Capítulo X
Draco Malfoy virou a chave na fechadura, abriu a porta pe sada de ferro e espiou. A luz amarelada da vela pouco ilu minava o corredor sombrio. Inquieto, fechou a maçaneta, subiu até o alto da escada do ático e escutou. Nada de anormal. Sus pirou e desceu devagar os degraus estreitos em caracol.
A viagem a Charleston, metade negócios, metade prazer, deveria ter diminuído a amargura que o perseguia. Mas, como acontecia ultimamente, a viagem fora um grande desperdício. Os lucros do navio negreiro da rota do meio África-Índias Ocidentais tinham ido para liquidar dívidas. Quanto ao prazer, teria sido melhor ficar em casa e pesquisar os arredores. Lem brou-se da bela sra. Ginny Potter.
No segundo pavimento, parou perto de uma janela e passou a mão no caixilho. Uma droga. Pagara uma fortuna para o artífice que lhe prometera fazer janelas exatamente iguais às de Stanton Grove. Mentiroso. A madeira lascava dia após dia. Draco se encarregara de dar-lhe o troco. O carpinteiro não faria mais falsas promessas.
Um som quase imperceptível chegou-lhe aos ouvidos. Ge lado, agarrou-se no peitoril.
Seria um pássaro noctívago? Um menino escravo chamando por sua mãe? Ou coisa pior?
Após um longo momento de silêncio, ousou respirar. Le vantou e abaixou os ombros algumas vezes para relaxar a ten são da nuca. Por que teria de ser premiado com tantos proble mas? Por que deveria ser punido pelos pecados que cometera há anos? Tentara endireitar a situação. Comprara até aquele escravo branco, certo de que a presença de Mick não servira para nada. Pelo contrário. Só piorara o problema. Tinha a im pressão de que passara a viver sobre um barril de pólvora. A faísca certa e tudo seria destruído.
Olhou para cima, espantado. Sentia cheiro de fumaça. Fran ziu a testa. O vento vinha de sudeste. Fogo em Stanton Grove?
Pela primeira vez em muitos dias, sorriu com gosto. Deus haveria de ajudá-lo para que somente as docas fossem salvas do fogo. Se aquela Célia que se achava dona do mundo e o seu arrogante administrador jacobita ficassem sem nada, pensa riam duas vezes na oferta de Draco Malfoy.
Passou pelo saguão vazio em direção a seu quarto. Chegara de Charleston há menos de uma hora e estava exausto. So mente Marieta estivera acordada para saudá-lo, embora sem mui ta efusão.
Virou a maçaneta de prata cinzelada, importada de Londres e uma réplica exata daquelas do Palácio de St. James, e entrou no quarto. Uma vela iluminava o recinto escuro. Não havia fogo na lareira, nem vinho, nem comida. Ninguém para aque cer-lhe a cama.
Mas que droga! Precisava de uma realização sexual naquela noite. Em geral, as viagens a Charleston lhe proporcionavam amplas oportunidades para satisfazer seu apetite por jovens inexperientes. Mas a casa especializada em menores de treze anos fora fechada por um novo magistrado, íntegro infelizmen te. Draco voltara para casa frustrado física e emocionalmente.
Tirou o casaco, o colete e a camisa. Estava na hora de en carar uma verdade. Precisava de uma esposa. Apesar de suas preferências por meninas, poderia até pensar em uma mulher mais velha, caso fosse necessário. Sentou-se na cadeira de ba lanço, fechou os olhos e pensou em Ginny Potter. Nada mal. A excitação foi imediata.
Mas o excomungado do Harry tivera de encontrá-la pri meiro. Marieta lhe dissera que o sr. e a sra. Potter tinham vindo procurá-lo há poucos dias e que o sr. Potter parecera muito devotado à esposa encantadora. Segundo Marieta, se é que se podia confiar nela, Potter mostrara-se interessado em Mick. Talvez o jacobita se interessasse por jovens... meninos.
Pensou novamente em Ginny Potter, fechou os olhos e entregou-se a um prazer solitário. Era um costume que o acom panhava há muito tempo.
Uma vez, quando o pai desmaiara de tanto beber e a mãe saíra para atender um negro doente, ele vira Emmaline, sua irmã mais nova, sair do banho e brincar com a boneca de pano. O irmão lhe devotava muita afeição e não fora difícil convencê-la a brincar com ele.
Durante os anos que se seguiram, ele sempre tentara recon quistar o primeiro prazer, intenso e incorreto. Usara as mendigas de doze anos das ruas de Norfolk, as prostitutas de dez de Charleston e suas escravas da mesma idade. A idade de Emmie, antes de tudo dar errado. Uma sensação de maldade o fez de sejar ter punido Emmie por tê-lo abandonado. Não. Era ele quem deveria ser castigado.
E fora. Os pais haviam morrido de malária, e ele perdera Emmie. A última vez que tentara aproximar-se dela, Emmie o recebera com uma faca e olhar tresloucado. Mas ele jamais a deixaria ir e também não deixaria ninguém conhecer o segredo deles. Jamais!
De repente ouviu uma altercação e passos na escada. — A senhora não pode entrar — Marieta argumentava. — O sr. Malfoy está dormindo.
Draco levantou-se e ajeitou o calção. A porta de seu quarto foi aberta e Parvati Patil entrou.
Ela se deteve e, com olhar entendido, avaliou a aparência desalinhada em um instante. Arqueou as sobrancelhas e sorriu, zombeteira.
— Ora, sr. Malfoy — Parvati ronronou, com o sotaque da pequena burguesia virginense. — Acho que cheguei na hora certa.
Com expressão de mulher acostumada ao comando, tirou o chapéu, mandou Marieta sair e trancou a porta. Aproximou-se a passos lentos e puxou o chicote de montaria. A excitação de Draco quase o fez cair de joelhos.
— Por que um homem rico e poderoso como o senhor se satisfaz sozinho?—Parvati murmurou, corada, e com os olhos brilhantes.
— Não estou entendendo o que a senhora está insinuando. Ela estalou o chicote e depois acariciou-lhe o dorso nu com a ponta do mesmo.
— Não minta. Deixe as mentiras para a sra. Potter. Draco, nós nos conhecemos há muito tempo. Escute, vim fazer-lhe uma proposta. Destruir para sempre Harry Potter.
Draco preferia que ela se calasse e continuasse a brincadeira do chicote.
— A senhora está enciumada...
— Eu? O senhor deve estar caçoando de mim. Ciúme de um escravo liberto e idiota a ponto de casar-se com uma cigana ladra e meretriz? — Parvati chicoteou as pernas de Draco e alegrou-se por vê-lo gemer.
Ele não escondeu o resultado do estímulo.
— Não, senhor. Eu só quero destruir Harry e a vadia com quem ele se casou. E, para isso, preciso do senhor. — Parvati fitou-o com olhar selvagem. — Diga-me, Draco, o senhor não gostaria de ser o dono de Stanton Grove? E também que Harry Potter nunca mais aparecesse na Virgínia?
Draco ajoelhou-se, hipnotizado pela deusa cruel que estava diante dele. Parvati deveria ter mais de vinte anos, mas ela entendia as ambições e os apetites de um homem. Era herdeira de Célia, portanto rica e com posição social invejável. Também ouvira boatos a respeito de Parvati. Ela esconderia alguns se gredos vergonhosos de sua vida. Parvati não se incomodaria com certas preferências e talvez até partilhasse delas. Se des cobrisse a verdade sobre Emmie, não estaria em posição de objetar.
Parvati percebeu a angústia da ansiedade de Draco.
— Posso ajudá-lo com isso — sussurrou —, se o senhor prometer ajudar-me.
Draco anuiu levemente.
Parvati o fez ficar de quatro e chicoteou-o até que ele, gri tando de prazer, atingisse o êxtase. Depois, com o pé calçado, fez com que ele ficasse de bruços.
— Agora é a minha vez. Mas primeiro terá de prometer que fará o que eu ordenar.
Draco fechou os olhos e virou-se de costas.
— Prometo.
****
Ginny contemplava Stanton Grove da janela de seu quarto. Passava do meio-dia. O azul do céu resplandecia naquele mag nífico dia de outubro. As nuvens eram diáfanas, e a vegetação brilhava. A festa em homenagem a Jeremy e Clemency Potter estava para começar.
Estremeceu, animada com a expectativa. No gramado pró ximo da casa grande, via-se uma imensidão de veículos. Gran des coches com escudos de armas nas portinholas, carruagens leves, cabrioles de rodas amarelas, faetontes modernos, tílburis pequenos puxados por pôneis. Um número incontável de pes soas circulava por entre os carros. Damas e cavalheiros das fazendas vizinhas de Williamsburg, e de outras a setenta quilômetros de distância, saudavam-se alegremente, trocavam im pressões e relatavam novidades.
Viu Luna Longbotton aproximar-se de braço com o marido. Trajava um vestido de tafetá cor de laranja sobre anágua castanha e um chapéu de palha de abas largas. A elegância da amiga a fez imaginar que ela resolvera gastar o dinheiro de Neville. Riu e acenou para chamar-lhe a atenção.
Clemency Potter aproximou-se de Ginny. Observou o pa letó de veludo cor de açafrão de Neville e o calção de pelúcia cor de abóbora.
— A vestimenta masculina é sempre mais colorida, não é mesmo? — Clemency comentou. — Aquele não é Neville Longbotton, o dono da famosa Nimbus?
— É, sim. Ele e Harry fizeram uma aposta envolvendo a égua e Harry ganhou, o que foi uma tragédia para Neville. Nimbus é considerado o mais rápido puro-sangue da Virgínia. Harry está certo de que vencerá a corrida de hoje, pois Neville ganhou as anteriores com Nimbus
— Qual foi o motivo da aposta?
— Eu não sei. Harry não me contou.
Ginny virou-se e avaliou o próprio aspecto no espelho de báscula. Clemency fora uma grata surpresa desde sua chegada, há dois dias, da província de Maine, colônia de Massachusetts. Ginny não esperava tanta simpatia de Clemency Alexandra Cameron Potter. Era inglesa, pouco mais velha de que Ginny, e muito bonita. Fora bafejada pela sorte ao nascer. Tinha ca belos negros, pele alabastrina e imensos olhos verdes que pa reciam duas esmeraldas. Diante da graça aristocrática de Cle mency, Ginny sentia-se uma camponesa árabe.
Embora tivesse uma aparência aristocrática, Clemency era tagarela e desprezava as convenções. Ginny a encontrara nas habitações dos escravos, discutindo os méritos das ervas medicinais do sul e os métodos de cura africanos com Royal, Mercury e os outros criados.
Ela fitou a cunhada e sorriu. Encontrara em Clemency uma alma gêmea.
— Do que está rindo?
— Eu estava pensando em como Jeremy e Harry são dife rentes fisicamente. Ninguém diria que são irmãos. I
— Porém são muito parecidos na teimosia, no orgulho es cocês e no espírito travesso.
— Travesso? Harry? Esse nasceu para ser um clérigo ou um douto. A idéia dele de travessura deve ser comer frango frito, em vez de presunto, aos domingos. O pior que ele faz é às vezes beber em excesso ou tocar aquelas melodias insu portáveis, nas gaitas de fole, quando Célia tenta cochilar. Céus, ele pode gostar de música, mas não tem nem um pouco de ouvido.
Clemency achou engraçado e deu uma piscadela.
— Ah, mas eu tenho visto como ele a provoca ou mesmo quando a olha de maneira disfarçada. Parece o Jeremy.
Ginny anuiu, mas continuava a não entender o marido. Per manecia a impressão de que Harry se alegrava em confun di-la. Desde a noite do incêndio, ele se transformara em um pilar de austeridade. Não mais a cortejara com rosas, jóias ou passeios íntimos ao entardecer. Nem tentara seduzi-la com bei jos roubados. Agia como se o casamento deles fosse um con trato de negócios que unira dois estranhos.
Mordeu o lábio. Era uma tolice incomodar-se com a frieza de Harry. Afinal, o enlace fora um arranjo, nada louvável, que terminaria quando a pobre Célia morresse e Stanton Grove passasse para as mãos de Harry.
Teria de terminar? Até a noite do incêndio, Ginny pensara que o sentimento de Harry por ela se restringisse a um apelo carnal. Porém, arriscar a vida por ela a fizera supor que exis tisse um sentimento pela esposa. E ela também se expusera ao fogo para salvá-lo e estremecera em seus braços no chão... na frente de Célia!
Era preciso encarar a verdade. Amava Harry e estava pre parada para assumir as conseqüências. Se ele quisesse, entre gar-lhe-ia com grande alacridade a virtude que tanto protegia. Se Harry lhe pedisse para ficar a seu lado para o resto da vida, ela agradeceria a Deus, de joelhos. E se, após a morte de Célia, Harry resolvesse mandá-la para Maryland, lançaria mão de todos os estratagemas ciganos que conhecia para fazê-lo mudar de idéia.
Vestiu as luvas. Cansara-se das discussões e de mal-entendidos. Estava na hora de abandonar as regras preestabelecidas e abrir o jogo da verdade. Empinou o queixo, decidida. Falaria com Harry na primeira oportunidade. Confessaria seu amor, diria que aceitaria tornar-se sua esposa de fato e revelaria, na intimidade, quanto o desejava.
Um pequeno pormenor a incomodava. Homens não eram confiáveis. Paciência. Teria de aceitar o fato e contar com um provável sofrimento. Assim sobreviveria, caso ele a abando nasse. Fora onde Molly Weasley errara. Ela empenhara a coragem junto com o coração. Confiara no miserável do Dolohov, entregara-lhe os filhos e a vida. Faltaram-lhe forças para virar as costas e deixá-lo, quando tudo estava arruinado.
Ginny pegou o chapéu de plumas, ajeitou-o sobre o penteado de cachos e completou o conjunto com um alfinete de prata. Tinha de convir que lhe sobrava coragem, força e bom senso para nunca confiar em um homem. Com prazer, daria a posse de seu corpo a Harry. Poderia até conceder-lhe o coração. Porém jamais confiaria nele.
O sino chamou os trabalhadores do campo. I
—É o sinal de que a corrida vai começar — Ginny comentou. Clemency bateu palmas e apressou-se até a porta. — Vamos! Prometi a Jeremy o meu lenço de bolso. Ele o usará como amuleto na corrida, como se fazia antigamente.
Clemency desceu correndo a escadaria, balançando as saias verdes enfunadas. Ginny seguiu-a, com uma ponta de inveja. Harry não lhe pedira para emprestar-lhe um lenço.
No gramado, os convidados se dirigiam ao hipódromo im provisado. O percurso plano de um quilômetro e meio esten dia-se das docas de Stanton Grove até as margens do College Creek, um afluente cheio de peixes que desaguava no James. Mulheres riam, davam gritinhos e afastavam as mutucas que zumbiam em volta da cabeça. Homens esbanjavam pilhérias e faziam apostas. Crianças corriam atrás dos cachorros que per seguiam, ladrando, os pavões brancos de Célia. Ginny fez uma mesura para Alvo Dumbledore que que retribuiu com grande reverên cia e acenou para Tom Jefferson. O rapaz tímido corou até a raiz dos cabelos e correu para juntar-se aos homens, na largada.
— Quantos cavalos correrão? — Clemency perguntou e cumprimentou um grupo de senhoras sentadas que se abana vam a sombra de uma nogueira.
— Oito. — Ginny segurou a barra da saia e seguiu a cunhada até o ponto de partida. Procurou Harry entre os proprie tários ansiosos, os cavalariços agitados e os cavalos que se empinavam.
— Pois eu lhes digo minhas senhoras, somente Sea Hero poderá desbancar Nimbus — Neville Longbotton aproximou-se, ti rou o chapéu e cumprimentou as duas com um floreio ela borado. Satisfeito por ter chamado a atenção, tirou uma peque na caixa de malaquita da manga, pôs uma pitada de rapé no dorso da mão e aspirou. Espirrou três vezes e desculpou-se. — Os Potter são mesmo afortunados. Eles se casaram com as duas mulheres mais adoráveis da face da terra, com exceção de Luna, é claro. E o velhaco do Neville ainda ganhou a in comparável Nimbus.
— Vamos lá, Neville. Confesse — Ginny pediu. — Como foi que Harry conseguiu isso? Na certa, ele agiu de má-fé para conseguir a posse de Nimbus.
— Trata-se de um segredo, sra. Potter, mas devo confes sar que o resultado não me desagradou, apesar da impressão em contrário. — Neville piscou e alisou a barba negra e pontuda. — Permita-me dizer que, por direito, Nimbus pertence à se nhora, e não ao seu pretensioso marido.
Ginny quis maiores esclarecimentos, mas Clemency inter rompeu-a com um grito agudo.
— Veja! Lá está Jeremy montando Braw... e Harry ao seu lado, com Nimbus. — Clemency sacudiu o braço de Ginny e filou o marido com orgulho. — Virgem Santa, onde já se viu dois homens mais bonitos?
Ginny teve de dar razão à cunhada. Jeremy tinha a mesma altura de Harry, os mesmos ombros largos e pernas tão musculosas quanto às do irmão. Jeremy era mais expansivo. Os olhos verdes traduziam vivacidade, e os cabelos claros com tons aver melhados esvoaçavam ao vento. Estava sempre sorrindo.
De repente, escutou a voz de Harry. Baixa, rouca e íntima. Virou-se. Estranhou tê-lo ouvido falar, pois ele estava longe. Harry abaixou-se, alisou a cernelha de Nimbus e saudou Alvo Dumbledore com uma mesura.
Ginny admitia que Harry não poderia ser chamado de ex pansivo. A expressão dele lembrava a de um guerreiro que jurara vingança, ou amor, e que jamais trairia seus votos, mes mo em face da morte. Era um homem austero. O estilo severo dos cabelos negros rebeldes era um contraste com as perucas encaracoladas dos cavalheiros presentes. A severidade também se incluía em sua vontade de ferro.
Estremeceu. Era como se sentisse fraca e indefesa diante da virilidade de Harry. Imaginou-se beijando-lhe as sobrance lhas e os cílios tão espessos que faziam pequenas sombras sob os olhos. Pela milionésima vez desde que o conhecera, desejou passar a língua na pequena depressão do lábio inferior.
Harry levantou o olhar e encarou-a com o calor de mil sóis. Sem se endireitar na sela, nem deixar de falar com o sr. Dumbledore. O coração de Ginny bateu em descompasso ao ver o olhar dele escurecer. Nisso Harry sorriu e foi como se o céu se abrisse, iluminando-lhe a alma.
— Deus me ajude — Neville cochichou. — Parece que Potter tinha um coração de verdade e foi a senhora quem o roubou.
O sino tocou, e Ginny foi empurrada até as cordas que isolavam a pista pela multidão aflita para ver a largada. Harry inclinou a cabeça diante de Dumbledore, virou Nimbus e tomou seu lugar na saída. Os cavalos, impacientes, pisoteavam o solo sem sair do lugar. Jeremy acenou com o lenço para Clemency e teve direito a um coro de suspiros da platéia feminina.
Harry franziu a testa para o irmão e fitou Ginny. Bateu no bolso esquerdo do paletó de casimira e piscou. Isso e mais a imponência de cavaleiro deixou Ginny de pernas moles.
— Minha nossa! — Longbotton levou a mão ao peito e empa lideceu.
— O que houve? — Ginny indagou.
— É Sea Hero.
Ginny seguiu com o olhar a direção indicada e não conteve o espanto. Draco Malfoy montava um grande capão negro, a três cavalos de distância de Harry.
— Sea Hero é o único cavalo, na Virgínia, capaz de derrotar Nimbus.
Malfoy dirigiu a Ginny um sorriso falso e segurou as rédeas, com mais força. Harry ainda não notara a presença do ini migo ou fingia não tê-lo visto.
Ginny mordeu o lábio, sem saber qual atitude tomar. Harry a proibira de falar com Malfoy. Ele lhe assegurara que, no momento em que Draco voltasse de Charleston, iria falar com ele sobre Mick. Ela protestara e sugerira que o marido entrasse a força em Resolute e resgatasse Mick. Com mais charme do que lógica, Harry a convencera a esperar.
Harry saberia que Draco voltara da viagem? Ou teria esperança de que Ginny não descobrisse o fato?
— Eu não entendo — Clemency disse. — Por que toda essa confusão?
Neville revirou os olhos, diante da ignorância da amiga sobre as intrigas sociais da Virgínia.
— Sea Hero pertence à Draco Malfoy, dono da fazenda vizinha. Malfoy e Harry são arquiinimigos, embora Harry sempre tenha tentado manter uma aparente cordialidade.
Ginny agarrou o braço de Neville.
— Harry sabia que Malfoy estava de volta?
Se isso fosse verdade, ela quebraria o pescoço do marido e iria pessoalmente buscar o irmão. Pensou em pegar as jóias que Célia guardava trancadas a chave em uma pequena caixa que ficava em seus aposentos. Porém duvidou que conseguisse o intento. Mas talvez o broche de esmeraldas que estava em seu poder cobriria o resgate de Mick.
— Claro que sim, minha querida. Hoje, pela manhã, ele até cancelou o convite de Draco para a nossa festa. Não foi muito cavalheiresco, mas Harry foi provocado.
— Como assim?
— Potter mandou chamá-lo com urgência. Eu não sei o que houve, mas depois de uma conferência em altos brados, Malfoy foi embora, furioso. Potter saiu do gabinete momen tos depois, lívido, rugindo como um leão escocês que, na ver dade, é. Imagine, nem mesmo quis falar comigo. — Neville mostrou-se ofendido e afofou os punhos de renda.
Luna chegou, corada e com os olhos brilhantes.
— Eles já vão começar? — Virou-se para observar os gi netes alinhados.
Alvo Dumbledore cumprimentou Harry, com um gesto de cabeça, e levantou a pistola acima da cabeça.
O tiro ecoou e Ginny tapou os ouvidos. Os cavalos dispara ram, cada cavaleiro agachado sobre o pescoço de sua montaria. Luna deu um pequeno grito, Clemency e Neville bateram pal mas. A multidão gritava como um bando de selvagens.
— Vá, Nimbus! Apostei duzentos barris na sua raça!
— Corra, idiota!
— Sea Hero na frente! Vá, menino, vá!
Ginny não conseguiu localizar Harry entre os jóqueis. Eles passaram como uma mancha ribombante com esporas que bri lhavam e chicotes que estalavam. Agarrou o leque de marfim com força e, para variar, quebrou uma das varetas.
Harry fizera uma oferta e fora recusado? Ou nem mesmo cogitara em tentar?
A multidão gritou e correu para a linha de chegada, como o populacho, em Tyburn, em dia de enforcamento. Neville se gurou Luna e Ginny pela cintura. Os três, acompanhados por Clemency, foram impelidos para a frente. A poeira subia da pista, misturada com o cheiro de couro, esterco e suor, enquan to os brados se sucediam.
— Nimbus está ganhando!
— Pescoço a pescoço!
— Vamos, Sea Hero! Mova essa carcaça!
— Por que eu amarrei o espartilho com tanta força? — Cle mency lamentou-se.
Ginny convencera-se de que não poderia confiar em Harry. Então, por que lhe doía tanto duvidar dele? Por que esperava estar errada, mesmo sabendo que estava certa? Harry se importava mais com a fazenda de que com ela, Mick e todos os escravos juntos. Ele nunca arriscaria Stanton Grove. E muito menos por um menino das sarjetas de Londres e de sua irmã, uma ladra cigana.
— Um homem morreu! — O clamor foi uníssono.
Deus permita que não seja Harry!
Ginny foi empurrada com violência. Uma mulher gritou, his térica. Ginny fechou os olhos e agarrou-se no cânhamo que fazia o isolamento da pista. No mesmo instante ouviu um baque e um guincho horrível. Abriu os olhos.
O cavalo estava deitado a uns trinta metros, encolhido na grama empoeirada. Os olhos revirados, as narinas alargadas e a respiração pesada. Uma das pernas estava dobrada sob o cor po suado e trêmulo do animal.
Ginny observou, horrorizada, a força que o cavalo fazia para se erguer. Ele grunhiu e caiu de novo no chão.
As pessoas fizeram silêncio. Ginny passou por baixo da cor da, com as lágrimas escorrendo-lhe pelas faces.
Oh, Deus, não permita que ele morra.
Sea Hero parou de se contorcer. Olhou para frente, onde Malfoy estava estirado de costas na grama. O grupo gritou uma advertência, e Ginny levantou o olhar.
Os outros cavalos continuavam a corrida. Os cavaleiros não tinham conseguido impedir a queda de Malfoy, mas haviam se desviado do perigo. Um dos ginetes estava de volta.
Harry.
Apesar do alívio, Ginny não parava de tremer. Harry des montou e verificou o pulso de Malfoy. O falatório recomeçou e invadiu a pista.
— Eu vi o que aconteceu! — Alvo Dumbledore gritou, che gando esbaforido. — Malfoy tentou cortar Nimbus, quando Harry se aproximou. O patife desequilibrou-se e caiu.
— Foi isso mesmo! — Tom Jefferson concordou. Outros homens também assentiram, com irritação. Um com portamento intolerável que deveria ser punido.
Harry ergueu-se.
— Ele não vai morrer. Está apenas desmaiado.
O rosto sem cor de Harry estava suado e sujo. Sua ex pressão era severa e, ao fitar, Ginny, o fez com olhar suplicante.
Pedindo o quê?
Ginny ajoelhou-se ao lado de Sea Hero. O cavalo arfava. Ela acariciou-lhe o pescoço suado.
— Afaste-se! — Harry gritou. — Ele está sofrendo muito. Poderá dar-lhe um coice!
Harry segurou-a pelo braço e levantou-a. Por um instante, apertou-a de encontro ao peito. Ginny sentiu o calor através da camisa encharcada e as batidas do coração sob os músculos bem definidos. O cheiro de couro, tabaco e almíscar a inebria va, como de costume e apesar das circunstâncias. Desejou que o barulho, as pessoas e o remorso sumissem. Assim poderia ficar para sempre nos braços dele.
Harry soltou-a e pediu a pistola de Alvo Dumbledore.
— Terei de sacrificar este animal.
— Não faça isso! Eu não permitirei! — Chorando convulsivamente, Ginny adiantou-se e bateu no peito do marido com os punhos fechados. — É isso que o senhor vem fazendo aqui em Virgínia? Livrar-se das coisas quando não lhe servem mais?
Harry tornou a afastá-la e segurou a arma. Desesperada, Ginny tentou tornar-lhe a pistola.
— Por favor, não faça isso! Clemency poderá salvá-lo! Ela é curandeira!
— Sinto muito, mo cridhe — Harry murmurou. — Não tenho escolha. Ele não sofrerá mais, eu lhe prometo.
— Promessas! — Ginny engasgou. — Estou cansada delas. O senhor não tem coração. É um homem cruel. Eu odeio...
— Por favor. — O olhar de Harry não poderia ser mais duro. — Sinto muito, mas é só o que se pode fazer. Nem sempre podemos satisfazer nossas vontades, mo cridhe. Se fosse pos sível, eu o salvaria, mas isso está além de meu poder. Teremos de aceitar o fato.
Harry virou-se e caminhou em direção ao animal ferido. Alvo Dumbledore aproximou-se e segurou o cotovelo de Ginny.
— Venha comigo, minha querida — ele sussurrou gentil. — Seu marido está certo. É o melhor para aquele pobre animal. — Ele a afastou da aglomeração, para o lado oposto do hipó dromo improvisado. — Posso garantir-lhe que ninguém ama mais os cavalos do que Harry. Ele criou e treinou uma equipe de puros-sangues. Os melhores, mais bonitos e mais inteligen tes. Trata deles como se fossem seus filhos. Sea Hero perten ceu-lhe. Foi vendido para Malfoy, em troca de um escravo fugido de dez anos.
Dumbledore sacudiu a cabeça e acariciou-lhe a mão gelada.
— Muitos pensam que Harry Potter é um homem in sensível. Estão muito errados. O coração dele ficou aleijado pelos horrores que sofreu. Minha querida, o que Harry fizer, sempre será por um bom motivo. Se o uma, como eu desconfio que seja, deve aprender a confiar nele... e a perdoá-lo.
Ginny escutou o barulho metálico da pistola sendo engati lhada. Virou-se devagar.
Pálido, com o rosto que parecia esculpido em pedra, Harry ajoelhou-se e assim permaneceu por alguns instantes.
Nota: Uhu! Bati meu recorde. Quero mandar um beijo pra Nany Potter, Marininha Potter e Pedro Freitas e a todo que acompanham a minha fic. Bjão.
Até a próxima atualização. Juh.
