50 dias com ele – Dohko e Shion Version – 10

*Paternidade – 3*

Não era fácil deixar ir aquilo que eu dedicara tantos anos a cuidar. Mas precisava. Gostaria de nunca ter que lhe permitir partir para morrer ou me ver morrer, mas era um dever. Eu gostaria de tê-lo criado para mim, assim poderia ter-lhe dado mais amor, mas ele nunca foi meu. Ele nasceu para o Santuário e cresceu para se encontrar com o outro universo que completava o dele.

Shion era uma criança linda e delicada e eu nunca fui alguém gentil, ao menos não depois de muito velho, e já era muito velho quando ele nasceu. Obviamente eu o amava. Mas era melhor que não o amasse de mais ou não conseguiria deixa-lo ir. Tão pouco era bom que ele me amasse de mais, senão ele mesmo não iria querer partir. Mas nada disso funcionou. O amava tanto que ficava com medo e por isso estava sempre furioso com os erros dele, porque algum dia, um dia em breve, eu não estaria mais ao lado dele para corrigi-los. E então ele poderia cometer algum erro que colocasse tudo o que ele tinha a perder.

Eu não fui o pai que ele queria. E eu o repreendi em muitas vezes pela palavra "pai", e me arrependi disso no dia em que ele decidiu não usá-la mais. Eu me senti perdendo-o muito antes do que esperava.

E então ele cresceu um pouco mais e me trouxe outro filho que eu iria perder, a metade dele, tão jovem, tão imbecil. Dohko era uma criatura astuta para a maioria das coisas. E imbecil para o amor. Porque faria qualquer coisa por isso. Assim como Shion sempre fizera.

Por singelos e poucos dias, recolhi dentro de minha casa esse amor estúpido e infantil, debaixo dos meus cuidados. Eu sabia que era eterno, para a vida ou para a morte. E a compaixão que eu sentia por eles, tão cheios de transbordante felicidade por amor recém-encontrado, me machucava profundamente. Eu estava perturbado pelos sofrimentos inevitáveis dos dois. Eu sabia do meu sofrimento inevitável vindouro, mas não me abalava como me abalava o deles.

E então Shion me confrontou e se foi. E Sage me falava dele todos os dias, embora na maioria das vezes eu não lhe perguntasse, quem mais saberia do que havia no meu coração senão meu irmão amado? Às vezes Asmita também me contava, sobre ambos os meninos, estava uma casa abaixo e sabia o quanto Dohko ia e vinha pelo Santuário. E eu soube que os dois estavam felizes apesar de todas as coisas que os cercavam.

Um distúrbio por burrice do meu filho e eu queria realmente chutá-lo pessoalmente por fazer a sua metade chorar. E foi assim que Sage acabou por fazer um casamento no Santuário. Eu os achava idiotas de mais para se casarem e ralhei de todas as formas que pude, mas Sage gentilmente me repreendeu. "Eu apenas declarei o óbvio e Athena abençoou o inevitável, ninguém conseguiria estar mais casado do que eles já estavam com ou sem cerimônia." Dessa vez, ele estava certo. Tentei amenizar meu coração e pensar em como dizer ao meu filho que me perdoasse por ser um velho tempestuoso. Eu não era bom em pedir perdão. Então a primeira morte de um cavaleiro de Ouro aconteceu. Justo aquele. Pensei em buscar Shion para acalentá-lo, sabia que estava sofrendo demasiadamente, mas Dohko o fez, agora mais maduro, mais seguro, ficou ao lado do meu menino, mesmo quando sua dor queria transbordar também.

Então não tivemos mais tempo para qualquer lamento, não houve mais como acalentar ninguém. E eu olhava para cada um que ainda estava em pé, sabendo que cairiam. Sage caiu. Mas já era nosso tempo, meu e dele… Eu só queria que ao menos aquelas crianças prosseguissem, elas iriam, mas era ainda mais dor no caminho depois do abismo. Separação e solidão. Por alguns momentos, me perguntei se Athena não via outra escolha, outro caminho, porque aquele era cruel de mais. E me lembrei do rosto iluminado de Shion na primeira vez que eu cedi e lhe ergui nos braços, tão pequeno. E dos sorrisos de cumplicidade de dois garotinhos apaixonados de forma tão idiota e ingênua. E a voz de Shion me alcançou, mas ele não procurava o mestre, ele procurava o pai. Mas eu já não podia alcança-lo de volta e me desculpar por não ter lhe carregado nos braços o quanto eu gostaria, por não ter-lhe deixado a correr ao meu redor e encher os meus ouvidos com suas conversas infantis e "pai" o quanto eu gostaria. Por não tê-lo felicitado no dia de seu casamento, pela dádiva de poder amar em meio a tanta amargura. Por nunca ter lhe dito o quanto eu o admirava por ser cheio do amor que eu mesmo negara demonstrar.

Mas ele estava vivo, afinal. E era isso o que eu queria. A minha vida era um preço pequeno para pagar pela dele. Eu esperaria para encontra-lo de novo e ser tudo o que eu não tinha me permitido ser.

Shion bocejou, aceitando a mão do marido para levantar-se. Tinha sido um bom jantar.

- Pai, o senhor está doente? – Mu questionou, enquanto ajudava Shaka a tirar a mesa. – Ainda é cedo pra estar com tanto sono. Quer que eu lhe faça um chá?

- Eu tive um dia cheio em reunião com a Saori, querido. Com Saga e Aioros de brinde. Não estou doente, só realmente cansado das crianças discutindo administração ao meu redor.

- Ah, está bem. – O ariano mais jovem amuou-se um pouco.

- Pare de ser tão preocupado, Mu. O pai aqui sou eu!

Dohko e Shaka riram. Os dois eram sempre assim, esse excesso de mimar um ao outro.

- Não paro. – Mu riu também e alcançou o pai, dando-lhe um beijo. – Então, boa noite. Nos vemos amanhã. Dohko, cuide do meu velhinho cansado.

- Isso aí nem precisa pedir! – Dohko bateu continência e assim saíram de Áries, deixando o casal mais jovem aos risos.

Notas da autora:

Subentendam como quiserem.

Escrevendo com o Hakurei porque esse velho não me sai da cabeça, foi uma má idéia me apaixonar por ele, haha! Só a Deni, o Dohko e o Shaka conhecem o drama de amar esses caras com pontinhos na testa! (Oi Kiki, o Miro e eu ainda não contamos sobre o seu namoro pros velhos, mas eles usam transmitimento, acho que já sabem)…

Fanfic dedicada para os meus filhos, que sempre voltam, hoje especialmente para a bruxinha irlandesa. Amo todos vocês.
Beijos!