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Último
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Havia toda uma peculiaridade no último ato sexual - ou pelo menos deveria haver - aquele cujo jamais se saberá se é mesmo o último antes do grande final ser consolidado. Deveria ter como prever, para desfrutar de todo êxtase contido. Matt poderia se perguntar quando esse final viria a ocorrer de verdade, mas ele nunca se perguntou.
É engraçado pensar dessa forma! Algo como, o que você faria se fosse o último dia de sua vida? Além das outras perguntas: e depois da morte, você reflete nas coisas que poderia ter feito? Mas ninguém até hoje se encontra morto o suficiente para que possa responder a essas - e outras tão diversificadas quanto - perguntas.
Mello jamais atreveria-se a pôr um pensamento sobre a singularidade da vida no meio de todos os outros problemas que ele se empenhava em solver, aquele maldito caso. Porém o ruivo poderia se entreter por algum tempo com esse tipo mais filosófico de investigação, mas ele nunca encaixou esse gênero de questões com sua situação atual. Talvez por medo de pensar e esquecer de viver. Talvez por pressentimento.
- Tive um sonho estranho essa noite…
Bastou que o ruivo o encarasse com olhos de sobrancelhas contraídas, para que Mello respondesse sem ninguém ter perguntado. O loiro havia acordado com amargor na saliva, algo que a pasta-de-dente não poderia aliviar. Um gosto tão estranho quanto o sonho daquela noite.
- Com que você sonhou?
- Com… Ah, deixa para lá! Tá tudo pronto para hoje?
Obcecado, Matt diria. Tudo em prol daquele infeliz death note que por ironia do destino (ou por forças ocultas mesmo) veio parar em terra. E então seria naquele dia, o sequestro, a atitude digna de algum 007 ou produção do gênero.
Inconscientemente foram-se os últimos sacrilégio e privilégio, a última marca de arcada dentária maculada na pele, a última língua desdenhosa ao contorno de um mamilo já desvendado, o último trajeto de um dedo em volta de um corpo condenado, o último júbilo, o último clímax. Tão último quanto banal.
Também o último sonho. Aquele em que Matt escrevia nomes de criminosos com um cigarro em sua pele durante o sexo, em uma posição mais excêntrica do que cômoda. Aquele que ele preferiu não comentar. Não por vergonha, mas por falta de paciência.
E o último nem foi tão último quanto deveria. Talvez houvesse um replay no inferno, aonde os fins de fato justificam os meios. Um lugar que Mello jamais conheceria.
Nem céu, nem inferno. Uma condição de uso, outra ironia do death note.
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