Nota : Este capítulo contém cenas fortes. Violência/Tortura.

Nine – The Valentine.

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Via a terra vasta mirando um ponto qualquer. O sopro gelado fazia sua franja balançar e desalinhar o penteado. A mente sempre remetendo a lembranças distantes. Abraçou seu próprio copo suavemente. Não se movia; o respirar da carne imperceptível sobre o pano. Ali, naquele infinito belíssimo, vasto e coberto de encanto e tristeza, sorriu. A opacidade dos olhos sem brilho perdendo-se em lembranças que a alimentavam e cortava sua alma em pedaços.

Celas estava ali. Pequena e delicada. Pequena, risonha e forte. Pequena, vermelha e encantadora.

Era tarde, uma mulher elegante também estava na mesa acompanhada de seu pai e outro senhor. Tomavam chá. A xícara em sua frente fervia e sua fumaça subia fina modelando formas que intimamente tomavam sua atenção. Ao seu lado sua irmã mais nova distraia-se com os desenhos tricotados no pano fino de mesa. Suas mãozinhas pequenas esticaram para frente e ela os puxou alheia totalmente a conversa sempre formal e estranha dos mais velhos. Integra observou-a rapidamente se esquecendo dos próprios devaneios infantis. Seus olhos claros escondidos sob os enormes óculos de grau observaram a irmã. Tomou suas mãos discretamente e Celas voltou seu rosto cheio e corado a ela num bico curioso. Balançou a cabeça negativamente para a irmã, suas sobrancelhas claras levemente franzidas sem emitir uma palavra. Celas lhe copiou o movimento e afastou-se do pano de mesa deixando que suas mãos pequenas buscassem agora o pano de seu próprio vestido.

Integra voltou a sua xícara e levantou os olhos para cima vagando-os sobre os adultos. Mirou o pai que a observava num sorriso raro, ouviu um murmurar baixo vindo de seus lábios semi umedecidos: boa menina. - em seguida voltou aos assuntos de negócios com seu tio. A mulher elegante lhe lançou um olhar estranho e se levantou da mesa poucos instantes depois sentindo-se indisposta e levou ela e sua irmã de volta a mansão.

-Hellsing-o-Hellsing-o-Hellsing-o-Hellsing-o-Hells ing-o-Hellsing-o

Gritos gritos e mais gritos. O estouro seguido de outro e o baque. Sua mãe arrebentada no chão e seu pai a abraçou sujando-se de sangue. Sangue dela - que ele havia causado. Que ele sempre havia causado e deixou a arma carregada escorregar perigosa no chão. Ele então saiu debaixo da mesa da cozinha completamente em choque tremendo dos pés a cabeça. Abaixou-se e pegou a arma. Seu pai de costas totalmente embriagado começara a chorar. Seu corpo e mente tomado por um sentimento alimentado, surreal, mortal. Seus olhos verdes estavam esbugalhados e lacrimejantes quando levantou as mãos, ambas inexperientes segurando o objeto carregado. Seu pai pressentiu sua presença e se virou de frente para ele ainda de joelhos e repugnante. Seus olhos castanhos embaraçados tornaram se transformaram pesados e sombrios. Eles se encararam. Seus olhos se cerraram e ele apertou o gatilho. Uma, duas, três vezes, quatro vezes.

Abriu a porta do quarto com cuidado. A luz fraca do corredor expulsando parte do breu. Caminhou alguns passou até se aproximar da cama. Abaixou o corpo ficando de joelhos. Sua voz era apenas um sussurro.

- Tudo bem, Jann. Acabou.

Demorou alguns segundos até que a cabeça de seu irmão aparecesse e o fitasse choroso e assustado. Esticou a mão manchada de sangue e acariciou-lhe os cabelos finos. Jann sorriu e ele sorriu também.

-Hellsing-o-Hellsing-o-Hellsing-o-Hellsing-o-Hells ing-o-Hellsing-o

India

Estava num galpão abandonado e sujo. Seus ouvidos estavam atentos a qualquer movimento. Em uma das mãos a Garand M1 pronta para trabalhar. Seus passos eram leves e rápidos difíceis de seguir. Esgueirou o corpo entre os caixotes empoleirados até atravessar o espaço e chegar ao corredor estreito; mais a frente o fundo do galpão e um divertido circo dos horrores.

Havia dezenas de mulheres com diversas partes de seus corpos mutilados. Elas dançavam como podiam, remexendo seus quadris ao longo da musica rítmica e sensual segurando seus lenços e espadas as poucas que possuíam ambos os braços e mãos. Ignoravam a presença de Luke ao que se aproximava confiante e atento.

Levantou sua arma e mirou uma delas por alguns instantes, mas não atirou. Ao invés disso, ainda segurando firmemente o objeto o levantou até sua esquerda e o estrondo que seguiu fez com que a musica parasse. A velha caixa de som estilhaçada no canto. Volto seus olhos verdes aquelas mulheres e eles brilhavam de antecipação. Elas haviam parado de dançar.

Ele abaixou a arma e sorriu mostrando todos os dentes.

- Alucard Tsepesh. O monstro. O canibal de Londres. - disse alto mirando os cantos a sua volta – Onde está o "grande assassino" que me trouxe até aqui? Deixe-me ver seu grande poder.

- Silencio -

- Mostre-se Alucard. Esta noite irei superá-lo. Esperei muito por esse momento. Vou dilacerar seu corpo sujo e queimá-lo junto a essas vadias deformadas!

Voltou às dançarinas jogando seus longos cabelos para trás.

- Tenham paciência, queridas. Será rápido desta vez.

Porém elas não se afastaram quando ele se aproximou um passo. Ao contrário da última vez elas não estavam com medo e não recuaram. A mais nova com seu corpo todo coberto de cicatrizes e sem parte da visão lhe virou as costas lentamente e recomeçou a dançar, a mesma musica sem som, como se não estivesse ali, como se nada tivesse acontecido e não demorou para que todas as restantes seguissem seu exemplo e retornassem a mesma ação de outrora.

Surpreso e com orgulho ferido voltou a mirar sua arma para o grupo, mas antes que atirasse, um vulto no alto das escadas lhe chamou atenção e atirou repetidas vezes em direção a ele tentando atingi-lo. Alucard desviou de suas balas com precisão jogando-se do andar de cima até um canto escuro e afastado. Não viu seu corpo e não soube se foi amortecido. Correu até o local excitando-se com a perspectiva de se livrar de um mito fajuto.

- Venha Alucard!

Retirou de um dos fundos falsos de seu paletó outra arma garand M1 e se aproximou mais. Ouviu um arfar e notou no mesmo canto alguns barris de gasolina empoleirados. Seria divino. Correu para trás atirando insano em um desses barris. Ainda ria alto quando buscou em outro bolso um dos fósforos e acendeu jogando-os rapidamente naquela direção. A explosão que seguiu foi instantânea. Seu corpo foi arremessado para outra margem, uma das armas se perdendo no caminho. Passado alguns minutos se preparava para partir vitorioso e encontrar seu irmão enquanto tentara se levantar.

A gargalhada lúgubre preencheu seus ouvidos e o deixou perplexo por alguns segundos. O grupo de mulheres que estava em circulo balançavam seus quadris e sorriam frias; aos pouco se afastaram umas das outras e revelaram vagarosamente o demônio no centro delas. Alucard batia as palmas cobertas diante daquele espetáculo; olhava Luke de forma provocante.

Luke engoliu em seco totalmente descrente. A consequência da explosão ainda ali ameaçando a vida de todos. O galpão não duraria por mais tempo, ele tinha que sair. Levantou as mãos para pegar uma das armas que não soltara no momento da explosão quando o grito horripilante o atingiu fazendo com que voltasse a realidade; seguiu o som gelado, seu coração desumano em frangalhos.

Em meio ao fogo seu irmão berrava palavras distorcidas. Jann estava seminu com seus braços decepados e ensanguentados, o rosto irreconhecível. Queimava, ali, diante de seus olhos.

Alucard chamou sua atenção. Não sorria agora, o encarava serio e desprezado.

Os sapatos faziam barulho ao se aproximarem. Luke tentou avançar em direção ao irmão, mas uma dor dilacerante sobressaiu o pegando de surpresa e fazendo-o desabar no chão. Um berro de dor fugiu de sua garganta. Uma das mulheres havia se aproximado numa ação rápida com uma das espadas que usara na dança, arrancando com um golpe cruel parte inferior de suas pernas, o sangue derramado jorrando no piso tornando-o inteiramente escorregadio.

- Eu esperava mais deste encontro, sir Valentine. Mas você é apenas um covarde como todos os outros. Um verme infeliz. Não passa de comida para cachorro.

Alucard não escutava os gritos. Apenas enxergava uma grande sujeira ao seu redor. Se aproximou de Luke e notou frustrado o mesmo tentar se arrastar para longe numa tentativa vã e ridícula de fugir.

- Eu não faço acordos, sir Valentine. Mas estou um tanto... flexível. Você não merece ser morto por mim.

- A-Alucard! Não! Não pode estar acontecendo!

Luke se encostou numa das paredes imundas gritando em choque, tocando o que restara da pele machucada. Gritou por seu irmão, por compaixão, seus olhos verdes molhados e vermelhos absorvendo a figura incinerada; um pedaço inerte, negro e irreconhecível de carne. As mulheres de outrora se aproximavam dele. O estrangeiro misterioso cumprindo com sua palavra e deixando-as sós com seus algozes.

- Minha senhora ordenou que eu retribuísse os cuidados ofertados à senhorita Celas Victoria...

Luke respirava com dificuldade se desesperando a cada segundo, os olhos insanos seguindo o corpo esguio deixando o galpão enquanto falava.

- ... Cumpro em regozijo as ordens da minha mestra.

As palavras do demônio perfurando seus ouvidos. Sua voz fria e sarcástica se tornando cada vez mais distante. O som sendo ecoado constantemente pelo ambiente. As mulheres fechando-se ao redor dele. Nada o salvaria. Não havia espaço para clemência. Suas vitimas seriam finalmente vingadas. Elas o fariam pagar por cada segundo. Decisões tomadas avançaram sobre ele.

-Hellsing-o-Hellsing-o-Hellsing-o-Hellsing-o-Hells ing-o-Hellsing-o

Índia

A equipe Hellsing aguardava do lado de fora. O sol crescia aos poucos manchando a manhã com suas luzes claras e quentes. Walter havia sugerido que a herdeira das empresas Hellsing permanecesse dentro do carro, mas Integra o ignorou. Estava afastada do grupo, seus olhos mergulhados nos formatos que a fumaça vasta e grossa fazia diante de seus olhos. O depósito abandonado havia explodido minutos atrás e da primeira vez ela quisera estar lá. Em pele, carne, sangue e espírito. Não se alegrava da carnificina, não se sentia menos mal ou culpada, tampouco agora indiferente. Algo havia se transformado dentro de si desde Alhambra e por mais inteligente e perceptível que fosse não decifrara, por enquanto, o quê.

Um sopro frio deslizou por suas costas e a respiração quente que tocava sua nuca fez com que por breves segundos ondas involuntárias de arrepio corressem por todo seu corpo. Maldizia por instantes os cabelos louros e fartos presos numa trança solta e discreta.

- Não demore tanto da próxima vez.

- Estava seguindo as ordens da minha mestra, sir Integra Van Hellsing.

- Isso não é um jogo, Alucard. Me irrita esta sua atitude.

- Me perdoe minha mestra.

- Os agentes do sargento Ferguson desenvolveram algo para você. Será entregue assim que regressarmos a mansão. Quero um relatório completo na minha mesa antes do anoitecer.

- Sim, mestra.

Integra virou as costas para o restara do quadro; céu, luz, destruição, morte, fumaça, fogo e o observou seriamente. O oceano escuro e profundo submergindo sobre o sangue brilhante e pulsante dos seus olhos. Ela ergueu o queixo e a respiração quente tocou seu rosto.

Alucard não recuou quando a ponta fina e afiada pressionou-se ligeira sob sua garganta. A voz seria e concentrada em contraste da figura pálida, fria, frágil e feminina.

- Se não quer perder sua vida, Tsepesh, não se aproxime desta forma novamente.

- Minha presença a perturba, mestra?

- Não vou repetir.

Alucard riu e se abaixou, uma fileira fina de sangue escorrendo e se escondendo sobre a gola alta da camisa.

- O que minha senhora ordenar.

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