Capítulo 9

Quando eu entrei no Rambler no fim do dia, Mestre estava todo agitado. - Está todo mundo comentando! - gritou, pulan do no assento. - Todo mundo viu! Você salvou a vida daque le cara! Você salvou a vida do Bryce Martinson!

Eu não salvei a vida de ninguém - retruquei, ajeitan do calmamente o espelho retrovisor para dar uma olhada nos cabelos. Jóia. O ar salgado definitivamente me faz bem.

Salvou sim. Eu vi aquela tora de madeira. Se tivesse caído na cabeça dele, estava morto! Você o salvou, Bella! Pode crer que salvou.

Bem - disse eu, passando brilho nos lábios. - Talvez.

Caramba, você só foi ao colégio um dia e já é a garo ta mais popular da área!

Mestre não conseguia mesmo se conter. Às vezes eu fica va pensando se um Lexotan não seria uma boa. Não que eu não gostasse dele. Na realidade, era o filho dCarlisle de que eu gostava mais - o que no fundo não quer dizer mui ta coisa, mas é o melhor que posso dizer. Mestre é que chega ra para mim na noite da véspera, quando eu estava ten tando decidir o que vestiria no primeiro dia de aula, e me perguntara, muito pálido, se eu tinha certeza que não que ria trocar de quarto com ele.

Fiquei olhando para ele como se ele estivesse maluco. Seu quarto era bem legal, e tudo mais, mas espera aí. Desistir do meu próprio banheiro e da vista para o mar? Nem pen sar. Nem que isso significasse que eu estaria me livrando do meu incômodo companheiro de quarto, o Edward, que na realidade não tinha voltado a aparecer desde que eu o ti nha mandado passear.

- Por que diabos eu haveria de querer trocar o meu quar to? - perguntei.

Mestre deu de ombros.

-É que... é que este quarto aqui é meio horripilante, não acha não?

Fiquei olhando para ele. Vocês deviam ver como o meu quarto estava. Com o abajur da mesinha-de-cabeceira ace so, envolvendo tudo numa maravilhosa luz rosada, e o meu CD player tocando Janet Jackson - tão alto que duas vezes minha mãe tinha gritado para eu abaixar -, hor ripilante era a última coisa que alguém diria sobre o meu quarto.

- Horripilante? - repeti, olhando ao redor. Nenhum sinal do Edward. Nenhum sinal de nada anormal. Estávamos perfeitamente instalados no reino dos seres vivos. - O que tem de horripilante aqui? Mestre franziu a boca.

- Não diga nada ao papai - explicou então -, mas tenho andado um bocado por aí pesquisando esta casa, e cheguei à conclusão, sem sombra de dúvida, de que ela é mal-assombrada.

Fiquei olhando para sua carinha sardenta, e vi que ele estava falando sério. Muito sério, como deixou claro o seu comentário seguinte.

- Embora a maioria dos cientistas tenha descartado quase todas as alegações de casos de atividades paranormais no país, persistem muitos indícios de fenômenos espectrais acontecendo no mundo sem explicação. Minha investi gação aqui em casa ficou a desejar em matéria de indícios considerados tradicionais de presença de espíritos, como os chamados pontos frios. Mas ainda assim, Bella, ficou perfei tamente evidente a variação de temperatura neste quarto, levando-me a concluir que provavelmente houve aqui pelo menos um caso de grande violência, talvez até um assassi nato, e que alguns remanescentes da vítima (que você pode chamar de alma, se quiser) ainda estão por aqui, talvez na vã esperança de conseguir justiça para sua morte violenta.

Eu me recostei numa das colunas da minha cama. Caso contrário, poderia ter caído.

- Caramba - disse, fazendo força para manter a voz normal. - Impossível fazer uma garota se sentir mais bem- vinda.

Mestre ficou meio embaraçado.

- Lamento - disse ele, com a ponta das orelhas ficando vermelha. - Não devia ter dito nada. Falei sobre isto com o Jasper e o Emmett e eles disseram que eu estava maluco. Talvez esteja mesmo. - E depois de engolir em seco, tomando coragem: - Mas considero meu dever, como homem, me ofe recer para trocar de quarto com você. Como vê, não estou com medo.

Eu sorri para ele, esquecendo completamente meu choque numa súbita onda de afeto. Fiquei realmente sensi bilizada. Dava para ver que o carinha tinha precisado reu nir toda a coragem para fazer aquela proposta. Ele realmente estava convencido de que o meu quarto era mal-assombrado, apesar de tudo que a ciência lhe dizia e no entanto se mostrava disposto a se sacrificar por minha causa, por puro cavalheirismo. Impossível não gostar do carinha. Impossível mesmo.

- Beleza, Mestre - disse eu, esquecendo completamente de tudo, numa onda de sentimentalismo, e chamando-o pelo apelido que inventara para ele. - Acho que seria perfei tamente capaz de enfrentar qualquer fenômeno paranormal que viesse a ocorrer aqui.

Ele não pareceu se importar com o apelido. Evidente mente aliviado, disse:

Bom, se você realmente não se importa...

Não, está tudo bem. Mas queria te perguntar uma coisa - continuei, abaixando a voz, para o caso de o Edward estar em algum lugar por ali. - Nessas suas pesquisas, em algum momento você ficou sabendo o nome desse pobre coitado cuja alma estaria vagando pelo meu quarto? Mestre sacudiu a cabeça.

- Se você quiser realmente, posso conseguir para você. Posso dar uma olhada na biblioteca. Eles têm lá todos os jornais que foram publicados aqui na região desde que começou a imprensa local, pouco antes da construção desta casa. Está tudo em microfilmes, e tenho certeza de que se ficar algum tempo dando uma olhada...

A coisa me parecia meio absurda, um garoto passando o tempo todo numa biblioteca bolorenta vendo micro filmes, com uma praia daquelas a dois quarteirões dali. Mas cada um na sua, certo?

- Beleza - foi tudo que consegui dizer.

Agora eu estava vendo que o fraco que o Mestre tinha por mim ameaçava adquirir dimensões completamente des proporcionais. Primeiro eu tinha me prontificado a viver num quarto que segundo diziam podia ser mal-assombrado, depois tinha salvado a vida de Bryce Martinson. E depois, que grande façanha me esperava? Correr os cem metros ra sos em 10s04?

- Veja bem - disse eu, enquanto Soneca pelejava com a ignição, que aparentemente tinha uma certa tendência a não funcionar na primeira tentativa. - Eu fiz apenas o que qualquer um de vocês teria feito se estivesse lá.

- O Emmett estava lá e não fez nada - atalhou Mestre. Dunga interferiu:

- Corta essa, eu não vi nenhuma droga de viga, está bem?

Se tivesse visto, também teria empurrado ele dali. Minha nossa!

- Tudo bem, mas você não viu. Provavelmente estava ocupado demais olhando para Kelly Prescott.

Dizendo isto, Mestre levou um belo safanão no braço:

Fecha essa matraca, David - disse o Dunga. - Você não sabe do que está falando.

Cala a boca todo mundo! - cortou o Soneca, num raro acesso de mau humor. - Nunca vou conseguir tirar este carro do lugar se vocês continuarem me atrapalhando desse jeito. Emmett, pare de bater no David, David, pare de gritar no meu ouvido, e Bella, se você não tirar este seu cabeção aí do espelho nunca vou conseguir ver para onde estamos indo. Vou te contar, mal posso ver a hora de botar minhas mãos naquele Camaro!

Foi depois do jantar que o telefone tocou. Minha mãe teve de berrar lá de baixo porque eu estava com meus fones de ouvido. Embora ainda fosse o primeiro dia do novo se mestre, eu já tinha um bocado de dever de casa para fazer, sobretudo de geometria. Na minha antiga escola nós só tínhamos chegado ao capítulo sete. Os segundanistas da Academia da Missão já estavam no capítulo doze. E eu sabia que estaria acabada se não começasse a recuperar o atraso.

Quando desci para atender o telefone, minha mãe já estava tão furiosa comigo por ter precisado gritar - o trabalho dela exige que cuide muito bem das cordas vocais - que nem quis dizer quem era. Eu peguei o telefone e disse alô.

Houve uma pausa, e eu ouvi a voz do padre Dominic.

- Alô? Isabella? É você? Desculpe incomodá-la em casa, mas estive pensando muito, e realmente estou achando... eu cheguei à conclusão de que precisamos fazer alguma coisa imediatamente. Não consigo parar de pensar no que teria acontecido ao pobre Bryce se você não estivesse lá.

Eu olhei para os lados. O Dunga estava jogando Cool Boarders (com o pai, a única pessoa na casa que deixava ele ganhar), minha mãe estava trabalhando no computador, Soneca tinha saído para substituir um entregador de pizza que estava doente e Mestre estava na mesa da sala de jan tar trabalhando num projeto de ciências que só teria de apre sentar em abril.

Hmm - disse eu. - Olha só, realmente não vou poder falar agora.

Entendo - disse o padre Dom. - E não se preocupe, quem fez a chamada atendida pela sua mãe foi uma das noviças. Sua mãe está achando que foi uma nova amiguinha sua da escola. Mas o fato, Isabella, é que precisamos fazer alguma coisa, de preferência esta noite...

Olha - respondi. - Não se preocupe. Está tudo sob controle.

Padre Dom pareceu surpreso.

Está mesmo? Tem certeza? Como? Como você está conseguindo manter a coisa sob controle?

Não tem importância. Mas eu já fiz isto antes. Tudo vai dar certo, prometo.

- Ora, está bem, é ótimo prometer que tudo vai dar certo , mas eu já a vi em ação, Isabella, e não posso dizer que fiquei muito bem impressionado com o seu método. Daqui a um mês o arcebispo estará chegando, e realmente eu não posso...

O telefone sinalizou que havia outra chamada, eu pedi que ele esperasse um minutinho, apertei o botão e disse:

Casa dos Ackman Swan.

Bella? - disse uma voz de garoto, que eu não reconheci.

Sim...

Oi, tudo bem? É o Bryce. Então. Qual é a boa?

Eu olhei para minha mãe. Estava com a cara completa mente enfiada na reportagem em que estava trabalhando.

- Hmm - disse eu -, nada demais. Pode esperar só um pouquinho, Bryce? Estou com uma pessoa na outra linha.

- Claro - respondeu ele. Voltei para o padre Dominic.

- Então - retomei, com cuidado para não dizer alto o seu nome. - Agora preciso ir. Minha mãe está esperando uma chamada muito importante na outra linha. Um senador. Um senador muito importante.

Eu provavelmente iria para o inferno por causa disto - se é que existe este lugar -, mas não podia dizer a verdade ao padre Dominic: que eu ia sair com o ex-namorado do fantasma.

Ora, mas é claro - disse padre Dominic. - Eu... bem, se você tiver um plano...

Tenho sim. Não se preocupe. Nada vai estragar a visita do arcebispo. Prometo. Tchau - e desliguei, voltando para o Bryce: - Oi, desculpe... E aí?

Nada, não. Eu estava só pensando em você. Que vai querer fazer no sábado? Quer dizer... quer sair para jantar, ir a um cinema, ou quem sabe as duas coisas? A outra linha acendeu. Respondi:

- Bryce, eu sinto muito realmente, mas a casa aqui está uma zona... Pode esperar um minutinho? Obrigada. Alô? Uma voz de garota que eu nunca tinha ouvido disse: Oi, tudo bem? É a Bella?

- Falando - eu disse.

- Oi, Bellinha, é a Kelly. Kelly Prescott, da sua classe. Só queria te dizer... aquilo que você fez hoje pelo Bryce... foi muito legal. Puxa, nunca vi tanta coragem na minha vida! Deviam abrir manchete para você no jornal, no mínimo. Vou reunir uns amigos em casa neste sábado, nada de mais, só uma festinha na piscina, o pessoal lá de casa vai viajar no fim de semana, e a piscina é aquecida, claro... Então fiquei achando que se você quisesse, poderia aparecer...

Fiquei ali segurando o telefone, completamente abestalhada. Kelly Prescott, a garota mais rica e mais bonita da segunda série, estava me convidando para uma festa na piscina na mesma noite em que eu tinha um encontro com o garoto mais sexy da escola. Que ainda por cima estava na outra linha.

Puxa, Kelly, claro - respondi. - Eu adoraria. O Emmett sabe onde fica?

Emmett? - fez a Kelly, logo emendando: - Ah, o Emmett! Claro, ele é seu meio-irmão ou algo assim, certo? Isso mesmo, traz ele também. Mas, olha...

Adoraria ficar conversando, Kelly, mas estou com uma pessoa na outra linha. Podemos conversar sobre isto ama nhã no colégio?

Claro, sem problema. Tchauzinho.

Apertei de novo o botão do Bryce, pedi que esperasse mais um pouquinho, tampei o bocal do fone com a mão e gritei:

- Emmett, festa na piscina da casa daí Kelly Prescott neste sábado. Se não for, eu te mato.

Dunga largou o controle remoto.

- Nem pensar! - berrou, exultante. - O cacete que eu não vou!

Carlisle aplicou-lhe um cascudo.

- Olha a linguagem!

Eu voltei a falar com o Bryce.

-Jantar seria genial - disse. - Qualquer coisa, menos co mida natureba.

Ótimo! - fez ele. - Isso mesmo, eu também odeio co mida natural. Não tem nada igual a um bom pedaço de carne, com umas fritas e um bom molho...

Beleza, Bryce. Desculpe, mas é aquela outra chamada de novo, lamento mesmo mas vou ter de ir, tá bom? Falo com você amanhã no colégio.

OK, tudo bem - concordou Bryce, mas parecendo surpreso. Aposto que eu era a primeira garota que se preocupa va em atender a outra linha durante um telefonema dele. - Tchau, Bella. E obrigado de novo.

Sem problema. Disponha - e desliguei, atendendo à outra ligação.

- Bella? É Jéssica!

No fundo, ouvi o Mike gritando: - E eu também!

- E aí, garota? - foi dizendo a Jéssica. - Estamos indo para o Clutch. Quer que a gente te apanhe? O Mike acaba de tirar carteira de motorista.

Sou perfeitamente legal! - gritou o Mike no telefone.

Clutch?

É, o Café Clutch, no centro. Você não gosta de café? Você não é de Nova York?

Aquela eu tive que pensar.

Podes crer. O problema... é que eu já estou meio com prometida.

Ah, corta essa! Que compromisso você pode ter? Vai lavar o casaco? Sei que você é a maior heroína e coisa e tal, e talvez não tenha tempo para nós, simples mortais, mas...

Ainda não acabei minha redação sobre a batalha de Bladensburgo para o professor Walden - disse. - E ainda preciso estudar muita geometria se quiser chegar perto de vocês, gênios.

Ai meu Deus - retrucou Jéssica. - Falou, então. Mas vai ter que prometer que senta do nosso lado no almoço amanhã. Queremos saber direitinho como você apertou o seu corpo contra o do Bryce e como se sentiu e tudo mais...

Não quero saber nada disso - cortou o Mike, fingindo-se de horrorizado.

- É isso aí - concluiu Jéssica. - Eu quero saber tudinho. Eu prometi a ela que não omitiria nenhum detalhe e desliguei. Olhei para o telefone, e, para grande alívio meu, ele não estava tocando. Eu nem podia acreditar. Nunca na vida eu havia sido tão popular. Sinistro.

Claro que eu tinha pregado a maior mentira sobre o de ver de casa. Já tinha escrito a redação e estudara dois capí tulos de geometria - o máximo que eu conseguiria numa noite. Mas a verdade, claro, é que eu tinha uma missão a cumprir, e precisava me preparar.

Não é preciso muita coisa para fazer uma mediação. Cruzes e água benta são coisas que podem ser necessárias para matar um vampiro - e posso lhes garantir que nunca na vida encontrei um vampiro, e não foram poucas as ho ras que eu passei em cemitérios -, mas no caso de fantas mas, basta ter uma boa lábia.

Mas às vezes, para que o trabalho fique bem-feito, é ne cessário mesmo tomar certas providências. E para isso são necessárias algumas ferramentas. Recomendo sempre usar objetos encontrados no local, pois assim você não tem que carregar muita coisa. Mas não deixo de levar comigo um cinturão de ferramentas com lanterna, uma chave de fen da, alicates e coisas assim, que eu uso por cima de um par de leggings pretos. Eu estava apertando o cinturão por volta de meia-noite, feliz porque todo mundo na casa já es tava dormindo - inclusive o Soneca, que àquela altura já tinha voltado das entregas de pizzas -, e acabava de me me ter na minha jaqueta de moto quando recebi uma visita, adivinha de quem?...

- Minha nossa! - exclamei ao dar com o reflexo dele por trás do meu no espelho em que eu estava me olhando. Eu juro, há anos que vejo fantasmas, mas sempre me dá um calafrio quando algum deles se materializa na minha frente. Dei meia-volta, muito danada, não porque ele estivesse ali, mas por ter me apanhado de surpresa. - Por que ainda está por aqui? Achei que tinha dito para você se mandar.

Edward estava recostado no maior relax numa das pilastras da minha cama. Com seus olhos negros, me examinava do alto do meu capuz à ponta dos meus tênis.

Não acha que já é um pouco tarde para sair, Isabella? - perguntou ele, com a maior naturalidade, como se esti véssemos no meio de uma conversa sobre, sei lá, digamos, a segunda Lei dos Escravos Foragidos, que deve ter sido pro mulgada mais ou menos na época em que ele morreu.

Hmm - fiz eu, tirando o capuz. - Olha só, sem querer ofender, Edward, mas isto aqui é o meu quarto. Que tal você tentar se mandar? E que tal deixar que eu cuide da minha vida?

Edward nem se mexeu.

Sua mãe não vai gostar de saber que você está saindo tão tarde da noite.

Minha mãe? - E fiquei olhando para ele, lá em cima, pois era surpreendentemente alto para alguém que está mor to. - Que é que você sabe da minha mãe?

Gosto muito da sua mãe - disse Edward calmamente. - É uma boa mulher. Você tem muita sorte de ter uma mãe que a ame tanto. Acho que ela ficaria muito preocupada em ver que você está se expondo ao perigo.

Me expondo ao perigo... É isso aí!

- Tudo bem. Segura esta agora, Edward. Há muito tempo eu saio de noite e minha mãe nunca disse uma palavra so bre isto. Ela sabe perfeitamente que eu sei cuidar de mim.

OK, uma bela duma mentirinha, mas ele não tinha como saber mesmo...

- Sabe mesmo? - perguntou ele, erguendo dubitativamente uma das sobrancelhas negras. Não pude deixar de perceber que havia uma cicatriz cortando pelo meio essa sobrancelha, como se alguém tivesse zunido uma faca de raspão em seu rosto. Eu meio que senti a sensação que de via dar. Especialmente quando ele deu uma risadinha de satisfação e disse: - Acho que não sabe não, hermosa. Não neste caso.

Eu levantei as duas mãos.

- OK. Para começo de conversa: não fale comigo em es panhol. Número dois: você nem sabe aonde eu estou indo, de modo que sugiro que largue do meu pé.

- Mas eu sei perfeitamente aonde você está indo, Isabella. Você está indo para o colégio para tentar falar com aquela garota que está tentando matar o rapaz, aque le de que você parece estar... gostando. Mas estou lhe avisando, hermosa, você não agüenta com ela sozinha. Se tiver mesmo de ir, devia levar o padre com você.

Fiquei olhando para ele. Tinha a sensação de que meus olhos estavam saltando para fora, mas não podia acreditar no que estava acontecendo.

- O quê? Como pode estar sabendo de tudo isso? Por acaso você está... me perseguindo?

Ele deve ter percebido pela minha reação que não devia ter dito aquilo, pois se endireitou e disse:

Não sei o que significa esta palavra, perseguindo. Só sei que você está se expondo ao perigo.

Você anda me seguindo - insisti, apontando para ele um dedo acusador. - Vai dizer que não anda? Tenha dó, Edward, eu já tenho um irmão mais velho, não preciso de outro não. Não preciso que ande por aí me espionando...

Oh, claro - disse ele, com todo sarcasmo. - Esse irmão cuida muito bem de você. Quase tão bem quanto cuida do próprio sono.

Espera aí! - exclamei, saindo em defesa do Soneca, contra todas as probabilidades. - Ele trabalha de noite, está sabendo? Está economizando para comprar um Camaro!

Edward fez um gesto que muito provavelmente era gros seiro, lá pelos idos de 1850.

Você não vai a lugar nenhum - disse então.

Ah, é mesmo? - desafiei, rodando no calcanhar e saindo porta afora. - Tente me segurar, bafo de cadáver.

Ele foi de uma precisão cirúrgica. Minha mão já estava na maçaneta quando a tranca da porta se fechou. Eu nem tinha notado ainda que havia uma tranca na minha porta - ela devia ser muito antiga. O controle manual estava ar rebentado e só Deus sabia onde é que podia estar a chave.

Fiquei parada ali bem meio minuto, olhando para mi nha mão sem acreditar muito enquanto ela girava em vão a maçaneta. Até que resolvi respirar bem fundo, como havia sugerido a terapeuta da minha mãe. Ela não estava querendo dizer que eu devia respirar fundo quando estivesse en frentando um fantasma perseguidor. Achava apenas que de via fazê-lo de maneira geral, sempre que estivesse me sentindo estressada.

Mas o fato é que ajudou. E ajudou muito.

- OK - disse afinal, voltando-me. - Edward, isto não é nada legal.

Edward ficou muito sem graça. Bastava olhar para ele para entender que não estava nada satisfeito com o que acabara de fazer. Não sei o que foi que causou a sua morte na vida anterior, mas certamente não foi por ele ser um sujeito cruel ou por gostar de machucar as pessoas. Ele era um bom su jeito. Ou pelo menos estava tentando ser.

- Eu não posso... - disse ele, já agora bem na minha frente. - Isabella, não vá. Essa mulher... essa garota, a Lauren, não é como os outros espíritos que você pode ter encontrado. Ela está cheia de ódio. Se puder, vai matá-la.

Eu dei um sorriso encorajador:

- Aí mesmo é que eu devo acabar com ela, não? Vamos lá, abra a porta.

Ele hesitou. Por um momento, achei que ele ia abri-la. Mas ele acabou não abrindo. Apenas ficou lá, meio sem graça, mas firme.

- Como quiser - disse eu, e o contornei, caminhando direto para a janela. Botei um pé no assento que Carlisle havia feito e levantei a persiana da janela. Já estava com uma perna passando sobre o peitoril quando senti sua mão agarrando meu pulso.

Voltei-me para olhar para ele. Não consegui ver seu ros to, pois a luz da minha cabeceira estava por trás dele, mas ouvia perfeitamente sua voz e o tom suave em que pedia:

- Isabella...

Só isso: apenas o meu nome.

Eu não disse nada. Nem podia. Quer dizer, claro que po dia, não era como se houvesse um caroço na minha gargan ta ou coisa assim. Simplesmente... sei lá.

Em vez disso, fiquei olhando para a mão dele, que era muito grande e meio escura, mesmo por cima do couro pre to da minha jaqueta. Ele tinha um bocado de força naque la mão, para um sujeito que estava morto. E até para um sujeito vivo. Viu que o meu olhar estava baixando, olhou na mesma direção e se deu conta de que sua mão estava agarrando o meu pulso,

E então me soltou de repente, como se minha pele tivesse começado a queimar ou coisa parecida. Eu continuei subindo na janela. Quando consegui atravessar o telhado da varanda e chegar ao chão lá embaixo, voltei-me em di reção à janela do meu quarto.

Mas é claro que ele já tinha ido embora.

Era uma noite fresca e clara. De lua cheia. Ali, da frente da casa, eu a via sobre o mar, parecendo um lampião aceso - não um farol como o sol, mas uma daquelas lâmpadas de poucos watts que a gente põe em abajures re torcidos na mesinha-de-cabeceira. O Pacífico, parecendo à distância um espelho tranqüilo, estava negro, exceto numa estreita faixa iluminada pela lua, branca como papel.

À luz da lua eu podia ver a cúpula vermelha da igreja da Missão. Mas só porque eu estava vendo a Missão não que ria dizer que a Missão estava perto. Ficava a bem uns três quilômetros de distância. Eu trazia no bolso as chaves do Rambler, que havia subtraído meia hora antes. O metal es tava aquecido pelo calor do meu corpo. O Rambler, que de dia era turquesa, ficava parecendo cinza naquela sombra. Bom, sei perfeitamente que não tenho carteira. Mas se o Dunga pode...

Tudo bem. Acabei vacilando. E não é melhor mesmo que eu tenha decidido não dirigir? Pois se não sabia como fa zer... Quer dizer, não que eu não saiba dirigir. Claro que sei. É só que eu não tive muita prática, pois passei a vida intei ra na capital mundial dos transportes públicos...

Ah, esquece. Dei meia-volta e caminhei em direção à garagem. Tinha de haver uma bicicleta em algum lugar. Três garotos, confere? Tinha de haver pelo menos uma bicicleta.

Acabei encontrando uma. Era uma bicicleta de homem, claro, com aquela barra imbecil, e um assento duro demais. Mas parecia funcionar bem. Pelo menos os pneus não esta vam vazios.

Então pensei: muito bem, lá vou eu vestida de preto, an dando de bicicleta pelas ruas depois de meia-noite. O que está faltando?

Não esperava mesmo encontrar alguma fita fosforescente, mas fiquei pensando que um capacete não seria mau. Havia um pendurado num cabide ao lado da garagem. Abai xei o capuz do meu suéter e pus o capacete. Uau! Charmosa e bem protegida, só mesmo eu.

E lá fui eu, descendo a ladeira. Cascalho não é exata mente a melhor coisa para andar de bicicleta, especialmente descendo. E logo ficou claro que o caminho todo era des cendente, pois a casa, com vista para a baía, ficava num dos lados daquela espécie de outeiro. Descer certamente era me lhor que subir - eu nunca ia conseguir voltar para casa subindo aquela ladeira; entendi perfeitamente que na volta teria de empurrar a bicicleta -, mas dava uma aflição enorme aquela descida. A colina era tão íngreme, o cami nho tão tortuoso e a noite estava tão fria que pedalei com o coração na boca quase o tempo todo, com lágrimas escor rendo pelas bochechas por causa do vento. E aqueles bura cos...! Vou te contar! Como aquela porcaria daquele assen to machucava quando eu passava por um buraco!

Mas a colina não era o pior de tudo. Quando cheguei lá embaixo dei com um cruzamento de pistas. Dava muito mais medo que a colina, pois embora já passasse de meia-noite havia carros passando. Um deles buzinou para mim. Mas não foi culpa minha. Eu estava indo tão rápido, por causa da colina e tudo mais, que se tivesse parado provavel mente teria voado por cima do guidão. De modo que fui em frente, escapando por pouco de ser atropelada por uma pick-up e, de repente, nem sei como, eu estava entrando no estacionamento do colégio.

A Missão parecia muito diferente à noite. Para começar, durante o dia o estacionamento estava sempre cheio, com todos aqueles carros dos professores, alunos e turistas que visitavam a igreja. Mas agora estava vazio, não havia um único carro, e tão tranqüilo que era possível ouvir, bem longe, o som das ondas na praia de Carmel.

Além disso, por causa do turismo, suponho, eles tinham instalado aqueles focos de luz para iluminar certas partes do prédio, como a cúpula - que estava toda iluminada - e o frontispício da igreja, com seu enorme pórtico de entra da. Mas a parte posterior do prédio, onde eu fui dar, estava bem escura. O que, afinal, me convinha perfeitamente. Escondi a bicicleta por trás de uma lixeira, deixei o capacete pendurado no guidão e me aproximei de uma janela. A Missão foi construída há mais ou menos um quaquilhão de anos, quando não existia ar-condicionado ou aquecimen to central e, para refrescar no verão e aquecer no inverno, as construções tinham paredes muito grossas. Com isto, to das as janelas da Missão tinham uma profundidade de uns trinta centímetros, com mais outros trinta centímetros de recuo na parte interior.

Eu subi num desses parapeitos, olhando ao redor para ver se ninguém estava me vendo. Mas só havia por perto um par de guaxinins fuçando em volta da lixeira, em bus ca de algum resto do almoço. Levei ao rosto então as mãos em forma de viseira, para proteger os olhos da luz da lua, e olhei lá para dentro.

Era a sala de aula do professor Walden. Com o luar inci dindo lá dentro, pude ver sua letra no quadro-negro e o grande cartaz de Bob Dylan, seu poeta favorito, pendurado na parede.

Não levei mais que um segundo para quebrar o vidro de uma das antiquadas vidraças de ferro, esticar o braço lá para dentro e abrir a janela. O mais difícil em matéria de arrom bar uma janela não é propriamente o momento de quebrar o vidro ou mesmo de conseguir abrir a maçaneta. O pior é tirar a mão depois sem se cortar. Eu tinha trazido meu me lhor par de luvas caça-fantasma, daquelas bem espessas, de borracha preta com enchimento nas juntas, mas minha manga já tinha ficado presa uma vez, deixando meu braço todo arranhado.

Isso não aconteceu desta vez. Além disso, a janela abria para fora, não para cima, o que me facilitou a entrada. Já aconteceu de eu arrombar lugares que tinham alarmes - o que me obrigou a fazer pequenas e desconfortáveis viagens na parte de trás de caminhonetes do serviço público nova-iorquino - mas a Missão ainda não tinha chegado a este requinte em seu sistema de segurança. Na realidade, o sistema de segurança deles parecia consis tir apenas em trancar as portas e janelas, e seja o que Deus quiser.

O que certamente me convinha.

Uma vez dentro da sala do professor Walden, fechei a janela pela qual havia entrado. Não tinha sentido mesmo chamar a atenção de alguém que por acaso estivesse vi giando a região (até parece...). Era fácil ir passando entre as carteiras, com todo aquele brilho da Lua. E depois de ter aberto a porta e passado para a galeria, constatei que tam bém não ia precisar da lanterna. O pátio estava inundado de luz. Concluí que a Missão deve receber turistas até bem tarde, quando já escureceu, pois no beiral do telhado havia focos de luz amarela apontados em diferentes direções: a palmeira mais alta, aquela que tinha o maior arbusto de hi biscos em sua base; a fonte, que continuava ligada, mesmo àquela hora; e, naturalmente, a estátua do padre Serra, com uma luz brilhando em sua cabeça de bronze e outra nas cabeças das indígenas americanas a seus pés.

Ainda bem que o padre Serra era uma boa pessoa e já es tava morto. Eu tinha a sensação de que aquela estátua o teria deixado muito embaraçado mesmo.

A galeria estava vazia, assim como o pátio. Não havia ninguém por ali. Eu só ouvia o farfalhar da água da fonte e o canto dos grilos no jardim. Parecia mesmo um lugar bem tranqüilo, o que não deixava de ser surpreendente. Estou querendo dizer é que nenhuma de minhas outras es colas me parecia tranqüila. Pelo menos aquela ali estava parecendo bem tranqüila, até que eu ouvi aquela voz áspera atrás de mim:

- O que está fazendo aqui?

Dei meia-volta, e lá estava ela. Simplesmente recostada no seu armário - perdão, no meu armário - e de olho gru dado em mim, os braços cruzados no peito. Estava usando um par de calças negras - bem elegantes - e um twinset de caxemira cinza. Trazia no pescoço um colar de pérolas, com uma pérola para cada Natal e cada aniversário de sua vida, certamente um presente de avós muito amorosos. Nos pés, um par de sapatos negros reluzentes. Seu cabelo, que bri lhava tanto quanto os sapatos à luz amarelada dos refle tores, parecia macio e dourado. Ela realmente era uma garo ta bonita.

Pena que tivesse estourado os miolos.

- Lauren - disse eu, tirando o capuz. - Oi. Lamento te incomodar... - sempre ajuda pelo menos começar de uma maneira polida - ... mas acho que a gente precisa muito conversar, você e eu.

Lauren nem se mexeu. Não, estou exagerando. Ela aper tou um pouco os olhos. Tinham uma cor pálida, acho que meio acinzentada, embora fosse difícil saber, apesar dos re fletores. Os longos cílios, escurecidos com rímel, tinham uma espécie de moldura de lápis negro de muito bom gosto.

- Conversar? - perguntou ela. - Ah sim, claro. Eu tam bém quero muito falar com você. Estou sabendo perfeitamente sobre você, Bellinha.

Eu tremi nas bases. Não consegui me conter:

Bella - corrigi.

Como quiser. Eu sei o que você está fazendo aqui.

Ótimo, muito bem - respondi. - Neste caso não vou precisar explicar. Quer se sentar para a gente poder conversar?

Conversar? Por que eu haveria de querer conversar com você? O que você está pensando que eu sou, mané? Meu Deus, você se acha mesmo muito esperta, não é? Acha que simplesmente pode ir entrando, assim...

Como assim?... - fiz eu, piscando.

Ir tomando o meu lugar - endireitou-se ela, afastan do-se do armário e caminhando em direção ao pátio como se estivesse admirando a fonte. - Você, a nova garota - pros seguiu, olhando-me com o rabo do olho. - A garota nova que acha que pode simplesmente ir tomando o lugar que me pertencia. Você já se apoderou do meu armário. Já está querendo roubar minha melhor amiga. Eu sei que a Kelly te telefonou e te convidou para a porcaria da festa dela. E agora está achando que pode roubar o meu namorado.

Eu botei as mãos nas cadeiras:

- Ele não é mais seu namorado, lembra, Lauren? Ele acabou com você. E é por isto que você está morta. Você estourou os miolos na frente da mãe dele.

Lauren arregalou os olhos.

- Cala a boca - disse.

- Você estourou os miolos na frente da mãe dele porque era burra demais para entender que nenhum garoto, nem mesmo o Bryce Martinson, merece que a gente morra por ele. - Eu passei por ela, caminhando em direção a uma das galerias de cascalho que cortavam os jardins. Eu não queria reconhecer, nem para mim mesma, mas estava fi cando meio nervosa de ficar ali naquela galeria coberta depois do que acontecera ao Bryce. - Você deve ter fica do com muita raiva quando se deu conta do que havia feito. Você se matou. E por uma coisa tão boba. Por causa de um cara.

- Cala a boca! - Dessa vez ela não estava só falando, estava já gritando, tão alto que precisou cerrar os punhos, fechar os olhos e encolher os ombros. Gritou tão alto que meus ouvidos ficaram ressoando um bom tempo. Mas não veio ninguém correndo da reitoria, onde eu vira algumas luzes acesas. Os pombos que eu ouvira arrulhando no beiral da galeria não emitiam um único som desde que a Lauren aparecera, e os grilos haviam tratado de adiar o resto de sua serenata.

As pessoas não ouvem fantasmas - bem, não pelo menos a maioria das pessoas -, mas o mesmo não se pode dizer dos animais e mesmo dos insetos. Eles são hipersensíveis a qualquer presença paranormal. Por causa do Edward, o Max, o cachorro dos Ackman, nem chega perto do meu quarto.

Não precisa gritar assim - disse eu. - Ninguém mais pode te ouvir além de mim.

Grito quanto quiser - berrou ela, e começou a gritar mesmo.

Bocejando, fui sentar-me num dos bancos de madeira junto à estátua do padre Serra. Percebi então que havia uma placa no pedestal. Graças aos refletores e à luz da lua, eu podia perfeitamente ler a inscrição.

Ao venerável Padre Junipero Serra, 1713-1734 - dizia a pla ca. - Seu comportamento exemplar e sua abnegação foram um exemplo para todos que o conheceram e receberam seus ensina mentos.

Hmm... Eu ia ter de olhar abnegação no dicionário quan do voltasse para casa. Fiquei me perguntando se era a mes ma coisa que autoflagelação, algo pelo que Serra também era conhecido.

Você está me ouvindo? - gritava Lauren. Eu olhei para ela.

Sabe o que significa abnegação? - perguntei.

Ela parou de gritar e ficou olhando para mim. Depois deu uns passos adiante, com a expressão lívida de raiva.

- Escuta aqui, sua vaca - foi dizendo, parando de caminhar quando estava já quase grudada em mim. - Quero que você simplesmente desapareça, está entendendo? Quero que desapareça desse colégio. Este armário é meu! A Kelly é a minha melhor amiga. E o Bryce é o meu namorado! Vê se trata de desaparecer, de voltar para o lugar de onde veio. Estava tudo muito bem aqui antes de você chegar... Eu tive de interromper.

- Sinto muito, Lauren, mas as coisas não estavam nada bem antes de eu chegar aqui. E sabe por que eu sei disso? Porque você está morta. Entendeu? Você está morta. Os mor tos não têm armários, nem amigas, nem namorados. E sabe por quê? Porque estão mortos.

Parecia que a Lauren ia começar a berrar de novo, mas eu me adiantei, dizendo com toda suavidade e clareza:

Eu sei que você cometeu um erro. Você cometeu um erro terrível, horrível mesmo...

Não fui eu que cometi o erro - atalhou ela, cortante. - Foi o Bryce que cometeu o erro. Foi ele que rompeu comigo.

Eu respondi:

Tudo bem, não era desse erro que eu estava falando. Estava me referindo ao fato de você dar um tiro na cabeça porque um boboca de um garoto acabou com você...

Se acha que ele é tão imbecil assim - disse ela, com uma expressão de zombaria - por que vai sair com ele no sábado? Isso mesmo. Eu ouvi ele te convidando. Aquele desgraçado. Ele provavelmente não foi fiel nem durante um dia enquanto a gente estava saindo.

Sensacional - disse eu. - Mais um motivo para você se matar por causa dele...

Eu vi que havia lágrimas se acumulando por baixo das pestanas dela.

Eu o amava - suspirou ela, - Se não pudesse tê-lo para mim, eu não queria viver.

E agora que você está morta fica achando que ele devia ir ao seu encontro, não é mesmo? - perguntei, já cansada.

Não gosto deste lugar - disse ela mansamente. - Nin guém me vê. Só você e o padre Dominic. Eu me sinto tão sozinha...

OK. É compreensível. Mas, Lauren, mesmo que você consiga matá-lo, ele provavelmente não vai gostar muito de você por ter feito isto.

Eu sei como fazer para que ele goste de mim - disse ela, confiante. - Afinal, seremos só eu e ele. Ele vai ter de gostar de mim.

Eu balancei a cabeça:

Não, Lauren, não funciona assim, Ela olhou bem fixo para mim:

Que quer dizer?

Se você matar o Bryce, não há a menor garantia de que ele acabe ficando com você, O que acontece com as pes soas depois que morrem... bem, eu não tenho muita certeza, mas acho que é diferente para cada pessoa. Se você matar o Bryce, ele vai mesmo para onde tem de ir. Céu, inferno, a próxima vida - não sei ao certo. Mas sei que ele não vai se juntar a você. Não funciona assim,

Mas... - e ela parecia furiosa. - Não é justo!

Muita coisa não é justa, Lauren. Não é justo, por exem plo, que você tenha de sofrer por toda a eternidade por causa de um erro que cometeu no calor da hora. Tenho certeza de que se você soubesse como era estar morta, não teria se matado. Mas não tem de ser assim, Lauren.

Ela ficou olhando para mim. As lágrimas pareciam con geladas, como pedacinhos de gelo.

Não tem mesmo?... - fez ela.

Não. Não tem.

Você quer dizer... está querendo dizer que eu posso voltar?

Eu fiz que sim com a cabeça.

Pode sim. Você pode começar de novo. Ela fungou.

Como? Eu respondi:

Só precisa tomar a decisão.

Uma sombra passou em seu lindo rostinho.

- Mas eu já decidi que é isto que eu quero. Só o que eu que ro desde... desde que aconteceu... é ter minha vida de volta.

Eu balancei a cabeça.

- Não, Lauren - disse então. - Você não entendeu o que eu estou dizendo. Você nunca vai ter de volta a sua vida, a sua velha vida. Mas pode começar uma outra. E ela só poderá ser melhor do que isto, do que ficar por aí para sempre sozi nha, vagando enfurecida, machucando as pessoas...

Ela gritou:

- Você disse que eu poderia ter minha vida de volta! Naquele instante eu me dei conta de que ela estava per dida.

- Eu não estava querendo dizer a sua antiga vida. Quis dizer uma vida...

Mas já era tarde demais. Ela estava surtando.

Agora eu estava entendendo por que os pais do Bryce o haviam mandado para Antígua. E até eu gostaria de estar lá - ou em qualquer outro lugar, desde que fosse longe da ira daquela garota.

Você disse - gritava ela -, você disse que eu podia ter de volta a minha vida! Você mentiu para mim!

Lauren, eu não menti! Só estava querendo dizer que a sua vida... bem, a sua vida acabou. Lauren, você mesma acabou com ela. Eu sei que é uma droga, mas, puxa, você devia ter pensado nisso.

Ela me interrompeu com um gemido meio... sobrena tural, claro.

Não vou permitir... Não vou deixar você tomar a mi nha vida! - berrou.

Lauren, eu já lhe disse, não estou tentando tirar a sua vida. Eu tenho a minha própria vida. Não preciso da sua...

Com os grilos e os pássaros calados, o som da água borbulhando na fonte a poucos passos dali era o único ruído no pátio - à parte os gritos da Lauren, claro. Mas de repen te o som da água ficou estranho. Parecia que havia alguma coisa estalando. Olhei na direção da fonte e vi que estava saindo uma fumaça. Eu não teria estranhado tanto - afi nal, estava bem frio, e a temperatura da água podia estar mais quente que a do ar - se não tivesse visto uma enorme bolha rebentar de repente na superfície da água.

Foi aí que me dei conta. Ela estava fazendo a água fer ver. Estava fervendo a água com a força da sua fúria.

Lauren - disse eu, sentada no banco. - Lauren, ouça me. Você precisa se acalmar. Não podemos conversar com você assim...

Você... você disse... - e eu via com alarme que seus olhos estavam revirando para trás. - Que eu... que eu podia... começar de novo!

Tudo bem. Estava na hora de fazer alguma coisa. Eu não precisava ficar ali sentada naquele banco se era para ser sacudida com tanta força que quase fui jogada ao chão. Deu para sacar que era a hora de me levantar.

E foi o que fiz, bem depressa. Bem rápido, para não ser atingida pelo banco. Tão rápido que a Lauren nem teria chance de perceber que eu ia derrubá-la com uma direita bem no queixo.

Para minha surpresa, no entanto, ela nem pareceu sen tir nada. Estava em outra. Em outra muito diferente. O mur ro não teve o menor efeito - só serviu para me deixar os dedos doendo. E é claro que pareceu deixá-la ainda mais furiosa, o que sempre ajuda quando estamos lidando com uma pessoa perturbada demais.

- Você vai se arrepender disto - proferiu ela numa voz cavernosa que não tinha nada a ver com seus gritinhos de líder da torcida.

De repente a água da fonte chegou ao ponto de ebulição, projetando ondas enormes para o lado de fora. Os jatos, que normalmente iam a uma altura de apenas um metro e pouco, de repente começaram a subir a até três, seis me tros, caindo de volta num verdadeiro caldeirão borbulhante e fervente. Todos os pássaros saíram voando das árvores ao mesmo tempo, formando momentaneamente uma nuvem que bloqueou a luz do luar.

Eu estava com uma estranha sensação de que a Lauren estava falando sério. Pior ainda, tinha a sensação de que ela seria mesmo capaz. Não precisaria nem levantar um dedinho.

O que foi confirmado quando de repente a cabeça de Junipero Serra foi brutalmente arrancada do corpo da está tua. Exatamente. Simplesmente saltou longe, como se aque la sólida peça de bronze fosse na verdade de confeito. E sem o menor barulho. Por alguns instantes, ela ficou flutuando no ar, com sua expressão de suave compaixão transforma da, do estranho ângulo no qual pendia sobre o meu rosto, numa careta demoníaca. E, de repente, enquanto eu esta va ali completamente paralisada, vendo as luzes se refle tirem na bola de metal, ela caiu... e mergulhou na minha direção, zunindo tão depressa na noite que parecia até um cometa ou...

Eu nem tive tempo de pensar com que mais aquilo se parecia, pois uma fração de segundo depois uma coisa dura atingiu o meu estômago e me projetou no chão, onde eu fiquei, olhando para o céu estrelado. Que estava lindo. A noite estava tão escura, e as estrelas, tão frias e distantes, piscando...

- Levante-se - disse asperamente uma voz de homem no meu ouvido. - Pensei que você era boa nisso!

Alguma coisa explodiu no chão a menos de um palmo da minha bochecha. Virei o rosto e vi a cabeça de Junipero Serra rindo grotescamente para mim.

Quando vi, o Edward estava tentando me botar de pé e me empurrando na direção da galeria.