Continuando a saga do guerreiro sedutor Sasuke da Macedônia:
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Capítulo 9
Sakura ficou quieta durante horas, escutando Sasuke respirar calmamente, dormindo atrás dela. Ele tinha uma das coxas aninhadas entre suas pernas, e um braço envolvia sua cintura. Sentir-lhe o corpo ao redor do seu a fazia pulsar de desejo. E o perfume... Teve vontade de virar-se e aspirar o aroma agradável daquela pele. Nunca ninguém a fizera sentir-se assim. Querida, segura... Desejada. Perguntava-se como isso era possível, uma vez que mal se conheciam. Sasuke tocava algo em seu íntimo que ultrapassava muito o aspecto físico.
Ele era forte, dominante. E engraçado. Ele a fazia rir e mexia com seu coração. Passou de leve os dedos sobre a mão que descansava diante de si. Eram mãos tão lindas! Longas e delgadas. Mesmo relaxadas durante o sono, a força era inegável. E a mágica que produziam em seu corpo... Era fenomenal.
Correu o polegar pelo anel de general, imaginando como ele tinha sido naquela época. A menos que a maldição tivesse alterado a idade física, não parecia muito velho. Certamente, não teria muito mais do que trinta anos. Como liderara um exército sendo tão jovem? Por outro lado, Alexandre, o Grande, mal tinha idade para se barbear quando iniciara suas campanhas.
Sasuke devia ter sido prodigioso no campo de batalha. Fechando os olhos, tentou imaginá-lo cavalgando na direção do inimigo. Visualizou-o vividamente na armadura, com a espada erguida, lutando corpo a corpo contra os romanos.
– Jasão?
Enrijeceu-se ao escutá-lo sussurrar, ainda adormecido, e virou-se para fitá-lo.
– Sasuke?
Tenso, ele começou a falar, mesclando palavras em grego antigo.
– Não! Okhee! Okhee! Não!
Ao vê-lo sentar-se na cama, não soube dizer se ele tinha despertado ou não e, por instinto, tocou-o no braço.
Praguejando, Sasuke agarrou-a e lançou-a de costas no colchão. Manteve-a presa, com os olhos refletindo fúria e os lábios contraídos. – Vá para o inferno! – ele rosnou.
– Sasuke! – Ela respirou com dificuldade, quando o aperto em seu braço intensificou-se, e tentou fazer com que ele a soltasse.
– Sou eu, Sakura!
– Sakura? – ele repetiu, franzindo profundamente o cenho ao fixar a visão em seu rosto. Piscando, ele se afastou. Ergueu as mãos e as olhou, como se fossem membros estranhos que ele nunca havia visto. Então, voltou-se para ela.
– Machuquei você?
– Não, estou bem. Como você está?
Ele não se mexeu. – Sasuke? – Estendeu a mão para tocá-lo, mas Sasuke retraiu-se como se ela fosse venenosa.
– Estou bem. Foi só um sonho ruim.
– Um sonho ou uma lembrança ruim?
– Uma lembrança ruim que sempre assombra meus sonhos – ele sussurrou, com a voz carregada de pesar. Depois, ele se levantou e disse: – Vou dormir em outro lugar.
Sakura pegou-o pelo braço antes que ele fosse embora e puxou-o de volta para a cama.
– É isso o que você sempre fazia no passado?
Ele anuiu. – Já contou a alguém a respeito do sonho?
Sasuke encarou-a, espantado. O que Sakura achava que ele era? Uma criança chorona que precisava da mãe? Sempre suportara seu sofrimento sozinho, como fora ensinado. Apenas quando dormia, as lembranças conseguiam evadir suas defesas; apenas nesse momento ele era fraco. No livro, não havia quem ferir ao ser atingido pelo pesadelo. Porém, assim que era libertado da prisão, sabia que não era prudente dormir ao lado de alguém que pudesse agarrar em meio ao sofrimento. Poderia tê-la matado por acidente. A ideia o aterrorizava.
– Não – ele sussurrou. – Nunca contei a ninguém.
– Então, conte para mim.
– Não – ele negou com firmeza. – Não quero reviver isso.
– Se você está revivendo toda vez que sonha, qual é a diferença? Permita que eu me aproxime, Sasuke. Deixe-me ver se posso ajudar.
Ele ousaria ter esperança de que Sakura pudesse ajudá-lo? Você sabe que não deve. Ainda assim... Queria expurgar os demônios. Queria uma noite de sono tranquila, livre de tormento.
– Conte-me – ela insistiu com gentileza.
Sakura sentiu a relutância de Sasuke enquanto ele se unia outra vez a ela na cama. Permaneceu sentado na beirada, com a cabeça entre as mãos.
– Você me perguntou como eu fui amaldiçoado. Isso aconteceu porque eu traí o único irmão que conheci. A única família que tive.
A agonia de Sasuke a afetava profundamente. Ansiava por correr a mão pelas costas largas para confortá-lo. Porém, não ousou tocá-lo, pois não queria que ele se retraísse de novo.
– O que você fez?
Ele passou a mão pelos cabelos. Com a mandíbula contraída, fitou o tapete.
– Eu permiti que a inveja me envenenasse.
– Como?
Sasuke ficou em silêncio por um longo instante antes de voltar a falar.
– Eu conheci Jasão logo depois que minha madrasta me enviou para viver no quartel. Sakura recordou-se vagamente de Ino lhe contando a respeito dos quartéis espartanos, onde os filhos eram forçados a viver afastados de seus lares e de suas famílias. Sempre pensara naqueles locais como uma espécie de colégio interno.
– Quantos anos você tinha?
– Sete.
Incapaz de imaginar-se sendo afastada de seus pais com aquela idade, Sakura arfou.
– Não havia nada de incomum nisso – ele falou sem fitá-la. – E eu era grande para a idade. Além disso, viver no quartel era infinitamente preferível a morar com a minha madrasta.
Ao notar a hostilidade na voz dele, imaginou como a mulher teria sido. – Jasão vivia no quartel com você?
– Sim. Cada quartel era dividido em grupos, e escolhíamos o garoto que queríamos que nos liderasse. Jasão era o líder do meu grupo.
– O que esses grupos faziam?
– Funcionávamos como uma unidade militar. Estudávamos, realizávamos tarefas diversas, mas, acima de tudo, nos arrebanhávamos para sobreviver.
– Sobreviver a quê?
– Ao estilo de vida espartano – respondeu com aspereza. – Não sei o quanto você sabe a respeito do povo de meu pai, mas eles não tinham os mesmos luxos dos outros gregos. Os espartanos queriam apenas uma coisa de seus filhos. Queriam que nos transformássemos na maior força de combate do mundo antigo. Para nos prepararmos para o futuro, éramos ensinados a sobreviver com o mínimo. Recebíamos uma túnica por ano e, se ela fosse estragada, perdida ou se ficasse pequena, precisávamos nos virar sem ela. Apenas tínhamos permissão para possuir uma cama se a construíssemos nós mesmos. E, assim que chegávamos à puberdade, não podíamos mais usar sapatos. – Ele deu uma risada amarga. – Ainda me lembro de como meus pés doíam no inverno. Éramos proibidos de acender fogueiras ou de usar cobertores para nos aquecer. Então, à noite, amarrávamos trapos em volta dos pés para evitar que enregelassem. De manhã, carregávamos os corpos dos meninos que tinham morrido durante o sono.
Sakura encolheu-se ao ouvi-lo descrever aquele mundo. Tentou imaginar como teria sido viver lá. Lembrou-se do escândalo que fizera aos treze anos por causa de um par de sapatos que sua mãe julgara inadequados enquanto, com a mesma idade, Sasuke estava vivendo à custa de trapos. A injustiça daquilo mexeu com ela.
– Vocês eram apenas crianças.
– Eu nunca fui criança – ele afirmou. – Porém, o pior de tudo era que não nos davam comida suficiente e éramos forçados a furtar para não morrermos de fome.
– E os pais permitiam que isso acontecesse?
Ele lhe lançou um olhar sardônico por sobre o ombro. – Eles achavam que era seu dever cívico. E, uma vez que meu pai era o stratgoi espartano, a maioria dos meninos e dos professores me desprezava assim que me via. Eu era contemplado com ainda menos comida do que os demais.
– Seu pai era o quê? – ela perguntou, sem compreender o termo em grego.
– O general mais importante, digamos assim. – Ele inspirou profundamente e prosseguiu: – Por causa de sua posição e reputação de crueldade, eu era um pária para o meu grupo. Enquanto eles se uniam para furtar, eu era deixado por conta própria, para sobreviver da melhor forma possível. Um dia, Jasão foi pego furtando pão. Quando retornamos ao quartel, ele iria ser punido por ter sido apanhado. Então eu me adiantei e levei a culpa.
– Por quê?
Ele deu de ombros, como se o assunto fosse de pouca importância. – Ele estava muito fraco por causa do espancamento que tinha sofrido, e eu não achei que ele sobreviveria a outro.
– Por que eles o tinham espancado?
– Era dessa forma que começávamos o dia. Assim que nos arrastavam da cama, éramos severamente espancados.
Sakura estremeceu. – Então, por que você apanharia por ele, se também estava dolorido?
– Tendo nascido de uma deusa, eu posso suportar uma boa surra.
Ela fechou os olhos ao ouvi-lo repetir o que Ino dissera aquela tarde e, não resistindo, tocou-o no braço. Sasuke não se afastou. Ao contrário, cobriu sua mão com a dele e apertou-a de leve.
– Daquele dia em diante, Jasão passou a me chamar de irmão e fez os outros garotos me aceitarem. Embora minha mãe e meu pai tivessem outros filhos, eu nunca tinha tido um irmão.
Ela sorriu. – O que aconteceu depois disso?
O músculo sob sua mão flexionou-se. – Decidimos unir forças para conseguir o que precisávamos. Ele provocaria a distração, e eu furtaria. Se fôssemos pegos, eu sofreria as consequências.
Por quê?, Sakura teve vontade de perguntar. Contudo, reprimiu-se, pois em seu coração já sabia a resposta. Ele estava protegendo o irmão.
– Conforme o tempo passava – ele continuou –, eu comecei a notar que o pai dele se esgueirava para observá-lo na aldeia. O amor e o orgulho na face do homem eram indescritíveis. Com a mãe, era a mesma coisa. Nós deveríamos surrupiar comida por conta própria. No entanto, dia sim, dia não, ele encontrava algo que os pais tinham lhe deixado. Pão fresco, cordeiro assado, um jarro de leite. Algumas vezes, dinheiro.
– Isso era muito amável.
– Sim, era. Mas cada vez que eu via o que faziam por ele, isso me afetava. Queria que meus pais se sentissem daquela forma a meu respeito. Eu alegremente desistiria da minha vida para que meu pai, apenas uma vez, olhasse para mim sem desprezo nos olhos. Ou para que minha mãe se importasse o suficiente para ir me ver. O mais perto que eu cheguei dela foi quando visitei seu templo em Thymaria. Costumava passar horas observando a estátua e imaginando se aquela era mesmo a aparência dela. Perguntando-me se alguma vez ela pensara em mim.
Sakura inclinou-se contra as costas dele, abraçando-o pela cintura, e apoiou o queixo no ombro forte.
– Você nunca viu sua mãe quando era criança?
Sasuke envolveu os braços de Sakura com o dele e inclinou a cabeça para trás, apoiando-a em seu ombro. Ela sorriu. Embora tenso e estressado, ele estava confiando-lhe informações que nunca compartilhara com ninguém, e isso a fazia sentir-se extremamente próxima dele.
– Eu nunca a vi – ele falou. – Ela enviava outros até mim, mas ela nunca aparecia. Não importava o quanto eu implorasse, ela se recusava a ir até mim. Depois de um tempo, eu parei de pedir. Por fim, deixei de ir aos templos dedicados a ela.
Sakura deu-lhe um beijo carinhoso no ombro. Como a mãe podia tê-lo ignorado daquela forma? Como qualquer mãe podia não responder aos apelos do filho? Ela pensou em seus próprios pais e na abundância de amor e bondade que lhe dedicaram. Pela primeira vez, percebeu que seus sentimentos em relação à morte deles estavam equivocados. Durante todos aqueles anos, dissera a si mesma que teria sido melhor nunca ter conhecido tamanho amor do que ter tido aquilo arrancado dela com tanta crueldade. Não era verdade. Mesmo que as lembranças dos pais e da infância fossem, ao mesmo tempo, doces e amargas, elas a confortavam. Sasuke nunca experimentara o calor de um abraço amoroso. A segurança de saber que, não importando o que ele fizesse, os pais estariam ao seu lado. Ela não conseguia conceber crescer daquela forma.
– Mas você tinha Jasão – ela murmurou, imaginando se aquilo fora suficiente para ele.
– Sim. Após a morte do meu pai, quando eu tinha catorze anos, Jasão foi gentil o bastante para permitir que eu o acompanhasse à casa dele durante as folgas. Foi em uma dessas visitas que eu vi Penélope pela primeira vez.
Sakura sentiu uma leve pontada de ciúme ante a menção do nome da esposa. – Ela era tão linda – Sasuke sussurrou – e estava prometida a Jasão. Ela ficou em silêncio. Aquilo não era nada bom! – E o pior – disse ele, afagando de leve seu braço – era que ela estava apaixonada por ele. A cada vez que visitávamos, lá estava ela para atirar-se nos braços de Jasão e beijá-lo. Para dizer-lhe o quanto ele era importante. Quando partíamos, ela implorava baixinho que ele tivesse cuidado. Então, ela também começou a deixar coisas para que ele encontrasse.
Sasuke interrompeu-se por instantes para se lembrar da aparência de Jasão ao retornar para o quartel com os presentes de Penélope. Você pode se casar um dia, Sasuke, Jasão dizia ao ostentar os regalos de Penélope, mas nunca terá uma esposa como ela aquecendo a sua cama. Embora Jasão não explicitasse o motivo, Sasuke o conhecia bem. Nenhum pai digno consentiria em entregar a filha a um homem bastardo e deserdado, sem uma família que o reconhecesse. Sempre que Jasão proferia essas palavras, elas o destroçavam. Houvera épocas em que suspeitara que Jasão jogasse sal na ferida devido ao ciúme, por causa do modo como Penélope detinha nele o olhar por tempo demais, quando achava que o noivo não estava olhando.
Jasão podia ter-lhe conquistado o coração, mas, como as outras mulheres, ela cobiçava Sasuke quando ele se aproximava. Por esse motivo, Jasão parou de convidá-lo para as visitas. E ser banido do único lar que conhecera o arruinara.
– Eu deveria ter permitido que se casassem – Sasuke virou-se e envolveu a cabeça de Sakura com o braço, enterrando o rosto em seu pescoço para inalar o doce conforto de seu aroma. – Eu sabia disso já naquela época, mas não conseguia suportar. Ano após ano, eu a via amá-lo. Eu via a família dele cercá-lo de carinho e de preocupação, enquanto eu não tinha nem mesmo uma casa à qual ir.
– Por quê? Você disse que tinha irmãos. Por que não permitiam que ficasse com eles?
Sasuke meneou a cabeça. – Os filhos do meu pai me odiavam com todas as forças. A mãe deles teria me deixado entrar, mas eu recusei pagar o preço que ela exigia. Eu não tinha muito naquele tempo, mas ainda tinha a minha dignidade.
– Você tem dignidade agora também – ela sussurrou, aumentando o aperto ao redor da cintura dele. – Eu vi o suficiente para saber.
Soltando-a, ele desviou o olhar, com a mandíbula tensa.
– O que aconteceu com Jasão? – ela perguntou, querendo que ele continuasse falando enquanto estivesse disposto. – Ele morreu em batalha?
Sasuke riu amargamente. – Não. Quando chegamos à idade de nos unirmos ao exército, eu o mantinha a salvo no campo de batalha. Eu tinha prometido a Penélope e à família dele que não deixaria que nada lhe acontecesse. Sakura sentia o coração de Sasuke acelerado de encontro aos seus braços. – Conforme os anos passavam, era o meu nome que as pessoas sussurravam com respeito e medo. Minhas lendas e vitórias eram recontadas diversas vezes. E, quando eu retornava a Thymaria, acabava dormindo nas ruas ou na cama de qualquer mulher que abrisse a porta para que eu passasse a noite, esperando a hora de voltar para a batalha.
Ela sentiu lágrimas nos olhos com a dor refletida na voz de Sasuke. Como alguém podia tê-lo tratado daquela forma? – O que aconteceu para que isso mudasse? – ela indagou.
Sasuke suspirou. – Uma noite, enquanto procurava um lugar para dormir, eu topei com os dois, que estavam abraçados. Desculpei-me rapidamente, mas, ao prosseguir, escutei Jasão conversando com Penélope. O corpo inteiro de Sasuke estava rígido nos braços de Sakura, e o coração dele acelerou-se ainda mais.
– O que ele disse? – Sakura instigou-o. A luz nos olhos ónix se apagou.
– Penélope indagou a ele por que eu nunca ia para as casas dos meus irmãos. Ele riu e disse: "Ninguém quer Sasuke. Ele é filho de Afrodite, a deusa do amor, e nem mesmo ela suporta estar perto dele".
Sakura inspirou com dificuldade, ouvindo-o repetir as palavras cruéis. Mal podia imaginar o que ele sentira ao escutá-las. Sasuke respirou fundo.
– Eu o havia defendido incontáveis vezes. Tinha sofrido numerosos ferimentos em batalha para protegê-lo, incluindo uma lança que atravessou a lateral do meu corpo, e lá estava ele zombando de mim para ela. Não consegui suportar a injustiça. Eu achava que éramos irmãos. E, no final, acredito que éramos mesmo, uma vez que ele me tratou da mesma forma que o restante da minha família. Eu nunca havia sido nada além de um enteado bastardo. Sozinho e indesejável. Não entendia por que ele tinha tantas pessoas para amá-lo, quando eu queria apenas uma. Zangado e magoado pelas palavras dele, eu fiz o que nunca fizera antes. Apelei a Eros.
Sakura podia facilmente imaginar o que acontecera depois.
– Ele fez Penélope apaixonar-se por você.
– Sim. Eros atingiu Jasão com uma flecha de chumbo para matar o amor dele por Penélope, e ela foi contemplada com a flecha dourada para que me amasse. Teoricamente, esse seria o fim de tudo...
Embalando-o gentilmente em seus braços, ela esperou que Sasuke encontrasse as próximas palavras. – Levei dois anos para convencer o pai dela a permitir que se casasse com um bastardo deserdado e sem a influência da família. Na época, minha lenda havia crescido e eu tinha sido promovido. Finalmente, eu acumulara riqueza suficiente para oferecer-lhe acomodações dignas da realeza. E eu não poupava despesas no que se referia a ela. Tínhamos jardins, escravos, tudo o que ela desejava. Eu lhe dei uma liberdade da qual nenhuma outra mulher na época desfrutava.
– E não foi o suficiente?
Ele meneou a cabeça. – Ainda havia algo faltando, e eu sabia que ela não estava bem. Mesmo antes da interferência de Eros, Penélope era sempre excessivamente emotiva. Ela se agarrava a Jasão de uma forma proibida para as mulheres espartanas e, uma vez, quando ele foi ferido, ela tosou os cabelos em sinal de tristeza. Depois que Eros a atingiu com a flecha, ela sofria longos períodos de grande depressão ou raiva. Eu fazia o máximo possível por ela, e tentei com muito empenho fazê-la feliz.
Sakura afastou-lhe o cabelo do rosto. – Ela dizia que me amava, mas eu sabia que não se importava comigo do modo como tinha se importado com Jasão. Ela se entregava a mim de boa vontade, mas não havia paixão verdadeira em seu toque. Eu soube disso na primeira vez em que a beijei. Tentei convencer-me de que não era importante. Pouquíssimos homens naquela época encontravam o amor em seus casamentos. Além do mais, eu me ausentava durante meses e até mesmo anos, conduzindo meu exército. Porém, no final, acho que eu tinha muito de minha mãe em mim, porque eu desejava mais.
Sakura sofria por ele enquanto escutava o relato.
– E então chegou o dia em que Eros também me traiu.
– Como ele fez isso? – ela indagou com ansiedade, sabendo que essa era a fonte da maldição.
– Ele e Príapo estavam bebendo na noite seguinte àquela em que matei Lívio. Eros, embriagado, revelou-lhe o que tinha feito para mim. Assim que Príapo escutou a história, soube como vingar-se. Ele foi até o Mundo Subterrâneo, encheu uma xícara com água do Poço da Memória e a entregou a Jasão, para que ele bebesse. Logo que a água tocou seus lábios, Jasão se lembrou de seu amor. Príapo lhe contou o que eu tinha feito e entregou a ele mais água para Penélope.
Sasuke sentia seus lábios se moverem, mas não estava mais consciente das palavras. Fechando os olhos, reviveu aquele dia miserável. Ele acabara de entrar, vindo dos estábulos, e se deparara com Penélope e Jasão no vestíbulo. Beijando-se. Atordoado, detivera-se, estremecendo ao observar a forma apaixonada como se abraçavam. Até Jasão levantar o olhar e avistá-lo à porta. Assim que seus olhos se encontraram, Jasão curvou os lábios.
– Seu ladrão imprestável! Príapo me contou sobre a sua traição. Como pôde fazer isso?
Com a face contorcida de ódio, Penélope correu até Sasuke e o esbofeteou. – Seu bastardo imundo! Eu poderia matá-lo pelo que fez.
– E eu vou matá-lo por isso – disse Jasão, desembainhando a espada. Sasuke tentou tirar Penélope do caminho, mas ela se recusou a afastar-se.
– Pelos deuses, eu dei à luz seus filhos!
Ela tentou ferir seu rosto, mas ele segurou-lhe os pulsos. – Penélope, eu...
– Não me toque – ela ordenou rispidamente, torcendo os braços para livrar-se de suas mãos.
– Você me dá nojo. Acha mesmo que qualquer mulher decente iria desejá-lo à luz do dia? Você é desprezível. Repulsivo. – Empurrou-o na direção de Jasão.
– Arranque-lhe o coração. Quero me banhar no sangue dele até que não sinta mais o cheiro de seu toque em mim. Jasão desferiu um golpe. Sasuke pulou para trás, desviando-se do trajeto da lâmina. Por instinto, levou a mão à sua espada, mas se conteve. A última coisa que queria era derramar o sangue de Jasão.
– Não quero lutar contra você.
– Não quer? Você violou minha mulher e gerou com ela filhos que deveriam ter sido meus! Eu o recebi em meu lar. Eu lhe dei uma cama, quando ninguém mais o queria por perto, e é assim que você me retribui?
Sasuke encarou-o com descrença. – O que eu retribuo a você? Tem ideia da quantidade de vezes em que eu salvei a sua vida em batalha? De quantos espancamentos sofri por você? Consegue contá-los? E, ainda assim, você ousou zombar de mim. Jasão riu cruelmente. – Todos, exceto Ky rian, zombam de você, seu tolo. Na verdade, ele o defende com tanta veemência que me leva a imaginar o que fazem quando vagam por aí sozinhos.
Controlando a raiva que o deixaria vulnerável à lâmina de Jasão, Sasuke mal se esquivou do golpe seguinte. – Pare com isso, Jasão. Não me obrigue a fazer algo de que nós dois vamos nos arrepender.
– A única coisa da qual eu me arrependo é de ter deixado um ladrão entrar na minha casa – ele berrou, furioso, e investiu outra vez. Sasuke tentou afastar-se, mas Penélope correu para trás dele e empurrou-o para a frente. A espada de Jasão fez um corte em suas costelas. Emitindo um ruído de dor, Sasuke desembainhou sua espada e desviou-se de um golpe que, caso o tivesse atingido, o teria decapitado. Jasão tentou envolvê-lo no combate, mas ele apenas se defendia, tentando manter Penélope fora do centro da luta.
– Não faça isso, Jasão. Sabe que suas habilidades são inferiores às minhas. Jasão intensificou o ataque.
– De jeito nenhum vou permitir que você fique com ela. Os próximos poucos segundos tinham acontecido muito depressa e, ainda assim, Sasuke os via desenrolar-se com clareza. Penélope agarrou o braço livre de Sasuke enquanto Jasão brandia a espada. A lâmina por pouco não o atingiu enquanto ela se pendurava nele. Desequilibrado, Sasuke tentou soltar-se, mas, com Penélope no caminho, cambaleou para a frente ao mesmo tempo em que Jasão. Assim que se colidiram, ele sentiu a espada penetrar o corpo de Jasão
. – Não! – Sasuke gritou, puxando a espada do estômago de Jasão enquanto Penélope emitia um grito de pura agonia. Lentamente, Jasão caiu. Ajoelhando-se, Sasuke lançou a espada para o lado e pegou o amigo nos braços. – Pelos deuses, o que você fez? Expelindo sangue pela boca, Jasão encarou-o acusadoramente.
– Eu não fiz nada. Foi você quem me traiu. Éramos irmãos e você roubou meu coração. – Ele engoliu a saliva dolorosamente. – Você nunca teve nada na vida que não tivesse roubado de alguém.
Sasuke tremia, assolado pela culpa e pela dor. Nunca pretendera que aquilo acontecesse. Nunca quisera ferir alguém, muito menos Jasão. Apenas desejara que alguém o amasse. Apenas desejara um lar no qual fosse bem-vindo. Mas Jasão estava certo. Era tudo culpa sua. Tudo. Os gritos de Penélope ecoavam em seus ouvidos. Ela o agarrou pelos cabelos com força. Com os olhos desvairados, arrancou a adaga de sua cintura.
– Quero você morto! Morto!
Ela enfiou a adaga em seu braço e puxou-a para arremeter outra vez, mas Sasuke segurou-lhe a mão. Com um guincho selvagem, ela se afastou violentamente.
– Não – ela gritou, com os olhos enlouquecidos. – Eu quero que você sofra. Você tirou de mim o que eu mais amava. Agora, eu vou tirar o mesmo de você. – Ela saiu correndo. Subjugado pelo pesar e pela raiva, ele não conseguiu se mover enquanto via a vida esvair-se do corpo do amigo. Até que sua mente entorpecida se deu conta das palavras ditas por Penélope.
– Não! – ele urrou, levantando-se. – Não!
Chegou à porta dos aposentos dela em tempo de escutar as crianças gritando. Com o coração despedaçado, tentou abri-la, mas Penélope a trancara. Quando conseguiu arrombar a porta, era tarde demais. Tarde demais...
Pressionou as mãos sobre os olhos conforme revivia o horror daquele dia, e sentiu o toque reconfortante de Sakura em sua pele. Nunca conseguiria livrar-se da visão deles, do medo em seu coração. Da agonia absoluta. A única coisa na vida que amara eram seus filhos. E apenas eles o tinham amado. Por quê? Por que eles precisavam ter sofrido por seus atos? Por que Príapo não podia tê-lo torturado sem feri-los? E como Afrodite permitira que aquilo acontecesse? Uma coisa era ela o ignorar, mas deixar que seus filhos morressem... Por isso, Sasuke fora ao templo dela naquele dia. Planejara matar Príapo. Arrancar-lhe a cabeça e espetá-la em uma lança. – O que aconteceu? – Sakura perguntou, arrastando seus pensamentos de volta ao presente.
– Quando eu cheguei lá, era tarde demais – falou, com a garganta ardendo, dilacerado pela tristeza. – Nossos filhos estavam mortos, assassinados pela própria mãe. Penélope já cortara os pulsos e estava deitada, à beira da morte, ao lado deles. Eu chamei um médico e tentei estancar o sangue. – Ele ficou em silêncio por alguns instantes. – Com o último suspiro, ela cuspiu no meu rosto.
Sakura fechou os olhos, dominada pela dor. Era ainda pior do que havia imaginado. Meu Deus, como ele sobrevivera àquilo? Ao longo dos anos, escutara numerosas histórias de horror, mas nenhuma rivalizava com o que Sasuke enfrentara. E ele enfrentara tudo sozinho, sem ninguém para ajudá-lo. Sem ninguém que se preocupasse.
– Eu sinto muito – ela sussurrou, esfregando as mãos no peito dele para confortá-lo.
– Ainda não consigo acreditar que eles se foram – ele murmurou, com a voz repleta de pesar. – Você me perguntou o que eu faço enquanto estou no livro. Eu apenas fico lá, lembrando-me dos rostos do meu filho e da minha filha. Eu me lembro da sensação dos pequenos braços ao meu redor. Da forma como eles corriam para me receber, quando eu voltava das campanhas. E revivo cada minuto daquele dia, desejando que eu pudesse ter feito algo para salvá-los.
Sakura piscou para conter as lágrimas. Não era surpresa o fato de ele nunca ter tocado no assunto.
Sasuke inspirou fundo, atormentado. – Os deuses não me concedem nem mesmo a insanidade, para que eu escape dessas memórias. Não me permitem nem mesmo esse conforto. Depois disso, ele não falou mais nada.
Ficou apenas deitado em silêncio nos braços de Sakura. Assombrada com tamanha força, Sakura permaneceu sentada por horas, abraçando-o. Não sabia o que mais podia fazer. Pela primeira vez em anos, seu treinamento como terapeuta abandonou-a completamente.
Sakura despertou com a luz do sol penetrando pelas janelas e levou um instante para recordar a noite anterior.
Sentando-se, estendeu a mão, procurando Sasuke, mas encontrou a cama vazia.
– Sasuke? – ela o chamou. Ninguém respondeu. Afastando as cobertas, levantou-se e vestiu-se depressa. – Sasuke? – chamou de novo ao descer as escadas. Nada. Nem um único som, além das batidas de seu coração. Começou a sentir pânico. Algo teria acontecido com ele? Correu até a sala de estar, onde o livro se encontrava sobre a mesinha de centro. Folheando-o, viu a página em branco onde Sasuke estivera. Aliviada por ele não ter, de alguma forma, retornado ao livro, continuou procurando pela casa. Onde ele estava? Ao chegar à cozinha, notou que a porta dos fundos estava entreaberta. Franzindo o cenho, saiu e foi até o deque. Olhando ao redor, ela finalmente avistou os filhos dos vizinhos na grama entre a sua casa e a deles. Contudo, o que mais a atordoou foi ver Sasuke sentado com eles enquanto lhes mostrava um jogo com pedras e gravetos. Os dois meninos e a menina estavam sentados perto dele, escutando atentamente, enquanto a irmãzinha de 2 anos andava em meio ao grupo.
Sakura sorriu, apreciando a imagem plácida. Inundada por um sentimento terno, ela imaginou se era assim que Sasuke ficava com os próprios filhos. Deixando o deque, andou até eles. Bobby era o mais velho, com 9 anos. O irmão, Tommy, era um ano mais novo, e Katie tinha 6. Os pais haviam se mudado para aquela casa fazia quase uma década, quando eram recémcasados e, apesar de serem amigáveis, nunca tinham se tornado mais do que apenas conhecidos de Sakura.
– Então, o que aconteceu? – Bobby perguntou, quando foi a vez de Sasuke jogar.
– Bem, o exército estava em uma armadilha – disse Sasuke, movendo uma das pedras por cima de um graveto.
– Fora traído por um dos seus. Um jovem soldado de infantaria que entregou os companheiros porque queria ser um centurião romano. – Eles eram os melhores – Bobby interrompeu-o.
Sasuke fez uma carranca. – Eles não eram nada, comparados aos espartanos.
– Vão, espartanos! – Tommy gritou. – Um espartano é nosso mascote na escola. Bobby empurrou o irmão, derrubando-o. – Você está interrompendo a história.
– Você nunca deve bater no seu irmão – Sasuke falou com a voz severa e, ainda assim, estranhamente gentil. – Irmãos devem se proteger, e não se machucar. A ironia das palavras entristeceu o coração de Sakura. Era uma pena que ninguém tivesse ensinado essa lição aos irmãos dele. – Desculpe – disse Bobby . – Então, o que aconteceu depois disso? Antes que Sasuke pudesse responder, o bebê caiu, espalhando as pedras e os gravetos.
Os garotos gritaram com ela, mas Sasuke acalmou-os enquanto colocava Allison em pé outra vez. Tocou-a de leve no nariz, fazendo-a rir e voltou a arrumar o jogo. Quando foi a vez de Bobby jogar uma pedra, Sasuke retomou a história de onde havia parado.
– O comandante macedônio olhou ao redor das colinas onde os romanos tinham encurralado seu exército. Não havia como flanqueá-los, nem para onde retirar-se.
– Eles se renderam? – Bobby indagou.
– Nunca – Sasuke respondeu com convicção. – A morte antes da desonra. Ele permaneceu em silêncio por um instante, conforme o que dissera ecoava em sua mente. Aquelas palavras tinham sido gravadas em seu escudo. Como comandante, vivera por elas. Como escravo, esquecera-as havia um longo tempo. Os garotos se moveram para mais perto.
– Eles morreram? – Katie indagou.
– Alguns, sim – Sasuke retrucou, tentando afugentar as lembranças que surgiam. Lembranças de um homem que certa vez fora o senhor de sua vida. – Mas não antes de surpreenderem os romanos.
– Como? – os meninos indagaram ansiosamente.
Dessa vez, Sasuke pegou Allison antes que ela interrompesse o jogo e entregou-lhe a bolinha vermelha. Ela se sentou em seu joelho dobrado, e ele a segurou, passando uma das mãos ao redor da pequena cintura.
– Bem, enquanto os romanos cavalgavam na direção deles, o comandante macedônio sabia que estavam esperando que ele mantivesse sua infantaria unida, tornando-a presa fácil para a cavalaria romana e para os arcos que estavam acima. Em vez disso, o comandante ordenou que seus homens se dispersassem e mirassem suas lanças nos cavalos, desintegrando a formação da cavalaria romana.
– E funcionou? – Tommy quis saber.
Até mesmo Sakura estava se interessando pela história. – Sim. Os romanos não esperavam uma tática como essa de um exército civilizado. Completamente despreparados para o movimento, as tropas se dispersaram. – E o comandante macedônio? – Ele deu um potente grito de guerra enquanto atravessava o campo com seu cavalo, Mania, e subia o morro para onde os comandantes romanos tinham recuado. Eles se viraram para atacá- lo, mas não deu certo. Furioso por causa da traição, o comandante eliminou-os, deixando apenas um sobrevivente.
– Por quê? – Bobby indagou.
– Ele queria que o homem transmitisse uma mensagem.
– Qual? – perguntou Tommy.
Sasuke sorriu ante as perguntas ávidas. – O comandante retalhou o estandarte romano e usou o tecido para ajudar o sobrevivente a estancar o sangramento das feridas. Com um sorriso letal, ele o fitou e disse: "Roma delenda est." Roma deve ser destruída. Então, enviou o general romano acorrentado para casa, para que transmitisse a mensagem ao Senado.
– Uau! – Bobby exclamou, admirado. – Gostaria que você fosse meu professor na escola. Talvez eu até passasse em história. Sasuke correu a mão pelos cabelos negros do menino. – Se isso faz você se sentir melhor, eu também não me importava com esse assunto na sua idade. Tudo o que eu queria era fazer travessuras.
– Oi, Srta. Sakura! – Tommy disse ao finalmente avistá-la. – Escutou a história do Sr. Sasuke? Ele disse que os romanos eram maus. Ao olhar para cima, Sasuke viu Sakura parada a alguns metros. Ela sorriu. – Tenho certeza de que ele sabe bem disso. – Você pode consertar minha boneca? – Katie pediu, entregando-a para Sasuke. Soltando Allison, ele pegou a boneca e recolocou o braço no lugar.
– Obrigada – disse Katie, abraçando-o pelo pescoço.
A expressão saudosa de Sasuke partiu o coração de Sakura. Sabia que era o rosto da própria filha que ele enxergava ao olhar para Katie. – O prazer foi meu, pequenina – ele falou em voz rouca, afastando-se dela.
– Katie, Tommy , Bobby , o que vocês estão fazendo aí?
Sakura ergueu o olhar, quando Emily deu a volta na lateral da casa. – Vocês não estão incomodando a Srta. Sakura, estão?
– Não, eles não estão me incomodando – Sakura assegurou-lhe. Emily não pareceu escutá-la ao prosseguir, alvoroçada: – E o que Allison está fazendo aqui? Vocês devem ficar no quintal.
– Ei, mamãe – Bobby gritou, correndo até ela. – O Sr. Sasuke nos mostrou um jogo muito legal.
Sakura riu, observando os cinco retornarem para o jardim dianteiro enquanto a tagarelice animada de Bobby ecoava ao redor deles. Sasuke tinha os olhos fechados e parecia estar saboreando o som das vozes infantis.
– Você é um ótimo contador de histórias – disse Sakura quando ele foi encontrá-la.
– Não é verdade.
– É, sim – ela afirmou enfaticamente. – Sabe, eu fiquei pensando... Bobby tem razão. Você seria um excelente professor. Ele lhe deu um sorriso afetado. – De comandante a professor. Por que não me chama logo de Catão, o Antigo 3, e me insulta de verdade, uma vez que está tentando?
Ela riu. – Você não está tão ofendido quanto finge.
– Como sabe?
– Pela expressão em seu rosto e pelo brilho em seu olhar. – Ela o pegou pelo braço, conduzindo-o de volta ao deque.
– Você deveria mesmo pensar nisso. Ino obteve o doutorado em Tulane e conhece a faculdade. Quem melhor para ensinar civilização antiga do que alguém que realmente viveu naquela época?
Ele não respondeu. Sakura notou o modo como ele mexia os pés descalços no chão.
– O que está fazendo? – ela indagou.
– Estou desfrutando a sensação da grama – ele sussurrou. – Do jeito que as folhas fazem cócegas nos meus dedos.
Ela sorriu da ação pueril. – Foi por isso que veio aqui fora?
– Sim. Adoro sentir a luz do sol no meu rosto.
Em seu coração, Sakura sabia que ele podia aproveitar muito pouco disso. – Venha. Vou preparar um pouco de cereal, e podemos comer no deque. Subiram os cinco degraus até o deque. Ela o deixou sentado em sua cadeira de balanço de vime, enquanto ia para dentro preparar o cereal. Quando retornou, ele estava com a cabeça inclinada para trás e com os olhos fechados. Sem querer perturbá-lo, ela recuou.
– Você sabe que eu consigo sentir a sua presença com todo o meu corpo? Com todos os meus sentidos? – ele perguntou, abrindo os olhos e encarando-a com um olhar ardente.
– Não – ela respondeu, nervosa, entregando-lhe uma tigela.
Ele pegou a tigela e não disse mais nada. Permaneceu sentado em silêncio, comendo o cereal. Absorvendo o calor do sol, Sasuke sentia a brisa suave, deliciando-se com a presença serena de Sakura ao seu lado. Despertara para ver o nascer do sol pelas janelas do quarto, e ficara durante uma hora apenas permitindo que o corpo de Sakura o confortasse. Ela o tentava de uma forma que nunca experimentara. Por um instante, permitiu-se pensar em permanecer naquela época. Mas então o que aconteceria? Ele tinha apenas uma "habilidade" que podia usar neste mundo moderno, e não era o tipo de homem que se satisfaria em viver da caridade de uma mulher. Não depois... Cerrou os dentes enquanto as memórias pareciam queimá-lo. Aos 14 anos, trocara sua virgindade por uma tigela de mingau frio e uma xícara de leite azedo.
Após tanto tempo, ainda podia sentir as mãos da mulher em seu corpo, retirando suas roupas, agarrando-o febrilmente conforme lhe mostrava como satisfazê-la. Oh, ela murmurara, você é muito bonito, não? Se precisar de mais mingau, pode voltar para me ver a qualquer hora em que meu marido não esteja em casa.
Ele se sentira tão sujo. Tão usado. Nos anos seguintes, passara mais noites dormindo nas sombras do que em camas quentes, simplesmente porque não estivera disposto a pagar esse preço de novo por uma refeição e conforto temporário. E se, de alguma forma, conquistasse sua liberdade outra vez, não queria... Fechou os olhos. Não conseguia visualizar-se neste mundo. Era diferente demais. Estranho demais.
– Terminou?
Olhando para cima, viu Sakura em pé ao seu lado com a mão estendida, à espera de sua tigela.
– Sim, obrigado. – Ele lhe entregou o recipiente.
– Vou tomar um banho rápido e volto em alguns minutos.
Ele a observou afastar-se, detendo-se nas pernas desnudas. Podia sentir o sabor de Sakura, assim como o doce aroma do corpo macio. A mulher o assombrava. E não era apenas a maldição. Havia algo mais. Algo que jamais encontrara. Pela primeira vez em mais de dois mil anos, ele se sentia um homem de novo. E, com esse sentimento, vinha um anseio tão profundo que partia seu coração. Ele a desejava. Desejava seu corpo e sua alma. Desejava seu amor.
O pensamento chocou-o. Porém, era verdade. Desde a infância não sentia uma vontade tão intensa e dolorosa de que alguém o abraçasse com carinho. De que alguém lhe dissesse que o amava, com sinceridade e não apenas por causa de um feitiço. Inclinando a cabeça para trás, ele praguejou. Quando aprenderia? Tinha nascido para sofrer. O Oráculo de Delfos lhe dissera isso. Você sofrerá como nenhum homem sofreu. Mas eu serei amado? Não nesta vida. Ele partira aniquilado pela profecia. E mal sabia exatamente quanto sofrimento o aguardava. Ele é o filho da deusa do amor, e nem mesmo ela suporta estar perto dele.
Estremeceu ao reconhecer a verdade. Sakura nunca o amaria. Ninguém o amaria. E, pior ainda, seu destino tinha uma forma trágica de atingir aqueles ao seu redor. Experimentou uma dor dilacerante no peito ao imaginar que algo poderia acontecer com Sakura. Não permitiria. Precisava protegê-la a qualquer preço. Mesmo que isso significasse perder sua liberdade. Com esse pensamento em mente, foi encontrá-la.
Sakura tirou o sabão dos olhos. Abrindo-os, sobressaltou-se ao avistar Sasuke observando-a pela pequena abertura da cortina do chuveiro.
– Você me assustou! – ela exclamou.
– Desculpe.
Ele estava do lado de fora da imensa banheira, apenas de cueca, com a mesma postura casual que tinha no livro. O ombro largo estava apoiado na parede, e os longos braços, estendidos ao lado do corpo.
Ela lambeu os lábios ao ver os músculos firmes e esculpidos do peito e torso. Involuntariamente, seu olhar recaiu sobre a cueca boxer vermelha e amarela. E pensar que achara que nenhum homem ficaria bem naquilo... Pois ele ficava. Não havia palavras para descrever exatamente o quanto ele ficava bem. Além disso, aquele sorriso malicioso podia derreter o coração até mesmo da mulher mais frígida. O homem era sensual. Nervosa, ela se deu conta de que estava nua.
– Você precisa de alguma coisa? – perguntou, cobrindo os seios com a toalhinha que usava para banhar-se. Para seu espanto, ele se despiu e uniu-se a ela na banheira.
Sua mente transformou-se em mingau enquanto era subjugada pela poderosa presença masculina. Aquele sorriso lindo, que revelava as covinhas no rosto, fazia seu coração acelerar. Seu corpo tremer.
– Quero apenas olhar você – ele respondeu, com a voz baixa e gentil. – Tem ideia do que faz comigo quando passa as mãos pelo corpo?
A julgar pela excitação de Sasuke, ela tinha uma boa ideia.
– Sasuke...
– Hum?
Ela esqueceu o que ia dizer ao senti-lo enterrar o rosto em seu pescoço. Arrepios a percorreram quando ele deslizou a língua por sua pele. Sakura gemeu ante a sobrecarga sensorial. Ele afastou o tecido com o qual ela cobria os seios para tomar um deles entre os lábios. Sasuke deitou-a na banheira. O contraste da porcelana fria em suas costas e do corpo quente diante de si, com a água escorrendo sobre eles, estimulou Sakura de uma forma que nunca imaginara ser possível.
Jamais apreciara verdadeiramente o tamanho enorme daquela antiga banheira, mas, naquele momento, não a teria trocado por nada.
– Toque-me, Sakura – ele pediu com a voz rouca, conduzindo a mão dela ao corpo forte.
– Quero sentir suas mãos em mim.
Ele estremeceu ao sentir o toque suave e fechou os olhos com a intensidade das sensações que o assolavam.
O toque de Sakura não era apenas físico; atingia-o em um nível indefinível. Inacreditável. Desejava mais dela. Ele a queria por completo.
– Adoro sentir suas mãos em mim – ele sussurrou.
Oh, céus, como ansiava por ela! Como desejava que, por apenas alguns instantes, ela realmente estivesse fazendo amor com ele. Fazendo amor com ele com o coração. Uma onda de dor o afligiu. Não importava quantas vezes fizesse sexo, o resultado era o mesmo. Sempre saía ferido. Se não no corpo, profundamente na alma. Nenhuma mulher decente o desejaria à luz do dia. Era verdade e ele sabia.
Sakura sentiu-o ficar tenso.
– Machuquei você? – ela indagou, afastando a mão. Ele meneou a cabeça e, apoiando as mãos de cada lado de seu pescoço, beijou-a profundamente. De repente, o beijo se intensificou, como se ele estivesse tentando provar algo a ambos. Sasuke tomou uma das mãos de Sakura e entrelaçou os dedos aos seus enquanto a afagava.
Era a experiência mais erótica que Sakura já experimentara. Tremeu e gritou de prazer quando ele aumentou o ritmo das carícias.
– Sim – ele sussurrou em seu ouvido. – Sinta a nossa união.
Ofegante, ela se agarrou ao ombro forte com a outra mão, o corpo ardendo de desejo. Ele era um amante maravilhoso!
De repente, ele interrompeu as carícias e passou uma das pernas de Sakura ao redor de sua cintura. Ela permitiu que ele fizesse isso até dar-se conta do que Sasuke pretendia.
Ele estava se preparando para unir-se de fato a ela.
– Não! – ela ofegou, empurrando-o.
– Sasuke, você não pode fazer isso.
Os olhos refletiam o desejo intenso que ele sentia. – Quero pelo menos isso de você, Sakura. Agora, deixe-me tê-la.
Ela quase cedeu. Até algo estranho acontecer com os olhos dele. Eles escureceram e as pupilas se dilataram. Sasuke ficou imóvel. Com a respiração ofegante, ele fechou os olhos, como se estivesse lutando contra um atacante invisível.
Praguejando, afastou-se. – Corra! – pediu.
Sakura não hesitou. Saindo de baixo dele, agarrou a toalha e correu para fora. Porém, não conseguiu deixá-lo. Parando à porta, ela olhou para trás, vendo-o apoiar-se nas mãos e nos joelhos e convulsionar, como se estivesse sendo torturado. Escutou-o golpear a banheira com o punho, rosnando de dor.
Seu coração batia com força ao vê-lo lutar. Se ao menos soubesse o que fazer... Por fim, ele se prostrou na banheira.
Aterrorizada e tremendo, ela deu três passos para dentro do banheiro, pronta para correr se ele tentasse alcançá-la. Ele estava deitado de lado, com os olhos fechados. A respiração era irregular, parecia esgotado. A água o atingia, colando os cabelos em sua face.
Sakura desligou o chuveiro, mas ele não se mexeu.
– Sasuke?
Ele abriu os olhos. – Eu assustei você?
– Um pouco – ela respondeu com franqueza. Inspirando profundamente, ele se sentou devagar, sem fitá-la.
O olhar estava focado em algo além de seu ombro.
– Não vou conseguir lutar contra isso – ele falou após uma longa pausa. Por fim, voltou o olhar para ela. – Estamos nos enganando, Sakura. Deixe-me possuir você enquanto ainda estou calmo. – É isso mesmo o que quer? Sasuke rangeu os dentes. Não, não era o que queria. Porém, o que queria estava além de seu alcance. Desejava coisas que os deuses nunca quiseram que ele obtivesse. Coisas que não ousava nomear, porque nomeá-las tornava sua ausência ainda mais intolerável. – Eu gostaria de poder morrer. Sakura encolheu-se ao ouvir as palavras sinceras.
Como queria poder confortá-lo! Afastar aquela dor. – Eu sei – ela falou, a voz rouca com as lágrimas contidas.
Ela envolveu os ombros fortes com os braços e segurou-o com firmeza. Para sua surpresa, ele apoiou a face na sua. Nenhum deles disse uma palavra enquanto se abraçavam. Por fim, Sasuke afastou-se. – É melhor pararmos antes de... Ele não terminou a frase, mas não era necessário. Sakura já vira as consequências e não desejava que aquilo se repetisse.
Deixou-o no banheiro e foi se vestir. Sasuke levantou-se lentamente da banheira e se enxugou.
Ouviu Sakura no quarto, abrindo a porta do armário, e uma imagem do corpo nu surgiu em sua mente. Uma onda de desejo o percorreu com tanta força que quase o enviou de novo ao chão.
Apoiou-se na pia, lutando consigo mesmo. – Não posso mais viver assim – ele sussurrou. – Não sou um animal.
Olhando para cima, viu seu pai no espelho. Examinou o próprio reflexo, odiando-o. Ainda sentia a ferroada do chicote, enquanto seu pai o espancava até que mal conseguisse permanecer em pé. Não ouse chorar, menino bonito. Nem uma única queixa. Você pode ter nascido de uma deusa, mas é neste mundo que vive, e aqui nós não mimamos menininhos bonitos como você. Ele se lembrava do olhar de ódio no rosto do pai, quando ele o derrubava no chão e mantinha seu pescoço preso em um golpe sufocante.
Sasuke chutava e lutava, mas, aos 14 anos, era jovem e inexperiente demais para soltar-se dos braços do comandante. Com o rosto contorcido pelo desprezo, seu pai tinha arrastado a adaga por sua face, cortando-a. Tudo porque tinha surpreendido a esposa fitando Sasuke durante a refeição. Vamos ver se ela o desejará agora. A dor pulsante do corte fora insuportável, o sangue escorrera por seu rosto pelo restante do dia. Na manhã seguinte, a ferida desvanecera sem deixar vestígios. A fúria do pai fora incomensurável.
– Sasuke?
Sobressaltou-se ao ouvir uma voz que não escutava havia mais de dois mil anos. Olhou ao redor, mas não viu nada. Incerto quanto a ter escutado algo, indagou baixinho: – Atena?
Ela se materializou à sua frente. Embora as roupas fossem modernas, ela tinha os cabelos presos em estilo grego, no alto da cabeça, com madeixas caindo sobre os ombros. Os olhos azuis eram gentis quando ela sorriu.
– Vim em nome da sua mãe.
– Ela ainda não consegue me encarar?
Atena desviou o olhar. Sasuke sentiu vontade de rir. Por que ele ainda se incomodava em ter esperanças de que a mãe quisesse vê-lo? Já deveria estar acostumado. Atena passou o dedo por uma das madeixas escuras, ao observá-lo com um estranho olhar que revelava certa tristeza.
– Você precisa saber que eu o teria ajudado se soubesse o que aconteceu. Você era meu general preferido.
De súbito, ele compreendeu o que lhe acontecera tantos séculos atrás.
– Você me manipulou contra Príapo, não foi?
Ele viu a culpa refletida em seu rosto um instante antes de Atena ocultá-la.
– O que está feito, está feito.
Com os lábios torcendo de raiva, ele a encarou. – É mesmo? Por que você me enviou para aquela batalha se sabia que Príapo me odiava?
– Porque eu sabia que você podia vencer, e eu odiava os romanos. Você era o único general que eu tinha que poderia derrotar Lívio, o que você fez. Nunca tive tanto orgulho de você quanto no momento em que o decapitou.
A amargura dominou-o. Não conseguia acreditar no que escutava.
– Agora você me diz que está orgulhosa?
Ela ignorou suas palavras. – Sua mãe e eu falamos com Cloto a seu favor.
Sasuke deteve-se ao ouvir aquilo. Cloto era a Parca encarregada pelas vidas. A fiandeira dos destinos.
– E?
– Se conseguir romper a maldição, poderá retornar para a Macedônia, para o mesmo dia em que foi preso no pergaminho.
– Eu posso voltar? – ele repetiu, incrédulo.
– Mas não poderá mais lutar. Se fizer isso, mudará a história. Se o mandarmos de volta, terá que jurar recolher-se à sua aldeia.
Havia sempre uma armadilha. Ele deveria saber disso, em vez de pensar, mesmo por um instante, que elas o ajudariam.
– Para quê?
– Você estará em sua própria época. Em um mundo que conhece. – Olhou ao redor. – Ou pode ficar aqui, se preferir. A escolha é sua.
Sasuke bufou. – Que escolha!
– Melhor isso do que não ter nenhuma.
Era mesmo? Ele não tinha mais certeza. – E meus filhos? – ele perguntou, pedindo que sua família lhe restituísse as únicas duas pessoas que tinham significado algo para ele.
– Você sabe que não podemos desfazer isso.
Ele a amaldiçoou. Os deuses apenas tomavam dele. Nunca lhe tinham dado nada. Atena tocou-o de leve no rosto.
– Escolha com sabedoria – ela sussurrou, e então sumiu.
– Sasuke? Com quem você está falando?
Ele piscou quando Sakura parou na porta. – Com ninguém. Apenas comigo mesmo.
– Oh! – Ela aceitou a mentira sem questionar. – Estava pensando em levá-lo de novo ao bairro francês hoje à tarde. Podemos visitar o aquário. O que acha?
– Claro – ele respondeu, saindo do banheiro.
Sakura franziu a testa, mas não falou mais nada enquanto se dirigia às escadas.
Sasuke foi ao quarto trocar de roupa. Enquanto punha a calça, avistou as fotografias de Sakura sobre a cômoda. Ela parecia tão feliz na infância. Tão livre. Apreciava particularmente a foto em que a mãe passava o braço pelo pescoço de Sakura, enquanto ambas riam. Naquele momento, soube a verdade. Não importava o quanto desejasse que fosse diferente, nunca poderia ficar ali com Sakura. Ela mesma dissera isso na noite em que ele surgira. Ela tinha a própria vida, que não o incluía. Não, ela não precisava de alguém como ele. Alguém que apenas atrairia atenção indesejada dos deuses sobre ela. Venceria a maldição e aceitaria a oferta de Atena.
Não pertencia àquele lugar. Pertencia à Macedônia antiga. E sozinho
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