Capítulo 9
Com o coração triste, Isabella iniciou seu solitário caminho para o sudeste. O dia era rude, e ao chegar a tarde a jovem se sentia desfalecer de frio e fome.
« Que idiota sou! - disse-se -. Embora minha capa forrada de pele seja mais chamativa, se a houvesse trazido estaria quente e o que é pior, tampouco trouxe comida.»
Isabella se perguntou o que aconteceria quando chegasse a noite. Sem dúvida deveria passar sozinha no bosque. Não havia nenhuma estalagem onde gastar as moedas que tinha pego. Rogou que não houvesse lobos na zona, pois tampouco tinha pensado em levar uma arma.
Depois de rodear uma curva do caminho, Isabella viu um homem que caminhava mais adiante. Ao ouvir o cavalo, este se deteve e se voltou, Isabella avançou com cautela. Da distância parecia um homem grande, um pouco estranho, pois seu porte e seu físico pareciam contradizer a impressão que oferecia de idade avançada.
Usava uma túnica larga e andrajosa, e um grosso bastão no que se apoiava.
«Deve ser uma espécie de santo», pensou Isabella. Ao aproximar-se, comprovou que era muito mais jovem do que parecia, possivelmente da mesma idade do Edward. Era alto e de costas largas. Seu cabelo comprido e desgrenhado era castanho escuro. Tão somente seu peculiar traje e a sombra de uma barba incipiente criavam a ilusão de velhice.
O homem a observou com curiosidade, e Isabella deteve o cavalo. Seus olhares se encontraram, e Isabella quase se sobressaltou ao ver aquela cor cinza tão familiar e penetrante. Onde tinha visto antes esses olhos?
Sem dar a impressão de esquadrinhar, seu intenso olhar cinza não se perdeu nem um detalhe daquela beleza morena-aruivada de olhos verdes que montava. O desconhecido se fixou na magnífica qualidade dos objetos da jovem, em seu anel de casada, e no cavalo dos MacArthur. Quando ela falou, o caminhante distinguiu seu sotaque inglês de classe alta.
- Bom dia, senhora. - O homem sorriu e inclinou a cabeça.
- Bom dia – respondeu Isabella -. É este o caminho para Londres?
Como se pudesse ver o final do caminho, o desconhecido deu uma olhada ao horizonte e logo olhou de novo Isabella.
- Acredito que sim - disse.
- Estas terras são dos MacArthur? – perguntou a moça.
O homem estudou Isabella atentamente e chegou à conclusão de que era muito bonita para ser uma ladra de cavalos. Mas quem era? Uma noiva que fugia? Segundo suas últimas notícias, nenhum de seus primos MacArthur se casou.
- Estamos no território dos Campbell – respondeu -. As terras dos MacArthur acabaram uns poucos quilômetros atrás, se é para onde vai.
- Vou para Londres.
- Por todos os Santos! - exclamou ele, com o rosto iluminado por um encantador sorriso. - Eu também me dirijo a Londres. Contar-lhes-ei uma história se me levar em seu cavalo.
Receosa, Isabella o olhou de esguelha e franziu o sobrecenho.
- Meu nome é Magnus - apresentou-se o caminhante, e logo lhe dedicou uma cortês reverência -. E minha vocação é a de tocador. Não se nota por meu traje? - Isabella o observou e Magnus riu -. Sabe o que é um tocador?
- Não.
- Um tocador viaja pelos caminhos – explicou - e conta historia durante o jantar. E você é...?
- Isabella Mac... Brie. – Engoliu em seco nervosa -. Espero que não me mencione em nenhum de seus contos.
Magnus sorriu, fascinado pela misteriosa inglesa de olhos verdes.
- Bem, Isabella MacBrie – burlou-se - o preço de meu silêncio é um passeio a cavalo.
Isabella vacilou, mas sua necessidade de companhia era mais forte que sua cautela.
- Me chame Bella... todos meus amigos o fazem.
Magnus montou detrás de Isabella, e alargando os braços ao redor dela, agarrou as rédeas. Isabella estava tensa, e era compreensível, pois jamais tinha estado sozinha com um estranho... exceto com «o Ross» MacArthur. Durante a viagem reinou um amistoso silêncio entre os dois, o qual acalmou os crispados nervos de Isabella. Pouco a pouco foi relaxando, apoiando-se quase imperceptivelmente contra o corpo do caminhante.
O desassossego de Magnus aumentava proporcialmente à relaxação de Isabella. Sentiu as delicadas costas da jovem e se maravilhou com a fragilidade daquela criatura. Bella apoiou a cabeça contra o pescoço de Magnus, e o fresco aroma de seu cabelo acendeu os sentidos do jovem, que sentiu como sua virilidade se excitava e crescia de tamanho sob suas roupas.
- Então vai para a Inglaterra - comentou Magnus com a esperança de que a conversação mitigasse seus instintos.
- Sim.
- Vai para casa ver sua família?
- Como sabe que sou inglesa? - perguntou Isabella receosa.
- Não fala como uma escocesa nativa.
- Ah.
- Tem família em Londres?
- Não.
- Amigos possivelmente? - interrogou. Sentiu como Isabella ficava rígida -. Talvez eu os conheça.
- Duvido - replicou Isabella friamente. «Está fugindo», disse-se Magnus.
- De onde vem, pequena?
- Isso não é assunto seu! Me permita te recordar - informou-lhe com altivez - que vai em meu cavalo graças a minha cortesia. Se for intrometido, revogarei o convite. Está claro?
- Bastante - respondeu, imitando seu sotaque de classe alta. Logo sorriu, pensando que Isabella tinha muito valor. Viajaram em silêncio, mas a companhia não era tão sociável como antes. Magnus limpou a garganta e logo aventurou com descaramento:
- Este corcel é propriedade dos MacArthur.
Isabella ficou tensa, e ele soube que tinha acertado.
Em lugar de responder zangada, Isabella decidiu que os dois podiam jogar esse jogo.
- Suas mãos não parecem as de um trabalhador - observou.
- Um cantador trabalha com a língua, querida.
- Ah, sim? - Isabella girou uma das mãos de Magnus -. Os calos nas palmas revelam um rigoroso treinamento com a espada. - Magnus não respondeu. Isabella ansiava voltar-se para ver sua expressão.
- De fato, embora dê a impressão de ser mais velho, sei que é jovem. Para falar a verdade, deve ter a mesma idade que... - conteve-se bem a tempo.
- A mesma idade de quem?
- De ninguém. Quem é realmente?
- Sou mais forte que você - sussurrou Magnus asperamente junto a seu ouvido -. Continuará viva só graças a minha cortesia. Se for intrometida... Está claro?
- Sim – resmungou Isabella, repentinamente assustada. Que loucura tinha cometido ao recolher a aquele vagabundo! De fato, a maior loucura tinha sido abandonar a segurança dos muros de Dunridge!
Magnus deteve o cavalo e Isabella conteve a respiração, convencida de que seu final estava perto. O homem desmontou e baixou à moça da cela sem muita delicadeza. Ao ver os olhos verdes de Isabella, muito abertos pelo medo, sua expressão ameaçadora se suavizou.
- Sinto muito ter te assustado - desculpou-se com marcado sotaque escocês -. Devemos nos conceder uma trégua, não acha? - Isabella se apressou a assentir e Magnus sorriu com a inesperada docilidade para agradá-lo da moça -. Ambos temos segredos que não queremos revelar. Acaso não podemos viajar juntos sem bisbilhotar?
- Você começou.
- Tem razão.
Apanhado nas profundidades esmeralda dos olhos de Isabella, Magnus inclinou a cabeça, atraído por seus lábios. Quando estava a ponto de beijá-la, o estômago da jovem rangeu audivelmente.
Com um sorriso, Magnus se retirou.
- Tem fome?
- Estou esfomeada.
- Por que não disse antes?
- Tem algo para comer? - Isabella ficou com água na boca só de pensar.
- Não aqui - admitiu Magnus -, mas conseguiremos algo.
- Como?
Magnus olhou ao redor e depois ao céu.
- Já está escurecendo – disse -. Pararemos em algum lugar para passar a noite.
- Vai caçar?
- Não é necessário. Esta zona está cheia de camponeses do clã Campbell.
- E isso do que nos serve? - perguntou Isabella.
- Nas terras altas é costume oferecer hospitalidade aos viajantes - explicou o escocês.
- Prefiro não deixar rastro de minha passagem para o sul.
- Não se preocupe por isso, minha pequena inglesa - replicou Magnus brincalhão, lhe dando alguns golpezinhos na ponta do nariz -. Também é costume nas terras altas abster-se de perguntar a identidade do viajante...
Recusando ocupar uma das duas cadeiras da choça, Isabella se sentou no chão, em frente a pequena chaminé, e terminou sua comida, composta de guisado sem carne, queijo e pão. Jamais nada lhe tinha parecido tão delicioso.
Magnus estava certo. Sem fazer nenhuma pergunta, o camponês já bem idoso e sua esposa lhes tinham convidado a compartilhar seu modesto jantar e alojamento. Entretanto, algo em seu comportamento indicava que não era a primeira vez que viam Magnus.
- Tem um apetite extraordinário para ser tão miúda - burlou-se Magnus, sentando-se junto a ela.
- Meu guisado estava a seu gosto?
Isabella se ruborizou.
- Estava morta de fome. Além disso, prefiro o guisado ao haggis.
Magnus sorriu.
- É hora de dormir. Nos poremos em caminho ao amanhecer.
- Pode dormir em nossa cama, senhora - ofereceu a anfitriã.
Isabella olhou à mulher mais velha e decidiu que ela, que era mais jovem, dormiria no chão.
- Não, obrigado - recusou.
- Se cubram com isto - disse o camponês, dando a Magnus um casaco escocês com as cores do clã Campbell -. Os manterá quentes.
Magnus sorriu para Isabella com expressão irônica.
- Se nos deitarmos juntos e nos envolvemos com esta capa nos manteremos quentes.
- Não tem outra que possamos usar? – perguntou Isabella, ruborizada.
- Só há esta. - Magnus sorriu maliciosamente.
- Bem, - aceitou Isabella sem insistir mais. Perguntava-se se o camponês e sua esposa teriam uma boa carabina.
- Não confia em mim?
- Suponho que sim.
- Para um montanhês, Bella, não há nada mais desonroso que aproveitar-se de uma pessoa que ofereceu sua confiança.
- É nativo das terras altas?
- Sou - respondeu Magnus com solenidade, mas apertou os lábios para dissimular sua diversão.
Os olhos verdes de Isabella procuraram o olhar de olhos cinzas de Magnus e comprovou que seu companheiro de viagem falava com sinceridade. Timidamente, Bella se deixou abraçar. Magnus envolveu a capa xadrez ao redor dos dois para proteger do frio da noite e aproximou Isabella contra seu corpo. A jovem apoiou a cabeça contra seu peito. O rítmico pulsar do coração de Magnus embalou à moça, a qual não demorou para entrar em um profundo e aprazível sono.
Magnus pousou um suave beijo em sua cabeça e fechou os olhos.
A dor aguda de um forte tapa no traseiro despertou Isabella. « Edward! - pensou alarmada -. Edward está aqui.»
- Disse que levante - ordenou uma voz severo. Isabella abriu os olhos e viu como a figura de Magnus se desenhava ameaçadoramente sobre ela -. Criatura preguiçosa. Faz uma hora que amanheceu, e os Campbell estão trabalhando duro. Se não se levantar agora mesmo, deixarei-a para trás. -, Isabella aceitou a mão que oferecia e se levantou cansadamente.
- Há mingau para você na mesa.
O café da manhã estava frio, mas ao pensar que possivelmente fosse a única coisa que comeria durante todo o dia, Isabella se obrigou a terminá-lo. Logo olhou de soslaio a seu companheiro; depois de dobrar cuidadosamente a capa xadrez dos Campbell, Magnus a envolveu junto com outras coisas em uma bolsa que colocou sob o ombro. Ao ver o olhar interrogante de Isabella, esclareceu:
- Insistiram que nós levássemos o casaco e algumas provisões.
- Também é costume nas terras altas abastecer os viajantes que vão de passagem?
- Não, pequena, é a magnânima generosidade do grande clã Campbell.
A sombra do entardecer se fundia na escuridão quando Magnus abandonou o caminho e entrou no bosque. Detiveram-se perto de um riacho onde poderiam dar água para o cavalo e acampar durante a noite.
Magnus desmontou e desceu do corcel uma Isabella exausta.
- Graças aos Campbell – disse-lhe -, não precisamos caçar esta noite. Não acenderemos nenhum fogo.
- Mas tenho frio – queixou-se Isabella, e seus olhos se encheram de lágrimas.
- Já sei - disse Magnus, lhe acariciando a bochecha -, mas já não estamos nas terras dos Campbell. Amanhã será melhor, e farei o possível para evitar que esta noite se congele. Agora pode ir fazer suas necessidades.
Isabella se ruborizou e logo entrou entre as árvores. Quando retornou, Magnus tinha desfeito as trouxas. Em silêncio, tomaram um austero jantar composto de pão e queijo.
- É hora de dormir. - Magnus sustentou a capa aberta a modo de convite.
- Mas... estamos sozinhos.
- Pois sim. Se aproxime e farei que sinta calor.
Isabella se refugiou em seu abraço. Magnus envolveu seus corpos com o tecido escocês e, uma vez deitados sobre o leito de terra, rodeou Isabella com os braços para lhe dar calor. A moça elevou a vista e descobriu Magnus olhando-a.
Cativada por seus penetrantes olhos cinzas, sentiu-se incapaz de protestar quando Magnus aproximou seus lábios aos dela. Durante uma mera fração de segundo, a jovem se abandonou a aquele beijo, mas a imagem de Edward apareceu em sua mente como um espectro, e Isabella recuperou a prudência. Apertou suas pequenas mãos contra o peito do Magnus, tratando de afastá-lo.
- Por favor - suplicou enquanto ele beijava suas pálpebras e suas têmporas - Sou uma mulher casada.
- Infelizmente casada - sussurrou Magnus com voz rouca, sem deixar de beijá-la.
- Não importa se meu matrimônio é feliz ou desventurado – disse Isabella com amargura -. Fiz um juramento perante Deus. Além disso, amo o meu marido.
Magnus suspirou, derrotado.
- E por desgraça, eu sou um homem de honra. Bem. Está a salvo comigo.
Deitados muito juntos, dormiram.
Quase duas semanas mais tarde, entraram em Londres através de Bishopgate em um rude dia de chuva. Com olhos muito abertos de assombro, Isabella ficou maravilhada ao ver pela primeira vez aquela cidade. Jamais, nem sequer em seus sonhos mais fantasiosos, tinha imaginado um lugar como aquele, tão enorme e buliçoso. Multidão de pessoas de todas classes passavam apressadamente de um lado a outro, entrecruzando-se nas ruas estreitas e lamacentas. Os londrinos pareciam participar de uma corrida. Isabella pensou que todos queriam terminar antes seus assuntos e refugiar-se da chuva.
Magnus deteve o cavalo e desmontou. Logo ajudou Isabella a descer. Seus delicados pés se afundaram no barro e a moça riu bobamente ao ver como umas gotinhas de chuva caíam da ponta de seu nariz.
- Graças a Deus, já chegamos – exclamou Magnus.
- Assim é.
- Tenho uma conta para acertar com alguém. Devemos nos despedir.
- Oh. - Isabella sentiu um nó na garganta.
- Posso te acompanhar até a casa de seus amigos - se ofereceu Magnus.
- Não, obrigado – declinou Isabella.
- Não seria nenhuma chatisse - acrescentou o escocês, resistente em deixá-la.
- Não é necessário - assegurou-lhe a moça com um radiante sorriso -. Meus amigos não estão longe daqui. Estarei bem.
- Viajar contigo, Bella, foi uma experiência única. Absolutamente memorável.
Isabella sorriu.
- Isso está verdade?
Magnus riu e logo a estreitou entre seus braços. Seus lábios lhe deram um beijo cheio de doçura.
- Sentirei sua falta - sussurrou, e logo se afastou.
Desconsolada, Isabella o viu partir e acariciou seu cavalo com expressão ausente. « meu cavalo!», pensou de repente.
- Magnus! - gritou, correndo para ele e arrastando ao animal detrás -. Magnus!
O escocês se deu a volta.
- O que foi?
- O cavalo. - Isabella lhe ofereceu as rédeas -. Aceita-o como um presente.
- Não entendo.
- Eu não necessito mais dele – explicou-. Volta com ele para a Escócia.
- Tem certeza?
- Sim.
- Nunca esquecerei sua bondade. - Magnus a beijou na bochecha e logo montou e partiu.
Voltou à vista para trás só uma vez e viu Isabella de pé no mesmo lugar onde a tinha deixado, com aspecto de menina enganada. Logo girou o cavalo em direção a Strand, a parte mais elegante de Londres.
Saindo de Strand; Magnus seguiu pelo estreito caminho para carruagens que conduzia a Lennox House e rodeou o edifício até chegar à parte traseira. Então desmontou e bateu na porta. Esta se abriu e apareceu um criado de aspecto arisco.
- Boa tarde – saudou Magnus o lacaio.
- O que quer? - perguntou o criado com tom autoritário -. Aqui não encontrará esmola.
- Acabo de chegar do norte - explicou Magnus, reprimindo o desejo de deixar aquele tipo na rua -, e trago um conto muito interessante para os ouvidos do conde.
- Quer falar com o conde? - perguntou o lacaio, incrédulo.
- Estás me esperando.
- Está te esperando? - repetiu o servente, perplexo.
- Se valoriza sua posição nesta casa, será melhor que vá buscá-lo agora mesmo! - ameaçou Magnus.
- Espere aqui. - A porta se fechou de repente.
Alguns momentos depois, a porta se abriu de novo. O conde de Lennox, de meia idade e vestido com roupas suntuosas, examinou o andrajoso cantador.
- Tenho um conto para você, Lennox, sobre uma rainha em busca do companheiro apropriado. Você gostaria de escutá-lo?
- Campbell?
- Sim. - Magnus entrou.
O conde de Lennox moveu a cabeça em sinal de desaprovação, aborrecido com o andrajoso traje do escocês.
- Tem que se disfarçar com farrapos? Por que não muda para melhor?
Magnus arqueou as sobrancelhas com expressão zombadora.
- Disfarçado de que para fazer a longa viagem da Escócia para a Inglaterra? De Deus todo-poderoso? Pareceria tremendamente indiscreto.
Quando Magnus desapareceu de sua vista, Isabella ficou de pé onde estava, afundada no barro até os tornozelos. Desesperadamente sozinha, olhou ao redor, perguntando-se aonde podia ir. Seu apressado plano não incluía o que ia fazer uma vez que chegasse a Londres.
«Seguirei à multidão – disse-se -. A zona mais concorrida é provavelmente a mais segura.» Sem fazer caso da chuva nem do barro, Isabella pôs-se a andar. A cada passo seus pensamentos se tornavam mais negros. Sérias dúvidas a respeito de como sobreviveria invadiram sua mente. « Que estupidez ter fugido de Dunridge sem um plano adequado! - repreendeu-se com dureza -. Todas as pessoas que passam a meu lado têm algum lugar aonde uma família, um lar. Somente eu não tenho onde me refugiar. Se não estivesse ocorrendo, comigo, nunca acreditaria que uma pessoa pode sentir-se tão terrivelmente só em uma cidade lotada e buliçosa como esta.»
Sem saber para onde se dirigiam seus passos, Isabella foi parar em Cheapside Market, que estava repleto de gente. De repente, um golpista a empurrou por detrás e gritou uma desculpa enquanto se afastava correndo.
- Tome cuidado ou se encontrará com os bolsos vazios - advertiu-a alguém.
Isabella procurou suas moedas no bolso. Estava vazio! Furiosa, correu freneticamente atrás do maroto, pois estava segura de que lhe tinha roubado o dinheiro. Enquanto corria penosamente pela lama, a saia pesada de Isabella, empapada de chuva e barro, enredou-se entre suas pernas e a moça caiu no chão. Cansada, cheia de frio e faminta, Isabella se sentiu derrotada pelas circunstâncias. Ficou sentada no chão, chorando por sua desgraça. Que a filha de um respeitado conde tivesse chegado tão baixo!
- Ah, que diabos...! - Alguém tropeçou em Isabella e aterrissou a seu lado no barro. Através de um nebuloso véu de lágrimas, Isabella viu uma moça coberta de lodo -. Que diabos acha que está fazendo? - gritou a moça, ficando em pé de um salto. Olhou Isabella com expressão beligerante, e esta começou a chorar ainda mais forte. «Mundana» seria a palavra que um observador casual teria utilizado para descrever a aquela enfurecida mulher. De estatura mediana, era mais alta que Isabella e tinha um corpo bem dotado. Encrespado como uma bucha, seu cabelo era castanho claro, salpicado com mechas de um loiro pálido. Olhos inteligentes de cor avelã rematavam um indescritível nariz que luzia uma esfumada chuva de sardas. A mulher observou Isabella com ar especulativo. « Aha! - pensou ao descobrir suas suaves mãos de marfim -. Essas mãos não sabem o que é um dia de trabalho duro. Não é nenhuma garota de classe baixa, mas alguém com categoria.»
- Tem o cérebro tão podre que não pode pensar em se resguardar da chuva? - mofou com desprezo.
- Eu... não tenho aonde ir – soluçou Isabella. « Uma fugitiva! Algum cavalheiro distinto pagará um suculento resgate se a devolvem sã e salva.» A mulher estendeu sua mão e disse:
- Agora o tem.
Isabella contemplou aturdida a mão que lhe oferecia aquela desconhecida e logo olhou seus olhos castanhos.
- O que quer dizer?
- Disse que já tem aonde ir - repetiu a mulher -. Me dê a mão, anda. - Isabella aceitou o oferecimento e se levantou -. Meu nome é Marianne, mas me chame Randi... todos meus amigos me chamam assim.
- Meu nome é Isabella... mas meus amigos me chamam Bella.
- Tem amigos? - perguntou Marianne com fingida incredulidade -. Nunca teria imaginado pelo modo como estava caída no barro, chiando como um maldito porco.
- Claro que tenho amigos! - respondeu Isabella -. Muitos amigos! Mas é óbvio que não vivem em Londres.
- Entendo. - Marianne imitou o tom presunçoso de Isabella -. Peço-lhes perdão humildemente, senhora. Que descuido tão embaraçoso por minha parte não me haver dado conta.
Apesar de seu infortúnio, Isabella se pôs a rir, e Marianne lhe piscou os olhos.
- Vamos, The Rooster está justo à volta da esquina.
- The Rooster?
- O botequim The Royal Rooster – esclareceu Marianne -. O lugar onde vivo e trabalho.
As duas mulheres andaram com dificuldade pelo barro. Antes de chegar à esquina, Marianne arrastou Isabella para um beco sórdido e fedido.
- Entraremos pela porta traseira – disse -. Não quero que os clientes se assustem ao ver nosso aspecto.
A metade do beco, Marianne conduziu Isabella até a cozinha do botequim e a empurrou bruscamente sobre um tamborete.
- Fique aí, encanto - ordenou com sotaque barreiro -. Trarei algo para reanimá-la.
Isabella pôs as mãos sobre seu colo recatadamente e deu uma olhada ao redor. A escassos metros dela se achava o cozinheiro do botequim, que a olhava fixamente. Era um homem baixo e corpulento, extremamente gordo. Tinha os lábios grossos e gordurentos, e seus olhos escuros, pequenos e brilhantes, recordavam aos de uma serpente. Isabella não tinha visto jamais um homem com um aspecto mais repulsivo.
- Beba isso tudo – ordenou Marianne, passando a Isabella um copo de uísque. Logo se deu conta de que o cozinheiro as estava observando -. Que diabos está olhando, Bertie?
O tipo abriu a boca para responder, mas Marianne tinha a língua ágil e afiada .
- Por que não vai ao inferno, porco pestilento?
Isabella se engasgou com o uísque, e Marianne lhe bateu as costas, com tanta força que quase a atirou do tamborete. A porta que dava ao salão se abriu e uma mulher loira entrou na cozinha. Era atrativa, e sabia como realçar seus encantos, o qual era evidente por sua blusa, um tanto transparente e muito decotada. Ao ver as duas aparições cobertas de barro, a recém chegada se deteve em seco.
- Que diabos trouxe para casa desta vez, Randi? - chiou -. Outra vagabunda?
- Cale-se, Lil, ou se arrependerá! - grunhiu Marianne -. e não me chame Randi! Esse nome está reservado tão somente para meus amigos!
- Que diabos está acontecendo aqui? - perguntou uma grave voz masculina. A voz pertencia a um homem musculoso e grosseiramente atrativo que correu à cozinha ao ouvir as exaltadas vozes das duas mulheres -. Há clientes esperando! Movam seus malditos corpos!
Bertie retornou rapidamente a suas tarefas, e Lil voltou para salão. O homem fixou sua atenção em Marianne.
- Que demônios aconteceu? - perguntou bruscamente -. e quem é esta?
- Tropecei com esta dama na rua. - O rosto de Marianne se adornou com o mais doce dos sorrisos -. Bella, este é Bucko Jacques, o proprietário do botequim. Bucko, esta jovem é a senhorita Isabella...
- Isabella Devereux MacArthur. É um prazer conhecê-lo, senhor Jacques.
Bucko entrecerrou seus olhos escuros e Marianne atirou-se para seu colo como uma menina.
- Bucko, querido, podemos falar em particular? – O homem assentiu com a cabeça e ambos caminharam até, o canto mais afastado da cozinha -. Essa garota não é nenhuma fulana, mas sim uma dama em apuros – sussurrou Marianne -. Cedo ou tarde, certamente virá em sua busca um rico cavalheiro. Se a retivermos aqui a salvo, agradecerá-nos com uma bolsa de ouro.
- Não sei, Randi – Bucko parecia indeciso.
- Pode trabalhar para manter-se até que ele apareça. Não faria mal um par de mãos extra.
- Onde vai dormir? - protestou Bucko -. O negócio vai bem e não temos quartos livres.
Sorrindo com acanhamento, Marianne esfregou seus exuberantes peitos contra o braço de seu patrão.
- Se compartilhar o quarto com o Lil, eu não terei mais escolha que compartilhar sua cama.
- Uma idéia excelente. - Os olhos de Bucko brilharam de regozijo -. Um par de mãos extra, uma bolsa de ouro, e você! Que mais pode pedir um homem?
Bucko retornou ao salão, sem saber que tinha entrado em uma doce armadilha. Marianne sorriu satisfeita quando lhe deu as costas e logo agarrou uma chaleira de água quente e uma pastilha de sabão.
- Me siga... - ordenou a Isabella, a qual foi atrás dela obedientemente.
Subiram por umas escadas estreitas e desmanteladas que havia ao fundo da cozinha. Uma vez em cima, Marianne girou para a esquerda e entraram no primeiro quarto. Deprimentemente pequena e sem janelas, a estadia continha duas camas de casais, dois pequenos baús, e uma mesa velha que estava nas últimas.
- Compartilhará o quarto com Lil – disse Marianne, deixando a chaleira de água sobre a mesa -. É tudo o que posso fazer por você. - Mexeu em um dos baús, tirou uma camisola puída e olhou para Isabella, a qual não tinha feito o menor movimento para o recipiente com água.
- Se dispa!
- Como disse?
- Já me ouviu – respondeu Marianne -. Tire essa roupa, se lave e ponha esta camisola.
Isabella tirou a capa e o vestido cheios de barro, mas ficou de camisa. Logo começou a lavar-se.
- Chamas isso de despir-se? - chiou Marianne.
- Mas...
- Despir-se significa tirar toda a roupa, querida. Quero ver seu precioso corpo nu!
- Perdão, como disse? - Isabella tinha o rosto vermelho.
- Realmente é inocente, não é? - disse Marianne rindo -. Me escute, céu, não tem nada do que eu não tenha mais que você. Compreende?
- Fala com bastante clareza.
- E não te estou pedindo nada indecente – acrescentou Marianne -. Só quero lavar essas roupas!
- Oh, entendo... - Isabella tirou a camisa e ficou imóvel, tímida por causa de sua nudez.
- Depressa e se lave. - Sem fazer caso de Isabella, Marianne agarrou as roupas sujas e se dirigiu para a porta -. Trarei algo para comer.
Isabella se apressou a lavar-se e vestiu a andrajosa camisola. Logo se sentou na beira de uma das camas de casal e esperou. Alguns minutos depois, Marianne entrou com uma bandeja.
- Aqui está, querida – disse -. Trouxe guisado, pão, queijo e vinho. Termine isso tudo.
Marianne se sentou na outra cama de casal e a observou, sem deixar de tagarelar durante todo o momento.
- Eu dormirei no final do corredor. Não deixe que Lil te incomode... tem peitos grandes e nada de cérebro. - Isabella abriu a boca, mas Marianne a cortou -. Coma – ordenou -. Eu me encarrego do bate-papo. Está muito magra, e penso acrescentar um pouco de carne a esses ossos. Caso não saiba, os ossos atraem os cães e a carne aos homens. - Quando Isabella terminou o último bocado, Marianne retirou a bandeja -. É hora de dormir, querida. Despertarei cedo para que possa me acompanhar a Cheapside Market. - Com atitude maternal, Marianne agasalhou a sua nova amiga até o queixo.
- É uma dama – disse Isabella brandamente, com os olhos cheios de lágrimas -. foi muito amável.
- É muito generoso de sua parte dizer isso. - Marianne lhe deu uns tapinhas na mão.
- Como lhe poderei pagar isso?
- Não se preocupe por isso – disse Marianne. Logo sorriu -. Estou certa de que pensarei em algo.
Só na escuridão, os pensamentos de Isabella voaram para Escócia, cobrindo as centenas de quilômetros de distância em um abrir e fechar de olhos. « Nunca voltarei a ver Edward. Terá retornado a Dunridge? Saberá que não estou lá? Importará-se?» Com a cara escondida no travesseiro, Isabella soluçou até dormir.
Alguém esta intrigada com esse Magnus? Ou furiosa com a atitude da Bells? Ou a suprema inocência? Pra quem é casada ela é bem tapadinha kkkk
Tadinha... Mais então o que acharam do cap? Espero que tenham gostado...
Bem quero agradecer por todos o recadinhos deixados em cada cap, eles sao muito importantes *-*
e queria agraser a Ninha Souma pelo comente/carta kkkk e informar que nao mudo muia coisa da historia original somente alguns poucos detalhes...
Espero que estejam gostando da fic :p
Ate sábado que vem :)
