabella se apressou a explicar. — Eu vim para libertá-lo e levá-lo de volta para casa. Eu vim para provar ao rei que você é inocente e para...

Isabella interrompeu a explicação ao pressentir a ira que se apoderara de Edward e que estava se irradiando por toda a cela.

— Você enlouqueceu? Eu mandei que Charlie a levasse para fora do país porque temia por sua vida e o que você faz? Em vez de me obedecer, você se atira de cabeça nessa confusão que armaram para mim! — Impotente diante do abismo intransponível que se abrira diante deles, Edward baixou a cabeça e escondeu-a com as mãos. Um instante depois tornou a erguê-la. Seus olhos estavam estreitos de desconfiança. — Quem a trouxe? Você não pode ter viajado até aqui sozinha. Quem foi o infame que a acompanhou?

— Na verdade, foram dois de seus homens. Garrett e Charlie.

— Eu os matarei com minhas próprias mãos — Edward prometeu, furioso.

O alívio que Isabella sentira ao encontrá-lo vivo e em razoável estado de saúde começou a dar lugar a um sentimento de inadequação. Edward não parecia ter gostado de vê-la. Fora uma tola em percorrer tão longa distância só para ser recebida como se tivesse cometido uma afronta.

— Você não está sendo justo com eles! — protestou. — A ideia foi minha. Charlie e Garrett não têm culpa de nada! Essa era a última reação que eu esperava de sua parte. Parece que você não ficou contente em me ver.

— Não se trata disso! — Edward se defendeu. — Estou assustado porque você agora também está correndo perigo de vida. Estou furioso porque você está aqui por minha culpa e porque não há nada que eu possa fazer para protegê-la. — Fora de si de desespero, Edward investiu contra as correntes atadas em seus punhos sangrentos. Um gemido de dor seguiu o irracional protesto.

— Eles o machucaram? — quis saber, movendo-se instintivamente em direção ao som.

Sem poder enxergar, ela tropeçou em uma pedra solta e caiu antes que Edward tivesse chance de avisá-la. Mas não se importou. Machucara o joelho na queda, mas o que era isso em comparação com o que Edward estava sofrendo por sua causa? Aproveitou, inclusive, que estava no chão, para engatinhar até onde o marido estava.

— Você perdeu peso — ela murmurou enquanto percorria o torso nu com as mãos ansiosas.

— Embora eu esteja em um castelo, não estou sendo tratado exatamente como um hóspede — Edward tentou brincar, mas o gracejo não alcançou sua voz.

Em prosseguimento ao exame, Isabella constatou que os ferimentos do rosto não eram tão severos sob a barba crescida. Fosse o alívio que a inundou, a alegria de estar novamente com Edward, a emoção e a esperança de seguirem juntos para fora daquelas paredes, ou todos esses sentimentos reunidos, ela não resistiu ao pranto.

Edward não se conteve. Sem refletir sob a prudência de seu comportamento, segurou Isabella pela cintura e a colocou em seu colo, abraçando-a contra o peito. Ele queria confortá-la e o gesto confortou-o ainda mais. Ter Isabella nos braços outra vez era um milagre. Ele fechou os olhos e aspirou, fascinado, o perfume de seus cabelos. O desejo, tão longamente negado, vibrou em seu corpo. A pele macia em contato com seus lábios ressequidos foi como um bálsamo. Incapaz de resistir, ele a estreitou com força.

Isabella hesitou, receosa de machucá-lo, mas não conseguiu se conter por muito tempo e correspondeu ao abraço com todo o seu amor.

— Eu devo estar sonhando — Edward murmurou, ofegante. — Isto só pode ser um sonho — ele repetiu.

— Se isto é um sonho, que nunca tenhamos de acordar — Isabella concordou com um sussurro, os dedos afundando nos cabelos de Edward enquanto ele cobria seu pescoço de beijos.

Um gemido de emoção antecedeu o longo e apaixonado encontro de bocas e almas. Poderia ter sido Edward ou Isabella a deixá-lo escapar. Ou ambos. Seus lábios se procuraram, entreabertos, prontos para sorver a essência de cada um de modo a partilharem a felicidade que tanto buscaram e que tanto custaram a encontrar. Um beijo de alma em que Isabella descobriu que a vida e o amor eram preciosos demais para serem desperdiçados com medos e dúvidas. Nada poderia ser mais importante do que aquele encontro, onde suas bocas, suas mãos e seus espíritos se uniram em plenitude.

Edward pensou que enlouqueceria de desejo se não pudesse cobrir o corpo dela com o seu. A força da razão o conteve. Ele estava preso a grilhões nas masmorras do rei que preferira acreditar nas intrigas do inimigo a respeitar o homem que o ajudara a fortalecer seu reino. Isabella não merecia esse tratamento. Ele não era um selvagem. Ele saberia esperar.

Com determinação, Edward se obrigou a interromper o beijo. Segurou ternamente o rosto da esposa e a fez deitar a cabeça em seu peito, onde a manteve até sua respiração voltar ao normal. Era homem e um homem apaixonado. Seu corpo estava rijo de desejo. Teria sido mais fácil resistir se afastasse Isabella, mas queria ao menos poder sentir o calor daquele corpo junto ao dele.

— Perdão — ele murmurou. — Eu não tinha intenção de fazer o que fiz. Não neste lugar.

— Por que está dizendo isso? — ela perguntou ainda confusa pela avalanche de emoções que os surpreendera — Por que você parou?

— Porque julguei que seria melhor assim.

As surpresas ainda não haviam terminado naquele encontro. Edward pestanejou ao sentir as mãos de Isabella erguerem subitamente e segurarem sua cabeça.

— As decisões sempre têm de partir apenas de você? Não lhe ocorreu que eu talvez não me importasse de nos deitarmos sobre palha? Por que você nunca pergunta minha opinião? Por que você nem sequer tenta descobrir quais são os meus desejos?

O que poderia ter evoluído para uma discussão revelou-se uma conversa franca entre dois amantes. Edward tocou os lábios de Isabella, ainda inchados e molhados dos beijos que trocaram.

— Perdoe-me, mas eu não me sinto digno de você no estado em que me encontro. Estou atado como um animal, Isabella! Não posso me levantar e nem sequer me arrastar até o outro lado da cela. Quero estar com você mais do que qualquer outra coisa no mundo, mas não nestas condições.

Ela esperou que Edward desabafasse para tornar a beijá-lo.

— E o que eu mais quero no mundo é estar nos braços do homem que amo — ela confessou, seu hálito aquecendo a pele de Edward e suas palavras atingindo diretamente seu coração. — Quero esquecer o mundo lá fora, mesmo que for por alguns instantes. Quero esquecer que talvez Possa não haver um amanhã para nós. — Isabella segurou uma das mãos de Edward e a levou aos seios, impedindo-o de retirá-la ao adivinhar seu movimento. — Abrace-me, Edward. Aperte-me o mais que puder de modo que eu possa senti-lo bem junto de mim. Não percamos nenhum segundo deste tempo precioso que nos foi concedido. — A voz de Isabella falseou e ela precisou se calar antes que as lágrimas a vencessem.

Edward não saberia repetir o que sua emoção o levou a dizer naquele momento. Incapaz de recusar aquele doce e generoso presente, ele abraçou Isabella como se a quisesse fundir em seu próprio corpo. Ávidas por realizarem o desejo de sua esposa, suas mãos buscaram a pele nua de suas pernas. Bastou um suspiro de Isabella para elas subirem, como se de repente tivessem adquirido vida própria, até as ancas.

— Eu já lhe disse que o que estamos fazendo é uma loucura? — Edward fechou os olhos e beijou-a.

— Eu concordo — Isabella respondeu com provocação. — O que acha de continuarmos?

Com um resmungo de paixão, Edward tocou as dobras que protegiam o centro da feminilidade. A outra mão se apoderou de um seio. O gemido de Isabella foi calado com outro beijo.

— Oh, minha querida — murmurou ao senti-la tremer em seus braços e vibrar aos prenúncios do êxtase, mas teve de resmungar um protesto quando na tentativa de se colocar sobre o corpo de Isabella foi detido pelo rigor das correntes.

Resmungos e imprecauções se seguiram. Em silêncio, Edward tentava encontrar uma solução para o obstáculo que ousara se interpor entre eles. Jamais poderia imaginar que a solução fosse partir de Isabella.

— Edward, você consegue se sentar contra a parede e esticar as pernas a sua frente?

— Acho que sim.

Ela o empurrou gentilmente e sorriu com malícia.

— Então, o que está esperando?

Edward hesitou não mais do que alguns segundos antes de obedecer. Isabella aguardou até que as correntes parassem de bater umas contra as outras e o único som que permanecesse fosse o resfolegar de seu marido. Precisava ter cuidado ao se movimentar e se sentir firme para poder fazer o que pretendia. Que era demonstrar o quanto o queria e amava. Queria apresentar a Edward a mulher que ela havia se tornado depois de conhecê-lo e de ter seu amor.

Ajoelhada, Isabella se pôs a acariciá-lo a partir da parte superior dos tornozelos onde os grilhões o prendiam. A aspereza dos pêlos aumentou a sensibilidade de sua pele, transmitindo pequenos arrepios. Ela não conteve um sorriso de exultação ao ouvir a interrupção brusca da entrada do ar nos pulmões dele. Que se repetiu à medida que ela distribuía pequenos beijos pelos joelhos e pela parte interna das coxas.

— Eu não sei se poderei resistir a essa tortura — confessou Edward.

— Eu reservei forças e elas serão suficientes para nós dois — Isabella garantiu. Era impossível, porém, não lamentar o acontecido. Ela não precisava enxergar para notar o que as privações haviam feito com Edward. Ele estava fraco e machucado em decorrência dos maus tratos sofridos. Ela esperava que seu amor o fortalecesse.

Com um movimento rápido e decidido, Isabella se despiu diante do olhar febril e incrédulo de Edward que precisou aspirar profundamente à impressão de estar tendo seu peito queimado como por tochas.

Era a primeira vez que Isabella se entregava por completo a alguém. Era a primeira vez que ela se permitia sentir o puro prazer de amar e de ser amada por um homem. Por seu marido. Inclinou-se e beijou-o na fonte direta de seu desejo. Seu coração pulsava rápido. Ele gemeu alto e ela parou para lhe sorrir e para prometer que ainda estava por acontecer muito mais. Edward queria fechar os olhos pelo intenso prazer que Isabella estava lhe proporcionando, mas ao mesmo tempo queria olhar para ela. Para eles. Jamais suporia que além de lhe oferecer seu tesouro, ela o fosse guiar pelo caminho até encontrá-lo.

— Edward Beaumont — Isabella murmurou depois que conseguiu recuperar o fôlego, perdido durante o trajeto de Edward até seu âmago. — Eu te amo com meu corpo e com minha alma. Você me fez nascer outra vez. Você fez de mim um ser inteiro. Você me amou mesmo quando tudo o que eu tinha para lhe dar era ódio, rancor e medo. Eu jamais poderei lhe retribuir tudo o que me deu.

— Isabella...

Ela não permitiu que ele falasse. Precisava dizer a Edward o que estava sentindo. A verdade, por fim.

— O que eu sinto por você agora, eu sentirei para sempre.

Edward teve a sensação de que seu coração estava crescendo em seu peito a ponto de estourar. Com um movimento firme, ele puxou as pernas de modo a retribuir Isabella pelo prazer que ela estava lhe proporcionando. Reclamou seus lábios em um beijo ardente. O atrito de suas peles a fez arquejar. .

— Solte-se, Isabella. Quero olhar para você enquanto se entrega ao êxtase.

Aconteceu tão rápido que ela não teve resposta. Sua cabeça foi jogada para trás e ela precisou se apoiar nos ombros dele para não perder o equilíbrio conforme seu corpo era tomado por ondas de prazer.

Os gemidos de Isabella foram música para os ouvidos dele. As contorções de seu corpo e o estreitar do casulo que o abrigava o levaram a um êxtase quase simultâneo. Suas mãos fortes crisparam ao segurarem os quadris de sua esposa enquanto ele derramava sua semente.

Por alguns instantes, Edward e Isabella apenas flutuaram no espaço, sem noção de tempo ou de lugar. Edward, o primeiro a voltar a si, precisou encostar a cabeça à parede. Isabella estava inerte em seus braços. Ele a abraçou de modo a aconchegá-la em seu ombro.

Isabella sentiu a pele úmida e o frio das correntes em suas costas. Não se importou. Nada importava, exceto a certeza de que Edward estava vivo, respirando em seu rosto, amando-a como jamais fora amada.

— Isabella, minha doce Isabella. Eu te amo como nunca amei ninguém antes.

Ela ergueu o rosto ainda corado de paixão e sorriu.

— Eu também te amo.

Edward abraçou-a como se com esse simples gesto pudesse protegê-la do resto do mundo. Era uma tentativa inútil, mas naquele momento quase parecia possível.

Porque se Isabella o amava, então tudo era possível.

Ao ouvir três pancadas na porta, Isabella abraçou-se ainda mais ao marido. Era chegado o momento de deixá-lo, mas ela não queria ir embora. Vivera um sonho de amor e ele permaneceria real enquanto ela não acordasse. Naquelas que haviam sido as horas mais preciosas de sua existência, Edward e ela se tornaram um só. A comunhão fora feita entre seus corpos, mas também entre suas almas. Eles aprenderam muito um sobre o outro. Edward lhe contou fatos de sua infância e de sua vida adulta, como mercenário a serviço do rei. Ele lhe confessou seus erros e lhe revelou seus anseios. Desabafou sobre sua solidão em noites frias e sobre os dias de luta pela sobrevivência.

Isabella tentou desnudar seus mais recônditos segredos para ele, mas logo desistiu. Edward não estava em condições de saber toda a verdade. Nem ela de se revelar por inteiro. Principalmente sobre o filho que estava esperando.

A medida, porém, que a necessidade de partir se tornava mais e mais urgente, ela pensou que não seria justo esconder de um homem o milagre de uma nova vida que se formava de sua união com a mulher amada.

— Há algo que eu preciso lhe dizer... Ele não permitiu que ela continuasse.

— Não há tempo a perder! Você precisa ir agora! Não importa o que aconteça comigo, você tem de se salvar. Alegue inocência e completa ignorância. Atire-se aos pés de William e clame por misericórdia. Fuja. Faça o que tiver de fazer, mas coloque-se a salvo. Ou eu não responderei por mim, se algum dia conseguir sair daqui.

Isabella concordou com um gesto de cabeça, angustiada demais para articular uma palavra. Mesmo que tivesse tentado, Edward não lhe daria nenhuma chance. Ele queria guardar em sua boca o sabor dos beijos que trocaram.

— Não o abandonarei. — Isabella prometeu ao se despedir. — Farei o que tiver de ser feito, doa a quem doer.

Edward deu um soco no ar a essa declaração. Estava furioso por lhe ter sido roubado o direito de ir e vir. De ficar ao lado de sua esposa. De proteger a ela e a tudo o que lhe fora dado. Até mesmo a dignidade de ficar em pé para se despedir lhe era negada.

Contendo um soluço ao adivinhar a revolta que se apoderara de Edward, Isabella fez, gentilmente, com que ele se ajoelhasse antes que pudesse se machucar. Edward fechou os olhos para absorver os carinhos em seu rosto e prendeu as mãos de Isabella ao sentir que ela se preparava para retirá-las.

— Eu te amo, minha esposa. Eu preciso ter certeza de que você ficará bem.

Isabella retirou as mãos, sobressaltada, quando as pancadas se repetiram.

— Eu sei — ela respondeu, sem tentar conter as lágrimas que lhe inundavam os olhos e suplicavam por vazão, estremeceu ao som tenebroso das correntes que impediam Edward de alcançá-la. Era preciso ter coragem e partir antes que a despedida se tornasse ainda mais dolorosa.

Ela saiu sem dizer mais nada.

Isabella encostou-se à parede e chorou até não ter mais lágrimas. Mal conseguiu ouvir os passos abafados de Garrett se afastando pelos corredores. Não saberia explicar como, mas algo lhe dizia que faltava pouco para o dia raiar. O dia em que seu Edward poderia ser levado para sempre de sua vida e da vida da criança que o amor deles havia gerado.

Era motivo de tristeza para ela não ter contado a Edward sobre sua gravidez, mas não de arrependimento. Refletira muito antes de tomar a decisão de se calar. Seria egoísmo de sua parte dar a ele mais uma carga de preocupação. Queria que Edward ficasse feliz com a notícia. Precisava se agarrar à esperança de que chegaria o dia em que Edward estaria livre para conhecer seu filho.

Vencida pela dor, Isabella caiu de joelhos e se dobrou sobre o ventre como para proteger seu bebê. Chorou ainda mais ao pensar no destino que os aguardava caso Edward não chegasse ao fim daquele dia.

Os soluços foram brutalmente estancados pelo sarcasmo contido na voz que veio das sombras.

— Olá, irmãzinha!

O pânico a impediu de respirar. James estava as suas costas. Ela não o ouvira entrar. Um calafrio de horror a sacudiu ao sentir a mão fria e os dedos se fecharem ao redor de seu pescoço como tentáculos. Em seguida, James se aproximou para lhe falar e ela sentiu que suas feições contraíam ao detectarem seu hálito.

Ele gargalhou como um lunático.

— Você arruinou tudo, Isabella. Por sua causa, William se recusou a me receber. — O riso parou e as palavras sibilaram impregnadas de ódio. — Você se meteu onde não era chamada, irmãzinha querida, e agora terá de pagar o preço pelo que fez.

A pressão no pescoço diminuiu e Isabella ousou respirar mais profundamente. Antes que tivesse tempo de pensar em uma forma de se proteger, James a empurrou e ela caiu para trás.