Capítulo Dez: O Almejado Hyuuga
Parecia que havia pegado no sono há apenas alguns minutos quando acordou.
Sonhava com imagens indistinguíveis, vozes de criança e flores. Os seus sonhos, quase todos eles, tinham flores. Tenten não sabia por que gostava tanto delas.
Ainda era como se pudesse sentir o perfume agradável lhe acariciando as narinas quando abriu os olhos.
Tinha o corpo dolorido e preguiçoso, sentindo um frescor agradável fustigando a pele morena, arrepiando os seus pêlos.
Pouco a pouco se apercebeu da decoração do cômodo, coberta por um lençol, os cabelos emaranhados e caindo sobre o rosto sonolento. O local era grande e bagunçado, com poucos móveis.
Havia camisetas jogadas sobre a poltrona e a guarda da cama, a janela aberta, o vento balançando as cortinas cinza nada atraentes. Um quarto tipicamente masculino, com cheiro de homem, a mistura almíscar de suor e de gel para barbear que dominava as fronhas e o ar.
"Ah, você acordou, enfim." Então Makoto adentrou pela porta antes fechada.
Ele passou a mão pelos cabelos escuros, jogando água para todos os lados.
Usava apenas uma toalha em torno da cintura, o torso úmido.
Sorriu na sua direção, como se nada daquilo, daquela situação embaraçadora fosse importante. As lembranças, a sua nudez, também o arrependimento que ela pudesse sentir.
Tenten não pôde pensar em coisa alguma naqueles instantes que precederam o seu despertar.
Recordava-se dos beijos afoitos, das mãos sobre a sua cintura e seios. Ainda tinha nos lábios o gosto do moreno e era como se tudo que houvessem feito estivesse certo, talvez apenas porque estivessem bêbados.
Algo em sua mente a fizera considerar que aquele não era Neji, que não eram os abraços, os carinhos, a língua dele, mas aquela conclusão estava longínqua demais para que pudesse alcançá-lo em meio à névoa do álcool.
Não apercebido dos seus pensamentos, Makoto caminhou até o armário, de onde tirou uma camiseta e calças.
"Ainda é cedo, boneca." Falou, soltando a toalha para começar a se vestir.
Ela inconscientemente vislumbrou as nádegas que adorava e que ali, desnudas, lhe pareciam ainda mais agradáveis de se olhar. Quase podiam ser um pecado. Nada que fosse tão gostoso podia ser bom.
"Estou indo para o Kakus. Ia acordá-la para perguntar se prefere tomar café ou dormir até o horário do almoço."
Movendo a cabeça num maneio qualquer, pois Tenten não se encontrava apta para falar, ela tornou a se deitar, encolhendo-se sob o lençol.
Gemeu. Sua cabeça doía.
"Pedirei para que Lee avise à Hokage sobre o seu atraso." Então Makoto já estava de calças e pondo a camiseta. "Tem café na cozinha, se quiser se livrar da ressaca. E os analgésicos estão na primeira gaveta da mesa de cabeceira."
Ele sorriu mais uma vez, divertindo-se com a sua reação, antes de deixá-la.
"Vejo você depois." E se foi.
Sozinha, Tenten tornou a fechar os olhos, mordendo o lábio com mais força do que pretendia. Apenas um lacre em sua boca a impediria de gritar.
Quis fingir que tudo não passara de uma ilusão, um erro capaz de ser consertado, mas sabia que não era possível. As palavras de Hiashi ainda ocupavam a sua mente, de maneira quase a enfurecê-la. "Distração feminina", ele dissera.
Como se tudo o que ela e Neji haviam vivenciado juntos não houvesse simplesmente passado de horas de sexo descompromissado. Lá no fundo, sabia que o Hyuuga, de alguma maneira, a queria (ou pelo menos assim preferia acreditar). Apenas detestava admitir.
E ela, bem, ela o traíra.
Mas não conseguia se arrepender.
Estava com tanta raiva, tão chateada com a situação, com a sua própria maneira de agir, com a partida de Neji. Makoto havia sido uma conseqüência. Agarrara-se a ele como alguém que se agarra a uma tábua da salvação. Precisava de um refúgio.
A idéia de que tudo o que acontecera naquelas últimas semanas fora supérfluo, esquecível, aquilo fora o suficiente para assustar o inferno para fora dela.
Passou-se uma hora, constatou ao olhar no relógio.
Suspirou antes de levantar.
Kurenai havia lhe mandado uma mensagem na noite anterior, antes de ir para a casa dos Hyuuga (Deus, como ela se arrependia – sim, disso ela se arrependia - de ter aceitado aquele convite!), solicitando que tomasse as rédeas do time 2 outra vez. Yuki tivera uma recaída.
Assim, recordou com um pouco de rancor, os pupilos que-não-eram-seus a esperavam para a missão do dia.
Vestiu as roupas amassadas, que encontrou jogadas pela cama, e seguiu pelo corredor comprido e sem quadros da casa de Makoto até achar a porta que dava para a cozinha.
Podia ouvir o cantarolar do pai do mesmo e espiou pela porta que dava para a área de serviço. Havia uma horta, da qual ele mesmo tratava enquanto balbuciava algumas cantigas antigas. Ela sorriu ao vê-lo, silenciosa, e encheu uma xícara de café.
Afora a dor de cabeça, não estava se sentindo mal, pois já havia se habituado a beber daquela maneira. Os efeitos pós-trago nunca eram tão fortes quanto foram no início. Entretanto, tampouco estava se sentindo bem.
Lee já deveria ter deixado o Kakus, mas Tenten decidiu ir tomar o seu desjejum mesmo assim.
Depois da manhã, provavelmente só apareceria em casa para se banhar, uma vez que combinara de jantar com Sakura. Fazia alguns dias que não tinham a oportunidade de pôr a conversa em dia, fofocar e rir de bobagens.
"Que tal uma fruta?" A voz do pai de Makoto a despertou. O homem acabava de adentrar na cozinha, carregando uma cesta.
Embora Tenten soubesse que deveria se envergonhar por invadir a casa de uma família de respeito, ela não sentiu a menor centelha de constrangimento. O fato de saber que não tinha nada sério com Makoto contribuía para que perdesse quaisquer possíveis sensações de embaraço diante dos parentes do mesmo.
A única coisa que fez foi dar um sorriso amigável, maneando a cabeça em negativa, e voltou a bebericar do seu café amargo e extra-forte.
"Não, obrigada, senhor Tanaka." Respondeu mesmo assim, suavemente. "Como andam as suas verduras? Dei uma espiada na horta e ela parece... linda!" Completou, por falta de palavra melhor.
Ele soltou um riso rouco, apreciando o seu humor inconsciente.
"É." Abandonando a cesta de vime sobre o balcão, ele tirou um charuto do bolso. "Época boa." Explicou com um gesto de mão, indo até a mesa para pegar a caixa de fósforos sobre ela. "Meu filho já foi para o Kakus, é?"
"Faz mais de uma hora." Respondeu Tenten.
Não havia ajeitado os cabelos, de modo que os mesmos caíam desarrumados sobre os seus ombros, fora dos coques desmanchados sem saber como, e alguns fios estavam por sobre os seus olhos densos, dando-lhe um ar despojado e sonolento.
"Só vou terminar este café e também estarei saindo. O senhor precisa de algo?"
Ele ergueu os ombros, indiferente.
"Não imaginei que a veria por aqui." Comentou então, dando uma profunda tragada no charuto. "Makoto sempre disse que ele e a ninja morena eram apenas amigos." Soltou a fumaça lentamente, sentando-se ao lado dela. "Sempre a vi com o Hyuuga prepotente."
Ao contrário do que pensou a princípio, Tenten não se sentiu chateada por aquele comentário indiscreto.
De algum modo, a interrupção do velho Tanaka fez com que se sentisse melhor. Ele ao menos parecia interessado em conversar. E tudo o que ela mais desejava naquele momento era alguém com quem dividir a sua frustração. Não que fosse realmente boa naquilo. Verbalizar.
Colocando os pés descalços sobre a cadeira, ela vislumbrou a cor escura da sua bebida.
Sorriu, pesarosa.
"Tampouco me imaginei por aqui." Disse, distraída. "Mas às vezes o álcool e esse sentimento infindável de prostração nos fazem cometer loucuras, não é mesmo?" Levou a xícara aos lábios. "Gosto dele. Do seu filho, digo. É um amigo leal e me diverte quando estou deprimida. Porém não passamos disso: amigos que cometeram um deslize. Amo outra pessoa."
Foi só ao pronunciar a frase - Amo outra pessoa - que Tenten percebeu a profundidade do que nutria por Neji. Jamais havia verbalizado aquela palavra, como se ela fizesse parte de uma seleta lista de tabus. E, percebeu naquele instante, talvez fosse realmente melhor não tê-los quebrado.
Amar Neji acabaria por se mostrar uma resolução muito mais dolorosa do que apenas suportar silenciosamente as suas demonstrações de frieza, de estar nos seus braços sabendo que não era correspondida.
As pessoas diziam "Vá lá, Neji a ama", porém, no fundo, ela sabia que aquilo não poderia estar certo. Amá-la, logo a ela, não seria algo que ele faria. Talvez gostasse da pessoa Tenten, dos sorrisos Tenten, mas não amaria Tenten, porque sabia o quanto as suas atitudes e comentários às vezes o irritavam.
Ele se preocupava e ela admitia estar ciente disso, mas daí a amá-la, bem, acreditava que havia aí um abismo intransponível.
Com os olhos grandes e escuros como os do filho, Tanaka a fitava.
"Você é uma garota muito forte para se deprimir por amores não-correspondidos, menina." Ele só falou muito tempo depois, quando os pensamentos conflitantes já a haviam engolido por completo. "Deixe-me contar uma coisa: às vezes, estes moços intensos não passam de crianças perdidas."
Tenten riu à idéia do Hyuuga se enquadrar naquela categoria categoria. Perdido não seria uma palavra que usaria para descrevê-lo.
"Não, acredito que não." Falou apenas. "Ele é centrado demais para isso."
"Você não lê pensamentos." A voz do homem foi ríspida. "Você pode até tentar, mas não irá adivinhar. Da próxima vez em que o vir, pergunte. Isso pode se sair melhor do que você esperava a princípio." Sugeriu, dando uma tragada no charuto.
Ambos ficaram num silêncio confortável por alguns instantes.
"Bem," ele se levantou. "eu ainda tenho que lavar as alfaces." E se aproximou novamente da cesta de vime. "Você ficará por aí? Farei um refogado para o almoço."
"Se você que quiser cozinhar para mim e os meus três pupilos, sim." Zombou Tenten, erguendo-se e pondo a xícara vazia sobre a pia.
"Parece divertido." Respondeu ele, surpreendendo-a. "Às 13h." E moveu a cabeça num sinal de despedida, já de costas para ela.
OSDEUSES&OSDEUSES
Passava das dez quando apareceu no ponto de encontro do time dois.
Seus componentes estavam sentados sobre a relva, impacientes e abertamente mal-humorados - pelo menos dois deles, pois Kaname, um dos garotos, dormia.
Tenten se aproximou lentamente, impedindo-os de notarem a sua presença.
Tinha em mãos já o novo desígnio para o time genin, que não consistia em mais do que procurar um cachorro perdido na floresta que margeava Konoha.
Se tudo desse certo, ela imaginava que eles terminariam dentro de uma ou duas horas, no máximo, e então estariam dispensados pelo resto da tarde.
Depois de tomar uma ducha rápida, percebeu que não daria tempo de desjejuar. Vestiu-se e penteou os cabelos emaranhados, sem ter nada no estômago além daquele café amargo.
Diferente das outras vezes, em que se irritara ao ser designada para aquele serviço, Tenten não reclamou ao receber a mensagem de Kurenai. Habituara-se à presença dos pivetes no final das contas.
Além disso, Kurenai já não tinha a mesma disponibilidade anterior para guiá-los. O filho exigia muito da sua atenção e ela tinha anos suficientes de serviços prestados para pedir baixa. Tsunade dissera estar ciente de que muito em breve a jounin se absteria da função ninja e a deixara de sobreaviso que o time seria então seu.
De todo modo, Tenten não gostaria de pensar naquela hipótese até que ela se tornasse uma certeza.
Estava perto das crianças o bastante para poder assustá-los – o que faria apenas para castigá-los pelas expressões desgostosas que tinham na face.
"Hora de trabalhar, bobocas!" Gritou entre os rostos de Mai e Souchirou, que se encontravam sentados próximos, mirando o campo aberto, de costas para ela.
Ao som da sua voz, a dupla saltou, postando-se de pé e Kaname despertou imediatamente do cochilo, arregalando os olhos claros.
"Sempre prontos, assim que eu gosto." Riu, debochada. "Agora vamos andando. Temos serviço a fazer."
Souchirou soltou um resmungo de desdém, cruzando os braços atrás da nuca enquanto o companheiro se recompunha. Ser rebelde era o que fazia de melhor.
"Sabíamos que era você." Falou, se importar em soar desrespeitoso. Também era bastante sincero – o que podia ser bom ou ruim, dependendo da situação. "Kurenai-sensei sempre chega na hora." Completou, em tom acusatório.
"Mas isso é ótimo." Tenten pôs as mãos na cintura. "Assim, vocês já deviam estar preparados para me receber, não é mesmo?" Zombou.
Apesar dos acontecimentos recentes, estava de bom humor. Ou fingia estar.
"Então podem começar a caminhar para fora dos portões. Temos um cachorro para recuperar. Ponham-se a postos. Caminhem rapidamente e sejam discretos ou ele fugirá." Ia dizendo, conforme começara a andar.
Kaname ainda bocejava, sonolento, e não parecia muito empolgado com a perspectiva de outra missão Rank D idiota. Não que Tenten estivesse, tampouco.
"Ele é branco e grande. Não será difícil." Disse, mesmo assim.
"O que iremos fazer durante a tarde, Tenten-sensei?" Mai questionou, curiosa.
Os seus cabelos dourados e compridos refletiam ao sol quente da manhã, caindo por sobre os olhos.
Ela vestia o habitual conjunto preto e confortável com que costumava trabalhar e havia um ar aventureiro na face de porcelana que formava um contraste interessante e que fez com que Tenten sorrisse.
"Almoçaremos na casa de um amigo meu e depois disso..." Sua expressão gradualmente se modificou, para uma de prazer maligno. "Iremos treinar!"
Souchirou gemeu. Ele costumava xingar e praguejar bastante, mas nunca reclamava. Aparentemente, acreditava que isso o fazia se parecer com um bebê chorão. Era muito durão, o suficiente para se sentir humilhado em perseguir cachorros.
O completo oposto de Kaname, pacífico, um pouco medroso e preguiçoso.
"Treinar!" Soltou ele, choramingando às lembranças tortuosas do último treino ministrado pela jounin.
OSDEUSES&OSDEUSES
"Passa o sal, cabeça-oca."
Souchirou tinha a boca cheia, as madeixas escuras caindo na frente da face.
"Vá pegar, seu piá de merda." Respondeu Tenten, ocupada em exterminar o copo de suco de laranja.
Makoto riu àquela interação, que lhe parecia deveras cômica a considerar a personalidade parecida de ambos, enquanto o senhor Tanaka tratava de servir Mai de um pouco mais de refogado.
A missão da manhã havia sido finalizada sem grandes dificuldades, de modo que eles foram dispensados do serviço logo após levar o animal para a torre da Hokage.
Ao invés de liberá-los até às 14h como geralmente fazia, Tenten sugeriu que fossem para o Kakus.
As crianças adoraram Makoto ao mero vislumbre. Não só porque ele era simpático e amigável sem nem mesmo precisar se esforçar para isso, mas porque não parecia tratá-los como os jovens que eram. A deferência fez com que Souchirou estufasse o peito.
Durante o almoço, Tenten se percebeu analisando Makoto, querendo encontrar no seu semblante risonho algo que a fizesse culpá-lo pela noite que passaram, ou mesmo procurando alguma centelha de sentimento no seu riso despreocupado.
Ao contrário, ele não parecera sequer considerar que o fato de terem feito sexo modificaria algo na sua relação.
A naturalidade da sua expressão fez com que ela se tranqüilizasse.
"Está ótimo, senhor Tanaka." Dizia Kaname, despertando-a dos seus pensamentos. Ele sempre sabia a hora exata para ser educado. "O senhor bem que poderia nos convidar mais seguidamente!" Sugeriu, como se o conhecesse há meses.
Tanaka sorriu.
"Quem sabe." Falou, num tom vago.
"Não seja desagradável, Kaname!" Sibilou Mai, repreendendo-o antes que o mesmo tivesse tempo de abrir a boca outra vez. "Nós recém conhecemos o senhor Tanaka e você já quer aparecer todos os dias para filar rango, seu sem-vergonha."
Souchirou gargalhou enquanto o amigo ficava escarlate.
Estava óbvio que era a garota quem comandava o time, simplesmente pelo fato de que detinha o coração dos seus dois companheiros.
"Mas, Mai-" Kaname tentou se justificar, sendo imediatamente interrompido pelo gesto indiferente de Tenten.
"Tudo bem, terminem de comer." Mandou. "Se o senhor Tanaka quiser a nossa presença novamente algum dia, o que eu sinceramente duvido, então nós saberemos, certo?" Disse, num tom diplomático. "Agora tratem de esvaziar os pratos, pois tínhamos combinado de fazer algo hoje à tarde, lembram?"
Os três resmungaram, mas fizeram o que lhes foi ordenado.
Cerca de meia-hora depois, as crianças já estavam fora do portão da casa dos Tanaka, tendo se despedido muito alegremente dos dois anfitriões.
Depois de agradecer pelo convite e pela comida, Tenten também começou a se despedir.
"Vejo você no jantar?" Perguntou Makoto enquanto a acompanhava até a soleira, pois tornaria a voltar para o Kakus.
Ele a presenteou com um dos seus ares de riso agradáveis e inconfundíveis, aqueles que lhe tiraram o fôlego quase por toda a sua vida.
Ela fez um sinal negativo, apesar da sensação de deslumbramento natural.
"Fiz planos com uma amiga." Explicou, deixando que o moreno abrisse a portinhola para que pudessem passar.
"Certo." Makoto não pareceu decepcionado enquanto assanhava os cabelos escuros. "Escuta, o que é que você vai fazer amanhã à noite, Tenten?" Indagou, antes que ambos seguissem rumos diferentes. Ele ia para a direita, para o restaurante da família, que ficava logo ao lado da casa, fechado extraordinariamente para o horário de almoço, sentido contrário ao dela.
Olhando-o, surpresa, Tenten falou que não sabia.
"Ótimo. Quer sair para jantar?"
A princípio ela achou que aquela fosse uma piada. Mas embora risse, mostrando se divertir com o seu ar confuso, Makoto não parecia estar brincando. Ao contrário, havia alguma coisa nos orbes castanhos que a fazia crer que ele estava sério.
"Jantar de graça no Kakus?" Questionou, tentando dar um ar de troça para a situação.
"Não." Ele se escorou no portão, no seu ar charmoso inconfundível. "Você e eu, de preferência comigo sem um avental ridículo." Zombou, fazendo-a gargalhar à recordação da peça. "Sei de um lugar muito bom e gostaria que você conhecesse."
"Quem sabe." Tenten não quis negar abertamente. Pareceu pensativa. "Se eu estiver por aí..." Hesitou, mas o homem compreendeu perfeitamente e sorriu.
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Sakura suspirou enquanto olhava o cardápio, frustrada.
O local não estava cheio, visto que não era um dos restaurantes mais conceituados da Vila, e elas se sentiam à vontade o bastante para conversar sem terem medo de serem ouvidas por pessoas indiscretas. Ademais, não havia ninguém acomodado nas mesas contíguas.
Embora a Haruno por vezes fosse a mais falante das duas, naquela noite ambas estavam caladas.
Tenten simplesmente por não se sentir bem o bastante para conversar sobre o que quer que fosse, uma vez que as esparsas lembranças da noite anterior e do convite recente ainda lhe atormentavam a mente.
Os lábios de Makoto sobre o seu corpo, as mãos estranhas a acariciá-la. Fora um erro. Agradável, mas um erro.
Ingerindo uma boa quantidade do seu copo de saquê, Sakura soltou um resmungo, atraindo a atenção de Tenten.
"Daqui a duas horas precisarei estar em frente ao hospital." Disse, não parecendo nada satisfeita. "Cobrirei um dos médicos ausentes no plantão."
"O que é que você esteve fazendo durante todo o dia?" Questionou a morena, os orbes voltados para os transeuntes que passavam em frente ao restaurante.
"Oh." Sakura fez uma careta. "Decidindo os detalhes do casamento." Explicou. "Ainda não pude terminar de escolher o lugar dos convidados nas mesas durante a festa. Você sabe, isso pode ser uma tarefa detestável. E Sasuke só sabe dizer que nada daquilo importa, contanto que Naruto não fique berrando ao nosso lado." Ela gesticulou exageradamente com o cardápio ainda em mãos. "Mas, disse a ele, isso será impossível, visto que Naruto é nosso antigo companheiro de time. Seria deselegante."
Tenten se recordou das palavras amargas de Hinata, que alegavam o amor do Uzumaki pela médica à sua frente. E via agora o desdém com que Sakura se referia a ele.
Ainda não a observava quando se escorou melhor na cadeira.
"Sei." Disse, sem querer fazer mais comentários. A relação entre eles não era algo no qual poderia se intrometer, não sem constranger a Hyuuga. "Já decidiu o que vai pedir?" Perguntou, encarando-a então. "Vou querer tempura."
Sem responder, Sakura fez um sinal e chamou o garçom.
"O número um para mim, por favor." Solicitou, entregando-lhe o menu. "E tempura para a moça."
Quando o moço se foi, ela fez uma expressão contrafeita.
"Emagreci uns quatro quilos desde que começaram essas loucuras, se você quer saber. Perdi o apetite." Reclamou. "E ainda existem os problemas do hospital. Esperava ficar com a noite livre. Sasuke está para voltar de missão."
Arqueando as sobrancelhas, a morena voltou a atenção para a Haruno.
"Ainda está havendo algo no hospital, é?" Questionou. "Achei que fosse um problema passageiro. Ouvi comentários, mas nada muito conclusivo." Lembrou-se de um falatório na torre da Hokage naquela manhã. "Estou responsável pelo time da Kurenai, você sabe. A Hokage acredita que em breve o assumirei por completo."
"Um azar para você." Comentou Sakura com uma careta. "Detestaria. Não tenho paciência." Disse, distraída. "Se você quer saber, um dos nossos médicos cometeu uma burrada. Uma terrível burrada."
Tenten sabia que aquele era um caso sigiloso, já que havia muitos sussurros, mas nada conclusivo vagando de boca em boca. As palavras de Sakura, porém, confirmaram suas suspeitas e a causa daquela estranha perturbação. Só era preciso usar um pouco de dedição.
Afinal, além de ser incapaz de ser 100% bem sucedido todas as vezes, o único outro erro que um médico poderia cometer era relativo a um diagnóstico.
"Sim, você está certa." A Haruno pôde ler na sua face o que lhe passava pelos pensamentos. "Diagnosticou errado a doença de um paciente. Isso nos deixou em maus lençóis. Poderia gerar uma catástrofe! Foi demitido. Demitido do hospital imediatamente. Que é que poderíamos ter feito?" E tomou mais um gole da sua bebida. "O fato é que o Conselho decidiu não retirar a sua licença médica, você pode acreditar?"
"Bem, espero que isso se resolva sem mais contratempos." Falou Tenten, tentando aplacar naquele vago comentário a fúria exposta pelo semblante pálido da amiga. "Neji saiu em missão ontem à madrugada." Comentou. "Éramos os seus padrinhos, certo?" Recordou-a. "Não creio que ele voltará a tempo."
Sakura mordiscou o lábio, esquecendo a situação anterior.
"Eu sei. Sasuke falou comigo sobre isso. Quem é que assumirá o seu lugar?" Perguntou-se, suspirando.
Erguendo os ombros num sinal de descaso, Tenten observou os pedidos serem trazidos pelo garçom, sendo então postos à sua frente. Pegou os hashi, desgrudando-os e balbuciou um agradecimento pela refeição.
"Sasuke não quer que seja ninguém." Sakura continuou a falar, fazendo os mesmos gestos da morena. "Ele e Naruto andaram se desentendendo nos últimos tempos. Não sei ao certo quando ficou tão próximo de Neji, mas o fato é que não podemos ficar sem um padrinho. Que é que pareceria você lá parada ao altar sozinha? Seria desagradável, não é mesmo?"
Levando uma generosa porção à boca, Tenten concordou.
"Ainda não tive tempo de ver um vestido." Disse, em tom de desculpas.
"Não é como se tivéssemos realmente muito tempo disponível." Sakura fez um gesto distraído.
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Quando Tenten chegou em casa, Hinata estava escorada à porta, do lado de fora.
Era tarde, passava das onze. E tudo o que mais desejava era de um banho relaxante e uma boa noite de sono, esquecer de tudo o que acontecera – Makoto, Sakura.
Ao percebê-la chegar, a Hyuuga imediatamente se pôs numa posição ereta, sorrindo em um pedido claro de desculpas pela noite anterior.
Sem dizer nada, Tenten abriu a porta e acendeu as luzes, deparando-se com a sua sala desarrumada.
"Desculpe-me pelo meu pai ontem à noite, Tenten-chan." Hinata verbalizou em seguida, vendo-a jogar as chaves sobre a mesa e seguir para a cozinha, desfazendo os coques. "Ele apenas estava mal-humorado." Explicou, abaixando-se para pegar uma peça de roupa jogada no chão.
Abrindo a geladeira, a jounin procurou pela jarra de água gelada, na qual bebeu pelo gargalo, e pareceu ignorar as palavras pronunciadas da sala.
Não estava interessada no que Hinata queria lhe dizer. Não só porque considerava que nada poderia tirar da sua cabeça aquilo que, muito rudemente, Hiashi lhe cuspira na face, como porque outros brocardos margeavam os seus pensamentos.
"Papai está irritado." Embora houvesse percebido o desapego de Tenten, o ar distante e molestado do rosto, a Hyuuuga se decidiu por continuar ao vê-la retornar. Hesitou, dobrando uma blusa. "Minha mãe está com dificuldades para engravidar." Disse, lentamente. "Já abortou duas vezes. Tem o útero fraco, disseram os médicos. Se soubéssemos que não era boa para procriar, acredito que jamais integraria a nossa família."
Àquela alegação, Tenten, que se ocupava em tirar os sapatos, encarou-a.
"Foi um casamento arranjado esse do seu pai?" Questionou, o cenho franzido.
"Ora, mas é claro." A moça sorriu, embora não tivesse alegria alguma no seu curvar de lábios quase imperceptível. "Quando me provei fraca, há três anos, os conselheiros pressionaram meu pai a respeito do nosso futuro líder. Eu sou, além de mulher, um peso morto. Precisamos de um homem." Pousando a veste sobre a guarda do sofá, Hinata se sentou. "Senão, duvido que ele tornasse a casar. Considera as mulheres um estorvo."
Tenten nada disse, pois o que lhe ocorria no momento não seria agradável de pronunciar. Passou a mão por entre os cabelos, desfazendo os pequenos nós, e, já descalça, plantou os olhos na amiga, que pareceu aliviada ao perceber que detinha então sua atenção total.
"O fato é, Tenten-chan," Hinata se sentiu mais encorajada. "que nós necessitamos desesperadamente de um herdeiro masculino ou perderemos o governo da família para o primo de papai. Para que pudesse assumir o meu título por direito, precisaria estar no nível elite, o que, considerando minhas aptidões, é inviável." Voltou-se para a janela, desanimada. "A resposta seria um casamento com Neji-niisan, entretanto ele é meu protetor e é considerada, pelas leis do clã, indecorosa uma relação entre esse e o protegido."
Ciúme descomedido se apossou de Tenten ao ouvi-la articular tais sentenças. Não poderia imaginar Neji comprometido com Hinata. Aquela idéia parecia desagradável ainda ao ser pronunciada, que dirá ao se realizar, pensava, com profundo desgosto.
Notando a sua expressão descontente, Hinata titubeou, pois não gostaria de despertar nela um ódio desnecessário.
"P-papai não quer me casar com outro Hyuuga. Neji-niisan é seu afilhado afinal." Ia dizendo, um tom de voz comedido. "Então sobra Hanabi, mas Neji-niisan jamais se casaria com ela. Por isso meu pai fez o que fez. Você é um empecilho."
Ao final da vacilante explicação, Tenten riu como se houvesse achado aquilo deveras engraçado.
"Então ele quer que eu caia fora?" Questionou, esparramando-se no sofá. Ergueu o queixo num sinal de prepotência. "Pois Hiashi realmente não me conhece se acredita que vou desistir do que quero apenas para deixá-lo satisfeito." Zombou.
"O que é que você quer, Tenten-chan?" A pergunta de Hinata foi feita com uma nota de ingenuidade claramente calculada.
"Você sabe, eu o quero." Ela respondeu sem sequer precisar pensar. "Neji." Murmurou, sentindo prazer ao pronunciar aquele nome.
A Hyuuga sorriu.
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Seus lençóis ainda tinham cheiro de Neji.
Suspirou ao sentir o perfume, já debaixo das cobertas, os cabelos esparramados pelo travesseiro.
A janela estava aberta como quase em todas as noites, mas Tenten sabia que não teria companhia. Sentia falta de Neji.
Sentia falta da sua voz áspera, da sua personalidade intolerante. Do jeito como franzia as sobrancelhas quando aborrecido. E da sua expressão quando a criticava – o que era muito comum.
Fazer amor com Neji era uma experiência totalmente diferente de fazer sexo puro e simples com Makoto.
A última vez em que a tocara, ela sentiu como se todo o seu corpo estivesse pronto para explodir, como se pudesse gritar os seus sentimentos mais profundos, como se ele pudesse evocar, com o toque dos dedos e o deslizar da língua, toda a paixão e devoção que ela secretamente cultivava.
Encolheu-se, querendo ter o calor dos braços fortes que por tantas vezes experimentara.
Akeboshi, no apartamento ao lado, fazia muito barulho, mas Tenten não se importou. Quando fechou os olhos, teve a certeza de que queria a presença de Neji em sua vida a tal ponto que sequer se incomodaria de precisar cozinhar o jantar todos os dias. E vencer a batalha contra a frigideira.
