A.N.: Desculpem pela demora, o capítulo acabou saindo bem mais longo que o esperado.

CAPÍTULO 10 – O Expresso Hogwarts

Próximo a uma coluna na área de embarque da Plataforma 9 ¾ na estação de King's Cross, um pequeno casal de loirinhos aguardava a volta de uma amiga que fora reservar uma cabine para eles no trem enquanto vigiavam a entrada da plataforma. Paul Zurkhof estava visivelmente ansioso, já que eles estavam agora próximos de colocar em ação planos que eles vinham cogitando há anos, enquanto sua irmã Lisa tentava mantê-lo calmo.

A presença de aurores e jornalistas checando as pessoas que chegavam à plataforma em busca do menino-que-sobrevivera, mesmo quando esse garoto deixara claro nas últimas semanas que ele NÃO estaria indo a Hogwarts, era uma tal contradição que deixava Paul nervoso. Será que se ele tivesse dito que iria, seria algo tão normal que ninguém viria recebê-lo na estação?

"Parece que realmente tivemos sorte, Paul" comentou Lisa. "Por um momento fiquei com receio, quando vi os aurores, mas parece que o Ministério ainda não percebeu que há mais meninas matriculadas esse ano. Talvez..."

Um grito de uma voz infantil interrompeu Lisa no meio de seu comentário.

"SOCORRO! SOCORRO! UM MONSTRO!"

Paul rapidamente abaixou-se para em seguida levantar-se novamente, com uma pequena garotinha loira que veio correndo em sua direção aos gritos firmemente segura por seu braço esquerdo, enquanto seu braço direito estava estendido à frente, pronto para atacar qualquer perigo que se aproximasse.

"Onde?" perguntou o menino, falhando em reconhecer qualquer ameaça por perto.

"Ali!" respondeu a pequena menina, apontando para outra garota que vinha chegando perto, também correndo. A nova garota parou subitamente a três passos deles, olhando apreensivamente para eles. Paul logo percebeu o que estava acontecendo.

"Monstro? Eu não vejo nenhum monstro, só uma linda garota. Aliás, ela é tão bonita que me lembra de você. Aposto que é sua irmã, não é?"

Entre a ironia, a revelação da brincadeira, o elogio à beleza delas e o sorriso maroto que o menino exibiu, a garota mais velha ficou visivelmente corada enquanto a menor, rindo e concordando, ainda persistiu: "Mas ela é um monstro! Olha, mais monstros!"

Paul olhou na direção que a menininha apontava e viu duas outras pessoas se aproximando, outra garota, essa aparentando estar iniciando Hogwarts com ele, e uma mulher, certamente a mãe das três meninas dada a incrível semelhança.

"Raquel!" disse a mãe, não muito feliz, mas com uma aspereza que era mais pretensão que realidade. "Correndo à frente de novo! Não percebe o perigo?"

Antes que a mulher pudesse continuar, a menininha abraçou Paul ao redor do pescoço, colou sua face à dele e alegremente respondeu "Meu herói me protege!"

Foi então que a mulher finalmente dirigiu sua atenção aos dois irmãos, introduzindo a si e às filhas.

"Desculpe-me, por favor. Sou Helena Greengrass e essas são minhas filhas Dafne, Astória e Raquel." Ela disse enquanto apontava para as garotas, da mais velha para a mais nova. Os irmãos Zurkhofs apresentaram-se e estavam apenas começando a conversar quando outra mulher, com duas filhas, aproximou-se. Certamente elas todas se conheciam bem entre si, já que as três que chegavam logo estavam abraçando a Greengrass correspondente em idade. Momentos depois os Zurkhofs eram introduzidos às mulheres da família Davis: Isabel, Tracy e Tabita.

Eles ficaram conversando ali por alguns minutos até que, com a proximidade da partida, veio a necessidade de separar as irmãs. Foi então que Paul sugeriu algo que nunca havia ocorrido às duas mulheres: "Por que não deixam as mais jovens nos acompanhar na viagem? Vocês poderiam pegá-las na estação de Hogsmeade, não é?"

As duas mulheres pensaram sobre a proposta, e a senhora Davis foi até um funcionário da estação checar a possibilidade. Ela retornou com três passagens para as meninas mais novas. Paul recebeu um beijo molhado de Raquel na bochecha. A menina agora tinha certeza de que o garoto era realmente um herói. Ele conseguira que ela viajasse no trem anos antes do que ela esperava! E a devoção dela a Paul aumentou ainda mais quando ele prometeu às três mais jovens que eles poderiam trocar cartas, e que ele prometia contar a elas tudo o que acontecesse em Hogwarts. Parecia que as mais novas não confiavam nas irmãs mais velhas para deixá-las informadas a contento.

Embarcando, o grupo todo foi até a cabine reservada por Luna que, sabendo da presença de mais pessoas por mensagem telepática de Lisa, tratou de expandir um pouco o espaço disponível antes que eles chegassem. Eles passaram a primeira hora em conversa amigável, conhecendo-se e comparando suas vidas em dois mundos tão diferentes. O CD-player de Lisa foi um sucesso imediato com as meninas. A variedade e qualidade da música trouxa fascinou as pequenas bruxinhas, especialmente os sons sintetizados de Vangelis e Jean-Michel Jarre, tão diferentes de tudo o que elas haviam ouvido antes. Lisa aproveitou e, com um pequeno sorriso para Paul, deixou ao menino o ônus de explicar como o equipamento funcionava, saindo da cabine com Luna para executarem a primeira parte de seu plano para subverter o mundo mágico: encontrar a primeira aluna que passaria pela seleção de casas.

-o0o-

Quando Lisa e Luna retornaram meia hora mais tarde, trouxeram duas garotas com elas, que introduziram aos demais como Susana Bones e Ana Abbott. Com seu alvo identificado, Paul começou o ataque.

"Um nome bonito, Ana, e tem a curiosa propriedade de ser idêntico se lido de trás para frente. Isso é chamado de palíndromo, eu acho. Mas seu sobrenome, Abbott, torna você ainda mais especial, não é?" disse ele.

"Por quê?" perguntou a loirinha de tranças, algo intrigada com as palavras de Paul.

"Bem, com seu sobrenome, tenho certeza de que você será a primeira de nós, novos estudantes, a ser chamada para o processo de seleção" respondeu o garoto.

Parecia que Ana não havia pensado nessa possibilidade. A garota rapidamente empalideceu e ficou insegura, e foi o alvo de algumas brincadeiras pelas outras meninas. Quando elas haviam cumprido sua obrigação de deixar a pobre Ana tímida e preocupada, Paul reiniciou sua campanha.

"Você chegou a pensar como poderia mudar tudo, se quisesse?"

Como Paul esperava, aquilo atraiu a curiosidade de todas, e ele então explicou como o processo de seleção ocorria. Aquilo era algo novo, já que a mágica inerente ao chapéu seletor proibia que os alunos selecionados conseguissem revelar o processo às pessoas que não estivessem sabendo do segredo. Como os três conspiradores haviam visto o processo no ano anterior em suas viagens-fantasmas, sem contato físico com o chapéu, eles não estavam sujeitos à sua magia.

"Um chapéu mágico que pertenceu a Godrico Gryffindor e foi encantado por Rowena Ravenclaw é colocado sobre a cabeça do estudante sendo selecionado. O chapéu tem a habilidade de acessar os pensamentos e memórias do estudante e dizer em qual casa ele melhor se adaptaria" explicou ele, mas eram suas próximas palavras que realmente eram importantes para o plano. "Pessoalmente, eu acho que é um sério erro selecionar os estudantes em seu primeiro dia na escola. Vocês viram aquela briga na estação, entre os alunos de vermelho contra os de verde?"

"Grifinórios e Sonserinos" explicou Dafne, "essas duas casas são as maiores rivais em Hogwarts. Parece que a rivalidade vem da época dos fundadores, e ninguém jamais encontrou uma forma de amenizá-la."

"Bem, eu acho que isso poderia ser facilmente modificado se o processo de seleção ocorresse mais tarde" comentou Paul, explicando "Disciplinas eletivas e visitas a Hogsmeade só são permitias para o pessoal de terceiro ano ou acima. Se a seleção também ocorre no terceiro ano, essa rivalidade certamente diminuiria. Depois de dois anos dividindo um dormitório e fazendo amizade com as outras crianças, seria difícil odiá-los tanto depois da seleção. É fácil falar mal de quem não conhecemos, mas é bem mais difícil fazer o mesmo com quem o tratou bem por dois anos, e que pode até ter se tornado um bom amigo."

"E você acha que o processo de seleção pode mudar se Ana simplesmente pedir ao chapéu?" perguntou Tracy.

"É uma chance que eu adoraria tentar, você não? Nós..." Paul apontou para si, Lisa e Luna, "...fizemos algumas pesquisas sobre o que esperar depois de terminar Hogwarts. O que encontramos não foi muito encorajador..."

"Você fala daquilo que o menino-que-sobreviveu disse nos artigos no Pensador? Na forma como mulheres e nascidos-trouxa e aqueles de Lufa-Lufa são prejudicados, enquanto homens puro-sangue de Sonserina pegam as melhores posições?" perguntou Ana.

"Exatamente" respondeu Lisa. "Como garota e nascida-trouxa, eu simplesmente não posso concordar com tal situação."

"Isso eu conheço bem" adicionou Susana. "Minha tia é a chefe do Departamento de Execução de Leis Mágicas. Mesmo vindo de uma das mais antigas e privilegiadas famílias mágicas, ela teve que trabalhar o triplo para conseguir sua posição e aceitar ficar solteira, de outra forma sua condição de mulher vinda de Lufa-lufa teria tornado impossível para ela subir até a posição que ela ocupa."

Enquanto Susana falava, Paul olhou discretamente para Lisa que, com um sorriso e um aceno de cabeça, concordou em implementar a fase dois do plano: deixar que alguns poucos alunos selecionados soubessem que eles tinham coisas importantes que podiam ensinar para eles, se eles passassem em um pequeno teste de fidelidade.

"Vocês são capazes de guardar um segredo?" perguntou Lisa. Após ela receber a anuência das meninas, ela virou-se para o único garoto no grupo e pediu: "Paul, abra um portal para casa, por favor."

Para surpresa das bruxinhas, um disco ovalado surgiu no meio da cabine e Lisa e Luna rapidamente passaram por ele, sumindo de vista. Em segundos elas estavam de volta, com um sortimento de bebidas e comidas para o almoço.

Por segurança e facilidade, todos os pratos eram frios, mas tão diferentes de tudo o que a sociedade mágica estava acostumada! Bom, nem só a sociedade mágica. Na Grã-Bretanha em geral as carnes normalmente são servidas em um ponto que muitos considerariam por demais passada. Dessa forma, a presença de carpaccio (prato italiano com tiras finas de filé-mignon cru com molho de mostarda, azeite e alcaparras cobertas com pedacinhos de queijo parmesão), ceviche (prato peruano com pedaços de lagosta, camarão e polvo marinados no suco de limão) e mett (prato alemão com carne de porco crua moída temperada com azeite, alcaparras, cebolinhas e diversos condimentos) foi algo estranho para as bruxinhas puro-sangue, e nem todas quiseram provar. Mas havia outros pratos menos exóticos, e as frutas fizeram sensação! E que variedade! Rambustão e mangostão da Indonésia; lichia, nêspera e loquat da China; pitaias mexicanas; jabuticabas, cajás e grumixamas do Brasil; cherimoias do Chile, e assim por diante.

"Paul, você nunca mais vai ter paz em sua vida. Você está mimando Raquel demais! Ela vai transformá-lo em um escravo assim" comentou Dafne ao ver a irmãzinha languidamente deitada no colo de Paul, que sentara no chão, as costas apoiadas na parede logo abaixo da janela, enquanto o menino ia alimentando a garotinha com pedaços de frutas.

"Meu herói!" reclamou Raquel, antes de mostrar a língua para a irmã mais velha e inflar as bochechas em indignação. Lisa aproveitou para contar a Ana, Susana e Luna como eles haviam encontrado as outras meninas na plataforma, causando uma rodada de risadas gerais, interrompida pela chegada abrupta de três meninos, dois neandertais flanqueando um loirinho andrógino. O loirinho olhou com desdém ao redor antes de concentrar sua atenção em Dafne.

"Senhorita Greengrass, um tesouro de alta linhagem como vós não deveria desperdiçar vosso tempo com tal ralé. Venha comigo e eu irei introduzi-la a pessoas de melhor qualidade" ele disse antes de fazer uma reverência e estender a mão para a menina.

Paul não conseguiu resistir àquela amostra de arrogância e artificialidade e teve dificuldades em controlar o riso. Isso causou um efeito em cadeia, e logo várias meninas estavam também tentando conter o riso, o que enfuriou muito a garotinho esnobe.

"Tenha cuidado, seu estúpido sangue-ruim, porque eu sou Draco, herdeiro dos Malfoys, uma das mais respeitadas e importantes famílias do mundo mágico, e posso tornar sua já desprezível vida em insuportável!" disse o platinado a Paul.

Paul começou a sentir uma crescente vontade de causar dor àquele garoto, mas antes que ele pudesse pensar na melhor forma de machucar o pretensioso menino, Lisa colocou uma mão sobre seu ombro e Dafne respondeu ao convite.

"Dispenso uma oferta como essa sua. Acha mesmo que vou deixar a companhia de familiares e bons amigos para ficar com esnobes preconceituosos como você? Antes só do que mal acompanhada, e antes com amigos de verdade do que com gente false e mesquinha!"

"Você vai se arrepender dessas palavras, Greengrass! Eu tentei estender uma mão amiga a você e você recusou. Seremos inimigos então. Ninguém desrespeita um Malfoy e fica sem sua justa punição. Você aprenderá essa lição até que implore por clemência!" disse o garoto enquanto saindo do compartimento, lançando um último olhar de repulsa às crianças ali reunidas. Atrapalhou um pouco sua saída Paul ter tornado o chão naquele pedaço extremamente liso, fazendo os três garotos deslizarem porta à fora para chocarem-se contra a parede oposta.

Assim que os garotos finalmente se afastaram Paul aproximou-se de Dafne e ajoelhou na frente da menina, preocupado com a forma como ela tremia de raiva pela ousadia do prepotente garoto. Pegando as mãos dela nas suas e olhando-a nos olhos, ele disse "Dafne, você lidou bem com aquele esnobe afeminado. Tenho certeza de que você tem a habilidade e poder necessários para lidar com ele se ele tentar alguma coisa, mas saiba que estamos ao seu lado se precisar de qualquer ajuda. Você é nossa amiga agora, e para mim é como se fosse família. Eu farei qualquer coisa em meu poder por você."

Após um momento de silêncio carregado de emoções, Tracy tomou a iniciativa de aliviar um pouco o ambiente.

"Uau, Paul! Você agora me surpreendeu! Qualquer outro garoto teria tentado alguma bravata para fazer papel de herói protegendo a pobre e fraca donzela, e nem teria percebido a situação em que ela se colocou, mas você ofereceu ajuda sem subestimar a capacidade dela e ainda por cima elogiando!"

Aquelas palavras deixaram Paul corado de embaraço enquanto as meninas riam às suas custas, mas o menino foi recompensado por Raquel que, beijando-lhe a face, aproveitou para comentar "Viu! Ele é mesmo um herói!"

-o0o-

Com a calma voltando ao compartimento, os três pequenos conspiradores voltaram ao assunto da rivalidade entre as casas de Hogwarts e o que poderia ser feito para melhorar a situação. No fim, convencerem o resto do pessoal, e especialmente Ana, a primeira a ser selecionada, a fazerem uma tentativa de mudança, acabou sendo bem mais fácil do que esperavam.

A ideia seguinte que eles queriam discutir, a grade de disciplinas, teve que esperar uma pausa para que todos pudessem usar o toalete. Foi durante essa pausa, em que as meninas revezaram-se indo de duas ou três por vez, que eles receberam uma nova visita. Uma garota com um cabelo castanho armado e um menino gordinho de cara redonda, ambos também iniciantes em Hogwarts.

"Desculpe incomodar..." disse a menina, "eu sou Hermione Granger e este é Neville Longbottom. Neville perdeu seu animal de estimação, um sapo. Vocês o viram?"

Enquanto a maioria respondia que não houvera visto o sapo, Lisa resolveu a oportunidade para expor as novas amigas a mais um feito impressionante, com a intenção de garantir a participação delas no grupo que queriam formar.

"Se puderem aguardar uns minutos eu posso encontra-lo" ela sugeriu. Os dois concordaram e Lisa pediu ajuda a Paul, que colocou Raquel sentada em sua coxa esquerda, liberando a direita para Lisa sentar. A menina deixou suas costas descansarem contra o peito de Paul, que passou seu braço direito pela cintura da menina, segurando-a no lugar enquanto ela fazia uma rápida 'viagem' procurando pelo sapo. Alguns momentos depois ela abria os olhos novamente.

"O sapo está no próximo vagão, no banheiro das meninas. A privada tem um buraco na parte de trás, e o sapo está aninhado ali."

A nova menina teve dificuldades em engolir aquilo.

"Não... não é possível... não posso acreditar... Neville, espere aqui, eu já volto."

Com exceção de Paul e Luna, os demais ficaram observando Lisa boquiabertos até que Hermione voltou e entregou o sapo a seu dono.

"Você ensinaria a gente como fazer isso?" perguntou Ana.

"E aquele buraco! Ensina para nós também?" perguntou Tracy.

"O que mais vocês podem fazer?" "Onde aprenderam isso?" "O que eu faço para aprender?" "Eu também posso?" As perguntas seguiram-se rapidamente, todos falando ao mesmo tempo.

"Talvez" respondeu Lisa. "Depende muito do potencial de cada um, algumas coisas podem ser possíveis, outras não. Das possíveis, umas serão mais fáceis para uns, outras para outros. Eu tenho facilidade para todas as formas de habilidades mentais, enquanto Paul vai melhor com a parte física. Eu não sou capaz de abrir um portal, aquele buraco que vocês viram, e Paul precisaria de muito mais tempo do que gastei para encontrar o sapo."

"Há muitas coisas que podemos ensinar a vocês que vocês não aprenderiam com mais ninguém, mas precisamos proteger esse conhecimento de alguma forma. Nós pensamos em um juramento mágico..." comentou Luna, mas foi interrompida subitamente por Susana.

"Juramentos são perigosos! Minha tia me contou de uma série de problemas que pessoas tiveram com juramentos mal formulados. Vocês tem algo específico em mente?"

"E o que vocês ensinariam para nós? Precisamos saber para poder decidir se um juramento é aceitável ou não" comentou Tracy.

"Simplesmente listarmos tudo o que podemos ensinar a vocês não vai funcionar. Vocês não acreditariam sem provas, não é? Pelo menos não deveriam" explicou Luna. "Acham que uma demonstração de transmutação seria o suficiente?" Luna levantou-se e retirou uma pequena bola de madeira que fazia parte do enfeite do antigo banco do compartimento. "Que tal se Paul transformasse essa bola em um diamante?"

Todos estavam interessados em ver a demonstração. Paul fez a bola de madeira flutuar para perto da janela aberta. Era visível que a simples levitação sem varinha ou encantamento já impressionava a todos. A bola logo começou a emitir fumaça, que felizmente saía pela janela, transformando-se em uma brasa de um vermelho vivo. Ficou claro que a temperatura da bola aumentava rapidamente, passando a laranja, amarelo e assim por diante, até chegar a um branco tão luminoso que era quase cegante.

Paul estava recriando com magia o processo natural de formação dos diamantes: carvão sob alta pressão e temperatura. Enquanto Paul concentrava-se em criar o diamante, Luna auxiliava blindando as crianças contra o calor que irradiava da bola, direcionando-o para fora do trem.

De repente, a luz extinguiu-se, e eles sentiram aliviados o calor excedente saindo do compartimento, enquanto uma brisa refrescante resfriava tudo. Ainda flutuando próxima à janela, a bola estava menor, e já não era mais madeira, mas um cristal coberto por uma camada incompleta de cinzas. Foi nesse momento que um garoto ruivo com uma insígnia de monitor invadiu o compartimento.

"O que é isso?" ele perguntou apontando para a rocha flutuante. "E toda aquela luz? O que aconteceu aqui?"

Tracy, sempre sarcástica, não conseguiu se conter: "Mágica?" respondeu ela ao invasor.

O garoto não gostou da resposta, sacou sua varinha e tentou atrair a pedra para si. Paul percebeu e deixou que o cristal caísse em sua mão, segurando-o firme.

"O que é isso? O que vocês fizeram aqui? Eu sou um monitor, exijo saber!" insistiu o rapaz.

"Isto é apenas o resultado de uma demonstração" respondeu Paul, já um pouco zangado com a rudeza do monitor.

"E toda aquela luz? E o que fizeram com esse compartimento? E essas crianças pequenas, elas não deveriam estar aqui! Vocês estão ferrados, todos vocês, estejam certos disso!"

"Tudo vai estar como antes quando chegarmos a Hogsmeade, não se preocupe" respondeu Luna.

"Vou reportar tudo ao chefe de suas casas assim que vocês forem sorteados. Agora, dê-me isso! Eu estou confiscando essa pedra como prova!" concluiu o rapaz, avançando para tentar pegar a pedra de Paul.

"Não!" respondeu Paul, lutando para manter a calma com o arrogante monitor. "Faça a sua se quiser... e puder!"

O monitor perdeu totalmente a paciência e lançou-se contra o garoto menor. O que o monitor não esperava era dar de cabeça contra a janela do trem... do lado de fora do compartimento! Paul abrira um portal e o monitor o atravessara saindo no corredor fora do compartimento, estraçalhando a janela do outro lado do vagão. Quando o rapaz finalmente conseguiu levantar-se, já não havia mais uma porta para que ele pudesse entrar novamente no compartimento das crianças, nem janelas, apenas uma parede metálica inteiriça.

Dentro do compartimento o grupo estava rindo do 'acidente' do monitor. Para eles a parede estava totalmente transparente, mas à prova de som.

-o0o-

O grupo virou-se para Paul a tempo de ver o menino, com um gesto de mão, limpar o diamante das cinzas em volta e oferece-lo a Raquel.

"Um precioso presente para uma menina preciosa" ele disse para a pequena, entregando-lhe o diamante, feliz em ver a menina toda tímida e corada pelo elogio.

"Isso é mesmo um diamante, Paul? Um diamante permanente?" perguntou Ana com uma voz cheia de reverência.

"Sim. Bom o suficiente para que os duendes o comprem com prazer. Pode acreditar, já vendi muitos para eles" respondeu o garoto.

"Quanto vale?" perguntou Tabita.

"Umas vinte mil libras, eu acho" respondeu Lisa, mas ao ver a expressão confusa da maioria, rapidamente converteu a quantia: "Cerca de quatro mil galeões."

Foi cômico ver a expressão de surpresa no grupo, especialmente na pequena Raquel, que tentou devolver o diamante para Paul, assustada, mas o menino recusou.

"Por favor, fique com ele. É seu, um presente para você lembrar-se de mim."

Paul recebeu um abraço apertado e um beijo na face da agradecida menina.

"Mas... não é possível!" arguiu Dafne. "Cristais permanentes só podem ser criados através da decantação alquímica de poções especiais. Pelo menos foi isso que li em um dos livros da nossa biblioteca."

"Gostei dessa disposição sua" comentou Lisa sorrindo. "Você está expressando o que considera ser a verdade, mas com uma cabeça aberta para considerar alternativas. Paul, precisamos dela na nossa equipe."

Um coro de "Eu também!" logo se seguiu, assegurando aos pequenos conspiradores que seus novos amigos estavam prontos para considerar seriamente o juramento de que necessitavam. Mas primeiro eles precisavam deixar claro quanto de esforço estava envolvido para dominar aquele novo tipo de magia. A meia hora seguinte foi gasta em explicar o quanto de estudos, especialmente de ciência trouxa, seria necessário antes que eles pudessem chegar ao ponto de poder criar seus próprios diamantes ou fazer as outras proezas que Luna e Paul eram capazes.

"Você garante pra nós que, se nos esforçarmos para aprender toda essa... física, seremos capazes de fazer magia sem varinha e sem encantamentos?" perguntou Tracy para confirmar.

"Sim, mas não todo tipo de magia" explicou Lisa. "Meu tipo de poder requer outras atividades, especialmente meditação, e algumas coisas que vocês podem querer fazer podem demandar outras formas especializadas de conhecimento, por exemplo, sobre como o corpo humano é construído e como ele funciona. Mas, com o conhecimento certo, quase tudo que vocês possam querer fazer pode estar ao seu alcance."

"Certo, vocês me convenceram. Próximo passo, por favor! Você vai nos dizer agora sobre esse plano de vocês para conquistar o mundo ou temos que fazer o juramento primeiro?" brincou Hermione.

"Como você descobriu sobre nosso plano?" perguntou Luna toda séria.

"Mas... Era uma piada... Eu estava brincando... Vocês não pretendem...?" gaguejou a atônita nascida-trouxa até concluir: "Oh, Céus! Vocês pretendem!"

"Eu estou brincando também, Hermione" explicou Luna, rindo do susto da pobre menina. "Bem, ao menos em parte. Veja, nós não queremos conquistar o mundo, mas queremos chegar muito longe. Queremos criar um grupo aberto a todos os seres dotados de consciência, independente de aparência ou origem, visando apoiar uns aos outros na realização de todo potencial de cada um de seus membros. Com o nível de magia de que Paul é capaz poderíamos ser absurdamente ricos e viver isolados do mundo em uma ilha cheia de conforto pelo resto de nossas vidas. Mas o que conseguiríamos com isso? Nossa capacidade seria desperdiçada, e nosso conhecimento morreria conosco, e o mundo permaneceria do mesmo jeito, correndo para a extinção final através das armas nucleares, do aquecimento global, da escassez de recursos, da fome e da doença, ou de algum outro problema qualquer..."

"Poderíamos tentar conquistar o mundo para forçar soluções a todos esses problemas" continuou Lisa, "mas seria muito trabalhoso, geraria muita insatisfação, muita revolta e nós simplesmente não queremos esse nível de dor-de-cabeça. A dura verdade é que a maioria das pessoas vive vidas medíocres porque simplesmente não estão preparadas para viver vidas mais plenas. Elas precisam de uma rotina fácil, ou ficarão perdidas. É triste, mas quanto mais estudamos a história do mundo, mais percebemos que a maior parte da população é um peso morto, atrasando a evolução da espécie mais do que auxiliando. Talvez os jovens, sob uma educação mais eficiente, possam ser salvos, mas os mais velhos estão por demais viciados em suas formas ineficientes de pensar e agir para aceitarem as mudanças necessárias."

"O que nós decidimos" retomou Luna "é criar um grupo, que começou com nós três, com apoio de nossos pais, e que esperamos ampliar convidando outras pessoas com os mesmos interesses para fazer parte. Estamos iniciando um novo estilo de vida, e vamos ajudar aqueles que quiserem se unir a nós a escaparem da prisão da 'vida comum' para fazer parte da nova sociedade que queremos criar. Não queremos controlar a sociedade atual, queremos apenas criar uma nova a partir dela, garantindo que as pessoas com capacidade para uma vida integral tenham uma alternativa onde possam viver e brilhar, realizando seu potencial."

"Uau! Vocês realmente planejaram algo grande!" exclamou Astória.

"Mas por que não dar uma chance a todos? Por que limitar a uns poucos?" perguntou Susana.

"Porque somos poucos por enquanto, e não podemos ensinar mais que um certo número por vez. Se tentarmos fazer muito, acabaremos conseguindo nada. E se simplesmente colocássemos esse conhecimento em um livro e o distribuísse a todos, seria pior. Não teríamos nenhum controle sobre quem usaria esse conhecimento, ou para quê. Alguém poderia dominar esse conhecimento, eliminar a nós e conquistar o mundo." Explicou Luna.

A ideia de qualquer limitação ao acesso ao conhecimento era um tipo de anátema para a bruxinha de cabelos revoltos, mas ela percebeu os perigos potenciais em não proteger esse tipo específico de conhecimento. Eles permaneceram algum tempo em silêncio, pensando sobre o que estava sendo ofertado para eles, até que a pequena Tabita perguntasse "E esse juramento? Vocês tem algo pronto?"

Lisa prontamente retirou uma cópia do bolso e entregou a Tabita, enquanto Luna entregou outra cópia para Neville e Paul uma a Dafne. As demais se reuniram em volta para também ler. Enquanto isso, as duas conspiradoras esclareceram alguns pontos.

"Sabemos que feitiços, poções e mesmo torturas e ameaças podem ser utilizados para tentar extrair segredos das pessoas ou força-las a fazerem coisas contra sua vontade" explicou Lisa, "por isso escrevemos o juramento de modo que só há punições se vocês deliberadamente traírem os segredos do grupo ou agirem de má fé. Desde que vocês se esforcem em manter os segredos e em agir em prol do grupo na medida do possível, nada acontecerá."

"Também procuramos tornar o juramento o mais genérico possível" continuou Luna. "Dessa forma cobrimos todas as futuras reuniões do grupo, todos os possíveis novos membros que aceitarmos e todos os segredos que descobrirmos ou revelarmos, assim evitamos ter que fazer juramentos cada vez que um novo membro for aceito ou uma nova descoberta ou segredo revelado."

"No fundo, acho que não é muito que pedimos" concluiu Lisa. "Apenas que os membros do grupo respeitem os demais membros e seus segredos, e ajudem-se mutuamente."

"Acho que está perfeito, Lisa!" exclamou Susana. "Eu aprendi um bocado sobre juramentos com minha tia, já que eles são usados em várias situações legais, como contratos e alianças, e não consigo encontrar nada para criticar. Eu aceito fazê-lo."

Um por um os presentes efetuaram o juramento. Neville precisou de alguma persuasão, não por causa do juramento, mas por sua falta de confiança em poder ser útil ao grupo e aprender todas aquelas coisas, mas acabou fazendo o juramento para a alegria de Paul, que não mais seria o único garoto entre tantas meninas. A tímida Tabita surpreendeu irmã e primas ao pedir para usar a varinha de Tracy e também realizar o juramento. A inocente Astória acabou pedindo emprestada a varinha de Paul, que estava mais próximo, e acabou vermelha de vergonha com toda a gozação das outras meninas. Quando ela finalmente concluiu o juramento e ia devolvendo a varinha para o menino, Raquel, ainda sentada no colo de Paul, pegou-a antes e, olhando nos olhos do garoto, disse simplesmente "Amo você, Paul". Para surpresa de todos, os dois brilharam envoltos em uma luz dourada por um instante.

Após completarem o juramento, Luna abriu um novo portal para Lisa, que rápido retornou com uma cesta que parecia estar vazia.

"Aqui tem dois tipos de acessórios para todos os membros do grupo. Todos eles têm duas funções comuns: permitem que localizemos quem está usando um deles e permite sabermos quando alguém estiver em perigo. Além disso, os anéis são capazes de detectar poções em alimentos e bebidas, enquanto o outro modelo, que é para ser encaixado na parte superior da orelha, cria um campo que impede outras pessoas de lerem seus pensamentos."

"Isso é possível? Ler pensamentos?" perguntou Hermione.

"É raro, mas algumas pessoas são capazes. Nosso diretor por exemplo, Alvo Dumbledore" explicou Susana.

"Oh, e Snape também. Nosso professor de poções e chefe da casa Sonserina" comentou Luna.

"Snape também?" perguntou Susana e, obtendo confirmação, logo concluiu "Eu quero!" esticando a mão para Lisa.

O resto da viagem passou calmamente em conversa sobre o grupo de estudos, como recrutar mais membros sem perder controle ou irem além da capacidade que tinham para instruir todos, o que poderiam fazer para tentar sanar os problemas de Hogwarts com professores e currículo, o que eles gostariam de fazer quando saíssem da escola e o tipo de sociedade em que gostariam de viver após Hogwarts.

Quando finalmente chegaram à estação de Hogsmeade, Paul abriu uma porta na parede do vagão para que descessem direto, sem que tivessem que passar pelo tumultuado corredor do vagão e o irado e ainda vigilante monitor que esperava por eles lá. Com a ajuda de Luna, o compartimento voltou ao normal e eles pularam para a plataforma, com o rapaz ruivo chegando à janela do compartimento logo depois, bufando de raiva e ameaçando-os com as punições que esperava poder dar a eles.

As três meninas mais novas estavam tristes em separar-se dos demais, mas por outro lado felizes com as amizades que fizeram e ansiosas por começarem a aprender coisas novas em breve. O grupo todo prometeu manter contato, e os portais que Luna e Paul podiam criar era uma garantia de que logo estariam encontrando-se novamente, desde que chegassem a algum acordo com os pais delas.

Mas o que mais intrigou os novos membros do grupo foi descobrir que Lisa não era mágica e não iria com eles para Hogwarts, pelo menos não do jeito normal. A menina assegurou ao resto do grupo que faria o possível para vê-los com frequência.